domingo, 14 de agosto de 2022

um olhar sobre “A Escrava Açoriana”

foto by Aníbal C. Pires

O mais recente romance de Pedro Almeida Maia aborda, desta vez no feminino, a temática da emigração açoriana. Depois de “Ilha-América”, eis que o autor nos oferta “A Escrava Açoriana”.

É com a jovem e irreverente Rosário que calcorreamos as ruas de Ponta Delgada nos finais do século XIX e com ela embarcamos, clandestinamente, no Lidador rumo ao sonho na margem Sul deste Atlântico que nos aprisiona, mas também nos liberta. Sonho que nem sempre é prazeroso, quantas e quantas vezes os percursos migratórios se transformam em pesadelos.

Com a Rosário vivemos num “cortiço” do Rio de Janeiro, com ela somos escravos numa plantação de café, com ela passamos a servir na “casa grande”, com ela nos libertamos do sonho vendido por um engajador e, com ela regressamos a S. Miguel para, de novo, ouvir o “pio do milhafre”.


Pedro Almeida Maia - imagem retirada da internet
Pedro Almeida Maia com a sua escrita escorreita e aliciante traz-nos a estória de um percurso migratório com regresso, mas sem sucesso material. Um percurso de enganos, abusos, escravidão, desumanidade, mas também de humanidade. A jovem Rosário não cumpriu nenhum dos sonhos que motivaram a sua viagem, mas regressou indelevelmente marcada pela sua estadia em terras de Vera Cruz.

Rosário não fez fortuna, não trazia bens materiais, mas carregava consigo, ao desembarcar em Ponta Delgada, a preciosa bagagem que a transformou numa ativista pelos direitos das mulheres e da República. A rebeldia e a irreverência da jovem Rosário transformaram-se em consciência, ação e luta.

Esta é uma estória de mulher que se libertou do sufoco do capote e capelo, como soube livrar-se das amarras da prostituição, da escravidão e da servidão aos homens.

Rosário regressou, talvez numa sexta-feira que é, como sabemos, quando “a vida começa”, para ouvir o “pio do milhafre” e fazer ouvir a sua voz.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 14 de agosto de 2022


quarta-feira, 10 de agosto de 2022

crónica da treta

imagem retirada da internet
Procuro palavras. Palavras adequadas à época do ano. É Verão, o país está a banhos e a leitura quer-se leve como a cerveja “pilsener”, não sei se é tão leve assim, mas eu gosto e acho que não é pesada, embora os especialistas não tenham a mesma opinião, respeito o parecer de quem sabe, mas eu gosto e continuo a considerar que é leve. Mas, voltemos ao cerne das palavras apropriadas para a época, ou seja, palavras leves como uma pluma, julgo que sobre a leveza da pluma não há quem discorde, nem mesmo os especialistas em penas e penachos, já os gastrónomos poderão considerar que as plumas do cachaço, ou do lombo, não sendo pesadas, também não são leves, dependendo dos temperos, da técnica de preparação e das guarnições.

Como o visitante acidental ou, frequentador assíduo da “Sala de Espera”, por certo, já se deu conta: não é fácil lidar com a leveza das palavras ou, como a das plumas que tanto podem ser, tal como a cerveja, leves ou pesadas, dependendo sempre do ponto de vista e dos interesses de cada um. Veja-se a minha dificuldade para vos deixar algumas palavras que possam ser digeridas sem grande esforço, como convém, em meados de agosto.

imagem retirada da internet

As festas que decorrem por todo o lado poderiam ser o mote para este escrito de Verão, mas as palavras que pudesse grafar talvez não fossem tão leves como o leitor merece e como eu pretendo que seja esta crónica.

