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momentos
pedaços, registos, instantes, olhares, notas à solta
sábado, 1 de agosto de 2026
Susan Abulhawa - a abrir agosto
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Para além do futebol
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A minha opinião é seguramente minoritária. Mas nunca a popularidade de uma ideia constituiu critério suficiente para a aceitar sem questionamento.
É impossível passar ao lado de um Mundial de Futebol. A informação chega-nos sem pedir licença, ocupa televisões, rádios, jornais e redes sociais, invade conversas de café e espaços de trabalho. Acompanhei, ainda que involuntariamente, as alegrias e as desilusões que a competição provocou. Mas o que verdadeiramente me impressionou não foram os resultados nem os golos. Foi a obscena comercialização que envolve este espetáculo e a crescente presença das empresas de apostas, hoje patrocinadoras de competições, clubes, transmissões televisivas e de programas desportivos.
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As transferências atingem valores que desafiam qualquer racionalidade. Os salários de alguns equivalem ao rendimento de milhares de trabalhadores durante uma vida inteira. Fundos de investimento tratam jogadores como ativos financeiros. Clubes históricos são comprados por fundos soberanos, empresários ou grandes grupos económicos que pouco ou nada têm a ver com a história das instituições que adquirem. O futebol passou a integrar os circuitos da especulação financeira global. Mas talvez o aspeto mais perturbador seja outro. Milhões de pessoas aceitam esta realidade com uma naturalidade desconcertante. Indignam-se, e com razão, com o encerramento de serviços públicos, com a crise da habitação ou com salários insuficientes para chegar ao fim do mês, mas parecem suspender o espírito crítico quando entram no universo da financeirização do desporto.
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O futebol tornou-se um poderoso instrumento de produção de consensos. Alimenta a ilusão da competição justa enquanto reproduz, de forma quase caricatural, as desigualdades do mundo em que vivemos. Uma pequena elite concentra riqueza, poder e visibilidade; milhões de adeptos investem tempo, dinheiro e emoções num espetáculo cuja rentabilidade beneficia apenas os grandes grupos económicos, as plataformas de comunicação, os patrocinadores e os investidores.
Nada disto diminui a beleza de um passe bem executado, de um remate improvável ou da estratégia coletiva de uma equipa em campo. O problema nunca foi o jogo. O problema é o sistema que fez do jogo um produto financeiro e das emoções um negócio.
Talvez por isso o futebol contemporâneo seja uma das mais perfeitas metáforas do capitalismo atual: tudo pode ser comprado, vendido, promovido e rentabilizado. Até as emoções.
E quando uma sociedade considera tudo isto normal, então talvez o problema não seja apenas o futebol. Talvez, seja o mundo que fomos aceitando como inevitável.
Ponta Delgada, 21 de julho de 2026
obscenidades
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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.
(...) A minha opinião é seguramente minoritária. Mas nunca a popularidade de uma ideia constituiu critério suficiente para a aceitar sem questionamento.
É impossível passar ao lado de um Mundial de Futebol. A informação chega-nos sem pedir licença, ocupa televisões, rádios, jornais e redes sociais, invade conversas de café e espaços de trabalho. Acompanhei, ainda que involuntariamente, as alegrias e as desilusões que a competição provocou. Mas o que verdadeiramente me impressionou não foram os resultados nem os golos. Foi a obscena comercialização que envolve este espetáculo e a crescente presença das empresas de apostas, hoje patrocinadoras de competições, clubes, transmissões televisivas e de programas desportivos. (...)
terça-feira, 21 de julho de 2026
Fernando Menezes - 1952/2026
A minha relação com Fernando Menezes não foi de proximidade, mas foi sempre de mútuo respeito institucional.
Fomo-nos cruzando ao longo dos anos e mantivemos uma relação cordial e pautada por uma grande urbanidade.
O seu falecimento deixa um sentimento de pesar entre os que com ele conviveram mais de perto, mas também entre aqueles que, como eu, o conheceram e com ele mantiveram relações pessoais e institucionais.
