sexta-feira, 3 de abril de 2026

fragilidade do turismo na RAA – breve reflexão

foto de Aníbal C. Pires
A preocupação já não é um pressentimento. É a realidade.

Os indicadores disponíveis apontam para um abrandamento da procura turística do destino Açores. Os efeitos não serão uniformes entre ilhas, para o bom e para o mau nunca o são, mas o sinal é claro. E, na verdade, não é novo. Há muito que algumas vozes vinham alertando para a volatilidade estrutural desta indústria, demasiadas vezes ignorada quando os números cresciam e tudo parecia ir para bom porto.

E não! Não se trata apenas do abandono do destino por parte de uma companhia aérea de baixo custo. Esse fator tem peso, naturalmente, mas está longe de explicar, por si só, o que está a acontecer. Há outras variáveis, mais profundas, que ajudam a compreender este abrandamento.

O contexto internacional deteriorou-se. A instabilidade geopolítica, nomeadamente no Médio Oriente, tem efeitos diretos e indiretos nas economias. Desde logo, no aumento dos preços da energia. E, com ele, numa cadeia de consequências previsíveis: subida do custo de vida, pressão inflacionista, e inversão da tendência recente de descida das taxas de juro.

Perante este cenário, os cidadãos retraem-se. Adiam. Selecionam. Cortam no que não é essencial. E, nesse movimento, o turismo, sobretudo em destinos periféricos e de custo elevado, é dos primeiros a ser afetado. Os Açores não escapam a essa lógica.

Ainda assim, importa dizê-lo com clareza: não estamos apenas perante uma crise que nos chega de fora. Estamos também perante um modelo que nunca deixou de ser frágil por dentro.

Os agentes do setor: animação turística, rent-a-car, restauração, hotelaria e alojamento local; têm vindo a público manifestar preocupação e a exigir respostas. Mas fazem-no, em grande medida, centrando o problema na acessibilidade aérea e na ausência de voos de baixo custo.

Essa leitura é, no mínimo, incompleta.

imagem retirada da internet

Os preços praticados no destino são, há muito, motivo de queixa por parte de quem nos visita. Em muitos casos, não acompanhados por níveis de serviço que justifiquem esses valores. O custo elevado da experiência Açores não pode ser atribuído exclusivamente ao preço das passagens aéreas. Há uma responsabilidade interna que não pode continuar a ser ignorada.

Quanto à saída da transportadora de baixo custo, convém não romantizar. Faz parte do seu modelo de negócio. Estas companhias não vivem, sobretudo, da venda de bilhetes, mas das contrapartidas financeiras e operacionais que conseguem negociar com os destinos. Quando encontram condições mais vantajosas, mudam. É a lógica do mercado, no seu estado mais puro. (Há quem goste.)

O senhor Michael O’Leary terá, muito provavelmente, encontrado quem estivesse disposto a oferecer mais. E partiu.

E com o abandono, assistiu-se a reações curiosas. Nas redes sociais, multiplicaram-se agradecimentos emocionados pelo “serviço prestado”, esquecendo-se, talvez, que esse serviço foi amplamente suportado por dinheiros públicos, viajassem ou não os contribuintes nessa transportadora.

Outros foram mais longe, intimando que o(s) governo(s) satisfizessem as exigências da empresa como se o interesse público se devesse submeter, sem reservas, à lógica negocial de uma empresa privada.

E aqui emerge um paradoxo que merece reflexão.

foto de Aníbal C. Pires
Muitos dos que defendem, com naturalidade, o financiamento público de companhias aéreas privadas, são os mesmos que rejeitam, de forma quase instintiva, o financiamento de uma companhia aérea pública, chegando a defender a sua privatização. Esquecem, talvez, que há rotas, serviços e missões que só uma transportadora regional, com responsabilidade pública, consegue assegurar, seja no transporte de doentes, seja na ligação regular entre ilhas, seja no apoio em emergências.

No fundo, talvez esta seja a questão que evitamos enfrentar: queremos um destino competitivo, mas recusamos discutir o modelo que o sustenta.

Queremos voos baratos, mas não queremos pagar o seu verdadeiro custo.

