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segunda-feira, 15 de julho de 2019

As ondas da modernidade - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires


Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 16 de Fevereiro de 2019 e pode ser ouvida aqui






As ondas da modernidade

Os espaços públicos na proximidade do mar têm valor em si mesmo. Ou melhor, os espaços naturais não necessitam de adereços para serem atrativos, o seu valor é inerente à sua condição. Há quem prefira a proximidade do mar e há quem prefira passear pelos matizes de verde.
Venha dai comigo hoje. Vamos até à beira mar.
Procuramos a praia para usufruir de um banho de mar, de um pouco de Sol, de uma esplanada pela manhã, ao fim da tarde, à noite.
O encanto da beira-mar reside no que é natural, mormente, nos sons.
Como muitos outros cidadãos procuro junto ao mar alguns momentos de serenidade e de fruição do que a natureza tem para oferecer, e, diga-se que por estas latitudes ela foi bem pródiga.
Há algum tempo um visitante expressava todo o encantamento que sentiu, após uns dias de estadia nos Açores, desta forma singela: - “Deus passou por aqui”. Esta expressão diz bem como os Açores foram bafejados por um património natural invejável e singular.
Um destes dias fui à procura do sossego do fim de tarde num espaço público junto ao mar. Como companhia um livro e determinado com o enorme desejo de fruir da luz aprazível do crepúsculo, da suavidade do marulhar das ondas espraiando-se de encontro à ilha.
Ia preparado para outros sons, sons de conversas sussurradas a entrecortar as toadas do entardecer de um dia de Verão.

Foto by Aníbal C. Pires
Não ia era preparado para os ruídos que brotavam de um equipamento de difusão de música instalado naquele espaço que, julgava eu, não necessitaria mais do que a sua própria e privilegiada localização para atrair pessoas (clientes).
Olhei ao redor e não me pareceu, na expressão de quem por ali estava, que a “música” que nos era oferecida fosse do agrado de alguém, não pela “música” em si mesmo, mas por que “aquilo” estava a mais e feria de morte os naturais ruídos de um fim de tarde à beira mar.
As ondas da modernidade bacoca que varrem a Região aculturam as gentes, moldam os comportamentos e deformam a paisagem da qual os sons também são parte.
Mas isto sou eu que digo, que costumo remar contra a maré.
Não é fácil, mas eu continuo a insistir que pode ser diferente, muito diferente, e, sobretudo, um permanente desafio do qual não penso abdicar. É porque é muito mais interessante.
Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Fevereiro de 2019

sábado, 8 de junho de 2019

Um arquipélago dentro da ilha: os Açores em Santa Catarina - crónicas radiofónicas

Imagem retirada da internet



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 9 de Fevereiro de 2019 e pode ser ouvida aqui







Um arquipélago dentro da ilha – os Açores em Santa Catarina

Imagem retirada da internet
Os migrantes carregam na sua bagagem imaterial a cultura e tradições da sua origem. Nos percursos migratórios vão assimilando outras culturas, outras formas de ver o Mundo, mas tendo sempre como referencial a sua matriz cultural que procuram recriar nos lugares onde se fixam.
Entrar em algumas das Casas dos Açores espalhadas pelas Américas do Norte e do Sul é como viajar no tempo e no espaço, e retornar à origem.
As primeiras gerações de imigrantes, em particular os homens, têm tendência a recriar os espaços e os hábitos do seu território de origem, ou seja, a cristalizarem a sua matriz cultural e a estabelecer uma barreira à influência da cultura, ou culturas, que coexistem nos lugares de acolhimento. De uma forma mais ou menos consciente esta atitude de recusa da assimilação relaciona-se diretamente com a ideia do regresso, que nem sempre acontece, mas também com a procura de equilíbrios que lhes permitam suavizar a saudade.
O tempo encarrega-se de romper barreiras e a miscigenação cultural, naturalmente, acontece. As festas do Divino Espírito Santo, quer na América do Norte, quer no Brasil, foram-se apropriando de outros elementos culturais. Mantendo a matriz original recriaram-se e adaptaram-se aos territórios de acolhimento. Também no território de origem se registam alterações aos ancestrais rituais sem que essas mudanças alterem a génese e objeto da celebração e da devoção do Divino.

Imagem retirada da internet
As migrações açorianas estão recheadas de estórias que são parte da nossa história, mas são os sinais da cultura açoriana, que se manifestam nas mais diversas geografias, e que têm sido objeto da atenção de académicos e de mote para a criação artística a que me quero referir nesta breve conversa de hoje.
Na ilha de Santa Catarina, no Sul do Brasil, a presença de açorianos e dos seus descendentes data de há mais de 2 centenas e meia de anos. As marcas e símbolos da sua presença encontram-se na arquitetura, culinária, tradições, lendas, histórias, modo de falar, religião, de entre outras manifestações culturais que viajaram com os casais açorianos que povoaram Santa Catarina a partir dos meados do século XVIII.
As localidades de Santo António de Lisboa, Lagoa da Conceição e o Ribeirão da Ilha são das mais antigas da ilha de Santa Catarina e onde as marcas do povoamento açoriano serão mais evidentes.
E foi na Costa da Lagoa da Conceição, um dos redutos catarinenses dos descendentes açorianos, que foi rodado o filme “A Antropóloga”, do cineasta Zeca Nunes Pires. Não sei qual a ligação de Zeca Pires aos Açores, mas para um catarinense as marcas e símbolos de origem açoriana não serão, de todo, indiferentes.

Zeca Pires (imagem retirada da internet
Não se poderá dizer que a temática e a trama do filme seja açoriana, mas em boa verdade é sobre os aspetos mágico-religiosos da cultura açoriana transmutados para outras geografias que trata esta história de uma investigadora que vai para a Costa da Lagoa e da sua relação com a comunidade local. Não sendo, como já disse, um filme de temática açoriana, as referências aos Açores são uma constante. O filme abre com imagens de arquivo da erupção dos Capelinhos, e, a primeira cena decorre num espaço tipicamente açoriano. A linguagem e as constantes referências aos Açores acompanham toda a estória desta cientista que se envolve, talvez mais profundamente do que desejaria, com alguns aspetos místicos da cultura popular da Costa da Lagoa, na Ilha de Santa Catarina, mas que têm a sua génese nas crenças e sabedoria popular açoriana.
A “Antropóloga”, ao que sei, nunca passou nas salas de cinema, nem nos cineclubes açorianos, embora, ao que me informaram tenha tido algum apoio do Governo Regional, através da Direção Regional das Comunidades. Mas, no fundo, nem é disso que se trata: retorno do investimento público à produção cultural. Em boa verdade trata-se de conhecer um produto cultural produzido no sul do Brasil cuja inspiração está ancorada nos costumes ancestrais do povo açoriano.
Fica o desafio para que o filme e o cineasta possam vir aos Açores no quadro das pontes que se têm construído entre a Região e as comunidades da nossa diáspora e que se destinam à circulação, nos dois sentidos, dos produtos culturais de inspiração açoriana.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 09 de Fevereiro de 2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Com tempo e atento - crónicas radiofónicas

Foto by Madalena Pires





Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 2 de Fevereiro de 2019 e pode ser ouvida aqui









