quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Volta ao greenwashing

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O Volta foi apresentado como uma importante medida ambiental para aumentar a recolha e a reciclagem de embalagens. Não questiono que possa contribuir para recolher mais embalagens. O que questiono é que se apresente apenas a recolha de resíduos como se fosse a solução para a gestão de um problema ambiental grave.

Porque há uma pergunta que parece estar ausente do discurso: quantas embalagens deixarão de ser produzidas por causa do Volta? A resposta é: nenhuma.

O Volta não reduz a produção de embalagens descartáveis. Não reduz o consumo. Não promove, por si só, a reutilização. Intervém depois de o produto ter sido fabricado, distribuído, comprado, consumido e transformado em resíduo. É, portanto, uma solução para gerir melhor uma consequência, não para eliminar ou diminuir significativamente a causa.

Dir-se-á que é melhor recolher uma embalagem do que deixá-la abandonada. Naturalmente. Mas essa evidência não deve servir para ocultar a questão essencial. Uma embalagem que não é produzida não precisa de ser recolhida, transportada, separada ou reciclada. Uma embalagem reutilizada dezenas de vezes não precisa de ser substituída por dezenas de embalagens descartáveis.

É aqui que a política dos três Rs (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) merece ser recuperada na sua verdadeira hierarquia. Durante anos fomos educados para compreender que os três Rs não eram soluções equivalentes. Primeiro reduzir, depois reutilizar e só finalmente reciclar. Hoje, porém, parece que o primeiro R desapareceu do discurso e o segundo vai pelo mesmo caminho. Ficou a reciclagem, transformada numa espécie de certificado de boa consciência ambiental.

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E isto não é uma questão menor. Reduzir significa produzir menos e consumir menos. Reutilizar significa prolongar a vida dos produtos e diminuir a necessidade de fabricar outros. Reciclar significa recuperar, tanto quanto possível, aquilo que já foi produzido e consumido. As três ações são importantes, mas não têm o mesmo valor ambiental.

A reciclagem é, aliás, a solução que mais facilmente se acomoda à lógica económica dominante. Podemos continuar a produzir, vender e consumir cada vez mais, desde que separemos corretamente os resíduos. O sistema económico permanece praticamente intocado e transfere para o consumidor a responsabilidade pelo impacto ambiental. 

É aqui que o Volta me suscita reservas. Não porque a recolha de embalagens seja inútil, mas porque uma medida de gestão de resíduos pode ser transformada numa bandeira de sustentabilidade. E quando a imagem de uma solução ambiental começa a ser maior do que a transformação efetiva que ela produz, entramos no território do greenwashing.

E há uma ironia nesta história. Chamamos-lhe Volta porque a embalagem volta ao circuito. Mas talvez aquilo de que precisássemos fosse uma política que impedisse que tantas embalagens tivessem de fazer a volta.

Voltar aos três Rs seria, por isso, um bom começo. Não apenas reciclar melhor, mas produzir menos. Não apenas recolher embalagens, mas reutilizá-las. Não apenas ensinar o cidadão a separar resíduos, mas questionar um modelo económico que transforma quase tudo em mercadoria descartável.

A pergunta ambiental decisiva não deveria ser quantas embalagens conseguimos reciclar. Deveria ser quantas conseguimos deixar de produzir. Porque uma sociedade que produz cada vez mais resíduos não se torna sustentável apenas porque aprendeu a reciclá-los melhor. Talvez seja esta a grande volta que falta dar.

Ponta Delgada, 18 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 19 de agosto de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

a volta que falta dar

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) O Volta não reduz a produção de embalagens descartáveis. Não reduz o consumo. Não promove, por si só, a reutilização. Intervém depois de o produto ter sido fabricado, distribuído, comprado, consumido e transformado em resíduo. É, portanto, uma solução para gerir melhor uma consequência, não para eliminar ou diminuir significativamente a causa.

Dir-se-á que é melhor recolher uma embalagem do que deixá-la abandonada. Naturalmente. Mas essa evidência não deve servir para ocultar a questão essencial. Uma embalagem que não é produzida não precisa de ser recolhida, transportada, separada ou reciclada. Uma embalagem reutilizada dezenas de vezes não precisa de ser substituída por dezenas de embalagens descartáveis. (...)


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ignorância e má-fé

Durante alguns dias, Ceuta voltou ao centro das atenções mediáticas. As imagens de milhares de migrantes a atravessar a fronteira foram apresentadas como uma nova 'invasão' da Europa. Muito se escreveu e comentou sobre o assunto, mas também muito se disse sem rigor. Vale, por isso, a pena recordar alguns factos que ajudam a compreender uma realidade bem mais complexa do que a narrativa dominante pretende fazer crer.

Face a algumas imprecisões a que muitos cidadãos são permeáveis e aceitam como verdades absolutas informações que raramente questionam, julgo ser importante trazer a este espaço algumas reflexões que, no essencial, visam contribuir com alguns elementos de ponderação e opinião sobre a dita “invasão” da Europa por migrantes africanos. Desde logo clarificar que Ceuta é geograficamente território africano.

Ceuta é um território sobre o qual Marrocos reivindica soberania, mas que por enquanto continua sob administração do reino de Espanha - resquícios do colonialismo -, facto que levou alguns dirigentes políticos de oposição e chefes de governo europeus a pedirem a suspensão das regras do espaço Schengen, ou mesmo expulsar Espanha deste acordo europeu que permite a livre circulação de cidadãos nos países da União Europeia que a ele aderiram. Esqueceram-se, ou talvez ignorassem que Ceuta, embora seja um território sob administração espanhola, não integra o espaço Schengen, ou seja, para sair de Ceuta é necessário passaporte para passar a fronteira e viajar para Espanha ou qualquer outro país, europeu ou não. Os ideólogos neofascistas sabem muito bem como utilizar a mentira e as meias-verdades para mobilizar os seus fiéis seguidores.

