quarta-feira, 15 de maio de 2024

uma espécie de prólogo

imagem retirada da internet

A
o contrário do protagonista desta pequena estória sou um consumidor de informação televisiva e, quando vi e ouvi a pergunta e a resposta firme e seca a uma daquelas perguntas que roçam o acessório, mas que o público, sedento de um bom “enredo”, tanto gosta e os jornalistas alimentam para garantir audiências subvertendo o objeto da sua função, pensei para comigo: tenho de falar com ele pois, não me parece, face ao que veio a público, mas também ao que conheço dos factos que a resposta corresponda à realidade.   

Ele sabia que a dita pergunta não era inocente e, segundo as suas próprias palavras, estava de alguma forma à espera daquela questão.

Numa das muitas entrevistas para a imprensa, rádio e jornais em que foi o sujeito, perguntaram-lhe: Alguma vez se sentiu prejudicado pela sua opção ideológica e partidária? A resposta saiu pronta e limpa, não. 

Há uns dias num dos recantos paradisíacos deste arquipélago abençoado pelos deuses, para quem neles acredita, ou pela mãe Natureza como eu prefiro dizer pois, não creio em divindades, e, onde a amena cavaqueira pode tomar rumos diversos, confessou-me que aquilo que tinha afiançado com tanta firmeza, não era verdade, acrescentando, sabes a verdade tem o seu tempo e lugar e aquele não era nem o lugar nem e o tempo próprio para me deixar enredar em espúrias estratégias comunicacionais. E continuou: A resposta é, como pensas, sim. Sim fui prejudicado. Então porquê aquele perentório não, perguntei-lhe. 

foto de Madalena Pires

Coloquei a questão sem esperar que a resposta, conhecendo-o bem e sabendo que é uma pessoa reservada naquilo que a si diz respeito, não viesse eivada de subterfúgios, ou mesmo que dele obtivesse uma não resposta. Mas, para surpresa minha, assim não aconteceu e, talvez por ser Verão, respondeu de forma clara e objetiva tal como tinha respondido não durante aquela entrevista, mas desta vez sem qualquer fuga à verdade pois, no contexto de uma conversa de amigos tudo pode e deve ser dito sem rodeios.

Se eu tivesse respondido sim, como era esperado pelos jornalistas, a entrevista que não era pessoal, eu estava ali a representar uma organização política, passaria a centrar-se num tema que podendo ser importante para mim, não era relevante para cumprir o objetivo a que me propunha e ao que era expectável por quem eu estava a representar, ou seja, a partir daí, se eu tivesse respondido sim, as questões que me seriam colocadas passavam para o domínio do acessório e o essencial transitava para segundo plano.

Podes até, diz-me ele, considerar que optei pelo politicamente correto ou que tive medo, podes ajuizar como muito bem entenderes, mas o verdadeiro motivo foi aquele que acabo de te dizer e que nunca o tinha referido a ninguém, aliás, também como já te disse, estava à espera da pergunta o que facilitou aquele categórico não.

Sabes, diz-me ele, temos de nos preparar para todos os cenários e, ainda assim, nem sempre se consegue que tudo nos corra de feição, mas correrá sempre mal se não nos preparamos antes das entrevistas, ou mesmo quando se trata de fazer pequenas declarações à comunicação social, tantas e tantas vezes em cima do acontecimento. É sempre bom escolher as palavras e tentar não ser dirigido pelos nossos interlocutores, nem lhes deixar espaço para a especulação. Bem, esta premissa, como por certo concordarás comigo, aplica-se não só a esse contexto, mas a outros cenários. Não foi este o caso pois, como pudeste constatar não estou a fugir às tuas questões e nunca me passou pela cabeça, quando me convidaste para vir até aqui, que a nossa conversa viesse a tomar este caminho. Percebi perfeitamente, porque o conheço e, porque conheço, ainda que, superficialmente o funcionamento da organização política a que pertence desde a sua juventude. 

Sentindo que ele, talvez pelo cenário idílico, pelo calor do Verão ou pela confiança que em mim deposita, estava com disponibilidade para falar. Ganhei coragem e atrevi-me a continuar.

