terça-feira, 2 de junho de 2026

nevoeiros

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No espaço de uma semana os Açores experienciaram condições meteorológicas, que não sendo uma novidade, prolongaram-se no tempo e provocaram cancelamentos de voos interilhas e nas ligações com o exterior. Foram centenas de voos cancelados e milhares de passageiros afetados. Não sendo uma novidade foi, contudo, uma situação excecional e as respostas insuficientes, pela carência de alojamentos e as recusas dos transportes e hoteleiros em aceitarem os “vouchers” das transportadoras aéreas. Transportadoras sim. Se é verdade que a maioria dos passageiros afetados era, naturalmente, da SATA (Air Açores e Azores Airlines) não é menos verdade que os passageiros eram também da TAP e de algumas transportadoras aéreas estrangeiras que voam para os Açores.

Também fui afetado. No dia 22 de maio não consegui viajar de S. Miguel para a Terceira tendo como consequência o adiamento do trabalho que vinha realizar, dia 23 de maio, para o dia 30. Cheguei à Terceira no dia 28 (não havia lugares disponíveis a 29) e ainda por aqui estou na expetativa de regressar a S. Miguel amanhã (dia 3 de junho) pelas 6h40mn. Por acaso, ou não dia 3 de junho, é dia de greve geral e, por conseguinte, corro o risco, se este voo não pertencer à escala dos serviços mínimos e ter de prolongar a minha estadia na ilha Terceira.

Como eu estarão muitos outros passageiros na mesma situação, embora aposentado também tenho compromissos, mas em bom rigor quem vive nos Açores sabe que adiamentos, cancelamentos e reformulação de planificações fazem parte desta coisa a que chamamos, para o bem e para o mal, “o viver insular”.

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Os inconvenientes para os passageiros são elevados, os custos para as transportadoras aéreas também. E é por isso que não é aceitável que os ativistas de sofá e os “experts” se tenham atirado à SATA como “sete cães a um osso” manifestando o seu ódio de estimação por uma empresa que é de todos nós e que nos presta um serviço que nenhuma outra fará. As respostas da SATA poderão, em algumas situações, não ter sido as melhores. Ninguém está isento de erros, mas a dimensão das ocorrências foi, repito, excecional e, quando assim é, os planos de contingência têm eficácia limitada. Um pouco mais de bom senso, e menos de senso comum, talvez seja o mais avisado em situações como a que se verificou nas últimas semanas.

Apenas mais duas notas finais. 

A primeira sobre os putativos entendidos em aviação e gestão aeronáutica que, em momentos como este brotam como cogumelos no Outono e infetam as redes sociais com opiniões infundadas, criam suspeições e atribuem responsabilidades a quem as não tem. Moderem-se para não passarem pelo ridículo de verem as vossas opiniões estraçalhadas por quem, com a autoridade do conhecimento, as comenta.

A segunda para o setor do Turismo. Sendo uma situação excecional é, no entanto, um aviso para que a tal reflexão que se vem a adiar seja feita. O modelo de oferta turística que tem vindo a ser implementado nos Açores talvez não seja o mais adequado para um destino com estas caraterísticas. E ainda não chegaram os nevoeiros de S. João, a não ser que o “El Niño” tenha antecipado um mês a sua chegada.

Angra do Heroísmo, 2 de junho de 2026 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Batool Abu Akleen - a abrir junho

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Batool Abu Akleen é uma das vozes mais significativas da nova geração de escritores palestinianos. Nascida em Gaza, começou a escrever poesia ainda criança e ganhou reconhecimento internacional muito jovem, transformando a palavra poética num testemunho da vida sob ocupação, guerra e deslocação. A sua obra, escrita em árabe e também traduzida por si para inglês, tem sido publicada em revistas e antologias internacionais, destacando-se pela capacidade de unir a experiência íntima da dor à dimensão coletiva da resistência do povo palestiniano.

A sua obra tornou-se uma forma de resistência cultural e de denúncia internacional, contribuindo para sensibilizar leitores de diferentes países para a realidade vivida pelos palestinianos. O reconhecimento obtido em prémios literários internacionais e a publicação da sua coletânea 48Kg reforçaram o seu papel como uma das mais relevantes vozes literárias palestinianas da atualidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Desafios Autonómicos

Há cinquenta anos, a palavra autonomia deixou de ser apenas murmúrio histórico, desejo disperso entre elites económicas, políticas, intelectuais e, ainda que sem grande significado, no abandonado povo ilhéu cuja luta era mais de subsistência. Há cinquenta anos as aspirações autonómicas ganharam corpo constitucional e iniciou-se o caminho do autogoverno. A conquista da autonomia regional não surgiu do acaso nem da generosidade súbita do poder central. Nasceu de uma conjugação rara entre a abertura democrática do 25 de Abril, a pressão social e política nos Açores e a consciência de que governar ilhas a partir da distância administrativa e mental de Lisboa era persistir num equívoco histórico.

Durante décadas a insularidade foi tratada mais como uma fatalidade útil, do que como condição específica exigindo respostas próprias. O centralismo do Estado Novo olhava para as ilhas com paternalismo burocrático, raramente reconhecendo a singularidade económica, social e cultural do arquipélago.

A autonomia constitucional de 1976 alterou profundamente essa relação. Pela primeira vez, os açorianos conquistaram instrumentos efetivos de autogoverno democrático e uma dimensão muito para além de uma mera mudança administrativa. Representou a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, com maior conhecimento da realidade concreta das ilhas, das suas fragilidades e potencialidades.

Os resultados são visíveis. A autonomia permitiu modernizar infraestruturas, expandir o acesso à educação e à saúde, melhorar transportes, criar instrumentos de apoio social e afirmar uma presença política própria no contexto nacional e europeu. Permitiu também consolidar uma identidade açoriana aberta, plural e integrada na República, desmontando receios antigos que confundiam autonomia com separatismo.

Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente.

A autonomia trouxe capacidade de decisão, mas persistem dependências excessivas do exterior, fragilidades produtivas, desigualdades sociais, pobreza e um preocupante envelhecimento demográfico agravado pela emigração de jovens qualificados. Em algumas ilhas, sente-se o risco silencioso da desertificação humana.

Os próximos anos exigirão mais do que a simples celebração simbólica da autonomia. Os Açores terão de pensar um novo equilíbrio entre desenvolvimento económico e preservação ambiental; entre turismo e sustentabilidade; entre modernização e coesão social; entre abertura ao mundo e defesa da sua singularidade cultural.

O maior desafio talvez seja este: impedir que a autonomia se transforme apenas numa estrutura administrativa habituada a gerir dependências. Porque a autonomia, no seu sentido mais profundo, não se resume à governação de rotinas para perpetuação no poder. É possuir capacidade coletiva para imaginar futuro.


Ponta Delgada, 25 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

da autonomia

foto de Aníbal C. Pires




Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente. (...)


quarta-feira, 13 de maio de 2026

duas Europas

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A União Europeia (UE) celebra-se a si própria envolta numa narrativa de paz, integração e democracia, a cada 9 de maio. Estrelas douradas em fundo azul, num espaço onde o discurso da paz convive, cada vez mais, com a lógica do rearmamento, se cerceiam liberdades e onde a qualidade da democracia é, direi, duvidosa. A 9 de maio celebra-se a chamada “ideia europeia”, nascida da Declaração Schuman de 1950, apresentada como resposta civilizacional às ruínas da guerra. Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi.

imagem retirada da internet

Durante décadas, porém, o Ocidente construiu uma narrativa da Segunda Guerra Mundial cada vez mais centrada em si próprio. O desembarque da Normandia tornou-se o grande símbolo cinematográfico e político da libertação da Europa, enquanto o contributo soviético foi sendo remetido para um plano secundário ou tratado com desconforto ideológico. A Guerra Fria ajudou a consolidar essa leitura. Tornava-se difícil reconhecer plenamente o papel histórico da URSS ao mesmo tempo que ela era apresentada como principal inimigo do mundo ocidental.


Após o colapso da URSS, a questão tornou-se ainda mais complexa e foi-se consolidando o apagamento da memória e a reescrita da história numa tentativa de distorcer o essencial, ou seja, sem o sacrifício dos povos soviéticos, a derrota do nazismo teria sido incomparavelmente mais difícil e certamente se prolongaria mais no tempo.

A UE prefere hoje construir a sua legitimidade histórica a partir da reconciliação franco-alemã, da integração económica e dos valores liberais do pós-guerra. É uma escolha política que na prática se traduz no empobrecimento da memória quando a história é reduzida ao que convém ao presente. A Europa institucional celebra-se a si própria enquanto se afasta da memória concreta daqueles que pagaram o preço mais elevado para derrotar o Terceiro Reich.

A Federação Russa celebra o legado da União Soviética e utiliza-o para que a memória não seja apagada e a história reescrita, contrariando a relativização ou mesmo o silenciamento do papel da URSS, pela UE, na derrota da barbárie nazifascista. Como se o presente pudesse reescrever retroativamente o passado. A história exige mais rigor do que alinhamentos conjunturais. Não é necessário glorificar o sistema político da União Soviética para reconhecer a dimensão decisiva do Exército Vermelho na derrota do fascismo europeu. 

No fundo, o 9 de maio revela duas Europas: a que se celebra a si própria e a que foi construída sobre milhões de mortos que, pouco a pouco, parecem desaparecer na memória oficial no Ocidente.

Ponta Delgada, 11 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de maio de 2026

terça-feira, 12 de maio de 2026

coincidências!? ou não.

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi. (...)


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Susan Sarandon - a abrir maio

O percurso de Susan Sarandon não se esgota no brilho do cinema. Ao longo de décadas, a atriz tem feito da sua voz um instrumento político, frequentemente desalinhado com o conforto das maiorias. No que toca à causa palestiniana, Sarandon tem-se posicionado de forma clara, denunciando a ocupação e defendendo os direitos humanos do povo palestiniano, mesmo quando isso lhe trouxe críticas, perda de oportunidades profissionais e campanhas de deslegitimação pública. A sua intervenção não é episódica: inscreve-se numa ética de coerência que atravessa outras lutas: contra a guerra, contra o racismo ou, contra a desigualdade social.

Ao apoiar a causa palestiniana, Sarandon inscreve-se numa tradição de algumas figuras públicas que recusam a neutralidade perante o sofrimento alheio. A sua presença em manifestações, declarações e redes sociais tem contribuído para ampliar a visibilidade de um conflito frequentemente filtrado por narrativas dominantes. Não se trata apenas de um gesto simbólico, mas de uma escolha que evidencia o custo de tomar posição num espaço mediático onde a opinião desalinhada do mainstream é, muitas vezes, punida.

