segunda-feira, 18 de abril de 2016

... democracias, estranhas democracias

Retirado da internet
Excerto da crónica que publico quarta-feira na imprensa regional.


(...) A organização política brasileira é complexa e o espectro partidário uma amálgama de partidos, muitos dos quais apoiados por seitas religiosas e criados apenas com o objetivo de dividir o eleitorado e servir interesses que podem ser de um qualquer deus, mas não são, seguramente, os interesses do povo brasileiro. (...)

Da defesa da autonomia

Foto - Aníbal C. Pires
A Autonomia dos Açores tem sofrido sérias limitações e atropelos ao longo dos últimos anos. Pressões externas e internas, algumas com a cumplicidade ativa do Governo Regional, cercearam significativamente os direitos da Região. Ao aplicar-se aos açorianos o essencial das imposições austeritárias do memorando com a troika, a autonomia administrativa e financeira dos Açores foi seriamente limitada, em clara e gritante violação da Constituição da República e do Estatuto Político Administrativo. Com algumas diferenças em função dos seus interesses políticos o Governo Regional impôs ilegitimamente a aplicação na Região das normas austeritárias do Orçamento de Estado. Assim foi o caso da aplicação dos cortes salariais aos trabalhadores em funções públicas e do sector empresarial regional, da proibição de contratação de trabalhadores para a administração pública regional e do bloqueio das suas carreiras e progressões salariais e, de forma, mais gravosa na recusa de repor integralmente o diferencial fiscal.
A submissão dos interesses e da Autonomia dos Açores foi ao ponto extremo de, em resultado de um “Memorando” assinado entre o Governo Regional e o Governo da República, o Orçamento da Região ter de ser sujeito a um “visto prévio” do Ministério das Finanças antes mesmo de ser apresentado no Parlamento Regional, condicionando ilegalmente a política económica e financeira da Região. Na prática as mesmas forças políticas que agora se referem à necessidade de reformar a Autonomia têm sistematicamente recusado utilizar toda a amplitude das competências atribuídas à Região pela 3ª Revisão do Estatuto Político-administrativo, assumindo uma atitude de subserviência e seguidismo político em relação às opções tomadas pelo Governo da República.
Mas os constrangimentos ao direito democrático dos Açorianos ao autogoverno provêm também das imposições da União Europeia, que afetam de forma profunda a capacidade da Região legislar, regulamentar e definir livremente as regras que melhor servem o seu desenvolvimento, em sectores tão fundamentais quanto a agricultura e pescas, os transportes, o turismo, o comércio e a regulação dos mercados. É necessário o reconhecimento e o respeito pela Autonomia Açoriana também por parte dos organismos europeus.
Esta situação impõe a necessidade de criação de mecanismos jurídicos e políticos que permitam proteger o acervo autonómico, garantir os direitos da Região e impedir os atropelos ao Estatuto Político-Administrativo.
Por outro lado, a dispersão territorial impõe que se encontrem soluções que valorizem e capacitem o poder local democrático (Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia) com competências e meios financeiros, para que cada uma das unidades territoriais da Região sejam envolvidas e possam responder às necessidades das populações e ao desenho de projetos de desenvolvimento adequados às especificidades e potencialidades endógenas de cada uma das nossas ilhas procurando formas de organização intermunicipal que potenciem os recursos financeiros disponíveis e a complementaridade da capacidade e das infraestruturas instaladas ou a instalar em cada concelho.
Ponta Delgada, 17 de Abril de 2016

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 18 de Abril de 2016

domingo, 17 de abril de 2016

...proteger o acervo autonómico

Foto - Aníbal C. Pires
Excerto da crónica que publico amanhã na imprensa regional.




(...) Esta situação impõe a necessidade de criação de mecanismos jurídicos e políticos que permitam proteger o acervo autonómico, garantir os direitos da Região e impedir os atropelos ao Estatuto Político-Administrativo. (...)

sábado, 2 de abril de 2016

Angela Davies - a abrir Abril


Bonitas são a mulheres que lutam.

Angela Yvonne Davies é uma daquelas mulheres bonitas, muito bonitas.

