quarta-feira, 2 de abril de 2025

a força imagética da palavra poética – Infinito sem Nome, Carlos Enes.

foto de Paulo R. Cabral
    Carlos Enes é um terceirense da Vila Nova, um açoriano da Terceira, um português dos Açores, mas Carlos Enes é, sobretudo, um cidadão do Mundo que não deixa o tempo e a vida passarem-lhe ao lado. Foi professor do ensino secundário e superior e continua a ser um ativista social, cultural e político.

A sua vasta obra publicada traduz um espírito atento e irrequieto, mas também a diversidade dos seus interesses, de onde resultaram obras em áreas tão diversas como a historiografia - colaboração na Enciclopédia Açoriana e na História dos Açores, e a publicação do livro Temas da História Açoriana -, na etnografia insular - Carnaval e as Festas do Espírito Santo, na ilha Terceira -, mas também da escrita fora dos cânones literários como seja o seu livro A Galope Numa Noite de Búzios, ou dentro do cânone pois, não sou muito dado a catalogar a forma como os autores utilizam e organizam as palavras. Há uma outra obra que gostaria de referenciar antes de referir as incursões do Carlos Enes na ficção e na poesia, e anteriores a este Infinito Sem Nome.

Trata-se da obra A Oposição Democrática em Ponta Delgada - Das eleições de 1969 à Cooperativa Sextante, onde Carlos Enes com o rigor do historiador, ainda que comprometido, grafou um importante período da história política e cultural dos Açores que permite aos leitores conhecerem alguns episódios e personalidades que, na Região, lutaram contra o fascismo português. Esta obra à semelhança do já referenciados livros A Galope Numa Noite de Búzios e Temas da História Açoriana foram editados com a chancela da Letras Lavadas. 

foto de Paulo R. Cabral

    Carlos Enes tem explorado outros territórios literários, como a ficção, no romance A Terra do Bravo, e na poesia, em Cicatriz de Chuva. Agora, regressa ao universo poético com Infinito Sem Nome.

    A capa merece, desde logo, uma apreciação pois é, diria, o primeiro contato que temos com o objeto literário. A composição gráfica utilizada e o título podem aproximar ou afastar, potenciais leitores e, por essa e outras razões deve ser devidamente considerada pelos autores e editores. Neste caso e no que diz respeito à imagem - uma colagem de recortes fotográficos, criada pelo autor -, muito se poderá dizer, mas eu ficar-me-ei apenas por alguns apontamentos mais ou menos subjetivos, que ouso a partilhar com os leitores.

- Em virtude da fragmentação de um corpo humano composto por elementos que dele não fazem parte e da sua própria assimetria, esta imagem convoca sentimentos de estranheza e até desconforto, poderá ser entendida como uma crítica à padronização dos corpos, por outro lado o uso de partes do corpo humano e a sua fusão com elementos naturais e artificiais podem induzir à reflexão sobre a relação do corpo com a natureza;

-  A mistura entre estes elementos cria um corpo que parece ao mesmo tempo orgânico e artificial, como se estivesse num estado de mutação ou adaptação. Os galhos secos que substituem os membros inferiores sugerem raízes, crescimento ou até mesmo fragilidade, enquanto os pés desiguais podem remeter à instabilidade ou a uma caminhada desigual pelo mundo.

- A imagem sugere, ou pode sugerir, que a comunicação não se limita à fala ou aos gestos convencionais, mas pode emergir de formas não lineares, simbólicas e até desconfortáveis. A boca entrelaçada ao cabelo pode representar uma expressão através da memória, da cultura ou da ancestralidade.

Por fim, no que concerne à imagem da capa, e por se tratar de um livro de poesia direi que a imagem poderá ainda significar que: - A forma poética que o autor utiliza não necessita, nem tem obrigação, de seguir padrões literários e líricos, sendo que esta é uma premissa que julgo ser comum a todos os poetas.

foto de Paulo R. Cabral

    Quanto ao título diria que, Infinito Sem Nome sugere um antagonismo poético estimulante. O infinito, por definição, escapa aos limites e classificações, mas ao qualificá-lo como sem nome, o título reforça a ideia de algo inatingível, impossível de definir, uma vastidão de silêncios, ou seja, de interioridade que o poeta ousa partilhar.

    A ausência de nome neste infinito pode remeter àquilo que existe antes ou além da linguagem, ao indizível que a poesia tenta capturar sem nunca se deixar aprisionar. Há uma musicalidade e uma leveza no título, mas também um certo mistério, como se o autor convidasse o leitor a explorar um território de liberdade sem limites.

