Sobre o discurso do PR não vou tecer considerações, é consensual e satisfez a generalidade. Já o discurso de MM merece alguma reflexão. Trata-se de uma narrativa que liga Camões, os Açores, o mar, a autonomia e a geopolítica, utilizando a metáfora marítima para pensar o futuro de Portugal. Mas quando analisado à luz das transformações geopolíticas que estão a ocorrer no mundo, surgem-me algumas dúvidas que merecem comentário. Não pretendo com este texto alimentar qualquer polémica com o Professor MM, por quem tenho grande consideração, mas não ficaria bem comigo mesmo se não escrevesse estas notas sobre alguns aspetos do seu discurso.
Uma leitura alternativa sugere que não se trata do fim de um mundo multipolar, mas o declínio de uma ordem unipolar dominada pelos Estados Unidos e pelos seus aliados atlânticos após a dissolução da União Soviética. Entre 1991 e aproximadamente 2015-2020, viveu-se o momento unipolar estado-unidense. O que está a emergir agora é precisamente uma maior dispersão do poder mundial, com a ascensão da China, o reforço da Índia, a afirmação de potências regionais como a Turquia, o Brasil, ou mesmo o Irão, e o crescimento de organizações como os BRICS. Nesse sentido, poder-se-ia argumentar que estamos a assistir não ao fim do multilateralismo, mas ao seu nascimento fora da esfera ocidental e sem a marca ideológica do eurocentrismo.
Há igualmente uma certa ambiguidade quando MM defende o multilateralismo e, simultaneamente, a "reinvenção da NATO" e o reforço do seu "pilar europeu". A NATO continua a ser uma aliança militar ocidental e não uma instituição multilateral universal. Para muitos países do Sul Global, ela representa precisamente uma das expressões da ordem atlântica mais contestada.Outro aspeto discutível é a ideia de que o ciclo iniciado em 1945 "terminou recentemente". Pode dizer-se que o verdadeiro ponto de rutura não é o fim da ordem de 1945, mas a erosão da ordem surgida após 1991. A ordem de 1945 foi bipolar, estruturada pela rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. O período posterior ao fim da Guerra Fria foi diferente: caracterizou-se pela hegemonia estado-unidense e pela globalização financeira. É esse modelo que está hoje a ser claramente contestado.
Ponta Delgada, 22 de junho de 2026
