E é com esta mulher admirável que o "momentos" abre este Abril.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Da exposição "Tocar o Mundo" (10)

Urgência(s)

Um tímido sorriso
Um rubor na face
Um silêncio que fala
Uma palavra ciciada
Um olhar ávido
E acontece
Inesperado
O beijo, o abraço
E as palavras, o sorriso, o olhar e o silêncio
Acatam a vontade
Do corpo, e calam
Perante a urgência
Que desponta
Dos corpos enlaçados
Apressados pelo momento
Desnudam-se, colam-se
Agitados, quentes, suados
Fundem-se ofegantes
Num imenso frenesim
Apelam a Deus
E a urgência chegou ao fim


Aníbal C. Pires, Santa Cruz da Graciosa, 26 de Março de 2015

São 10 aguarelas, 10 poemas, 10 músicas e uma voz que declama. A exposição está aberta ao público até ao dia 16 de Abril, no Centro Municipal de Cultura em Ponta Delgada.
Aqui podem ver e ouvir "Urgência(s)"

Vale mais prevenir do que remediar

Os indícios que apontam para um elevado grau de perigosidade dos herbicidas cujo princípio ativo é o Glifosato têm vindo a avolumar-se de forma cada vez mais clara. Perigos, desde logo, para a saúde humana. Diferentes estudos científicos demonstraram a presença desta substância no sangue, urina e mesmo no leite materno, em quantidades extremamente elevadas, e associam-na a patologias gravíssimas, desde malformações congénitas, autismo, efeitos desreguladores hormonais, cardiotóxicos e carcinogénicos. Só por esse facto devia ser acionado, como referiu o Bastonário da Ordem dos Médicos, o princípio da precaução. E porque a União Europeia e o País ainda não tomaram medidas precaucionarias a Representação Parlamentar do PCP Açores propôs, na ALRAA, um Decreto Legislativo Regional que proibia a sua utilização, comercialização e libertação nos Açores. O PS e os partidos da direita parlamentar uniram-se para chumbar esta proposta do PCP.
Mesmo que possam ser considerados como não conclusivos, ou insuficientemente alargados e sistemáticos, estes estudos científicos justificavam plenamente a tomada de medidas de precaução, ou seja, a sua proibição.
O PS e a direita parlamentar optaram por proteger a venda de herbicidas e os interesses das grandes multinacionais que o fabricam e comercializam, quando a decisão prudente e avisada deveria ser a de apoiar a proposta do PCP que visava proteger a saúde dos açorianos de um perigo que cada vez mais se confirma como real
E, e a proteção da saúde dos açorianos não fosse uma razão suficientemente forte para proibir, de imediato, estes herbicidas, poderíamos ainda acrescentar a questão ambiental. É que a permanência do Glifosato no solo e a sua infiltração nas linhas de água, tem efeitos desconhecidos, mas provavelmente muito destrutivos sobre as plantas e os animais, afetando seriamente os ecossistemas das nossas ilhas.
A biodiversidade do solo é condição indispensável de produções agrícolas saudáveis, bem como a presença de insetos polinizadores, que são comprovadamente afetados pelo Glifosato.
Não basta publicitar para os turistas que somos uma Região ecológica, onde o património natural é protegido e existem padrões de excelência ambiental. Temos que o ser na prática e não apenas no marketing.
E esse era também um objetivo da proposta da Representação Parlamentar do PCP, pôr os Açores na vanguarda da proteção ambiental, dando o exemplo e juntando-nos a um já vasto conjunto de cidades, regiões e países onde o uso desta substância é proibido.
Um dos argumentos para a reprovação pelo PS, PSD, CDS/PP e PPM foi a falta de alternativas disponíveis para substituir os herbicidas com Glifosato mas a verdade é que para além de métodos tradicionais importa saber que 35% dos herbicidas disponíveis no mercado não contêm este princípio ativo
As alternativas ecológicas existem e funcionam. Exigem, é verdade uma maior atenção e frequência na sua aplicação, mas permitem quebrar a dependência de herbicidas poluentes e que representam um sério atentado ao nosso ambiente e um gravíssimo risco para a saúde pública.
Velas (S. Jorge), 21 de Março de 2016
 
Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 23 de Março de 2016 

Da exposição "Tocar o Mundo" (9)

É doce o teu olhar

O teu olhar ausente
Na imensidão do mar
Na infinidade do deserto
Na utopia que persegues
Sem sossego e sem tréguas

O teu olhar ausente
Regressou faiscando
Num perturbador
E provocante azul

O teu olhar pousa em mim
Agora é doce o teu olhar
Doce da cor do mel
Fala de amor e do sonho
Que vive em ti

