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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Leitura das leituras(*)

A este espaço, onde hoje nos reunimos para uma vez mais celebrar a literatura, foi dada uma nova utilidade. Veja-se só, neste edifício recuperado do núcleo histórico da cidade de Ponta Delgada, no lado Sul da Matriz, abriu uma livraria. Neste lugar difundem-se uns objetos culturais a que chamamos livros e acolhem-se os seus autores e leitores.
Já esta semana aqui, onde hoje nos juntamos, a escritora e ensaísta Lélia Nunes disse: “(…) Neste espaço, pode-se dizer que as Letras Lavadas estão ao lado da Matriz, mas também que a Matriz está ao lado da catedral da literatura e do livro. (…)”
E assim é. Esta não é mais uma livraria em Ponta Delgada. É uma livraria. A livraria que será, a mais açoriana de todas as livrarias dos Açores.

Renovo, hoje, o agradecimento e reconhecimento à Letras Lavadas por este projeto que complementa a atividade editorial e gráfica do grupo Publiçor/Nova Gráfica/LetrasLAVAdas. Desejo ao Senhor Ernesto Resendes e a todos os trabalhadores, dos diferentes setores da sua atividade empresarial, os maiores sucessos.
Por fim, ainda que seja por ele que aqui estamos, um agradecimento muito especial ao Vamberto Freitas pelo convite para a apresentação do 5.º volume de borderCrossgings/leituras transatlânticas. Obrigado Vamberto pela confiança que em mim tens depositado.
Saiba eu corresponder condignamente, pois, como devem imaginar não é tarefa fácil falar de alguém que dedica, eu diria, militantemente, grande parte do seu tempo a escrever sobre escritores, poetas e ensaístas.

Vamberto Freitas é figura sobejamente conhecida, desde logo por ser professor na Universidade dos Açores, mas também pelos suplementos literários, pelas suas colunas de crítica na imprensa regional e da diáspora, pela sua presença e voz acutilante, humorada e recheada de generosidade.
Sim, o Vamberto Freitas é um ser generoso. Ninguém mais do que ele tem aberto as portas ao conhecimento e à divulgação da produção literária nos Açores e na diáspora, e ainda lhe sobra tempo para estender o seu olhar sobre os autores de outras geografias culturais, seja o continente português, seja de forma particular e apaixonada sobre os autores estado-unidenses.
Mas, já lá vamos a esse olhar sobre este novo volume de borderCrossings 5, antes disso e apesar do Vamberto Freitas dispensar apresentações, não posso deixar de referir algumas notas biográficas e deixar uma nota pessoal sobre o Vamberto.


É natural da ilha Terceira, freguesia da Fontinhas, emigrou aos treze anos de idade para os EUA com a família. É Licenciado em Estudos Latino-Americanos pela California State University, Fullerton, em 1974 e, pela mesma Universidade, concluiu uma pós-graduação em Literatura Americana e Literatura Comparada.
Docente na Universidade dos Açores, foi correspondente e colaborador, a convite de Mário Mesquita, do suplemento literário do Diário de Notícias (Lisboa) durante largos anos. Tem prestado colaboração a periódicos no Brasil, como é o caso do Jornal de Letras do Rio de Janeiro, e em Santa Catarina, no suplemento Cultura do Diário Catarinense e na revista Cartaz: Cultura e Arte. A nível regional tem uma presença assídua em periódicos regionais, salientando-se a coordenação do Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores, e o Suplemento Atlântico de Artes e Letras (SAAL) da revista Saber Açores.
Integra o Conselho Consultivo da Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies e ainda, a Comissão Editorial do Boletim do Núcleo Cultural Da Horta.
Autor de diversas obras, como Jornal da Emigração: A L(USA)dândia Reinventada, O Imaginário dos Escritores Açorianos, A Ilha Em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e De Outras Narrativas e, também, a coleção borderCrossings, que já vai no seu quinto volume, que reúne os textos que regularmente publica no Açoriano Oriental. É colaborador regular do Portuguese Times, de New Bedford e no Portuguese Tribune, publicado na Califórnia.
Coordenou, com Álamo Oliveira, o suplemento literário mensal do Açoriano Oriental, Artes e Letras.
Mas, para além destes breves apontamentos sobre Vamberto e, para quem tiver interesse e quiser compreender o Homem e o intelectual maduro deve iniciar a leitura deste livro pela página 29. Um texto do autor, como todos os outros, é certo, mas um texto em que Vamberto fala sobre Vamberto.
Deixo-lhes apenas uma breve passagem que é, em minha opinião, elucidativa da generosidade, autenticidade e sobriedade deste professor, ensaísta e crítico literário.

“(…) Lembremos sempre quem nos fez bem, e faremos o mesmo aos outros. Vejo com alegria e gratidão os meus colegas e amigos quase todos os dias. Quanto mais engrandecem nas suas vidas, mais me engrandecem a mim. Os seus triunfos e felicidades são as minhas também, com eles partilho as suas dores familiares ou profissionais. O resto não interessa nada. Quando alguém que não nos topa se desvia de nós, deveremos agradecer a delicadeza e o bom senso. A vida é nossa, mas quando partilhada é infinitamente mais rica e feliz. (…)”

Tenho uma grande admiração pessoal pelo Vamberto e, um imenso e profundo respeito pelo seu trabalho o que me leva a deixar-vos a seguinte nota pessoal.
O Vamberto Freitas não é apenas um ensaísta e crítico literário. Vamberto Freitas é, se me permitem, uma verdadeira instituição de utilidade pública para a literatura. É-o em particular para as temáticas literárias de matriz açoriana escritas em português e inglês, mas é mais, muito mais do que isso pois, a dimensão da sua obra não se confina à apreciação e, por conseguinte, divulgação dos autores que escrevem nos Açores, sobre os Açores, ou sobre a diáspora açoriana e, mais genericamente sobre a diáspora portuguesa. O seu trabalho e a sua obra não têm fronteiras culturais, nem está eivada de qualquer visão redutora da literatura.
Fica, assim, registado o meu reconhecimento e agradecimento pelo trabalho que o Vamberto tem desenvolvido e continuará a desenvolver pois, tenho para mim que o seu trabalho não se esgota com a publicação deste 5.º volume das leituras transatlânticas, nem com este formato. Sei que existem outros projetos em carteira e espero que venham a público o quanto antes. Mas sobre isso, se assim entender, nos falará o Vamberto.