Num tempo em que a palavra pública tende a diluir-se em prudências calculadas, a postura de Susan Sarandon lembra que a consciência pode ser também um ato de risco. Há, no seu percurso, uma espécie de fidelidade a uma ideia simples e exigente: a de que o silêncio, perante a injustiça, é sempre uma forma de consentimento. E é talvez por isso que a sua voz, mesmo perseguida e manietada, continua a ecoar, não como um ruído, mas como uma humana inquietação.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Autonomia: nome e caminho

A Constituição de 1976 deu nome ao que já existia em surdina: a autonomia. Não como concessão, mas como conquista. Uma conquista filha direta do mesmo gesto que devolveu aos portugueses a palavra e o direito de a usar. Antes disso, os Açores viviam encostados ao limite. Uma economia de subsistência, ancorada na terra e no mar; uma indústria quase ausente, e a emigração como destino repetido, tantas vezes a única saída possível. Partia-se como quem respira, por necessidade.

As ilhas estavam distantes. A escola era curta, a saúde escassa, as ligações incertas. E havia um país, que nem sempre, ou quase nunca, chegava.

Depois, veio o tempo da construção. A autonomia abriu caminhos, a Europa trouxe meios, e o arquipélago começou a desenhar outro retrato de si. Mais escolas, mais hospitais, mais portos e aeroportos. Uma economia que, devagar, se vai soltando das amarras antigas. Mas crescer não é o mesmo que equilibrar.

imagem retirada da internet

As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.


Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas.

Abril abriu a porta. Mas atravessá-la continua a ser tarefa inacabada. Há uma autonomia que existe nos textos, outra que vive nos discursos, e uma terceira, esta mais exigente, que só ganha forma na prática quotidiana, nas decisões que não se adiam, nas escolhas que não se delegam. É essa autonomia que ainda falta cumprir por inteiro. Talvez porque a autonomia não se decreta: constrói-se. E constrói-se devagar, como tudo o que importa, com memória, com consciência, com conflito também.

foto de Aníbal C. Pires
O desígnio inicial, o de um desenvolvimento harmonioso de todas as ilhas permanece, em parte, por realizar. E é nesse desfasamento, entre o que fomos capazes de fazer e o que ainda não ousámos ser, que a autonomia se revela, não como herança, mas como responsabilidade.

No fundo, a pergunta permanece simples e difícil: o que queremos fazer com a liberdade que conquistámos?  O verdadeiro sentido da liberdade conquistada em Abril realiza-se quando a autonomia deixa de ser apenas estatuto político e se converta em projeto coletivo, um projeto de cidadania consciente, solidariedade entre ilhas e afirmação plena da açorianidade no espaço português e atlântico.

A autonomia conquistada após o 25 de Abril foi um marco decisivo: deu forma institucional a uma identidade que até então era mais cultural e afetiva, contudo, podemos argumentar que essa autonomia política ainda não se traduziu plenamente numa consciência cívica e cultural consolidada. A identidade açoriana, dir-se-ia, está afirmada no discurso, na simbologia e na afetividade, mas menos consolidada na prática política e no projeto de desenvolvimento, muitas vezes dependente de lógicas externas e de subserviências internas.

Ponta Delgada, 27 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de abril de 2026

ponto de chegada

foto de Aníbal C. Pires

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.

Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas. (...)


domingo, 19 de abril de 2026

para além do índice

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O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) volta a colocar em evidência as assimetrias estruturais que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tende a suavizar, por ser um indicador que não pode ser lido apenas a partir da tabela que ordena os países conforme o seu IDH. O exemplo dos Estados Unidos e do Irão é, a este respeito, particularmente revelador.

Os Estados Unidos mantêm uma posição cimeira no IDH, sustentada por um elevado rendimento nacional bruto per capita, níveis médios de escolaridade relativamente elevados e uma esperança média de vida, igualmente alta, contudo, esta posição deve ser lida com cautela. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição do rendimento, revela um país marcado por profundas clivagens sociais. A concentração de riqueza distorce o impacto real do rendimento médio, criando uma imagem de prosperidade que não se traduz de forma homogénea nas condições de vida da população. Acresce que, em indicadores como a esperança média de vida, os Estados Unidos têm registado estagnações e até retrocessos, em parte associados a desigualdades no acesso à saúde, fenómenos de exclusão e crises sociais persistentes.

O Irão, por seu lado, apresenta um IDH inferior, ainda que seja considerado pelo PNUD, como sendo “Alto”, penalizado por um rendimento per capita significativamente mais baixo que o dos Estados Unidos, porém, quando se analisam isoladamente as componentes da educação e da saúde, o quadro revela maior complexidade. Apesar de mais de quatro décadas de sanções económicas internacionais, o país conseguiu desenvolver sistemas de educação e cuidados de saúde com resultados relativamente no contexto regional e, em alguns indicadores, comparáveis a padrões internacionais de desenvolvimento elevado. A taxa de literacia, a expansão do ensino superior e indicadores de saúde pública demonstram uma capacidade de lidar de forma positiva com as condições adversas que lhe foram impostas externamente que o IDH, centrado numa média agregada, tende a subvalorizar.

sem abrigo em LA - imagem retirada da internet

É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais.


A questão das sanções é incontornável. Durante mais de quarenta anos, o Irão tem enfrentado restrições severas ao comércio internacional, ao investimento e ao acesso a tecnologias. Estas limitações tiveram impactos diretos no crescimento económico e, por consequência, no rendimento per capita uma das variáveis centrais no cálculo do IDH, frequentemente decisiva na diferenciação entre países. Ainda assim, o país conseguiu manter níveis razoáveis de desenvolvimento humano em áreas-chave, o que sugere que políticas públicas orientadas para a educação e a saúde mitigaram os constrangimentos externos.

