sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A inevitabilidade de Bolieiro

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Há declarações que se tornam particularmente reveladoras pelo lugar e pelo momento em que são proferidas. Foi o que aconteceu com as palavras do presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, num encontro “Fora da Caixa” integrado na programação de Ponta Delgada -Capital Portuguesa da Cultura 2026, subordinado ao tema “Quando a Cultura Gera Valor”.

Falava-se de cultura. Da sua capacidade para criar valor, conhecimento, identidade, pensamento, desenvolvimento. Seria natural que se discutisse o papel da criação artística, da ciência, da memória, do património, da educação ou da capacidade dos territórios para produzirem pensamento e desenharem o futuro.

Eis senão quando Bolieiro decidiu falar de Segurança e Defesa. E foi mais longe: apelou ao Governo da República para que encarasse os Açores como uma “oportunidade” para investimentos na área, enquadrados nos compromissos de Portugal com a NATO e a União Europeia, considerando-os uma “inevitabilidade no curto prazo”. Inevitabilidade, uma palavra que merece particular atenção.

A posição geográfica dos Açores é um facto. A sua importância estratégica no Atlântico também. Mas a transformação dessa centralidade em plataforma de investimento militar é uma escolha política, não uma fatalidade geográfica, nem uma inevitabilidade.

E há algo de profundamente anacrónico em apresentar a Região, num encontro dedicado à cultura e ao seu potencial para gerar valor, como uma oportunidade para investimentos ligados à indústria da guerra. Como se, quando chega o momento de pensar o futuro dos Açores, a primeira pergunta continuasse a ser para que podem as ilhas servir, e não para aquilo que a Região quer para si própria.

Desde logo porque segurança não é sinónimo de defesa. Portugal tem compromissos internacionais e a defesa do território é uma responsabilidade do Estado, mas reduzir a segurança à dimensão militar é adotar uma visão redutora, diria mesmo perigosa, e, particularmente inadequada para um território insular como os Açores.

Segurança é, sobretudo, energia, alimentação, saúde, transportes, comunicações, água, habitação, proteção civil, ciência e capacidade de resposta perante uma crise.

É garantir que, perante um sismo, uma erupção vulcânica, uma rutura das ligações marítimas ou aéreas, uma falha energética ou dos cabos submarinos, a Região consegue continuar a funcionar.

Os Açores são um território particularmente vulnerável. Nove ilhas, sistemas energéticos isolados, forte dependência do exterior e grande distância dos centros de decisão. Se o Presidente do Governo Regional quer falar, com seriedade, de segurança, é por aqui que deveria começar.

Investir na autonomia energética, proteger os cabos submarinos, reforçar os serviços públicos, desenvolver a ciência e o conhecimento do mar, melhorar as comunicações e a capacidade de emergência, isso sim, é investir em segurança.

É esta segurança, diretamente ligada à vida das populações, que os Açores e o seu povo tanto necessitam, e não a transformação do arquipélago numa plataforma militar apresentada como inevitável. Veja-se o uso e subsequente abandono da Base das Lajes pelas Forças Armadas estado-unidenses e todos os problemas sociais, económicos e ambientais que ficaram para trás.

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Bolieiro fala dos Açores como uma “oportunidade” para o país. A expressão é reveladora. Oportunidade para quem? Para Portugal? Para a NATO? Para a União Europeia? Para os grandes interesses económicos que acompanham os investimentos estratégicos? Ou para os açorianos?

Os Açores não são apenas uma posição no mapa atlântico. São um território habitado. São pessoas, comunidades, escolas, hospitais, agricultores, pescadores, trabalhadores, crianças e jovens. São cultura, memória e identidade.

A sua importância estratégica deve poder traduzir-se em melhores condições de vida para quem aqui vive, e não apenas em maior utilidade para quem olha para as ilhas a partir de Lisboa, Bruxelas ou Washington.

E quando se fala em “infraestruturas de duplo uso”, a questão deveria ser simples: duplo uso para quem? Uma infraestrutura financiada pelo erário público deve produzir benefícios permanentes para a população, mesmo quando desaparece a sua função militar. Veja-se o caso das Lajes.

Porque investimento não é necessariamente desenvolvimento. Uma obra pode movimentar milhões, gerar contratos e lucros e deixar pouco mais na Região do que a própria infraestrutura.

