quarta-feira, 10 de junho de 2015

Não é hoje mas todos os dias

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas tem, como é habitual, as suas comemorações anuais. É um dia de celebração para todos os portugueses e, porque é dia das comunidades e do poeta maior da língua portuguesa, os símbolos e evocação da história universalista do povo português são assinalados um pouco por todo Mundo, porque um pouco por todo o Mundo há portugueses ou subsistem as marcas da presença portuguesa.
Pela visão estreita dos poderes instituídos Portugal, não os portugueses, abdicou da sua história e voltou costas ao Mundo onde se afirmou e, Portugal, não os portugueses, optou pela integração na Europa das Comunidades Económicas, aliás não deixa de ser interessante que a anterior designação da atual União Europeia, fosse de comunidades económicas e não comunidade dos povos, se isso não diz tudo desta Europa tem, sem dúvida, uma marca ideológica que diz alguma coisa sobre a selva capitalista onde Portugal se veio a integrar com os resultados que hoje conhecemos. Se é verdade que o país sofreu profundas alterações por conta dos fundos de coesão, não é menos verdade que essas alterações e transformações nos subtraíram a alma, os meios de produção e a soberania e, não há fundos que paguem a perda da identidade e da independência de um povo.
A integração europeia era inevitável, Não. Mas considerando que sim, que era o caminho, o único caminho para Portugal, os seus representantes, tomaram a opção sem consultar os portugueses e o processo de integração foi uma opção política e económica sem exigências e de submissão à vontade do diretório que dominava e domina, agora sem qualquer espécie de máscara e de vergonha, a União Europeia. Portugal não só se submeteu como não soube, ou não quis, salvaguardar a sua universalidade não levando para a mesa das negociações todos os seus ativos, a sua universalidade, a sua história e uma outra comunidade, a comunidade dos que falam e escrevem português.

Gosto deste país a que chamo meu, amo este povo de onde nasci e celebro Portugal e o meu povo, todos os dias. Não gosto de traidores nem de vendilhões e, por isso, vou continuar a celebrar, a lutar e a acreditar que Portugal pode recuperar a sua soberania e que, ao rosto dos portugueses irá regressar a alegria que em Abril de 1974 transbordava no olhar e no sorriso do povo português e que encheu as ruas, avenidas e praças da liberdade.
Os traidores e vendilhões, mais tarde ou mais cedo, terão o destino que foi dado a Miguel de Vasconcelos e, se não se espera que sejam atirados de uma qualquer janela, de um qualquer palácio, espera-se que o a luta popular levada até ao voto os arrede do poder. E este é o momento de preparar a sua saída e, este é o momento de preparar uma alternativa patriótica e de esquerda que afaste do poder absoluto os responsáveis por este período negro da história de Portugal, período que dura há quase tanto tempo como durou, uma outra ditadura, e que tem diferentes protagonistas mas, todos eles unidos na missão de vender a soberania nacional, ou o que resta dela, e bem submissos aos atuais ocupantes externos que promovem em várias línguas as virtualidades dos mercados e a necessidade da sua tranquilidade.

Ponta Delgada, 09 de Junho de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 10 de Junho de 2015

A excelência subaproveitada

Foto - Aníbal C. Pires
As políticas regionais, ou a sua ausência, às quais acrescem os efeitos das políticas nacionais de submissão aos interesses financeiros que imperam na União Europeia têm contribuído para acentuar o processo de perda de população da ilha de São Jorge, um fenómeno que se tem vindo a agravar e que coloca em causa o desenvolvimento social e económico desta, como de outras ilhas da Região. Na origem deste fenómeno estão os problemas do emprego e do sector produtivo, base económica da ilha, que continuam num processo de estrangulamento e desvalorização progressivos.
As autarquias jorgenses apesar do estrangulamento financeiro a que estão sujeitas procuram, dentro das suas competências, inverter a sangria populacional incentivando e apoiando a fixação e captação de população. Este esforço pode e deve ser articulado e apoiado pelo poder regional, afinal tratam-se de políticas de coesão e, quando falamos em coesão falamos de um dos pilares da autonomia, pilar que a governação do PS tem vindo a deixar ruir.
À estabilização financeira das Cooperativas de Lacticínios não tem correspondido uma valorização do rendimento dos produtores de leite e o aumento de 2 cêntimos por litro de leite, pago ao produtor, está longe de compensar a degradação do rendimento que se verificou nos últimos anos. E se é verdade que a contínua desvalorização do rendimento dos produtores decorre do aumento dos custos de produção, não será menos rigoroso que a deficiente valorização do queijo de S. Jorge, reconhecidamente um produto de excelência, para isso tem contribuído. A desvalorização do queijo de S, Jorge decorre as estratégias de promoção e comercialização da Lactaçor que nem sempre são as mais adequadas à venda deste produto diferenciado e de excelência. Salvo melhor opinião é exigível que a Lactaçor reavalie a sua estratégia comercial, designadamente, para o queijo de S. Jorge envolvendo nessa reflexão os próprios agricultores e as suas associações representativas.

