domingo, 22 de fevereiro de 2026

a normalização da barbárie

imagem retirada da internet

A Palestina não é um lugar distante.

É um nome que arde no mapa e um corpo ferido no tempo.

Não é apenas Gaza, esse fragmento de mundo cercado por muros e números; é toda a terra palestiniana, atravessada por décadas de violência metódica. Uma violência que não grita apenas quando cai a bomba, mas que sussurra todos os dias, quando uma casa é tomada, uma oliveira arrancada, um nome apagado.

O que ali acontece não é excesso nem desvio. É um projeto colonial.

Como tantos outros na história, nasceu do gesto inaugural do colonialismo: ocupar, substituir, reescrever. Onde havia aldeias, erguem-se cidades coloniais; onde existia memória, instala-se a amnésia forçada. O mapa vai sendo cartografado como se a terra não tivesse já voz, como se os mortos não deixassem vestígios.

Durante demasiado tempo, o mundo escolheu não ver. A barbárie prolongada foi tratada como fundo de cenário, ruído distante, tragédia repetida até se tornar tolerável. Mesmo quando os olhos globais se voltaram para Gaza, foi por instantes breves, sob a ilusão de um cessar-fogo anunciado e nunca cumprido. Bastou que outras ameaças ocupassem o ecrã para que a Palestina regressasse ao lugar que o mundo lhe tem reservado: o da dor invisível.

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Mas nem tudo é silêncio. Há vozes que persistem, como pequenas fogueiras acesas na noite escura. A relatora especial das Nações Unidas, Francesca Albanese, tem recusado a linguagem neutra que absolve o crime. Há figuras públicas que, sabendo o custo da palavra, escolhem dizê-la, como Pepe Guardiola, Susan Sarandon, e fazem-no não como celebridades, mas como cidadãos que recusam o conforto do silêncio. Há ainda milhões de anónimos que marcham, escrevem, boicotam, lembram. A dignidade, por vezes, sobrevive assim: em gestos dispersos, mas obstinados.

Ainda assim, uma narrativa insiste em impor-se: a de que a Palestina é palco de um conflito religioso ancestral, insolúvel, quase mítico. Uma história conveniente, que transforma a ocupação em destino e a violência em desígnio divino. Segundo essa versão, um povo “eleito” reclamaria a terra como herança sagrada, da Palestina aos territórios limítrofes, invocando a promessa antiga da “terra prometida”.

Mas esta não é uma guerra de deuses.

É uma disputa de poder.

O sionismo não é fé, é ideologia. Não é religião, é programa político. E como todos os programas de supremacia, funda-se na ideia de que uns têm direito pleno à terra, à vida e à história, enquanto outros devem aceitar a condição de sobra, de obstáculo, de erro a corrigir. Não por acaso, muitos judeus, crentes e não crentes, recusaram e recusam este projeto, precisamente por reconhecerem nele uma traição ética à sua própria tradição e religião.

“Israel” não é um Estado judaico.

“Israel” é um Estado sionista.

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Confundir judaísmo com sionismo é um ato de violência simbólica. Serve para legitimar a ocupação e, ao mesmo tempo, para silenciar a dissidência judaica. Serve para chamar conflito ao que é dominação, segurança ao que é cerco, defesa ao que é massacre. Serve, sobretudo, para tornar aceitável o inaceitável.

E assim, entre palavras gastas e eufemismos bem polidos, o mundo vai aprendendo a conviver com o intolerável. A Palestina permanece ali, ferida e presente, como um espelho incómodo. Não pede piedade. Exige justiça. E enquanto essa exigência for tratada como excesso, o verdadeiro escândalo não será apenas o que acontece na Palestina, mas aquilo em que o mundo se transforma ao permitir que a barbárie seja um novo normal.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de fevereiro de 2026


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

humanidade à deriva

Francesca Albanese - imagem retirada da internet
Não é de hoje esta sensação, não é possível precisar quando, mas o mundo, tal como o lia e compreendia, deixou de fazer sentido. E não falo apenas de mudanças geopolíticas ou de ciclos históricos previsíveis, mas de algo mais profundo: uma inversão dos valores. A mentira ganhou estatuto de narrativa oficial, e a impunidade, antes camuflada, apresenta-se agora como norma. 

Um dos casos mais brutais desta deriva é o projeto colonial do estado sionista na Palestina, sustentado política, militar e moralmente pelo chamado mundo ocidental, esse mesmo que se proclama guardião dos direitos humanos. Em nome desses “valores”, legitima-se o genocídio do povo palestiniano, enquanto se tenta silenciar quem denuncia o inominável. A Relatora Especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, uma das vozes mais consequentes na denúncia da barbárie sionista, é agora alvo de sanções e pedidos de afastamento por países como França e Alemanha. Não se pune o crime contra a humanidade, tenta silenciar-se a mensageira.