O reconhecimento público pelo valioso contributo que o Vamberto tem dado à literatura que se produz nas margens deste rio Atlântico tem tido, felizmente, reconhecimento institucional. A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), em 2015, agraciou-o com uma Insígnia Honorífica de Reconhecimento e o Congresso dos EUA concedeu-lhe, em 2017, o Certificate of Special Congressional Recognition.

Sendo que estes reconhecimentos institucionais são importantes e, sem lhes querer retirar o valor, diria que mais importante do que as insígnias e os certificados foi a justa homenagem que os seus pares lhe fizeram durante a II edição do Arquipélago de Escritores que se realizou, em Ponta Delgada, no passado fim de semana. E é o reconhecimento quotidiano expresso pelas editoras e autores quando lhe solicitam uma recensão, uma opinião e crítica, sobre o que editam e escrevem.
É, também, o reconhecimento público que hoje lhe estamos a prestar.
borderCrossings 5 teve já um momento alto de divulgação e opinião especializada durante a edição do Outono Vivo deste ano, mais precisamente no dia 26 de Outubro, na cidade da Praia da Vitória, onde o Professor Ernesto Rodrigues, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e especialista em Literatura e Cultura Portuguesas fez uma apresentação magistral. Ou seja, este livro de Vamberto já foi dissecado e avaliado por um especialista em literatura, coisa que eu não sou. Sou apenas um amigo do Vamberto que gosta de ler e que com ele muito tem aprendido e quer continuar a aprender.

O quinto volume de borderCrossings/leituras transatlânticas segue na rota dos anteriores. Ensaio e crítica literário que o autor organiza em três grandes tópicos e uma última parte, a que chama Coda onde são publicadas duas entrevistas que o autor concedeu, aos diários Açoriano Oriental e Diário dos Açores, aquando da publicação do quarto volume de borderCrossings que ocorreu fez por estes dias 2 anos.
O primeiro dos tópicos, Açorianidade Negada ou Reafirmada, reúne os ensaios e críticas literárias de autores açorianos, ou ainda de quem sobre os Açores escreveu mesmo que noutra língua que não o português, como é o caso de Diana Marcum jornalista californiana que depois de um trabalho jornalístico no Vale de S. Joaquim quis vir conhecer a terra de onde partiram aqueles estoicos homens e mulheres. E veio, e esteve largos meses por cá, sentiu o pulsar das gentes e dos lugares e sobre isso nos dá conta no livro The Tenth Island, ao que julgo ainda sem tradução para português (já está editado em português). E que o Vamberto apresentou, em Ponta Delgada, com a autora, em 2018, no âmbito da programação da I Edição do Arquipélago de Escritores.
Nesta primeira parte, em forma de ensaio ou de crítica literária, Vamberto percorre alguns dos títulos editados entre nós, ou nos Estados Unidos, como é o caso já referido de Diana Marcum, mas também a poesia de Pedro da Silveira no olhar de George Monteiro, a poesia de Lara Gularte, ou ainda do livro Sonhos à Solta: Rostos da América organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues, este livro segundo nos diz Vamberto “(…) passa a ser uma das nossas mais eloquentes fontes sobre a vida quotidiana e da imaginação do nosso povo na distante Califórnia. (…)”.
E a propósito do nosso povo e do seu imaginário não resisto a ler-vos um poema de Pedro da Silveira, do qual Vamberto diz serem os cinco versos mais citados da sua geração.

Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa pairando.
Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe à proa
Califórnias perdidas de abundância.

Depois desta sublime síntese sobre a ilha e os ilhéus que a geografia e a história colocaram a meio canal entre a Europa e América, onde as elites olhavam para Oriente e o povo para Ocidente, e, para que se compreenda toda a amplitude da análise de Vamberto Freitas vou socorrer-me de uma frase sua, página 16, do ensaio que fez sobre o Amanhã Não Existe, de Urbano Bettencourt. “(…) Ler Urbano é perceber como a partir de pequenas ilhas se universaliza uma escrita, a condição humana nas suas versões cercadas de mar por todos os lados, mas em viagem perpétua nas mais inesperadas ou longínquas geografias literárias e culturais. (…)” 

E é isto. Como é que se explica que, por aqui, nestas ilhas dispersa no Atlântico Norte, a produção literária tenha esta dimensão que nos liberta.
Talvez seja o Mar, Não sei. Mas sim, talvez seja o mar e a pequenez da terra polvilhada por uma vasta área oceânica, Talvez. Mas é certamente tudo isso e mais as gentes que a Lava pariu e se miscigenou com o Mundo.
Perdoem-me este devaneio e a incursão por territórios que não seu meus. Nesta sala estão algumas personalidades que podem, sustentadamente, dissertar sobre as razões que estão na origem de tamanha produção literária nos Açores e sobre os Açores. Produção literária que se projeta pelo país e pelo Mundo.

Não é possível, nem sequer aconselhável, aludir nesta apresentação todas as recensões, ensaios e crítica literária que Vamberto Freitas reúne no borderCrossings 5. Ainda sobre o primeiro tópico que, no essencial, abarca as publicações de autores açorianos que aqui residem, com as exceções já referidas, apenas a menção à revisitação, agora e sempre, de Adelaide Freitas, mas também a Gregory Rabassa. Duas personalidades, por razões diversas, sempre presentes no espírito e nas palavras de Vamberto. Da mesma forma que Nancy T. Baden, Michael Holland e William Koon, seus professores na Universidade onde fez os seus estudos na Califórnia, nunca são esquecidos, nos escritos e nas conversas que Vamberto partilha com quem o lê e com quem o ouve, seja nos fóruns literários, seja na informalidade da mesa de um café, de preferência com esplanada.
Vamberto Freitas é hoje um reconhecido especialista em literatura portuguesa porque num dia, já distante, no Oeste americano Nancy Baden o orientou para leituras de expressão portuguesa. E o Vamberto como é público e notório, nunca se esquece de a mencionar como a sua principal mentora. Aqui não posso deixar de voltar às palavras de Vamberto, “(…) Lembremos sempre quem nos fez bem, e faremos o mesmo aos outros. (…)”. Esta é a herança que o Vamberto carrega consigo e que não se cansa de transmitir quando escreve e quando fala.