A questão de que vos tenho vindo a falar não se reduz a Ceuta, nem aos incautos cidadãos que nadaram alguns metros para passar do reino de Marrocos, para um dos enclaves que o reino de Espanha administra no continente africano. A questão é mais vasta e complexa e terá sido orquestrada para prejudicar o governo de Espanha, presidido por Pedro Sanchez. O primeiro-ministro espanhol por quem não nutro particular simpatia, mas reconheço que no contexto dos países da UE e da OTAN tem assumido posições desalinhadas da maioria dos seus parceiros. Fê-lo na defesa dos direitos do povo palestiniano e da Palestina, da agressão estado-unidense ao Irão e na solidariedade a Francesca Albanese. Isto é, no seio de organizações submetidas a interesses que não são, de facto, os interesses dos povos, direi mesmo que este “incidente” poderá também ser interpretado como uma retaliação dos Estados Unidos e da organização sionista que ocupa a Palestina, mas também do reino de Marrocos que não vê com bons olhos a aproximação entre a Espanha e a Argélia.

A monarquia marroquina reivindica legitimamente a soberania sobre Ceuta e Melila. Falta-lhe, porém, autoridade moral para sustentar essa reivindicação enquanto mantiver o Saara Ocidental sob ocupação. Também o governo espanhol sacrifica o direito à autodeterminação do povo saarauí em nome da preservação daqueles enclaves. Não deixa de ser significativo que tal aconteça depois dos Acordos de Madrid (1975), através dos quais Espanha abandonou a administração do território, abrindo caminho à ocupação por Marrocos e Mauritânia (1976), uma solução nunca reconhecida pelo direito internacional.

Antes de aceitarmos como evidentes certas narrativas, convém perguntar quem beneficia com elas.

Ponta Delgada, 3 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 5 de agosto de 2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

geografias

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) Desde logo clarificar que Ceuta é geograficamente território africano.

Ceuta é um território sobre o qual Marrocos reivindica soberania, mas que por enquanto continua sob administração do reino de Espanha - resquícios do colonialismo -, facto que levou alguns dirigentes políticos de oposição e chefes de governo europeus a pedirem a suspensão das regras do espaço Schengen, ou mesmo expulsar Espanha deste acordo europeu que permite a livre circulação de cidadãos nos países da União Europeia que a ele aderiram. Esqueceram-se, ou talvez ignorassem que Ceuta, embora seja um território sob administração espanhola, não integra o espaço Schengen, ou seja, para sair de Ceuta é necessário passaporte para passar a fronteira e viajar para Espanha ou qualquer outro país, europeu ou não. Os ideólogos neofascistas sabem muito bem como utilizar a mentira e as meias-verdades para mobilizar os seus fiéis seguidores. (...)


sábado, 1 de agosto de 2026

Susan Abulhawa - a abrir agosto

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Susan Abulhawa é uma escritora, ensaísta e ativista palestiniana, nascida no Kuwait, filha de refugiados palestinianos expulsos na Nakba de 1948. A sua obra literária, profundamente marcada pela experiência do exílio e da diáspora, conquistou reconhecimento internacional com o romance Morning in Jenin, ao qual se seguiram The Blue Between Sky and Water e Against the Loveless World. Nos seus livros, a história da Palestina é narrada a partir da vida quotidiana das suas personagens, dando voz às consequências humanas da ocupação, do deslocamento forçado e da perda da terra, numa escrita que alia rigor histórico, sensibilidade literária e forte compromisso ético.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Para além do futebol

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Para quem ainda as tinha, as dúvidas dissiparam-se com o último Mundial de Futebol. Sei que a abordagem a este assunto não é popular. Reconheço que o futebol é uma manifestação cultural e desportiva que mobiliza milhões de pessoas em todos os continentes, desperta paixões, alimenta identidades e proporciona momentos de alegria coletiva. Ainda assim, considero que este fenómeno, de inequívoca raiz popular, foi progressivamente capturado por interesses financeiros que o transformaram num dos maiores negócios do planeta.

A minha opinião é seguramente minoritária. Mas nunca a popularidade de uma ideia constituiu critério suficiente para a aceitar sem questionamento.

É impossível passar ao lado de um Mundial de Futebol. A informação chega-nos sem pedir licença, ocupa televisões, rádios, jornais e redes sociais, invade conversas de café e espaços de trabalho. Acompanhei, ainda que involuntariamente, as alegrias e as desilusões que a competição provocou. Mas o que verdadeiramente me impressionou não foram os resultados nem os golos. Foi a obscena comercialização que envolve este espetáculo e a crescente presença das empresas de apostas, hoje patrocinadoras de competições, clubes, transmissões televisivas e de programas desportivos.

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Há muito que o futebol deixou de ser apenas um desporto. Tornou-se uma indústria global onde quase tudo tem um preço: os jogadores, os treinadores, os clubes, os adeptos, os direitos televisivos, as apostas, os artigos promocionais, a publicidade, as emoções e, por vezes, até a própria integridade das competições. O que antes era pertença das comunidades foi transformado numa mercadoria altamente rentável.


As transferências atingem valores que desafiam qualquer racionalidade. Os salários de alguns equivalem ao rendimento de milhares de trabalhadores durante uma vida inteira. Fundos de investimento tratam jogadores como ativos financeiros. Clubes históricos são comprados por fundos soberanos, empresários ou grandes grupos económicos que pouco ou nada têm a ver com a história das instituições que adquirem. O futebol passou a integrar os circuitos da especulação financeira global. Mas talvez o aspeto mais perturbador seja outro. Milhões de pessoas aceitam esta realidade com uma naturalidade desconcertante. Indignam-se, e com razão, com o encerramento de serviços públicos, com a crise da habitação ou com salários insuficientes para chegar ao fim do mês, mas parecem suspender o espírito crítico quando entram no universo da financeirização do desporto. 