O teu olhar presente
Afaga a minha alma
Dissipa as sombras
Ilumina o meu caminho


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Janeiro de 2016

São 10 aguarelas, 10 poemas, 10 músicas e uma voz que declama. A exposição está aberta ao público até ao dia 16 de Abril, no Centro Municipal de Cultura em Ponta Delgada.
Aqui podem ver e ouvir "É doce o teu olhar"

terça-feira, 22 de março de 2016

O fomento da precariedade

Apesar do esforço da propaganda do Governo Regional a realidade não é cor-de-rosa. Os Açores são hoje das regiões do país com maiores índices de precariedade laboral. A provar esta afirmação um exemplo esclarecedor, no nosso arquipélago 90% dos novos contratos de trabalho não são permanentes. Apenas um em cada dez trabalhadores consegue alguma estabilidade no seu vínculo laboral na nossa Região.
Não é por acaso, nem por acidente. Se uma grande parte desta situação decorre das décadas de regressão dos direitos laborais e de flexibilização da legislação laboral, sempre contra os trabalhadores promovida pelos sucessivos governos do PS e do PSD, com coligações pontuais do CDS e, claro está, do resultado desastroso das suas políticas económicas que criaram um desemprego massivo, nunca antes atingido na história de Portugal democrático, a verdade é que a própria Região, o próprio Governo Regional, a promover ativamente a precariedade dos trabalhadores, a degradação das suas condições laborais e, mais recentemente, a instituir um sistema de reprodução e eternização de vínculos precários, nunca antes visto.
Esta continuada promoção da precariedade laboral, no sector público e privado, por parte do Governo Regional é inegável e tem-se processado de múltiplos modos e formas e passa muitas vezes por programas cujos objetivos parecem úteis e meritórios, mas que na prática, são sistematicamente subvertidos em prejuízo dos trabalhadores.
A enumeração das dezenas de programas de promoção de emprego seria fastidiosa, mas podem-se agrupar em quatro grandes categorias: programas de criação do próprio emprego, de subsídio à contratação, de estágios e de programas ocupacionais, que partilham vários vícios que os subvertem, legalizando situações abusivas, por vezes desumanas e sempre, sempre, lesivas para os trabalhadores.
Estes programas contribuem para situações de uma inaceitável exploração dos trabalhadores desempregados, que em muitos casos não podem recusar as funções que lhes são atribuídas, tenham ou não formação, vocação ou capacidade, sob pena de perderem o subsídio de desemprego de que dependem para sobreviver; que são sujeitos a remunerações miseráveis, abaixo do salário mínimo depois dos descontos obrigatórios, tendo de fazer face a custos de transporte e alimentação; que são forçados a trabalho por turnos ou horários irregulares, impedindo qualquer conciliação com a vida familiar ou assistência à família.
É uma quádrupla desgraça, como sabem bem os chamados “beneficiários” dos programas destes programas: prestam serviço mas não têm emprego, têm deveres mas não direitos, produzem mas não recebem salário, apenas subsídio; trabalham mas não são trabalhadores.
E isto é apenas o que é legal, ou que está formalmente legalizado pelos regulamentos do Governo Regional. Porque para lá do regulamentado, os abusos são muitos, graves e acontecem na Administração Pública regional. Um exemplo é o caso lamentável, que veio recentemente a público, do centro de resíduos da Câmara da Horta, onde os trabalhadores de programas ocupacionais trabalham na lixeira e na separação de lixo sem terem o indispensável equipamento de proteção e segurança.
Mas o abuso mais comum, que parece ser sistemático, em particular em relação aos programas ocupacionais, é o desempenho de funções essenciais e indispensáveis para os serviços pelos “beneficiários” dos programas ocupacionais, que assim são utilizados para substituir necessidades de trabalho permanente, às quais devia corresponder um posto de trabalho efetivo.
Ponta Delgada, 20 de Março de 2016
Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 21 de Março de 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Da exposição "Tocar o Mundo" (8)

A cores

Sou ilha de lava
Nascida do fogo
E do caos telúrico
Que o tempo serenou
A desordem deu lugar à quietude
A escuridão à luz
E despontei verde
Enlaçada de azuis


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Março de 2015

São 10 aguarelas, 10 poemas, 10 músicas e uma voz que declama. A exposição está aberta ao público até ao dia 16 de Abril, no Centro Municipal de Cultura em Ponta Delgada.
Aqui podem ver e ouvir "A cores"

domingo, 20 de março de 2016

Da exposição "Tocar o Mundo" (7)

Retalhos da vida

Em constante inquietude
Percorro a existência
Nem sempre linear
Tantas vezes sinuosa
Guardo todos os instantes
Nem sempres a cores
Tantas vezes cendrados
Estes instantes 
São pedaços de mim
Com estes retalhos
Caminho pela vida
Com o passado presente
E o futuro no olhar

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Março de 2015


São 10 aguarelas, 10 poemas, 10 músicas e uma voz que declama. A exposição está aberta ao público até ao dia 16 de Abril, no Centro Municipal de Cultura em Ponta Delgada.
Aqui podem ver e ouvir "Retalhos da vida"