O segundo tópico, De todas as Diásporas, é dedicado ao ensaio e à literatura escrita em português, ainda que nem todos os autores residam em Portugal, como é o caso de Onésimo Teotónio de Almeida que vive em todo o lado (sei que o sentido de humor que carateriza o Onésimo encaixará bem a expressão que acabo de utilizar). Vamberto abre, porém, duas exceções. David Grossman e Amos Oz, escritores israelitas que têm uma visão multilateral do conflito entre o estado judaico e o estado palestiniano facto que para além da qualidade literária, justifica a sua inclusão neste tópico, e, por outro, lado encaixa no que à pouco referi, e lembro, O seu trabalho e a sua obra não têm fronteiras culturais, nem está eivada de qualquer visão redutora da literatura.

Antes de fechar a apreciação a este tópico, também eu abro uma exceção e refiro uma das obras e o seu autor. KNK, de Luis Filipe Sarmento para exemplificar o efeito que este volume e todos os que o precederam provocam em mim e, estou certo disso, nos seus leitores e alunos. Ao ler a recensão do aludido livro para além de ficar a conhecer melhor este autor, cresceu em mim o desejo de ler KNK, mas não só, a vontade amplia-se, e outros títulos do autor são objeto do meu interesse. Muito desse despertar para, em breve, ler KNK fica a dever-se ao que Vamberto diz sobre seu autor: “(…) São estes os chamados escritores “malditos”, repita-se, nas mais variadas literaturas, os que dizem em voz alta ou serena as misérias que todos vivemos ou sentimos nos espaços sem convivência. (…)” e mais à frente, “(…) Serão estes, digamos também assim, os escritores que no futuro passam de uma certa marginalidade para o centro do cânone. (…)”.
E como sabemos e conhecemos isto acontece, tem acontecido, e em Portugal os exemplos são vários. Como dizia, quando Vamberto faz as suas apreciações literárias fornece aos leitores um conjunto de informação e opinião que, por ser, especializada nos conduz na descoberta de velhos, novos e escritores malditos.

Para não dizer que não falei do terceiro tópico, A América de Todos e de Ninguém, deixo-vos a lista de autores sobre os quais pendeu o olhar de Vamberto. Clara Ferreira Alves, Sinclair Lewis, Philip Roth, Richard Zimler, Bob Woodward e Jonathan Franzen. Perguntarão porquê Clara Ferreira Alves, eu também me perguntei, mas como o livro recenseado tem por tema os Estados Unidos, encontrei aí a justificação.
As leituras de borderCrossing, seja este volume 5, sejam os que o precederam têm sido, para mim uma grande utilidade e, sobretudo, uma fonte inesgotável de aprendizagens e de conhecimento. A coleção de livros border Crossings/leituras transatlânticas tem um amplo público destinatário. Desde logo os leitores comuns que gostam de estar informados do que, em termos literários se vai produzindo, um pouco por todos as geografias culturais, mas também os estudantes que se iniciam, ou se especializam em literatura, tenha elas a forma que tiver, mas também se destinam aos escritores consagrados e aos próprios editores. Eu diria que ler borderCrossings/leituras transatlânticas é, assim, como fazer a leitura das leituras.

Julgo que talvez agora se compreenda melhor o que disse na primeira parte desta intervenção.
Vamberto Freitas é, se me permitem, uma verdadeira instituição de utilidade pública para a literatura. O seu trabalho e a sua obra não têm fronteiras culturais, nem está eivada de qualquer visão redutora da literatura.

(*) Texto que serviu de base à apresentação de borderCrossings (volume 5), de Vamberto Freitas, na Livraria Letras LAVAdas, Ponta Delgada, 23 de Novembro de 2019.
Foi publicado no Portuguese Tribune e no Diário Insular.

sábado, 24 de novembro de 2018

Na Homenagem a Madalena Madureira

Créditos Câmara Municipal de Lagoa
No âmbito da homenagem da Câmara Municipal de Lagoa (Açores) à professora Madalena Madureira, pelo trabalho que desenvolveu na formação desportiva na área do atletismo, foi apresentado o livro "Palavras Pequenas, Pensamentos Grandes", da autoria da homenageada.
A autora convidou-me para fazer a apresentação do livro, aqui fica a intervenção que proferi a esse propósito.





Apresentação do livro “Palavras Pequenas, Pensamentos Grandes”
de
Maria Madalena Madureira

Senhoras e senhores
Madalena, Querida amiga e colega.

A amizade e o respeito que sempre nutri pela Madalena Madureira tornaram irrecusável o convite que me foi endereçado para tecer algumas considerações sobre o livro que hoje aqui é apresentado.
Agradeço o convite, mas agradeço sobretudo a confiança e amizade que a Madalena Madureira em mim deposita e que a levou a incumbir-me desta tarefa. Outros motivos não há, pois, sendo eu um leitor que também vai escrevendo, não tenho, porém, competências para avaliar o que outros escrevem. Ou gosto ou não gosto e é com esse pressuposto que aqui estou para vos falar do livro “Palavras Pequenas, Pensamentos Grandes”. Do livro, mas também da mulher e da cidadã pois, este livro e a mulher que connosco partilha os seus pensamentos, segundo ela com palavras pequenas, são indissociáveis, como ao longo desta intervenção se poderá constatar, se eu para tal tiver engenho e arte.
Mas ainda antes de algumas considerações sobre o livro “Palavras Pequenas, Pensamentos Grandes” permitam-me deixar-vos um breve apontamento biográfico da Madalena Madureira que, sendo factual, nos ajuda a compreender a dimensão humanista e universalista da autora destes pensamentos que dedica aos seus quatro netos e que generosa e corajosamente hoje torna públicos.
A Madalena Madureira nasceu na cidade de São Salvador do Congo, Angola, a 9 de Outubro de 1945. Herdou do pai o gosto pelo desporto, mas também o espírito solidário que o caraterizava.
Após a independência de Angola, em 1975, emigrou para o Brasil, onde nasceram as suas filhas Patrícia e Paula, que profissionalmente se realizam nas áreas da investigação científica e na medicina veterinária.