    Sobre a poesia de Carlos Enes já muito foi dito, mormente, pelo Vítor Rui Dores e pelo Acácio Pinto, o que me deixa pouco espaço para tecer algumas considerações sem papaguear algumas apreciações já feitas ou ser tentado a dizer o óbvio, daí ter recorrido ao objeto gráfico,  em particular à imagem da capa, e ao título deste belo poemário que o autor, em boa hora, decidiu partilhar connosco.

Mas vamos aos poemas. Carlos Enes apresenta, em Infinito Sem Nome, uma poesia visceralmente táctil, marcada por imagens evocativas, onde o universo natural e as emoções se enlaçam. O autor transita entre a contemplação do efémero e a busca pelo essencial, traduzindo as suas inquietudes em imagens poéticas.

foto de Paulo R. Cabral
    A poesia de Carlos Enes navega entre a nostalgia e o desejo como se cada poema fosse uma tentativa de resgate do passado com o futuro presente.

    O mar, o vento, a luz e os ciclos naturais são uma presença constante, ocasionalmente como espelhos da condição humana e das suas transformações. O poeta questiona-se sobre o tempo, a memória e o amor, mas sem buscar respostas definitivas e conduz-nos pela incerteza como sendo, e assim é, uma parte das nossas vidas.

A linguagem, por vezes crua, por vezes delicada, confere um ritmo envolvente à obra. A fragmentação de imagens e a riqueza sensorial criam uma atmosfera que oscila entre o real e o utópico, mas Carlos Enes, na sua poesia, aflora também uma dimensão social e crítica que reflete um olhar atento às contradições do nosso mundo.

Os poemas de Carlos Enes têm uma força imagética poderosa e relevante à qual não se fica indiferente. A estrutura livre, com versos curtos e pausas potenciam a absorção de imagens e sentimentos, a ausência de rimas regulares deixa um espaço de liberdade para que o ritmo seja construído pela musicalidade própria das palavras.

Julgo poder afirmar-se que Infinito Sem Nome não se limita a uma única identidade poética, mas flutua entre o íntimo e o universal, entre a contemplação e a inquietação, num jogo constante de metáforas que nos desafiam a sentir, muito mais do que a qualquer tentativa de compreender. Neste Infinito Sem Nome, Carlos Enes oferece-nos uma poesia de múltiplas camadas, que desafia a perceção linear e convida a sentir antes de interpretar. Um livro para ser relido, sentido e reinventado a cada leitura.

Ponta Delgada, 28 de março de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 2 de abril de 2025

terça-feira, 1 de abril de 2025

ousadias poéticas

foto de Paulo R. Cabral

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Por fim, no que concerne à imagem da capa, e por se tratar de um livro de poesia direi que a imagem poderá ainda significar que: - A forma poética que o autor utiliza não necessita, nem tem obrigação, de seguir padrões literários e líricos, sendo que esta é uma premissa que julgo ser comum a todos os poetas.

Quanto ao título diria que, Infinito Sem Nome sugere um antagonismo poético estimulante. O infinito, por definição, escapa aos limites e classificações, mas ao qualificá-lo como sem nome, o título reforça a ideia de algo inatingível, impossível de definir, uma vastidão de silêncios, ou seja, de interioridade que o poeta ousa partilhar.

A ausência de nome neste infinito pode remeter àquilo que existe antes ou além da linguagem, ao indizível que a poesia tenta capturar sem nunca se deixar aprisionar. Há uma musicalidade e uma leveza no título, mas também um certo mistério, como se o autor convidasse o leitor a explorar um território de liberdade sem limites. (...)


mulheres antifascistas - a abrir Abril


 "(…) Menos conhecidos..., são os nomes das mulheres que ficaram para a história do feminismo antifascista português, como Maria Lamas, que foi presa, torturada e viu-se obrigada a exilar-se; ou as ‘Três Marias’, julgadas pela obra censurada ‘Novas Cartas Portuguesas’"

Muito menos sabemos da luta de mulheres militantes comunistas como Conceição Matos, Fernanda Tomás ou mesmo Catarina Eufémia, sendo que atividade clandestina de Eufémia acabou quando foi assassinada numa greve em que ceifeiras reivindicavam melhores condições de trabalho (Samara, 2021). Pouco destaque se dá a mulheres como Maria Custódia Chibante, torturada nas prisões do fascismo, Isabel Aboim Inglês, Julieta Gandra, entre as 1755 mulheres que estiveram nas cadeias do fascismo português (Cova e Costa Pinto, 1997). Compreende-se, então, que o papel subalterno das mulheres nas sociedades traduz-se (também) na subalternização das suas conquistas e lutas – desde a escala à relevância. (...)"

