domingo, 28 de junho de 2026

Discursos

Não ouvi em direto na TV, mas li e ouvi muitos comentários elogiosos ao discurso de Miguel Monjardino (MM) por ocasião das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. O discurso do Presidente da República (PR), que também não ouvi, foi igualmente alvo de laudatórios comentários. Fiquei curioso e fui ao site da Presidência da República ler os discursos e perceber o porquê de tanto enaltecimento.

Sobre o discurso do PR não vou tecer considerações, é consensual e satisfez a generalidade. Já o discurso de MM merece alguma reflexão. Trata-se de uma narrativa que liga Camões, os Açores, o mar, a autonomia e a geopolítica, utilizando a metáfora marítima para pensar o futuro de Portugal. Mas quando analisado à luz das transformações geopolíticas que estão a ocorrer no mundo, surgem-me algumas dúvidas que merecem comentário. Não pretendo com este texto alimentar qualquer polémica com o Professor MM, por quem tenho grande consideração, mas não ficaria bem comigo mesmo se não escrevesse estas notas sobre alguns aspetos do seu discurso.

A principal questão está precisamente na passagem em que MM afirma que "um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer". Esta formulação contém uma visão muito centrada na experiência ocidental das últimas décadas. Para Portugal, para a Europa Ocidental e para alguns aliados dos Estados Unidos, o período iniciado em 1945 foi, de facto, relativamente estável e vantajoso. Mas para grande parte do mundo, da América Central e do Sul, ao Médio Oriente, passando por África e partes da Ásia, esse sistema esteve longe de ser percebido como verdadeiramente multilateral. Na verdade, esse sistema nunca foi plenamente multilateral. Foi antes um sistema de múltiplas vozes surgidas da descolonização, onde o chamado Movimento dos Países Não Alinhados procurou abrir um espaço autónomo entre os dois grandes blocos.

Uma leitura alternativa sugere que não se trata do fim de um mundo multipolar, mas o declínio de uma ordem unipolar dominada pelos Estados Unidos e pelos seus aliados atlânticos após a dissolução da União Soviética. Entre 1991 e aproximadamente 2015-2020, viveu-se o momento unipolar estado-unidense. O que está a emergir agora é precisamente uma maior dispersão do poder mundial, com a ascensão da China, o reforço da Índia, a afirmação de potências regionais como a Turquia, o Brasil, ou mesmo o Irão, e o crescimento de organizações como os BRICS. Nesse sentido, poder-se-ia argumentar que estamos a assistir não ao fim do multilateralismo, mas ao seu nascimento fora da esfera ocidental e sem a marca ideológica do eurocentrismo.

Há igualmente uma certa ambiguidade quando MM defende o multilateralismo e, simultaneamente, a "reinvenção da NATO" e o reforço do seu "pilar europeu". A NATO continua a ser uma aliança militar ocidental e não uma instituição multilateral universal. Para muitos países do Sul Global, ela representa precisamente uma das expressões da ordem atlântica mais contestada. 

Outro aspeto discutível é a ideia de que o ciclo iniciado em 1945 "terminou recentemente". Pode dizer-se que o verdadeiro ponto de rutura não é o fim da ordem de 1945, mas a erosão da ordem surgida após 1991. A ordem de 1945 foi bipolar, estruturada pela rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. O período posterior ao fim da Guerra Fria foi diferente: caracterizou-se pela hegemonia estado-unidense e pela globalização financeira. É esse modelo que está hoje a ser claramente contestado. 

Ponta Delgada, 22 de junho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 24 de junho de 2026

múltiplas vozes

imagem retirada da internet - MPNA

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.










(...) A principal questão está precisamente na passagem em que MM afirma que "um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer". Esta formulação contém uma visão muito centrada na experiência ocidental das últimas décadas. Para Portugal, para a Europa Ocidental e para alguns aliados dos Estados Unidos, o período iniciado em 1945 foi, de facto, relativamente estável e vantajoso. Mas para grande parte do mundo, da América Central e do Sul, ao Médio Oriente, passando por África e partes da Ásia, esse sistema esteve longe de ser percebido como verdadeiramente multilateral. Na verdade, esse sistema nunca foi plenamente multilateral. Foi antes um sistema de múltiplas vozes surgidas da descolonização, onde o chamado Movimento dos Países Não Alinhados procurou abrir um espaço autónomo entre os dois grandes blocos. (...)

sábado, 13 de junho de 2026

Empobrecer a trabalhar

imagem retirada da internet
Em Portugal a receita surge, invariavelmente, embrulhada no estafado e bafiento discurso neoliberal: é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, reduzir direitos, facilitar despedimentos e enfraquecer a contratação coletiva. Os trabalhadores são apresentados como um obstáculo ao crescimento, os seus direitos como privilégios e a legislação laboral como um entrave à modernização do país e ao aumento da produtividade.