Créditos Câmara Municipal de Lagoa
Chega aos Açores, em 1983, permanecendo durante um ano na ilha Terceira, e em 1984 fixa residência em S. Miguel, onde viveu e desenvolveu a sua atividade profissional até 2008.
A sua passagem pelos Açores, em particular por S. Miguel, onde consolidou a sua atividade docente. Atividade profissional que não se esgotava no espaço formal da aula, pois dos educadores e professores espera-se que integrem a comunidade onde vivem e contribuam com a partilha do seu saber e competências para o desenvolvimento social, cultural e, no caso da Madalena, para o desenvolvimento desportivo, seja ele de competição ou apenas de atividade física orientada que permita a aquisição de hábitos de vida saudáveis. E a Madalena Madureira é um bom exemplo desse professor por inteiro.
Mas voltemos aos factos. A Madalena Madureira, em S. Miguel, lecionou nas Escolas de Arrifes, Laranjeiras e Lagoa e, segundo ela, os anos em que viveu e trabalhou em S. Miguel terá sido o tempo mais feliz da sua vida e onde se realizou plenamente como professora, treinadora e dirigente desportiva.
Mas foi aqui, na cidade da Lagoa onde muito justamente estamos a reconhecer publicamente a sua intervenção, que o seu trabalho atingiu uma dimensão que ultrapassou as fronteiras do concelho, da ilha e da Região.
Na Escola Preparatória da Lagoa fundou o “CALAG” Clube de Atletismo da Escola Preparatória da Lagoa, cujo objeto era prática de atletismo e formação de jovens atletas, tendo este Clube sido considerado pela Federação Portuguesa de Atletismo, o melhor Clube de Formação de jovens atletas.
Foi Presidente da Associação de Atletismo de S. Miguel e sua Diretora Técnica, integrou, no âmbito da, então, Direção Regional de Educação Física e Desporto o grupo para o apoio aos “Jovens Talentos Regionais”
Foi treinadora e responsável pelo grupo de Atletismo do Clube Operário Desportivo, onde obteve, para o Clube, os títulos de campeão da 3.ª e 2.ª divisões nacionais e subida à 1.ª divisão nacional feminina,
Foi distinguida, pela Direção Regional de Educação Física e Desporto, durante 3 anos consecutivos, com o troféu “Reconhecer o Mérito”
A Madalena Madureira está de regresso aos Açores e traz-nos um livro para partilhar connosco.
Os amigos. colegas, alunos e atletas que com ela privaram recordam-na como uma mulher generosa e uma educadora que exerceu a docência com total entrega e estendeu o seu saber e competência à formação de atletas de competição em várias disciplinas do atletismo.
Como docente e treinadora foi sempre estimada e admirada pelos colegas, pelos alunos e pelos atletas. Este apreço pela Madalena Madureira deve-se à sua personalidade que transborda alegria, entusiasmo e o gosto pela vida.

Créditos Câmara Municipal de Lagoa
A Madalena Madureira é uma mulher sensível, mas determinada é uma sonhadora sem deixar de ser exigente consigo e com os outros.
O livro que agora é apresentado é simples e despretensioso, como a autora, mas evidencia os valores e princípios com que pautou e pauta sua vida.
“Pequenas Palavras, Pensamentos Grandes” não é uma história de vida nem contém apontamentos biográficos, porém quem ler os pensamentos e reflexões da Madalena Madureira fica a conhecer e, sobretudo, a compreender um pouco melhor esta mulher que, neste livro não nos conta a sua história, mas que tem muitas histórias para contar.
Por detrás de cada frase há uma história. Veja-se por exemplo: “Quando sofreres uma derrota, parte confiante para uma nova tentativa de vitória.” Quem está ou esteve ligado ao desporto conhece bem este sentimento e as histórias que estão por detrás de cada derrota ou de cada vitória. Mas esta pequena frase encerra um grande pensamento e ensinamento que se relaciona com a ação e a resiliência, Quem não luta já perdeu, quem luta pode sempre vencer.
Esta como outras frases com que a Madalena Madureira partilha connosco dizem bem da sua capacidade de recuperação perante uma situação adversa ou um obstáculo. A resiliência é, sem dúvida, uma das suas caraterísticas.
Mas a Madalena nunca foi acomodada nem se acomodou, este livro comprova-o. A Madalena é uma mulher que caminha pela vida utilizando o tempo e deixando, no tempo, a sua marca pessoal. Como deixa transparecer, a momentos, nas suas “Pequenas Palavras”: “Por mais que nos pareça uma continuação cada dia é um novo começo” ou ainda, “Aproveita bem a vida, ela passa por nós e sem pedir licença”.
São pequenas palavras, como estas que a Madalena Madureira partilha connosco e, sendo pequenas as palavras, os ensinamentos que podemos colher são grandes, desde logo porque nos obrigam a refletir sobre nós próprios, mais do que tentar perceber a história que pode estar na origem dos pensamentos e reflexões da autora.

Créditos Câmara Municipal de Lagoa
Podemos até tentar fazer o exercício de especular sobre o que motivou a Madalena Madureira a escrever, “Não varras os teus destroços para dentro dos teus sonhos”, ou “Quando as dúvidas deixarem de existir, é porque chegamos ao fim da nossa caminhada”, não é tanto o que está por detrás de cada pensamento que releva neste livro, mas antes, como já referi, a reflexão individual que possa vir a suscitar em cada leitor.
A partilha pública destas reflexões e pensamentos é um ato de coragem e generosidade da Madalena Madureira que, nesta fase da sua vida se dedica aos seus quatro netos, e, terá sido a pensar neles que foi anotando estas “Pequenas Palavras, Pensamentos Grandes”.
Afinal que melhor legado podemos deixar aos nossos filhos e netos do que uma herança imaterial, mas que de forma indelével os irá acompanhar ao longo da vida.
Obrigado pela partilha Madalena e obrigado por estas pequenas palavras com que abres o teu livro, “Escrever é transbordar para o Mundo o que nos vai na alma, e na alma vai o universo inteiro”
Obrigado pela Vossa atenção.