Este excerto foi retirado do sítio "ORBIS" e o artigo completo pode ser acedido aqui


segunda-feira, 31 de março de 2025

da cretinice reinante

A quantidade de lixo publicado nas redes sociais é assustadora. Prezo e defendo a liberdade de expressão, pela qual sempre lutei e lutarei, mas não posso pactuar com a estupidificação reinante ancorada no revisionismo histórico e na narrativa reprodutiva da asneira, atrás de asneira que faz doutrina entre os analfabetos funcionais que por aí pululam. 

Vou ter de dar corpo a uma campanha de higienização para evitar os dislates de supostos especialistas que mais não fazem do que regurgitar o discurso dominante que, como se sabe, é o da ideologia dominante da qual quero distância, ou seja, distância de Trump, Macron, Le Pen, Kallas, Ursulla, Costa, Biden, Starmer, Montenegro, Rui Tavares, de entre e outros (muitos) quejandos que surfam a onda da cretinice, mas sobretudo dos imbecis que papagueiam até ao vómito as mais insólitas imbecilidades.  


sábado, 22 de março de 2025

poemas com propósito

renovar


da verde árvore
cai a folha morta
renova-se a árvore
putrefaz a folha


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Outubro de 2016, (in Esperança Velha e outros poemas, Letras Lavadas, 2020)



perfídia


o poeta 
trocou o futuro
pelo passado

o poeta
trocou o sonho
pelo pesadelo

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto vazio de ideias

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto lotado pela perfídia

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto sem palavras      nem poesia


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 19 de Outubro de 2016, (in Destroços à Deriva, Letras Lavadas, 2024)




poesia portuguesa contra o massacre na Palestina

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) convidou mais de quatro dezenas de autores portugueses a responder a uma dúvida: «E depois de Gaza, é possível ainda a poesia?».

São exatamente quarenta e quatro os/as poetas que responderam ao desafio contribuindo para a coletânea de poemas que a AJHLP acaba de editar na colecção «explicação das árvores» com o título o silêncio dos meninos mortos e o subtítulo poemas portugueses contra o massacre do povo palestiniano.


Este foi o meu contributo:


guardam sonhos

no jardim das oliveiras 
guardam sonhos
de paz

do rio até ao mar
guardam sonhos
de liberdade


Aníbal C. Pires, novembro de 2023

quarta-feira, 19 de março de 2025

Dos regimes

    O mundo é um lugar dominado por gente sem rosto que utiliza o rosto de vassalos bem pagos para atingir os seus propósitos, há algumas exceções, mas como sabemos as exceções apenas confirmam a regra.

    A União Europeia (UE), organização política à qual pertencemos - embora nunca nos tenham questionado se queríamos -, tem vindo a trilhar um caminho cada vez mais semelhante a um regime, onde a democracia e a liberdade de expressão não passam de meras formalidades nos tratados e na propaganda oficial, pois o seu exercício está cerceado e, quem não seguir a narrativa do mainstream arrisca-se sofrer graves penalizações, seja pela prisão, seja pela repressão policial, seja pela ostracização e pelo silenciamento mediático, seja pelo empobrecimento controlado com políticas assistencialistas que é uma das mais eficazes armas de controle e domínio dos poderes para manter a letargia. E é, também, pela indução do espetro da insegurança e do medo que melhor nos vão controlando, como se tem constatado nas últimas semanas com todos os apelos à guerra acenando, uma vez mais, com o perigo russo.

    Pablo Hasel, rapper catalão, preso, há mais de quatro anos, acusado de um crime que mais não passa do que o exercício da liberdade de expressão. Não é caso único.

    Pablo Gonzalez, cidadão com nacionalidade espanhola e russa, conceituado jornalista, preso em 2022 na fronteira entre a Polónia e a Ucrânia suspeito de trabalhar para os serviços de informação russos, facto do qual nunca veio a ser formalmente acusado, as condições desumanas do seu encarceramento foram objeto de denúncias internacionais, sem que Espanha ou a UE, tenham tomado qualquer posição. Pablo Gonzalez foi libertado como parte de uma troca de prisioneiros entre a Rússia e alguns países da União Europeia.

    Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinianos ocupados, comentou num evento intitulado “Retomando a narrativa: Palestina, justiça e verdade”, que aconteceu em Berlim, que autoridades alemãs lhe impuseram uma clara pressão durante sua visita, dizendo: “A situação é má para a liberdade de expressão em toda a parte, mas na Alemanha sinto uma falta de oxigénio”. Em virtude da coação que foi exercida sobre Francesca Albanese parte da sua agenda acabou por ser cancelada. 