Foto - Aníbal C. Pires
Se a agricultura é importante para a economia jorgense não menos importante é o setor das pescas, desde logo pela importância da conserveira Santa Catarina mas, de igual modo, a exportação de pescado fresco. E também neste setor se levantam enormes preocupações relacionadas com a redução das quotas de goraz e inexistência de alternativas em relação às receitas geradas por este recurso, bem como ausência de quota para atum rabilho para o Arquipélago, que foram impostas pela União Europeia sem fundamentação científica suficiente e que o Governo da República, numa atitude lamentável de subserviência e capitulação, acedeu a mais este ataque aos interesses dos pescadores portugueses, que mais uma vez não soube ou, não quis defender.
O desenvolvimento turístico, a proteção ambiental e do património das fajãs de São Jorge deve tornar-se mais uma componente estratégica da economia da ilha de S. Jorge. Afirmação que não constitui nenhuma novidade, diria até que não passa de um lugar-comum mas, assim sendo, maior legitimidade tem a pergunta, Porquê a demora no início do processo de discussão pública para a elaboração e aprovação do Plano Estratégico de Desenvolvimento das Fajãs de São Jorge. Uma iniciativa aprovada no Parlamento regional e, à qual o Governo regional já deveria ter dado outros desenvolvimentos. A sua aprovação e implementação visa proteger o património histórico, arquitetónico e ambiental das Fajãs de São Jorge, garantindo o reforço da sua capacidade de atracão e aproveitamento produtivo. As Fajãs podem potenciar mais um produto diferenciado e de excelência a somar aos já existentes em S. Jorge. Não percamos mais tempo.

Ponta Delgada, 07 de Junho de 2014

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 08 de Junho de 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Medidas de exceção

Foto - Aníbal C. Pires
A ilha Terceira sofre, como todas as outras ilhas da Região, os efeitos nefastos das políticas de austeridade do Governo do PSD e do CDS/PP e da inoperância da governação regional do PS. Governação que segue de perto, ou não tivesse o PS subscrito o memorando da troika, as políticas se submissão aos interesses do setor financeiro internacional impostas e, aceites sem oposição pelos negociadores do PS, PSD e CDS/PP.
Na Região o PS procura por todos os meios esconder a sua responsabilidade e cumplicidade com a dramática realidade social e económica que as açorianas e açorianos vivenciam refugiando-se na aplicação de paliativos sociais e programas de apoio às empresas que apenas perpetuam a crise, diria que a governação regional está à espera não se sabe bem do quê e, Sem soluções.
Na República o PS nem disfarça tal é a coincidência de posições programáticas, naquilo que é essencial, com as propostas da coligação PSD/CDS. Não terá sido por mero acaso que o Presidente da República disse, sobre as propostas de programa eleitoral do PS, que constituíam uma boa base de entendimento para acordos interpartidários e, estava naturalmente a referir-se a entendimentos entre os partidos do centrão (PS/PSD) e ao seu apêndice (CDS/PP).
Mas voltemos à ilha Terceira que para além do flagelo da crise foi violentamente fustigada pela alteração do paradigma de utilização da Base das Lajes pelos Estados Unidos. Na Terceira vive-se um grave problema social e económico cujas causas e efeitos estão identificados, quer pelo movimento sindical unitário, quer pelas autarquias, quer ainda pelo Governo Regional. As respostas, na perspetiva do Governo Regional, ao drama social e económico que se vive na Terceira estão vertidas no conhecido PREIT que contendo um conjunto de medidas positivas enferma de algumas insuficiências e, por outro lado depende, em grande parte, da vontade e financiamento do Governo da República. Quanto às insuficiências elas situam-se, desde logo, na ausência de medidas de apoio aos trabalhadores, que não laborando diretamente na base, foram vítimas de despedimento face ao decréscimo da atividade económica motivado pela alteração das condições das comissões de serviço dos militares dos Estados Unidos e, à paulatina redução do contingente militar. Quanto à dependência do financiamento do Governo da República, que entenda-se constitui uma exigência da Região, afinal trata-se de uma questão do Estado, deixa a solução pela metade se o Estado não cumprir, como não tem cumprido, as suas obrigações para com a Região.
Não sei se o Governo Regional tem um plano B sei, porém, que é necessário tomar medidas de proteção e apoio imediato aos trabalhadores terceirenses, assim a Representação Parlamentar do PCP Açores vai apresentar na Assembleia Legislativa Regional uma anteproposta de Lei para majorar, no valor e no tempo, os apoios sociais, designadamente o subsídio de desemprego, aos trabalhadores da ilha Terceira. É uma situação de exceção mas tem já precedentes. No País medidas idênticas foram criadas para o Vale do Ave, aquando da crise dos têxteis, e para a Península de Setúbal durante a crise social e económica dos anos 80, do século XX, cujas causas se relacionam com o desmantelamento do setor industrial na região de Setúbal.