A realidade, porém, conta-nos uma história bem diferente.

Portugal é um dos países da União Europeia onde o trabalho é mais mal pago, onde a precariedade se tornou em norma para centenas de milhares de pessoas e onde muitos trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas completas, continuam a viver na pobreza ou no seu limiar.

Foi em nome da competitividade que se cortaram salários. Foi em nome da modernização que se reduziram indemnizações por despedimento. Foi em nome da criação de emprego que se generalizaram vínculos precários, falsos recibos verdes, horários desregulados e formas cada vez mais sofisticadas de exploração laboral. O resultado está à vista: mais desigualdade, mais insegurança e uma crescente dificuldade em construir projetos de vida.

É neste contexto que o atual Governo, apoiado pela direita neoliberal e pela extrema-direita, procura avançar com novas alterações ao Código do Trabalho. Não se trata de uma simples revisão técnica da legislação laboral. Trata-se de mais um passo num longo processo de transferência de poder do trabalho para o capital.

Facilitar despedimentos, enfraquecer a contratação coletiva, recuperar mecanismos como o banco de horas individual ou criar formas de flexibilização laboral significa aumentar a dependência dos trabalhadores perante as empresas e reduzir a sua capacidade de resistência e negociação. Significa transformar o emprego estável em exceção e a precariedade em regra.

A ofensiva é tanto mais reveladora quanto surge num momento em que os trabalhadores enfrentam uma das mais profundas crises de poder de compra das últimas décadas. Os preços da habitação atingem níveis incomportáveis, os custos da alimentação continuam elevados e os serviços públicos sofrem um processo de degradação que empurra cada vez mais pessoas para soluções privadas. Enquanto isso, a riqueza concentra-se, os lucros crescem escandalosamente e os trabalhadores empobrecem a trabalhar.

imagem retirada da internet

A oposição dos trabalhadores às propostas governamentais foi clara e inequívoca, como se verificou pela adesão à(s) Greve(s) Geral(ais). A Concertação Social não produziu qualquer consenso. Mesmo alguns setores empresariais manifestaram reservas. Mas o Governo insiste. E insiste porque estas medidas não respondem às necessidades do país; respondem aos interesses de quem vê nos direitos laborais um obstáculo à maximização do lucro.

Existe ainda uma dimensão frequentemente ignorada neste debate. Muitas das alterações pretendidas chocam frontalmente com princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa. Por isso, o que está em causa ultrapassa largamente a discussão sobre alguns artigos do Código do Trabalho. O que está em causa é a própria natureza do contrato social construído em democracia. A direita económica sabe-o. Por isso procura, passo a passo, limitar direitos conquistados, enfraquecer organizações sindicais e transformar a força de trabalho numa mercadoria cada vez mais barata e descartável.

Ponta Delgada, 8 de junho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de junho de 2026

velhas receitas

imagem retirada da internet

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) Em Portugal a receita surge, invariavelmente, embrulhada no estafado e bafiento discurso neoliberal: é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, reduzir direitos, facilitar despedimentos e enfraquecer a contratação coletiva. Os trabalhadores são apresentados como um obstáculo ao crescimento, os seus direitos como privilégios e a legislação laboral como um entrave à modernização do país e ao aumento da produtividade.

A realidade, porém, conta-nos uma história bem diferente.

Portugal é um dos países da União Europeia onde o trabalho é mais mal pago, onde a precariedade se tornou em norma para centenas de milhares de pessoas e onde muitos trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas completas, continuam a viver na pobreza ou no seu limiar. (...)


terça-feira, 2 de junho de 2026

nevoeiros

imagem retirada da internet
No espaço de uma semana os Açores experienciaram condições meteorológicas, que não sendo uma novidade, prolongaram-se no tempo e provocaram cancelamentos de voos interilhas e nas ligações com o exterior. Foram centenas de voos cancelados e milhares de passageiros afetados. Não sendo uma novidade foi, contudo, uma situação excecional e as respostas insuficientes, pela carência de alojamentos e as recusas dos transportes e hoteleiros em aceitarem os “vouchers” das transportadoras aéreas. Transportadoras sim. Se é verdade que a maioria dos passageiros afetados era, naturalmente, da SATA (Air Açores e Azores Airlines) não é menos verdade que os passageiros eram também da TAP e de algumas transportadoras aéreas estrangeiras que voam para os Açores.