Com tempo e atento

Foto by Aníbal C. Pires
Tenho por hábito diário, nem sempre à mesma hora, percorrer os títulos noticiosos e, em função dos meus interesses pessoais, mas também para perceber o que se vai dizendo, pensando e fazendo por esse Mundo fora, mergulho nos textos que dão corpo às manchetes. Procuro estar o melhor informado que posso, tarefa aparentemente fácil, mas não é, só parece.
A quantidade de lixo informativo é imensa e não provém apenas das redes sociais, a comunicação social instituída e que a maioria dos cidadãos tem como referência é, igualmente, responsável por muito do lixo informativo impresso, mas também difundido pelas rádios e televisões, bem assim como pelo recurso às plataformas digitais disponíveis que servem, também de suporte, às redes sociais. Ou seja, para estar informado, bem informado é preciso despender tempo e, sobretudo, estar atento.
Não estou a exagerar. A difusão de informação confere poder à comunicação social de massas. Poder que nem sempre é utilizado para informar, aliás é-o quase sempre para formar e modelar as consciências. Porquê, Pois bem, porque o poder da comunicação social, mesmo o setor público, está submetido aos interesses do poder económico e financeiro. Poder a quem interessa ter uma mole imensa de cidadãos a pensar e a consumir dentro de parâmetros pré-estabelecidos e que servem para beneficiar o tal poder económico e financeiro.
Se argumentar que no setor público não será bem assim, não vou contra-argumentar, embora não esteja seguro de que o não seja, por outro lado dir-me-á que o setor público está liberto das imposições do mercado e não existe motivo para que a informação e os conteúdos produzidos sejam condicionados a interesses alheios ao interesse público. E eu direi, Assim deveria ser, mas não é o que realidade nos demonstra diariamente. De facto, e, ao invés do que seria desejável e expetável, os critérios editoriais e os conteúdos pouco, ou nada, se diferenciam das abordagens feitas pelo setor privado, claro que estou a referir-me, em particular, à radio e à televisão, mas não só.

Imagem retirada da internet
Com a massificação do acesso à internet e, por conseguinte, à utilização de diferentes redes sociais e plataformas de comunicação tem vindo a colocar-se aos jornais, às rádios e às televisões novos desafios. Um desses desafios tem sido o de encontrar um espaço que até há bem pouco tempo era um exclusivo seu. Desafio que em Portugal está longe de ter tido, em minha opinião, as respostas adequadas pois, o que se constata é uma tentativa de acompanhar o imediatismo da difusão de informação ao ritmo e com a superficialidade que carateriza e populariza as redes sociais. Não me aprece ser esse o melhor caminho para a sobrevivência da informação impressa e da informação audiovisual, digamos, da informação tradicional. Esta é apenas uma opinião, a minha opinião. Opinião que fui construindo com base na necessidade de me manter informado e na procura de fontes alternativas de informação.
A opinião constrói-se com base na informação disponível, mas também da forma como a conseguimos descodificar e entender. E, o que não falta por aí é manipulação da informação com base no pressuposto que a generalização da estupidificação já foi conseguida. E, em boa parte esse objetivo, dos “donos disto tudo”, já foi conseguido com o beneplácito do poder político que lhe é submisso.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 02 de Fevereiro de 2019

sábado, 13 de abril de 2019

O negócio dos resíduos e a Educação Ambiental - crónicas radiofónicas

Imagem retirada da internet


Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 26 de Janeiro de 2019 e pode ser ouvida aqui











O negócio dos resíduos e a Educação Ambiental

Imagem retirada da internet
A tomada de consciência ambiental e o aparecimento de movimentos ambientalistas não sendo fenómenos novos, mas também não são assim tão recentes quanto se possa pensar.
Claro que tudo é relativo. Para um jovem adolescente é uma questão com a qual convive desde sempre, para quem nasceu no terceiro quartel do século XX e até chegar à idade adulta cresceu a acompanhar aparecimento dos primeiros movimentos de defesa do ambiente e a despertar para os problemas ambientais.
Claro que se se recuarmos na história da humanidade podemos encontrar várias referências à importância dos necessários equilíbrios entre as atividades antrópicas e o meio ambiente. Por exemplo, S. Francisco de Assis (Século XIII) enfatizou na sua obra o necessário respeito da vivência do homem com as outras criaturas da natureza.
Mas só a partir dos anos 50 e 60 do século XX é que a tomada de consciência ambiental e os movimentos ambientalistas ganharam dimensão, embora sobre a tomada de consciência ambiental ainda haja um longo caminho a percorrer e, por vezes, temos vindo a assistir a alguns retrocessos. Talvez porque os interesses económicos assim o desejam.
Nem sequer me vou referir ao negacionismo às alterações climáticas que procuram, no essencial, manter tudo como está e evitar o desenvolvimento de novas tecnologias para a rentabilização de energias alternativas aos combustíveis fósseis.
Mas em nome da defesa do ambiente também se cometem erros, como seja por exemplo a substituição da floresta tropical para o plantio de palmares que alimentam a indústria do biodiesel feito a partir de óleo de palma, ou como seja a solução encontrada para o tratamento de resíduos por incineração, designação que os seus defensores detestam e, chamam-lhe pomposamente “Centrais de Valorização Energética”.

Imagem retirada da internet
Apesar da tecnologia da incineração ter evoluído significativamente, ou seja, as emissões para a atmosfera são, ao que nos dizem, livres de toxinas. Questão que não coloco em causa, mas as partículas tóxicas, se não são expelidas para a atmosfera, em algum lugar ficam de onde decorre a necessidade de as depositar por aí, algures.
Uma das vertentes da educação ambiental que está diretamente relacionada com os resíduos, designadamente, os domésticos é conhecida pela política do 3 R. Reduzir, Reutilizar e Reciclar, a ordem é esta e, não é por acaso. Esta hierarquia relaciona-se com a importância de cada uma das ações que os R significam. Eu diria até que o R de Reduzir devia ser elevado à enésima potência, e que o segundo R, o R de Reutilizar, deveria ser elevado, pelo menos, à enésima potência – 1, sendo que se isto fosse assim, o terceiro R, o R de Reciclar deixaria de ter grande expressão ou seja, teria um valor sem grande significado e, certamente, não seria suficiente para alimentar uma incineradora, ou como preferem os indefetíveis defensores deste método de tratamento de resíduos, uma Central de Valorização Energética.
Se o investimento feito ao longo de dezenas de anos na formação da política dos 3 R produziu importantes avanços, em particular no que ao R de Reciclar diz respeito, com a introdução generalizada dos chamados ecopontos, sejam domésticos ou coletivos, o que não terá sido por acaso pois, o tratamento de resíduos tornou-se um negócio apetecível, em particular a reciclagem. Ou seja, a hierarquia do 3 R foi invertida, não se reduziu, pouco se reutiliza e a reciclagem aumentou. Por outro lado, sendo os resíduos a matéria prima utilizada nas incineradoras, ou Centrais de Valorização Energética, são necessários cada vez mais resíduos para que o seu funcionamento possa manter-se de forma continuada.
Em última análise, diria que o primeiro e mais importante dos 3 R está a ser sacrificado por necessidade de uma grande quantidade de matéria prima, resíduos para queimar nas incineradoras.
E assim se desperdiçam na pira das incineradoras anos e anos de uma das mais importantes componentes da Educação Ambiental.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 26 de Janeiro de 2019

sábado, 6 de abril de 2019

Os usos do tempo - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2018)







Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 12 de Janeiro de 2019 e pode ser ouvida aqui










Os usos do tempo

Foto by Aníbal C. Pires (S. Roque, Ponta Delgada)
Não é tanto a meteorologia que me interessa, embora o estado do tempo tenha, naturalmente, importância sobre a forma como utilizamos o nosso tempo.
Não tenho por objetivo deixar qualquer indicação sobre o uso que devemos dar ao tempo conforme o estado do tempo. Embora o tempo seja o tema sobre o qual mais tenho refletido e escrito.
O tempo esgota-se, mas não a vontade de falar sobre ele.
Não lhe consigo fugir, também não faço esforço para isso, e à medida que vou acumulando tempo esse interesse aumenta, desde logo, por que se trata de um acréscimo patrimonial com tudo o que isso representa de conhecimento, maturidade e, porque não, sabedoria, mas também pela valorização do tempo e dos usos que lhe dou.
O dia continua a ter 24 horas e as horas, 60 minutos, nem mais nem menos. É inexorável. Mas a perceção do tempo é variável. Há momentos na vida em que o tempo não sobra, há lugares que nos consomem o tempo e, até corremos atrás do tempo para ter o tempo que não temos. É um tempo sem tempo.
Outros momentos há em que o tempo se instala ao nosso lado e caminha connosco, e temos tempo até para falar do tempo perdido e do estado do tempo. É o tempo a dar tempo ao tempo.
Não sei, também não vou confirmar, se o direito ao tempo está consagrado na Carta dos Direitos Humanos, mas se não está deveria estar pois, o tempo é o nosso bem mais precioso.
Pode até parecer um exercício meio abstrato e pouco consistente, e não contesto. Mas preocupa-me a falta de tempo para refletir face à exigência de respostas e decisões céleres impostas pelas novas tecnologias de comunicação e informação.
Para tudo é necessário tempo, mas vivemos num tempo sem tempo.
O mediatismo e este imediatismo reinante é preocupante.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 12 de Janeiro de 2019

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Ao sabor dos tempos e das vontades - crónicas radiofónicas

Imagem retirada da internet


Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 05 de Janeiro de 2019 e pode ser ouvida aqui





Ao sabor dos tempos e das vontades

O Estado falhou. Esta, ou outras expressões com o mesmo sentido têm vindo a ser proficuamente utilizadas nos últimos meses.
O Presidente da República utilizou esta ou uma expressão semelhante, várias vezes, durante o ano de 2018. Rui Rio, o atual líder do PSD, também se socorreu da expressão durante o ano que agora findou.
Mas não foram apenas as personalidades políticas mais mediáticas que, à falta de outros argumentos, se limitaram a constatar, o óbvio. Também os jornalistas, os analistas, os politólogos e comentadores, todos têm vindo a constatar, que o Estado falha.
E eu concordo. Concordo e não é de agora. Julgo que em 2018 não terei utilizado a expressão publicamente, mas aqui aos microfones da 105 FM, mais precisamente a 19 de Outubro de 2017, expressei a minha opinião numa crónica a que chamei a “Falência do Estado”.
Mas não me fiquei pela constatação do facto, procurei, não só as causas, mas também os responsáveis pelo estado a que o Estado chegou.
E os responsáveis identificam-se com relativa facilidade, basta recuar um pouco no tempo para ligar a promoção e a execução da ideia do modelo político do “menos Estado, melhor Estado” a algumas personalidades políticas e aos seus acólitos que têm assento permanente nas corporações mediáticas, ditas de referência.

Imagem retirada da internet
E veja-se só, que estranha coincidência. Quem agora clama pelo Estado, não me refiro a personalidades, mas aos projetos políticos aos quais estão ligados, são os mesmos que até há bem pouco tempo consideravam que o Estado devia diminuir e deixar de intervir no mercado. E assim aconteceu. O Estado, pela mão do PS, do PSD e do CDS/PP, abriu mão das suas competências e entregou-as ao mercado e, veja-se, não é que o mercado falhou.
Para mim a questão é clara os falhanços devem-se à ausência do Estado, ou seja, o Estado, por opção e apoio de quem agora lhe atribui os fracassos, deixou de cumprir as funções que lhe estão constitucionalmente consagradas. O Estado português deixou de garantir dignidade, bem-estar e segurança ao seu povo. E deixou de o fazer pela deriva neoliberal que assolou e assola os representantes do Estado, isto é, os governos das últimas décadas.
Claro que as palavras, conforme os tempos e as vontades, têm significados políticos diferentes. A utilização pela direita política da expressão “O Estado falhou” tem, no atual contexto um objetivo e um destinatário. O objetivo é responsabilizar o atual governo por alguns eventos dramáticos que têm atingido o país e, naturalmente, o destinatário é o primeiro-ministro António Costa.
Mas porquê se o PS, no essencial, tem como projeto político o mesmo ideário que o PSD. Talvez por o PS ter um governo minoritário que foi formado e tem governado com base em acordos bilaterais com os partidos da esquerda parlamentar.
Não se trata do Estado, trata-se do Governo e, sobretudo, daqueles acordos bilaterais que foram feitos com a esquerda, e que tanto incomodam a direita.
Esse é um pecado que a direita não perdoa a António Costa, até porque a solução política encontrada em 2015 tem demonstrado que, outros caminhos que não o da austeridade são possíveis e desejáveis, mas também que não é necessária a existência de maiorias absolutas para que haja estabilidade política. O governo minoritário do PS, tudo leva a crer, chegará ao fim da legislatura. É a democracia e o diálogo político a funcionar.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 05 de Janeiro de 2019

quarta-feira, 20 de março de 2019

Novo ano, novo tempo - crónicas radiofónicas

foto by Aníbal C. Pires



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 29 de Dezembro de 2018 e pode ser ouvida aqui






Novo ano, novo tempo 

foto by Madalena Pires
Estamos a fechar o ano. Mas não vou fazer balanços nem premonições deixo esse encargo para os especialistas, embora tenha uma visão própria do ciclo temporal que se encerra por estes dias e pelo que se avizinha. Posso até, sem meter a foice em seara alheia, deixar expresso um sentimento que traduz a forma como termino o ano e me preparo para entrar em 2019. Preocupação, uma grande inquietação sobre o futuro próximo. E mais não direi porque não quero deixar-lhe sentimentos negativos neste limiar do Ano Novo, onde todas as esperanças se renovam.
Hoje, porque é a última crónica de 2018 fica uma reflexão em forma de poema com que, em 31 de Dezembro de 2013, tentei sintetizar aquele momento mágico da passagem do ano e que tem como título, “Novo ano, novo tempo”

É o tempo
De louvar o velho
É o tempo
De renovar a esperança
E o tempo, esse tempo
É hoje
Presente, passado e futuro
Enleados
Com o olhar no tempo vindouro 
Sem olvidar
O tempo passado 

