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sábado, 23 de março de 2019

da poesia - "Os Porquês?, na SMTV

foto by Madalena Pires (S. Miguel)







Para ver ou rever a edição número 21 do programa “Os Porquês?”, na SMTV.

da árvore, da floresta e da poesia

Foi para a antena no dia 20 de Março de 2019












quarta-feira, 6 de março de 2019

98 anos de luta

imagem retirada da internet









Na celebração no 98.º aniversário da fundação do Partido Comunista Português, um poema de José Carlos Ary dos Santos













A bandeira comunista

Foi como se não bastasse 
tudo quanto nos fizeram 
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam 
como se o ódio fartasse 
apenas os que sofreram 
como se a luta de classe 
não fosse dos que a moveram. 
Foi como se as mãos partidas 
ou as unhas arrancadas 
fossem outras tantas vidas 
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista 
o patrão surgiu de novo 
e com a miséria à vista 
tentou dividir o povo. 
E falou à multidão 
tal como estava previsto 
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão 
também luta a nosso lado 
nós repartimos o pão 
não temos o pão guardado. 
Por isso quando os burgueses 
nos quiserem destruir 
encontram os portugueses 
que souberam resistir.

E a cada novo assalto 
cada escalada fascista 
subirá sempre mais alto 
a bandeira comunista.

Ary dos Santos

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

da amizade

Aníbal C. Pires by Madalena Pires (Ponta Delgada, 2018)





O dia de amigos celebra-se hoje e cultiva-se todos os dias.
Em dia de celebração da amizade para os meus amigos (a amizade não tem género) fica este soneto de Vinicius de Moraes







Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 21 de março de 2018

Da poesia 5 - Renata Correia Botelho

Renata Correia Botelho




Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.






A ÁRVORE DAS RAÍZES

a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.

Renata Correia Botelho, in “small song”

Da poesia 4 - Gina Ávila Macedo

Gina Ávila Macedo



Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.

O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.





É no interior da noite

É no interior da noite
que bebemos o vinho pisado
por deuses e entramos
resolutos pelas horas tardias.
Rimos e enganamos o
frio na carícia do lume.

Olhamos o rio e nas margens
das nossas cabeças não há
palavras que descrevam a loucura
e o medo.

Juntos atravessamos a noite
com o nosso andar felino
descobrimos que a escuridão é
feita de gatos vadios e casas pardas.

E quando a madrugada chegar
não sabemos o que iremos fazer
com as nossas mãos.

Gina Ávila Macedo, in Anuário de Poesia de Autores não Publicados, 2015, Assírio&Alvim.

Da poesia 3 - Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt





Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.

O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.







Resistência

a noite
o rebentar das bombas o ranger 
dos dentes
tudo tanto ou tão nada
como este lago de sangue 
nascido nas pernas da mulher
violada pela milésima vez
e sempre virgem
teimosamente virgem.

Urbano Bettencourt, In “outros nomes outras guerras”

Da poesia 2 - Emanuel Jorge Botelho

Emanuel Jorge Botelho (foto de Aníbal C. Pires)






Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.









NOTÍCIAS DO CERCO

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois. 


é tudo uma questão de senha. 
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã. 


é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso 
de um golpe de Lua cheia. 

Emanuel Jorge Botelho

sábado, 17 de março de 2018

da poesia e da luta, ou sobre a execução de Marielle Franco

Marielle Franco (imagem retirada da Internet)






Este foi o melhor texto que li sobre a morte de Marielle Franco






Não… Eles não a mataram. Eles não a matarão.

Morreu.
Morreu a preta da maré,
a negra fugida da senzala
que foi, sentar com “os dotô” na sala
e falar de igual pra igual com “os homi”.
A negra que burlou a fome de se saber,
que fez crescer dentro dela, o conhecimento.
Aquela, que por um momento de humanidade,
sonhou com a justiça, lutou por liberdade
e ousou ir mais alto,
do que permitia sua cor.
“Mas preta sabida, não pode!
Muito menos pobre! Não tem valor.”
Diziam as más línguas na multidão.
E ela ousou tirar seus pés do chão.
Morreu.
Morreu a “preta sem noção”,
que falava a verdade na cara do patrão,
que carregava a coragem, como bagagem,
no coração.
O tiro foi certo,
acertou com maldade,
ecoando seco no centro da cidade.

Anielli Carraro- Poeta de Volta Redonda

domingo, 29 de outubro de 2017

Os Ossos Dentro da Cinza, uma nota e dois poemas

Foto by Aníbal C. Pires
Emanuel Jorge Botelho apresentou ontem, na Livraria Leya SolMar, o seu mais recente livro de poemas, Os Ossos Dentro da Cinza.
Não me cabe falar sobre o poeta nem da sua poesia.
Do homem sou amigo.
Da poesia gosto.
Para mim é quanto baste.
De apreciações, sobre a poesia e o homem, estamos falados, mas não ficaria tudo dito se me quedasse por aqui.
Para conhecerem, um pouco, a poesia de que falo e do que é feito o homem que a escreve, nada melhor que a leitura de dois poemas, do Emanuel Jorge Botelho, insertos no livro Os Ossos Dentro da Cinza.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Outubro de 2017




RUA DO SACO, N.º 15 (II)

o meu vizinho predilecto
morreu na guerra.

ele gostava de mim porque me acenava
quando dizia o meu nome.

no Verão, o meu vizinho passava, todas as manhãs,
perto da minha porta.
ia a caminho do mar.

quando me disseram que ele morrera na guerra
eu ainda não pensava que podia lá morrer.

eu não me recordo do nome do meu vizinho,
e queria tanto dá-lo
à saudade que dele tenho.

Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno


O BANCO DE ANTERO

dois pedaços de madeira
batidos por uma luz amarga.

o dia soube da tua ida ao armeiro,
e ordenou aos pássaros que recolhessem
mais cedo.

estrelas, no Céu, ninguém deixou dito se vieram,
e tu não estarias com elas
mesmo que olhasses para cima
quando o cano te tocou o palato.

sentaste-te porque querias ir-te embora,
farto de forçar o labirinto,
exausto de dizer ao norte
que a bússola é, só, um adereço.

as coisas são como são.
não vale a pena dar-lhes debrum de rosas bravas,
ou colheres de água quente
com três pitadas de açúcar.

foi em Setembro, como podia ter sido em Janeiro.
aguentaste, como um felino,
o coice da solidão,
e disparaste dois tiros
para matar o regresso.

quem te fechou os olhos
ouviu-te agradecer.

Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Esta gente, essa gente

Foto by Aníbal C. Pires (Havana, Maio de 2005)







"Nós somos o que sabemos querer" 

José Marti










A libertação pela descoberta que só o saber e a cultura proporcionam ou, a submissão por essa gente que não sente como a gente.
É disto que nos fala o poema no vídeo abaixo. Digo eu que sinto como a gente que tem dente.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Celebrar 175 anos do nascimento de Antero de Quental

Pormenor das ilustrações - foto by Aníbal C. Pires
A Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental e a Artes e Letras, com o patrocínio da Câmara Municipal de Ponta Delgada (CMPD), assinalou hoje o 175.º do nascimento de Antero de Quental com o lançamento do livro As Fadas, poema de Antero escrito para o Tesouro Poético da Infância. O livro é ilustrado por alunos da Escola Secundária Antero de Quental, sendo a conceção gráfica da professora Nina Medeiros. À professora Maria João Ruivo fica a dever-se o texto introdutório e a apresentação do livro na sessão pública que decorreu hoje no Salão Nobre da CMPD. A impressão tem a marca de qualidade a que a Nova Gráfica já nos habituou.


Pormenor das ilustrações - foto by Aníbal C. Pires
As Fadas

As fadas… eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar…

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer…
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder…

(...)

domingo, 6 de março de 2016

95.º aniversário do PCP



Para assinalar o 95.º aniversário do PCP fica este poema de Pablo Neruda

AO MEU PARTIDO

Deste-me a fraternidade com os desconhecidos.
Juntaste a mim a força de todos os que vivem.
Voltaste a dar-me a pátria como num nascimento.
Deste-me a liberdade que não tem quem está só.
Ensinaste-me a acender a bondade como o lume.
Deste-me a retidão de que precisava a árvore.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diferença dos irmãos.
Mostraste-me como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir na cama dura dos que são meus irmãos.
Fizeste-me construir sobre a realidade como sobre a rocha.
Fizeste-me inimigo do malvado e muro do colérico.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e como é possível a alegria.
Fizeste-me indestrutível pois contigo não termino em mim próprio.

Pablo Neruda

sexta-feira, 6 de março de 2015

É a sonhar que se faz o caminho

Foto - auto-retrato de João Pires

A foto junta deu o mote o conhecimento, a amizade e o engenho fizeram o resto, aliás o melhor é dar a palavra ao autor que no mail que me enviou dizia a certa altura: E quando um gajo começa a pensar, faz o quê? Escreve.

Escreveu e escreveu assim,

Sonho de Luz

Da inerte escuridão irrompe um olhar frio
Outrora pensamento bambo
No seu interior reluz a chama que um dia viveu
Agora desejo fervente
Será pois não a nossa existência nada mais que fruto do descontentamento?
Sempre em luta, resiliente

Despe esse teu negro véu
Os dias além de ontem também têm amanhã
Abre os braços e faz-te ao céu
Estou aqui a teu lado para o que quer que venha
E no auge das emoções eis senão que nasce um sorriso
Chegou por fim, o sonho

À vontade de seres de novo Vida
Para além da já ida
Findemos com a dor do vazio
Que tanto te engana, como te seduz

À vontade de seres de novo Alegria
Nem que por um só dia
Lutemos pela fuga desse lugar sombrio
Onde jaz agora brilho nos teus olhos, sonho de luz

Francisco Ferreira - 04.03.05

sábado, 8 de março de 2014

Da mulher

Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 

Como a voz do mar 
Interior de um povo 

Como página em branco 
Onde o poema emerge 

Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação

Abril de 1974

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Antero de Quental (1842-1891)

Antero de Quental

A tristeza do tempo! O espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
- Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!

Odes Modernas

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Porque hoje é quinta feira de amigas

Mais Alto


Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem



O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!



Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!



Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher
!


Florbela Espanca

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Porque hoje é quinta-feira de amigos

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».


«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!


«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!


«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.


«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa - 123 anos

Passam hoje 123 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa. Fica aqui um pequeno tributo com um dos seus poemas.


"Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"

Fernando Pessoa

domingo, 12 de junho de 2011

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente


promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente


Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias


Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David Mourão-Ferreira

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade