sexta-feira, 1 de maio de 2026

Susan Sarandon - a abrir maio

O percurso de Susan Sarandon não se esgota no brilho do cinema. Ao longo de décadas, a atriz tem feito da sua voz um instrumento político, frequentemente desalinhado com o conforto das maiorias. No que toca à causa palestiniana, Sarandon tem-se posicionado de forma clara, denunciando a ocupação e defendendo os direitos humanos do povo palestiniano, mesmo quando isso lhe trouxe críticas, perda de oportunidades profissionais e campanhas de deslegitimação pública. A sua intervenção não é episódica: inscreve-se numa ética de coerência que atravessa outras lutas: contra a guerra, contra o racismo ou, contra a desigualdade social.

Ao apoiar a causa palestiniana, Sarandon inscreve-se numa tradição de algumas figuras públicas que recusam a neutralidade perante o sofrimento alheio. A sua presença em manifestações, declarações e redes sociais tem contribuído para ampliar a visibilidade de um conflito frequentemente filtrado por narrativas dominantes. Não se trata apenas de um gesto simbólico, mas de uma escolha que evidencia o custo de tomar posição num espaço mediático onde a opinião desalinhada do mainstream é, muitas vezes, punida.

Num tempo em que a palavra pública tende a diluir-se em prudências calculadas, a postura de Susan Sarandon lembra que a consciência pode ser também um ato de risco. Há, no seu percurso, uma espécie de fidelidade a uma ideia simples e exigente: a de que o silêncio, perante a injustiça, é sempre uma forma de consentimento. E é talvez por isso que a sua voz, mesmo perseguida e manietada, continua a ecoar, não como um ruído, mas como uma humana inquietação.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Autonomia: nome e caminho

A Constituição de 1976 deu nome ao que já existia em surdina: a autonomia. Não como concessão, mas como conquista. Uma conquista filha direta do mesmo gesto que devolveu aos portugueses a palavra e o direito de a usar. Antes disso, os Açores viviam encostados ao limite. Uma economia de subsistência, ancorada na terra e no mar; uma indústria quase ausente, e a emigração como destino repetido, tantas vezes a única saída possível. Partia-se como quem respira, por necessidade.

As ilhas estavam distantes. A escola era curta, a saúde escassa, as ligações incertas. E havia um país, que nem sempre, ou quase nunca, chegava.

Depois, veio o tempo da construção. A autonomia abriu caminhos, a Europa trouxe meios, e o arquipélago começou a desenhar outro retrato de si. Mais escolas, mais hospitais, mais portos e aeroportos. Uma economia que, devagar, se vai soltando das amarras antigas. Mas crescer não é o mesmo que equilibrar.

imagem retirada da internet

As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.


Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas.

Abril abriu a porta. Mas atravessá-la continua a ser tarefa inacabada. Há uma autonomia que existe nos textos, outra que vive nos discursos, e uma terceira, esta mais exigente, que só ganha forma na prática quotidiana, nas decisões que não se adiam, nas escolhas que não se delegam. É essa autonomia que ainda falta cumprir por inteiro. Talvez porque a autonomia não se decreta: constrói-se. E constrói-se devagar, como tudo o que importa, com memória, com consciência, com conflito também.

foto de Aníbal C. Pires
O desígnio inicial, o de um desenvolvimento harmonioso de todas as ilhas permanece, em parte, por realizar. E é nesse desfasamento, entre o que fomos capazes de fazer e o que ainda não ousámos ser, que a autonomia se revela, não como herança, mas como responsabilidade.

No fundo, a pergunta permanece simples e difícil: o que queremos fazer com a liberdade que conquistámos?  O verdadeiro sentido da liberdade conquistada em Abril realiza-se quando a autonomia deixa de ser apenas estatuto político e se converta em projeto coletivo, um projeto de cidadania consciente, solidariedade entre ilhas e afirmação plena da açorianidade no espaço português e atlântico.

A autonomia conquistada após o 25 de Abril foi um marco decisivo: deu forma institucional a uma identidade que até então era mais cultural e afetiva, contudo, podemos argumentar que essa autonomia política ainda não se traduziu plenamente numa consciência cívica e cultural consolidada. A identidade açoriana, dir-se-ia, está afirmada no discurso, na simbologia e na afetividade, mas menos consolidada na prática política e no projeto de desenvolvimento, muitas vezes dependente de lógicas externas e de subserviências internas.

Ponta Delgada, 27 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de abril de 2026

ponto de chegada

foto de Aníbal C. Pires

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.

Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas. (...)


domingo, 19 de abril de 2026

para além do índice

imagem retirada da internet
O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) volta a colocar em evidência as assimetrias estruturais que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tende a suavizar, por ser um indicador que não pode ser lido apenas a partir da tabela que ordena os países conforme o seu IDH. O exemplo dos Estados Unidos e do Irão é, a este respeito, particularmente revelador.