Queremos turistas, mas nem sempre queremos rever a forma como os recebemos.

O turismo, como o mar que nos cerca, nunca foi um lugar de permanência, é fluxo, é maré, é instabilidade. E, no entanto, insistimos em tratá-lo como chão firme.

Talvez este abrandamento não seja apenas um sinal de crise, mas um aviso. Um desses avisos discretos que chegam antes das ruturas maiores.

Porque, no fim, não é a partida de uma companhia aérea que nos deve inquietar verdadeiramente. É a fragilidade do que fica quando ela parte, como era expetável que, mais tarde ou mais cedo, viesse a acontecer.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de abril de 2026


regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

sobreviver à barbárie

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos. (...)

Vanessa Redgrave - a abrir abril

Vanessa Redgrave em 1978

A vida e obra de Vanessa Redgrave não se esgota no brilho do palco ou na consagração do cinema. Há, nesta mulher, uma coerência rara, quase intempestiva, entre a arte e a consciência. Desde os anos 1970, quando a causa palestiniana era ainda mais marginalizada no espaço mediático ocidental, Redgrave recusou o conforto da neutralidade. Fê-lo com a frontalidade de quem sabe que certas causas não admitem meias-palavras: ou se está do lado da dignidade de um povo ou se consente, por omissão, na sua negação.

A sua defesa intransigente da Palestina custou-lhe ostracismo, críticas ferozes e até ameaças, sobretudo após o documentário The Palestinian e o célebre discurso nos Óscares, em 1978, onde denunciou o que chamou de “intimidação sionista”. Mas, ao contrário de tantos que modulam o discurso ao sabor das circunstâncias, Redgrave manteve-se firme, não por provocação, mas por convicção ética. A sua voz, tantas vezes isolada, tornou-se um testemunho incómodo: lembra-nos que o silêncio, quando se torna regra, é também uma forma de cumplicidade.

Aos 88 anos numa manifestação 

Em Vanessa Redgrave há qualquer coisa de antigo, quase trágico, no sentido clássico: a fidelidade a uma verdade interior que não se negoceia, mesmo quando o preço é elevado. A sua posição face à Palestina não é apenas política, é, sobretudo, a recusa frontal de aceitar que a injustiça possa ser normalizada. E talvez por isso a sua voz, ainda hoje, ressoe não como um eco do passado, mas como uma pergunta persistente dirigida ao presente.


quinta-feira, 12 de março de 2026

sinais preocupantes

imagem retirada da internet
A decisão de não reconduzir Rita Rato na direção do Museu do Aljube Resistência e Liberdade causou muita perplexidade a quem tem acompanhado o trabalho desenvolvido naquela instituição. Nos últimos anos, o museu afirmou-se como um dos espaços mais vivos de reflexão sobre a memória da ditadura e da resistência democrática em Portugal, com uma programação rigorosa, plural e exigente. Esse percurso deve muito à direção de Rita Rato, que soube transformar um lugar de memória num espaço ativo de pensamento crítico e de cidadania.

Por isso, a decisão da empresa municipal, Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa, de não a reconduzir no cargo levanta inevitáveis interrogações. Quando um trabalho amplamente reconhecido é interrompido sem explicação clara ou avaliação pública do seu mérito, a suspeita instala-se: não estaremos perante mais um episódio de substituição política, onde o critério da competência cede lugar à lógica da fidelidade partidária?

Num país que conheceu a censura e a repressão durante a ditadura, o museu instalado no antigo cárcere político do Aljube tem uma responsabilidade particular: preservar a memória da liberdade e da resistência ao poder arbitrário. Fragilizar esse projeto por razões de conveniência partidária é um sinal preocupante, não apenas para a cultura, mas para a própria qualidade da nossa democracia.


domingo, 8 de março de 2026

a memória não se vende

O calendário comercial avança sempre de mansinho, com pezinhos de lã, tentando transformar a memória em mercadoria. Também o 8 de março não escapou a essa tentação: embrulhá-lo em flores, laços e promoções.

Mas este dia não nasceu para vitrinas.

