domingo, 22 de fevereiro de 2026

a normalização da barbárie

imagem retirada da internet

A Palestina não é um lugar distante.

É um nome que arde no mapa e um corpo ferido no tempo.

Não é apenas Gaza, esse fragmento de mundo cercado por muros e números; é toda a terra palestiniana, atravessada por décadas de violência metódica. Uma violência que não grita apenas quando cai a bomba, mas que sussurra todos os dias, quando uma casa é tomada, uma oliveira arrancada, um nome apagado.

O que ali acontece não é excesso nem desvio. É um projeto colonial.

Como tantos outros na história, nasceu do gesto inaugural do colonialismo: ocupar, substituir, reescrever. Onde havia aldeias, erguem-se cidades coloniais; onde existia memória, instala-se a amnésia forçada. O mapa vai sendo cartografado como se a terra não tivesse já voz, como se os mortos não deixassem vestígios.

Durante demasiado tempo, o mundo escolheu não ver. A barbárie prolongada foi tratada como fundo de cenário, ruído distante, tragédia repetida até se tornar tolerável. Mesmo quando os olhos globais se voltaram para Gaza, foi por instantes breves, sob a ilusão de um cessar-fogo anunciado e nunca cumprido. Bastou que outras ameaças ocupassem o ecrã para que a Palestina regressasse ao lugar que o mundo lhe tem reservado: o da dor invisível.

imagem retirada da internet
Mas nem tudo é silêncio. Há vozes que persistem, como pequenas fogueiras acesas na noite escura. A relatora especial das Nações Unidas, Francesca Albanese, tem recusado a linguagem neutra que absolve o crime. Há figuras públicas que, sabendo o custo da palavra, escolhem dizê-la, como Pepe Guardiola, Susan Sarandon, e fazem-no não como celebridades, mas como cidadãos que recusam o conforto do silêncio. Há ainda milhões de anónimos que marcham, escrevem, boicotam, lembram. A dignidade, por vezes, sobrevive assim: em gestos dispersos, mas obstinados.

Ainda assim, uma narrativa insiste em impor-se: a de que a Palestina é palco de um conflito religioso ancestral, insolúvel, quase mítico. Uma história conveniente, que transforma a ocupação em destino e a violência em desígnio divino. Segundo essa versão, um povo “eleito” reclamaria a terra como herança sagrada, da Palestina aos territórios limítrofes, invocando a promessa antiga da “terra prometida”.

Mas esta não é uma guerra de deuses.

É uma disputa de poder.

O sionismo não é fé, é ideologia. Não é religião, é programa político. E como todos os programas de supremacia, funda-se na ideia de que uns têm direito pleno à terra, à vida e à história, enquanto outros devem aceitar a condição de sobra, de obstáculo, de erro a corrigir. Não por acaso, muitos judeus, crentes e não crentes, recusaram e recusam este projeto, precisamente por reconhecerem nele uma traição ética à sua própria tradição e religião.

“Israel” não é um Estado judaico.

“Israel” é um Estado sionista.

imagem retirada da internet
Confundir judaísmo com sionismo é um ato de violência simbólica. Serve para legitimar a ocupação e, ao mesmo tempo, para silenciar a dissidência judaica. Serve para chamar conflito ao que é dominação, segurança ao que é cerco, defesa ao que é massacre. Serve, sobretudo, para tornar aceitável o inaceitável.

E assim, entre palavras gastas e eufemismos bem polidos, o mundo vai aprendendo a conviver com o intolerável. A Palestina permanece ali, ferida e presente, como um espelho incómodo. Não pede piedade. Exige justiça. E enquanto essa exigência for tratada como excesso, o verdadeiro escândalo não será apenas o que acontece na Palestina, mas aquilo em que o mundo se transforma ao permitir que a barbárie seja um novo normal.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de fevereiro de 2026


Sem comentários: