quarta-feira, 14 de outubro de 2026

pensar fora da caixa

Aníbal C. Pires - do arquivo pessoal
Quando advogo em defesa de uma causa, de um evento, quando tomo posição ou emito uma opinião, tenho sempre, ou quase sempre, de esclarecer que não sou, não me identifico, não apoio, o que quer que seja.

Se defendo a causa palestiniana, tenho de demonstrar que não sou antissemita. Quando falo do conflito entre a Ucrânia e a Rússia e não reduzo a discussão a 24 de fevereiro de 2022, tenho de provar que não sou putinista. Quando condeno o rapto de Nicolás Maduro, a 3 de janeiro de 2026, e classifico esse ato como terrorismo de Estado, tenho de deixar claro que não nutro qualquer simpatia pela personagem.

Não é fácil, para um desalinhado como eu, argumentar sem perder tempo a desconstruir o ruído que as narrativas dominantes produzem e que tantos interlocutores, consciente ou inconscientemente, reproduzem. O objetivo parece ser sempre o mesmo: reduzir o debate à simplificação de uma data, à divisão entre bons e maus, à obrigação de escolher um lado sem questionar os termos em que essa escolha nos é apresentada.

Há uma espécie de pensamento formatado que dispensa a análise, desconfia da dúvida e transforma qualquer posição numa declaração de fidelidade. O debate deixa de ser um espaço de confronto democrático para se converter num exercício de demarcação. Bem sei que nem toda a exigência de esclarecimento é uma tentativa de silenciamento, mas …  

A minha condição de militante do PCP, conhecida de quem acompanha a minha intervenção pública, não me dispensa deste exercício de esclarecimento. Pelo contrário, por vezes parece torná-lo obrigatório. Como se a pertença partidária anulasse a capacidade de pensar pela própria cabeça, como se uma convicção política impedisse a análise crítica dos acontecimentos ou determinasse, antecipadamente, todas as respostas.

Não reivindico uma neutralidade que não tenho. Tenho opções políticas, ideológicas e partidárias, assumo-as e não vejo razão para as esconder. Mas ter opções não significa abdicar do pensamento crítico, nem aceitar que a realidade seja reduzida às conveniências de cada momento. Os princípios não podem depender dos protagonistas, nem a sua aplicação variar consoante o campo político em que estes se situam.

imagem retirada da internet

É precisamente aqui que o pensamento simplista revela a sua utilidade política. Ao impor-nos uma escolha entre campos previamente definidos, dispensa-nos de compreender as contradições, as responsabilidades históricas e os interesses económicos e geopolíticos que atravessam os conflitos. O mundo torna-se mais fácil de explicar, mas também mais fácil de manipular. E a narrativa dominante agradece.


Pensar exige tempo, contexto e disponibilidade para questionar aquilo que nos é apresentado como indiscutível. Exige, sobretudo, a coragem de não aceitar que a discordância seja confundida com cumplicidade, ou que a crítica a uma posição seja automaticamente interpretada como adesão à posição contrária.

Não tenho a pretensão de possuir respostas para tudo. Tenho, isso sim, a convicção de que nenhuma causa se torna mais justa por dispensar o pensamento crítico, nem nenhuma verdade se torna mais sólida por ser protegida do contraditório.

Talvez seja esse o incómodo de pensar fora da caixa: recusar a escolha entre respostas prontas, mesmo quando essa recusa nos deixa sem o conforto dos aplausos. Porque, quando o debate público nos obriga a justificar permanentemente aquilo que não somos, sobra cada vez menos espaço para discutir aquilo que verdadeiramente importa.

Ponta Delgada, 12 de outubro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 14 de outubro de 2026

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