Oferecer flores a uma mulher é um gesto simples, que pode acontecer em qualquer dia do ano. Quando nasce do afeto, é belo. Mas o 8 de março não nasceu desse gesto. Nasceu da luta. Uma luta dura, concreta, muitas vezes invisível, de mulheres que se levantaram contra a exploração, a desigualdade, o silêncio e o patriarcado.

Este é o Dia da Mulher trabalhadora.

A história começa nas ruas e nas fábricas. Em 1908, cerca de quinze mil mulheres marcharam em Nova Iorque exigindo melhores salários, redução do horário de trabalho e o direito ao voto. No ano seguinte, em 1909, o Partido Socialista da América proclamou o primeiro Dia Nacional da Mulher.

Em 1910, na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhaga, a militante alemã Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher. A proposta foi aprovada lembrando ao mundo que a igualdade conquista-se. Nada é oferecido.

Mas o momento decisivo chegaria só alguns anos depois.

A 8 de março de 1917, em Petrogrado, hoje São Petersburgo, operárias têxteis e esposas de soldados saíram à rua contra a fome, a guerra e a miséria. Sob o grito de “Pão e Paz”, mais de noventa mil mulheres desafiaram a ordem estabelecida. Essa manifestação tornar-se-ia um dos detonadores da Revolução Russa.

Foi aí que o 8 de março ganhou o seu lugar na história.

Durante décadas foi celebrado sobretudo pelos movimentos operários e progressistas. Só muito mais tarde, em 1975, as Nações Unidas reconheceriam oficialmente a data.

Recordar esta história é importante porque há quem prefira esquecê-la.

Há quem queira transformar um dia de luta num gesto leve, uma celebração sem memória nem conflito.

Mas o 8 de março não nasceu para ser confortável.

Nasceu nas fábricas.

Nasceu nas ruas.

Nasceu da coragem.

Por isso, hoje, mais do que flores, este dia pede memória.

Memória das que lutaram.

Memória das que resistiram.

Memória das que continuam a abrir caminho.

Porque a igualdade nunca foi uma oferta.

Sempre foi, e continua a ser, uma conquista.


Lindas são as mulheres que lutam.


sexta-feira, 6 de março de 2026

um Partido com mais futuro do que história

Hoje assinalam-se 105 anos da fundação do Partido Comunista Português, criado a 6 de março de 1921 no quadro das lutas operárias que atravessavam a Europa após a Revolução de Outubro. Desde a sua origem, o PCP assumiu-se como uma força revolucionária organizada da classe trabalhadora portuguesa, defendendo a transformação profunda da sociedade, o fim da exploração e a construção de uma ordem social fundada na justiça e na igualdade. A sua história está indissociavelmente ligada às lutas dos trabalhadores e das populações que marcaram o século XX em Portugal.

Durante a longa noite da ditadura, o Partido foi a principal organização política de resistência ao regime fascista.

O derrube do regime na Revolução de 25 de Abril de 1974 abriu um novo capítulo dessa trajetória. O PCP teve então um papel destacado na mobilização popular, na organização sindical e na defesa das conquistas revolucionárias que marcaram o processo de transformação vivido em Portugal no período que se seguiu ao 25 de Abril. 

105 anos depois, o Partido continua a afirmar-se como herdeiro dessa tradição de luta e de um projeto político que, mais do que gerir o existente, propõe-se transformá-lo mantendo viva a ideia de que a história pode, e deve, ser construída pelos trabalhadores e pelo povo.

PCP um partido com mais FUTURO do que história.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Amélia Araújo - a abrir março

imagem retirada da internet
A morte de Amélia Araújo, em 19 de fevereiro de 2026, trouxe à memória uma das vozes mais marcantes da luta anticolonial africana. Nos anos difíceis da guerra de libertação conduzida pelo PAIGC, a sua presença chegava através do invisível fio das ondas da Rádio Libertação. Era uma voz firme e serena que atravessava florestas, tabancas e oceanos, levando notícias da luta, palavras de coragem e a esperança de um futuro livre para os povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

A voz de Amélia Araújo tornou-se um símbolo. A rádio, naquele tempo de clandestinidade e guerra, era uma arma silenciosa, mas poderosa. Pelos seus programas passavam comunicados do partido, mensagens aos combatentes e também palavras dirigidas aos soldados portugueses, numa tentativa de romper o silêncio e interpelar consciências. A voz que se ouvia nas emissões era também a voz do pensamento de Amílcar Cabral, ecoando a ideia de que a libertação era antes de tudo um ato de dignidade e de consciência histórica.

Com a sua morte desaparece uma testemunha direta de um tempo em que a palavra podia ser tão decisiva quanto as armas. Permanece a memória dessa voz que, em noites de incerteza e esperança, acompanhou milhares de combatentes e de homens e mulheres anónimos. Uma voz que não se via, mas que ajudou a abrir caminho para a liberdade, e fica, para sempre, inscrita na história comum da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e na luta contra o colonialismo.


segunda-feira, 2 de março de 2026

pelo 18.º aniversário do momentos

imagem retirada da internet
Em dia de aniversário deixo alguns dados sobre o “momentos”

Nestes 18 anos foram divulgadas 3004 publicações, registaram-se 1192515 visualizações e 891 comentários às postagens.

Seguem o blogue 56 pessoas.

As visualizações têm origem, um pouco, por todo o mundo. Sendo que os países que acumulam mais visitantes são:

- Portugal;

- Estados Unidos; e 

- Brasil,

Esta aventura vai continuar. Sei que os blogues passaram de moda, mas mantenho-me por aqui enquanto tiver alguma coisa para partilhar para além dos 140 caracteres e da efemeridade das “redes sociais” mais populares, das quais também faço uso.

Agradeço a todos os visitantes que aqui vêm com frequência, mas também aos que “picam” pontualmente este espaço.

Bem hajam!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

de passagem por Paços

imagem retirada da internet

Sou professor aposentado, desde 2021, o meu percurso profissional somou 46 anos de serviço, mais 10 do que me havia sido contratado quando iniciei este caminho. Foram 46 anos recheados de peripécias e histórias, uma mais outras menos interessantes, mas todas elas relevantes para a minha vida pessoal e profissional.

Após 5 anos como professor provisório, Fundão, Santarém e Covilhã, cheguei à Escola Preparatória de Paços de Ferreira no limiar dos anos 1980 para iniciar o meu estágio pedagógico, à altura designado por “Profissionalização em Exercício”. Esta formação destinava-se a professores provisórios com habilitação científica e facultava a aquisição de formação pedagógica e didática, condição necessária para entrada nos quadros da docência.

Vinha, apenas, para fazer o meu estágio pedagógico, mas fui também Orientador de Estágio e Vice-presidente do Conselho Diretivo da Escola. Os anos que trabalhei e vivi nesta vila conhecida pela “Capital do Móvel” foram determinantes para que o ensino se tivesse transformado numa profissão que abracei com orgulho e à qual me entreguei de corpo e alma. Sempre que pedem para referenciar escolas ou períodos que me marcaram, enquanto professor, a Escola Preparatória de Paços de Ferreira é a referência, tenho outras, mas aconteceram depois e, em grande medida, resultaram da minha passagem por Paços de Ferreira.

Eu que não sou um homem de certezas e tenho muitas dúvidas posso, contudo, afirmar que, sem dúvidas e com a certeza dos meus princípios, foi nesta vila e concelho que despontaram e se consolidaram caraterísticas que nortearam a vida do homem e do professor, o homem que sou, o professor que fui.

imagem retirada da internet

Os lugares são as pessoas que o habitam e, Paços, ao tempo, era um espaço de grandes contradições e assimetrias, mas como este texto não pretende ser de análise socioeconómica, direi apenas que aquele lugar era habitado por gente que lhe conferia um encanto muito particular, gente que me acolheu e integrou, gente solidária e capaz de transformar as agruras da vida em momentos de grande elevação e generosidade.