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O futebol tornou-se um poderoso instrumento de produção de consensos. Alimenta a ilusão da competição justa enquanto reproduz, de forma quase caricatural, as desigualdades do mundo em que vivemos. Uma pequena elite concentra riqueza, poder e visibilidade; milhões de adeptos investem tempo, dinheiro e emoções num espetáculo cuja rentabilidade beneficia apenas os grandes grupos económicos, as plataformas de comunicação, os patrocinadores e os investidores.

Nada disto diminui a beleza de um passe bem executado, de um remate improvável ou da estratégia coletiva de uma equipa em campo. O problema nunca foi o jogo. O problema é o sistema que fez do jogo um produto financeiro e das emoções um negócio.

Talvez por isso o futebol contemporâneo seja uma das mais perfeitas metáforas do capitalismo atual: tudo pode ser comprado, vendido, promovido e rentabilizado. Até as emoções.

E quando uma sociedade considera tudo isto normal, então talvez o problema não seja apenas o futebol. Talvez, seja o mundo que fomos aceitando como inevitável. 

Ponta Delgada, 21 de julho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 22 de julho de 2026

obscenidades

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) A minha opinião é seguramente minoritária. Mas nunca a popularidade de uma ideia constituiu critério suficiente para a aceitar sem questionamento.

É impossível passar ao lado de um Mundial de Futebol. A informação chega-nos sem pedir licença, ocupa televisões, rádios, jornais e redes sociais, invade conversas de café e espaços de trabalho. Acompanhei, ainda que involuntariamente, as alegrias e as desilusões que a competição provocou. Mas o que verdadeiramente me impressionou não foram os resultados nem os golos. Foi a obscena comercialização que envolve este espetáculo e a crescente presença das empresas de apostas, hoje patrocinadoras de competições, clubes, transmissões televisivas e de programas desportivos. (...)


terça-feira, 21 de julho de 2026

Fernando Menezes - 1952/2026

Conheci-o, mas nunca privei com ele na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, pois, quando iniciei o meu mandato como deputado em 2008, ele estava prestes a terminar o seu percurso parlamentar. Ainda na qualidade de Presidente da ALRAA, foi com ele que tive os primeiros contatos como deputado eleito.

A minha relação com Fernando Menezes não foi de proximidade, mas foi sempre de mútuo respeito institucional. 

Fomo-nos cruzando ao longo dos anos e mantivemos uma relação cordial e pautada por uma grande urbanidade.

O seu falecimento deixa um sentimento de pesar entre os que com ele conviveram mais de perto, mas também entre aqueles que, como eu, o conheceram e com ele mantiveram relações pessoais e institucionais.

O dia começou com a notícia da morte de Fernando Menezes o que motivou, ao fim da manhã, um telefonema a propósito da amizade, respeito e reconhecimento que se constrói ao longo das nossa vidas e, emocionei-me. Essa é uma história para contar mais tarde, ou não, porque há histórias que não se partilham, vivem-se e guardam-se.

À sua família e aos seus amigos deixo as minhas mais sentidas condolências.


domingo, 12 de julho de 2026

Obrigado!

Aníbal C. Pires por Daniel Louro

Nunca dei, nem dou grande importância ao dia do meu aniversário de nascimento, mas como em tudo na vida há sempre exceções. Quando completei 60 anos, pela primeira vez, senti que a data tinha alguma relevância e, para além do habitual jantar de celebração, na cidade da Horta com a minha neta mais velha e com a minha companheira de vida, escrevi, no dia seguinte, um pequeno texto que tenho publicado no meu blogue e do qual transcrevo algumas passagens:

60 anos e muita vontade de viver

Nunca, como ontem, me senti assim. Assim, crescido, adulto, maduro e feliz com isso. Foi dia de mais um aniversário, não um aniversário qualquer. Foi dia do sexagésimo. Os amigos felicitaram-me como sexagenário, sexogenário e sexacelente e, Gostei. Gostei da forma como o fizeram, com amizade e com humor. (…)

(…) ontem foi diferente, pela primeira vez senti que este dia, este e não outro até agora, foi um dia importante para mim, pelo que já vivi, pelo que quero viver, pelo que sonhei e concretizei, pelo sonho que me faz caminhar pela vida e por todos os projetos que quero realizar.

Dez anos passaram. Ontem completei setenta anos.

Do dia de ontem guardo o carinho e amor da família, mas também as inúmeras manifestações de amizade, algumas públicas, outras privadas, com que os amigos, colegas e antigos alunos me brindaram saudando-me pelo meu aniversário. E comovi-me. Comovi-me pela quantidade e pelas generosas palavras que me foram endossadas das mais variadas formas.

Não é, de todo, possível, agradecer de forma personalizada, assim fica este agradecimento coletivo.

BEM HAJAM pela vossa amizade e carinho. Por cá continuarei, enquanto o tempo me oferecer tempo.

Deixo-vos um pequeno poema inédito que fará parte do meu próximo livro de poesia e que expressa, de alguma forma, o que ficou dito no parágrafo anterior.


6. basta-me
viver o que vivi
já bastaria
para dizer
parto em paz

mas fico
no tempo
que me der o tempo

há ainda
palavras e
sementes por lançar

há ainda
um sopro de luz
e o vento já não me abana
quando por mim chama


Lisboa, 12 de julho de 2026


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Datas e memórias

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Por estes dias celebrou-se o dia da independência dos EUA e o dia da independência de Cabo Verde. Cada uma destas datas encerra significados históricos e simbólicos diferentes. Sobre os Estados Unidos importa reter menos a celebração e mais algumas das suas contradições fundadoras. A construção desta federação de estados foi feita sobre o genocídio dos povos autóctones, o comércio de mão-de-obra escrava e a égide do ideário liberal. Importa, porém, desconstruir as “belas” palavras utilizadas pelos “fundadores” na Declaração de Independência, como seja: “… todos os homens são criados iguais.” E ainda a enunciação de três direitos inalienáveis: “o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à felicidade.” Direitos dos quais, direi, ninguém discordará. Assim dito, tudo parece perfeito. Mas, contextualizados, estes princípios do direito natural e as prerrogativas enunciadas talvez não correspondam àquilo que, à primeira vista, parecem significar. Vejamos: quando a declaração foi escrita, pessoas escravizadas não tinham liberdade, as mulheres estavam afastadas da vida política, os povos indígenas eram tratados como exteriores ao novo corpo político e até muitos homens brancos pobres viam os seus direitos limitados.

