quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Volta ao greenwashing

imagem retirada da internet
O Volta foi apresentado como uma importante medida ambiental para aumentar a recolha e a reciclagem de embalagens. Não questiono que possa contribuir para recolher mais embalagens. O que questiono é que se apresente apenas a recolha de resíduos como se fosse a solução para a gestão de um problema ambiental grave.

Porque há uma pergunta que parece estar ausente do discurso: quantas embalagens deixarão de ser produzidas por causa do Volta? A resposta é: nenhuma.

O Volta não reduz a produção de embalagens descartáveis. Não reduz o consumo. Não promove, por si só, a reutilização. Intervém depois de o produto ter sido fabricado, distribuído, comprado, consumido e transformado em resíduo. É, portanto, uma solução para gerir melhor uma consequência, não para eliminar ou diminuir significativamente a causa.

Dir-se-á que é melhor recolher uma embalagem do que deixá-la abandonada. Naturalmente. Mas essa evidência não deve servir para ocultar a questão essencial. Uma embalagem que não é produzida não precisa de ser recolhida, transportada, separada ou reciclada. Uma embalagem reutilizada dezenas de vezes não precisa de ser substituída por dezenas de embalagens descartáveis.

É aqui que a política dos três Rs (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) merece ser recuperada na sua verdadeira hierarquia. Durante anos fomos educados para compreender que os três Rs não eram soluções equivalentes. Primeiro reduzir, depois reutilizar e só finalmente reciclar. Hoje, porém, parece que o primeiro R desapareceu do discurso e o segundo vai pelo mesmo caminho. Ficou a reciclagem, transformada numa espécie de certificado de boa consciência ambiental.

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E isto não é uma questão menor. Reduzir significa produzir menos e consumir menos. Reutilizar significa prolongar a vida dos produtos e diminuir a necessidade de fabricar outros. Reciclar significa recuperar, tanto quanto possível, aquilo que já foi produzido e consumido. As três ações são importantes, mas não têm o mesmo valor ambiental.

A reciclagem é, aliás, a solução que mais facilmente se acomoda à lógica económica dominante. Podemos continuar a produzir, vender e consumir cada vez mais, desde que separemos corretamente os resíduos. O sistema económico permanece praticamente intocado e transfere para o consumidor a responsabilidade pelo impacto ambiental. 

É aqui que o Volta me suscita reservas. Não porque a recolha de embalagens seja inútil, mas porque uma medida de gestão de resíduos pode ser transformada numa bandeira de sustentabilidade. E quando a imagem de uma solução ambiental começa a ser maior do que a transformação efetiva que ela produz, entramos no território do greenwashing.

E há uma ironia nesta história. Chamamos-lhe Volta porque a embalagem volta ao circuito. Mas talvez aquilo de que precisássemos fosse uma política que impedisse que tantas embalagens tivessem de fazer a volta.

Voltar aos três Rs seria, por isso, um bom começo. Não apenas reciclar melhor, mas produzir menos. Não apenas recolher embalagens, mas reutilizá-las. Não apenas ensinar o cidadão a separar resíduos, mas questionar um modelo económico que transforma quase tudo em mercadoria descartável.

A pergunta ambiental decisiva não deveria ser quantas embalagens conseguimos reciclar. Deveria ser quantas conseguimos deixar de produzir. Porque uma sociedade que produz cada vez mais resíduos não se torna sustentável apenas porque aprendeu a reciclá-los melhor. Talvez seja esta a grande volta que falta dar.

Ponta Delgada, 18 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 19 de agosto de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

a volta que falta dar

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) O Volta não reduz a produção de embalagens descartáveis. Não reduz o consumo. Não promove, por si só, a reutilização. Intervém depois de o produto ter sido fabricado, distribuído, comprado, consumido e transformado em resíduo. É, portanto, uma solução para gerir melhor uma consequência, não para eliminar ou diminuir significativamente a causa.

Dir-se-á que é melhor recolher uma embalagem do que deixá-la abandonada. Naturalmente. Mas essa evidência não deve servir para ocultar a questão essencial. Uma embalagem que não é produzida não precisa de ser recolhida, transportada, separada ou reciclada. Uma embalagem reutilizada dezenas de vezes não precisa de ser substituída por dezenas de embalagens descartáveis. (...)


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ignorância e má-fé

Durante alguns dias, Ceuta voltou ao centro das atenções mediáticas. As imagens de milhares de migrantes a atravessar a fronteira foram apresentadas como uma nova 'invasão' da Europa. Muito se escreveu e comentou sobre o assunto, mas também muito se disse sem rigor. Vale, por isso, a pena recordar alguns factos que ajudam a compreender uma realidade bem mais complexa do que a narrativa dominante pretende fazer crer.