Agora
É o tempo
Onde o passado, o presente e o futuro
Num fátuo momento se enlaçam
Para logo se apartarem
Efémero abraço esse, o do tempo
Passado, presente e futuro

Nesta fronteira do pretérito e do porvir
Celebremos o futuro
Com o passado presente”

Que 2019 seja, para si, um ano de realizações pessoais. Lute pelos seus sonhos. Feliz Ano Novo.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 29 de Dezembro de 2018

domingo, 10 de março de 2019

A noite mais longa - crónicas radiofónicas

foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2019)







Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 15 de Dezembro de 2018 e pode ser ouvida aqui













A noite mais longa

foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2019)
Hoje trago-lhe um texto que escrevi em Dezembro de 2016. Não é um escrito que marque a atualidade, mas julgo que é apropriado à data sendo pois, como poderá constatar é intemporal.
O texto foi publicado como crónica de opinião e diz assim:

O calendário natural assinala o Solstício de Inverno no hemisfério Norte, o calendário do mercado parasita o calendário cristão que, por sua vez, já se tinha apropriado dos ritos pagãos que os povos construíram ao longo de dezenas de milhares de anos. Os ciclos naturais foram sendo substituídos ao sabor de artificialismos, ou se preferirem de construções sociais que nos afastam inexoravelmente do que verdadeiramente deveríamos louvar e preservar, A mãe natureza e este planeta que é a nossa casa comum.
Comemoro o Solstício de Inverno, mas não deixo de festejar o Natal enquanto data que assinala a natalidade, afinal nada mais natural do que o nascimento de alguém, seja Jesus ou Maria de seu nome próprio.
O nascimento de um novo ser está ligado à família, não importa se formal ou informalmente constituída, família enquanto grupo de pessoas ligadas geneticamente ou, ainda por laços culturais e interesses comuns, digamos elementos do mesmo clã. E é nesta perspetiva que assinalo e festejo o Natal, como festa da família e dos amigos. O Natal é a festa da minha tribo.
Comemorar e festejar o Natal não é, para mim, sinónimo de adesão ao calendário do mercado, mas admito que tem uma ligação próxima à comemoração cristã do Natal, cresci no seio de uma comunidade católica e os costumes entranham-se. O que de algum modo justifica esta minha tácita aceitação do Natal enquanto época de reunião da família e de convívio com os amigos, trata-se de me reunir com a minha tribo e celebrar a vida, o amor e a amizade. Talvez por isso se tenha vulgarizado, e não por outros motivos, a expressão; “o Natal é quando um Homem quiser”. O calendário natural e, a vontade dos homens assim o determina, a celebração da vida, do amor e da amizade assim o exigem.

foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2019)
À noite mais longa do calendário solar sucede-se o aumento gradual da duração dos dias, é a vitória da luz sobre as trevas, é o Solstício de Inverno. Esta era a comemoração primordial, a comemoração pagã que assumia manifestações diversas, como diversos são os povos e diverso o entendimento e interpretação que cada grupo (tribo) tinha do calendário solar, ou seja, da influência que a posição relativa da Terra em relação ao Sol tem na vida dos homens.
Ficam os votos de Boas Festas e não deixem de celebrar a vida, o amor e a amizade, neste Solstício de Inverno, Neste Natal.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Dezembro de 2018

terça-feira, 5 de março de 2019

Inversão dos valores - crónicas radiofónicas

foto by Madalena Pires (Ponta Delgada, 2017)






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 15 de Dezembro de 2018 e pode ser ouvida aqui










Inversão dos valores

Foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2018)
Afinal tudo não passou de um mal-entendido. O PAN foi víti
ma de incúria jornalística por causa da PETA, não é peta é a PETA, ou seja, estou a utilizar o acrónimo de People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) e não a expressão popular para mentira.
Afinal aquela questão dos animais e dos provérbios teve origem na emissão de uma opinião que o PAN deu sobre uma posição ou iniciativa da PETA e que a comunicação social nacional terá entendido mal e difundido ainda pior, mas na verdade a posição do PAN é de acordo à pretensão da PETA.
Pelo menos foi o que consegui apurar ao ler o esclarecimento feito pelo PAN e que pode ser consultado no seu site.
Feita esta introdução que mais não pretende do que deixar claro que o PAN não tem, para já, em agenda qualquer iniciativa política que proponha a criminalização pela utilização de expressões como, por exemplo, “A cavalo dado não se olha o dente”, ou “Vozes de burro não chegam ao céu”, ou ainda outras expressões do adágio popular que referenciem animais.
Mas se este não passou de um mal-entendido que, por sinal, motivou uma onda de humor por todo o país, isso não significa que o PAN não se constitua como uma organização política que tem uma agenda complexa e obscura e que deve ser escrutinada pelos cidadãos, desde logo, por aqueles que em nome da proteção dos animais e da natureza lhe têm dado apoio eleitoral.
No PAN nem tudo é tão linear com pode parecer à primeira vista pois, a sua inspiração política está, quer o PAN queira, quer não, profundamente ligada ao pensamento de Adolf Hitler e dos seus mais próximos acólitos como pode confirmar se procurar informar-se sobre a proteção animal e do meio ambiente na Alemanha nazi, logo em 1933.

Foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2017)
Se costuma acompanhar estas crónicas lembra-se que não é a primeira vez que refiro esta temática, embora quando o fiz não tenha referido diretamente o PAN, nem as suas ligações ao IRA, ou seja, ao movimento Intervenção e Resgate Animal, que é assim como uma espécie de milícia do PAN.
Mas hoje não posso deixar de o fazer pois, o PAN é herdeiro de um pensamento que, em nome da proteção animal e da natureza, pretende impor um princípio que é, em si mesmo, antinatural. Os animais não são, de todo, iguais aos humanos. Não sou eu que o digo é a ciência e milhões de anos de evolução. Se esta diferença justifica maus tratos aos animais, Não. Mas vamos lá ter o bom senso de não impor, como já aconteceu, a criminalização dos humanos por atitudes que colocam em causa o bem-estar animal.
Ou seja, levado ao limite podemos ter humanos maltratados por referências e atos depreciativos sobre os animais. Ou assistir à inversão de valores como um conhecido caso em que uma ativista da proteção animal adotou um cão que matou uma criança. O animal não foi abatido pela morte da criança e como se isso não bastasse a sua adoção é apresentada como uma vitória da luta pela proteção animal.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Dezembro de 2018

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O custo da impreparação - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires







Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 08 de Dezembro de 2018 e pode ser ouvida aqui