A “volta a Portugal em bicicleta” está na estrada há alguns dias e o campeonato da liga já teve o seu início, é assim como a transição para o fim dos dias longos, das temperaturas a convidar para a sombra verde dos parques de merendas, ou para penetrar no azul marinho das zonas balneares que ponteiam nas baías e enseadas insulares, embora, por estas paragens, o tempo permita que a transição não seja abrupta, assim haja tempo para continuar a usufruir das temperaturas amenas, do ar e do mar, que adentram pelo outono.

imagem retirada da internet
O regresso à realidade virá com setembro e o aumento das taxas de referência do Banco Central Europeu, de entre outros crescimentos nos preços dos produtos, bens e serviços. Não, os salários não. Já ia por um caminho que hoje não quero trilhar, vou tentar voltar ao que me propus quando iniciei este escrito. Como está recordado o propósito é procurar palavras e dar-lhe algum sentido, sem perturbar o seu bem-estar estival. Todos precisamos de momentos para sonhar e, o Verão é um período adequado para o efeito. Longe de mim qualquer ideia ou tentativa de perturbar os seus sonhos e a tão necessária tranquilidade que retempera forças para enfrentar o ano de trabalho que se avizinha. Bem sei, este discurso não se aplica a todos os cidadãos, todos podemos sonhar, mas nem todos temos tempo, alguns “nem tempo para dormir quanto mais para sonhar”. Há quem só tenha tempo para se preocupar com o pão que tem de por na mesa para alimentar a família, e pouco mais. E há quem, por opção ou obrigação, não esteja de férias e vá a banhos, apenas, ao fim da tarde, se o horário de trabalho o permitir, e, aos fins de semana procura a sombra verde dos merendários se para tal tiver como fazê-lo. Ainda assim, este é um tempo que induz ao alheamento e, como tal, a generalidade dos cidadãos “desliga-se” e deixa que aconteça. Depois logo se verá.

O último, e longo parágrafo, não se poderá dizer que foi anódino, mas o correr da pena, que é como quem diz, pois, o que corre são os dedos pelo teclado, a pena há muito que caiu em desuso, pelo menos cá por casa, ainda há quem a use e bem, diria até que o seu uso é executado com invejável mestria por alguns amantes das letras manuscritas. Mas, como dizia, o parágrafo anterior fugiu um pouco ao espírito desta crónica, é-me muito difícil a abstração da realidade e tenho alguma dificuldade em perder tempo com futilidades, mas estou a fazer um esforço, nem grande nem pequeno, apenas algum zelo, para afastar deste texto qualquer assunto que possa quebrar a letargia em que mergulhamos durante esta estação.

foto by Madalena Pires

O Verão açoriano, este ano particularmente inconstante, é marcado pela elevada humidade relativa do ar que, associada a temperaturas a rondar os 25 graus, nos deixa indolentes e alheados do que se passa para lá do espaço entre a toalha estendida na areia e o tentador mar que nos refresca o corpo e lava a alma. Nem mesmo o choque térmico, ao mergulhar, é suficiente para nos despertar da inércia. O que é bom, as férias, ou as fugidias idas à praia ou aos parques florestais e merendários, são para isso mesmo, relaxar e afastar do horizonte qualquer nuvem negra que por ali esteja a pairar perturbando o nosso bem-estar induzido pelo Verão do nosso contentamento. A luminosidade que emana dos verdes matizados de flores e do imenso azul que nos rodeia faz-nos olvidar os dias cinzentos e as brumas a descerem até à soleira das portas, as tempestades tropicais, as chuvas diluvianas, os ventos tormentosos, a agitação marítima que galga a costa, tudo isso ficará para depois, agora é tempo de Verão e festas de todas as cores. Não gosto da monotonia do branco.

Ponta Delgada, 9 de agosto de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de agosto de 2022

terça-feira, 9 de agosto de 2022

da transição

foto by Aníbal C. Pires


Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.








(...) A “volta a Portugal em bicicleta” está na estrada há alguns dias e o campeonato da liga já teve o seu início, é assim como a transição para o fim dos dias longos, das temperaturas a convidar para a sombra verde dos parques de merendas, ou para penetrar no azul marinho das zonas balneares que ponteiam nas baías e enseadas insulares, embora, por estas paragens, o tempo permita que a transição não seja abrupta, assim haja tempo para continuar a usufruir das temperaturas amenas, do ar e do mar, que adentram pelo outono. (...)

Valentina Grizodubova - a abrir agosto

imagem retirada da internet

O momentos tem trazido algumas mulheres que se notabilizaram e que deveriam ser objeto de maior, ou pelo menos algum, interesse por que se dedica ao estudo das mulheres, ou mesmo os movimentos feministas. São mulheres pioneiras e afirmaram-se em sociedades e atividades dominadas por homens. São, deveriam ser, exemplos da afirmação das mulheres e das suas lutas, mas algumas delas, como Valentina Grizodubova, são esquecidas e por vezes obliteradas da história. 

