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| Aníbal C. Pires - do arquivo pessoal |
Se defendo a causa palestiniana, tenho de demonstrar que não sou antissemita. Quando falo do conflito entre a Ucrânia e a Rússia e não reduzo a discussão a 24 de fevereiro de 2022, tenho de provar que não sou putinista. Quando condeno o rapto de Nicolás Maduro, a 3 de janeiro de 2026, e classifico esse ato como terrorismo de Estado, tenho de deixar claro que não nutro qualquer simpatia pela personagem.
Não é fácil, para um desalinhado como eu, argumentar sem perder tempo a desconstruir o ruído que as narrativas dominantes produzem e que tantos interlocutores, consciente ou inconscientemente, reproduzem. O objetivo parece ser sempre o mesmo: reduzir o debate à simplificação de uma data, à divisão entre bons e maus, à obrigação de escolher um lado sem questionar os termos em que essa escolha nos é apresentada.
Há uma espécie de pensamento formatado que dispensa a análise, desconfia da dúvida e transforma qualquer posição numa declaração de fidelidade. O debate deixa de ser um espaço de confronto democrático para se converter num exercício de demarcação. Bem sei que nem toda a exigência de esclarecimento é uma tentativa de silenciamento, mas …
A minha condição de militante do PCP, conhecida de quem acompanha a minha intervenção pública, não me dispensa deste exercício de esclarecimento. Pelo contrário, por vezes parece torná-lo obrigatório. Como se a pertença partidária anulasse a capacidade de pensar pela própria cabeça, como se uma convicção política impedisse a análise crítica dos acontecimentos ou determinasse, antecipadamente, todas as respostas.
Não reivindico uma neutralidade que não tenho. Tenho opções políticas, ideológicas e partidárias, assumo-as e não vejo razão para as esconder. Mas ter opções não significa abdicar do pensamento crítico, nem aceitar que a realidade seja reduzida às conveniências de cada momento. Os princípios não podem depender dos protagonistas, nem a sua aplicação variar consoante o campo político em que estes se situam.
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| imagem retirada da internet |
Pensar exige tempo, contexto e disponibilidade para questionar aquilo que nos é apresentado como indiscutível. Exige, sobretudo, a coragem de não aceitar que a discordância seja confundida com cumplicidade, ou que a crítica a uma posição seja automaticamente interpretada como adesão à posição contrária.
Não tenho a pretensão de possuir respostas para tudo. Tenho, isso sim, a convicção de que nenhuma causa se torna mais justa por dispensar o pensamento crítico, nem nenhuma verdade se torna mais sólida por ser protegida do contraditório.
Talvez seja esse o incómodo de pensar fora da caixa: recusar a escolha entre respostas prontas, mesmo quando essa recusa nos deixa sem o conforto dos aplausos. Porque, quando o debate público nos obriga a justificar permanentemente aquilo que não somos, sobra cada vez menos espaço para discutir aquilo que verdadeiramente importa.
Ponta Delgada, 12 de outubro de 2026


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