Em suma, a comparação entre Estados Unidos e Irão evidencia os limites do IDH enquanto medida isolada de avaliação do desenvolvimento. Quando complementado pelo coeficiente de Gini e contextualizado por fatores históricos e políticos, como o regime de sanções, emerge uma leitura mais densa e menos linear: a de que desenvolvimento não é apenas riqueza média, mas também a sua distribuição e a capacidade de resistência perante constrangimentos externos.

Ponta Delgada, 13 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de abril de 2026

quarta-feira, 15 de abril de 2026

índices e coeficientes

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais. (...)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

fragilidade do turismo na RAA – breve reflexão

foto de Aníbal C. Pires
A preocupação já não é um pressentimento. É a realidade.

Os indicadores disponíveis apontam para um abrandamento da procura turística do destino Açores. Os efeitos não serão uniformes entre ilhas, para o bom e para o mau nunca o são, mas o sinal é claro. E, na verdade, não é novo. Há muito que algumas vozes vinham alertando para a volatilidade estrutural desta indústria, demasiadas vezes ignorada quando os números cresciam e tudo parecia ir para bom porto.

E não! Não se trata apenas do abandono do destino por parte de uma companhia aérea de baixo custo. Esse fator tem peso, naturalmente, mas está longe de explicar, por si só, o que está a acontecer. Há outras variáveis, mais profundas, que ajudam a compreender este abrandamento.

O contexto internacional deteriorou-se. A instabilidade geopolítica, nomeadamente no Médio Oriente, tem efeitos diretos e indiretos nas economias. Desde logo, no aumento dos preços da energia. E, com ele, numa cadeia de consequências previsíveis: subida do custo de vida, pressão inflacionista, e inversão da tendência recente de descida das taxas de juro.

Perante este cenário, os cidadãos retraem-se. Adiam. Selecionam. Cortam no que não é essencial. E, nesse movimento, o turismo, sobretudo em destinos periféricos e de custo elevado, é dos primeiros a ser afetado. Os Açores não escapam a essa lógica.

Ainda assim, importa dizê-lo com clareza: não estamos apenas perante uma crise que nos chega de fora. Estamos também perante um modelo que nunca deixou de ser frágil por dentro.

Os agentes do setor: animação turística, rent-a-car, restauração, hotelaria e alojamento local; têm vindo a público manifestar preocupação e a exigir respostas. Mas fazem-no, em grande medida, centrando o problema na acessibilidade aérea e na ausência de voos de baixo custo.

Essa leitura é, no mínimo, incompleta.

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Os preços praticados no destino são, há muito, motivo de queixa por parte de quem nos visita. Em muitos casos, não acompanhados por níveis de serviço que justifiquem esses valores. O custo elevado da experiência Açores não pode ser atribuído exclusivamente ao preço das passagens aéreas. Há uma responsabilidade interna que não pode continuar a ser ignorada.

Quanto à saída da transportadora de baixo custo, convém não romantizar. Faz parte do seu modelo de negócio. Estas companhias não vivem, sobretudo, da venda de bilhetes, mas das contrapartidas financeiras e operacionais que conseguem negociar com os destinos. Quando encontram condições mais vantajosas, mudam. É a lógica do mercado, no seu estado mais puro. (Há quem goste.)

O senhor Michael O’Leary terá, muito provavelmente, encontrado quem estivesse disposto a oferecer mais. E partiu.

E com o abandono, assistiu-se a reações curiosas. Nas redes sociais, multiplicaram-se agradecimentos emocionados pelo “serviço prestado”, esquecendo-se, talvez, que esse serviço foi amplamente suportado por dinheiros públicos, viajassem ou não os contribuintes nessa transportadora.

Outros foram mais longe, intimando que o(s) governo(s) satisfizessem as exigências da empresa como se o interesse público se devesse submeter, sem reservas, à lógica negocial de uma empresa privada.

E aqui emerge um paradoxo que merece reflexão.

foto de Aníbal C. Pires
Muitos dos que defendem, com naturalidade, o financiamento público de companhias aéreas privadas, são os mesmos que rejeitam, de forma quase instintiva, o financiamento de uma companhia aérea pública, chegando a defender a sua privatização. Esquecem, talvez, que há rotas, serviços e missões que só uma transportadora regional, com responsabilidade pública, consegue assegurar, seja no transporte de doentes, seja na ligação regular entre ilhas, seja no apoio em emergências.

No fundo, talvez esta seja a questão que evitamos enfrentar: queremos um destino competitivo, mas recusamos discutir o modelo que o sustenta.

Queremos voos baratos, mas não queremos pagar o seu verdadeiro custo.

Queremos turistas, mas nem sempre queremos rever a forma como os recebemos.

O turismo, como o mar que nos cerca, nunca foi um lugar de permanência, é fluxo, é maré, é instabilidade. E, no entanto, insistimos em tratá-lo como chão firme.

Talvez este abrandamento não seja apenas um sinal de crise, mas um aviso. Um desses avisos discretos que chegam antes das ruturas maiores.

Porque, no fim, não é a partida de uma companhia aérea que nos deve inquietar verdadeiramente. É a fragilidade do que fica quando ela parte, como era expetável que, mais tarde ou mais cedo, viesse a acontecer.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de abril de 2026


regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

sobreviver à barbárie

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos. (...)