"Valentina Grizodubova foi a primeira mulher a receber o título de Heroína da União Soviética. De 24 a 25 de setembro de 1938, o avião ANT-37 "Pátria Mãe" que ela comandava cobriu uma distância de 6.450 km em 26 horas e 29 minutos sem pousar. Sua copilota, Polina Ossipenko, e a pilota Marina Raskova também receberam o título de heroínas pelo recorde feminino em um voo de longa distância. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Grizodubova comandou o 101º Regimento de Aviação de Longa Distância, que era todo masculino. Entretanto, ela rapidamente conquistou o respeito de seus subordinados como comandante de combate e chefe talentosa. Ela é responsável por 200 voos, incluindo 132 noturnos.

Valentina Grizodubova provou ser especialmente eficiente no abastecimento dos destacamentos de partisans por trás das linhas inimigas. A comandante foi enviado pessoalmente várias vezes a missões perigosas e como resultado foi condecorada com a medalha "Partisã da Grande Guerra Patriótica".

"Ela era uma mulher muito corajosa, resoluta e ousada na implementação de seus planos", escreveu Aleksander Saburov, comandante da unidade de partisans." (texto retirado daqui)

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Origens

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Bem sei! Origens é um dos títulos do magnifico trabalho que o Rafael Carvalho tem produzido no seu empenhado, persistente e excelente labor de divulgação e ensino da “viola da terra”, num meritório esforço de recuperação do instrumento musical que melhor traduz o ser açoriano. Ao Rafael, na senda de outros instrumentistas de quem herdou saberes, deve-se não só a captação de novos e muitos aprendizes, mas reconhece-se, também, o mérito de colocar a “viola da terra” a dialogar com outros instrumentos musicais, quer os seus parentes próximos, as violas de arame, quer ainda com outros artefactos musicais. E o Rafael tem sido, apesar de todos os obstáculos, bem-sucedido nesse seu louvável esforço. A viola tem o futuro assegurado por mais algumas gerações, quer pelos inúmeros instrumentistas em formação, quer pela conquista de novos públicos.

Poderia continuar a dissertar sobre a “viola da terra”, o trabalho do Rafael e de outros amantes da “viola de dois corações” que o assunto tem pano para mangas e o reconhecimento é, inteiramente, merecido, mas, em boa verdade, o que motivou o título desta passagem pela “Sala de Espera” é outro, ainda que seja de “origens” que se trata, pois, estou de passagem (não é um regresso) pelos lugares da minha infância e juventude.

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Nesta, como em outras passagens, cada vez menos frequentes, pelos lugares da Beira Baixa que calcorreei enquanto jovem, sou invadido por sentimentos contraditórios: saudades do tempo que por aqui vivi, alegria pelo reencontro com alguns familiares e amigos, alguma nostalgia e um profundo desencanto pelo abandono a que estas gentes e estas terras têm sido sujeitas pelas políticas que os poderes decisórios (Lisboa e Bruxelas) desenharam para estes territórios. Só a perseverança das gentes que teimaram em ficar e o esforço abnegado de alguns autarcas contrariam, ainda que sem grande sucesso, este processo de morte anunciada de uma parte da alma do ser português. A reserva ética do país esvai-se nas partidas em busca de oportunidades, na lei natural da vida, e nas cinzas dos incêndios que sepultam sonhos e vidas.

A coesão territorial não faz parte das agendas políticas de quem, em Lisboa e em Bruxelas, nos tem governado, e a opinião pública que poderia contrariar estas opções e o seus efeitos está mais preocupada com os gadgets de última geração, com o campeonato nacional de futebol e outros assuntos igualmente importantes para o bem-estar individual e coletivo, enquanto o país real agoniza perante a indiferença e passividade dos decisores políticos e dos portugueses que vivem num país virtual.

Os liberais dirão que são as leis do mercado, os nacionalistas dirão que a culpa é dos estrangeiros ou, quiçá, dos ciganos, o centrão nada diz, nem faz, deixa correr, como a água corre entre as pedras da ribeira.