O custo da impreparação

Miguel Sancho (foto retirada da internet)
Trago-lhe do novo a SATA, não pelo inquinado processo de alienação de 49% do capital social da Azores Airlines, nem pelo recente relatório da Comissão de Acompanhamento que nada relata que não fosse já do nosso conhecimento, mas por mais um daqueles erros que resultam da arrogância e autoritarismo de cidadãos impreparados para o exercício de cargos públicos e que, tendo o desfecho esperado, vai custar ao Grupo SATA, pelo menos, números redondos, 300 mil euros de indeminização a um trabalhador despedido indevidamente assim o disse, em última instância, o Supremo Tribunal de Justiça.
Disse pelo menos 300 mil euros pois, como é pressuposto todas as despesas processuais têm custo, e que, face ao tempo, aos recursos e demais trâmites, ao valor da indeminização ao piloto comandante devem ser adicionados mais alguns milhares de euros pelas custas judiciais e outras.
A forma como a SATA conduziu o processo de suspensão e despedimento do Comandante Miguel Sancho com base na interpelação de que foi alvo, dentro da aeronave que comandava, por um ex-administrador da SATA e que depois teve, por parte, do piloto comandante um comentário numa rede social, sem que ali tivesse referenciado quer a empresa quer o nome do então administrador, conforma um ato de persecução ao trabalhador.
E disso se tratou. Digamos que o Comandante Miguel Sancho ficou com o destino traçado na sequência do seu depoimento na Comissão de Inquérito do Grupo SATA. Houve quem não tenha gostado do que ouviu da boca do piloto comandante.
Certamente que se lembra e, assim sendo, julgo não ser necessário fazer nenhuma descrição dos factos. O que releva é mesmo a decisão que levou ao despedimento do Comandante Miguel Sancho e, sobretudo, quem tomou a decisão e quem lhe deu o aval.
E se as responsabilidades terão de ser assacadas ao Conselho de Administração da altura, devem-no ser, em particular, ao Presidente do Conselho de Administração, Dr. Luis Parreirão, e ao administrador que protagonizou o a interpelação ao piloto comandante dentro da aeronave, ou seja, o Eng. Francisco Gil, atualmente administrador da NAV.

Francisco Gil (foto retirada da internet)
Não sabia. Pois é, Ele há vidas assim.
Os mais de 300 mil euros que a SATA vai ter de pagar ao Comandante Miguel Sancho deveriam ser financiados pelos decisores e protagonistas de mais este triste caso de má gestão no Grupo SATA. Mas não será assim. O custo dos desmandos e da impreparação de quem, à época, estava à frente dos destinos do Grupo SATA vão engrossar a dívida desta empresa pública. E com isto pagamos todos nós, com juros. Pois está claro.
Gostava, mas gostava mesmo, de poder falar consigo da SATA sobre outras razões que não estas que evidenciam a má gestão e que, como deve calcular, afetam toda a estrutura organizacional das empresas do grupo e acabam por se refletir na qualidade do serviço prestado.
Gostava, mas não tem sido possível nem se configura no horizonte próximo que isso venha a acontecer. Mas acredito que é possível. É possível que um dia a SATA possa voltar a ser notícia pela qualidade do serviço e por canalizar fluxos financeiros para a Região. Nada que não tivesse já sido a imagem na Região, no País e no Mundo, não muito distante no tempo pretérito, deste Grupo empresarial público.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 08 de Dezembro de 2018

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ganhou quem não desiste - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires
Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 01 de Dezembro de 2018 e pode ser ouvida aqui








Ganhou quem não desiste 

Foto by Aníbal C. Pires
Esta semana o parlamento açoriano aprovou o Orçamento e o Plano para 2019. Estes documentos sendo propostos pelo Governo de Vasco Cordeiro foram, porém, objeto de algumas alterações que resultaram de entendimentos partidários e que depois tiveram a natural tradução parlamentar.
Algumas destas modificações vão ter impacto direto na melhoria do rendimento das famílias e são, na generalidade, positivas. Não vou enumerá-las, pois, penso que são do seu conhecimento e, por outro lado, quero centrar esta nossa conversa no anúncio feito pelo Presidente do Governo Regional, no discurso de encerramento do debate na generalidade, que se comprometeu a encontrar com os sindicatos uma solução regional para o reposicionamento dos educadores e professores na carreira docente, alguns dos contornos foram mesmo enunciados por Vasco Cordeiro e, ao que julgo, deixaram os docentes satisfeitos com a solução proposta.
Mas, ainda antes disso, sempre gostaria de lhe dizer que o acolhimento das propostas da oposição, para além de serem um indicador da importância da instituição parlamentar, não modificaram a natureza e matriz política das propostas iniciais, nem isso seria expetável. Mas, ao contrário do que vinha a passar-se nesta legislatura, este ano o diálogo democrático foi cultivado e colheram-se alguns frutos, os possíveis, desse exercício que deve ser permanente.

Foto by Anibal C. Pires
Os educadores e professores dos Açores ganharam a luta pelo reposicionamento na carreira. Que não restem dúvidas, Sem a luta e a mobilização dos docentes o governo de Vasco Cordeiro continuaria, por mais algum tempo, a ater-se ao contexto político e à indefinição do Governo da República e a luta dos educadores e professores teria de continuar, ainda que, com contornos e em moldes diferentes.
Mas, e para que o passado recente não caia no esquecimento, é bom que se diga que durante este processo político houve quem soubesse ler e interpretar os sinais e conduzisse a luta em função dos interesses dos educadores e professores, com a consciência de que logo após a conclusão dos processos de discussão e aprovação dos orçamentos de Estado e da Região, de 2019, teriam lugar desenvolvimentos, designadamente nos Açores.
Houve quem pacientemente ouvisse os mais disparatados radicalismos, no auge de uma luta que o SPRA, sem nunca desarmar, conduziu com uma resiliência que alguns julgaram não ser possível, porque este sindicato tinha e tem uma agenda política e sindical ancorada na vontade e no querer dos educadores e professores e mantém-se ao seu lado sem nunca deixar cair os braços.
Outros, porém, têm agendas políticas, mas que não são sindicais, são agendas partidárias e, como tal, esgotam-se com o tempo e a conveniência, após concluída a greve às avaliações essa organização, “digamos”, sindical abandonou o discurso radical e, ao contrário do SPRA, quedou-se pela inércia, ou seja, saiu de cena.
Mas também aos grupos “inorgânicos”, de professores desligados dos sindicatos se lhes apagou o fulgor, logo após o fim da greve às avaliações. Faltou-lhes o que diferencia um sindicato de um grupo que, por não estar organizado, é mais permeável à manipulação por interesses exógenos aos seus. Não tenho dúvidas da entrega e da autenticidade de muitos docentes que aderiram às lutas e mobilizações que surgiam como se fossem de geração espontânea, mas é bom que se perceba de uma vez por todas que, nestes casos, a espontaneidade só parece que é. E na verdade é, Um mito.
Claro que agora perante o anúncio feito pelo Presidente do Governo Regional vão todos despertar do torpor onde estiveram mergulhados, mas já não vão a tempo.
Os educadores e professores da Região Autónoma dos Açores com o SPRA a liderar uma luta limpa com objetivos e timings bem definidos, e construídos coletivamente, já ganharam esta luta.
Foi um prazer estar consigo.

Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.
Até lá, fique bem.