Os Estados Unidos mantêm uma posição cimeira no IDH, sustentada por um elevado rendimento nacional bruto per capita, níveis médios de escolaridade relativamente elevados e uma esperança média de vida, igualmente alta, contudo, esta posição deve ser lida com cautela. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição do rendimento, revela um país marcado por profundas clivagens sociais. A concentração de riqueza distorce o impacto real do rendimento médio, criando uma imagem de prosperidade que não se traduz de forma homogénea nas condições de vida da população. Acresce que, em indicadores como a esperança média de vida, os Estados Unidos têm registado estagnações e até retrocessos, em parte associados a desigualdades no acesso à saúde, fenómenos de exclusão e crises sociais persistentes.

O Irão, por seu lado, apresenta um IDH inferior, ainda que seja considerado pelo PNUD, como sendo “Alto”, penalizado por um rendimento per capita significativamente mais baixo que o dos Estados Unidos, porém, quando se analisam isoladamente as componentes da educação e da saúde, o quadro revela maior complexidade. Apesar de mais de quatro décadas de sanções económicas internacionais, o país conseguiu desenvolver sistemas de educação e cuidados de saúde com resultados relativamente no contexto regional e, em alguns indicadores, comparáveis a padrões internacionais de desenvolvimento elevado. A taxa de literacia, a expansão do ensino superior e indicadores de saúde pública demonstram uma capacidade de lidar de forma positiva com as condições adversas que lhe foram impostas externamente que o IDH, centrado numa média agregada, tende a subvalorizar.

sem abrigo em LA - imagem retirada da internet

É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais.


A questão das sanções é incontornável. Durante mais de quarenta anos, o Irão tem enfrentado restrições severas ao comércio internacional, ao investimento e ao acesso a tecnologias. Estas limitações tiveram impactos diretos no crescimento económico e, por consequência, no rendimento per capita uma das variáveis centrais no cálculo do IDH, frequentemente decisiva na diferenciação entre países. Ainda assim, o país conseguiu manter níveis razoáveis de desenvolvimento humano em áreas-chave, o que sugere que políticas públicas orientadas para a educação e a saúde mitigaram os constrangimentos externos.

Em suma, a comparação entre Estados Unidos e Irão evidencia os limites do IDH enquanto medida isolada de avaliação do desenvolvimento. Quando complementado pelo coeficiente de Gini e contextualizado por fatores históricos e políticos, como o regime de sanções, emerge uma leitura mais densa e menos linear: a de que desenvolvimento não é apenas riqueza média, mas também a sua distribuição e a capacidade de resistência perante constrangimentos externos.

Ponta Delgada, 13 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de abril de 2026

quarta-feira, 15 de abril de 2026

índices e coeficientes

imagem retirada da internet

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais. (...)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

fragilidade do turismo na RAA – breve reflexão

foto de Aníbal C. Pires
A preocupação já não é um pressentimento. É a realidade.

Os indicadores disponíveis apontam para um abrandamento da procura turística do destino Açores. Os efeitos não serão uniformes entre ilhas, para o bom e para o mau nunca o são, mas o sinal é claro. E, na verdade, não é novo. Há muito que algumas vozes vinham alertando para a volatilidade estrutural desta indústria, demasiadas vezes ignorada quando os números cresciam e tudo parecia ir para bom porto.

E não! Não se trata apenas do abandono do destino por parte de uma companhia aérea de baixo custo. Esse fator tem peso, naturalmente, mas está longe de explicar, por si só, o que está a acontecer. Há outras variáveis, mais profundas, que ajudam a compreender este abrandamento.

O contexto internacional deteriorou-se. A instabilidade geopolítica, nomeadamente no Médio Oriente, tem efeitos diretos e indiretos nas economias. Desde logo, no aumento dos preços da energia. E, com ele, numa cadeia de consequências previsíveis: subida do custo de vida, pressão inflacionista, e inversão da tendência recente de descida das taxas de juro.

Perante este cenário, os cidadãos retraem-se. Adiam. Selecionam. Cortam no que não é essencial. E, nesse movimento, o turismo, sobretudo em destinos periféricos e de custo elevado, é dos primeiros a ser afetado. Os Açores não escapam a essa lógica.

Ainda assim, importa dizê-lo com clareza: não estamos apenas perante uma crise que nos chega de fora. Estamos também perante um modelo que nunca deixou de ser frágil por dentro.

Os agentes do setor: animação turística, rent-a-car, restauração, hotelaria e alojamento local; têm vindo a público manifestar preocupação e a exigir respostas. Mas fazem-no, em grande medida, centrando o problema na acessibilidade aérea e na ausência de voos de baixo custo.

Essa leitura é, no mínimo, incompleta.

imagem retirada da internet

Os preços praticados no destino são, há muito, motivo de queixa por parte de quem nos visita. Em muitos casos, não acompanhados por níveis de serviço que justifiquem esses valores. O custo elevado da experiência Açores não pode ser atribuído exclusivamente ao preço das passagens aéreas. Há uma responsabilidade interna que não pode continuar a ser ignorada.

Quanto à saída da transportadora de baixo custo, convém não romantizar. Faz parte do seu modelo de negócio. Estas companhias não vivem, sobretudo, da venda de bilhetes, mas das contrapartidas financeiras e operacionais que conseguem negociar com os destinos. Quando encontram condições mais vantajosas, mudam. É a lógica do mercado, no seu estado mais puro. (Há quem goste.)