Se é certo que os alunos, funcionários e professores são o grande núcleo das pessoas que fizeram parte da minha passagem por Paços, não são, porém, o universo das gentes com quem interagi e colaborei. Durante a minha passagem por Paços procurei ser um pacense integrando-me na vida da comunidade e procurando compreender o que era diferente, respeitando os modos de vida, os costumes e as tradições, pois, sempre foi meu entendimento que a melhor forma de integração é: o conhecimento do outro, diferente e igual.

Não é possível, nesta breve nota, mencionar os nomes das pessoas com quem lidei pois, seriam necessárias muitas folhas para grafar todos os que, de uma forma ou outra, se cruzaram comigo e deixaram a sua marca. Há apenas dois personagens que acabarei por referenciar por razões óbvias, como se verá. Mas isso não pode nem deve ser entendido como menorização de outros ou de esquecimento. A todos guardo, com muito carinho, na minha memória.

A Escola Preparatória era então um verdadeiro microcosmo de energia e movimento conferido pelo dinamismo e empenhamento de docentes, funcionários e alunos, era um tempo em que a Escola era valorizada e se acreditava que a educação era o principal motor de transformação social e económica, o tempo veio desconstruir esse sonho e a Escola voltou a ser o que tinha sido em tempos de má memória, um lugar de reprodução de desigualdades. 

Grupo de estágio alargado, com alguns estagiários já no segundo ano da formação. Escola com mais de 1000 alunos e mais de 100 professores. O edifício principal, adaptado de uma antiga casa de emigrantes regressados do Brasil, era uma curiosa combinação entre tradição e improviso. Até as antigas cavalariças tinham sido transformadas em salas de aula, como se tratasse da metáfora perfeita do espírito de reinvenção que atravessava toda a escola.

imagem retirada da internet
Havia ainda um bloco de pré-fabricados em madeira, separado do edifício principal por uma estrada que ligava Paços de Ferreira a Santo Tirso. Era um desafio logístico e, ao mesmo tempo, uma imagem viva da escola em expansão e da sua capacidade de adaptação, mas também da necessidade da construção de uma nova infraestrutura para satisfazer as necessidades educativas do concelho. 

Mas mais do que os edifícios ou as histórias da vila, o que ficou foram as pessoas, os colegas, os alunos, a vida vivida em partilha. Recordo com especial carinho as dinâmicas pedagógicas inovadoras, o entusiasmo dos professores em formação, as conversas de final de dia e os sabores da gastronomia local que me conquistaram tanto quanto o espírito de comunidade que se vivia em cada esquina.

Vivi na Pensão do Senhor Gomes, figura sobejamente conhecida na vila e sobre o qual se dizia que só atravessava a Praça se isso resultasse em seu benefício. Sobre o Senhor Gomes contavam-se diversas e divertidas histórias, ele próprio contava algumas com o sentido de humor cáustico que o caraterizava.

Mais tarde dividi, com dois colegas, um apartamento numa zona de expansão da vila e os últimos anos que por ali vivi, já com a família reunida, passaram-se no lugar de Sobrão, freguesia de Meixomil.

A minha passagem por Paços não se circunscreveu à atividade letiva ou não fosse eu um cidadão inquieto e com vontade e disponibilidade para conhecer e participar na vida da comunidade. E foi neste contexto que fui participando, ainda que de forma esporádica, na vida desportiva, associativa e política da vila e do concelho, pela mão e amizade do Dr. Álvaro Neto. Com ele e através da sua atividade cívica partilhei de algumas iniciativas e intercâmbios que, de alguma forma, marcaram uma outra faceta da minha passagem por Paços.

Quer da minha atividade docente, quer ainda da minha participação cívica guardo boas memórias e histórias que não cabem neste espaço e, por outro lado não quero valorizar umas em detrimento de outras. Assim julgo ser mais avisado não referenciar nenhuma.

Hoje, ao revisitar esse tempo, sinto uma gratidão imensa. Paços de Ferreira não foi apenas uma paragem no meu caminho. Foi o ponto de viragem na minha vida pessoal e profissional.

Paços de Ferreira ficou comigo. Não como uma lembrança distante, mas como um lugar interior, uma mátria íntima feita de vozes, rostos e histórias que me moldaram para sempre.

Ponta Delgada, 24 de setembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Gazeta de Paços de Ferreira