Velas (S. Jorge), 01 de Junho de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 03 de Junho de 2015

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Promover a valorização do pescado e incentivar hábitos alimentares saudáveis

Com mais ou menos consciência todos sabemos que apesar de vivermos numa região arquipelágica, com uma vasta linha de costa e uma imensa Zona Económica Exclusiva (até às 100 milhas) grande parte do peixe que consumimos é importado. Algum do peixe chega-nos à mesa vindo do exterior já transformado e congelado. Mesmo colocando de parte o tradicional bacalhau e a sardinha muito do peixe que consumimos vem do exterior. E adquirirmos esse bem alimentar não porque ele seja escasso nas nossas águas, não porque o peixe dos mares dos Açores não tenha qualidade mas pelo preço. Preço mais baixo e que está diretamente relacionado com a qualidade, com a sua origem e com os circuitos de distribuição e comercialização.
E se isto se verifica nas casas das famílias açorianas, verifica-se de uma forma mais acentuada nos refeitórios escolares, os apoios da ação social escolar, sendo importantes são insuficientes para que as Escolas possam incluir, exclusivamente, nas suas refeições peixe da Região. Por outro lado é também do conhecimento público que as pescas são um setor que, em resultado das políticas comuns da União Europeia e da rendição do país a essas imposições, tem vindo a diminuir a sua capacidade de produção. Digamos que não é aceitável que numa Região como os Açores e num País como Portugal tenha de se recorrer à importação de peixe para consumo interno.
O consumo de peixe é uma componente essencial de uma dieta equilibrada e saudável, em especial nas fases iniciais do desenvolvimento do ser humano, um dos hábitos de vida saudável que deve ser ensinado às nossas crianças e jovens, desde as mais tenras idades.
Sendo os Açores uma região produtora de peixe é importante incentivar o conhecimento sobre os benefícios do seu consumo, o que trará vastos benefícios em termos de saúde pública e individual, como para as economias locais das ilhas.
Existem já em diversas ilhas iniciativas, de raiz associativa ou privada, com vista ao escoamento local do pescado, fresco e transformado, que fornecem produtos de altíssima qualidade. No entanto, não lhes é possível competir em termos de preço com o pescado congelado que é comercializado através das grandes cadeias de distribuição, apesar de este por vezes apresentar níveis de qualidade inferiores e representarem produções com muito menor sustentabilidade ambiental.
O incentivo ao consumo local de peixe dos Açores apresenta assim enormes vantagens em termos de saúde, valorização da sustentabilidade ambiental da nossa pesca e dinamização dos circuitos económicos locais, contribuindo também para a valorização do preço do pescado em primeira venda.
As cantinas escolares desempenham um papel essencial na formação dos hábitos alimentares das futuras gerações e, assim, devem fornecer refeições saudáveis e equilibradas e incentivar o consumo dos produtos locais, nomeadamente o de peixe fresco ou transformado localmente, à semelhança do que já acontece com outros produtos alimentares, como por exemplo o leite.
A Representação Parlamentar do PCP apresentou uma iniciativa legislativa que visa a criação de um programa de apoio financeiro às Escolas que integrem nas suas ementas peixe açoriana, fresco ou transformado. Este programa irá trazer grandes benefícios futuros em termos dos hábitos alimentares saudáveis das gerações mais jovens, mas também reflexos positivos na economia das ilhas e no valor do pescado a nível regional.