No espaço exíguo desta crónica não é possível ir mais longe, pois quero, ainda, fazer algumas referências à celebração da independência de Cabo Verde, mas sempre acrescento que a base teórica e filosófica onde se ancorou a declaração de independência dos Estados Unidos tem a sua origem no pensamento liberal e no direito natural, especialmente de filósofos como John Locke, bem como do ambiente intelectual do Iluminismo, e na ideia central que os direitos não são uma benção divina ou de herança e não são concedidos, os direitos existem por natureza. Ou seja, a frase não significava, em 1776, igualdade social completa nem igualdade de direitos para todos os habitantes. Significava, sobretudo, uma rejeição da ideia europeia de que algumas pessoas nasciam naturalmente superiores por sangue, nobreza ou direito divino.

da obra de Kiki Lima - imagem retirada da internet
Com Cabo Verde tudo foi diferente. Deixo a história para outra oportunidade para partilhar uma paixão antiga. Cabo Verde entrou na minha vida muito antes de eu lhe conhecer as pedras, os caminhos e o mar. Cresci longe do Atlântico aberto, nas terras interiores do continente português, entre horizontes presos à terra e aos montes. E, no entanto, havia em mim qualquer coisa que já caminhava por aquelas e outras ilhas sem nunca as ter visto.

Talvez tenha sido a dolência das mornas a abrir a primeira porta. Talvez a alegria do funaná, o batuque a rasgar silêncios, ou essa tristeza doce que habita a hora di bai, quando partir e ficar parecem ter a mesma dor. Há fascínios que não se explicam, acontecem e medram dentro de nós, devagar, como cresce o mar na maré cheia.

Quando finalmente conheci Cabo Verde, percebi que alguns encontros acontecem muito antes do primeiro olhar. Reconheci rostos, gestos e maneiras de sentir a vida, como quem encontra uma paisagem antiga que julgava perdida. Compreendi então que aquele povo ilhéu, moldado pela imensidão do Atlântico e pelo vento Leste, fez da escassez força, da distância caminho e da partida uma outra maneira de permanecer. Porque Cabo Verde não é apenas um lugar. É uma forma de resistência tranquila e de profunda dignidade. 

E talvez por isso José Saramago tenha encontrado as palavras certas quando escreveu que Cabo Verde “repete dia a dia a criação do mundo”.

Ponta Delgada, 6 de julho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 8 de julho de 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

contextualizando

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) No espaço exíguo desta crónica não é possível ir mais longe, pois quero, ainda, fazer algumas referências à celebração da independência de Cabo Verde, mas sempre acrescento que a base teórica e filosófica onde se ancorou a declaração de independência dos Estados Unidos tem a sua origem no pensamento liberal e no direito natural, especialmente de filósofos como John Locke, bem como do ambiente intelectual do Iluminismo, e na ideia central que os direitos não são uma benção divina ou de herança e não são concedidos, os direitos existem por natureza. Ou seja, a frase não significava, em 1776, igualdade social completa nem igualdade de direitos para todos os habitantes. Significava, sobretudo, uma rejeição da ideia europeia de que algumas pessoas nasciam naturalmente superiores por sangue, nobreza ou direito divino. (...)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Malak Mattar - a abrir julho

Malak Mattar é uma artista plástica palestiniana, nascida na Faixa de Gaza, cuja obra se tornou uma das expressões mais marcantes da resistência cultural do povo palestiniano. 






A obra de Malak Mattar inscreve-se na longa tradição da arte como instrumento de resistência e libertação nacional. Através da arte, Malak Mattar lembra que a luta pela libertação da Palestina também se trava no campo da cultura, da memória e da afirmação da humanidade de um povo que reclama o direito inalienável à liberdade, à justiça e à autodeterminação.


domingo, 28 de junho de 2026

Discursos

Não ouvi em direto na TV, mas li e ouvi muitos comentários elogiosos ao discurso de Miguel Monjardino (MM) por ocasião das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. O discurso do Presidente da República (PR), que também não ouvi, foi igualmente alvo de laudatórios comentários. Fiquei curioso e fui ao site da Presidência da República ler os discursos e perceber o porquê de tanto enaltecimento.

Sobre o discurso do PR não vou tecer considerações, é consensual e satisfez a generalidade. Já o discurso de MM merece alguma reflexão. Trata-se de uma narrativa que liga Camões, os Açores, o mar, a autonomia e a geopolítica, utilizando a metáfora marítima para pensar o futuro de Portugal. Mas quando analisado à luz das transformações geopolíticas que estão a ocorrer no mundo, surgem-me algumas dúvidas que merecem comentário. Não pretendo com este texto alimentar qualquer polémica com o Professor MM, por quem tenho grande consideração, mas não ficaria bem comigo mesmo se não escrevesse estas notas sobre alguns aspetos do seu discurso.

A principal questão está precisamente na passagem em que MM afirma que "um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer". Esta formulação contém uma visão muito centrada na experiência ocidental das últimas décadas. Para Portugal, para a Europa Ocidental e para alguns aliados dos Estados Unidos, o período iniciado em 1945 foi, de facto, relativamente estável e vantajoso. Mas para grande parte do mundo, da América Central e do Sul, ao Médio Oriente, passando por África e partes da Ásia, esse sistema esteve longe de ser percebido como verdadeiramente multilateral. Na verdade, esse sistema nunca foi plenamente multilateral. Foi antes um sistema de múltiplas vozes surgidas da descolonização, onde o chamado Movimento dos Países Não Alinhados procurou abrir um espaço autónomo entre os dois grandes blocos.