E a vulnerabilidade? Esta é uma questão que não é despicienda. Quanto mais infraestruturas dos Açores forem integradas em sistemas militares estratégicos, maior poderá ser a sua relevância num eventual conflito internacional. Não significa que a Região se torne necessariamente um alvo, mas é uma irresponsabilidade falar de militarização sem considerar essa possibilidade.

Os Açores precisam de investimento, mas precisam sobretudo de investimento que reduza as suas vulnerabilidades e aumente a sua capacidade de decidir o próprio futuro.

imagem retirada da internet - "os emigrantes", Domingos Rebelo
Precisam de energia menos dependente do exterior, de transportes mais seguros, de comunicações protegidas, de ciência, de serviços públicos, de habitação, de emprego qualificado, de conhecimento e de cultura. E é precisamente por isso que as palavras de Bolieiro, naquele contexto, soam tão deslocadas.

Uma Capital Portuguesa da Cultura deveria ser também uma oportunidade para pensar os Açores para além daquilo que deles esperam os outros e Bolieiro, ao que parece, não quis, ou não soube aproveitar essa oportunidade.

A geografia é uma condição, não é um destino. A questão não deveria ser apenas quanto valem os Açores para Portugal, para a NATO ou para a União Europeia. A questão deve ser: O que é melhor para os Açores e para o seu povo?

Essa é a pergunta que o pensamento e a cultura permitem (devem) fazer quando o poder nos diz que alguma coisa é inevitável. Porque uma sociedade que deixa de questionar as inevitabilidades que lhe são apresentadas já começou, de algum modo, a abdicar de escolher e construir o seu futuro.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 8 de outubro de 2026


terça-feira, 6 de outubro de 2026

Mais, muito mais, do que a Ryanair

As manchetes nas últimas semanas centraram-se no decréscimo da procura turística do destino Açores. Para além de outras houve uma que provocou este escrito. O título era: “menos 100 mil passageiros nos aeroportos dos Açores e de menos 70 mil dormidas nos alojamentos turísticos, desde a saída da Ryanair”. 

A leitura parece imediata: saiu a Ryanair, e o turismo caiu a pique. E, em parte, é verdade; a diminuição do número de passageiros e a consequente baixa nas dormidas deve-se, em parte, ao abandono daas rotas açorianas por aquela transportadora aérea de baixo custo., aliás seria um absurdo negar o impacto que a saída de uma companhia que durante uma década assegurou ligações de baixo custo entre São Miguel, Terceira, Lisboa e Porto teria no movimento turístico da Região. Entre abril e agosto de 2026 desembarcaram nos aeroportos açorianos menos 103.766 passageiros do que no mesmo período de 2025.

Mas uma coisa é reconhecer esse impacto; outra, bem diferente, é transformar o abandono das rotas açorianas pela Ryanair na explicação para a diminuição da procura do destino Açores.

Há um pequeno pormenor que talvez merecesse mais atenção: a quebra das dormidas começou em outubro de 2025, vários meses antes de a Ryanair abandonar os Açores. Em julho, registou-se a décima redução homóloga consecutiva. E, entre abril e julho, os alojamentos turísticos contabilizaram menos 71.627 dormidas, sendo que 62 mil dessa redução correspondem a turistas residentes nacionais.

Ou seja, a saída da Ryanair agravou uma tendência que já vinha de trás. Não a criou.

Também por isso me parece excessivamente linear estabelecer uma relação direta entre a diminuição do turismo açoriano e o aumento do turismo na Madeira. É possível constatar que os dois destinos tiveram evoluções diferentes, mas daí a concluir que os turistas que deixaram de vir aos Açores passaram a escolher a Madeira vai uma distância que os dados disponíveis não permitem, de todo, justificar.

Há outras razões que não podem ser ignoradas. Vivemos num contexto internacional marcado pelo aumento dos custos da energia, pela inflação e pelo encarecimento do dinheiro, com efeitos sobre o rendimento disponível das famílias. E, quando viajar deixa de ser uma prioridade para uma parte dos potenciais viajantes, os destinos com as caraterísticas dos Açores são os primeiros a sentir essa retração.

Mas há também uma pergunta que devemos fazer sobre nós próprios. Quanto custa hoje passar férias nos Açores?

Ao preço da viagem aérea juntam-se o alojamento, a restauração, o aluguer de automóvel e as restantes despesas associadas à estadia. Um destino insular, periférico e dependente do transporte aéreo não pode ignorar o preço global que apresenta ao visitante, e como todos sabemos o alojamento, a restauração e o aluguer de viaturas têm vindo a encarecer, de forma significativa, o destino Açores.