Ponta Delgada, 31 de Maio de 2014

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 01 de Junho de 2015

Kate Winslet - a abrir Junho


Kate Winslet é uma conhecida e premiada atriz inglesa e que abre o mês de Junho do “momentos”.


Aqui podem aceder ao trailer de um dos seus filmes

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Comandante Afonso - Prémio Carlos Bleck, 2017 (APPLA)


No passado dia 23 de Maio a Associação de Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA) promoveu a entrega do Prémio Carlos Bleck 2015 onde foi agraciado o Comandante João Graça. Durante esta cerimónia foi anunciado o agraciado de 2017.
Em 2017 será agraciado com este prestigiado prémio o Comandante Francisco da Encarnação Afonso, assim foi anunciado durante a entrega do prémio em 2015. (ver vídeo)


Esta é uma notícia que me deixa particularmente feliz pela admiração e amizade que nutro pelo Comandante Afonso. Mas é também uma notícia que deve orgulhar todos os açorianos e em particular todos os trabalhadores da SATA.

Tão iguais

Foto - Aníbal C. Pires
Os problemas do Serviço Regional de Saúde (SRS) não se compadece com intervenções casuísticas, não integradas, meramente orientadas para dar respostas rápidas a descontentamentos imediatos e mais ou menos localizados. Este tipo de intervenção política conduz não a um sistema coerente e eficaz, mas sim a uma manta de retalhos, com duplicações e carências de meios e recursos, caro, ineficaz, que gera desigualdades sociais e geográficas no acesso e, na prática, ingerível.
E se o Governo Regional assim atua, também alguns partidos da oposição seguem esta linha de intervenção e propositura política. Ao cair no mesmo hábito as propostas de alguma oposição enfermam do mesmo vício que caracteriza a política de saúde do Governo Regional, ou seja, em vez de abordar as questões de fundo, de procurar resolver os problemas fundamentais do SRS, limita-se a minorá-las, com sucesso relativo, pago a peso de ouro, afirmando claramente a sua opção preferencial pelo sector privado, desviando recursos financeiros que deviam ser investidos no SRS, o sistema a que compete efetivamente garantir os cuidados de saúde aos açorianos.
O caso mais recente e que exemplifica o que tenho vindo a dizer está relacionado com uma proposta do PSD que visava a suspensão da portaria dos reembolsos. E se é verdade que o PSD vinha com a sua proposta escancarar as portas à medicina privada sem tentar resolver os problemas do sistema público, também o Governo Regional se precipitou com as reduções nos reembolsos, sem ter garantido primeiro que não estava a limitar, ainda mais, o acesso dos açorianos aos cuidados de saúde.
Ambos, PS e PSD, sempre tão parecidos, tão iguais, limitando-se apenas a desviar recursos do sector público para o sector privado, não tomando qualquer medida concreta para suprir as lacunas e as dificuldades do SRS e melhorar a sua capacidade de resposta. E fazem-no, como foi afirmado, pelo Presidente da Seção Regional da Ordem dos Enfermeiros, durante a tramitação da proposta do PSD em sede da Comissão dos Assuntos Sociais, sem que esteja completo um diagnóstico objetivo da capacidade instalada. Dizia a este propósito o Enfermeiro Tiago Lopes, “ (...) não se podem definir políticas de saúde sem antes definir a capacidade de produção. O atual cenário socioeconómico não tem capacidade de resposta total, por isso torna-se imperioso definir prioridades e lacunas, de forma a ter um Sistema Regional de Saúde sustentável.” Assim é, sem planeamento não é possível ter um bom e eficaz SRS.
E a verdade é que não temos um bom planeamento da saúde. Temos um diagnóstico incompleto, uma capacidade de produção desconhecida, um Plano Regional de Saúde insuficientemente fundamentado, que é frequentemente subalternizado, atropelado, ignorado, medidas casuísticas que são tomadas de cima para baixo, com pouca ou nenhuma discussão pública, como no caso da Portaria 52/2014, e, por consequência, não são compreendidas, nem aceites pelos profissionais de saúde e pelos utentes do SRS

Ponta Delgada, 26 de Maio de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 27 de Maio de 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Pelos 30 anos do Grupo de Cantares "Belaurora"