Uma leitura alternativa sugere que não se trata do fim de um mundo multipolar, mas o declínio de uma ordem unipolar dominada pelos Estados Unidos e pelos seus aliados atlânticos após a dissolução da União Soviética. Entre 1991 e aproximadamente 2015-2020, viveu-se o momento unipolar estado-unidense. O que está a emergir agora é precisamente uma maior dispersão do poder mundial, com a ascensão da China, o reforço da Índia, a afirmação de potências regionais como a Turquia, o Brasil, ou mesmo o Irão, e o crescimento de organizações como os BRICS. Nesse sentido, poder-se-ia argumentar que estamos a assistir não ao fim do multilateralismo, mas ao seu nascimento fora da esfera ocidental e sem a marca ideológica do eurocentrismo.

Há igualmente uma certa ambiguidade quando MM defende o multilateralismo e, simultaneamente, a "reinvenção da NATO" e o reforço do seu "pilar europeu". A NATO continua a ser uma aliança militar ocidental e não uma instituição multilateral universal. Para muitos países do Sul Global, ela representa precisamente uma das expressões da ordem atlântica mais contestada. 

Outro aspeto discutível é a ideia de que o ciclo iniciado em 1945 "terminou recentemente". Pode dizer-se que o verdadeiro ponto de rutura não é o fim da ordem de 1945, mas a erosão da ordem surgida após 1991. A ordem de 1945 foi bipolar, estruturada pela rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. O período posterior ao fim da Guerra Fria foi diferente: caracterizou-se pela hegemonia estado-unidense e pela globalização financeira. É esse modelo que está hoje a ser claramente contestado. 

Ponta Delgada, 22 de junho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 24 de junho de 2026

múltiplas vozes

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.










(...) A principal questão está precisamente na passagem em que MM afirma que "um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer". Esta formulação contém uma visão muito centrada na experiência ocidental das últimas décadas. Para Portugal, para a Europa Ocidental e para alguns aliados dos Estados Unidos, o período iniciado em 1945 foi, de facto, relativamente estável e vantajoso. Mas para grande parte do mundo, da América Central e do Sul, ao Médio Oriente, passando por África e partes da Ásia, esse sistema esteve longe de ser percebido como verdadeiramente multilateral. Na verdade, esse sistema nunca foi plenamente multilateral. Foi antes um sistema de múltiplas vozes surgidas da descolonização, onde o chamado Movimento dos Países Não Alinhados procurou abrir um espaço autónomo entre os dois grandes blocos. (...)

sábado, 13 de junho de 2026

Empobrecer a trabalhar

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Em Portugal a receita surge, invariavelmente, embrulhada no estafado e bafiento discurso neoliberal: é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, reduzir direitos, facilitar despedimentos e enfraquecer a contratação coletiva. Os trabalhadores são apresentados como um obstáculo ao crescimento, os seus direitos como privilégios e a legislação laboral como um entrave à modernização do país e ao aumento da produtividade.

A realidade, porém, conta-nos uma história bem diferente.

Portugal é um dos países da União Europeia onde o trabalho é mais mal pago, onde a precariedade se tornou em norma para centenas de milhares de pessoas e onde muitos trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas completas, continuam a viver na pobreza ou no seu limiar.

Foi em nome da competitividade que se cortaram salários. Foi em nome da modernização que se reduziram indemnizações por despedimento. Foi em nome da criação de emprego que se generalizaram vínculos precários, falsos recibos verdes, horários desregulados e formas cada vez mais sofisticadas de exploração laboral. O resultado está à vista: mais desigualdade, mais insegurança e uma crescente dificuldade em construir projetos de vida.

É neste contexto que o atual Governo, apoiado pela direita neoliberal e pela extrema-direita, procura avançar com novas alterações ao Código do Trabalho. Não se trata de uma simples revisão técnica da legislação laboral. Trata-se de mais um passo num longo processo de transferência de poder do trabalho para o capital.

Facilitar despedimentos, enfraquecer a contratação coletiva, recuperar mecanismos como o banco de horas individual ou criar formas de flexibilização laboral significa aumentar a dependência dos trabalhadores perante as empresas e reduzir a sua capacidade de resistência e negociação. Significa transformar o emprego estável em exceção e a precariedade em regra.

A ofensiva é tanto mais reveladora quanto surge num momento em que os trabalhadores enfrentam uma das mais profundas crises de poder de compra das últimas décadas. Os preços da habitação atingem níveis incomportáveis, os custos da alimentação continuam elevados e os serviços públicos sofrem um processo de degradação que empurra cada vez mais pessoas para soluções privadas. Enquanto isso, a riqueza concentra-se, os lucros crescem escandalosamente e os trabalhadores empobrecem a trabalhar.

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A oposição dos trabalhadores às propostas governamentais foi clara e inequívoca, como se verificou pela adesão à(s) Greve(s) Geral(ais). A Concertação Social não produziu qualquer consenso. Mesmo alguns setores empresariais manifestaram reservas. Mas o Governo insiste. E insiste porque estas medidas não respondem às necessidades do país; respondem aos interesses de quem vê nos direitos laborais um obstáculo à maximização do lucro.

Existe ainda uma dimensão frequentemente ignorada neste debate. Muitas das alterações pretendidas chocam frontalmente com princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa. Por isso, o que está em causa ultrapassa largamente a discussão sobre alguns artigos do Código do Trabalho. O que está em causa é a própria natureza do contrato social construído em democracia. A direita económica sabe-o. Por isso procura, passo a passo, limitar direitos conquistados, enfraquecer organizações sindicais e transformar a força de trabalho numa mercadoria cada vez mais barata e descartável.