Os números de julho são, a este propósito, reveladores: as dormidas diminuíram 2,2%, mas a quebra foi de 7,8% entre os turistas nacionais, enquanto entre os estrangeiros foi de apenas 0,9%. E, apesar da diminuição das dormidas, a hotelaria aumentou as receitas.

Talvez seja, pois, tempo de deixarmos de discutir o turismo apenas em função do número de turistas que chegam aos Açores, aliás sempre me pareceu um critério redutor e, sobretudo, perigoso para a competitividade e sustentabilidade do destino. Mais turistas não significam necessariamente mais riqueza, mais desenvolvimento ou maior benefício para as populações.

Os empresários têm razão quando alertam para as consequências da saída da Ryanair. Têm também razão quando questionam a capacidade do Governo Regional para encontrar alternativas. Mas as respostas, ou exigências, não podem resumir-se ao retorno de transportes aéreos de baixo custo, ou ao já criado Fundo de Desenvolvimento de Rotas Aéreas, ou ainda ao substancial reforço da dotação pública para a promoção do destino, que deverá atingir 17,2 milhões de euros em 2027.

Se a discussão continuar dentro destes parâmetros continuamos a evitar a questão central.

Porque não estimular operadores turísticos açorianos com dimensão suficiente para negociar, de forma integrada, com companhias aéreas a realização de voos charter e, com a hotelaria, o alojamento local, a restauração, as empresas de animação turística e de aluguer de automóveis, a criação de pacotes turísticos?

Tudo devidamente calendarizado e dirigido a segmentos específicos da procura, de modo a garantir maior constância dos fluxos e a mitigar a sazonalidade.

Não substitui a Ryanair. Mas poderia diminuir a dependência de decisões tomadas fora da Região e criar capacidade própria para responder às oscilações do mercado.

A questão é, afinal, mais profunda do que a saída de uma companhia aérea. É saber se queremos continuar a medir o sucesso turístico apenas pelo número de passageiros e de dormidas ou se queremos discutir que turismo serve os Açores, quanto valor fica na Região e que instrumentos temos para decidir sobre o nosso próprio desenvolvimento.

A Ryanair partiu. É um problema. Mas se a partida de uma companhia aérea é apresentada, segundo alguns especialistas, como suficiente para pôr em causa o modelo turístico açoriano, talvez o problema não esteja apenas no que abandonou. Talvez esteja, também, na excessiva dependência de quem ficou.

É frequente ouvirmos defender a afetação de meios financeiros públicos (regionais e nacionais) para apoiar a operação de uma, ou mais, transportadoras de baixo custo, mas reclama e revolta-se se for necessário financiar a transportadora aérea regional, no caso a Azores Airlines.

É uma lógica que tenho dificuldade em compreender: aceita-se que o dinheiro público apoie empresas privadas, incluindo transportadoras de baixo custo que podem abandonar a Região quando deixam de considerar rentáveis as suas operações, mas contesta-se que esse mesmo dinheiro público seja utilizado para garantir a existência de uma transportadora regional, cuja função não pode ser medida apenas pelos critérios de rentabilidade imediata. Talvez esteja na altura de discutirmos, com menos preconceitos e mais sentido de Região, para que serve afinal o dinheiro público e que interesses deve ele defender.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 5 de outubro de 2026


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

mulheres palestinianas - a abrir outubro

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As mulheres palestinianas enfrentam diariamente uma luta extrema pela sobrevivência, entre bombardeamentos, fome, deslocamento forçado e falta de cuidados de saúde. Em Gaza, muitas perderam familiares, casas e meios de subsistência, procurando, apesar de tudo, proteger os filhos e garantir-lhes o mínimo indispensável à vida.

Mas a sua luta é também uma forma de resistência. Perante a destruição e o luto, persistem na defesa da dignidade, da família e da identidade do seu povo. Sobreviver é, para estas mulheres, resistir ao apagamento e afirmar o direito à vida, à liberdade e a um futuro em paz.

perfídia

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Não tenho por Nicolás Maduro nenhuma simpatia especial, penso que já o terei escrito algures por aí. Diria mesmo que, ao longo dos anos, Maduro se afastou do legado político de Hugo Chávez, não apenas por não ter o carisma do seu antecessor, mas também pela incapacidade de responder às contradições que foram corroendo o processo revolucionário bolivariano.