    Nem sempre trago exemplos concretos, mas hoje deixei alguns que sustentam parte do que já foi dito e poderia até ter falado de Julian Assange, mas como se percebeu nem sequer foi necessário para que o assunto fique bem sustentado.

    O espaço da UE não é, direi eu, um espaço de liberdade pois, foi em nome da liberdade de expressão se proibiu a difusão de alguns órgãos de comunicação social retirando aos cidadãos a possibilidade de ouvirem e verem outros relatos e formarem opinião própria. Não fossem os meios alternativos de busca de informação e teríamos ficado pela narrativa de Ursula Von der Leyen, Borrel e agora Kaja Kallas que, para além de parcial, imprecisa e revisionista, é belicista, como se a guerra fosse, porventura, um caminho para andar.

    

    Os leitores mais atentos já estarão a pensar, não é bem como dizes, ainda recentemente o Tribunal Europeu para os Direitos Humanos acusou as autoridades ucranianas de não investigarem e de não protegerem as vítimas do Massacre de Odessa, em 2 de maio de 2014. É verdade, só peca por ser tarde e surge no atual contexto de abandono de algumas pretensões ucranianas, como por exemplo a sua entrada na OTAN.  O Massacre de Odessa e outros eventos provocados por hordas de neonazis serviram de detonadores à guerra civil ucraniana que, como se sabe se iniciou em 2014. No dia 2 de maio de 2014, em Odessa, foram assassinados 40 cidadãos, alguns queimados vivos, dentro da Casa dos Sindicatos onde se tinham refugiado.

    O mundo está em estado de alienação, em particular o mundo que politicamente se alinha com o nazismo e o sionismo, perdoem a redundância. Soube-se a semana passada que o estado sionista e alguns dos académicos que o veneram e dele fazem parte propuseram Daniela Weiss como candidata ao Nobel da Paz. É sempre bom referir, antes de ser acusado de antissemita, que respeito a religião judaica, como respeito a cristã, ou a muçulmana, não se trata, nem nunca se tratou de uma questão de ordem religiosa. O sionismo é uma ideologia ancorada na supremacia de um povo sobre outros, por outro lado o termo semita está ligado à linguística, ou seja, às línguas semitas que, também, como todos sabemos não é exclusiva de um povo. 

    Mas quem é esta personalidade vinda do mundo do sionismo!? Pois bem, Daniela Weiss é uma líder dos colonos sionistas na Cisjordânia e que produz declarações como esta: "Os árabes não ficarão em Gaza, África é muito grande. Permitiremos que se vão e querem ir-se porque ninguém quer viver um inferno. Chamem-lhe limpeza étnica, apartheid ou que queiram”. Sabendo-se do histórico de atribuição deste Nobel da Paz a personalidades que fomentaram a guerra e são responsáveis por milhões de mortos nada me espantará, contudo, vamos aguardar tranquilamente por outubro quando for divulgado a personalidade a quem a será entregue o prémio. Não arrisco vaticínios, mas nos tempos que correm já nada surpreende.

    Já vivi o suficiente para ver gente que ascendeu politicamente na luta por causas justas, como por exemplo Javier Solana que de pacifista chegou a Secretário-geral da OTAN e foi durante o seu mandato que a Jugoslávia foi bombardeada e fragmentada, mais tarde foi Alto Representante da União Europeia para a Política Externa e Segurança, onde o seu trabalho foi de continuidade e subserviência aos interesses dos Estados Unidos. Solana não é único, veio-me agora à memória a atuação da atual ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, sobre a qual há imensos memes, como por exemplo a conhecida mudança de 360 graus, e alguns desagrados como aquando da sua visita à democrática Síria em que al Julani, este saudita muda de nome com frequência, não a cumprimentou por ser mulher. Annalena Baerbock, assim se chama a ministra, é dirigente dos verdes alemães e, naturalmente, foi uma destacada militante pela paz, contra a presença militar da Alemanha no exterior e contra a lógica das alianças militares, mormente, a OTAN.  A militância pela paz foi um dos pilares que catapultaram os verdes alemães para a ribalta política. Veja-se a atuação do demitido governo e, em particular, de Annalena Baerbock para que se constate o quão longe vão os tempos da sua luta pela paz e contra o militarismo. Solana e Annalena são do grupo dos invertebrados que pululam nas famílias partidárias, ditas de esquerda, mas que quando é necessário são suficientemente maleáveis para defender tudo e o seu contrário, sempre em nome, pois está claro, do pragmatismo e do politicamente correto. 