O dia começou com a notícia da morte de Fernando Menezes o que motivou, ao fim da manhã, um telefonema a propósito da amizade, respeito e reconhecimento que se constrói ao longo das nossa vidas e, emocionei-me. Essa é uma história para contar mais tarde, ou não, porque há histórias que não se partilham, vivem-se e guardam-se.
À sua família e aos seus amigos deixo as minhas mais sentidas condolências.
domingo, 12 de julho de 2026
Obrigado!
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| Aníbal C. Pires por Daniel Louro |
60 anos e muita vontade de viver
Nunca, como ontem, me senti assim. Assim, crescido, adulto, maduro e feliz com isso. Foi dia de mais um aniversário, não um aniversário qualquer. Foi dia do sexagésimo. Os amigos felicitaram-me como sexagenário, sexogenário e sexacelente e, Gostei. Gostei da forma como o fizeram, com amizade e com humor. (…)
(…) ontem foi diferente, pela primeira vez senti que este dia, este e não outro até agora, foi um dia importante para mim, pelo que já vivi, pelo que quero viver, pelo que sonhei e concretizei, pelo sonho que me faz caminhar pela vida e por todos os projetos que quero realizar.
Dez anos passaram. Ontem completei setenta anos.
Do dia de ontem guardo o carinho e amor da família, mas também as inúmeras manifestações de amizade, algumas públicas, outras privadas, com que os amigos, colegas e antigos alunos me brindaram saudando-me pelo meu aniversário. E comovi-me. Comovi-me pela quantidade e pelas generosas palavras que me foram endossadas das mais variadas formas.
Não é, de todo, possível, agradecer de forma personalizada, assim fica este agradecimento coletivo.
BEM HAJAM pela vossa amizade e carinho. Por cá continuarei, enquanto o tempo me oferecer tempo.
Deixo-vos um pequeno poema inédito que fará parte do meu próximo livro de poesia e que expressa, de alguma forma, o que ficou dito no parágrafo anterior.
viver o que vivi
já bastaria
para dizer
parto em paz
mas fico
no tempo
que me der o tempo
há ainda
palavras e
sementes por lançar
há ainda
um sopro de luz
e o vento já não me abana
quando por mim chama
Lisboa, 12 de julho de 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Datas e memórias
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Com Cabo Verde tudo foi diferente. Deixo a história para outra oportunidade para partilhar uma paixão antiga. Cabo Verde entrou na minha vida muito antes de eu lhe conhecer as pedras, os caminhos e o mar. Cresci longe do Atlântico aberto, nas terras interiores do continente português, entre horizontes presos à terra e aos montes. E, no entanto, havia em mim qualquer coisa que já caminhava por aquelas e outras ilhas sem nunca as ter visto.
da obra de Kiki Lima - imagem retirada da internet
Talvez tenha sido a dolência das mornas a abrir a primeira porta. Talvez a alegria do funaná, o batuque a rasgar silêncios, ou essa tristeza doce que habita a hora di bai, quando partir e ficar parecem ter a mesma dor. Há fascínios que não se explicam, acontecem e medram dentro de nós, devagar, como cresce o mar na maré cheia.
Quando finalmente conheci Cabo Verde, percebi que alguns encontros acontecem muito antes do primeiro olhar. Reconheci rostos, gestos e maneiras de sentir a vida, como quem encontra uma paisagem antiga que julgava perdida. Compreendi então que aquele povo ilhéu, moldado pela imensidão do Atlântico e pelo vento Leste, fez da escassez força, da distância caminho e da partida uma outra maneira de permanecer. Porque Cabo Verde não é apenas um lugar. É uma forma de resistência tranquila e de profunda dignidade.
E talvez por isso José Saramago tenha encontrado as palavras certas quando escreveu que Cabo Verde “repete dia a dia a criação do mundo”.
Ponta Delgada, 6 de julho de 2026
quarta-feira, 8 de julho de 2026
contextualizando
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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.