Mas este não é um caso isolado. Há décadas que Cuba vive sob um embargo ilegal, condenado repetidamente pela comunidade internacional, mas mantido, com requintes de crueldade, pelos Estados Unidos. Hoje, a asfixia chega ao ponto de se tentar impedir o envio de petróleo para a ilha. Cuba, que exporta médicos e não bombas, que pratica a solidariedade como política externa, é tratada como ameaça. Não por aquilo que faz, mas pelo exemplo que representa: o de um país pequeno que insiste em viver fora da lógica do medo e da submissão e que não abdica da sua soberania.

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A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram.

imagem retirada da internet
A normalização do absurdo é aceite sem nos questionarmos. Veja-se a Síria e o processo acelerado de lavagem de imagem de Al Julani, ontem classificado como terrorista, hoje recebido como chefe de Estado em respeitáveis chancelarias por esse mundo fora. A memória é curta, a conveniência é longa, e a ética tornou-se descartável.

Tudo isto aponta para um mesmo lugar: um mundo onde a força substituiu o direito, onde a narrativa venceu os factos, onde a lei se aplica apenas aos frágeis. Um mundo em que a exceção passou a ser a justiça. Talvez o mais inquietante não seja a barbárie em si, mas a forma serena, quase burocrática, com que é administrada. Como se tudo isto fosse normal. Como se tudo isto fosse aceitável. Estes são apenas alguns exemplos, mas julgo que deveriam ser suficientes para nos preocuparem e nos fazerem agir. 

Ponta Delgada, 16 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

3000

foto de Paulo R. Cabral

Esta é a publicação 3000 do “momentos”.

Há números que apenas assinalam uma passagem. São 3000 publicações desde 2 de março de 2008. Não são degraus nem metas, são marcas de água, sinais deixados enquanto caminhei no tempo.

Este blogue foi(é) ilha e foi mar, mas também lugar da beira serra. Lugar de abrigo e de deriva. Aqui a escrita aprendeu a ficar, a esperar, a ouvir o que o ruído costuma abafar. Cada texto foi um gesto simples: lançar palavras como quem lança pequenas pedras num lago, só para ver os círculos concêntricos a formarem-se.

Esta publicação não encerra nada. É apenas um instante de quietude, um olhar breve para o passado com os olhos postos no futuro. Continuar a escrever é isso: permanecer atento e inquieto, mesmo quando tudo parece pedir distração.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

do horror e da impunidade

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram. (...)


em memória de Manuela Medeiros

O falecimento de Manuela Medeiros representa uma perda profunda para todos os que com ela partilharam trabalho, luta e esperança. A Manuela foi presença firme e generosa, a sua ação era ancorada na convicção, mas também na capacidade de ouvir e na atenção que dedicava aos outros e de um grande sentido de justiça.

Para mim, foi uma honra ter conhecido, convivido e trabalhado com Manuela Medeiros nos planos social e político. Os seus contributos no sindicalismo, na ação política e no voluntariado social foram notáveis e deixam marcas que não se apagam.

Até sempre Manuela!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

as palavras não resolvem

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Não é a primeira vez que abordo o assunto. Num outro contexto grafei a minha opinião como se fora uma breve introdução a um assunto distinto, porém foi suficiente para que a minha posição ficasse percebida e motivasse algumas reações de discordância. Hoje volto ao tema com mais vagar, consciente de que se trata de um terreno sensível, onde as boas intenções convivem, muitas vezes, com equívocos difíceis de desconstruir, pois, o tema vai muito para além das palavras com que compomos o discurso. Tenho consciência que, uma vez mais, serei alvo de desacordo o que é salutar, pois, estes textos pretendem isso mesmo: a reflexão e a divergência.

Falo da chamada linguagem inclusiva ou neutra. Um debate que ganhou espaço público, atravessou salas de aula, documentos oficiais, discursos políticos e até conversas banais, dessas que podem começar com um simples: “boa noite”.

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Confesso que, em determinado momento, cheguei a recorrer a algumas dessas fórmulas. Não por convicção profunda, mas por pragmatismo: evitava apartes, olhares reprovadores, discussões laterais que desviavam a atenção do essencial. Era uma espécie de taxa de portagem discursiva, eu pagava e seguia caminho.


