sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O fim de um mundo

imagem retirada da internet
Há sinais de que o mundo que conhecemos está a mudar. Talvez ainda seja cedo para falar no colapso daquilo a que, durante décadas, chamámos civilização ocidental, mas são cada vez mais visíveis as fraturas de uma ordem política, económica e cultural que se julgou durante demasiado tempo definitiva. Se preferirmos a expressão Norte Global, poderemos dizer que a sua hegemonia está a ser questionada por uma realidade internacional que já não aceita com a mesma facilidade a distribuição do poder que resultou do pós-Segunda Guerra Mundial.

A emergência de novos blocos económicos e políticos, a crescente afirmação da China, da Rússia e de outros países do chamado Sul Global, bem como os processos de emancipação que atravessam algumas das antigas colónias francesas em África, estão a alterar a geografia do poder. Estes factos significam apenas que o mundo está a deixar de ser unipolar e que essa transformação incomoda aqueles que se habituaram a determinar as regras.

A guerra na Ucrânia é um dos exemplos dessa mudança. Uma guerra que não começou em fevereiro de 2022 e cuja compreensão não pode ficar reduzida à narrativa simplista do invasor malévolo e da vítima. A História é mais complexa do que as versões que nos são diariamente oferecidas.

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O mesmo poderíamos dizer da Palestina, do Irão, do Sudão ou do Congo. São territórios onde se cruzam interesses económicos, estratégicos e geopolíticos e onde a vida humana parece ter um valor diferente consoante a identidade das vítimas e os interesses de quem observa. A Palestina é talvez o exemplo mais brutal dessa realidade: décadas de ocupação, violência, espoliação e genocídio continuam a ser apresentadas por grande parte do chamado Ocidente através de uma linguagem que frequentemente transforma a vítima em ameaça e a violência contra ela em inevitabilidade.

Mas a crise da ordem ocidental não se manifesta apenas na política externa. Manifesta-se também dentro das próprias sociedades. O crescimento da extrema-direita e de formas renovadas de autoritarismo é disso expressão. Em vários países europeus e americanos (a Norte e a Sul), discursos nacionalistas, xenófobos e ultraconservadores conquistam espaço político e social. Em alguns casos, encontram terreno fértil em setores de movimentos religiosos que oferecem respostas simples para problemas complexos, substituindo a esperança material por uma promessa de salvação.

Há, porém, uma outra batalha, menos visível, que merece atenção: a batalha pelo pensamento. Uma escola cada vez mais submetida à compartimentação dos saberes, à avaliação permanente e à redução do conhecimento à sua utilidade imediata corre o risco de perder uma das suas funções fundamentais: ensinar a pensar. E uma sociedade que deixa de pensar criticamente torna-se mais vulnerável à manipulação.

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As redes sociais agravaram esta realidade. Prometeram democratizar a informação, os algoritmos não foram concebidos para formar cidadãos, mas para captar a atenção. 

A estas evidências acresce ainda o revisionismo histórico, que distorce a realidade, oblitera factos e branqueia acontecimentos. 

Tudo isto encaminha a humanidade para um futuro difícil de prever. O que vier depois dependerá, em grande medida, da capacidade dos povos para recusarem hegemonias, sejam elas antigas ou emergentes, e para construírem uma nova ordem internacional assente na soberania, na cooperação, na justiça e na paz.

Uma coisa é certa, estamos a aproximar-nos do fim de um mundo.

Ponta Delgada, 31 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 2 de setembro de 2026

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