Aníbal C. Pires, Funchal, 01 de Dezembro de 2018

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O novo afinal é velho - crónicas radiofónicas

imagem retirada da internet



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 24 de Novembro de 2018 e pode ser ouvida aqui







O novo afinal é velho


Imagem retirada da internet
Estamos mais ou menos habituados à consonância de posições do PSD Açores com o Professor Mário Fortuna, salvo uma ou outra vez em que o anterior líder do PSD Açores, e, ao que se diz por aí, mentor do atual, teve de vir a terreiro esclarecer as diferenças de posição entre o representante dos empresários açorianos e a posição do PSD, ou a sua, vá-se lá saber.
Mas desta vez a harmonia no discurso é perfeita, pelo menos no que diz respeito à solução proposta pela Câmara do Comércio, pela voz de Mário Fortuna, e à sua subscrição acrítica por Alexandre Gaudêncio.
Pois é. O PSD Açores, ou pelo menos o seu líder, considera, ao contrário do que sempre foi afirmado pelo seu partido, alienação de menos de metade do seu capital social, que a solução para a SATA afinal passa pela privatização da maioria do capital público da Azores Airlines, pelo menos 51% e pela alienação de 49% da Sata Air Açores.

Foto by Aníbal C. Pires
Se a posição expressa por Mário Fortuna não me causa nenhuma perplexidade, afinal o Professor é um fiel devoto do mercado e, um mentor e difusor da teologia que lhe está subjacente, já a posição de Alexandre Gaudêncio ao assumir como compromisso a proposta de Mário Fortuna demonstrou, por um lado, falta de maturidade política, o que pode ser explicado pela idade, mas por outro um desconhecimento da realidade regional e da importância da SATA para os Açores e para os açorianos, o que é, em minha opinião, grave, muito grave, para alguém que lidera um partido que se assume como alternância, não como alternativa, ao PS.
Julgo que Alexandre Gaudêncio já terá percebido que as suas afirmações não lhe mereceram os apoios esperados, aliás este discurso da privatização da SATA, em particular da SATA Air Açores não colhe apoios significativos em nenhuma das ilhas, nem mesmo em S. Miguel.
Julgo até que o atual líder do PSD Açores está neste momento a desdobrar-se em explicações e justificações para apaziguar as suas hostes um pouco por toda a Região.
Bem, mas este é um problema que o PSD e o seu líder resolverão e, não me custa a crer que numa próxima oportunidade, Alexandre Gaudêncio venha emendar a mão e recuar para a antiga posição do PSD Açores. Se por acaso assim não acontecer, então estamos perante um adepto da doutrina neoliberal, o que é o mesmo que dizer que o novo afinal, é velho, mais velho ainda que o seu antecessor.
Mas mais importante que o PSD, são os Açores que para o melhor e para o pior têm 9 ilhas pulverizadas numa vasta área oceânica e que necessitam de uma transportadora aérea pública para assegurar as ligações aéreas internas e externas, seja com o continente português, seja com a diáspora, mesmo sabendo que parte das ligações com o exterior é também assegurada por outras transportadoras aéreas, algumas delas privadas. O que não podemos deixar que nos aconteça é ficarmos dependentes de outros. Quer queiramos, quer não, a SATA é um património autonómico que como qualquer outro do adquirido autonómico deve ser salvaguardado.
Se isto é sinónimo de que tudo, no Grupo SATA, deve ficar como está, Não. Aliás não pode ficar como está sob pena de um destes dias ser irrecuperável.
Se a solução para as maleitas da SATA é a sua privatização, seja em que percentagem for, Não.
A solução passa por uma alteração profunda do seu modelo organizacional, pela redução da despesa com atividades que não têm uma função operacional, pela identificação e eliminação de poderes internos e externos que contrariam qualquer tentativa de gestão comercial bem sucedida, mas passa, sobretudo, e no imediato pela necessidade urgente de a recapitalizar. Coisa que não é possível através da sua privatização. Basta ver o caderno de encargos do concurso recentemente anulado para perceber que a privatização não tem, nem nunca teve, como objetivo a sua capitalização.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 24 de Novembro de 2018

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Os (IRA)dos - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2017)






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 17 de Novembro de 2018 e pode ser ouvida aqui









Os (IRA)dos

Foto by Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017)
Hoje trago-lhe um assunto que não é de fácil abordagem, mas que merece alguma atenção e reflexão pelo significado que tem e, sobretudo, pelos fenómenos que está a criar em Portugal e no Mundo.
Trata-se da proteção dos animais e de alguns grupos de pressão organizados, até num partido político com assento parlamentar na Assembleia da República, cuja agenda política gira e se alimenta à volta dos direitos e do bem-estar animal.
Causa que, não sendo da nossa contemporaneidade, pois, no limiar do século XIX a Inglaterra tinha aprovado algumas leis de proteção dos animais, ganhou nos últimos anos pela tomada de consciência ambiental e humanista apoios crescentes significativos.
Antes de mais, e para que não surjam dúvidas ao longo desta nossa conversa, reafirmo a minha posição de total concordância com o articulado da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, Documento de caráter normativo e que foi proclamado e promulgado pela UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 27 de Janeiro de 1978.
Esta declaração de princípios destina-se aos ouvintes menos atentos pois, quem acompanha a vida política regional sabe que fui autor, enquanto deputado do PCP na ALRAA, do articulado original do diploma que proíbe o abate de animais errantes e de companhia.
Para quem quiser informar-se sobre a sua tramitação pode sempre consultar a base de dados da ALRAA, ou se apenas quiser conhecer o seu conteúdo pode procurar no Jornal Oficial o Decreto Legislativo Regional n.º 12 /2016/A, de 8 de Julho.
As notícias vindas a público, mesmo com as reservas que tenho sob a forma como foram tratadas jornalisticamente, colocam algumas apreensões às quais devemos dar atenção pois configuram um modus operandi e uma linguagem que nos fazem lembrar os grupos neonazis que proliferam como cogumelos por todo o Mundo.

Foto by Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2018)
E este fenómeno é tanto mais preocupante quanto sabemos que na primeira metade do Século XX a Alemanha de Hitler, logo após a chegada ao poder em 1933, fez aprovar um conjunto de leis de proteção dos animais que, eventualmente alguns desses militantes (IRA)dos, gostariam de ver em vigor no nosso país e no Mundo.
Como, por exemplo a execução, por fuzilamento, de quem infligisse a morte a um animal por maus tratos. As leis de proteção aos animais atualmente na Alemanha, expurgadas dos excessos da criminalização e da penalização, são nos seus princípios as que foram criadas por Hitler.
Se posso e devo apoiar e defender os direitos dos animais e o seu bem-estar, não posso, porém, esquecer-me de que quem produziu, digamos, a legislação mais avançada para a proteção dos animais tivesse sido responsável por milhões de mortes, quer nos campos de batalha da II Guerra Mundial, quer nos campos de concentração.
Não pretendo rotular ninguém, mas por vezes é bom ir à história para perceber o presente.
Mas no presente existem, para além da questão ideológica, porque o era durante a chancelaria de Hitler e depois com o III Reich, outras questões mais pragmáticas e que se prendem com o negócio que gira à volta dos animais de estimação.
Eu já o fiz publicamente, mas ainda não dei conta de nenhum ativista da defesa dos direitos e do bem-estar animal propor a proibição da venda de animais de estimação e companhia enquanto nos canis e gatis municipais houver animais para adoção. Pois é. Talvez este princípio, a vir a ser adotado com força de lei, fosse um grande contributo para a proteção e o bem-estar animal.
Mau para o negócio. Bom para os animais. 