A questão tem a sua génese quando a linguagem, em vez de abrir, complica; em vez de incluir, fragmenta. Dizer “boa noite a todos e a todas” parece, à primeira vista, um gesto de cuidado e de respeito pelos géneros. Contudo, se o argumento for levado até às últimas consequências, ele revela uma armadilha: ao nomear explicitamente o masculino e o feminino, acabam por ficar de fora as pessoas que não se reconhecem em nenhum desses géneros, ou seja, a expressão que pretendia ser inclusiva, exclui. A solução que se vai vulgarizando é, então, acrescentar mais uma camada: “… a todos, a todas e a todes.”, ou optar simplesmente por “boa noite a todes”, como se a palavra, por si só, pudesse resolver uma questão que é social, cultural e profundamente humana.

É aqui que a língua começa a tropeçar em si própria. Do ponto de vista linguístico, a palavra “todos” já cumpre a função de incluir sem discriminar. Não por ser perfeita, mas por ser uma convenção funcional, construída ao longo do tempo, que não pergunta pelas identidades nem exige explicações. “Todos” não exclui, integra. Não classifica, é abrangente. A língua portuguesa, como tantas outras, funciona com géneros gramaticais que não coincidem, necessariamente, com géneros identitários. Confundir uma coisa com a outra é exigir à gramática aquilo que pertence ao campo da ética, da política e do respeito social.

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Há, neste debate, uma tentação recorrente: acreditar que mudar as palavras é suficiente para mudar o mundo. Como se as injustiças se corrigissem por decreto linguístico, como se a exclusão se resolvesse pela introdução de uma vogal alternativa. O risco é evidente: substitui-se a reflexão profunda por um exercício formal, quase como um ritual, que tranquiliza consciências, mas pouco altera a realidade que exclui.

A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade.

Talvez valha a pena regressar ao essencial: falar com respeito, agir com dignidade, reconhecer o outro na sua singularidade, ou seja, sem exigir à língua aquilo que cabe à sociedade transformar. Porque, para todos os efeitos, um cumprimento dito com atenção e verdade inclui sempre mais do que qualquer fórmula cuidadosamente ensaiada. E isso, curiosamente, a língua já sabia antes de nós. Não são as palavras, é a atitude e o respeito pela diferença que verdadeiramente importa.

Ponta Delgada, 2 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 4 de fevereiro de 2026

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

da linguagem

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.


(...) Há, neste debate, uma tentação recorrente: acreditar que mudar as palavras é suficiente para mudar o mundo. Como se as injustiças se corrigissem por decreto linguístico, como se a exclusão se resolvesse pela introdução de uma vogal alternativa. O risco é evidente: substitui-se a reflexão profunda por um exercício formal, quase como um ritual, que tranquiliza consciências, mas pouco altera a realidade que exclui.

A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade. (...)


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Fadwa Tuqan - a abrir fevereiro

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Fadwa Tuqan (1917–2003) foi uma das vozes maiores da poesia palestiniana e árabe do século XX. Nascida em Nablus, numa sociedade profundamente patriarcal, fez da escrita um gesto de libertação pessoal e coletiva. A sua poesia nasceu do silêncio imposto às mulheres e transforma-o em palavra clara, íntima, muitas vezes dolorosa, onde o eu e o mundo se refletem mutuamente.

Com o passar dos anos, a sua obra evoluiu para uma poesia de resistência, profundamente marcada pela ocupação da Palestina. Sem abandonar a delicadeza do tom, Fadwa Tuqan soube dar forma poética à perda, ao exílio e à persistência de um povo, recusando tanto o grito fácil como a retórica vazia.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resiliência e outras dormências

foto Aníbal C. Pires
Há poucos dias, numa viagem de avião de Lisboa para Ponta Delgada, depois de ter feito uma sesta, peguei na revista de bordo da Azores Airlines e fui lendo alguns dos artigos. Notei então que um dos vocábulos que os entrevistados mais utilizavam era resiliência. Palavra que entrou, de rompante, no vocabulário erudito e popular e com a qual eu mantenho uma relação difícil, talvez por não saber muito bem o que significa, ou talvez por suspeitar que, significando tudo, não significa porra nenhuma.

A palavra resiliência foi-se instalando como se de uma virtude universal se tratasse. Aplica-se às pessoas, às empresas, às ilhas, às comunidades, às economias e até ao clima. É uma palavra elástica, maleável, sempre pronta a servir. Dobra-se ao discurso de quem fala e regressa intacta, como se nada a afetasse. Talvez seja esse o seu maior mérito lexical, mas que de humano nada tem e, eu não gosto da desumanidade das palavras que adjetivam humanos.