Ouve lá! Sabia, não precisava sequer que o confirmasses que, de uma forma ou outra, as tuas opções ideológicas, podendo deixar-te bem contigo mesmo, te prejudicaram ao longo da vida, mas em determinado momento foi claro que alguém o fez de forma deliberada. O teu bom nome foi posto em causa e atingiu direta ou colateralmente, como quiseres entender, a tua família. O que estranhei e, como eu, certamente, muitas outras pessoas que te conhecem, e que não duvidam da tua integridade moral e política, o que estranhei foi que não tivesses vindo a terreiro defender-te e esclarecer a opinião pública. Porquê!? Por que te remeteste ao silêncio.

Quando acabei, embora tivesse sido breve, estava com o suor a correr pelas costas e, não era do calor. Para lhe colocar, sem rodeios, esta questão foi preciso alguma coragem. Quem o conhece sabe que ele é afável, simpático e bem-humorado, mas também sabe que há questões sobre as quais ele não fala e se o tentam encurralar pode tornar-se num adversário temível.

Claro que enquanto lhe fiz a pergunta não deixei de olhar para ele, não só por uma questão da urbanidade que ele tanto cultiva, e eu também, mas sobretudo porque era importante ler os sinais corporais que ele ia, ou não, transmitindo. Ele sorria ainda que do seu olhar transbordassem um misto de sentimentos e algumas emoções antagónicas cujo espetro ia da tristeza à raiva, raiva que não chegava a ser ódio e vi, no seu olhar, a deceção. Sorrindo, respondeu-me.

E falou como eu nunca o tinha ouvido falar, falou de si, das suas angústias, dos seus sonhos, os sonhos que se cumpriram, os sonhos que continuam por cumprir, mas dos quais não abdica. E, com as lágrimas que de quando em vez lhe afloravam aos olhos, falou dos sonhos que sabe não poder ver realizados, sonhos que se perderam no tempo, ou porque o tempo, o seu tempo, é finito.

Queres mesmo saber!? Pois bem! Pede aí mais uma imperial e uns amendoins, e, presta atenção. Não só te vou dizer por que não vim a terreiro, mas também quem é que me tentou foder a vida.

foto de João Pires

Estupefacto perguntei: Sabes quem foi!? Claro que sei. Sei quem foram os autores, sei quem foi o mensageiro, sei quem foi instrumentalizado, sei quem foram os lacaios que deram corpo à difamação e, sobretudo, sei qual foi o objetivo que esteve associado a esta trama, que como verás, tem requintes de malvadez, diria mesmo que tem contornos maquiavélicos.

A tarde prolongou-se até noite dentro, muitas outras tardes e noites se lhe seguiram. Partilhou comigo mais do que alguma vez julguei ser possível, mas como ele próprio diz nem tudo pode ser contado e, também eu, me reservo a não divulgar mais do que já ficou dito, desde logo, pela reserva de confidencialidade que lhe assegurei, mas também para não vir a ser uma vítima colateral de uma certa forma de fazer “política”, muito em uso na Região e no País, e, por outro lado, cabe-lhe em primeira instância, a divulgação dos detalhes da estória que aqui foi aflorada.

Hoje não, mas amanhã talvez. Disse ele, com um sorriso nos lábios.


Ponta Delgada, 14 de maio de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de maio de 2024

atrevimento

foto de Aníbal C. Pires




Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) Sabes, diz-me ele, temos de nos preparar para todos os cenários e, ainda assim, nem sempre se consegue que tudo nos corra de feição, mas correrá sempre mal se não nos preparamos antes das entrevistas, ou mesmo quando se trata de fazer pequenas declarações à comunicação social, tantas e tantas vezes em cima do acontecimento. É sempre bom escolher as palavras e tentar não ser dirigido pelos nossos interlocutores, nem lhes deixar espaço para a especulação. Bem, esta premissa, como por certo concordarás comigo, aplica-se não só a esse contexto, mas a outros cenários. Não foi este o caso pois, como pudeste constatar não estou a fugir às tuas questões e nunca me passou pela cabeça, quando me convidaste para vir até aqui, que a nossa conversa viesse a tomar este caminho. Percebi perfeitamente, porque o conheço e, porque conheço, ainda que, superficialmente o funcionamento da organização política a que pertence desde a sua juventude. 

