segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cumpre-se a vida

Ciclo da vida

A tia Maria Augusta
Partiu hoje
Mulher de parcas palavras
E um coração imenso
Sempre disponível
A todos acudia
Sem nada querer
Sem um queixume
Cumpriu a vida


Não morres tia
Não te olvido
Ficas comigo
Ficas connosco
Naquele cantinho
Onde mora
Quem amamos

Aníbal C. Pires, Horta 12 de Janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

De novo a SATA e os meus lamentos

Foto - João Pires
Os últimos dias foram profícuos na divulgação de notícias avulsas sobre o Plano Estratégico do Grupo SATA. 
O estratagema comunicacional adotado não é novo, vem nos manuais, e mais não pretende do que ir preparando a opinião pública para ficar pelo acessório e desviar a atenção do que é verdadeiramente essencial.
Lamento. Lamento que face à inevitável alteração do mercado dos transportes aéreos, imposição vinda do exterior, liberalizar é a palavra de ordem, resulta de uma imposição da Europa do nosso (des)contentamento. Concorrência e mercado são os dogmas da teologia neoliberal que faz Escola nos corredores do poder político servil aos interesses dos oligopólios financeiros, mas como dizia face às inevitáveis transformações no mercado dos transportes aéreos, lamento que só agora o Grupo SATA venha apresentar um Plano Estratégico de médio prazo, do qual e apesar de um conjunto de contradições, visíveis nos pormenores que a comunicação social tem vindo a tornar públicos a mando e ao serviço de uma estratégia comunicacional espúria, ainda deposito alguma expetativa.
Lamento. Lamento que o Governo regional tenha adotado este ardil comunicacional e não tenha feito o que eticamente seria mais correto, ou seja, a sua apresentação integral desde logo aos representantes eleitos pelo Povo Açoriano e à opinião pública em geral. Mas este facto já o referi num outro escrito ou comentário.
Foto - Aníbal C. Pires
Lamento. Lamento que as soluções que foram adotadas e que têm sido motivo de gáudio para um segmento da população dos Açores e para os operadores turísticos, nem todos pois a sobrevivência das agências de viagens está em perigo, não tenha tido como prioridade das prioridades a resolução do problema para os açorianos, e não foi. A prioridade das prioridades foi e é resolver, no imediato a sobrevivência de um setor que enforma desde a sua conceção um problema crónico, e a história tem o seu início em 2000, com o segundo governo de Carlos César e do PS Açores, história que aqui não vou desenvolver mas que a história económica deste período irá, em tempo oportuno, clarificar e deslindar esta minha afirmação.
Lamento. Lamento que em todo este processo não tenham sido defendidos os interesses dos Açores e dos açorianos. Não ter acautelado os interesses do Grupo SATA, desde logo de uma das suas empresas, significa secundarizar o que devia ser prioritário para qualquer Governo Regional, o Povo Açoriano. E foi e é isto que tem vindo a acontecer.

Foto - João Pires
Lamento. Lamento que um certo PS Açores, e não me refiro a Vasco Cordeiro e aos militantes e quadros que estão verdadeiramente com ele, aliado a um conjunto de mercenários do setor do transporte aéreo, tenha sido protagonista e cúmplice de um processo que a prazo vai colocar em causa a companhia aérea regional que, tal como a companhia aérea nacional, são muito mais do que meras transportadoras aéreas. A SATA e a TAP são ou deviam ser a imagem de marca da Região e do País no Mundo, embaixadores itinerantes. É assim que a comunicação avulsa da SATA justifica a alteração da designação para Azores Airlines, embora eu tenha cá para mim que o objetivo não é apenas esse.
Lamento. Lamento tudo isto porque disponho de dados objetivos e subjetivos que me permitem concluir que com este modelo de transporte aéreo que está desenhado para os Açores houve e há quem tenha muito a lucrar, não o turismo, não o Povo Açoriano, Sim, isso mesmo pessoas individualmente consideradas. Mas isso fica para as minhas memórias ou, quiçá para quando não haja forma de, ainda que indiretamente, me prejudicarem. Não a mim mas a quem no seu último nome tem o meu apelido. Não é falta de coragem é apenas evitar que terceiros sejam prejudicados como já no passado recente aconteceu.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 08 de Janeiro de 2015