Vanessa Redgrave - a abrir abril

Vanessa Redgrave em 1978

A vida e obra de Vanessa Redgrave não se esgota no brilho do palco ou na consagração do cinema. Há, nesta mulher, uma coerência rara, quase intempestiva, entre a arte e a consciência. Desde os anos 1970, quando a causa palestiniana era ainda mais marginalizada no espaço mediático ocidental, Redgrave recusou o conforto da neutralidade. Fê-lo com a frontalidade de quem sabe que certas causas não admitem meias-palavras: ou se está do lado da dignidade de um povo ou se consente, por omissão, na sua negação.

A sua defesa intransigente da Palestina custou-lhe ostracismo, críticas ferozes e até ameaças, sobretudo após o documentário The Palestinian e o célebre discurso nos Óscares, em 1978, onde denunciou o que chamou de “intimidação sionista”. Mas, ao contrário de tantos que modulam o discurso ao sabor das circunstâncias, Redgrave manteve-se firme, não por provocação, mas por convicção ética. A sua voz, tantas vezes isolada, tornou-se um testemunho incómodo: lembra-nos que o silêncio, quando se torna regra, é também uma forma de cumplicidade.

Aos 88 anos numa manifestação 

Em Vanessa Redgrave há qualquer coisa de antigo, quase trágico, no sentido clássico: a fidelidade a uma verdade interior que não se negoceia, mesmo quando o preço é elevado. A sua posição face à Palestina não é apenas política, é, sobretudo, a recusa frontal de aceitar que a injustiça possa ser normalizada. E talvez por isso a sua voz, ainda hoje, ressoe não como um eco do passado, mas como uma pergunta persistente dirigida ao presente.


quinta-feira, 12 de março de 2026

sinais preocupantes

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A decisão de não reconduzir Rita Rato na direção do Museu do Aljube Resistência e Liberdade causou muita perplexidade a quem tem acompanhado o trabalho desenvolvido naquela instituição. Nos últimos anos, o museu afirmou-se como um dos espaços mais vivos de reflexão sobre a memória da ditadura e da resistência democrática em Portugal, com uma programação rigorosa, plural e exigente. Esse percurso deve muito à direção de Rita Rato, que soube transformar um lugar de memória num espaço ativo de pensamento crítico e de cidadania.

Por isso, a decisão da empresa municipal, Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa, de não a reconduzir no cargo levanta inevitáveis interrogações. Quando um trabalho amplamente reconhecido é interrompido sem explicação clara ou avaliação pública do seu mérito, a suspeita instala-se: não estaremos perante mais um episódio de substituição política, onde o critério da competência cede lugar à lógica da fidelidade partidária?

Num país que conheceu a censura e a repressão durante a ditadura, o museu instalado no antigo cárcere político do Aljube tem uma responsabilidade particular: preservar a memória da liberdade e da resistência ao poder arbitrário. Fragilizar esse projeto por razões de conveniência partidária é um sinal preocupante, não apenas para a cultura, mas para a própria qualidade da nossa democracia.


domingo, 8 de março de 2026

a memória não se vende

O calendário comercial avança sempre de mansinho, com pezinhos de lã, tentando transformar a memória em mercadoria. Também o 8 de março não escapou a essa tentação: embrulhá-lo em flores, laços e promoções.

Mas este dia não nasceu para vitrinas.

Oferecer flores a uma mulher é um gesto simples, que pode acontecer em qualquer dia do ano. Quando nasce do afeto, é belo. Mas o 8 de março não nasceu desse gesto. Nasceu da luta. Uma luta dura, concreta, muitas vezes invisível, de mulheres que se levantaram contra a exploração, a desigualdade, o silêncio e o patriarcado.

Este é o Dia da Mulher trabalhadora.

A história começa nas ruas e nas fábricas. Em 1908, cerca de quinze mil mulheres marcharam em Nova Iorque exigindo melhores salários, redução do horário de trabalho e o direito ao voto. No ano seguinte, em 1909, o Partido Socialista da América proclamou o primeiro Dia Nacional da Mulher.

Em 1910, na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhaga, a militante alemã Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher. A proposta foi aprovada lembrando ao mundo que a igualdade conquista-se. Nada é oferecido.

Mas o momento decisivo chegaria só alguns anos depois.

A 8 de março de 1917, em Petrogrado, hoje São Petersburgo, operárias têxteis e esposas de soldados saíram à rua contra a fome, a guerra e a miséria. Sob o grito de “Pão e Paz”, mais de noventa mil mulheres desafiaram a ordem estabelecida. Essa manifestação tornar-se-ia um dos detonadores da Revolução Russa.

Foi aí que o 8 de março ganhou o seu lugar na história.

Durante décadas foi celebrado sobretudo pelos movimentos operários e progressistas. Só muito mais tarde, em 1975, as Nações Unidas reconheceriam oficialmente a data.

Recordar esta história é importante porque há quem prefira esquecê-la.

Há quem queira transformar um dia de luta num gesto leve, uma celebração sem memória nem conflito.

Mas o 8 de março não nasceu para ser confortável.

Nasceu nas fábricas.

Nasceu nas ruas.

Nasceu da coragem.

Por isso, hoje, mais do que flores, este dia pede memória.

Memória das que lutaram.

Memória das que resistiram.

Memória das que continuam a abrir caminho.

Porque a igualdade nunca foi uma oferta.

Sempre foi, e continua a ser, uma conquista.