Sentindo que ele, talvez pelo cenário idílico, pelo calor do Verão ou pela confiança que em mim deposita, estava com disponibilidade para falar. Ganhei coragem e atrevi-me a continuar. (...)


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Diamantino Gonçalves - (1954-2024)

guardião de memórias


que dizer

neste dia cinzento

de pesar 


faltam as palavras

que dizer!?

como dizer!?

da tua devoção

às terras da Beira Baixa

ao teu povo

que dizer de ti      amigo e camarada


tu que calcorreaste

as veredas da Gardunha

as margens do Zêzere

os sons da transumância

os sabores da Maúnça

e

com o teu olhar arguto

eternizaste a paisagem

e a cultura das gentes


guardião de memórias

habitaste o tempo

deste-lhe substância

Até Sempre!


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 2 de maio de 2024

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Abril é mais futuro!

foto de Madalena Pires
O cinquentenário da Revolução de Abril continua a comemorar-se por todo o país. A manifestação de Lisboa, no dia 25, foi um sinal claro e inequívoco de identificação do povo português com os ideais e valores de Abril, por tudo quanto foi conquistado, por tudo o que é necessário defender e por tudo o que é necessário (re)conquistar e construir, pois, Abril é mais futuro!

As praças, ruas e avenidas de Portugal, com maior ou menor adesão dos cidadãos, juntaram gente, muita gente, para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Mais do que comemorar uma efeméride foi a afirmação da defesa dos valores de Abril e uma grande determinação, das vozes que ecoaram no espaço público, clamando pelos valores da Liberdade e da Democracia. Abril está vivo e a maioria dos portugueses reconhece as importantes transformações que a Revolução dos Cravos nos proporcionou, mas pelas quais é necessário (hoje e sempre) continuar a lutar. 

No contexto político e parlamentar que vivemos essa determinação e demonstração assumem um significado que vai muito além da celebração de uma data, foi um dia de luta. É um tempo de luta! Luta com os olhos postos no porvir e no sonho de um país mais justo onde a democracia política, económica, social e cultural sejam uma realidade.

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril têm assumido diferentes formatos e vão prolongar-se no tempo, durante este ano e nos anos vindouros. Os filhos e netos da Revolução aí estão para continuar esta construção, por agora, embargada e, para manter a memória de um tempo novo e transformador. 

Diz-se da Revolução de 25 de Abril que foi uma revolução de cravos e sem derramamento de sangue, não fossem os quatro cidadãos mortos (ao fim da tarde), pelos disparos provenientes da sede da PIDE/DGS, e assim teria sido. Em jeito de homenagem deixo aqui o nome dos cidadãos assassinados pela PIDE/DGS no dia 25 de Abril de 1974: Fernando Carvalho Giesteira, José James Harteley Barneto, João Guilherme Rego Arruda e Fernando Luís Barreiros dos Reis. Assim foi no dia 25 de Abril de 1974, mas este dia não aconteceu por acaso e durante os 48 anos da ditadura há uma longa história de sangue derramado que importa não seja olvidado em nome da memória dos que lutaram, foram presos, torturados e que morreram até ao dia do qual Sophia de Mello Breyner nos diz: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.”

Até chegar “o dia inicial inteiro e limpo”, morreram às mãos do aparelho repressivo do fascismo português assassinados na rua, nas instalações prisionais, nas frentes de guerra os soldados portugueses, mas também os combatentes das lutas de libertação e as populações das colónias alvo das mais diversas sevícias e massacres. Desconheço os números na sua totalidade, mas atrevo-me a afirmar que são várias centenas de milhares os mortos provocados, diretamente, pelo regime instaurado a 28 de maio de 1926 em Portugal o qual, em 1933, pela mão de Salazar se estruturou num regime fascista. 