Originalmente, diz-se, da física dos materiais e da propriedade de um corpo resistir ao choque e recuperar a forma original. O problema começa quando se exige o mesmo às pessoas. Espera-se que sofram o impacto, absorvam o dano, e regressem à forma anterior, como se o choque não tivesse deixado marcas, fissuras, cansaço. Como se viver não fosse, justamente, o contrário disso, ou seja, não regressar nunca ao ponto de partida.

No uso corrente, resiliência tornou-se uma palavra de conforto para quem observa e de exigência para quem suporta, para mim já não há paciência para tanta resiliência. Diz-se a alguém que seja resiliente quando, na verdade, se lhe pede que aguente mais um pouco, que se adapte à adversidade sem fazer muito ruído, que aceite como inevitável aquilo que talvez não o seja. É uma palavra que desloca a responsabilidade: do contexto para o indivíduo, do sistema para a pessoa, da injustiça para o carácter.

foto Madalena Pires
E talvez seja por isso que o vocábulo me incomoda. Porque quase nunca vem acompanhada das perguntas essenciais: resiliente para quê? resiliente até quando? resiliente a favor de quem? Não questiona as causas, apenas celebra a capacidade de sobrevivência. E sobreviver, convenhamos, pode ser pouco quando se confunde com resignação.

Prefiro outras palavras, menos vistosas e menos úteis ao discurso motivacional. Prefiro resistência, que implica atrito e oposição. Prefiro dignidade, que não se mede pela capacidade de aguentar, mas pela recusa em aceitar tudo. Prefiro até fragilidade, quando assumida, porque ela não finge força nem promete milagres.

Talvez a vida não nos peça resiliência, mas lucidez. Não a capacidade de voltar à forma original, mas a coragem de mudar de forma, quando necessário. E isso não cabe numa palavra fácil, repetida até à exaustão numa revista de bordo, entre destinos paradisíacos e entrevistas sensaboronas. Cabe, isso sim, no desconforto de pensar, mesmo a 37 mil pés de altitude.

Esta minha aversão à palavra não é de ordem semântica, é uma recusa ética e, diria mesmo, até política. Que se foda tanta resiliência.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 28 de janeiro de 2026


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

a personalização

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Não sendo de agora, mas é no tempo presente que a perceção da História contemporânea se reduz até caber apenas num rosto. Um rosto para odiar, outro para reverenciar. Um nome próprio basta para explicar guerras, crises económicas, colapsos democráticos ou atentados que abalam consciências. Ao reduzir processos complexos a um protagonista simplificam-se os acontecimentos, acelera-se o consumo mediático e presenteia-se a opinião pública com uma figura clara para amar ou odiar. Tudo isto pode ser confortável, mas é profundamente ardiloso e, sobretudo, induz a perceção de uma falsa realidade.

A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora.

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Desde então, habituámo-nos a esperar. Esperamos pelo líder forte, pelo salvador improvável, pelo homem providencial que, sozinho, resolverá o que milhões não conseguiram sequer discutir. A comunidade observa, sentada, agradecida, convencida de que o seu papel é aplaudir no final, se houver um final feliz o que, como a História nos mostra, não é bem assim.

Não vai a tribunal, não concede entrevistas, não pede desculpa. Permanece, intacto, enquanto trocamos protagonistas como quem inicia mais uma temporada de uma série televisiva. Em tudo isto há uma cruel ironia, melhor dizendo, quanto mais se exalta o indivíduo excecional, mais se educa a impotência coletiva. Quanto mais se celebra o herói, mais se normaliza a ideia de que nada depende de nós. A ação coletiva parece sempre insuficiente, lenta, enfadonha e incapaz de competir com o brilho do salvador solitário.

E, assim, a política foi-se transformando em entretenimento, a cidadania em plateia, e a democracia num género narrativo instável, sujeito a audiências. Já não se pergunta: como vamos mudar o mundo, mas quem será o próximo a tentar fazê-lo por nós!? Os super-heróis ensinaram-nos muitas coisas. Treinaram-nos, sobretudo, a olhar para cima, enquanto nos mantemos inertes abdicando de exercer os direitos e deveres de cidadania, e deixando de participar na vida coletiva das nossas comunidades.

Donald Trump tornou-se, para muitos, a explicação total da degradação democrática dos Estados Unidos. Como se antes dele não existisse um complexo militar-industrial, uma financeirização extrema da política, as grandes corporações, um sistema eleitoral disfuncional ou uma longa tradição de ingerência externa. O resultado está à vista de todos: critica-se o personagem e preserva-se o que realmente está na origem da deterioração da democracia. Isto é válido para os Estados Unidos, como para outros países. 

