Mostrar mensagens com a etiqueta Emanuel Jorge Botelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emanuel Jorge Botelho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de março de 2018

Da poesia 2 - Emanuel Jorge Botelho

Emanuel Jorge Botelho (foto de Aníbal C. Pires)






Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.









NOTÍCIAS DO CERCO

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois. 


é tudo uma questão de senha. 
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã. 


é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso 
de um golpe de Lua cheia. 

Emanuel Jorge Botelho

domingo, 29 de outubro de 2017

Os Ossos Dentro da Cinza, uma nota e dois poemas

Foto by Aníbal C. Pires
Emanuel Jorge Botelho apresentou ontem, na Livraria Leya SolMar, o seu mais recente livro de poemas, Os Ossos Dentro da Cinza.
Não me cabe falar sobre o poeta nem da sua poesia.
Do homem sou amigo.
Da poesia gosto.
Para mim é quanto baste.
De apreciações, sobre a poesia e o homem, estamos falados, mas não ficaria tudo dito se me quedasse por aqui.
Para conhecerem, um pouco, a poesia de que falo e do que é feito o homem que a escreve, nada melhor que a leitura de dois poemas, do Emanuel Jorge Botelho, insertos no livro Os Ossos Dentro da Cinza.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Outubro de 2017




RUA DO SACO, N.º 15 (II)

o meu vizinho predilecto
morreu na guerra.

ele gostava de mim porque me acenava
quando dizia o meu nome.

no Verão, o meu vizinho passava, todas as manhãs,
perto da minha porta.
ia a caminho do mar.

quando me disseram que ele morrera na guerra
eu ainda não pensava que podia lá morrer.

eu não me recordo do nome do meu vizinho,
e queria tanto dá-lo
à saudade que dele tenho.

Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno


O BANCO DE ANTERO

dois pedaços de madeira
batidos por uma luz amarga.

o dia soube da tua ida ao armeiro,
e ordenou aos pássaros que recolhessem
mais cedo.

estrelas, no Céu, ninguém deixou dito se vieram,
e tu não estarias com elas
mesmo que olhasses para cima
quando o cano te tocou o palato.

sentaste-te porque querias ir-te embora,
farto de forçar o labirinto,
exausto de dizer ao norte
que a bússola é, só, um adereço.

as coisas são como são.
não vale a pena dar-lhes debrum de rosas bravas,
ou colheres de água quente
com três pitadas de açúcar.

foi em Setembro, como podia ter sido em Janeiro.
aguentaste, como um felino,
o coice da solidão,
e disparaste dois tiros
para matar o regresso.

quem te fechou os olhos
ouviu-te agradecer.

Emanuel Jorge Botelho, In Os Ossos Dentro Da Cinza, Edições Averno