A Revolução portuguesa não aconteceu por acaso e há toda uma história de resistência, luta e sangue derramado que contribuiu para que o derrube do fascismo português tivesse acontecido. Se é verdade que a revolta militar teve na sua origem causas de ordem corporativa dentro das Forças Armadas, não é menos rigoroso afirmar que no seio do Movimento das Forças Armadas (MFA) existia um conjunto de oficiais (milicianos e do quadro) com consciência social e política, e que esse facto foi determinante para que o programa do MFA tivesse os contornos progressistas que o caraterizaram e aos quais o povo português aderiu massivamente, também não é menos verdade que a oposição organizada e clandestina, com particular destaque para o PCP, quer se goste ou não, mas factos são factos, foi uma das variáveis determinantes, de entre outras, para o derrube do regime fascista em Portugal.

O que ficou dito não pretende retirar os atributos que caraterizaram o dia em que o regime foi derrubado, a Revolução do 25 de Abril foi e continuará a ser uma revolução marcada pelos cravos que a Celeste Caeiro, num gesto simples e agradecido, deu aos soldados que se dirigiam para o Largo do Carmo, mas não podemos obliterar, ou branquear, tudo o que lhe esteve na origem. As lutas dos trabalhadores e do povo português, a resistência e as prisões do fascismo, a luta armada dos povos colonizados e a guerra colonial que sacrificou mais de 10mil jovens portugueses, estropiou mais de 30mil e afetou a generalidade das famílias portuguesas.

A maioria do povo português sentiu e viveu os acontecimentos do dia 25 de Abril de 1974 com alegria. Uma incomum aura de felicidade parecia envolver os cidadãos, mas ainda nesse dia houve quem se encarregasse de iniciar um processo, nem todos ficaram satisfeitos com o contentamento popular, que pretendia travar as transformações que se adivinhavam. Não é o lugar e o tempo para dissertar sobre o conservadorismo de alguns membros da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo general António de Spínola, mas sempre deixo como sugestão: procurem apurar as razões pelas quais os presos políticos só foram libertados, dois dias depois do 25 de Abril e a sua libertação só se consumou devido à forte mobilização popular.

Com a Revolução dos Cravos Portugal sofreu profundas transformações e o poder político e económico passou a ter os trabalhadores e o povo como os principais protagonistas, daí resultaram melhorias substantivas para a vida da generalidade dos portugueses e algumas dessas conquistas que hoje temos como adquiridas foram consagradas na Constituição da República Portuguesa (aprovada a 2 de abril de 1976) que apesar de ter vindo a ser desvirtuada por sucessivas revisões mantém, no essencial, as principais conquistas de Abril.

A herança de Abril está bem viva e hoje faz parte das nossas vidas o que não significa que nos limitemos a celebrar sem lutar pois, em muitos aspetos da vida política, económica, social e cultural registam-se retrocessos preocupantes.  A precariedade, o desemprego, a pobreza, a exclusão social, a concentração da riqueza, o desinvestimento nos serviços públicos e a privatização dos setores públicos estratégicos não esgotam os recuos na construção de uma democracia avançada (política, económica, social e cultural) que quero para o meu país e para o meu povo, mas constituem-se como um conjunto de inquietações para as quais nos devemos mobilizar, sob pena, de nos afastarmos cada vez mais do espírito de Abril, com todos os perigos que isso encerra para a Liberdade e a Democracia. 

Manter um espírito crítico, de oposição e luta em relação às opções políticas dos sucessivos governos que são diretamente responsáveis pelo afastamento dos princípios constitucionais, é defender o espírito da Revolução e contribuir para que Abril seja mais futuro e não apenas uma data histórica que festejamos em dia de feriado.

Ponta Delgada, 30 de abril de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de maio de 2024

as mulheres na Revolta do Leite (1936) - a abrir maio


Esta publicação assinala o 1.º de Maio com referência a uma luta dos trabalhadores e do povo madeirense realçando no papel das mulheres na Revolta do Leite.