Nem mesmo alguns projetos e ações de índole cultural e de defesa do património natural do interior se têm mostrado suficientes para inverter este processo, ou por serem pontuais e dinamizados por cidadãos que por aqui passam, ou por serem submergidos por poderes distantes cujo objetivo é, tão-somente, o saque.

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Desta terra e destas gentes alguém, no contexto de uma iniciativa de dinamização cultural, escreveu: “onde as oliveiras crescem os homens não morrem”. A frase é inspirada e inspiradora e traduz o sentir e viver destes lugares, ainda que o olival, sendo uma constante na paisagem, convivesse harmoniosamente com outras culturas agrícolas. Os saberes de experiência feitos davam diferentes usos ao solo, sem o esgotarem, garantiam o ordenamento territorial. O olival, a floresta de pinheiro bravo, a vinha, a fruta e os hortícolas garantiam a subsistência das famílias, o abastecimento dos mercados locais e, alguns produtos afirmavam-se e eram escoados para os mercados nacionais. 

Nem tudo acabou, mas tudo se transformou e, sem qualquer espécie de saudosismos, direi que não tem sido para melhor. Ninguém de boa fé fica indiferente à invasão dos olivais e das vinhas, o pinhal é quase inexistente, por estevas e giestas que depois alimentam os incêndios que devastam a cultura intensiva do eucalipto e transformam o verão da interioridade no inferno que faz as manchetes televisivas da silly season.

Por quanto tempo continuarão os homens a resistir mesmo que as oliveiras continuem a crescer!? Por quanto tempo mais esta indiferença que mata a alma dos lugares e dos homens que cresceram com as oliveiras!?

Por quanto tempo mais esta indiferença a uma realidade que nos empobrece e está a extinguir uma certa forma de ser português!?

Por quanto tempo mais… !?

Ninho do Açor, 26 de julho de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de julho de 2022

terça-feira, 26 de julho de 2022

desta terra e destas gentes

imagem retirada da internet


Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Desta terra e destas gentes alguém, no contexto de uma iniciativa de dinamização cultural, escreveu: “onde as oliveiras crescem os homens não morrem”. A frase é inspirada e inspiradora e traduz o sentir e viver destes lugares, ainda que o olival, sendo uma constante na paisagem, convivesse harmoniosamente com outras culturas agrícolas. Os saberes de experiência feitos davam diferentes uso ao solo, sem o esgotarem, garantiam o ordenamento territorial. O olival, a floresta de pinheiro bravo, a vinha, a fruta e os hortícolas garantiam a subsistência das famílias, o abastecimento dos mercados locais e, alguns produtos afirmavam-se e eram escoados para os mercados nacionais. (...)

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Acreditar

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Um novo líder, uma nova consigna, procurando afirmação no espaço público nacional. Luís Montenegro e o PSD propõem-nos que acreditemos. Mas convenhamos, é preciso ter fé, muita fé, para acreditar que o passado passista possa ter futuro em Portugal, digo eu que sou uma pessoa com memória e ando arredado da fé. Esperança tenho, e sendo velha, como homem e os dogmas, aponta para o porvir e para a diferença transformadora, a fé alimenta-se no pretérito, cristaliza o tempo e o pensamento. A fé perpetua modelos arcaicos de domínio, embora com as novas roupagens da modernidade ou pós-modernidade, mas que continuam a promover a desumanização em nome do culto da atomização social que produz pobreza e exclusão. 

O discurso liberal, do qual o PSD e Luís Montenegro são, como outros, intérpretes, pois, não há monopólios partidários desta velha ideia, o que existe são vários protagonistas e outras vestes, quiçá mais informais, mas todos bebem na mesma taça, todos veneram o deus do mercado, todos servem o mesmo senhor e todos propõem a privatização do lucro e a socialização do prejuízo, ou seja, o povo que pague os devaneios e as perversões do liberalismo económico.  

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Quando olhei para o novo outdoor do PSD exposto numa das rotundas da cidade onde vivo, a leitura imediata remeteu-me para o passado e, nem mesmo o lettering que aponta para 2026 me convenceu de que aquele rosto e aquela consigna terão futuro tal é a carga passista que carregam.

