Face a algumas imprecisões a que muitos cidadãos são permeáveis e aceitam como verdades absolutas informações que raramente questionam, julgo ser importante trazer a este espaço algumas reflexões que, no essencial, visam contribuir com alguns elementos de ponderação e opinião sobre a dita “invasão” da Europa por migrantes africanos. Desde logo clarificar que Ceuta é geograficamente território africano.
Ceuta é um território sobre o qual Marrocos reivindica soberania, mas que por enquanto continua sob administração do reino de Espanha - resquícios do colonialismo -, facto que levou alguns dirigentes políticos de oposição e chefes de governo europeus a pedirem a suspensão das regras do espaço Schengen, ou mesmo expulsar Espanha deste acordo europeu que permite a livre circulação de cidadãos nos países da União Europeia que a ele aderiram. Esqueceram-se, ou talvez ignorassem que Ceuta, embora seja um território sob administração espanhola, não integra o espaço Schengen, ou seja, para sair de Ceuta é necessário passaporte para passar a fronteira e viajar para Espanha ou qualquer outro país, europeu ou não. Os ideólogos neofascistas sabem muito bem como utilizar a mentira e as meias-verdades para mobilizar os seus fiéis seguidores.
A monarquia marroquina reivindica legitimamente a soberania sobre Ceuta e Melila. Falta-lhe, porém, autoridade moral para sustentar essa reivindicação enquanto mantiver o Saara Ocidental sob ocupação. Também o governo espanhol sacrifica o direito à autodeterminação do povo saarauí em nome da preservação daqueles enclaves. Não deixa de ser significativo que tal aconteça depois dos Acordos de Madrid (1975), através dos quais Espanha abandonou a administração do território, abrindo caminho à ocupação por Marrocos e Mauritânia (1976), uma solução nunca reconhecida pelo direito internacional.
Antes de aceitarmos como evidentes certas narrativas, convém perguntar quem beneficia com elas.
Ponta Delgada, 3 de agosto de 2026