Foto retirada da Internet
Em 1985 comemorava-se o Ano Internacional da Juventude. Na Vila de Capelas, em S. Miguel, no âmbito das celebrações, um grupo de jovens procurou o apoio de um professor que estivesse disponível para os iniciar na aprendizagem da música, encontrada essa disponibilidade e vontade, nasceu a 17 de Maio do ano de 1985 um grupo de música e cantares tradicionais que adotou como designação um dos mais belos temas da música açoriana de raiz popular, a Bela Aurora.
Deste então o Grupo de Cantares “Belaurora” tem mantido atividade permanente e dado a conhecer ao Mundo a música tradicional das nossas ilhas. O seu vasto repertório conta com mais de uma centena de títulos e as suas atuações pelos palcos europeus, dos Estados Unidos, Canadá e ilhas da Macaronésia têm, não só maravilhado quem os ouve, mas também servido o nobre objetivo de divulgação do património musical açoriano para além das fronteiras das nossas ilhas.
Sobre a carreira e a qualidade do trabalho que o Belaurora têm desenvolvido disse, em 1996, Urbano Bettencourt, “... o Grupo de Cantares Belaurora tem descoberto matéria e motivações para o desenvolvimento de um coerente (e persistente) projecto de dedicação à nossa música popular.  ... Quedo-me... à escuta de um rumor-outro que me chega, longínqua Voz de um povo que, na música e por ela, encontrou a chave para a iluminação do quotidiano, das suas sombras e mágoas, solidões e maresias.”
Foto retirada da Internet
Para além de outros reconhecimentos e méritos conquistados na Região, no País e no Mundo e que fazem parte do espólio das memórias do Belaurora, serão as palavras de ilustres açorianos, das quais me volto a socorrer, que melhor ilustram este trajeto ímpar de recolha e divulgação da música tradicional açoriana.
Em 2004, sobre o Belaurora, Daniel de Sá escreveu, como só ele o sabia fazer, “... o Belaurora foi por aí adiante em anos e ilhas. Ouviu a voz do povo e cantou com ele e com ele se encantou. ... E embalou-nos no seu canto, que é nosso também porque este povo somos todos nós.”
O Belaurora constituído por 10 elementos e dirigido, desde sempre, por Carlos Sousa afirmou-se no panorama musical da Região e tem sido uma Escola de formação e divulgação da nossa matriz cultural. Sendo um grupo amador, realiza há 30 anos um trabalho sistemático de recolha, preparação e divulgação da música tradicional açoriana que não podia passar indiferente a quem representa o Povo que o Belaurora tão bem canta. Na sessão plenária deste mês de Maio a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovou por unanimidade, um voto de saudação apresentado pela Representação Parlamentar do PCP, onde se reconhece o mérito da carreira dos Belaurora e do seu Diretor Musical e fundador, o Sr. Carlos Sousa, pelo empenho, disponibilidade e persistência que sempre colocou ao serviço da música e cultura popular.

Santa Cruz das Flores, 24 de Maio de 2014

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 25 de Maio de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Integração pelo exercício da cidadania plena (*)