Ponta Delgada, 8 de junho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de junho de 2026

velhas receitas

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) Em Portugal a receita surge, invariavelmente, embrulhada no estafado e bafiento discurso neoliberal: é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, reduzir direitos, facilitar despedimentos e enfraquecer a contratação coletiva. Os trabalhadores são apresentados como um obstáculo ao crescimento, os seus direitos como privilégios e a legislação laboral como um entrave à modernização do país e ao aumento da produtividade.

A realidade, porém, conta-nos uma história bem diferente.

Portugal é um dos países da União Europeia onde o trabalho é mais mal pago, onde a precariedade se tornou em norma para centenas de milhares de pessoas e onde muitos trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas completas, continuam a viver na pobreza ou no seu limiar. (...)


terça-feira, 2 de junho de 2026

nevoeiros

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No espaço de uma semana os Açores experienciaram condições meteorológicas, que não sendo uma novidade, prolongaram-se no tempo e provocaram cancelamentos de voos interilhas e nas ligações com o exterior. Foram centenas de voos cancelados e milhares de passageiros afetados. Não sendo uma novidade foi, contudo, uma situação excecional e as respostas insuficientes, pela carência de alojamentos e as recusas dos transportes e hoteleiros em aceitarem os “vouchers” das transportadoras aéreas. Transportadoras sim. Se é verdade que a maioria dos passageiros afetados era, naturalmente, da SATA (Air Açores e Azores Airlines) não é menos verdade que os passageiros eram também da TAP e de algumas transportadoras aéreas estrangeiras que voam para os Açores.

Também fui afetado. No dia 22 de maio não consegui viajar de S. Miguel para a Terceira tendo como consequência o adiamento do trabalho que vinha realizar, dia 23 de maio, para o dia 30. Cheguei à Terceira no dia 28 (não havia lugares disponíveis a 29) e ainda por aqui estou na expetativa de regressar a S. Miguel amanhã (dia 3 de junho) pelas 6h40mn. Por acaso, ou não dia 3 de junho, é dia de greve geral e, por conseguinte, corro o risco, se este voo não pertencer à escala dos serviços mínimos e ter de prolongar a minha estadia na ilha Terceira.

Como eu estarão muitos outros passageiros na mesma situação, embora aposentado também tenho compromissos, mas em bom rigor quem vive nos Açores sabe que adiamentos, cancelamentos e reformulação de planificações fazem parte desta coisa a que chamamos, para o bem e para o mal, “o viver insular”.

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Os inconvenientes para os passageiros são elevados, os custos para as transportadoras aéreas também. E é por isso que não é aceitável que os ativistas de sofá e os “experts” se tenham atirado à SATA como “sete cães a um osso” manifestando o seu ódio de estimação por uma empresa que é de todos nós e que nos presta um serviço que nenhuma outra fará. As respostas da SATA poderão, em algumas situações, não ter sido as melhores. Ninguém está isento de erros, mas a dimensão das ocorrências foi, repito, excecional e, quando assim é, os planos de contingência têm eficácia limitada. Um pouco mais de bom senso, e menos de senso comum, talvez seja o mais avisado em situações como a que se verificou nas últimas semanas.

Apenas mais duas notas finais. 

A primeira sobre os putativos entendidos em aviação e gestão aeronáutica que, em momentos como este brotam como cogumelos no Outono e infetam as redes sociais com opiniões infundadas, criam suspeições e atribuem responsabilidades a quem as não tem. Moderem-se para não passarem pelo ridículo de verem as vossas opiniões estraçalhadas por quem, com a autoridade do conhecimento, as comenta.

A segunda para o setor do Turismo. Sendo uma situação excecional é, no entanto, um aviso para que a tal reflexão que se vem a adiar seja feita. O modelo de oferta turística que tem vindo a ser implementado nos Açores talvez não seja o mais adequado para um destino com estas caraterísticas. E ainda não chegaram os nevoeiros de S. João, a não ser que o “El Niño” tenha antecipado um mês a sua chegada.

Angra do Heroísmo, 2 de junho de 2026 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Batool Abu Akleen - a abrir junho

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Batool Abu Akleen é uma das vozes mais significativas da nova geração de escritores palestinianos. Nascida em Gaza, começou a escrever poesia ainda criança e ganhou reconhecimento internacional muito jovem, transformando a palavra poética num testemunho da vida sob ocupação, guerra e deslocação. A sua obra, escrita em árabe e também traduzida por si para inglês, tem sido publicada em revistas e antologias internacionais, destacando-se pela capacidade de unir a experiência íntima da dor à dimensão coletiva da resistência do povo palestiniano.

A sua obra tornou-se uma forma de resistência cultural e de denúncia internacional, contribuindo para sensibilizar leitores de diferentes países para a realidade vivida pelos palestinianos. O reconhecimento obtido em prémios literários internacionais e a publicação da sua coletânea 48Kg reforçaram o seu papel como uma das mais relevantes vozes literárias palestinianas da atualidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Desafios Autonómicos

Há cinquenta anos, a palavra autonomia deixou de ser apenas murmúrio histórico, desejo disperso entre elites económicas, políticas, intelectuais e, ainda que sem grande significado, no abandonado povo ilhéu cuja luta era mais de subsistência. Há cinquenta anos as aspirações autonómicas ganharam corpo constitucional e iniciou-se o caminho do autogoverno. A conquista da autonomia regional não surgiu do acaso nem da generosidade súbita do poder central. Nasceu de uma conjugação rara entre a abertura democrática do 25 de Abril, a pressão social e política nos Açores e a consciência de que governar ilhas a partir da distância administrativa e mental de Lisboa era persistir num equívoco histórico.

Durante décadas a insularidade foi tratada mais como uma fatalidade útil, do que como condição específica exigindo respostas próprias. O centralismo do Estado Novo olhava para as ilhas com paternalismo burocrático, raramente reconhecendo a singularidade económica, social e cultural do arquipélago.