Também fui afetado. No dia 22 de maio não consegui viajar de S. Miguel para a Terceira tendo como consequência o adiamento do trabalho que vinha realizar, dia 23 de maio, para o dia 30. Cheguei à Terceira no dia 28 (não havia lugares disponíveis a 29) e ainda por aqui estou na expetativa de regressar a S. Miguel amanhã (dia 3 de junho) pelas 6h40mn. Por acaso, ou não dia 3 de junho, é dia de greve geral e, por conseguinte, corro o risco, se este voo não pertencer à escala dos serviços mínimos e ter de prolongar a minha estadia na ilha Terceira.

Como eu estarão muitos outros passageiros na mesma situação, embora aposentado também tenho compromissos, mas em bom rigor quem vive nos Açores sabe que adiamentos, cancelamentos e reformulação de planificações fazem parte desta coisa a que chamamos, para o bem e para o mal, “o viver insular”.

imagem retirada da internet
Os inconvenientes para os passageiros são elevados, os custos para as transportadoras aéreas também. E é por isso que não é aceitável que os ativistas de sofá e os “experts” se tenham atirado à SATA como “sete cães a um osso” manifestando o seu ódio de estimação por uma empresa que é de todos nós e que nos presta um serviço que nenhuma outra fará. As respostas da SATA poderão, em algumas situações, não ter sido as melhores. Ninguém está isento de erros, mas a dimensão das ocorrências foi, repito, excecional e, quando assim é, os planos de contingência têm eficácia limitada. Um pouco mais de bom senso, e menos de senso comum, talvez seja o mais avisado em situações como a que se verificou nas últimas semanas.

Apenas mais duas notas finais. 

A primeira sobre os putativos entendidos em aviação e gestão aeronáutica que, em momentos como este brotam como cogumelos no Outono e infetam as redes sociais com opiniões infundadas, criam suspeições e atribuem responsabilidades a quem as não tem. Moderem-se para não passarem pelo ridículo de verem as vossas opiniões estraçalhadas por quem, com a autoridade do conhecimento, as comenta.

A segunda para o setor do Turismo. Sendo uma situação excecional é, no entanto, um aviso para que a tal reflexão que se vem a adiar seja feita. O modelo de oferta turística que tem vindo a ser implementado nos Açores talvez não seja o mais adequado para um destino com estas caraterísticas. E ainda não chegaram os nevoeiros de S. João, a não ser que o “El Niño” tenha antecipado um mês a sua chegada.

Angra do Heroísmo, 2 de junho de 2026 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Batool Abu Akleen - a abrir junho

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Batool Abu Akleen é uma das vozes mais significativas da nova geração de escritores palestinianos. Nascida em Gaza, começou a escrever poesia ainda criança e ganhou reconhecimento internacional muito jovem, transformando a palavra poética num testemunho da vida sob ocupação, guerra e deslocação. A sua obra, escrita em árabe e também traduzida por si para inglês, tem sido publicada em revistas e antologias internacionais, destacando-se pela capacidade de unir a experiência íntima da dor à dimensão coletiva da resistência do povo palestiniano.

A sua obra tornou-se uma forma de resistência cultural e de denúncia internacional, contribuindo para sensibilizar leitores de diferentes países para a realidade vivida pelos palestinianos. O reconhecimento obtido em prémios literários internacionais e a publicação da sua coletânea 48Kg reforçaram o seu papel como uma das mais relevantes vozes literárias palestinianas da atualidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Desafios Autonómicos

Há cinquenta anos, a palavra autonomia deixou de ser apenas murmúrio histórico, desejo disperso entre elites económicas, políticas, intelectuais e, ainda que sem grande significado, no abandonado povo ilhéu cuja luta era mais de subsistência. Há cinquenta anos as aspirações autonómicas ganharam corpo constitucional e iniciou-se o caminho do autogoverno. A conquista da autonomia regional não surgiu do acaso nem da generosidade súbita do poder central. Nasceu de uma conjugação rara entre a abertura democrática do 25 de Abril, a pressão social e política nos Açores e a consciência de que governar ilhas a partir da distância administrativa e mental de Lisboa era persistir num equívoco histórico.

Durante décadas a insularidade foi tratada mais como uma fatalidade útil, do que como condição específica exigindo respostas próprias. O centralismo do Estado Novo olhava para as ilhas com paternalismo burocrático, raramente reconhecendo a singularidade económica, social e cultural do arquipélago.