As mulheres trabalhadoras tiveram e têm um papel que nem sempre é devidamente valorizado, desde logo pelas próprias mulheres. 



Os movimentos feministas esquecem e obliteram algumas lutas onde as mulheres tiveram um papel preponderante, como seja, a Revolta do Leite na Madeira. Este levantamento popular, em 1936, foi um dos episódios mais violentos da repressão sobre os trabalhadores e o povo madeirense perpetrado pelo regime fascista.

As hiperligações inseridas no texto remetem para informação sobre esta revolta.


terça-feira, 30 de abril de 2024

um Abril imenso


Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) As praças, ruas e avenidas de Portugal, com maior ou menor adesão dos cidadãos, juntaram gente, muita gente, para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Mais do que comemorar uma efeméride foi a afirmação da defesa dos valores de Abril e uma grande determinação, das vozes que ecoaram no espaço público, clamando pelos valores da Liberdade e da Democracia. Abril está vivo e a maioria dos portugueses reconhece as importantes transformações que a Revolução dos Cravos nos proporcionou, mas pelas quais é necessário (hoje e sempre) continuar a lutar. 

No contexto político e parlamentar que vivemos essa determinação e demonstração assumem um significado que vai muito além da celebração de uma data, foi um dia de luta. É um tempo de luta! Luta com os olhos postos no porvir e no sonho de um país mais justo onde a democracia política, económica, social e cultural sejam uma realidade.

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril têm assumido diferentes formatos e vão prolongar-se no tempo, durante este ano e nos anos vindouros. Os filhos e netos da Revolução aí estão para continuar esta construção, por agora, embargada e, para manter a memória de um tempo novo e transformador. (...)


Vietname 1975

Foi há 49 anos que o povo vietnamita logrou libertar-se do colonialismo e do imperialismo, ainda que a narrativa hollywoodesca procure obliterar a derrota dos Estados Unidos e a fuga dos seus representantes do país libertado.

Pelos 49 anos da vitória do Vietname sobre o imperialismo estado-unidense, ou a vitória da formiga perante o elefante.

Podia ter optado por outra imagem. Podia, mas esta encerra uma dimensão sem paralelo: O regresso a casa de um casal de combatentes vietnamitas e todo o amor e a convicção do dever cumprido. O encargo de ter lutado pela libertação do seu povo e do seu território, da sua pátria. 

Podia ter optado por outra imagem. Podia, mas nenhuma outra me comoveria como esta me comove.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Sérgio Ribeiro - (1935-2024)

Até sempre camarada!

Sérgio Ribeiro
, destacado militante comunista, intelectual respeitado, com papel destacado na Revolução de Abril, teve uma vida inteiramente dedicada à luta e intervenção pela emancipação dos povos, pela democracia, o progresso social, a paz e o socialismo.

Este excerto de texto foi retirado do sítio do PCP.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

percurso

auto retrato 

Nos próximos dias estará nas livrarias um novo livro de poemas do qual sou autor. Poderia, mas não vou falar do livro nem fazer a sua apologia. Vou, tão-somente, deixar-vos algumas notas do percurso que me trouxe até às publicações em livro. 

Dir-se-á que ninguém melhor que o próprio reúne todo o conhecimento sobre o processo de partilha do que escreve e publica. Assim será, mas esse facto não me conforta, bem pelo contrário, a partilha da palavra escrita constitui-se como mais uma exposição pública o que, de todo, nunca me agradou, nem agrada. Eu sei, tive por outros motivos muita exposição no espaço público regional, e até poderia parecer que daí retirava alguma satisfação, nada mais errado, foi para mim muito, mas mesmo muito desgastante e sempre que podia refugiava-me num porto seguro. A exposição pública através da partilha da palavra escrita não tendo a mesma dimensão, mas, ainda assim, foi necessário saltar, com insegurança, algumas barreiras que eu próprio coloquei neste caminho.