Aníbal C. Pires, Lagoa, 19 de Novembro de 2018

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Apresentação do livro “Palavras Pequenas, Pensamentos Grandes" de Madalena Madureira

A professora Madalena Madureira está de regresso aos Açores e traz um livro para partilhar connosco.
Os amigos. colegas, alunos e atletas que com ela privaram recordam-na como uma mulher generosa e uma educadora que exerceu a docência com total entrega e estendeu o seu saber e competência à formação de atletas de competição em várias disciplinas do atletismo.
Como docente e treinadora era estimada pelos colegas, pelos alunos e atletas.
Este apreço pela Madalena Madureira deve-se à sua personalidade que transborda alegria, entusiasmo e o gosto pela vida. Qualidades que continua a evidenciar e que, estou certo disso, o livro que traz para partilhar connosco nos confirmará.
A Madalena Madureira convidou-me para apresentar o seu livro “Palavras Pequenas, Pensamentos Grandes”. Eu aceitei e será um prazer estar hoje na Câmara Municipal da Lagoa, pelas 18h 30mn, com a Madalena Madureira e com antigos colegas, alunos e atletas com quem esta amiga e colega privou ao longo dos anos em que viveu e trabalhou em S. Miguel.
Sintam-se todos convidados.

sábado, 29 de setembro de 2018

Leituras de Verão, Corpo Triplicado - crónicas radiofónicas

Maria Brandão - Imagem surripiada da página da própria 




Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 14 de Julho de 2018 que pode ser ouvida aqui











Leituras de Verão – Corpo Triplicado

Hoje proponho-lhe uma breve viagem por um livro. Neste curto roteiro mais do que as minhas ficarão as palavras de quem escreveu o Corpo Triplicado.
E nada como o primeiro texto para se perceber qual o caminho que poderá vir a percorrer se, porventura, vier a aventurar-se a ler este livro da Maria Brandão. Não é um livro para todas as almas, como poderá concluir ao fim da leitura que lhe vou fazer do curto texto que dá pelo título de Sentido Único.
Vamos lá então.

“Sentido Único
Na minha casa não há roupa fora de uso, fotografias antigas, recordações de viagens, revistas desbotadas, recortes de jornais, bilhetes de amor, recibos de compras, artigos decorativos, vasinhos de plantas ou animais de estimação. Livro-me das coisas inúteis como me livro de amigos hipócritas e dos amantes incompetentes. Sem remorso e sem saudade.”

Foto by Aníbal C. Pires
Que me diz. Despontou-lhe uma pontinha de curiosidade ou, pelo contrário, acha que não vale a pena porque ninguém tem a casa assim, tão vazia. Repare, Só as inutilidades é que não são guardadas. Talvez a casa a que se refere a autora não esteja assim tão despojada como nos pode parecer à primeira vista.
Mas sim, Admito o texto tem um não sei quê de provocatório que em mim despertou um particular interesse, mas isso sou eu que navego contra ventos e marés. Percebo a sua perplexidade, mas espero ter-lhe despertado algum interesse pela leitura deste livro.
Espere mais um pouco. Não, não vou mudar de assunto, vou ler um outro texto do Corpo Triplicado. A Maria Brandão chama-lhe Manual de Sobrevivência Social, ouça com atenção e depois vamos de fim de semana que o tempo promete céu com boas abertas e uma ligeira subida da temperatura.

“Manual de Sobrevivência Social
Um olhar directo, uma voz firme e uma atitude imperturbável são ingredientes quanto baste para conquistar um estado de impenetrabilidade. Ninguém se atreve a contradizer-te sem ficar nervoso. Afogueado ou hesitante. Ninguém te pede ajuda para tarefas que não te dizem respeito. Ninguém te convida a participar em cafezinhos, almoços, lanches e jantares de grupo. Ninguém te desafia para uma volta de bicicleta, torneio de paintball ou passeata ambiental ao sábado de manhã. Ninguém te pede dinheiro para ofertas de aniversário, rifas estudantis ou associações de protecção de animais. Ninguém te propõe apostas conjuntas no euromilhões e na lotaria de Natal. Ninguém repara, quando vais de férias e ficas doente. Ninguém te faz perguntas para lá das estritamente profissionais ou necessárias. Também funciona com vizinhos bisbilhoteiros, missionários insistentes, senhores sentados na cadeira ao lado no avião, machos latinos de vocabulário limitado, garanhões em fim de carreira e todos os chatos em geral.”

A sua curiosidade aumentou ou esta abordagem é-lhe indiferente. Seja como for se puder leia. Garanto que se vai surpreender a cada texto. Não lhe estou a dizer que se vai maravilhar, como lhe disse logo no início este não é um livro para todas as almas. Mas tenho cá para mim que a leitura do Corpo Triplicado da Maria Brandão não lhe será indiferente.

Fique bem.
Eu voltarei, assim o espero, no próximo sábado

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 14 de Julho de 2018

sábado, 15 de setembro de 2018

A demanda de José Filemom - Crónicas radiofónicas






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 23 de Junho de 2018 que pode ser ouvida aqui








A demanda de José Filemom

Foto by Aníbal C. Pires
Tenho para comigo que pouco acrescentarei ao muito que os leitores, do mais recente romance de Joel Neto, têm dito e tornado público sobre o “Meridiano 28”, mas ainda assim e correndo o risco de não acrescentar rigorosamente nada às apreciações já feitas. Ainda assim, e, porque não tenho temor de arriscar, aqui fica a minha opinião. Opinião que é apenas mais uma, entre muitas outras.
Para quem não conhece a história dos Açores e, neste particular, a história do Faial do século XX ficará com curiosidade em saber mais depois de ler o “Meridiano 28”, se já antes a baleação e a presença dos Dabney tinham contribuído para a transformação social e económica desta ilha açoriana, a instalação dos cabos submarinos e a fixação de uma significativa comunidade alemã e inglesa, mas também o início da operação aérea dos clippers da Pan Americam, em 1939 e que se prolongou durante o período da II Guerra Mundial, fixaram, naturalmente muitos americanos. A cidade da Horta acolhia, ainda, uma diversidade de outras nacionalidades menos numerosas, é certo, mas que lhe conferiam caraterísticas únicas. É neste ambiente cosmopolita e de interação entre as diferentes comunidades estrangeiras e algumas famílias faialenses que se desenrola a teia urdida pelo Joel Neto e que os leitores vão, sofregamente, acompanhando ao passar de cada página.
Apesar do que ficou dito e o que mais me aprouver dizer, o “Meridiano 28” não é um romance de época, Digo eu, salvaguardando melhores e doutas opiniões. O mais recente romance de Joel Neto é intemporal como o é o amor e o ciúme, a amizade, a convivência pacífica e a solidariedade, mesmo em tempo de guerra, como é o sonho e a fantasia, a natureza tranquila e bela, mas também uma natureza capaz de enormes cataclismos que podem transformar (transformou) as fronteiras de uma pequena ilha do Atlântico Norte.
Se o centro desta urdidura de Joel Neto é a cidade da Horta e o período da II Guerra Mundial a estória não se confina nem ao espaço, nem ao tempo, outra coisa não se podia esperar pois, os açorianos nunca se deixaram espartilhar pelo horizonte. O horizonte é logo ali e para lá dele ficam os sonhos e outros Mundos, outras verdades. E é a demanda de José Filemom, por outros lugares outros tempos, que acompanhamos ao longo da teia que o Joel urdiu.
Sendo de um tempo de guerra este não é um livro sobre os horrores da guerra. Este será, também, um aspeto que diferencia este romance de outros cujo tema se centra neste período negro da história da humanidade que foi a II Guerra Mundial.
Depois de ter lido o “Meridiano 28”, e mesmo conhecendo razoavelmente o Faial e a sua história o meu olhar sobre a cidade da Horta e a ilha do Faial nunca mais será o mesmo.
Obrigado Joel.