Lindas são as mulheres que lutam.


sexta-feira, 6 de março de 2026

um Partido com mais futuro do que história

Hoje assinalam-se 105 anos da fundação do Partido Comunista Português, criado a 6 de março de 1921 no quadro das lutas operárias que atravessavam a Europa após a Revolução de Outubro. Desde a sua origem, o PCP assumiu-se como uma força revolucionária organizada da classe trabalhadora portuguesa, defendendo a transformação profunda da sociedade, o fim da exploração e a construção de uma ordem social fundada na justiça e na igualdade. A sua história está indissociavelmente ligada às lutas dos trabalhadores e das populações que marcaram o século XX em Portugal.

Durante a longa noite da ditadura, o Partido foi a principal organização política de resistência ao regime fascista.

O derrube do regime na Revolução de 25 de Abril de 1974 abriu um novo capítulo dessa trajetória. O PCP teve então um papel destacado na mobilização popular, na organização sindical e na defesa das conquistas revolucionárias que marcaram o processo de transformação vivido em Portugal no período que se seguiu ao 25 de Abril. 

105 anos depois, o Partido continua a afirmar-se como herdeiro dessa tradição de luta e de um projeto político que, mais do que gerir o existente, propõe-se transformá-lo mantendo viva a ideia de que a história pode, e deve, ser construída pelos trabalhadores e pelo povo.

PCP um partido com mais FUTURO do que história.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Amélia Araújo - a abrir março

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A morte de Amélia Araújo, em 19 de fevereiro de 2026, trouxe à memória uma das vozes mais marcantes da luta anticolonial africana. Nos anos difíceis da guerra de libertação conduzida pelo PAIGC, a sua presença chegava através do invisível fio das ondas da Rádio Libertação. Era uma voz firme e serena que atravessava florestas, tabancas e oceanos, levando notícias da luta, palavras de coragem e a esperança de um futuro livre para os povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

A voz de Amélia Araújo tornou-se um símbolo. A rádio, naquele tempo de clandestinidade e guerra, era uma arma silenciosa, mas poderosa. Pelos seus programas passavam comunicados do partido, mensagens aos combatentes e também palavras dirigidas aos soldados portugueses, numa tentativa de romper o silêncio e interpelar consciências. A voz que se ouvia nas emissões era também a voz do pensamento de Amílcar Cabral, ecoando a ideia de que a libertação era antes de tudo um ato de dignidade e de consciência histórica.

Com a sua morte desaparece uma testemunha direta de um tempo em que a palavra podia ser tão decisiva quanto as armas. Permanece a memória dessa voz que, em noites de incerteza e esperança, acompanhou milhares de combatentes e de homens e mulheres anónimos. Uma voz que não se via, mas que ajudou a abrir caminho para a liberdade, e fica, para sempre, inscrita na história comum da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e na luta contra o colonialismo.


segunda-feira, 2 de março de 2026

pelo 18.º aniversário do momentos

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Em dia de aniversário deixo alguns dados sobre o “momentos”

Nestes 18 anos foram divulgadas 3004 publicações, registaram-se 1192515 visualizações e 891 comentários às postagens.

Seguem o blogue 56 pessoas.

As visualizações têm origem, um pouco, por todo o mundo. Sendo que os países que acumulam mais visitantes são:

- Portugal;

- Estados Unidos; e 

- Brasil,

Esta aventura vai continuar. Sei que os blogues passaram de moda, mas mantenho-me por aqui enquanto tiver alguma coisa para partilhar para além dos 140 caracteres e da efemeridade das “redes sociais” mais populares, das quais também faço uso.

Agradeço a todos os visitantes que aqui vêm com frequência, mas também aos que “picam” pontualmente este espaço.

Bem hajam!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

de passagem por Paços

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Sou professor aposentado, desde 2021, o meu percurso profissional somou 46 anos de serviço, mais 10 do que me havia sido contratado quando iniciei este caminho. Foram 46 anos recheados de peripécias e histórias, uma mais outras menos interessantes, mas todas elas relevantes para a minha vida pessoal e profissional.

Após 5 anos como professor provisório, Fundão, Santarém e Covilhã, cheguei à Escola Preparatória de Paços de Ferreira no limiar dos anos 1980 para iniciar o meu estágio pedagógico, à altura designado por “Profissionalização em Exercício”. Esta formação destinava-se a professores provisórios com habilitação científica e facultava a aquisição de formação pedagógica e didática, condição necessária para entrada nos quadros da docência.

Vinha, apenas, para fazer o meu estágio pedagógico, mas fui também Orientador de Estágio e Vice-presidente do Conselho Diretivo da Escola. Os anos que trabalhei e vivi nesta vila conhecida pela “Capital do Móvel” foram determinantes para que o ensino se tivesse transformado numa profissão que abracei com orgulho e à qual me entreguei de corpo e alma. Sempre que pedem para referenciar escolas ou períodos que me marcaram, enquanto professor, a Escola Preparatória de Paços de Ferreira é a referência, tenho outras, mas aconteceram depois e, em grande medida, resultaram da minha passagem por Paços de Ferreira.

Eu que não sou um homem de certezas e tenho muitas dúvidas posso, contudo, afirmar que, sem dúvidas e com a certeza dos meus princípios, foi nesta vila e concelho que despontaram e se consolidaram caraterísticas que nortearam a vida do homem e do professor, o homem que sou, o professor que fui.