Considerando que, tal como eu, a maioria dos portugueses tem memória o retorno ao passado passista que Luís Montenegro e o “seu” PSD encarnam não passará de um apelo malsucedido, a não ser que a fé faça vencimento entre os que mais penalizados foram com o governo de Passos Coelho que, à boleia da troika, desbarataram o património público empobreceram os portugueses e tornaram Portugal, ainda mais dependente. Claro que Luís Montenegro e os seus acólitos contam com a curta memória do eleitorado e a estupidificação promovida pela comunicação social de massas para que os eleitores voltem a “Acreditar”, no quê não se sabe. O que eu sei é que Luís Montenegro está indelevelmente ligado a Passos Coelho e a um projeto político que, como se verificou, entre 2015/2019, não era uma inevitabilidade nem a única opção. A rutura, ainda que incipiente, com as políticas troikistas, exponenciadas pelo governo de Passos Coelho demonstraram que existiam, e existem, alternativas à barbárie neoliberal.

imagem retirada da internet
O PSD, com ou sem Luís Montenegro e para além desta ligação ao passado passista, tem no atual espetro partidário português pouco espaço para se reafirmar como uma alternativa política, desde logo ao PS com quem comunga o essencial da doutrina liberal que impera na maioria do governos da União Europeia e, naturalmente, no Conselho e na Comissão Europeia, por outro lado o crescimento e a capacidade de penetração da Iniciativa Liberal em largos setores da sociedade portuguesa constituem-se como barreiras, eu não diria inultrapassáveis, mas como fatores determinantes para impedir que o PSD possa reganhar a confiança e o apoio eleitoral que já teve e lhe permitiu governar o país.

As opções política e eleitorais dos portugueses têm contribuído para alargar o quadro parlamentar, embora essa diversidade da representação da vontade eleitoral não corresponda, de todo, a alterações significativas nas opções políticas necessárias para reduzir a crónica dependência externa do país, aumentar a produção nacional e aumentar o investimento nos serviços públicos, com particular urgência no SNS e na Escola Pública.

A diversidade parlamentar é uma falácia, não acrescenta nenhuma mais valia à democracia portuguesa e perverte as prioridades políticas com agendas dirigidas a tendências criadas artificialmente para retirar do espaço público a discussão das questões verdadeiramente essenciais para o nosso futuro coletivo.

Não vos vou deixar exemplos, mas sugiro que verifiquem as votações parlamentares na Assembleia da República sobre algumas propostas e tirem as vossas próprias conclusões. Não estarei longe da verdade se disser que, no essencial, o PS, o PSD e a IL têm o mesmo sentido de voto nas propostas estruturantes que poderiam contribuir para a melhoria das condições de vida dos portugueses. O que significa que é mais o que une estes três partidos do que aquilo que os separa. Resta saber qual será destes partidos o que se afirmará como o eleito do capital nacional e europeu, uma vez que a escolha depende muito mais desse pequeno pormenor do que da vontade (pouco) esclarecida dos eleitores.  

Santa Cruz (Flores), 11 de julho de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de Julho de 2022

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Mestiçagens

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Em Portugal a multiculturalidade e, por consequência, as relações interculturais não são uma novidade dos nossos tempos, veja-se a história do território continental a que chamamos Portugal para concluirmos que os portugueses são uma mescla de povos e culturas, mesmo antes daquela que foi, esta sim, a primeira mundialização: os “descobrimentos” e tudo o que se lhe seguiu.

O território continental, mesmo antes de ser Portugal, foi alvo de invasões por diferentes povos, antes e depois do Império Romano ter ocupado a Península Ibérica, estes povos deixaram as suas marcas culturais, uns mais que outros, uns mais a Norte outros mais a Sul, outros apenas nas regiões costeiras. Os povos autóctones assimilaram os genes, o conhecimento e a cultura das gentes que por aqui passaram e deram origem a um povo mesclado e culturalmente diverso. 

Com a época dos descobrimentos e os regressos vieram novas matizes culturais, mas também homens e mulheres dos territórios colonizados. Os portugueses são um povo mestiço, e isso é bom. Sobretudo quando somos capazes de o reconhecer e aceitar como um património da nossa ancestralidade. Todos nós, portugueses, somos um pouco do Mundo.

