![]() |
| imagem retirada da internet |
Falava-se de cultura. Da sua capacidade para criar valor, conhecimento, identidade, pensamento, desenvolvimento. Seria natural que se discutisse o papel da criação artística, da ciência, da memória, do património, da educação ou da capacidade dos territórios para produzirem pensamento e desenharem o futuro.
Eis senão quando Bolieiro decidiu falar de Segurança e Defesa. E foi mais longe: apelou ao Governo da República para que encarasse os Açores como uma “oportunidade” para investimentos na área, enquadrados nos compromissos de Portugal com a NATO e a União Europeia, considerando-os uma “inevitabilidade no curto prazo”. Inevitabilidade, uma palavra que merece particular atenção.
A posição geográfica dos Açores é um facto. A sua importância estratégica no Atlântico também. Mas a transformação dessa centralidade em plataforma de investimento militar é uma escolha política, não uma fatalidade geográfica, nem uma inevitabilidade.
E há algo de profundamente anacrónico em apresentar a Região, num encontro dedicado à cultura e ao seu potencial para gerar valor, como uma oportunidade para investimentos ligados à indústria da guerra. Como se, quando chega o momento de pensar o futuro dos Açores, a primeira pergunta continuasse a ser para que podem as ilhas servir, e não para aquilo que a Região quer para si própria.
Desde logo porque segurança não é sinónimo de defesa. Portugal tem compromissos internacionais e a defesa do território é uma responsabilidade do Estado, mas reduzir a segurança à dimensão militar é adotar uma visão redutora, diria mesmo perigosa, e, particularmente inadequada para um território insular como os Açores.
Segurança é, sobretudo, energia, alimentação, saúde, transportes, comunicações, água, habitação, proteção civil, ciência e capacidade de resposta perante uma crise.
É garantir que, perante um sismo, uma erupção vulcânica, uma rutura das ligações marítimas ou aéreas, uma falha energética ou dos cabos submarinos, a Região consegue continuar a funcionar.
Os Açores são um território particularmente vulnerável. Nove ilhas, sistemas energéticos isolados, forte dependência do exterior e grande distância dos centros de decisão. Se o Presidente do Governo Regional quer falar, com seriedade, de segurança, é por aqui que deveria começar.
Investir na autonomia energética, proteger os cabos submarinos, reforçar os serviços públicos, desenvolver a ciência e o conhecimento do mar, melhorar as comunicações e a capacidade de emergência, isso sim, é investir em segurança.
É esta segurança, diretamente ligada à vida das populações, que os Açores e o seu povo tanto necessitam, e não a transformação do arquipélago numa plataforma militar apresentada como inevitável. Veja-se o uso e subsequente abandono da Base das Lajes pelas Forças Armadas estado-unidenses e todos os problemas sociais, económicos e ambientais que ficaram para trás.
![]() |
| imagem retirada da internet |
Os Açores não são apenas uma posição no mapa atlântico. São um território habitado. São pessoas, comunidades, escolas, hospitais, agricultores, pescadores, trabalhadores, crianças e jovens. São cultura, memória e identidade.
A sua importância estratégica deve poder traduzir-se em melhores condições de vida para quem aqui vive, e não apenas em maior utilidade para quem olha para as ilhas a partir de Lisboa, Bruxelas ou Washington.
E quando se fala em “infraestruturas de duplo uso”, a questão deveria ser simples: duplo uso para quem? Uma infraestrutura financiada pelo erário público deve produzir benefícios permanentes para a população, mesmo quando desaparece a sua função militar. Veja-se o caso das Lajes.
Porque investimento não é necessariamente desenvolvimento. Uma obra pode movimentar milhões, gerar contratos e lucros e deixar pouco mais na Região do que a própria infraestrutura.
E a vulnerabilidade? Esta é uma questão que não é despicienda. Quanto mais infraestruturas dos Açores forem integradas em sistemas militares estratégicos, maior poderá ser a sua relevância num eventual conflito internacional. Não significa que a Região se torne necessariamente um alvo, mas é uma irresponsabilidade falar de militarização sem considerar essa possibilidade.
Os Açores precisam de investimento, mas precisam sobretudo de investimento que reduza as suas vulnerabilidades e aumente a sua capacidade de decidir o próprio futuro.
| imagem retirada da internet - "os emigrantes", Domingos Rebelo |
Uma Capital Portuguesa da Cultura deveria ser também uma oportunidade para pensar os Açores para além daquilo que deles esperam os outros e Bolieiro, ao que parece, não quis, ou não soube aproveitar essa oportunidade.
A geografia é uma condição, não é um destino. A questão não deveria ser apenas quanto valem os Açores para Portugal, para a NATO ou para a União Europeia. A questão deve ser: O que é melhor para os Açores e para o seu povo?
Essa é a pergunta que o pensamento e a cultura permitem (devem) fazer quando o poder nos diz que alguma coisa é inevitável. Porque uma sociedade que deixa de questionar as inevitabilidades que lhe são apresentadas já começou, de algum modo, a abdicar de escolher e construir o seu futuro.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 8 de outubro de 2026