A autonomia constitucional de 1976 alterou profundamente essa relação. Pela primeira vez, os açorianos conquistaram instrumentos efetivos de autogoverno democrático e uma dimensão muito para além de uma mera mudança administrativa. Representou a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, com maior conhecimento da realidade concreta das ilhas, das suas fragilidades e potencialidades.

Os resultados são visíveis. A autonomia permitiu modernizar infraestruturas, expandir o acesso à educação e à saúde, melhorar transportes, criar instrumentos de apoio social e afirmar uma presença política própria no contexto nacional e europeu. Permitiu também consolidar uma identidade açoriana aberta, plural e integrada na República, desmontando receios antigos que confundiam autonomia com separatismo.

Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente.

A autonomia trouxe capacidade de decisão, mas persistem dependências excessivas do exterior, fragilidades produtivas, desigualdades sociais, pobreza e um preocupante envelhecimento demográfico agravado pela emigração de jovens qualificados. Em algumas ilhas, sente-se o risco silencioso da desertificação humana.

Os próximos anos exigirão mais do que a simples celebração simbólica da autonomia. Os Açores terão de pensar um novo equilíbrio entre desenvolvimento económico e preservação ambiental; entre turismo e sustentabilidade; entre modernização e coesão social; entre abertura ao mundo e defesa da sua singularidade cultural.

O maior desafio talvez seja este: impedir que a autonomia se transforme apenas numa estrutura administrativa habituada a gerir dependências. Porque a autonomia, no seu sentido mais profundo, não se resume à governação de rotinas para perpetuação no poder. É possuir capacidade coletiva para imaginar futuro.


Ponta Delgada, 25 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

da autonomia

foto de Aníbal C. Pires




Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente. (...)


quarta-feira, 13 de maio de 2026

duas Europas

imagem retirada da internet
A União Europeia (UE) celebra-se a si própria envolta numa narrativa de paz, integração e democracia, a cada 9 de maio. Estrelas douradas em fundo azul, num espaço onde o discurso da paz convive, cada vez mais, com a lógica do rearmamento, se cerceiam liberdades e onde a qualidade da democracia é, direi, duvidosa. A 9 de maio celebra-se a chamada “ideia europeia”, nascida da Declaração Schuman de 1950, apresentada como resposta civilizacional às ruínas da guerra. Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi.

imagem retirada da internet

Durante décadas, porém, o Ocidente construiu uma narrativa da Segunda Guerra Mundial cada vez mais centrada em si próprio. O desembarque da Normandia tornou-se o grande símbolo cinematográfico e político da libertação da Europa, enquanto o contributo soviético foi sendo remetido para um plano secundário ou tratado com desconforto ideológico. A Guerra Fria ajudou a consolidar essa leitura. Tornava-se difícil reconhecer plenamente o papel histórico da URSS ao mesmo tempo que ela era apresentada como principal inimigo do mundo ocidental.


Após o colapso da URSS, a questão tornou-se ainda mais complexa e foi-se consolidando o apagamento da memória e a reescrita da história numa tentativa de distorcer o essencial, ou seja, sem o sacrifício dos povos soviéticos, a derrota do nazismo teria sido incomparavelmente mais difícil e certamente se prolongaria mais no tempo.

A UE prefere hoje construir a sua legitimidade histórica a partir da reconciliação franco-alemã, da integração económica e dos valores liberais do pós-guerra. É uma escolha política que na prática se traduz no empobrecimento da memória quando a história é reduzida ao que convém ao presente. A Europa institucional celebra-se a si própria enquanto se afasta da memória concreta daqueles que pagaram o preço mais elevado para derrotar o Terceiro Reich.

A Federação Russa celebra o legado da União Soviética e utiliza-o para que a memória não seja apagada e a história reescrita, contrariando a relativização ou mesmo o silenciamento do papel da URSS, pela UE, na derrota da barbárie nazifascista. Como se o presente pudesse reescrever retroativamente o passado. A história exige mais rigor do que alinhamentos conjunturais. Não é necessário glorificar o sistema político da União Soviética para reconhecer a dimensão decisiva do Exército Vermelho na derrota do fascismo europeu. 

No fundo, o 9 de maio revela duas Europas: a que se celebra a si própria e a que foi construída sobre milhões de mortos que, pouco a pouco, parecem desaparecer na memória oficial no Ocidente.

Ponta Delgada, 11 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de maio de 2026

terça-feira, 12 de maio de 2026

coincidências!? ou não.

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi. (...)