    Já que me referi à Síria não posso deixar de referir a dualidade de critérios da política externa da UE e da comunicação social de referência na avaliação do que tem vindo suceder. O tal saudita - agora presidente da Síria -, que já deu pelo nome de al Julani e o seu governo tem vindo a massacrar as populações cristãs e alauitas, mas como dizia al Julani chegou a estar convidado para Bruxelas, pela presidente da Comissão Europeia, para uma reunião no dia 17 de março, este encontro só não se vai realizar na data aprazada devido à divulgação dos massacres perpetrados pelo regime de al Julani sobre as minorias religiosas e culturais sírias. Se isto não é o topo da hipocrisia, pouco faltará para o atingir.

    Muitos outros exemplos deste regime dirigido por Ursula von der Leyen e António Costa - ambos sem escrutínio popular -, poderiam ser abordados para demonstrar que este é um espaço onde a liberdade de expressão tem margens muito apertadas e os protagonistas políticos não passam de marionetas manipuladas pelos oligopólios financeiros muitos deles sedeados fora deste espaço e pouco, ou nada, têm a ver com os interesses dos povos. Aos gritos de guerra dos dirigentes da UE sobrepõem-se as denúncias das assimetrias entre os países membros e os quase 20% da população em situação de pobreza ou à beira dela.

Ponta Delgada, 18 de março de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 19 de março de 2025

terça-feira, 18 de março de 2025

dança de guerra

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.




(...) A União Europeia (UE), organização política à qual pertencemos - embora nunca nos tenham questionado se queríamos -, tem vindo a trilhar um caminho cada vez mais semelhante a um regime, onde a democracia e a liberdade de expressão não passam de meras formalidades nos tratados e na propaganda oficial, pois o seu exercício está cerceado e, quem não seguir a narrativa do mainstream arrisca-se sofrer graves penalizações, seja pela prisão, seja pela repressão policial, seja pela ostracização e pelo silenciamento mediático, seja pelo empobrecimento controlado com políticas assistencialistas que é uma das mais eficazes armas de controle e domínio dos poderes para manter a letargia. E é, também, pela indução do espetro da insegurança e do medo que melhor nos vão controlando, como se tem constatado nas últimas semanas com todos os apelos à guerra acenando, uma vez mais, com o perigo russo. (...)

quinta-feira, 13 de março de 2025

sobre a tentativa de legalização da "sorte de varas" na RAA

imagem retirada da internet


Nesta publicação deixo a ligação (clicar aqui) para a notícia do Notícias ao Minuto, assinada por Natacha Nunes Costa e o texto completo que enviei, a pedido da jornalista, para o órgão de comunicação social referido.



Entrevista – Notícias ao Minuto


1 - Lançaram no início de fevereiro um manifesto contra a tentativa de legalizar a sorte de varas nos Açores, depois de ter vindo a público que, no Fórum Mundial da Cultura Taurina, o tema esteve novamente em cima da mesa.  No fundo do que se trata este manifesto? Já vieram esclarecer que não é contra as touradas em geral...

A atual luta cívica contra qualquer tentativa, venha ela de onde vier, de legalização da Sorte de Varas recupera anteriores iniciativas, duas delas chegaram à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), em 2002 e 2009, e uma outra de janeiro de 2015 que nem sequer tomou corpo, ou seja, esfumou-se “nos passos perdidos” do parlamento regional face à tomada de posição, também, através de um Manifesto, aliás no qual o presente se inspira.

As iniciativas que chegaram à Assembleia tiveram destinos diversos, embora com os mesmos efeitos, ou seja, a derrota da pretensão de legalizar a Sorte de Varas

Em 2002 e a reboque da Lei n.º 19/2002. De 31 de julho, que abriu portas à legalização dos touros de morte em Barrancos, foi presente, discutida e aprovada em decreto regional. O então Ministro da República solicitou a fiscalização da sua constitucionalidade, tendo o Tribunal Constitucional, pelo Acórdão n.º 473/02, declarado a sua inconstitucionalidade que na sua fundamentação foi mais além da mera decisão ancorada nos poderes autonómicos e no interesse específico regional, como pode ser lido ao longo do referido Acórdão.

Em 2009 deu entrada na ALRAA, foi discutido e votada uma proposta que visava a legalização da Sorte de Varas nos Açores. A proposta foi rejeitada por 28 votos contra, 26 a favor e 2 abstenções.

Em janeiro de 2015, como já foi referido, a suposta intenção de vir a apresentar-se uma nova proposta, não passou disso mesmo, uma intenção. Quando se soube que, nos corredores da ALRAA alguns deputados, de diferentes grupos parlamentares estavam a tentar construir uma nova iniciativa com o propósito da legalização da Sorte de Varas de forma, diria, espontânea deu-se início à redação e à subscrição de um “Manifesto” que, podendo não ter sido só, foi o mote suficiente para mobilizar os cidadãos e para que a iniciativa abortasse ainda na fase da sua conceção.

