sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A inevitabilidade de Bolieiro

imagem retirada da internet
Há declarações que se tornam particularmente reveladoras pelo lugar e pelo momento em que são proferidas. Foi o que aconteceu com as palavras do presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, num encontro “Fora da Caixa” integrado na programação de Ponta Delgada -Capital Portuguesa da Cultura 2026, subordinado ao tema “Quando a Cultura Gera Valor”.

Falava-se de cultura. Da sua capacidade para criar valor, conhecimento, identidade, pensamento, desenvolvimento. Seria natural que se discutisse o papel da criação artística, da ciência, da memória, do património, da educação ou da capacidade dos territórios para produzirem pensamento e desenharem o futuro.

Eis senão quando Bolieiro decidiu falar de Segurança e Defesa. E foi mais longe: apelou ao Governo da República para que encarasse os Açores como uma “oportunidade” para investimentos na área, enquadrados nos compromissos de Portugal com a NATO e a União Europeia, considerando-os uma “inevitabilidade no curto prazo”. Inevitabilidade, uma palavra que merece particular atenção.

A posição geográfica dos Açores é um facto. A sua importância estratégica no Atlântico também. Mas a transformação dessa centralidade em plataforma de investimento militar é uma escolha política, não uma fatalidade geográfica, nem uma inevitabilidade.

E há algo de profundamente anacrónico em apresentar a Região, num encontro dedicado à cultura e ao seu potencial para gerar valor, como uma oportunidade para investimentos ligados à indústria da guerra. Como se, quando chega o momento de pensar o futuro dos Açores, a primeira pergunta continuasse a ser para que podem as ilhas servir, e não para aquilo que a Região quer para si própria.

Desde logo porque segurança não é sinónimo de defesa. Portugal tem compromissos internacionais e a defesa do território é uma responsabilidade do Estado, mas reduzir a segurança à dimensão militar é adotar uma visão redutora, diria mesmo perigosa, e, particularmente inadequada para um território insular como os Açores.

Segurança é, sobretudo, energia, alimentação, saúde, transportes, comunicações, água, habitação, proteção civil, ciência e capacidade de resposta perante uma crise.

É garantir que, perante um sismo, uma erupção vulcânica, uma rutura das ligações marítimas ou aéreas, uma falha energética ou dos cabos submarinos, a Região consegue continuar a funcionar.

Os Açores são um território particularmente vulnerável. Nove ilhas, sistemas energéticos isolados, forte dependência do exterior e grande distância dos centros de decisão. Se o Presidente do Governo Regional quer falar, com seriedade, de segurança, é por aqui que deveria começar.

Investir na autonomia energética, proteger os cabos submarinos, reforçar os serviços públicos, desenvolver a ciência e o conhecimento do mar, melhorar as comunicações e a capacidade de emergência, isso sim, é investir em segurança.

É esta segurança, diretamente ligada à vida das populações, que os Açores e o seu povo tanto necessitam, e não a transformação do arquipélago numa plataforma militar apresentada como inevitável. Veja-se o uso e subsequente abandono da Base das Lajes pelas Forças Armadas estado-unidenses e todos os problemas sociais, económicos e ambientais que ficaram para trás.

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Bolieiro fala dos Açores como uma “oportunidade” para o país. A expressão é reveladora. Oportunidade para quem? Para Portugal? Para a NATO? Para a União Europeia? Para os grandes interesses económicos que acompanham os investimentos estratégicos? Ou para os açorianos?

Os Açores não são apenas uma posição no mapa atlântico. São um território habitado. São pessoas, comunidades, escolas, hospitais, agricultores, pescadores, trabalhadores, crianças e jovens. São cultura, memória e identidade.

A sua importância estratégica deve poder traduzir-se em melhores condições de vida para quem aqui vive, e não apenas em maior utilidade para quem olha para as ilhas a partir de Lisboa, Bruxelas ou Washington.

E quando se fala em “infraestruturas de duplo uso”, a questão deveria ser simples: duplo uso para quem? Uma infraestrutura financiada pelo erário público deve produzir benefícios permanentes para a população, mesmo quando desaparece a sua função militar. Veja-se o caso das Lajes.

Porque investimento não é necessariamente desenvolvimento. Uma obra pode movimentar milhões, gerar contratos e lucros e deixar pouco mais na Região do que a própria infraestrutura.

E a vulnerabilidade? Esta é uma questão que não é despicienda. Quanto mais infraestruturas dos Açores forem integradas em sistemas militares estratégicos, maior poderá ser a sua relevância num eventual conflito internacional. Não significa que a Região se torne necessariamente um alvo, mas é uma irresponsabilidade falar de militarização sem considerar essa possibilidade.

Os Açores precisam de investimento, mas precisam sobretudo de investimento que reduza as suas vulnerabilidades e aumente a sua capacidade de decidir o próprio futuro.

imagem retirada da internet - "os emigrantes", Domingos Rebelo
Precisam de energia menos dependente do exterior, de transportes mais seguros, de comunicações protegidas, de ciência, de serviços públicos, de habitação, de emprego qualificado, de conhecimento e de cultura. E é precisamente por isso que as palavras de Bolieiro, naquele contexto, soam tão deslocadas.

Uma Capital Portuguesa da Cultura deveria ser também uma oportunidade para pensar os Açores para além daquilo que deles esperam os outros e Bolieiro, ao que parece, não quis, ou não soube aproveitar essa oportunidade.

A geografia é uma condição, não é um destino. A questão não deveria ser apenas quanto valem os Açores para Portugal, para a NATO ou para a União Europeia. A questão deve ser: O que é melhor para os Açores e para o seu povo?

Essa é a pergunta que o pensamento e a cultura permitem (devem) fazer quando o poder nos diz que alguma coisa é inevitável. Porque uma sociedade que deixa de questionar as inevitabilidades que lhe são apresentadas já começou, de algum modo, a abdicar de escolher e construir o seu futuro.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 8 de outubro de 2026


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