Uma das faces da censura

A rádio e televisão pública dos Açores, como é habitual, cobriram ontem uma reunião da Comissão de Política Geral (CPG).
Para além de assuntos da rotina do funcionamento da CPG realizaram-se duas audições (Vice-presidente do GR e Presidente da Delegação da ANAFRE nos Açores) sobre uma iniciativa do PCP Açores, a saber um Projeto de Resolução que Recomenda ao Governo Regional que reforce o apoio e a cooperação com as Freguesias dos Açores, assunto de todo desconhecido da jornalista da televisão pública, como aliás o demonstrou em conversa comigo, tendo eu optado por não lhe lembrar ao que ela vinha, não me competia a mim. Demonstrou também algum enfado por ter de estar ali e que não estava disposta a aguardar pelo fim dos trabalhos da CPG, mas a sua “má disposição” devia-se, também, segundo a própria ao facto de ter sido “pressionada” por um telefonema de um dos assessores de imprensa da Vice-presidência do Governo. Enfim, nada disto tem relevância e, sobretudo é prática comum.
Tudo isto se passou antes do início dos trabalhos da Comissão, quiçá devido ao enfado, à pressa para partir para outros trabalhos, porventura bem mais importantes do que a CPG que discutia uma proposta que visa melhorar as respostas das freguesias às populações que servem.
Não tendo conseguido ouvir quem queria antes do início dos trabalhos da CPG, alcançou o seu objetivo durante um breve intervalo em que se procedeu à saída do Vice-presidente e à entrada do Presidente da Delegação da ANAFRE, dois dos intervenientes. A jornalista cumprindo, certamente, ordens da redação não ouviu mais ninguém, nem o PSD, nem o CDS/PP, nem o BE, nem o autor da proposta, o PCP. Mas como disse esta é uma prática comum e uma responsabilidade que não posso, sob pena de estar a ser injusto, atribuir à jornalista.
O jornalista da rádio fez o seu trabalho, o trabalho que a redação lhe solicitou em função dos critérios editoriais que foram definidos, pela redação, para a cobertura da reunião da CPG.
Não ouvir os restantes intervenientes é informar de forma parcial. Não ouvir os argumentos do proponente é, censura.
Censura justificada em critérios editoriais. É prática comum mas já aborrece para além de resultar no empobrecimento da democracia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 08 de Janeiro de 2015