Mas isso não é nem pode ser impeditivo de questionar o que aconteceu na Venezuela. O rapto de Maduro e de Cilia Flores continua a levantar questões que dificilmente podem ser ignoradas. Não está factualmente demonstrada a existência de uma colaboração interna que tenha facilitado a operação. Mas as circunstâncias em que aconteceu e a rapidez com que, depois do sequestro, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina, a sua aproximação aos Estados Unidos, e, mais recentemente, o que foi dito e o que não foi dito e deveria ter sido na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), tornam inevitável que as antigas incertezas se transformem em dúvidas com sustentação política. No seu discurso perante a AGNU Delcy Rodríguez nem uma só vez se referiu ao sequestro de Maduro e Cilia e não manifestou, por palavras ou atitudes, nenhuma reação ao que Trump regurgitou sobre a Venezuela, e foi grave.

A pergunta não é apenas quem traiu quem, isso seria redutor. É perceber se, no interior do próprio aparelho de poder venezuelano, já se encontrava em preparação uma saída para Maduro e uma nova relação com Washington.

A Venezuela está a abrir sectores fundamentais da sua economia ao investimento estrangeiro, particularmente no petróleo, enquanto Washington assume uma influência direta sobre esse investimento. Em agosto, Trump anunciou um acordo que atribui aos Estados Unidos e às empresas privadas estado-unidenses um papel determinante no desenvolvimento das reservas petrolíferas venezuelanas, mas também na mineração de metais raros e preciosos.

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A Revolução Bolivariana confrontou o poder económico tradicional, recuperou para o Estado uma parte significativa dos proveitos da indústria petrolífera e utilizou-a em políticas sociais que transformaram a vida de milhões de venezuelanos. Mas não resolveu a contradição fundamental de uma economia dependente dos rendimentos da venda de petróleo. O poder económico não foi verdadeiramente submetido ao poder político, nem se diversificou a atividade económica produtiva.

Chávez nacionalizou, redistribuiu e enfrentou o neoliberalismo, mas não conseguiu construir uma economia capaz de ultrapassar a dependência do petróleo. Quando o preço do crude caiu, quando a produção se degradou e quando se agravaram os erros de política económica, as fragilidades do modelo tornaram-se evidentes.

Depois vieram as sanções estado-unidenses, que agravaram brutalmente uma economia já em crise. É importante não confundir as coisas: a crise venezuelana não começou com as sanções, mas as sanções também não podem ser tratadas como uma nota de rodapé. A própria política estado-unidense reconhece hoje a centralidade do petróleo na sua estratégia para a Venezuela.

Talvez seja cedo para escrever a história do que realmente aconteceu na Venezuela antes e depois do sequestro do seu presidente, mas parece óbvio que a revolução bolivariana terá de ser, de novo, protagonizada pelo povo venezuelano. Se assim não for, a mãozinha do neoliberalismo fará da pátria de Bolívar mais um departamento colonial dos Estados Unidos. 

Ponta Delgada, 28 de setembro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 30 de setembro de 2026

o dito e o não dito

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(..) Mas isso não é nem pode ser impeditivo de questionar o que aconteceu na Venezuela. O rapto de Maduro e de Cilia Flores continua a levantar questões que dificilmente podem ser ignoradas. Não está factualmente demonstrada a existência de uma colaboração interna que tenha facilitado a operação. Mas as circunstâncias em que aconteceu e a rapidez com que, depois do sequestro, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina, a sua aproximação aos Estados Unidos, e, mais recentemente, o que foi dito e o que não foi dito e deveria ter sido na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), tornam inevitável que as antigas incertezas se transformem em dúvidas com sustentação política. No seu discurso perante a AGNU Delcy Rodríguez nem uma só vez se referiu ao sequestro de Maduro e Cilia e não manifestou, por palavras ou atitudes, nenhuma reação ao que Trump regurgitou sobre a Venezuela, e foi grave. (...)


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

aritmética parlamentar

Se o atual Governo Regional é, como já escrevi nesta coluna, o pior dos governos da história autonómica, seria confortável concluir que a alternativa está aí ao virar da esquina. Mas não está. E este é, talvez, um dos paradoxos mais interessantes e preocupantes da atual situação política regional: temos um Governo que decide à vista e uma oposição que não consegue afirmar-se como alternativa.