Face a algumas imprecisões a que muitos cidadãos são permeáveis e aceitam como verdades absolutas informações que raramente questionam, julgo ser importante trazer a este espaço algumas reflexões que, no essencial, visam contribuir com alguns elementos de ponderação e opinião sobre a dita “invasão” da Europa por migrantes africanos. Desde logo clarificar que Ceuta é geograficamente território africano.

Ceuta é um território sobre o qual Marrocos reivindica soberania, mas que por enquanto continua sob administração do reino de Espanha - resquícios do colonialismo -, facto que levou alguns dirigentes políticos de oposição e chefes de governo europeus a pedirem a suspensão das regras do espaço Schengen, ou mesmo expulsar Espanha deste acordo europeu que permite a livre circulação de cidadãos nos países da União Europeia que a ele aderiram. Esqueceram-se, ou talvez ignorassem que Ceuta, embora seja um território sob administração espanhola, não integra o espaço Schengen, ou seja, para sair de Ceuta é necessário passaporte para passar a fronteira e viajar para Espanha ou qualquer outro país, europeu ou não. Os ideólogos neofascistas sabem muito bem como utilizar a mentira e as meias-verdades para mobilizar os seus fiéis seguidores.

A questão de que vos tenho vindo a falar não se reduz a Ceuta, nem aos incautos cidadãos que nadaram alguns metros para passar do reino de Marrocos, para um dos enclaves que o reino de Espanha administra no continente africano. A questão é mais vasta e complexa e terá sido orquestrada para prejudicar o governo de Espanha, presidido por Pedro Sanchez. O primeiro-ministro espanhol por quem não nutro particular simpatia, mas reconheço que no contexto dos países da UE e da OTAN tem assumido posições desalinhadas da maioria dos seus parceiros. Fê-lo na defesa dos direitos do povo palestiniano e da Palestina, da agressão estado-unidense ao Irão e na solidariedade a Francesca Albanese. Isto é, no seio de organizações submetidas a interesses que não são, de facto, os interesses dos povos, direi mesmo que este “incidente” poderá também ser interpretado como uma retaliação dos Estados Unidos e da organização sionista que ocupa a Palestina, mas também do reino de Marrocos que não vê com bons olhos a aproximação entre a Espanha e a Argélia.

A monarquia marroquina reivindica legitimamente a soberania sobre Ceuta e Melila. Falta-lhe, porém, autoridade moral para sustentar essa reivindicação enquanto mantiver o Saara Ocidental sob ocupação. Também o governo espanhol sacrifica o direito à autodeterminação do povo saarauí em nome da preservação daqueles enclaves. Não deixa de ser significativo que tal aconteça depois dos Acordos de Madrid (1975), através dos quais Espanha abandonou a administração do território, abrindo caminho à ocupação por Marrocos e Mauritânia (1976), uma solução nunca reconhecida pelo direito internacional.

Antes de aceitarmos como evidentes certas narrativas, convém perguntar quem beneficia com elas.

Ponta Delgada, 3 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 5 de agosto de 2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

geografias

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) Desde logo clarificar que Ceuta é geograficamente território africano.

Ceuta é um território sobre o qual Marrocos reivindica soberania, mas que por enquanto continua sob administração do reino de Espanha - resquícios do colonialismo -, facto que levou alguns dirigentes políticos de oposição e chefes de governo europeus a pedirem a suspensão das regras do espaço Schengen, ou mesmo expulsar Espanha deste acordo europeu que permite a livre circulação de cidadãos nos países da União Europeia que a ele aderiram. Esqueceram-se, ou talvez ignorassem que Ceuta, embora seja um território sob administração espanhola, não integra o espaço Schengen, ou seja, para sair de Ceuta é necessário passaporte para passar a fronteira e viajar para Espanha ou qualquer outro país, europeu ou não. Os ideólogos neofascistas sabem muito bem como utilizar a mentira e as meias-verdades para mobilizar os seus fiéis seguidores. (...)


sábado, 1 de agosto de 2026

Susan Abulhawa - a abrir agosto

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Susan Abulhawa é uma escritora, ensaísta e ativista palestiniana, nascida no Kuwait, filha de refugiados palestinianos expulsos na Nakba de 1948. A sua obra literária, profundamente marcada pela experiência do exílio e da diáspora, conquistou reconhecimento internacional com o romance Morning in Jenin, ao qual se seguiram The Blue Between Sky and Water e Against the Loveless World. Nos seus livros, a história da Palestina é narrada a partir da vida quotidiana das suas personagens, dando voz às consequências humanas da ocupação, do deslocamento forçado e da perda da terra, numa escrita que alia rigor histórico, sensibilidade literária e forte compromisso ético.