Na celebração no 98.º aniversário da fundação do Partido Comunista Português, um poema de José Carlos Ary dos Santos
A bandeira comunista Foi como se não bastasse tudo quanto nos fizeram como se não lhes chegasse todo o sangue que beberam como se o ódio fartasse apenas os que sofreram como se a luta de classe não fosse dos que a moveram. Foi como se as mãos partidas ou as unhas arrancadas fossem outras tantas vidas outra vez incendiadas. À voz de anticomunista o patrão surgiu de novo e com a miséria à vista tentou dividir o povo. E falou à multidão tal como estava previsto usando sem ter razão a falsa ideia de Cristo. Pois quando o povo é cristão também luta a nosso lado nós repartimos o pão não temos o pão guardado. Por isso quando os burgueses nos quiserem destruir encontram os portugueses que souberam resistir. E a cada novo assalto cada escalada fascista subirá sempre mais alto a bandeira comunista.
Aníbal C. Pires by Madalena Pires (Ponta Delgada, 2018)
O dia de amigos celebra-se hoje e cultiva-se todos os dias.
Em dia de celebração da amizade para os meus amigos (a amizade não tem género) fica este soneto de Vinicius de Moraes
Soneto do amigo Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado. É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo. Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano. O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica...
Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.
A ÁRVORE DAS RAÍZES a minha infância tem uma árvore assombrosa. é uma bela história de amor entre as nossas mãos pequeninas e aqueles seus braços enormes, bravos e loucos como o riso das mães, que faziam abrandar o medo e a tarde. oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros pelo labirinto de grutas cavado nas raízes, ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria a descobrir o nosso esconderijo. ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto, imaginei que talvez Vieira da Silva tivesse sonhado a minha árvore. ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo: azuis e verdes com riscos ferozes onde a vista se afunda para depois nos libertar. assim é, entre o céu da memória e a erva húmida destes dias, a árvore da minha infância.
Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.
É no interior da noite É no interior da noite que bebemos o vinho pisado por deuses e entramos resolutos pelas horas tardias. Rimos e enganamos o frio na carícia do lume. Olhamos o rio e nas margens das nossas cabeças não há palavras que descrevam a loucura e o medo. Juntos atravessamos a noite com o nosso andar felino descobrimos que a escuridão é feita de gatos vadios e casas pardas. E quando a madrugada chegar não sabemos o que iremos fazer com as nossas mãos.
Gina Ávila Macedo, in Anuário de Poesia de Autores não Publicados, 2015, Assírio&Alvim.
Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.
Resistência a noite o rebentar das bombas o ranger dos dentes tudo tanto ou tão nada como este lago de sangue nascido nas pernas da mulher violada pela milésima vez e sempre virgem teimosamente virgem.
Urbano Bettencourt, In “outros nomes outras guerras”
Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.
NOTÍCIAS DO CERCO os dias vão indo caídos no papel, e rasgá-los não os lava da hora que vem depois. é tudo uma questão de senha. a gente diz borboleta, e o inimigo crucifica-a nas paredes de cada manhã. é tudo tão previsível. e não há quem saia ileso de um golpe de Lua cheia.
Este foi o melhor texto que li sobre a morte de Marielle Franco
Não… Eles não a mataram. Eles não a matarão. Morreu. Morreu a preta da maré, a negra fugida da senzala que foi, sentar com “os dotô” na sala e falar de igual pra igual com “os homi”. A negra que burlou a fome de se saber, que fez crescer dentro dela, o conhecimento. Aquela, que por um momento de humanidade, sonhou com a justiça, lutou por liberdade e ousou ir mais alto, do que permitia sua cor. “Mas preta sabida, não pode! Muito menos pobre! Não tem valor.” Diziam as más línguas na multidão. E ela ousou tirar seus pés do chão. Morreu. Morreu a “preta sem noção”, que falava a verdade na cara do patrão, que carregava a coragem, como bagagem, no coração. O tiro foi certo, acertou com maldade, ecoando seco no centro da cidade.
Emanuel Jorge Botelho apresentou ontem, na Livraria Leya SolMar, o seu mais recente livro de poemas, Os Ossos Dentro da Cinza.
Não me cabe falar sobre o poeta nem da sua poesia.
Do homem sou amigo.
Da poesia gosto.
Para mim é quanto baste.
De apreciações, sobre a poesia e o homem, estamos falados, mas não ficaria tudo dito se me quedasse por aqui.
Para conhecerem, um pouco, a poesia de que falo e do que é feito o homem que a escreve, nada melhor que a leitura de dois poemas, do Emanuel Jorge Botelho, insertos no livro Os Ossos Dentro da Cinza.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Outubro de 2017
RUA DO SACO, N.º 15 (II) o meu vizinho predilecto morreu na guerra. ele gostava de mim porque me acenava quando dizia o meu nome. no Verão, o meu vizinho passava, todas as manhãs, perto da minha porta. ia a caminho do mar. quando me disseram que ele morrera na guerra eu ainda não pensava que podia lá morrer. eu não me recordo do nome do meu vizinho, e queria tanto dá-lo à saudade que dele tenho.
Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno
O BANCO DE ANTERO dois pedaços de madeira batidos por uma luz amarga. o dia soube da tua ida ao armeiro, e ordenou aos pássaros que recolhessem mais cedo. estrelas, no Céu, ninguém deixou dito se vieram, e tu não estarias com elas mesmo que olhasses para cima quando o cano te tocou o palato. sentaste-te porque querias ir-te embora, farto de forçar o labirinto, exausto de dizer ao norte que a bússola é, só, um adereço. as coisas são como são. não vale a pena dar-lhes debrum de rosas bravas, ou colheres de água quente com três pitadas de açúcar. foi em Setembro, como podia ter sido em Janeiro. aguentaste, como um felino, o coice da solidão, e disparaste dois tiros para matar o regresso. quem te fechou os olhos ouviu-te agradecer.
Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno
A libertação pela descoberta que só o saber e a cultura proporcionam ou, a submissão por essa gente que não sente como a gente.
É disto que nos fala o poema no vídeo abaixo. Digo eu que sinto como a gente que tem dente.
Pormenor das ilustrações - foto by Aníbal C. Pires
A Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental e a Artes e Letras, com o patrocínio da Câmara Municipal de Ponta Delgada (CMPD), assinalou hoje o 175.º do nascimento de Antero de Quental com o lançamento do livro As Fadas, poema de Antero escrito para o Tesouro Poético da Infância. O livro é ilustrado por alunos da Escola Secundária Antero de Quental, sendo a conceção gráfica da professora Nina Medeiros. À professora Maria João Ruivo fica a dever-se o texto introdutório e a apresentação do livro na sessão pública que decorreu hoje no Salão Nobre da CMPD. A impressão tem a marca de qualidade a que a Nova Gráfica já nos habituou.
Pormenor das ilustrações - foto by Aníbal C. Pires
As Fadas As fadas… eu creio nelas! Umas são moças e belas, Outras, velhas de pasmar… Umas vivem nos rochedos, Outras, pelos arvoredos, Outras, à beira do mar… Algumas em fonte fria Escondem-se, enquanto é dia, Saem só ao escurecer… Outras, debaixo da terra, Nas grutas verdes da serra, É que se vão esconder… (...)
Para assinalar o 95.º aniversário do PCP fica este poema de Pablo Neruda
AO MEU PARTIDO Deste-me a fraternidade com os desconhecidos. Juntaste a mim a força de todos os que vivem. Voltaste a dar-me a pátria como num nascimento. Deste-me a liberdade que não tem quem está só. Ensinaste-me a acender a bondade como o lume. Deste-me a retidão de que precisava a árvore. Ensinaste-me a ver a unidade e a diferença dos irmãos. Mostraste-me como a dor de um ser morreu na vitória de todos. Ensinaste-me a dormir na cama dura dos que são meus irmãos. Fizeste-me construir sobre a realidade como sobre a rocha. Fizeste-me inimigo do malvado e muro do colérico. Fizeste-me ver a claridade do mundo e como é possível a alegria. Fizeste-me indestrutível pois contigo não termino em mim próprio.
A foto junta deu o mote o conhecimento, a amizade e o engenho fizeram o resto, aliás o melhor é dar a palavra ao autor que no mail que me enviou dizia a certa altura: E quando um gajo começa a pensar, faz o quê? Escreve.
Escreveu e escreveu assim,
Sonho de Luz Da inerte escuridão irrompe um olhar frio Outrora pensamento bambo No seu interior reluz a chama que um dia viveu Agora desejo fervente Será pois não a nossa existência nada mais que fruto do descontentamento? Sempre em luta, resiliente Despe esse teu negro véu Os dias além de ontem também têm amanhã Abre os braços e faz-te ao céu Estou aqui a teu lado para o que quer que venha E no auge das emoções eis senão que nasce um sorriso Chegou por fim, o sonho À vontade de seres de novo Vida Para além da já ida Findemos com a dor do vazio Que tanto te engana, como te seduz À vontade de seres de novo Alegria Nem que por um só dia Lutemos pela fuga desse lugar sombrio Onde jaz agora brilho nos teus olhos, sonho de luz
Como casa limpa Como chão varrido Como porta aberta Como puro início Como tempo novo Sem mancha nem vício Como a voz do mar Interior de um povo Como página em branco Onde o poema emerge Como arquitectura Do homem que ergue Sua habitação
Abril de 1974
A tristeza do tempo! O espectro mudo Que pela mão conduz... não sei aonde! - Quanto pode sorrir, tudo se esconde... Quanto pode pungir, mostra-se tudo. - Cada pedra, que cai dos muros lassos Do trémulo castelo do passado, Deixa um peito partido, arruinado, E um coração aberto em dois pedaços! Odes Modernas
Passam hoje 123 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa. Fica aqui um pequeno tributo com um dos seus poemas.
"Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu"