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| foto de Aníbal C. Pires |
Os indicadores disponíveis apontam para um abrandamento da procura turística do destino Açores. Os efeitos não serão uniformes entre ilhas, para o bom e para o mau nunca o são, mas o sinal é claro. E, na verdade, não é novo. Há muito que algumas vozes vinham alertando para a volatilidade estrutural desta indústria, demasiadas vezes ignorada quando os números cresciam e tudo parecia ir para bom porto.
E não! Não se trata apenas do abandono do destino por parte de uma companhia aérea de baixo custo. Esse fator tem peso, naturalmente, mas está longe de explicar, por si só, o que está a acontecer. Há outras variáveis, mais profundas, que ajudam a compreender este abrandamento.
O contexto internacional deteriorou-se. A instabilidade geopolítica, nomeadamente no Médio Oriente, tem efeitos diretos e indiretos nas economias. Desde logo, no aumento dos preços da energia. E, com ele, numa cadeia de consequências previsíveis: subida do custo de vida, pressão inflacionista, e inversão da tendência recente de descida das taxas de juro.
Perante este cenário, os cidadãos retraem-se. Adiam. Selecionam. Cortam no que não é essencial. E, nesse movimento, o turismo, sobretudo em destinos periféricos e de custo elevado, é dos primeiros a ser afetado. Os Açores não escapam a essa lógica.
Ainda assim, importa dizê-lo com clareza: não estamos apenas perante uma crise que nos chega de fora. Estamos também perante um modelo que nunca deixou de ser frágil por dentro.
Os agentes do setor: animação turística, rent-a-car, restauração, hotelaria e alojamento local; têm vindo a público manifestar preocupação e a exigir respostas. Mas fazem-no, em grande medida, centrando o problema na acessibilidade aérea e na ausência de voos de baixo custo.
Essa leitura é, no mínimo, incompleta.
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| imagem retirada da internet |
Quanto à saída da transportadora de baixo custo, convém não romantizar. Faz parte do seu modelo de negócio. Estas companhias não vivem, sobretudo, da venda de bilhetes, mas das contrapartidas financeiras e operacionais que conseguem negociar com os destinos. Quando encontram condições mais vantajosas, mudam. É a lógica do mercado, no seu estado mais puro. (Há quem goste.)
O senhor Michael O’Leary terá, muito provavelmente, encontrado quem estivesse disposto a oferecer mais. E partiu.
E com o abandono, assistiu-se a reações curiosas. Nas redes sociais, multiplicaram-se agradecimentos emocionados pelo “serviço prestado”, esquecendo-se, talvez, que esse serviço foi amplamente suportado por dinheiros públicos, viajassem ou não os contribuintes nessa transportadora.
Outros foram mais longe, intimando que o(s) governo(s) satisfizessem as exigências da empresa como se o interesse público se devesse submeter, sem reservas, à lógica negocial de uma empresa privada.
E aqui emerge um paradoxo que merece reflexão.
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| foto de Aníbal C. Pires |
No fundo, talvez esta seja a questão que evitamos enfrentar: queremos um destino competitivo, mas recusamos discutir o modelo que o sustenta.
Queremos voos baratos, mas não queremos pagar o seu verdadeiro custo.
Queremos turistas, mas nem sempre queremos rever a forma como os recebemos.
O turismo, como o mar que nos cerca, nunca foi um lugar de permanência, é fluxo, é maré, é instabilidade. E, no entanto, insistimos em tratá-lo como chão firme.
Talvez este abrandamento não seja apenas um sinal de crise, mas um aviso. Um desses avisos discretos que chegam antes das ruturas maiores.
Porque, no fim, não é a partida de uma companhia aérea que nos deve inquietar verdadeiramente. É a fragilidade do que fica quando ela parte, como era expetável que, mais tarde ou mais cedo, viesse a acontecer.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de abril de 2026



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