A situação atual é na qual se insere o “Manifesto Contra a Legalização da Sorte de Varas nos Açores” é, sobretudo de alerta e de prevenção, para que os atores políticos avaliem bem do pulsar da sociedade açoriana, ou seja, para que percebam que qualquer tentativa terá uma forte oposição cidadã e que os custos eleitorais serão elevados. 

 O “Manifesto” surgiu de forma espontânea e reflete a posição de um alargado e representativo segmento da sociedade açoriana. Os subscritores representam setores sociais, culturais, políticos, económicos e geográficos que representam o sentir da maioria dos açorianos.

Importa, desde já, referir que este Manifesto é exclusivamente contra a legalização da Sorte de Varas e não contra as Touradas de Praça, ou contra a apropriação popular da Festa Brava que tem nas Touradas à Corda a sua expressão. Por esta razão de entre os subscritores se encontram muitos aficionados, mas também muitos indiferentes ao fenómeno tauromáquico e, ainda, muitos outros contra qualquer forma de espetáculos que envolvam touros. É desta abrangência que resulta a ampla representatividade do Manifesto.

2 – Acha que o atual Governo e grupos parlamentares vão levar o tema a discussão? Dar entrada de um diploma que vise a legalização da sorte de varas?

Sendo que o atual quadro parlamentar e o governo da coligação são mais conservadores que no contexto político de 2009 tenho dúvidas que isso venha a acontecer, embora como se sabe, é regimentalmente possível que um número de deputados, oriundos de diferentes grupos e representações parlamentares, possam apresentar uma iniciativa à margem das suas famílias partidárias, com os riscos lhe são inerentes e não me parece que alguém os queira correr. Por outro lado, o Secretário Regional da Agricultura e Alimentação excedeu-se, talvez pelo calor do contexto, e fez declarações que o governo regional não subscreveu, isto é, aquela poderá ser a opinião de António Ventura e, como tal, deveria tê-la guardado só para si e não ter colocado o seu governo numa situação, no mínimo, embaraçosa.

3 – Na sua opinião, o que acha a sociedade açoriana, em geral, sobre o assunto?

Julgo que uma larguíssima maioria dos açorianos é contra a Legalização da Sorte de Varas e, de facto, trata-se de um assunto açoriano pois, se a legalização viesse a acontecer os Açores ficariam com uma enorme mancha e, numa altura em que o turismo tem contributo importante para a formação do PIB regional, estou certo de que o setor turístico sofreria um duro golpe. O destino Açores é oferecido/vendido como ambientalmente sustentável e de equilíbrios entre o homem e a natureza, digamos que até as vacas são felizes, a promoção de espetáculos tauromáquicos com touradas picadas” não me parecem compagináveis.

Mas se em relação aos Açores não me restam dúvidas, também não as tenho em relação à população da ilha Terceira. Isto é, os terceirenses têm uma ligação ancestral com os touros e, talvez pela peculiaridade dessa ligação não gostem de ver os touros serem picados na Sorte de Varas. Sei que isto é a penas a minha perceção, mas está bem alicerçada no conhecimento que tenho da ilha Terceira. 

4 – Quantos signatários tem o manifesto?

O Manifesto tem pouco mais de trezentos signatários. Não dispomos de uma estrutura organizativa, não estamos ligados a nenhum movimento e as subscrições são feitas através da caixa de comentários do blogue https://anibalpires.blogspot.com/, da minha página do Facebook, ou ainda por contato direto comigo ou com outros subscritores que depois me reencaminham as adesões pois, coube-me a mim o registo e a atualização da lista de subscritores, que vai continuar aberta a quem o queira fazer e, naturalmente, recolherá muito mais subscritores.

5 - O que acha destas declarações - sobre a possibilidade da sorte de varas voltar a ser discutida no Parlamento açoriano – terem vindo do secretário regional da Agricultura, quando as touradas não tuteladas por ele, mas sim pela secretaria regional da Cultura?

Considero que as declarações do Secretário Regional da Agricultura e Alimentação foram levianas e configuram um ato desleal ao governo a que pertence e, por essa razão, mereciam um reparo do Presidente do Governo Regional.

Sabe-se que nem todos os ganadeiros ficaram agradados pelo facto de este assunto ter vindo para a agenda política regional e nacional, e que, nem todos os membros do governo têm a mesma posição (individual) do Secretário Regional da Agricultura e Alimentação sobre este assunto, mesmo sendo aficionados. 