O senhor Michael O’Leary terá, muito provavelmente, encontrado quem estivesse disposto a oferecer mais. E partiu.

E com o abandono, assistiu-se a reações curiosas. Nas redes sociais, multiplicaram-se agradecimentos emocionados pelo “serviço prestado”, esquecendo-se, talvez, que esse serviço foi amplamente suportado por dinheiros públicos, viajassem ou não os contribuintes nessa transportadora.

Outros foram mais longe, intimando que o(s) governo(s) satisfizessem as exigências da empresa como se o interesse público se devesse submeter, sem reservas, à lógica negocial de uma empresa privada.

E aqui emerge um paradoxo que merece reflexão.

foto de Aníbal C. Pires
Muitos dos que defendem, com naturalidade, o financiamento público de companhias aéreas privadas, são os mesmos que rejeitam, de forma quase instintiva, o financiamento de uma companhia aérea pública, chegando a defender a sua privatização. Esquecem, talvez, que há rotas, serviços e missões que só uma transportadora regional, com responsabilidade pública, consegue assegurar, seja no transporte de doentes, seja na ligação regular entre ilhas, seja no apoio em emergências.

No fundo, talvez esta seja a questão que evitamos enfrentar: queremos um destino competitivo, mas recusamos discutir o modelo que o sustenta.

Queremos voos baratos, mas não queremos pagar o seu verdadeiro custo.

Queremos turistas, mas nem sempre queremos rever a forma como os recebemos.

O turismo, como o mar que nos cerca, nunca foi um lugar de permanência, é fluxo, é maré, é instabilidade. E, no entanto, insistimos em tratá-lo como chão firme.

Talvez este abrandamento não seja apenas um sinal de crise, mas um aviso. Um desses avisos discretos que chegam antes das ruturas maiores.

Porque, no fim, não é a partida de uma companhia aérea que nos deve inquietar verdadeiramente. É a fragilidade do que fica quando ela parte, como era expetável que, mais tarde ou mais cedo, viesse a acontecer.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de abril de 2026


regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

sobreviver à barbárie

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos. (...)

Vanessa Redgrave - a abrir abril

Vanessa Redgrave em 1978

A vida e obra de Vanessa Redgrave não se esgota no brilho do palco ou na consagração do cinema. Há, nesta mulher, uma coerência rara, quase intempestiva, entre a arte e a consciência. Desde os anos 1970, quando a causa palestiniana era ainda mais marginalizada no espaço mediático ocidental, Redgrave recusou o conforto da neutralidade. Fê-lo com a frontalidade de quem sabe que certas causas não admitem meias-palavras: ou se está do lado da dignidade de um povo ou se consente, por omissão, na sua negação.

A sua defesa intransigente da Palestina custou-lhe ostracismo, críticas ferozes e até ameaças, sobretudo após o documentário The Palestinian e o célebre discurso nos Óscares, em 1978, onde denunciou o que chamou de “intimidação sionista”. Mas, ao contrário de tantos que modulam o discurso ao sabor das circunstâncias, Redgrave manteve-se firme, não por provocação, mas por convicção ética. A sua voz, tantas vezes isolada, tornou-se um testemunho incómodo: lembra-nos que o silêncio, quando se torna regra, é também uma forma de cumplicidade.

Aos 88 anos numa manifestação 

Em Vanessa Redgrave há qualquer coisa de antigo, quase trágico, no sentido clássico: a fidelidade a uma verdade interior que não se negoceia, mesmo quando o preço é elevado. A sua posição face à Palestina não é apenas política, é, sobretudo, a recusa frontal de aceitar que a injustiça possa ser normalizada. E talvez por isso a sua voz, ainda hoje, ressoe não como um eco do passado, mas como uma pergunta persistente dirigida ao presente.


quinta-feira, 12 de março de 2026

sinais preocupantes

imagem retirada da internet
A decisão de não reconduzir Rita Rato na direção do Museu do Aljube Resistência e Liberdade causou muita perplexidade a quem tem acompanhado o trabalho desenvolvido naquela instituição. Nos últimos anos, o museu afirmou-se como um dos espaços mais vivos de reflexão sobre a memória da ditadura e da resistência democrática em Portugal, com uma programação rigorosa, plural e exigente. Esse percurso deve muito à direção de Rita Rato, que soube transformar um lugar de memória num espaço ativo de pensamento crítico e de cidadania.

Por isso, a decisão da empresa municipal, Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa, de não a reconduzir no cargo levanta inevitáveis interrogações. Quando um trabalho amplamente reconhecido é interrompido sem explicação clara ou avaliação pública do seu mérito, a suspeita instala-se: não estaremos perante mais um episódio de substituição política, onde o critério da competência cede lugar à lógica da fidelidade partidária?

Num país que conheceu a censura e a repressão durante a ditadura, o museu instalado no antigo cárcere político do Aljube tem uma responsabilidade particular: preservar a memória da liberdade e da resistência ao poder arbitrário. Fragilizar esse projeto por razões de conveniência partidária é um sinal preocupante, não apenas para a cultura, mas para a própria qualidade da nossa democracia.