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Falo da chamada linguagem inclusiva ou neutra. Um debate que ganhou espaço público, atravessou salas de aula, documentos oficiais, discursos políticos e até conversas banais, dessas que podem começar com um simples: “boa noite”.
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A questão tem a sua génese quando a linguagem, em vez de abrir, complica; em vez de incluir, fragmenta. Dizer “boa noite a todos e a todas” parece, à primeira vista, um gesto de cuidado e de respeito pelos géneros. Contudo, se o argumento for levado até às últimas consequências, ele revela uma armadilha: ao nomear explicitamente o masculino e o feminino, acabam por ficar de fora as pessoas que não se reconhecem em nenhum desses géneros, ou seja, a expressão que pretendia ser inclusiva, exclui. A solução que se vai vulgarizando é, então, acrescentar mais uma camada: “… a todos, a todas e a todes.”, ou optar simplesmente por “boa noite a todes”, como se a palavra, por si só, pudesse resolver uma questão que é social, cultural e profundamente humana.
É aqui que a língua começa a tropeçar em si própria. Do ponto de vista linguístico, a palavra “todos” já cumpre a função de incluir sem discriminar. Não por ser perfeita, mas por ser uma convenção funcional, construída ao longo do tempo, que não pergunta pelas identidades nem exige explicações. “Todos” não exclui, integra. Não classifica, é abrangente. A língua portuguesa, como tantas outras, funciona com géneros gramaticais que não coincidem, necessariamente, com géneros identitários. Confundir uma coisa com a outra é exigir à gramática aquilo que pertence ao campo da ética, da política e do respeito social.
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A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade.
Talvez valha a pena regressar ao essencial: falar com respeito, agir com dignidade, reconhecer o outro na sua singularidade, ou seja, sem exigir à língua aquilo que cabe à sociedade transformar. Porque, para todos os efeitos, um cumprimento dito com atenção e verdade inclui sempre mais do que qualquer fórmula cuidadosamente ensaiada. E isso, curiosamente, a língua já sabia antes de nós. Não são as palavras, é a atitude e o respeito pela diferença que verdadeiramente importa.
Ponta Delgada, 2 de fevereiro de 2026



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