A autonomia constitucional de 1976 alterou profundamente essa relação. Pela primeira vez, os açorianos conquistaram instrumentos efetivos de autogoverno democrático e uma dimensão muito para além de uma mera mudança administrativa. Representou a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, com maior conhecimento da realidade concreta das ilhas, das suas fragilidades e potencialidades.

Os resultados são visíveis. A autonomia permitiu modernizar infraestruturas, expandir o acesso à educação e à saúde, melhorar transportes, criar instrumentos de apoio social e afirmar uma presença política própria no contexto nacional e europeu. Permitiu também consolidar uma identidade açoriana aberta, plural e integrada na República, desmontando receios antigos que confundiam autonomia com separatismo.

Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente.

A autonomia trouxe capacidade de decisão, mas persistem dependências excessivas do exterior, fragilidades produtivas, desigualdades sociais, pobreza e um preocupante envelhecimento demográfico agravado pela emigração de jovens qualificados. Em algumas ilhas, sente-se o risco silencioso da desertificação humana.

Os próximos anos exigirão mais do que a simples celebração simbólica da autonomia. Os Açores terão de pensar um novo equilíbrio entre desenvolvimento económico e preservação ambiental; entre turismo e sustentabilidade; entre modernização e coesão social; entre abertura ao mundo e defesa da sua singularidade cultural.

O maior desafio talvez seja este: impedir que a autonomia se transforme apenas numa estrutura administrativa habituada a gerir dependências. Porque a autonomia, no seu sentido mais profundo, não se resume à governação de rotinas para perpetuação no poder. É possuir capacidade coletiva para imaginar futuro.


Ponta Delgada, 25 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

da autonomia

foto de Aníbal C. Pires




Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente. (...)


quarta-feira, 13 de maio de 2026

duas Europas

imagem retirada da internet
A União Europeia (UE) celebra-se a si própria envolta numa narrativa de paz, integração e democracia, a cada 9 de maio. Estrelas douradas em fundo azul, num espaço onde o discurso da paz convive, cada vez mais, com a lógica do rearmamento, se cerceiam liberdades e onde a qualidade da democracia é, direi, duvidosa. A 9 de maio celebra-se a chamada “ideia europeia”, nascida da Declaração Schuman de 1950, apresentada como resposta civilizacional às ruínas da guerra. Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi.

imagem retirada da internet

Durante décadas, porém, o Ocidente construiu uma narrativa da Segunda Guerra Mundial cada vez mais centrada em si próprio. O desembarque da Normandia tornou-se o grande símbolo cinematográfico e político da libertação da Europa, enquanto o contributo soviético foi sendo remetido para um plano secundário ou tratado com desconforto ideológico. A Guerra Fria ajudou a consolidar essa leitura. Tornava-se difícil reconhecer plenamente o papel histórico da URSS ao mesmo tempo que ela era apresentada como principal inimigo do mundo ocidental.


Após o colapso da URSS, a questão tornou-se ainda mais complexa e foi-se consolidando o apagamento da memória e a reescrita da história numa tentativa de distorcer o essencial, ou seja, sem o sacrifício dos povos soviéticos, a derrota do nazismo teria sido incomparavelmente mais difícil e certamente se prolongaria mais no tempo.

A UE prefere hoje construir a sua legitimidade histórica a partir da reconciliação franco-alemã, da integração económica e dos valores liberais do pós-guerra. É uma escolha política que na prática se traduz no empobrecimento da memória quando a história é reduzida ao que convém ao presente. A Europa institucional celebra-se a si própria enquanto se afasta da memória concreta daqueles que pagaram o preço mais elevado para derrotar o Terceiro Reich.

A Federação Russa celebra o legado da União Soviética e utiliza-o para que a memória não seja apagada e a história reescrita, contrariando a relativização ou mesmo o silenciamento do papel da URSS, pela UE, na derrota da barbárie nazifascista. Como se o presente pudesse reescrever retroativamente o passado. A história exige mais rigor do que alinhamentos conjunturais. Não é necessário glorificar o sistema político da União Soviética para reconhecer a dimensão decisiva do Exército Vermelho na derrota do fascismo europeu. 

No fundo, o 9 de maio revela duas Europas: a que se celebra a si própria e a que foi construída sobre milhões de mortos que, pouco a pouco, parecem desaparecer na memória oficial no Ocidente.

Ponta Delgada, 11 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de maio de 2026

terça-feira, 12 de maio de 2026

coincidências!? ou não.

imagem retirada da internet

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi. (...)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Susan Sarandon - a abrir maio

O percurso de Susan Sarandon não se esgota no brilho do cinema. Ao longo de décadas, a atriz tem feito da sua voz um instrumento político, frequentemente desalinhado com o conforto das maiorias. No que toca à causa palestiniana, Sarandon tem-se posicionado de forma clara, denunciando a ocupação e defendendo os direitos humanos do povo palestiniano, mesmo quando isso lhe trouxe críticas, perda de oportunidades profissionais e campanhas de deslegitimação pública. A sua intervenção não é episódica: inscreve-se numa ética de coerência que atravessa outras lutas: contra a guerra, contra o racismo ou, contra a desigualdade social.

Ao apoiar a causa palestiniana, Sarandon inscreve-se numa tradição de algumas figuras públicas que recusam a neutralidade perante o sofrimento alheio. A sua presença em manifestações, declarações e redes sociais tem contribuído para ampliar a visibilidade de um conflito frequentemente filtrado por narrativas dominantes. Não se trata apenas de um gesto simbólico, mas de uma escolha que evidencia o custo de tomar posição num espaço mediático onde a opinião desalinhada do mainstream é, muitas vezes, punida.