(...) No espaço exíguo desta crónica não é possível ir mais longe, pois quero, ainda, fazer algumas referências à celebração da independência de Cabo Verde, mas sempre acrescento que a base teórica e filosófica onde se ancorou a declaração de independência dos Estados Unidos tem a sua origem no pensamento liberal e no direito natural, especialmente de filósofos como John Locke, bem como do ambiente intelectual do Iluminismo, e na ideia central que os direitos não são uma benção divina ou de herança e não são concedidos, os direitos existem por natureza. Ou seja, a frase não significava, em 1776, igualdade social completa nem igualdade de direitos para todos os habitantes. Significava, sobretudo, uma rejeição da ideia europeia de que algumas pessoas nasciam naturalmente superiores por sangue, nobreza ou direito divino. (...)
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Malak Mattar - a abrir julho
A obra de Malak Mattar inscreve-se na longa tradição da arte como instrumento de resistência e libertação nacional. Através da arte, Malak Mattar lembra que a luta pela libertação da Palestina também se trava no campo da cultura, da memória e da afirmação da humanidade de um povo que reclama o direito inalienável à liberdade, à justiça e à autodeterminação.
domingo, 28 de junho de 2026
Discursos
Sobre o discurso do PR não vou tecer considerações, é consensual e satisfez a generalidade. Já o discurso de MM merece alguma reflexão. Trata-se de uma narrativa que liga Camões, os Açores, o mar, a autonomia e a geopolítica, utilizando a metáfora marítima para pensar o futuro de Portugal. Mas quando analisado à luz das transformações geopolíticas que estão a ocorrer no mundo, surgem-me algumas dúvidas que merecem comentário. Não pretendo com este texto alimentar qualquer polémica com o Professor MM, por quem tenho grande consideração, mas não ficaria bem comigo mesmo se não escrevesse estas notas sobre alguns aspetos do seu discurso.
Uma leitura alternativa sugere que não se trata do fim de um mundo multipolar, mas o declínio de uma ordem unipolar dominada pelos Estados Unidos e pelos seus aliados atlânticos após a dissolução da União Soviética. Entre 1991 e aproximadamente 2015-2020, viveu-se o momento unipolar estado-unidense. O que está a emergir agora é precisamente uma maior dispersão do poder mundial, com a ascensão da China, o reforço da Índia, a afirmação de potências regionais como a Turquia, o Brasil, ou mesmo o Irão, e o crescimento de organizações como os BRICS. Nesse sentido, poder-se-ia argumentar que estamos a assistir não ao fim do multilateralismo, mas ao seu nascimento fora da esfera ocidental e sem a marca ideológica do eurocentrismo.
Há igualmente uma certa ambiguidade quando MM defende o multilateralismo e, simultaneamente, a "reinvenção da NATO" e o reforço do seu "pilar europeu". A NATO continua a ser uma aliança militar ocidental e não uma instituição multilateral universal. Para muitos países do Sul Global, ela representa precisamente uma das expressões da ordem atlântica mais contestada.Outro aspeto discutível é a ideia de que o ciclo iniciado em 1945 "terminou recentemente". Pode dizer-se que o verdadeiro ponto de rutura não é o fim da ordem de 1945, mas a erosão da ordem surgida após 1991. A ordem de 1945 foi bipolar, estruturada pela rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. O período posterior ao fim da Guerra Fria foi diferente: caracterizou-se pela hegemonia estado-unidense e pela globalização financeira. É esse modelo que está hoje a ser claramente contestado.
Ponta Delgada, 22 de junho de 2026
múltiplas vozes
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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.
(...) A principal questão está precisamente na passagem em que MM afirma que "um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer". Esta formulação contém uma visão muito centrada na experiência ocidental das últimas décadas. Para Portugal, para a Europa Ocidental e para alguns aliados dos Estados Unidos, o período iniciado em 1945 foi, de facto, relativamente estável e vantajoso. Mas para grande parte do mundo, da América Central e do Sul, ao Médio Oriente, passando por África e partes da Ásia, esse sistema esteve longe de ser percebido como verdadeiramente multilateral. Na verdade, esse sistema nunca foi plenamente multilateral. Foi antes um sistema de múltiplas vozes surgidas da descolonização, onde o chamado Movimento dos Países Não Alinhados procurou abrir um espaço autónomo entre os dois grandes blocos. (...)