Foto - Aníbal C. Pires
Poder estreitar o contato com as comunidades açorianas emigradas, aprofundar o conhecimento sobre as suas realizações pessoais e comunitárias, o seu grau de integração na sociedade de acolhimento e a sua ligação às origens, de entre os aspetos, constituía, para mim, uma lacuna no conhecimento que os representantes eleitos do Povo Açoriano devem possuir sobre as comunidades açorianas, onde quer que elas vivam e trabalhem. Este meu interesse, sendo de ordem política porque se tratam de açorianas e açorianos e seus descendentes que, embora vivam fora das fronteiras da Região, representam um importante ativo nas estratégias de desenvolvimento regional, mormente, no que concerne ao estabelecimento de “pontes” políticas, económicas e culturais com os territórios de acolhimento, por outro lado tendo dedicado parte da minha vida ao estudo académico das migrações e ao apoio a associações de imigrantes em Portugal, o contato com a realidade migratória e com o movimento associativo emigrante açoriano teve, assim, uma dupla importância.
A participação, pela primeira vez, de uma representação da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), da qual fiz parte, na XVII Assembleia Geral do Conselho Mundial das Casas dos Açores (AGCMCA), que se realizou a 29 e 30 de Agosto de 2014, em Hilmar, na Califórnia, veio concretizar um sonho antigo e que preencheu, direi melhor, transbordou as minhas melhores expetativas.
A dimensão mundial da diáspora açoriana representada pelos dirigentes das casas dos Açores, as dinâmicas e as preocupações das comunidades ficaram bem patentes nos trabalhos da AGCMCA. Dirigentes de diferentes gerações onde começam a pontuar jovens quadros que para além da renovação constituem, não só o garante de continuidade, mas também a introdução de novas metodologias e abordagens aos recentes e velhos problemas com que os migrantes se confrontam.
Um dos temas que foi abordado durante os trabalhos relaciona-se com a necessidade de assunção pelos emigrantes açorianos e seus descendentes - prefiro em nome do rigor referir-me aos jovens como descendentes e não como emigrantes de 2.ª ou 3.ª geração - de se integrarem plenamente na sociedade de acolhimento. O exercício pleno da cidadania é a condição sine qua non para se atingir este desiderato. Pode, numa leitura superficial parecer paradoxal que um deputado regional esteja a apelar à integração e cidadania plena no território de acolhimento com tudo o que isso implica, designadamente, a participação política pois, o discurso clássico vai num outro sentido, ou seja, na garantia da participação política no território de origem e, por outro lado a integração plena pode traduzir-se num gradual afastamento das raízes. É minha opinião que, se queremos ter uma diáspora forte e capaz de continuar a contribuir para a Região, então temos de juntar esforços para que a cidadania plena seja a regra e não a exceção.

Foto - Madalena Pires
Os jovens descendentes de emigrantes vivenciam experiências complexas e mesmo conflituais de afirmação e incorporação nos territórios de acolhimento e, nem sempre as estratégias familiares e o desenho das políticas dirigidas às comunidades diaspóricas são desenvolvidas considerando de forma consistente e holística esse importante aspeto do qual depende, na maioria das vezes, o sucesso e a realização pessoal dos jovens açor/luso-descendentes. Quanto maior for êxito social e económico do indivíduo maiores serão os ganhos e afirmação social, económica e política da comunidade de pertença e os ganhos do País ou da Região de origem.
As estratégias de incorporação nas sociedades de acolhimento dependem, desde logo, do projeto migratório e do capital humano que os migrantes transportam consigo mas dependem também dos modos de incorporação da sociedade acolhimento que, segundo alguns autores, são estruturados nos seguintes níveis de acolhimento: i) Diferenciação da política oficial (enquadramento legal) de acolhimento a diferentes grupos de emigrantes; ii) recetividade da sociedade civil e da opinião pública relativa a diferentes grupos de imigrantes; e, iii) dimensão, implantação e importância económica, política e social da comunidade cultural de pertença.
Os dois primeiros níveis estão diretamente relacionados. O quadro legal influencia a opinião pública e vice-versa. Podemos, com facilidade, constatar que o capital humano nem sempre é reconhecido da mesma forma, aos diferentes grupos culturais minoritários, pela sociedade de acolhimento. As políticas oficiais de acolhimento e a recetividade da opinião pública resultam de indicadores como: morfologia; território de origem; língua; cultura; religião; realização económica; e política. As representações da sociedade de acolhimento resultam, assim de construções sociais fundadas em indicadores sobre os quais existem seculares preconceitos mas que determinam a forma como são desenhadas as políticas de acolhimento e que, na generalidade, coincidem com o grau de recetividade da sociedade de acolhimento. O terceiro nível de acolhimento está relacionado com a importância da comunidade de pertença, considerando a sua dimensão, implantação e importância social, económica, e política.
Foto - Madalena Pires
Os jovens descendentes de emigrantes nas suas estratégias de incorporação vêem-se assim confrontados com um sem número de obstáculos que lhes dificultam a integração e a conquista do reconhecimento de pertença pela sociedade de acolhimento e, não bastassem todos estas barreiras ainda têm, por vezes, a família e o País/Região de origem a competir, por vezes da forma menos adequada, para que mantenha intocada a sua matriz cultural e linguística quando a sua primeira prioridade é (será) a integração. À dimensão das comunidades açor/lusas não corresponde, todavia, a importância social, económica e política que poderia favorecer a diferenciação positiva nas políticas de acolhimento e na promoção do fortalecimento das relações bilaterais entre Açores/Portugal e os países onde existem comunidades portuguesas com uma dimensão considerável. Contudo existe um campo de atuação político que pode favorecer esse processo de integração plena, designadamente onde as comunidades têm dimensão e estão consolidadas.
Considerando que os principais problemas com que as comunidades se confrontam residem na menor ou maior capacidade de integração, com os prejuízos que uma baixa capacidade de integração acarreta para os emigrantes, para a comunidade e para o País/Região de origem, assim e salvo melhor opinião, as políticas de apoio às comunidades, para além do aprofundamento, aperfeiçoamento e adequação a novas realidades das já existentes, devem centrar-se no apoio à integração plena. A disponibilidade dos jovens descendentes para assumir múltiplas pertenças e desenvolver novos vínculos com a matriz cultural de origem só acontecerá quando esteja resolvida a sua incorporação (cultural, social, económica e política) na sociedade de acolhimento, ou seja, quando exercerem a sua cidadania plena. O sucesso do projeto migratório dos pais e a sua integração mais do que uma “forçada” “etnicização” são o principal garante da afirmação da comunidade de pertença e a garantia de que os vínculos com as suas raízes, a seu tempo, sairão reforçados.