Num tempo em que a palavra pública tende a diluir-se em prudências calculadas, a postura de Susan Sarandon lembra que a consciência pode ser também um ato de risco. Há, no seu percurso, uma espécie de fidelidade a uma ideia simples e exigente: a de que o silêncio, perante a injustiça, é sempre uma forma de consentimento. E é talvez por isso que a sua voz, mesmo perseguida e manietada, continua a ecoar, não como um ruído, mas como uma humana inquietação.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Autonomia: nome e caminho

A Constituição de 1976 deu nome ao que já existia em surdina: a autonomia. Não como concessão, mas como conquista. Uma conquista filha direta do mesmo gesto que devolveu aos portugueses a palavra e o direito de a usar. Antes disso, os Açores viviam encostados ao limite. Uma economia de subsistência, ancorada na terra e no mar; uma indústria quase ausente, e a emigração como destino repetido, tantas vezes a única saída possível. Partia-se como quem respira, por necessidade.

As ilhas estavam distantes. A escola era curta, a saúde escassa, as ligações incertas. E havia um país, que nem sempre, ou quase nunca, chegava.

Depois, veio o tempo da construção. A autonomia abriu caminhos, a Europa trouxe meios, e o arquipélago começou a desenhar outro retrato de si. Mais escolas, mais hospitais, mais portos e aeroportos. Uma economia que, devagar, se vai soltando das amarras antigas. Mas crescer não é o mesmo que equilibrar.

imagem retirada da internet

As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.


Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas.

Abril abriu a porta. Mas atravessá-la continua a ser tarefa inacabada. Há uma autonomia que existe nos textos, outra que vive nos discursos, e uma terceira, esta mais exigente, que só ganha forma na prática quotidiana, nas decisões que não se adiam, nas escolhas que não se delegam. É essa autonomia que ainda falta cumprir por inteiro. Talvez porque a autonomia não se decreta: constrói-se. E constrói-se devagar, como tudo o que importa, com memória, com consciência, com conflito também.

foto de Aníbal C. Pires
O desígnio inicial, o de um desenvolvimento harmonioso de todas as ilhas permanece, em parte, por realizar. E é nesse desfasamento, entre o que fomos capazes de fazer e o que ainda não ousámos ser, que a autonomia se revela, não como herança, mas como responsabilidade.

No fundo, a pergunta permanece simples e difícil: o que queremos fazer com a liberdade que conquistámos?  O verdadeiro sentido da liberdade conquistada em Abril realiza-se quando a autonomia deixa de ser apenas estatuto político e se converta em projeto coletivo, um projeto de cidadania consciente, solidariedade entre ilhas e afirmação plena da açorianidade no espaço português e atlântico.

A autonomia conquistada após o 25 de Abril foi um marco decisivo: deu forma institucional a uma identidade que até então era mais cultural e afetiva, contudo, podemos argumentar que essa autonomia política ainda não se traduziu plenamente numa consciência cívica e cultural consolidada. A identidade açoriana, dir-se-ia, está afirmada no discurso, na simbologia e na afetividade, mas menos consolidada na prática política e no projeto de desenvolvimento, muitas vezes dependente de lógicas externas e de subserviências internas.

Ponta Delgada, 27 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de abril de 2026

ponto de chegada

foto de Aníbal C. Pires

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.

Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas. (...)


domingo, 19 de abril de 2026

para além do índice

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O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) volta a colocar em evidência as assimetrias estruturais que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tende a suavizar, por ser um indicador que não pode ser lido apenas a partir da tabela que ordena os países conforme o seu IDH. O exemplo dos Estados Unidos e do Irão é, a este respeito, particularmente revelador.

Os Estados Unidos mantêm uma posição cimeira no IDH, sustentada por um elevado rendimento nacional bruto per capita, níveis médios de escolaridade relativamente elevados e uma esperança média de vida, igualmente alta, contudo, esta posição deve ser lida com cautela. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição do rendimento, revela um país marcado por profundas clivagens sociais. A concentração de riqueza distorce o impacto real do rendimento médio, criando uma imagem de prosperidade que não se traduz de forma homogénea nas condições de vida da população. Acresce que, em indicadores como a esperança média de vida, os Estados Unidos têm registado estagnações e até retrocessos, em parte associados a desigualdades no acesso à saúde, fenómenos de exclusão e crises sociais persistentes.

O Irão, por seu lado, apresenta um IDH inferior, ainda que seja considerado pelo PNUD, como sendo “Alto”, penalizado por um rendimento per capita significativamente mais baixo que o dos Estados Unidos, porém, quando se analisam isoladamente as componentes da educação e da saúde, o quadro revela maior complexidade. Apesar de mais de quatro décadas de sanções económicas internacionais, o país conseguiu desenvolver sistemas de educação e cuidados de saúde com resultados relativamente no contexto regional e, em alguns indicadores, comparáveis a padrões internacionais de desenvolvimento elevado. A taxa de literacia, a expansão do ensino superior e indicadores de saúde pública demonstram uma capacidade de lidar de forma positiva com as condições adversas que lhe foram impostas externamente que o IDH, centrado numa média agregada, tende a subvalorizar.

sem abrigo em LA - imagem retirada da internet

É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais.


A questão das sanções é incontornável. Durante mais de quarenta anos, o Irão tem enfrentado restrições severas ao comércio internacional, ao investimento e ao acesso a tecnologias. Estas limitações tiveram impactos diretos no crescimento económico e, por consequência, no rendimento per capita uma das variáveis centrais no cálculo do IDH, frequentemente decisiva na diferenciação entre países. Ainda assim, o país conseguiu manter níveis razoáveis de desenvolvimento humano em áreas-chave, o que sugere que políticas públicas orientadas para a educação e a saúde mitigaram os constrangimentos externos.

Em suma, a comparação entre Estados Unidos e Irão evidencia os limites do IDH enquanto medida isolada de avaliação do desenvolvimento. Quando complementado pelo coeficiente de Gini e contextualizado por fatores históricos e políticos, como o regime de sanções, emerge uma leitura mais densa e menos linear: a de que desenvolvimento não é apenas riqueza média, mas também a sua distribuição e a capacidade de resistência perante constrangimentos externos.

Ponta Delgada, 13 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de abril de 2026