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Os lugares são as pessoas que o habitam e, Paços, ao tempo, era um espaço de grandes contradições e assimetrias, mas como este texto não pretende ser de análise socioeconómica, direi apenas que aquele lugar era habitado por gente que lhe conferia um encanto muito particular, gente que me acolheu e integrou, gente solidária e capaz de transformar as agruras da vida em momentos de grande elevação e generosidade.

Se é certo que os alunos, funcionários e professores são o grande núcleo das pessoas que fizeram parte da minha passagem por Paços, não são, porém, o universo das gentes com quem interagi e colaborei. Durante a minha passagem por Paços procurei ser um pacense integrando-me na vida da comunidade e procurando compreender o que era diferente, respeitando os modos de vida, os costumes e as tradições, pois, sempre foi meu entendimento que a melhor forma de integração é: o conhecimento do outro, diferente e igual.

Não é possível, nesta breve nota, mencionar os nomes das pessoas com quem lidei pois, seriam necessárias muitas folhas para grafar todos os que, de uma forma ou outra, se cruzaram comigo e deixaram a sua marca. Há apenas dois personagens que acabarei por referenciar por razões óbvias, como se verá. Mas isso não pode nem deve ser entendido como menorização de outros ou de esquecimento. A todos guardo, com muito carinho, na minha memória.

A Escola Preparatória era então um verdadeiro microcosmo de energia e movimento conferido pelo dinamismo e empenhamento de docentes, funcionários e alunos, era um tempo em que a Escola era valorizada e se acreditava que a educação era o principal motor de transformação social e económica, o tempo veio desconstruir esse sonho e a Escola voltou a ser o que tinha sido em tempos de má memória, um lugar de reprodução de desigualdades. 

Grupo de estágio alargado, com alguns estagiários já no segundo ano da formação. Escola com mais de 1000 alunos e mais de 100 professores. O edifício principal, adaptado de uma antiga casa de emigrantes regressados do Brasil, era uma curiosa combinação entre tradição e improviso. Até as antigas cavalariças tinham sido transformadas em salas de aula, como se tratasse da metáfora perfeita do espírito de reinvenção que atravessava toda a escola.

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Havia ainda um bloco de pré-fabricados em madeira, separado do edifício principal por uma estrada que ligava Paços de Ferreira a Santo Tirso. Era um desafio logístico e, ao mesmo tempo, uma imagem viva da escola em expansão e da sua capacidade de adaptação, mas também da necessidade da construção de uma nova infraestrutura para satisfazer as necessidades educativas do concelho. 

Mas mais do que os edifícios ou as histórias da vila, o que ficou foram as pessoas, os colegas, os alunos, a vida vivida em partilha. Recordo com especial carinho as dinâmicas pedagógicas inovadoras, o entusiasmo dos professores em formação, as conversas de final de dia e os sabores da gastronomia local que me conquistaram tanto quanto o espírito de comunidade que se vivia em cada esquina.

Vivi na Pensão do Senhor Gomes, figura sobejamente conhecida na vila e sobre o qual se dizia que só atravessava a Praça se isso resultasse em seu benefício. Sobre o Senhor Gomes contavam-se diversas e divertidas histórias, ele próprio contava algumas com o sentido de humor cáustico que o caraterizava.

Mais tarde dividi, com dois colegas, um apartamento numa zona de expansão da vila e os últimos anos que por ali vivi, já com a família reunida, passaram-se no lugar de Sobrão, freguesia de Meixomil.

A minha passagem por Paços não se circunscreveu à atividade letiva ou não fosse eu um cidadão inquieto e com vontade e disponibilidade para conhecer e participar na vida da comunidade. E foi neste contexto que fui participando, ainda que de forma esporádica, na vida desportiva, associativa e política da vila e do concelho, pela mão e amizade do Dr. Álvaro Neto. Com ele e através da sua atividade cívica partilhei de algumas iniciativas e intercâmbios que, de alguma forma, marcaram uma outra faceta da minha passagem por Paços.

Quer da minha atividade docente, quer ainda da minha participação cívica guardo boas memórias e histórias que não cabem neste espaço e, por outro lado não quero valorizar umas em detrimento de outras. Assim julgo ser mais avisado não referenciar nenhuma.

Hoje, ao revisitar esse tempo, sinto uma gratidão imensa. Paços de Ferreira não foi apenas uma paragem no meu caminho. Foi o ponto de viragem na minha vida pessoal e profissional.

Paços de Ferreira ficou comigo. Não como uma lembrança distante, mas como um lugar interior, uma mátria íntima feita de vozes, rostos e histórias que me moldaram para sempre.

Ponta Delgada, 24 de setembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Gazeta de Paços de Ferreira

domingo, 22 de fevereiro de 2026

a normalização da barbárie

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A Palestina não é um lugar distante.

É um nome que arde no mapa e um corpo ferido no tempo.

Não é apenas Gaza, esse fragmento de mundo cercado por muros e números; é toda a terra palestiniana, atravessada por décadas de violência metódica. Uma violência que não grita apenas quando cai a bomba, mas que sussurra todos os dias, quando uma casa é tomada, uma oliveira arrancada, um nome apagado.

O que ali acontece não é excesso nem desvio. É um projeto colonial.

Como tantos outros na história, nasceu do gesto inaugural do colonialismo: ocupar, substituir, reescrever. Onde havia aldeias, erguem-se cidades coloniais; onde existia memória, instala-se a amnésia forçada. O mapa vai sendo cartografado como se a terra não tivesse já voz, como se os mortos não deixassem vestígios.