Quanto a si que esteve comigo, Fique bem.
Eu voltarei, assim o espero, no próximo sábado

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 30 de Junho de 2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O livro na Festa do AVANTE

Imagem retirada da Internet

Na FESTA há espaço para as muitas expressões literárias: poesia teatro, ensaio e literatura para a infância. Pelo meio, conversas com autores, debates, apresentações, autógrafos, oficinas e, sobretudo, um grande convite à leitura e à reflexão. É o livro em FESTA.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Livros, jornais e encontros


Foto by Helena Frias

Um destes dias encontrei-me com o autor do livro (não deixem de ler) “Um Perigoso Leitor de Jornais”, levava comigo um jornal para lhe oferecer, afinal aquele título, a par de outros, quiçá mais recomendáveis, era um dos que o seu avô lia e discutia com alguns micaelenses na década de 30, do Século XX. E por ler jornais e procurar outras verdades, para lá da verdade oficial, acabou preso com mais umas dezenas de micaelenses e a cumprir pena na fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo onde se juntou a muitos mais portugueses que cumpriam pena por lutarem pela democracia e pela liberdade.
Hoje o Carlos Tomé pode ler o “Avante” e todos os títulos que lhe der na real gana. Pode fazê-lo sem que corra qualquer perigo de vir a ser preso, por ler jornais. Não se chegou aqui por acaso, a história é de resistência, mas é sobretudo uma história de luta contra o obscurantismo.
Não é a primeira vez que aconselho a leitura deste livro, fica mais este registo e não deixem de ler.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

... do gosto pelos livros

Foto by Aníbal C. Pires (2018)
Hoje comemora-se o Dia Mundial do Livro, mas não vou fazer a apologia do livro, nem sequer sugerir este, ou aquele título como leitura. Essa escolha, assim como a opção entre ler ou não ler, é sua, como em tudo na vida.
Não tenho um livro nem um autor que prefira, aliás tenho sempre muita dificuldade quando me perguntam, De qual gostas mais. Seja a pergunta sobre música, literatura, gastronomia, países, cidades, cinema, ou o que quer que seja. O meu gosto não é dado a exclusividades, o que não significa que goste de tudo, Não, também não é assim. Sei do que gosto e porque gosto, mas não rejeito novas experiências, só conhecendo posso dizer se é, ou não do meu agrado.

Foto by Aníbal C. Pires (2018)
Neste dia dedicado ao Livro confesso publicamente, Ler é para mim um prazer, e como em tudo o que faço procuro prazer, Leio sempre que tenho um momento para me encantar na busca do prazer que as palavras reunidas num livro me podem proporcionar. É um prazer solitário, Dirá. E talvez assim seja. Mas nem por isso deixa de me saciar a vontade de conhecer, de viajar, de fazer parte de uma estória escrita num qualquer rincão deste planeta. E isso é bom, muito bom.
Ó meus deuses como é bom.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Abril de 2018

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A Brecha, um apontamento - crónica radiofónica

Foto by Aníbal C. Pires (2017)
Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 25 de Novembro de 2017 que pode ser ouvida aqui

Há publicações com propósito e publicações a propósito. Esta não é uma coisa nem outra. É mesmo uma coincidência, uma feliz coincidência no final da semana em que foi anunciada a lista de finalistas ao Prémio Literário Casino da Póvoa. A Brecha, está lá.
Parabéns ao João Pedro Porto.



A Brecha – um apontamento

Do livro A Brecha de João Pedro Porto disse, num desses comentários imediatistas e de ocasião numa publicação do Facebook, que a leitura do último romance deste jovem escritor açoriano, não é a mais adequada para o Verão.
E mantenho. A Brecha é um daqueles livros que devem ser consumidos no aconchego das noites de Inverno.
É uma leitura densa que necessita de tempo e atenção pela sua complexidade, mas também pela riqueza da escrita que ora se assume em prosa, mas também em poesia e na dramaturgia.
O recurso à mitologia clássica e algumas referências da história nacional compõem uma trama intrincada, onde tudo pode acontecer. Até a morte dos deuses às mãos do Homem.
Ficam alguns fragmentos, no vídeo abaixo, deste livro de João Pedro Porto que aquando da leitura sublinhei e que hoje partilho convosco.

(…) Mais uma prega virada no escuro e será como se durma sem saber se acordo. Mas, e daí, assim o é todo o sono. (…)

(…) Ao pôr-se a jeito de cheiros, o Homem notou um fétido odor que emanava de todas as bocas falantes. Toda aquela gente era de má-língua, não por contrafazerem as sintaxes, mas por darem mau uso à taramela. A coisa era feita de duas maneiras distintas. Ora se falava bem de face a face ora se desnaturava o dito, feito não dito nas costas de quem se abandonava com um pois bem e um aceno. Não teria, o Homem, espinhaço para isso. (…)

(…) A terra terá sido sempre lida com as páginas e as cabeças erigidas a Norte, salvo pelos povos da meia-lua. Desse Norte se disse, por anos, ser o hemisfério superior, que é como quem diz: de superior condição. O Sul será sempre algo selvático, onde se dançam os tangos e se matam os homens por ninharias. A futilidade é mortal, no Sul. Será por isso que lá vamos. Não há banalidade no Sul. Se o mistério tiver esconderijo, esse será sempre austral. Até o órgão mais carnal e o pórtico mais recôncavo de todo o éden moram no lugar sulino do corpo dos homens e das mulheres. (…)