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Novembro de 2018

sábado, 26 de janeiro de 2019

Um olhar sobre as eleições nos EUA - crónicas radiofónicas

Imagem retirada da Internet


Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 10 de Novembro de 2018 e pode ser ouvida aqui




Um olhar sobre as eleições nos EUA

Imagem retirada da Internet
As eleições para a Câmara dos Representantes e para o Senado dos Estados Unidos, ainda que com resultados diferentes, constituem-se como um revés para Donald Trump e colocam em causa a concretização de algumas medidas políticas da atual administração federal contestadas interna e externamente.
As análises das publicações alinhadas com o mainstream oscilam, entre a derrota de tudo o que Donald Trump representa e, os perigos que estes resultados eleitorais podem configurar para a economia estado-unidense.
Estas análises variam consoante o alinhamento, ou não, com Donald Trump. Por outro lado, se é certo que os Democratas ganharam a Câmara dos Representantes, os Republicanos detêm a maioria no Senado o que significa que, nem Donald Trump tem razão quando afirma que o seu partido obteve um enorme sucesso, nem os Democratas poderão afirmar que tudo lhes correu de feição. Uma coisa é certa nestas eleições verificou-se uma tendência, evidenciada nos resultados, de reprovação às políticas da atual administração Trump, num quadro de aumento da participação eleitoral, mas também a chegada à Câmara dos Representantes de duas candidatas dos Democratas Socialistas da América, o que deixou o Partido Democrata algo incomodado, embora estas candidaturas tivessem a sua chancela.
Mas estas eleições nos Estados Unidos têm outros aspetos, na minha opinião, bem mais interessantes. Um número recorde de jovens e mulheres foram eleitos, sendo que pela primeira vez foram eleitas duas mulheres nativas e duas mulheres muçulmanas, também os mais jovens eleitos, para a Câmara dos Representantes, são mulheres.
Mas se estes aspetos são importantes e significam que alguns segmentos dos eleitores estado-unidenses estão alinhados com valores e princípios que os coloca nas antípodas do pensamento e ação política do Presidente Donald Trump, e, seguramente, à esquerda do Partido Democrata. A novidade é mesmo a eleição de membros dos Democratas Socialistas da América aspeto que traduz, digo eu, o descontentamento, de um crescente segmento do eleitorado estado-unidense, face à falência do capitalismo, mas também ao conservadorismo do Partido Democrata.


Imagem retirada da Internet
As candidaturas dos membros dos Democratas Socialistas da América foram legitimadas no interior do Partido Democrata, facto que causou e causa algum incómodo entre os Democratas instalados e alinhados com o sistema. Alexandria Ocasio-Cortez é o rosto que maior visibilidade dá aos Democratas Socialistas da América e foi eleita para a Câmara dos Representantes, por um dos distritos eleitorais de Nova Iorque. Mas também pelo Michigan uma outra candidata dos Democratas Socialistas da América conseguiu a sua eleição.
Também ao nível estadual e local os Democratas Socialistas da América têm vindo a eleger vários candidatos, derrotando alguns dos tradicionais e esperados vencedores.
A candidatura de Bernie Sanders às primárias presidenciais de 2016, terá potenciado o crescimento do movimento político dos Democratas Socialistas da América, de 7 mil em 2016 para os atuais 44 mil. Um outro aspeto interessante é a crescente simpatia entre os mais novos, pelo socialismo, ainda que, e para que não haja confusões, o conceito de socialismo seja aqui algo difuso, contudo não deixa de ser interessante que no intervalo dos 18 aos 29 anos, mais de 50% prefira o socialismo ao capitalismo, segundo uma pesquisa realizada em 2017 nos Estados Unidos.
Tenho consciência de que neste sábado tinha preferido um outro tema, mas a importância das eleições nos Estados Unidos e estes sinais de repúdio pela política seguida pela atual administração presidida por Donald Trump não me deixaram outra opção.

Foi um prazer estar consigo.
Volto no próximo sábado e espero ter, de novo, a sua companhia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 10 de Novembro de 2018

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Até já*

Do arquivo pessoal
Tudo na vida tem um tempo e, este é o tempo de fazer uma pausa na publicação de textos de opinião e crónicas que tenho mantido neste espaço.
Fica em aberto, sem data anunciada, um eventual regresso pois não vou deixar de pensar e refletir, não vou deixar de ter opinião. Trata-se, tão-somente, de um interregno na publicação de textos na imprensa regional. Eu e, quiçá, os leitores estamos a necessitar de um afastamento crítico.
Ficam os meus agradecimentos ao público que acompanhou esta coluna e pelo qual nutro o maior respeito, Obrigado.
Obrigado pela leitura, mas também pelo retorno crítico e que se mostrou essencial para a diversidade dos assuntos sobre os quais escrevi e, sobretudo, por alguma evolução na forma como escrevo, se é que isso se verificou. Julgo que sim, mas não me cabe a mim fazer juízo em causa própria. Ao longo destes anos fui procurando melhorar a comunicação, tornando, pelo menos tentei, a forma de escrever mais apelativa sem aligeirar os conteúdos.
Segue-se um outro tempo que pretendo seja, um tempo apenas meu, ou pelo menos que me sobeje algum tempo. Sim, que me reste tempo pois, como sabem, o tempo nunca é inteiramente nosso e, por outro lado, ainda tenho por aí alguns compromissos públicos que vou manter e honrar por mais algum tempo. 
Não há outra razão, para além da que ficou expressa, para este afastamento por tempo indeterminado. O tempo que se segue será dedicado à concretização de alguns projetos pessoais e irei dando conta da sua realização no meu blogue pessoal.
Quero, também, agradecer o acolhimento que me foi dispensado pelos responsáveis deste prestigiado título da imprensa regional, bem assim como a disponibilidade, que já me foi transmitida, para de novo me receberem quando chegar o tempo de retornar ao vosso convívio. Não é, como já tinha sido afirmado, uma despedida. Voltarei.
Então, Até já.

Ponta Delgada, 22 de Janeiro de 2019

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, Azores Digital e Açores 9, 23 de Janeiro e 2019

* Por decisão exclusivamente minha suspendi, por tempo indeterminado, as colunas de opinião que mantinha semanalmente no Diário Insular, no Azores Digital e no Açores 9. Este foi o texto em que anunciei a decisão e que foi publicado nos respetivos títulos da comunicação social regional.
Vou manter a colaboração na rádio 105.FM e na SMTV.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Arquipélago de cultura - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires (PDL, 2018)



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 03 de Novembro de 2018 e pode ser ouvida aqui







Arquipélago de cultura

Foto by Aníbal C. Pires (Ribeira Grande, 2018)
Os Açores fervilham de iniciativas culturais.
Eu diria que difícil é arranjar agenda para poder fruir da oferta disponível, talvez alguma articulação entre os promotores ajudasse pois, para quem tem um gosto eclético, como é o meu caso, nem sempre é fácil.
Mas não entenda isto como uma queixa ou, sequer um lamento. Não se trata disso, embora me falte tempo para “ir a todas”, como comumente se diz.
Como lhe disse não estou a queixar-me, bem pelo contrário esta constatação deixa-me satisfeito, até porque a maioria dos acontecimentos culturais envolvem criadores e produtores regionais. E não é por nenhuma espécie de bairrismo ou regionalismo, mas porque sentir este pulsar criativo desperta-me, como já lhe disse, um sentimento de agrado e até de orgulho.
O mês de Novembro é um bom exemplo desta vaga de eventos, em particular para a literatura, mas também no teatro, na música, na dança, nas artes plásticas e visuais.
Na Praia da Vitória está a decorrer mais uma edição do “Outono Vivo”, em Ponta Delgada vai acontecer o “Arquipélago de Escritores”, a editora Companhia das Ilhas iniciou a edição das “Obras Completas” de Vitorino Nemésio, em parceria com a Imprensa Nacional. Mas esta editora das Lajes do Pico não se fica por aqui pois, hoje apresenta em Ponta Delgada, na Livraria SolMar, a “Poesia Reunida” de José Martins Garcia.
Mas também a editora Letras Lavadas não tem deixado os seus créditos por mãos alheias, no passado sábado foi apresentado, no Centro Cultural da Caloura, o livro de Maria das Mercês Pacheco “Contos de encantar, histórias de espantar” com ilustrações de Tomaz Borba Vieira, isto para além dos lançamentos previstos no âmbito do Arquipélago de Escritores, como seja o livro de contos, de João Pedro Porto, “Fruta do Chão”.

Foto by Aníbal C. Pires (Caloura, 2018)
Mas para não dizer que não lhe falo de outras artes, pois bem aqui fica uma outra sugestão para hoje. Pelas 21h30mn, em Ponta Delgada, pode assistir no “Estúdio 13 – Espaço de Indústrias Criativas”, ao espetáculo teatral “Mar me Quer”, texto de Mia Couto, com produção do “Alpendre”, Grupo de Teatro e no elenco, de entre outros, Belarmino Ramos.
E por falar de Mia Couto e porque também valorizo quem nos visita veio-me à lembrança o João Afonso que vai estar no dia 9 de Novembro, próxima sexta-feira, pelas 21h, no Centro Cultural da Caloura para um concerto intimista que dá pelo nome “Azul, verde para crer”. João Afonso canta e encanta com a sua voz tranquila de intensão. Voz que o jornal Blitz distinguiu, em 1997, como a melhor voz masculina.
Neste momento já estará a perguntar, Mas o que tem a ver o João Afonso com o Mia Couto. Pois bem o João vai cantar algumas canções do seu último trabalho “Sangue Bom” cujas letras são, cá está, de Mia Couto e de José Eduardo Agualusa. Ao que sei cantará também alguns dos temas do seu primeiro trabalho “Missangas”, bem assim como alguns temas de José Afonso, tio do João. O João Afonso convidou para estar consigo o Zeca Medeiros.
Eu cá por mim sinto-me convidado, para este e para todos os outros eventos, sinta-se convidado também. E escolha, escolha o que mais lhe agradar porque não faltam iniciativas culturais um pouco por toda a Região. Eu diria que vivemos num imenso arquipélago de cultura.
É sempre um prazer estar consigo.

Voltarei no próximo sábado. Até lá. Fique bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 03 de Novembro de 2018

domingo, 13 de janeiro de 2019

O V Fórum Franklin D, Roosevelt - crónicas radiofónicas








Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM
Esta crónica foi para a antena a 27 de Outubro de 2018 e pode ser ouvida aqui










O V Fórum Franklin D, Roosevelt

Numa organização conjunta do Governo Regional dos Açores e da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento (FLAD), decorreu ontem em Ponta Delgada o V Fórum Franklin Delano Roosevelt.
Mário Mesquita foi o grande impulsionador destes fóruns que tiveram o seu início há 10 anos e tem sido com o seu empenho e contributo que se têm vindo a realizar.
A quinta edição do Fórum Açoriano assinalou o centenário da escala de Roosevelt, então Secretário da Marinha dos Estados Unidos durante o mandato presidencial de Thomas Woodrow Wilson, nos Açores.
Mas se Franklin Delano Roosevelt é uma figura incontornável da história da primeira metade do século XX, a sua mulher Anna Eleanor Roosevelt não é menos admirável e, ontem, pela voz da neta Laura Roosevelt, tive oportunidade de conhecer um pouco mais sobre esta mulher que foi mais, um pouco mais do que apenas a esposa do Presidente.
Mas se ao Presidente Franklin Delano Roosevelt, eleito em 1933, se reconhece o mérito, a sabedoria e a coragem de internamente ter implementado um conjunto de políticas públicas, conhecidas por new deal, inspiradas pelo economista John Maynard Keynes, políticas públicas que uniram os estado-unidenses e que lhe permitiu solucionar os problemas sociais, económicos e financeiros decorrentes do crash da bolsa de Nova Iorque, de Outubro de 1929, ou seja, sair da chamada “grande depressão”.
Para entender o Presidente Roosevelt e o new deal, bem assim como o pensamento de Keynes, não pode deixar de se olhar para além dos Estados Unidos. A necessidade de intervenção do Estado na economia, a regulação do mercado e a garantia da assistência social pública, medidas que o new deal consagrava, constituíam-se, também, como uma resposta do capitalismo à crescente popularidade da revolução russa de 1917.
Por outro lado, sem retirar nenhum mérito a Roosevelt e a Keynes, a verdade é que, também, externamente os Estados Unidos, com a liderança do Presidente Roosevelt, conseguiram afirmar uma estratégia de envolvimento, mas sobretudo de dependência dos seus aliados, designadamente, no que às questões da defesa diz respeito e que ainda hoje se mantêm, embora com contornos e exigências diferentes, mas que tinha como objetivo subjacente evitar a exportação dos ideais da revolução bolchevique.

Foto by Aníbal C. Pires
Os painéis e mesas redondas foram uns mais outros menos interessantes, como em qualquer outro evento desta, ou de outra natureza. Mas não posso deixar de lamentar a unanimidade e a formatação do discurso da generalidade dos oradores no último tema: Portugal, os EUA e a relação transatlântica, ainda que Rodrigo Oliveira se tenha distinguido com uma linha de pensamento próprio, o que não significa que esteja de acordo com ele, e, o cônsul dos Estados Unidos tenha desempenhado muito bem o seu papel na defesa dos Estados Unidos no Mundo, outra coisa não seria de esperar. Quanto ao professor Carlos Gaspar, da Universidade Nova e à Professora Mónica Dias, da Universidade Católica, que cometeu a indelicadeza de dedicar o seu tempo a falar de Thomas Woodrow Wilson num fórum dedicado a Roosevelt, até posso perceber a ligação, mas não me pareceu apropriado.
Mas das intervenções destes dois académicos, e isso sim é relevante, ficaram apenas os lugares comuns da visão unilateral das Relações Internacionais e do endeusamento dos sistemas políticos que governam alternadamente ao centro.
Bom foi ouvir a provocação de Mário Mesquita, sobre a questão da independência dos Açores, embora tenha ficado por isso mesmo pois a plateia ficou muda, bom de ouvir foi a paixão com que Laura Roosevelt, neta de Franklin Delano Roosevelt, falou dos seus avós. Fica também um registo positivo para o painel que abordou as questões da Educação na relação entre Portugal e os Estados Unidos.
Gostei de estar consigo. Fique bem.
Voltarei no próximo sábado. Até lá.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Outubro de 2018