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Para quem ainda as tinha, as dúvidas dissiparam-se com o último Mundial de Futebol. Sei que a abordagem a este assunto não é popular. Reconheço que o futebol é uma manifestação cultural e desportiva que mobiliza milhões de pessoas em todos os continentes, desperta paixões, alimenta identidades e proporciona momentos de alegria coletiva. Ainda assim, considero que este fenómeno, de inequívoca raiz popular, foi progressivamente capturado por interesses financeiros que o transformaram num dos maiores negócios do planeta.
A minha opinião é seguramente minoritária. Mas nunca a popularidade de uma ideia constituiu critério suficiente para a aceitar sem questionamento.
É impossível passar ao lado de um Mundial de Futebol. A informação chega-nos sem pedir licença, ocupa televisões, rádios, jornais e redes sociais, invade conversas de café e espaços de trabalho. Acompanhei, ainda que involuntariamente, as alegrias e as desilusões que a competição provocou. Mas o que verdadeiramente me impressionou não foram os resultados nem os golos. Foi a obscena comercialização que envolve este espetáculo e a crescente presença das empresas de apostas, hoje patrocinadoras de competições, clubes, transmissões televisivas e de programas desportivos.
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Há muito que o futebol deixou de ser apenas um desporto. Tornou-se uma indústria global onde quase tudo tem um preço: os jogadores, os treinadores, os clubes, os adeptos, os direitos televisivos, as apostas, os artigos promocionais, a publicidade, as emoções e, por vezes, até a própria integridade das competições. O que antes era pertença das comunidades foi transformado numa mercadoria altamente rentável.
As transferências atingem valores que desafiam qualquer racionalidade. Os salários de alguns equivalem ao rendimento de milhares de trabalhadores durante uma vida inteira. Fundos de investimento tratam jogadores como ativos financeiros. Clubes históricos são comprados por fundos soberanos, empresários ou grandes grupos económicos que pouco ou nada têm a ver com a história das instituições que adquirem. O futebol passou a integrar os circuitos da especulação financeira global. Mas talvez o aspeto mais perturbador seja outro. Milhões de pessoas aceitam esta realidade com uma naturalidade desconcertante. Indignam-se, e com razão, com o encerramento de serviços públicos, com a crise da habitação ou com salários insuficientes para chegar ao fim do mês, mas parecem suspender o espírito crítico quando entram no universo da financeirização do desporto.
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O futebol tornou-se um poderoso instrumento de produção de consensos. Alimenta a ilusão da competição justa enquanto reproduz, de forma quase caricatural, as desigualdades do mundo em que vivemos. Uma pequena elite concentra riqueza, poder e visibilidade; milhões de adeptos investem tempo, dinheiro e emoções num espetáculo cuja rentabilidade beneficia apenas os grandes grupos económicos, as plataformas de comunicação, os patrocinadores e os investidores.
Nada disto diminui a beleza de um passe bem executado, de um remate improvável ou da estratégia coletiva de uma equipa em campo. O problema nunca foi o jogo. O problema é o sistema que fez do jogo um produto financeiro e das emoções um negócio.
Talvez por isso o futebol contemporâneo seja uma das mais perfeitas metáforas do capitalismo atual: tudo pode ser comprado, vendido, promovido e rentabilizado. Até as emoções.
E quando uma sociedade considera tudo isto normal, então talvez o problema não seja apenas o futebol. Talvez, seja o mundo que fomos aceitando como inevitável.
Ponta Delgada, 21 de julho de 2026
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 22 de julho de 2026