(…) Tudo começou com um som daqueles que são exclusivos do silêncio. De todos os sons de que se faz o silêncio, o mais conhecido é o zunzum. Seguem-se-lhe o tinido e o zumbido. Mas de nenhum desses se faria aquele que ouvi. Era algo mais parecido com o roçar de tecidos espreguiçados a bocejo. Ajudava que o zunido do vento fosse quebrado pelos arcos. Tomei isto como consideração, porque poderia, na realidade, tudo ser obra do vento, que é um ser curioso. Não por ter qualquer interesse, mas por ter nariz. E a tendência abstracta de o enfiar onde não é chamado. Se bem que, para cusco, já lá estava eu. (…)

(…) Nada muda! Continuas o mesmo. Sim, existiam os deuses. Mas de nada serviam. Não eram mais que palavras ditas pelas nossa bocas, obeliscos de prefeitura. Coisa de adoração, coisas de temer. E sem perfeição que se visse. Não eram mais que gentes, também. Feitos por outras gentes. Gentes como nós. (…)

(…) Esse oceano, destinado , destinado a encantar-me a alma com a escuma, começou toda esta demanda enredada em vil fuso e agora aqui narrada como se o passado voltasse a ser algo que não apenas uma coisa deixada para trás. Assim, pois, parti (…)

(…) Adeus ó mundo,
Adeus ó eu, que me vou
na carquilha que vem.
Mais uma prega virada no escuro
E será como se durma;
Nada mais. (…)

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Novembro de 2017

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Em Lisboa, Um Perigoso Leitor de Jornais


Um Perigoso Leitor de Jornais, romance baseado em factos reais, da autoria de Carlos Tomé, é apresentado em Lisboa, já hoje, dia 19 de Janeiro, pelas 21h 30mn..
A Casa dos Açores de Lisboa acolhe e promove este evento literário ao qual, para quem estiver por Lisboa ou arredores aconselho a ir e a adquirir um exemplar do livro que é apresentado.
Quem ler vai ficar surpreendido, não só pela escrita fluida e realista do autor, mas sobretudo pela temática que aborda. Carlos Tomé não só resgata a estória do seu avô, o autor resgata para a memória coletiva regional e nacional uma das muitas estórias de que foi feita a luta contra o fascismo em Portugal..
Trata-se da estória de mais de duas dezenas de micaelenses presos na cidade de Ponta Delgada, em 1938, e condenados ao degredo no forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, grupo do qual fazia parte Carlos Ildefonso Tomé, avô do autor, carteiro de profissão.
No forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, Carlos Ildefonso Tomé foi enclausurado na ala onde estavam alguns dirigentes comunistas, entre os quais Pires Jorge, com quem manteve uma relação de amizade e camaradagem.
Um Perigoso Leitor de Jornais constitui um importante e genuíno contributo para a compreensão social e política de uma época da nossa história coletiva sobre a qual existem poucos estudos e muitas tentativas de branqueamento.
Quando assisti ao lançamento do livro em Ponta Delgada escrevi uma publicação que pode ser lida aqui

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Toada do mar e da terra - dia 15 no Faial


No próximo dia 15 de Janeiro, na cidade da Horta, pelas 21h, na Cedars House, terá lugar a apresentação pública do livro “Toada do mar e da terra – Volume I 2003/2008”, crónicas de Aníbal C. Pires e ilustrações de Ana Rita Afonso. A sessão será presidida por Sua Excelência a Presidente da ALRAA e a apresentação do livro será feita por Renata Correia Botelho.
Aqui fica o convite.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

No Portuguese Times de New Bedford







A última edição impressa do “Portuguese Times", dia 13 de Dezembro, divulga na coluna “Nas Duas Margens”, de Vamberto Freitas, o livro “Toada do mar e da terra (Volume I – 2003/2008)
O “Portuguese Times” é um jornal semanário das comunidades portuguesas na costa Leste dos Estados Unidos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Já nas livrarias

Foto by Paulo Cabral

O livro de crónicas revisitadas “Toada do mar e da Terra (Volume I – 2003/2008) já está à venda na Livraria Leya SolMar, em Ponta Delgada, e nos próximos dias estará disponível na Ilha Terceira, na Loja do Adriano, na ilha do Faial, na Livraria O Telégrafo, na ilha do Pico, na Bel’ Arte (Madalena), e na Livraria Ferin, em Lisboa

domingo, 3 de dezembro de 2017

... da agenda para dia 7 de Dezembro



Na próxima quinta-feira, dia 7 de Dezembro de 2017, pelas 18h 30mn, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, terá lugar a apresentação do livro “Toada do mar e da terra (volume I – 2003/2008), de Aníbal C. Pires e com algumas ilustrações de Ana Rita Afonso e edição da Letras LAVAdas.
Vamberto Freitas que prefaciou o livro fará a apresentação pública.




domingo, 26 de novembro de 2017

A Brecha – um apontamento

Foto by Aníbal C. Pires
Do livro A Brecha de João Pedro Porto disse, num desses comentários imediatistas e de ocasião numa publicação do Facebook, que a leitura do último romance deste jovem escritor açoriano, não é a mais adequada para o Verão.
E mantenho. A Brecha é um daqueles livros que devem ser consumidos no aconchego das noites de Inverno.
É uma leitura densa que necessita de tempo e atenção pela sua complexidade, mas também pela riqueza da escrita que ora se assume em prosa, mas também em poesia e na dramaturgia.
O recurso à mitologia clássica e algumas referências da história nacional compõem uma trama intrincada, onde tudo pode acontecer. Até a morte dos deuses às mãos do Homem.
Ficam alguns fragmentos, no vídeo abaixo, deste livro de João Pedro Porto que aquando da leitura sublinhei e que hoje partilho convosco.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Novembro de 2017



domingo, 29 de outubro de 2017

Os Ossos Dentro da Cinza, uma nota e dois poemas

Foto by Aníbal C. Pires
Emanuel Jorge Botelho apresentou ontem, na Livraria Leya SolMar, o seu mais recente livro de poemas, Os Ossos Dentro da Cinza.
Não me cabe falar sobre o poeta nem da sua poesia.
Do homem sou amigo.
Da poesia gosto.
Para mim é quanto baste.
De apreciações, sobre a poesia e o homem, estamos falados, mas não ficaria tudo dito se me quedasse por aqui.
Para conhecerem, um pouco, a poesia de que falo e do que é feito o homem que a escreve, nada melhor que a leitura de dois poemas, do Emanuel Jorge Botelho, insertos no livro Os Ossos Dentro da Cinza.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Outubro de 2017




RUA DO SACO, N.º 15 (II)

o meu vizinho predilecto
morreu na guerra.

ele gostava de mim porque me acenava
quando dizia o meu nome.

no Verão, o meu vizinho passava, todas as manhãs,
perto da minha porta.
ia a caminho do mar.

quando me disseram que ele morrera na guerra
eu ainda não pensava que podia lá morrer.

eu não me recordo do nome do meu vizinho,
e queria tanto dá-lo
à saudade que dele tenho.

Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno


O BANCO DE ANTERO

dois pedaços de madeira
batidos por uma luz amarga.

o dia soube da tua ida ao armeiro,
e ordenou aos pássaros que recolhessem
mais cedo.

estrelas, no Céu, ninguém deixou dito se vieram,
e tu não estarias com elas
mesmo que olhasses para cima
quando o cano te tocou o palato.

sentaste-te porque querias ir-te embora,
farto de forçar o labirinto,
exausto de dizer ao norte
que a bússola é, só, um adereço.

as coisas são como são.
não vale a pena dar-lhes debrum de rosas bravas,
ou colheres de água quente
com três pitadas de açúcar.

foi em Setembro, como podia ter sido em Janeiro.
aguentaste, como um felino,
o coice da solidão,
e disparaste dois tiros
para matar o regresso.

quem te fechou os olhos
ouviu-te agradecer.

Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Festa do Livro - a literatura na FESTA


A FESTA não é só da Música, do Teatro ou das Artes Plásticas, a Festa é, também, do Livro.
Sessões de apresentação de novos livros, conversas com os autores, debates e a Festinha do Livro para os mais novos.






São milhares de títulos, dezenas de editoras, descontos e promoções. Ou seja, a Festa do Livro é de visita obrigatória. Porque ler é libertador.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Resgates, ou um perigoso leitor de jornais

Carlos Tomé - foto de Eduardo Costa
Um Perigoso Leitor de Jornais, romance baseado em factos reais, da autoria de Carlos Tomé, foi ontem apresentado em Ponta Delgada. Não tendo nenhuma pretensão de fazer crítica literária, deixo essa tarefa para quem de direito, mas não posso deixar de fazer algumas referências a este livro que, por gentileza do autor, a quem agradeço, me chegou às mãos uns dias antes de ser conhecido do público.
Ontem na apresentação do livro afirmou-se que esta estória consistia no resgate da memória do avô do autor, e assim é. Mas Carlos Tomé não só resgata a estória do seu avô, o autor resgata para a memória coletiva regional e nacional, um período da nossa história sobre o qual não existe muita informação e que carece de um estudo mais aprofundado. A revolta dos degredados em Angra do Heroísmo, 1931, ou as manifestações populares de 1933, em Ponta Delgada, que culminaram numa greve geral por altura do Carnaval desse ano, ou a estória de mais de duas dezenas de micaelenses presos, em 1938, e condenados ao degredo no forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, grupo do qual fazia parte Carlos Ildefonso Tomé, avô do autor, bem assim como muitas outras estórias, muitas estórias de resistência a um regime opressor e cruel, necessita de mais atenção investigação.
Era um regime que prendia arbitrariamente, que torturava, que matava, que sonegava direitos tão elementares como o direito ao ensino. Veja-se este trecho do livro de Carlos Tomé, (...) - A escola não é para comunistas, nem para os filhos dos comunistas, perceberam todas? Ela foi expulsa, vai para casa!
Ato contínuo, pegou na mão de Lígia, com mais firmeza do que a necessária para os sete anos da “comunista”, e com um seco “Bom dia! Pôs-se a caminho, levando-a da escola, … afastando-a irremediavelmente dos seus sonhos de menina.” (...)  
Carlos Tomé não é um historiador, é jornalista, mas com esta obra dá um importante contributo à história da luta contra a ditadura do Estado Novo. O seu avô distribuía correspondência em Ponta Delgada, na correspondência vinham jornais de Lisboa que continham outros jornais, Carlos Ildefonso Tomé, soube e continuou a entregá-los aos destinatários, e a lê-los. Sim era o Avante! Lia outros, os que se publicavam em Ponta Delgada, os que vinham de Lisboa e os que vinham da comunidade açoriana radicada na costa Leste dos Estados Unidos. Tinha esse mau hábito, lia jornais.

Foto by Aníbal C. Pires
Isso custou-lhe a prisão, o degredo. Isso custou à Maria José, sua mulher, e aos seus nove filhos muitos sonhos por cumprir e o peso do estigma que sobre eles se abateu. Talvez isso tenha sido mais penalizador para Carlos Ildefonso do que os dias que passou na Poterna, no forte de S. João Baptista.
Foi preso pela PSP de Ponta Delgada, esteve na cadeia da Boa Nova e foi degredado para Terceira onde cumpriu a pena que um Tribunal Militar Especial o condenou. No forte de S. João Baptista, onde na altura se encontravam mais de duas centenas de presos políticos, ficou na caserna dos comunistas, aí privou com Joaquim Pires Jorge e com José Gregório, de entre outros destacados militantes do PCP, com os quais manteve uma relação, como não podia deixar de ser, de grande camaradagem. Carlos Ildefonso não era militante do PCP, mas foi acolhido como se fosse um deles. Carlos Ildefonso não sendo militante do PCP, durante este processo e nos longos meses que passou preso no forte de S. João Baptista, comportou-se como se o fosse e granjeou o respeito de todos, designadamente, do Joaquim Pires Jorge e do José Gregório.
Ontem coube a Carlos César fazer a apresentação do livro e do autor e, a Carlos Enes o enquadramento histórico. Ontem, talvez, pela primeira vez estive de acordo com Carlos César, de acordo sem qualquer reserva, o livro Um Perigoso Leitor de Jornais deve fazer parte da leitura obrigatória em todas a escolas da Região. Espero que esta sugestão de Carlos César seja aceite pela tutela da Educação e pelos responsáveis pela rede regional de bibliotecas.

Uma nota final para dizer o que ainda não disse, Gostei, gostei até às lágrimas. Não apenas gostei como me emocionei durante a leitura. Nem todos os livros de que gosto me emocionam, mas este foi um deles. A emoção fez com que as lágrimas rolassem pelo meu rosto.
Bem hajas Carlos Tomé.

Ponta Delgada, 30 de Maio de 2017