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ontem à tarde

Direitos reservados
Aí está. Eis-nos chegados a 2015 e, como sempre, no início de um novo ano estamos cheios de esperança e de boa vontade, com determinação e firmeza para mudar, Mudar hábitos, mudar de vida, mudar o que quer que seja, nem que seja de governo, se bem que o melhor mesmo seria mudar de políticas mas o medo, ai o medo. E não adianta comprar um cão que este medo de mudar, este medo de romper vai levar tempo a ausentar-se e não há cão por mais robusto e agressivo que seja que ajude a afastar este medo que nos consome.
Não me parece que o medo, embora ele esteja presente e condicione, seja grande tema para dissertar neste escrito de princípio de ano. O melhor será mesmo falar de uma qualquer frivolidade. Sempre há quem leia e não maça ninguém. Talvez uma conversa de mesa de esplanada possa interessar, vamos lá então.
Ontem ouvi, enquanto tomava um café na esplanada do bairro, não que estivesse atento ao que se dizia, lá sou homem para isso, mas porque quem falava não circunscreveu a conversa a quem partilhava da sua mesa, falou de modo a que todos os que por ali estavam partilhassem as suas reflexões, e eu como disse, ouvi. 
Ouvi e apreciei o que me foi dado escutar. Como pode alguém não apreciar que a conversa de três jovens adultos se centrasse na importância do turismo sustentável colocando em causa a eventual, mas tão desejada, invasão de turistas que se prevê para este ano e para os que se lhes seguem. Como assim, pensei para comigo, como é que o esperado aumento exponencial de turistas pode colocar em causa a sustentabilidade de um destino turístico. E os três jovens continuavam, a competitividade dos destinos está intimamente relacionada à sustentabilidade e, acrescentavam, o conceito de sustentabilidade é, desde logo ambiental mas, também, social e económico. A sustentabilidade do destino é construída a partir de uma simples constatação do mercado. Os turistas pagam mais caro para conhecer locais menos explorados, menos turísticos, menos massificados, onde as experiências são únicas. E eu cada vez mais estupefacto, não é que os miúdos são bem capazes de ter razão, os Açores valem pela sua singularidade geográfica, ambiental, paisagística e cultural, sendo um destino único a sua massificação pode por em causa a sua mais-valia, pensei eu enquanto continuava a ouvir mas agora atentamente e, com uma incontrolável vontade de colocar algumas questões. Não o fiz, não foi necessário porque as respostas às minhas dúvidas vieram prontas, fundamentadas e esclarecedoras à medida que a conversa na mesa ao lado se desenrolava. Esta tentativa viabilizar o setor do turismo na Região com a sua massificação, tendo como principal âncora as passagens aéreas de baixo custo é um erro que nos vai ficar caro, desde logo porque o setor não está preparado para receber com qualidade que a excelência e singularidade do destino o exigem e, por outro lado à riqueza gerada não irá corresponder um esperado desenvolvimento harmonioso. Não será bem assim, exclamo para com os meus botões. A resposta vem da mesa ao lado, o que vai acontecer é o acentuar das assimetrias de desenvolvimento regional pois o modelo está desenhado para centralizar os fluxos turísticos em S. Miguel, por outro lado e como é sabido as companhias aéreas de baixo custo depois instaladas aprisionam os destinos, ou seja, não havendo obrigações de serviço público o baixo passa a ser elevado, muito elevado.
E pronto, eu que por vezes tenho algumas dúvidas sobre esta geração, fiquei esclarecido quanto ao valor e formação de uma geração em que muitos não depositam grandes expetativas, mas também quanto a algumas dúvidas que subsistem e têm sido objeto de apaixonadas mas superficiais e pouco fundamentadas discussões nas redes sociais. 
Ponta Delgada, 05 de Janeiro de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 07 de Janeiro de 2015