Durante demasiado tempo, o mundo escolheu não ver. A barbárie prolongada foi tratada como fundo de cenário, ruído distante, tragédia repetida até se tornar tolerável. Mesmo quando os olhos globais se voltaram para Gaza, foi por instantes breves, sob a ilusão de um cessar-fogo anunciado e nunca cumprido. Bastou que outras ameaças ocupassem o ecrã para que a Palestina regressasse ao lugar que o mundo lhe tem reservado: o da dor invisível.

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Mas nem tudo é silêncio. Há vozes que persistem, como pequenas fogueiras acesas na noite escura. A relatora especial das Nações Unidas, Francesca Albanese, tem recusado a linguagem neutra que absolve o crime. Há figuras públicas que, sabendo o custo da palavra, escolhem dizê-la, como Pepe Guardiola, Susan Sarandon, e fazem-no não como celebridades, mas como cidadãos que recusam o conforto do silêncio. Há ainda milhões de anónimos que marcham, escrevem, boicotam, lembram. A dignidade, por vezes, sobrevive assim: em gestos dispersos, mas obstinados.

Ainda assim, uma narrativa insiste em impor-se: a de que a Palestina é palco de um conflito religioso ancestral, insolúvel, quase mítico. Uma história conveniente, que transforma a ocupação em destino e a violência em desígnio divino. Segundo essa versão, um povo “eleito” reclamaria a terra como herança sagrada, da Palestina aos territórios limítrofes, invocando a promessa antiga da “terra prometida”.

Mas esta não é uma guerra de deuses.

É uma disputa de poder.

O sionismo não é fé, é ideologia. Não é religião, é programa político. E como todos os programas de supremacia, funda-se na ideia de que uns têm direito pleno à terra, à vida e à história, enquanto outros devem aceitar a condição de sobra, de obstáculo, de erro a corrigir. Não por acaso, muitos judeus, crentes e não crentes, recusaram e recusam este projeto, precisamente por reconhecerem nele uma traição ética à sua própria tradição e religião.

“Israel” não é um Estado judaico.

“Israel” é um Estado sionista.

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Confundir judaísmo com sionismo é um ato de violência simbólica. Serve para legitimar a ocupação e, ao mesmo tempo, para silenciar a dissidência judaica. Serve para chamar conflito ao que é dominação, segurança ao que é cerco, defesa ao que é massacre. Serve, sobretudo, para tornar aceitável o inaceitável.

E assim, entre palavras gastas e eufemismos bem polidos, o mundo vai aprendendo a conviver com o intolerável. A Palestina permanece ali, ferida e presente, como um espelho incómodo. Não pede piedade. Exige justiça. E enquanto essa exigência for tratada como excesso, o verdadeiro escândalo não será apenas o que acontece na Palestina, mas aquilo em que o mundo se transforma ao permitir que a barbárie seja um novo normal.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de fevereiro de 2026


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

humanidade à deriva

Francesca Albanese - imagem retirada da internet
Não é de hoje esta sensação, não é possível precisar quando, mas o mundo, tal como o lia e compreendia, deixou de fazer sentido. E não falo apenas de mudanças geopolíticas ou de ciclos históricos previsíveis, mas de algo mais profundo: uma inversão dos valores. A mentira ganhou estatuto de narrativa oficial, e a impunidade, antes camuflada, apresenta-se agora como norma. 

Um dos casos mais brutais desta deriva é o projeto colonial do estado sionista na Palestina, sustentado política, militar e moralmente pelo chamado mundo ocidental, esse mesmo que se proclama guardião dos direitos humanos. Em nome desses “valores”, legitima-se o genocídio do povo palestiniano, enquanto se tenta silenciar quem denuncia o inominável. A Relatora Especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, uma das vozes mais consequentes na denúncia da barbárie sionista, é agora alvo de sanções e pedidos de afastamento por países como França e Alemanha. Não se pune o crime contra a humanidade, tenta silenciar-se a mensageira.

Mas este não é um caso isolado. Há décadas que Cuba vive sob um embargo ilegal, condenado repetidamente pela comunidade internacional, mas mantido, com requintes de crueldade, pelos Estados Unidos. Hoje, a asfixia chega ao ponto de se tentar impedir o envio de petróleo para a ilha. Cuba, que exporta médicos e não bombas, que pratica a solidariedade como política externa, é tratada como ameaça. Não por aquilo que faz, mas pelo exemplo que representa: o de um país pequeno que insiste em viver fora da lógica do medo e da submissão e que não abdica da sua soberania.

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A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram.

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A normalização do absurdo é aceite sem nos questionarmos. Veja-se a Síria e o processo acelerado de lavagem de imagem de Al Julani, ontem classificado como terrorista, hoje recebido como chefe de Estado em respeitáveis chancelarias por esse mundo fora. A memória é curta, a conveniência é longa, e a ética tornou-se descartável.

Tudo isto aponta para um mesmo lugar: um mundo onde a força substituiu o direito, onde a narrativa venceu os factos, onde a lei se aplica apenas aos frágeis. Um mundo em que a exceção passou a ser a justiça. Talvez o mais inquietante não seja a barbárie em si, mas a forma serena, quase burocrática, com que é administrada. Como se tudo isto fosse normal. Como se tudo isto fosse aceitável. Estes são apenas alguns exemplos, mas julgo que deveriam ser suficientes para nos preocuparem e nos fazerem agir. 

Ponta Delgada, 16 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 18 de fevereiro de 2026