A minha atividade como autor tem a sua génese nas páginas dos jornais regionais, aliás instrumento do qual, nem todos, mas alguns dos nossos escritores de renome se serviram para exercitar a construção literária de que hoje são verdadeiros mestres. Iniciei a minha colaboração na imprensa regional em 2003, passei pelo “Correio do Norte”, pelo “Açoriano Oriental”, pela “União”, pelo “Expresso das Nove”, pelo “Diário Insular” e, ainda, por alguns títulos digitais, como por exemplo, o “Açores 9” e o “Azores Digital”. Colaborei, também, na rádio como comentador na “Conversa a 4” na TSF Açores, na Rádio Clube de Angra e na 105 FM. Em televisão fui pontualmente comentador em programas de grande informação na RTP Açores e mantive na SMTV um programa semanal de outubro de 2018 até julho de 2019, aquando do seu encerramento. 

Como referi logo o início o tema de hoje não é de fácil abordagem. Afinal trata-se de falar de mim e não é uma tarefa fácil por várias ordens de razão, desde logo porque não gosto de me expor, nem de tomar a iniciativa para escrever ou falar sobre o que faço, não me importo de responder, quando sou questionado, mas por iniciativa própria não é coisa que me agrade. Por outro lado, a atividade desenvolvida no exercício pleno da minha cidadania, bem como as minhas publicações são conhecidas, ou pelo menos, para não parecer que estou a ser imodesto, e não é o caso, estão, a vida e as publicações, acessíveis ao conhecimento dos cidadãos.

Gosto mais de ouvir do que falar. Mas se é verdade que gosto mais de ouvir do que falar é, igualmente, verdadeiro que gosto mais de ler do que escrever e, naturalmente, leio muito mais do que escrevo, mas, a escrita seja na forma de ensaio, crónica ou poesia faz parte da minha vida, conquanto me tenha iniciado tardiamente nessas lides, talvez por ter outras prioridades, e como sou, ao contrário do que por vezes possa parecer, desorganizado e sem método nunca consegui gerir e organizar o tempo para além da minha vida familiar, profissional, cívica e política, de modo a criar condições para escrever. Não sei gerir o tempo. Tenho sempre tempo para os outros, nunca tenho, ou, raras vezes tenho tempo para mim. Bem agora já vou tendo. Estou aposentado e nessa condição tinha a expetativa que o tempo sobejasse. Pensava eu que sim, mas não, pois, continuo a ter uma intensa atividade que decorre do meu espírito inquieto e de muitas solicitações para colaborar em projetos aos quais continuo, como sempre fiz, a dar resposta positiva, a não ser que a agenda não permita mais entradas.

Cheguei precocemente à participação política engajada, à profissão e ao casamento. E esses três aspetos da minha vida constituíram-se nas minhas prioridades. O tempo, está bom de ver, não sobrava ou, pelo menos, eu não dava conta da existência de tempo livre para assumir outros encargos, quiçá por não saber gerir o tempo que restava.

A atividade profissional terminou recentemente. Foi uma longa carreira, mais de quarenta e seis anos de docência, embora oito, desses quarenta e seis, tenham sido dedicados à vida política a tempo inteiro. Uma carreira profissional de que me orgulho e ao longo da qual fiz tudo o que um professor pode fazer para além da docência. Do casamento que completa, em junho, quarenta e sete anos, resultaram três filhos, duas raparigas e um rapaz. E, sou avô de três netas. A militância partidária e o engajamento político aconteceram com alguma naturalidade ainda durante o ano de 1974 e continuarão enquanto respirar.

A escrita e a partilha de opinião entraram nas minhas rotinas, como já referi, em 2003 e mantêm-se. Em março de 2008, com a criação do meu blogue “momentos”, a escrita assumiu outros contornos e dei início à partilha dos primeiros textos poéticos, num processo que resultou, em grande parte, das minhas deambulações pelo arquipélago (ainda antes de ser eleito deputado). Da escrita foram resultando várias publicações: Imigrantes nos Açores – representações dos imigrantes face às políticas e práticas de acolhimento e integração (Tese de Mestrado), Edições Macaronésia, Ponta Delgada, 2010. O Outro Lado – palavras livres como o pensamento (poesia), Edições Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2014. Toada do Mar e da Terra – Volume I (2003/2008) (crónicas), Edições Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2017. O Encanto dos Sonhos (conto), Edições Letras Lavadas, Ponta Delgada 2019. Esperança Velha e outros poemas, (poesia), Edições Letras Lavadas, 2020. Destroços à Deriva, (poesia), Edições Letras Lavadas, 2024.