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Talvez para a semana

Foto - Madalena Pires
Vemos, ouvimos, lemos e, constatamos que os juízos emitidos evidenciam o que de mais negativo acontece. Os atrasos da SATA sem nos lembrarmos que a pontualidade é a norma, o absentismo docente quando a assiduidade é a regra, uma indignidade ao invés de uma virtude, um mau momento por muitos momentos bons. É um processo de apreciação de algo ou de alguém, resultante da irreflexão, mas produz como efeito denegrir, penalizar, desvalorizar, magoar … É fácil reconhecer o que está mal ou menos bem, difícil é valorizar o que está bem ou menos mal.
Somos assim, não seremos todos mas somos muitos a fazê-lo. Cultivamos a maledicência. Não sei se é uma caraterística lusa e luso descendente ou se é transversal à humanidade, tenho é a convicção que não é uma qualidade humana inata. E não o sendo foi construída e é alimentada como mais uma forma de moldar a opinião pública. Se nos dizem que os docentes são faltosos e estabelecermos uma ponte com a carreira remuneratória e com os horários letivos, quem não se lembra disto, temos a opinião pública ganha para introduzir alterações que irão desvalorizar a profissão docente. Desvalorização que não produz efeitos que nos dizem serem necessários, como seja o aumento da qualidade do ensino e a redução do insucesso escolar. Bem pelo contrário a qualidade tem vindo a diminuir e os números do sucesso estão mascarados.
Qualquer processo de avaliação visa, em última instância, introduzir alterações que melhorem os desempenhos, sejam eles pessoais, empresariais, económicos, políticos etc.. Mas na verdade a avaliação tem vindo a servir para penalizar, não para transformar. A avaliação tem vindo a ser subvertida e utilizada com objetivos que não visam melhorar e transformar, visam destruir. Por isso, talvez por isso nos tenham habituado a evidenciar o que é negativo. E nem tudo é assim tão mau se desenvolvermos a capacidade de ver para além de olhar, ouvir para além de escutar e de ler para além das palavras escritas.
Ainda não percebi como raio desenvolvi este tema, não faço ideia como vou continuar e quando me aproximar do número limite de carateres, então sim é que a “porca vai torcer o rabo”.
No fundo, lá bem no fundo os primeiros parágrafos resultam, estou certo disso, de pequenos e soltos registos auditivos, escritos e do audiovisual que me causam incómodo e inquietação. Não diria que são futilidades, se o fossem não lhes daria importância, mas incomoda-me e inquieta-me ouvir ocasionalmente ou, de forma organizada e sistemática, opiniões unilaterais, parciais e, como tal, sem fundamento porque abordam apenas uma parte da questão. Sei que as análises holísticas não são compagináveis com o imediatismo, sei disso mas esse facto não desculpa a leviandade com que se produzem afirmações como se fossem verdades insofismáveis que depois se transformam em mitos que dificilmente se conseguem desconstruir. A este propósito veio-me à lembrança um pequeno “exercício” que desenvolvi com um grupo de jovens. De entre outras formulei a seguinte pergunta, Quem venceu a guerra do Vietname, a resposta foi, os americanos. Não me surpreendeu a resposta. Habituados como estavam a visionar a cinematografia de Hollywood não seria de esperar que a resposta fosse a outra, a correta.
Agora é chegado o momento em que “a porca vai torcer o rabo”. O dilema é, como vou fechar este texto. Não é um escrito qualquer, é o primeiro texto que publico em 2015 e as datas têm a sua importância, quem lê as colunas de opinião e reflexão espera sempre por mais objetividade, desde logo num texto que marca um novo ciclo anual, e o que ficou registado não passa de uma divagação de Domingo à noite. Estou aqui à procura de uma frase forte, uma palavra de esperança, uma ideia inovadora. E não acontece nada, talvez nos meus arquivos encontre, vou procurar e talvez descubra uma velha frase, uma palavra escrita com esperança, a tal ideia que podendo ser antiga possa transmitir algo que se mantém novo e ainda, por não ter sido concretizado, continue a ser inovador. Talvez para a semana já tenha encontrado algo com que vos possa surpreender, Hoje não.    

Ponta Delgada, 04 de Janeiro de 2015

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 05 de Janeiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Monica Bellucci - a abrir Janeiro

É um ano em que alguns depositam grandes expetativas.
Eu nem por isso, ainda assim, não vou deixar de continuar a insistir, com determinação redobrada.
Mas isso são contas de outro rosário. A primeira publicação do primeiro mês de 2015 é para enaltecer a beleza feminina.









Monica Bellucci continua a ser uma das minhas referências e como só partilho o que gosto ficam  imagens desta linda mulher com os votos de um BOM ANO de 2015.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Compromisso com o futuro