(*) Texto escrito em Outubro de 2014 e publicado no “Mundo Açoriano”, na sua edição de Novembro desse mesmo ano. Hoje foi revisto para republicação.

Horta, 17 de Maio de 2014

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 18 de Maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Do tempo que corre

Foto - Ana Loura
Não está fácil lidar com os tempos que vivemos, nada fácil. A cultura política bipolar alimentada pelos órgãos de informação, o acriticismo fomentado pelas Escolas de diferentes níveis de ensino para que nada mude, o acessório ao invés do essencial, o imediatismo nas decisões, o determinismo dos estudos de opinião ao invés dos princípios e valores, a atomização social em detrimento do interesse coletivo e tudo o mais que vai caraterizando este nosso tempo.
Como se explica que em ano de eleições para a Assembleia da República, eleições de onde resultará um novo quadro parlamentar que pode, ou não ditar um governo que defenda os interesses do país e do povo, dito de outra forma um governo patriótico e de esquerda, assim os portugueses o queiram mas, como dizia, como se explica que havendo, este ano, eleições para a Assembleia da República a agenda política e mediática esteja focada nas eleições presidenciais do próximo ano. Não que lhes queira retirar importância porque a têm mas, há algo estranho nesta antecipação mediática e, tenho cá para mim que isto não é por acaso. Vejamos quem é que sai favorecido com a discussão centrada nas presidenciais e nos putativos candidatos à presidência e, talvez se perceba. E quem beneficia são os partidos do “arco da governação”, os que exercem o poder (PSD e CDS/PP) porque lhes convém que a atenção dos cidadãos não esteja focada na ação governativa e nos sucessivos indicadores da falência das suas decisões e opções políticas. Por outro lado o partido que se coloca na linha de partida eleitoral como o alternante (PS) à governação da direita também recolhe benefícios desta mistificação pois, assim vai evitando mostrar que não constitui uma verdadeira alternativa política e que as suas propostas para o país em nada são diferentes da receita que tem sido aplicada pela direita, ou seja, governar para alemão ver e português sofrer.
Mas se no país o ambiente político está centrado nas presidenciais por cá o alternante, neste caso o PSD, já está em plena campanha eleitoral e as eleições regionais só acontecem bem lá para o último trimestre de 2016. As insuficiências e fragilidades do PSD nos Açores e do seu líder assim o aconselham, ou pelo menos assim foram aconselhados por algum especialista em marketing, quiçá depois de conhecido algum estudo de opinião desfavorável mas, com sustentação científica.
Se as dificuldades do PSD em se apresentar como alternativa política ao PS Açores são visíveis para quem acompanha de perto a vida política regional, basta ver a capacidade de iniciativa parlamentar dos restantes partidos da oposição para o comprovar, a assunção dessas dificuldades pelo PSD e pelo seu líder tomou, recentemente, outros contornos. Para quem frequenta as redes sociais, designadamente, a que por cá tem mais popularidade já se deu conta disso. Para além das clássicas páginas que todos os partidos mantém nas redes sociais apareceu agora uma outra, a patrocinada ADF.9. Conferidos os conteúdos aí temos os chavões eleitorais do PSD e, permitam-me, um certo culto ao atual líder, diria mesmo que a adulação ao líder é, talvez, exagerada, digo eu que não sou especialista em marketing político, nem no mercado eleitoral.

Ponta Delgada, 04 de Maio de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 06 de Maio de 2015