Uma das atividades que me foi dando mais prazer nos últimos anos foi a participação em festivais internacionais de poesia, dos quais destaco “Ronda Leiria Poetry” (2021), Mês da Poesia Estados Unidos (2021, 2022, 2023 e 2024), “Poesia Pela Liberdade”, organizado pelo WPM (2021), Red Carnation, organizado pelo WPM (2021), e o V Festival Internacional do Lugar de Los Escudos, México (2021). Dizer poesia tornou-se num dos meus prazeres.


Cheguei à escrita tardiamente. E tardiamente descobri este prazeroso tempo de intimidade e tranquila solidão. O tempo em que grafo no papel as palavras que, por diferentes motivações, partilho nas minhas publicações. Sendo prazeroso e solitário não é de autossatisfação, o tempo e o objeto que estão associados à escrita que tenho partilhado através das minhas publicações em livro, ou no meu blogue. É, ainda e sempre, um tempo de partilha e de intervenção. É ainda e sempre o professor que habita em mim, pois ser professor é ter a capacidade de partilhar conhecimento, mas sobretudo criar espaços de reflexão que induzam o pensamento crítico. Se atualmente ser professor não é isso, houve um tempo em que assim era.

Não sou um autor que trabalha as palavras como fazem alguns artífices das letras que as lapidam como se fossem diamantes. Direi que sou um eterno aprendiz de obreiro das palavras, o que já me satisfaz face a tudo o que fui fazendo ao longo da minha vida.

Se viver e conhecer os Açores teve importância em todos os aspetos da minha vida. Sim, claro que sim. Quando me fixei definitivamente na Região já trazia comigo o engajamento político, o casamento, duas filhas e a carreira profissional. Depois foi toda uma vida de descoberta e de intervenção que acabou por me levar à escrita. Se teria sido possível em qualquer outro lugar. Não sei, talvez. Mas nunca como nestas ilhas, embora a Beira Baixa e o seu povo, de onde sou oriundo, sejam fontes inesgotáveis de inspiração. 

Ponta Delgada, 15 de abril de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 17 de abril de 2024

terça-feira, 16 de abril de 2024

pequenos prazeres

Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) A escrita e a partilha de opinião entraram nas minhas rotinas, como já referi, em 2003 e mantêm-se. Em março de 2008, com a criação do meu blogue “momentos”, a escrita assumiu outros contornos e dei início à partilha dos primeiros textos poéticos, num processo que resultou, em grande parte, das minhas deambulações pelo arquipélago (ainda antes de ser eleito deputado). Da escrita foram resultando várias publicações: Imigrantes nos Açores – representações dos imigrantes face às políticas e práticas de acolhimento e integração (Tese de Mestrado), Edições Macaronésia, Ponta Delgada, 2010. O Outro Lado – palavras livres como o pensamento (poesia), Edições Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2014. Toada do Mar e da Terra – Volume I (2003/2008) (crónicas), Edições Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2017. O Encanto dos Sonhos (conto), Edições Letras Lavadas, Ponta Delgada 2019. Esperança Velha e outros poemas, (poesia), Edições Letras Lavadas, 2020. Destroços à Deriva, (poesia), Edições Letras Lavadas, 2024.

Uma das atividades que me foi dando mais prazer nos últimos anos foi a participação em festivais internacionais de poesia, dos quais destaco “Ronda Leiria Poetry” (2021), Mês da Poesia Estados Unidos (2021, 2022, 2023 e 2024), “Poesia Pela Liberdade”, organizado pelo WPM (2021), Red Carnation, organizado pelo WPM (2021), e o V Festival Internacional do Lugar de Los Escudos, México (2021). Dizer poesia tornou-se num dos meus prazeres. (...)