Foto - Madalena Pires
Ainda que sem expetativas, nem grandes nem pequenas, quanto a alterações nas condições de vida da generalidade dos portugueses para 2015, manda a tradição que formule votos de um feliz Ano Novo, um ano que desejo de prosperidade para todos quantos não têm tido acesso à fortuna de ter trabalho e um rendimento digno. E faço-o não só porque manda a tradição, faço-o porque sinceramente é esse o meu desejo. Desejo que traduzo no meu quotidiano de luta por mais e melhor justiça social. Não espero transformações mas não renuncio a procurar que as haja, não desisto de lutar e continuo a alimentar a esperança e a luta pela sua concretização.
O ano que agora se inicia é de eleições e de entrada de fundos do novo quadro comunitário e apoio, para além de outros indicadores teoricamente mais objetivos que os comentadores de e ao serviço não se cansam de referenciar, isso não é sinónimo de que as transformações económicas sociais e políticas necessárias para inverter o rumo de destruição do Estado e para a recuperação económica e reposição de direitos sociais básicos, venham a concretizar-se.
Se dos dois primeiros factos irá resultar alguma animação económica com efeitos positivos na dramática situação social que vivemos, em boa verdade os seus efeitos serão paliativos, pois não se espera que o resultado eleitoral possa acabar com o domínio do bloco central, e os fundos europeus, como é sabido, não resolveram nem resolverão os graves problemas que afetam Portugal e os portugueses, apenas prolongam a agonia da dependência e da subserviência. 
Por outro lado os sinais de recuperação e crescimento com que nos ludibriam são isso mesmo, um logro. Que importância tem o crescimento económico se ele não for sustentável e daí resultar uma equitativa distribuição da riqueza criada. Ou seja, se os pressupostos políticos e económicos não forem alterados, se o poder político protagonizado pelo PS e pelo PSD, sempre com o oportunístico apoio do CDS/PP, continuar de cócoras perante o poder financeiro, que importância terá o anunciado e desejado crescimento económico para os trabalhadores e para os povos. Se isto justifica as baixas expetativas que tenho para 2015 também significa que as alternativas existem.
E é pela rutura e pela construção de uma alternativa política patriótica e de esquerda que 2015 poderá ser diferente. Esse é o meu compromisso para no Novo Ano, esse é o meu compromisso com o futuro, contribuir para que seja possível trazer de novo a alegria e a dignidade ao povo de onde nasci.
Bom Ano.

Ponta Delgada, 30 de Dezembro de 2014

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 31 de Dezembro de 2014

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Da humanidade

Foto - Madalena Pires
Todos os homens, é certo que uns mais do que outros, me merecem respeito, mas nem todos granjeiam a minha admiração, apenas um número muito reduzido me maravilha.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 5 de Janeiro de 2014

(*) => excerto doprimeiro texto que escrevi e publiquei em 2014

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Venham também

Foto - Madalena Pires
Se foi bom, Poderia ter sido mas não foi. Se me refiro ao ano que agora finda, sim é disso que falo. Não foi bom para mim, e tenho cá para mim que não foi bom para a generalidade dos habitantes do planeta. Mas aconteceram tantas coisas boas ao longo do ano, É verdade aconteceram e poderia até enunciar, sem grande esforço, um alargado conjunto de factos conhecidos e, até outros tantos menos conhecidos que sobejavam para poder fazer uma outra apreciação de 2014. Mas não vale a pena iludir-me e muito menos contribuir para alimentar a cultura do menos mau que induz a inércia e a resignação. Não estou para isso, não estou para alimentar ilusões. Ludibriar é um papel que cabe bem à comunicação social de referência e, para fantasias e entorpecimento coletivo já chegam os programas de entretenimento que povoam as manhãs e tardes televisivas, o futebol televisionado dentro e fora do retângulo, os reality shows, os concursos e outros sucedâneos.
Se desisti, Não. Não desisti. Mas este ano, estes anos passados produziram um estranho efeito em mim. Estou mais tolerante mas também mais determinado. Se é da idade, Não direi que não. A passagem do tempo vai deixando as suas marcas e eu já tenho no meu saldo um boa conta de aniversários de nascimento. Conheço-me hoje melhor e isso deve-se aos anos já vividos, é uma vantagem da idade.
Estou mais tolerante e racional, raras vezes reajo intempestivamente e penso refletidamente no que digo ou escrevo. Procuro sempre entender porquê compreendo as razões de cada um e não julgo ninguém, esse é um papel que não me cabe a mim.
Estou mais determinado porque continuo a acreditar, e não é uma questão de fé. Acredito que mais tarde ou mais cedo terão de acontecer profundas alterações sociais, económicas e políticas e estou determinado a continuar a lutar por elas, ainda que ao meu redor encontre uma enorme mole de resignados, outros tantos assumidos serventuários de um poder podre, inúmeros ativistas de sofá e, muitos outros a identificar os efeitos, a mobilizar vontades, muitas vontades, descurando a génese dos problemas que enfrentamos e sem projeto político alternativo. São os inorgânicos, estão na moda geram muita simpatia mas são inconsequentes e permeáveis ao poder oculto dos donos do Mundo. Quantas e quantas vezes não passam de meras válvulas de escape para o descontentamento social e político.
Podem, poder podem contribuir para mobilizar descontentamentos e dar contributos para a tão desejada transformação que não pode, como está comprovado, ancorar-se no reformismo. Isso seria mais do mesmo que temos tido com os resultados que todos conhecemos. Podemos, poder podemos e devemos transformar revolucionando, rompendo e apresentando alternativas políticas que não podem resumir-se à mera substituição dos atuais protagonistas, como me parece ser o caso de movimentos sociais e políticos que por aí proliferam como os cogumelos no Outono. Os exemplos são muitos e conhecidos que nem vale a pena referenciá-los nominalmente.
Reconheço a sua importância e não a menosprezo, todavia tenho dúvidas, muitas dúvidas que possam ser estes os agentes da transformação social, económica e política pela qual ansiamos.
Daqui a dias, é já depois de amanhã, entramos num novo ano. Ano sobre o qual não tenho grandes expetativas, embora seja expetável devido a fatores objetivos e menos objetivos, que o próximo seja melhor que os anteriores. Mas melhor é pouco, só ficarei satisfeito se for muito melhor. Quero-o para mim e quero-o para todos e vou lutar por isso. Venham também.
Votos de um excelente 2015.