6 -  Acha que devia ser feito um referendo sobre o assunto?

Se existe matéria sobre a qual deve ser auscultado o povo açoriano, esta será uma delas. Já tive oportunidade, em declarações à comunicação social açoriana de desafiar o poder regional a referendar o assunto.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 13 de fevereiro de 2025


terça-feira, 11 de março de 2025

nem tudo é o que parece

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    Os óscares, a moção de censura apresentada pelo PCP, o “adeus à carne” (Carnaval), o Plano Regional para a Inclusão Social e a Cidadania (PRISC) e os seus cinco pilares - Rendimento, Educação, Trabalho, Saúde e Habitação são, alguns de entre muitos outros, assuntos sobre os quais alinhei mentalmente algumas ideias para partilhar aqui, na Sala de Espera

    Fiz este exercício para afastar qualquer tentação de abordar o deplorável espetáculo da Sala Oval, mas não está fácil, aliás se esta oposição for quebrada e não resistir não será sobre o desempenho de qualquer dos três protagonistas do espetáculo que farei apreciações, a avaliação é sempre subjetiva, eu, por exemplo, considero que o óscar de melhor atriz deveria ter sido atribuído à Fernanda Torres, mas a Academia nem sempre faz as suas escolhas tendo em consideração a excelência dos desempenhos. Por outro lado, a moção de censura não tendo ainda acontecido já serviu para clarificar quem é quem na oposição ao governo do PSD/CDS, pouco mais haverá a dizer depois de se ouvir o deputado António Filipe e perceber todo o rodopio que se gerou, dentro do governo da República e em toda a teia de interesses que gira à sua volta.

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    Quanto ao Carnaval vai-se mantendo a tradição e a diversidade das comemorações consoante as geografias, eu continuo a preferir o de Veneza e o da Terceira. Sobre eles já teci algumas considerações e não há razões que justifiquem repeti-las, ainda que não tenha esgotado todos os argumentos que me levam a preferir os olhares por detrás das máscaras venezianas, a mobilização popular e o humor mordaz que caraterizam os bailinhos na ilha Terceira.


    Quanto ao PRISC muito se poderá dizer, mas passadas que são as primeiras páginas cedo se percebe que o governo regional não pretende resolver esta pesada herança, que remonta aos primórdios do povoamento, que o fascismo português perpetuou e que a autonomia constitucional ainda não resolveu: a pobreza e a exclusão.

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    Quando iniciei a leitura do documento que foi colocado no portal do governo, para consulta pública, foi com alguma surpresa, confesso, e satisfação que constatei: no centro das ações as pessoas; e, tendo em consideração, que a escolha para primeiro pilar foi escolhido o Rendimento, só poderia elevar a minha expetativa, pois, juntando os outros quatro, desde logo a Educação pensei para comigo mesmo: é desta que alguém quer resolver este problema que, como se sabe, é uma autêntica mancha nestas ilhas paradisíacas. Mas o meu entusiasmo foi breve e a expetativa abateu-se pesadamente logo às primeiras medidas proposta para o pilar do Rendimento. Vejamos: as medidas são cinco, sendo que quatro delas são de caráter assistencialista, apenas a última se refere aos rendimentos do trabalho (salários) e à qualidade das relações do trabalho e, ainda assim, faz depender esta medida da concertação social e para um prazo de dez anos. Entretanto, mesmo que haja entendimento na concertação social os trabalhadores vão continuar a empobrecer alegremente e a receber “... um cartão com plafond mensal para aquisição de bens alimentares.” Este não é, por certo, o caminho para resolver este grave problema regional.

    Aqui chegado e tendo já referido a lista, ainda que parcial, de assuntos sobre os quais poderia partilhar opinião com os visitantes da Sala de Espera estou num dilema. Aprofundo algumas das questões que já abordei ou deixo de contrariar o impulso e vou até à Sala Oval, não para fazer apreciações sobre os atores pois, isso é acessório, mas para tentar entender quais as causas e, sobretudo, os efeitos dali vão resultar. Vamos lá, mesmo tendo consciência dos riscos que vou correr por não surfar a onda do mainstream.