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Por outro lado, Maduro cumpre uma função semelhante. A crise venezuelana é frequentemente apresentada como produto exclusivo de um homem, apagando décadas de dependência estrutural do petróleo, bloqueios económicos, sanções internacionais e disputas geopolíticas que excedem largamente qualquer figura individual. O líder transforma-se no bode expiatório conveniente: concentra a culpa e absolve o contexto.

Hannah Arendt lembrava que o mal, muitas vezes, não nasce de monstros, mas da normalização de estruturas que funcionam sem pensamento crítico. A personalização, ao contrário do que parece, não combate essa banalidade, reforça-a. Porque desloca o olhar do sistema para o indivíduo, do processo para o gesto isolado.

O mesmo mecanismo reaparece nos grandes crimes políticos. O assassino de Kennedy, ou o autor do atentado de Oklahoma, são apenas dois exemplos do “lobo solitário” de cada época. A figura do indivíduo perturbado encerra rapidamente a narrativa, transforma o trauma político em caso policial e impede perguntas mais incómodas. Não se investiga o clima, as redes, as cumplicidades, os discursos que prepararam o terreno. O crime é tratado como um desvio, nunca como sintoma do sistema. Não se trata de negar a responsabilidade pessoal. Trata-se de reconhecer a sua insuficiência. A responsabilização individual, quando isolada, funciona como técnica de contenção: oferece indignação, punição e catarse moral, mas deixa intactas as engrenagens que tornam os acontecimentos repetíveis. Muitos outros exemplos poderiam ser referenciados, mas fiquemo-nos por aqui.

Como escreveu Michel Foucault, o poder raramente se concentra num ponto; circula, infiltra-se, reproduz-se. Dar-lhe um rosto é uma forma eficaz de o tornar invisível. Direi eu, que é a forma mais eficaz, perante uma opinião pública cada vez mais atomizada e acrítica, de conferir invisibilidade aos mandantes. Enquanto insistirmos em procurar protagonistas, continuaremos a mudar os nomes próprios e a manter os mecanismos. E o sistema, esse, seguirá tranquilo, sem rosto e sem culpa.  Apontamos o dedo ao indivíduo e o sistema continua a escrever a História com mãos invisíveis.

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Uma leitura marxista ajuda a compreender por que razão esta personalização é, não apenas recorrente, mas funcional. O capitalismo, enquanto modo de produção, precisa de ocultar as relações sociais que o sustentam. Precisa de esconder a exploração atrás da troca, a dominação atrás do contrato, o poder atrás da aparência de escolha individual. A figura do protagonista, herói ou vilão, cumpre aqui um papel central: desloca a análise da estrutura para o sujeito, da classe para o indivíduo, das relações de produção para o comportamento pessoal.

Marx lembrava que os homens fazem a sua própria História, mas não o fazem em circunstâncias escolhidas por si. A narrativa dominante inverte esta formulação: apresenta as circunstâncias como neutras, inevitáveis, naturais, e, os indivíduos como causa última de tudo o que acontece. Assim, o sistema económico deixa de ser histórico e passa a ser paisagem; deixa de ser questionável e passa a ser um dado adquirido. Criticam-se líderes, governantes ou executores, mas raramente se questiona a lógica que os produz, os seleciona e, quando necessário, os descarta. Nesta perspetiva, a personalização é uma poderosa ferramenta ideológica. Ela fragmenta a consciência social, impede a leitura de classe, dissolve a noção de interesse coletivo. Cada crise aparece como exceção, cada abuso como desvio, cada tragédia como erro humano e nunca como uma consequência previsível de um sistema organizado em torno da acumulação, da desigualdade e da mercantilização da vida. O capital permanece anónimo, difuso, irresponsável. Não tem rosto porque não deve tê-lo.

Talvez por isso a crítica verdadeiramente incómoda continue a ser aquela que insiste em desviar o olhar do indivíduo para as estruturas, do gesto isolado para a engrenagem que o torna possível. Enquanto apontarmos o dedo a protagonistas, continuaremos a errar o alvo. A História contemporânea não é escrita por heróis solitários, mas por sistemas concretos, interesses materiais e correlações de força que raramente se deixam ver, não sobem ao palco, não pedem aplauso nem absolvição. Limitam-se a continuar, silenciosos, a escrever a História, com mãos invisíveis e contando com a nossa alienação. Mas não é inevitável que assim seja, a História também é escrita pelos povos.

Ponta Delgada, 20 de janeiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de janeiro de 2026