Não afirmo que o atual PS seja necessariamente pior do que os anteriores. Seria demasiado fácil transformar uma análise política numa disputa entre dirigentes e gerações partidárias. O problema é outro: a sua intervenção política não parece encontrar eco significativo na sociedade açoriana. E isso é particularmente curioso quando tem pela frente um Governo sem projeto político claro e ferido pelas divergências que resultam da solução tripartida.

Mas não quero, nem vou, reduzir esta reflexão ao atual Governo e ao PS. Fazê-lo seria alimentar a ideia de que a política açoriana se resume a uma disputa bipolar pelo poder. E a democracia não se enriquece quando se limita a escolher entre dois protagonistas.

Quando olhamos para as bancadas do Parlamento Regional, percebemos que falta a força política capaz de apresentar um projeto consistente e sustentável para o futuro dos Açores e dos açorianos. Um projeto que aposte no aumento da produção regional e na dinamização do mercado interno, reduzindo a crónica dependência externa; que defenda o aumento dos rendimentos do trabalho e não faça do assistencialismo a resposta para problemas estruturais.

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Veja-se a proposta de Francisco César sobre a habitação para estudantes deslocados. Propõe um complemento financeiro para aliviar uma dificuldade imediata, mas não resolve o problema da falta de habitação. A oferta pública de habitação continua ausente do discurso daqueles que, em nome de um liberalismo mais ou menos assumido, parecem considerar o mercado uma espécie de território interdito à intervenção pública.

Entretanto, o eleitorado açoriano, como acontece noutras geografias, oscila entre a abstenção, a concentração do voto nos partidos do centro e a atração por discursos populistas alimentados pelo senso comum produzido para as redes sociais.

Para 2028, ao que parece, não haverá nova coligação tripartida. Existem diferenças políticas, ambições partidárias e eleitorados distintos. E existe, sobretudo, uma coisa que nenhuma aritmética parlamentar consegue eliminar: o desgaste do exercício do poder.

Da aritmética parlamentar pode nascer um Governo. Pode mantê-lo vivo durante uma legislatura e permitir a aprovação de orçamentos. Mas não consegue fabricar uma relação de confiança com a sociedade.

A autonomia não pode reduzir-se à distribuição de lugares, à geometria dos acordos ou à sobrevivência de maiorias construídas à medida de cada votação.

Aníbal C. Pires por Madalena Ferreira Pires
Tenho evitado, nos últimos tempos, escrever sobre política regional. Não acompanho de perto, como acompanhei noutros tempos, a ação governativa, a atividade partidária ou o debate parlamentar. Digamos que o meu tempo passou. Talvez não seja mau reconhecê-lo. Mas não passou o tempo da minha preocupação com os Açores.

Continuo a olhar para a Região com a inquietação de quem sabe que a autonomia foi uma conquista do 25 de Abril e não apenas uma construção institucional. E é precisamente por isso que me inquieta ver a política regional reduzida, demasiadas vezes, à contabilidade dos deputados, à geometria dos acordos e à aritmética das sobrevivências.

Ponta Delgada, 14 de setembro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 16 de setembro de 2026

terça-feira, 15 de setembro de 2026

paradoxos

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) Não afirmo que o atual PS seja necessariamente pior do que os anteriores. Seria demasiado fácil transformar uma análise política numa disputa entre dirigentes e gerações partidárias. O problema é outro: a sua intervenção política não parece encontrar eco significativo na sociedade açoriana. E isso é particularmente curioso quando tem pela frente um Governo sem projeto político claro e ferido pelas divergências que resultam da solução tripartida.

Mas não quero, nem vou, reduzir esta reflexão ao atual Governo e ao PS. Fazê-lo seria alimentar a ideia de que a política açoriana se resume a uma disputa bipolar pelo poder. E a democracia não se enriquece quando se limita a escolher entre dois protagonistas. (...)


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

a FESTA és tu. a FESTA somos nós.

As portas da Festa do Avante! abrem hoje para dar início àquele que é, há 50 anos, o maior acontecimento cultural e político realizado de forma ininterrupta em Portugal.

Este ano, a Festa assume uma dimensão ainda mais especial: são 50 anos de Festa, 50 anos de cultura, música, debate, solidariedade, fraternidade e intervenção. Cinco décadas em que gerações de mulheres e homens fizeram da Festa um espaço de encontro, de liberdade e de construção coletiva.