Ponta Delgada, 28 de Dezembro de 2014

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 29 de Dezembro de 2014

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Os dias que correm


As TV’s, as rádios, os jornais, as redes sociais, as montras dos espaços comerciais e o calendário dos rituais religiosos ou não, convocam-nos para a celebração. Não há como escapar, tudo e todos à nossa volta nos lembram que estes são, ou devem ser, dias diferentes. 
E assim acaba por acontecer. Embora as garças continuem o seu bailado aéreo, o Sol se levante e deite dando lugar ao dia e à noite, as marés continuem a acontecer num enlace continuado do mar e da terra. Apesar de tudo à nossa volta se manter inalterável, apesar disso os dias por volta do Natal e do aproximar de um Ano Novo transformam o nosso comportamento. Não sei se para melhor ou pior mas como não sou homem para fazer juízos levianos digo, como já o referi, que por estes dias de celebração se observa uma certa alteração comportamental.
Como fugir, se é que queremos, a este frenesim das compras, da troca de presentes, das casas decoradas com árvores, presépios e do “pisca-pisca” das luminárias coloridas das lojas chinesas, não há como evitar a não ser que não haja como comprar, sim que isto das celebrações tem os seus custos.
Pode parecer mas não, eu também gosto de celebrar. Do que não gosto mesmo é que muitos de nós não possam sequer celebrar uma refeição, não por estes dias mas todos os dias do ano, do que não gosto mesmo é que o acesso a direitos básicos nos esteja a ser negado, desde logo o direito mais elementar que é o direito ao trabalho. Sem respostas para que todos os nossos concidadãos tenham este direito básico satisfeito temos pouco, muito pouco para celebrar. 
Do pouco que resta para celebrar façamo-lo reforçando os laços familiares, cultivando a solidariedade e amizade, sim façamos tudo isso sem nunca perder de vista que essa deve ser a nossa prática diária e não apenas um momento no ano para ficarmos com a consciência limpa.
Chegado aqui há que cumprir aquilo que se espera de um escrito de Natal. Não há como fugir ao ritual. Ninguém compreenderia, poderia até correr o risco de ser acusado de heresia, no sentido pagão do termo entenda-se, que é como quem diz, mas que disparate.
Então lá vai sem ironias subjacentes. Votos de Boas Festas e um Feliz Natal. 
Ponta Delgada, 16 de Dezembro de 2014

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 24 de Dezembro de 2014