    Aos cidadãos que, legitimamente se insurgiram contra aquele triste espetáculo, diria que talvez não fosse má ideia visionar tudo. Está disponível no Youtube e dura 50mn, a minha sugestão, vale o que vale, está alicerçada no facto de que, apenas alguns fragmentos foram amplamente divulgados o que induz opiniões naturalmente parciais, em função do que nos foi dado ver, mas como disse esta sugestão vale o que vale e pode valer muito pouco para quem já alicerçou um posicionamento e, por outro lado, como já referi, procurei olhar para as causas, mas para o caso em análise relevante são mesmo os efeitos já produzidos e os que se seguirão. O que vai suceder agora, ou melhor, o que é que já sucedeu e poderá vir a suceder.

imagem retirada da internet

    O que poderá estar na origem do “desentendimento” é alguma proximidade entre os presidentes dos Estados Unidos e da Federação Russa e o resultado da reunião entre as delegações destes dois países que aconteceu recentemente em Riad, Arábia Saudita, o que desagradou à União Europeia, à Inglaterra e ao regime ucraniano, ainda assim, as terras raras eram (são) um argumento de peso para que as diferenças entre as partes possam ser ultrapassadas e tudo volte ao princípio.

    Quando percebi que o circo montado iria ter o desfecho que teve fiquei surpreendido. Donald Trump pode ser malformado e boçal, mas tem por detrás dele interesses os quais não pode, pura e simplesmente, deixar as mãos a abanar, como seja o complexo militar industrial estado-unidense que não sendo só é uma parte importante da economia federal. Por outro lado, a paz não é para o presidente dos Estados Unidos uma prioridade, embora no caso do conflito russo-ucraniano ele se tenha comprometido durante a campanha eleitoral a intervir e a encontrar uma solução para alcançar a paz, tudo o que fez até à reunião com Zelensky foi para consumo interno, mas também para pressionar a União Europeia a aumentar os gastos com a defesa e as contribuições para a OTAN, também decorrente dos compromissos da campanha eleitoral com os eleitores estado-unidenses. Ainda antes de avançar para os efeitos provocados pelo espetáculo da Sala Oval quero justificar a afirmação de que o atual Presidente dos Estados Unidos, à semelhança dos seus antecessores, não é um homem de paz e a humanidade é uma caraterística que não lhe pode ser atribuída. Apesar dos aparentes esforços de paz para o fim do conflito russo-ucraniano, se outros exemplos não existissem chegaria a Palestina e a genocida agressão do estado sionista que é, como sabemos, apoiada pelos Estados Unidos, antes e agora com Trump, como se comprova com a assinatura, no passado sábado de uma Declaração de Emergência para agilizar o processo, não necessita de autorização do Congresso, de transferência de mais uma ajuda militar ao estado sionista de cerca de 4mil milhões de dólares. Quanto a humanidade e paz, julgo que estamos conversados, a Casa Branca não lida bem com esses valores.

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    Os ecos do fracasso negocial entre Trump e Zelensky fizeram-se ouvir pela União Europeia e também pela Inglaterra. No dia seguinte Zelensky foi recebido, em Londres, por Keir Starmer, primeiro-ministro inglês, que convocou, para o dia seguinte, parte dos líderes dos países da União Europeia, não se conhece qual o critério e alguns países que ficaram de fora, não tendo, por isso, ficado, muito agradados. Estiveram presentes, também, o primeiro-ministro da Canadá e o ministro dos negócios estrangeiros da Turquia, para além, naturalmente, do secretário-geral da OTAN. Da reunião na capital inglesa foi dado conhecimento público que tinha sido estabelecido um plano para continuar a apoiar Ucrânia que seria levado aos Estados Unidos, interessante, por outro lado ficou claro que a União Europeia, na cimeira de 6 de março, iria dar início a procedimentos para se rearmar, muito interessante. Vejamos, a Inglaterra e a União Europeia não abdicam da bênção dos Estados Unidos, por outro lado, o rearmamento da União Europeia terá, certamente, como principal fornecedor o complexo militar industrial estado-unidense. Não gostando do que vou afirmar, mas tenho de o reconhecer: Donald Trump ganhou, para já, esta ronda, mantém o domínio sobre a União Europeia, diminui os gastos próprios com o apoio militar à Ucrânia e abriu, mais mercado, para a venda de equipamento militar para rearmar os países da UE que se comprometeram em Londres a aumentar os seus orçamentos para defesa, embora não faltem aos Estados Unidos outros clientes.

    As empresas europeias que se dedicam ao fabrico de equipamento militar viram a sua cotação aumentar nas bolsas de valor. Enfim! A UE continua a ter uma atitude servil e, como é de esperar, ao aumento da despesa coma defesa/guerra irá corresponder uma diminuição do investimento nos setores sociais, aliás como o secretário-geral da OTAN andava, já há algum tempo, a sugerir. Esta, como outras, é uma guerra que nada tem a ver com os povos, mas também como acontece sempre, são os povos que sofrem e pagam.  

Ponta Delgada, 4 de março de 2025 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 5 de fevereiro de 2025