Uma programação que faz jus à história e à importância de uma Festa que é de todos e para todos. Uma Festa que se reinventa sem perder a sua identidade e que continua a afirmar que a cultura também é uma forma de resistência, de participação e de transformação.


Sim! A Festa és tu. A Festa somos nós.


A programação pode ser consultada aqui.


O fim de um mundo

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Há sinais de que o mundo que conhecemos está a mudar. Talvez ainda seja cedo para falar no colapso daquilo a que, durante décadas, chamámos civilização ocidental, mas são cada vez mais visíveis as fraturas de uma ordem política, económica e cultural que se julgou durante demasiado tempo definitiva. Se preferirmos a expressão Norte Global, poderemos dizer que a sua hegemonia está a ser questionada por uma realidade internacional que já não aceita com a mesma facilidade a distribuição do poder que resultou do pós-Segunda Guerra Mundial.

A emergência de novos blocos económicos e políticos, a crescente afirmação da China, da Rússia e de outros países do chamado Sul Global, bem como os processos de emancipação que atravessam algumas das antigas colónias francesas em África, estão a alterar a geografia do poder. Estes factos significam apenas que o mundo está a deixar de ser unipolar e que essa transformação incomoda aqueles que se habituaram a determinar as regras.

A guerra na Ucrânia é um dos exemplos dessa mudança. Uma guerra que não começou em fevereiro de 2022 e cuja compreensão não pode ficar reduzida à narrativa simplista do invasor malévolo e da vítima. A História é mais complexa do que as versões que nos são diariamente oferecidas.

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O mesmo poderíamos dizer da Palestina, do Irão, do Sudão ou do Congo. São territórios onde se cruzam interesses económicos, estratégicos e geopolíticos e onde a vida humana parece ter um valor diferente consoante a identidade das vítimas e os interesses de quem observa. A Palestina é talvez o exemplo mais brutal dessa realidade: décadas de ocupação, violência, espoliação e genocídio continuam a ser apresentadas por grande parte do chamado Ocidente através de uma linguagem que frequentemente transforma a vítima em ameaça e a violência contra ela em inevitabilidade.

Mas a crise da ordem ocidental não se manifesta apenas na política externa. Manifesta-se também dentro das próprias sociedades. O crescimento da extrema-direita e de formas renovadas de autoritarismo é disso expressão. Em vários países europeus e americanos (a Norte e a Sul), discursos nacionalistas, xenófobos e ultraconservadores conquistam espaço político e social. Em alguns casos, encontram terreno fértil em setores de movimentos religiosos que oferecem respostas simples para problemas complexos, substituindo a esperança material por uma promessa de salvação.

Há, porém, uma outra batalha, menos visível, que merece atenção: a batalha pelo pensamento. Uma escola cada vez mais submetida à compartimentação dos saberes, à avaliação permanente e à redução do conhecimento à sua utilidade imediata corre o risco de perder uma das suas funções fundamentais: ensinar a pensar. E uma sociedade que deixa de pensar criticamente torna-se mais vulnerável à manipulação.

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As redes sociais agravaram esta realidade. Prometeram democratizar a informação, os algoritmos não foram concebidos para formar cidadãos, mas para captar a atenção. 

A estas evidências acresce ainda o revisionismo histórico, que distorce a realidade, oblitera factos e branqueia acontecimentos. 

Tudo isto encaminha a humanidade para um futuro difícil de prever. O que vier depois dependerá, em grande medida, da capacidade dos povos para recusarem hegemonias, sejam elas antigas ou emergentes, e para construírem uma nova ordem internacional assente na soberania, na cooperação, na justiça e na paz.

Uma coisa é certa, estamos a aproximar-nos do fim de um mundo.

Ponta Delgada, 31 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 2 de setembro de 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

a batalha pelo pensamento

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) Há, porém, uma outra batalha, menos visível, que merece atenção: a batalha pelo pensamento. Uma escola cada vez mais submetida à compartimentação dos saberes, à avaliação permanente e à redução do conhecimento à sua utilidade imediata corre o risco de perder uma das suas funções fundamentais: ensinar a pensar. E uma sociedade que deixa de pensar criticamente torna-se mais vulnerável à manipulação.

As redes sociais agravaram esta realidade. Prometeram democratizar a informação, os algoritmos não foram concebidos para formar cidadãos, mas para captar a atenção. 

A estas evidências acresce ainda o revisionismo histórico, que distorce a realidade, oblitera factos e branqueia acontecimentos. (...)