A descolonização portuguesa só aconteceu com a Revolução do 25 de Abril e, é a partir dessa altura que se inicia um processo, lento e gradual, de aceitação, reconhecimento e valorização das diferenças culturais da população portuguesa que, sendo já diversa, se acentuou com a vinda de uma vaga de cidadãos oriundos das antigas colónias.

Na década de 90 da centúria anterior assistiu-se a fluxos de imigração para Portugal como nunca se tinham, até então, verificado. Havia mão-de-obra disponível, um pouco por todo o Mundo, e o país tinha necessidade de a importar. Na década de 90 as comunidades de imigrantes engrossaram e diversificaram-se e a resposta política, que tardava, acabou por surgir. Por outro lado, as associações de imigrantes acompanharam, naturalmente, esta nova realidade e, a par das já existentes, no essencial, cabo-verdianas, angolanas e brasileiras surgiram muitas outras.   

imagem retirada da internet
A vaga de imigração que se verificou para Portugal, no limiar do século XXI, transformou o tecido social nacional num enorme mosaico multicultural e colocou, à sociedade, e por consequência, à Escola novos desafios.

A presença de cidadãos estrangeiros em Portugal não sendo um fenómeno recente, nunca tinha sido objeto de uma resposta política estrutural. Só em 1996, tendo como primeiro ministro António Guterres, foi criado o Alto-Comissariado para as questões da imigração.

Antes da criação do ACIME, a intervenção das políticas públicas consistia em medidas avulsas direcionadas para a Escola e cuja eficácia foi reduzida, não deixando, contudo de lhe reconhecer algum mérito.

Foi, como referi, no domínio da educação, apesar das limitações das leis de enquadramento, que se tomaram as primeiras iniciativas políticas formais em relação à multiculturalidade com a criação do Secretariado Coordenador dos Programas de Educação Multicultural, em março de 1991.

O Projeto de Educação Intercultural em vigor nos anos escolares 1993 a 1997 focalizado em 49 escolas do ensino básico situadas em zonas de residência de populações fragilizadas social e economicamente, e de concentração de cidadãos de origem externa, no essencial das antigas colónias africanas, zonas onde se verificava uma elevada percentagem de insucesso escolar. Este projeto podendo ter um grande alcance pedagógico foi, contudo, limitado no tempo e no espaço.

Refiro ainda o projeto “A Escola na Dimensão Intercultural”, em 1990, a criação, em 1993, da Associação de Professores para a Educação Intercultural (APEDI), a iniciativa Pelas Minorias em 1998, a institucionalização da diversidade religiosa nas escolas públicas, em 1998 e a criação do Grupo de Trabalho para os Mediadores Culturais, em 2001.

Em fevereiro de 2001 foi criado o Secretariado Entreculturas que veio substituir o Secretariado Coordenador dos Programas de Educação Multicultural. Entre as iniciativas mais recentes, da responsabilidade do ACM, nova designação do ACIDI que sucedeu ao ACIME, destaca-se o Kit Intercultural Escolas, a Bolsa de Formadores, o Selo Escola Intercultural e a Rede de Ensino Superior para a Mediação Intercultural.

Há muito por fazer, ficou muito por fazer, mas é justo reconhecer que algo se foi fazendo, nem sempre da melhor forma nem com o alcance pretendido. Portugal é um país culturalmente diverso e mestiço, mas continua, paradoxalmente, a ser um país que resiste em aceitar a diversidade e a diferença.

Ponta Delgada, 27 de junho de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de junho de 2022


Mariya Oktyabrskaya - a abrir julho





Lindas são as mulheres que lutam Mariya Oktyabrskaya a abrir o mês de julho no "momentos"

terça-feira, 28 de junho de 2022

negar o óbvio

imagem retirada da internet




Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) Há muito por fazer, ficou muito por fazer, mas é justo reconhecer que algo se foi fazendo, nem sempre da melhor forma nem com o alcance pretendido. Portugal é um país culturalmente diverso e mestiço, mas continua, paradoxalmente, a ser um país que resiste em aceitar a diversidade e a diferença. (...)