quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Odete Santos 1941-2023


Odete Santos

"Mulher de Abril, destacada deputada e dirigente comunista, Odete Santos foi uma figura marcante na construção do Portugal de Abril e na afirmação dos direitos que a Constituição da República Portuguesa consagra, em particular sobre os direitos dos trabalhadores, sobre a igualdade e a emancipação da mulher,  uma presença constante na acção de solidariedade com os povos de todo o mundo, uma incansável participante na concretização do ideal e projecto do Partido Comunista Português."

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

the job is done

Escrito ontem, publicado hoje no blogue momentos.
O olhar atento de Diniz Borges deu-lhe asas e foi hoje publicado na revista “Filamentos - Arts and Letters in the Azorean Diaspora."

Obrigado Diniz Borges!



practices

tradition declares: it’s Christmas
light up the city
turn on the spirit
put
that little twinkle in your eye
and repeat again and again: Merry Christmas

tradition fulfilled
turn off: the lights, the spirit and the sparkle.
The job is done.


Aníbal C. Pires, Lagoa, December 24, 2023

Translated by Diniz Borges

da época

foto de Aníbal C. Pires


praxes 

a tradição declara: é Natal
ilumine-se a cidade
ligue-se o espírito
ponha
aquele brilhozinho nos olhos
e repita, uma e outra vez: Feliz Natal

cumprida a tradição
desligue: as luzes, o espírito e o brilho. 
terminou a função.

Aníbal C. Pires, Lagoa, 24 de dezembro de 2023 

sábado, 2 de dezembro de 2023

em dezembro com "O Barbilho"


Aníbal C. Pires (foto do arquivo pessoal)
A edição de dezembro de “O Barbilho”, boletim informativo da CDU Fundão, já está disponível. Podem aceder clicando aqui.

No âmbito das comemorações do cinquentenário de Abril, “O Barbilho” tem vindo a publicar algumas sugestões de fundanenses, ou ao Fundão ligado, sobre o que deveriam ser as celebrações no concelho, mas também alguns testemunhos das vivências pessoais.

Foi-me pedida colaboração e, naturalmente, anuí.

Esta publicação no blogue reproduz os dois pequenos textos que, a este propósito, enviei para “O Barbilho” e que constam da edição de dezembro.




Abril, do povo e para o povo

Cresci no Fundão e foi no Fundão que vivi o 25 de Abril de 1974, embora esteja ausente a cidade, que era vila, está no meu coração pois, foi à sombra da Gardunha, com a Estrela no horizonte, que cresci e vivi intensamente o tempo das utopias da juventude, mas também a utopia da revolução.


A comemoração formal em sessões solenes nos salões do poder não é, nunca será, a melhor forma de comemorar o 25 de Abril. Principiou por ser uma revolta militar, mas foi com o apoio popular que se construiu o projeto transformador que a Constituição de 1976 consagrou. As comemorações do cinquentenário devem estender-se ao longo do ano, em todas as freguesias, aldeias e lugares do concelho, envolvendo as populações e os agentes culturais locais. Cumpra-se Abril, do povo para o povo.


imagem retirada da internet




Amor em Abril

Quando me levantei e durante as rotinas que antecediam a minha ida para a Covilhã, onde frequentava o ensino secundário, notei que a emissão de rádio estava diferente. A música e o noticiário anunciavam uma inusitada quinta-feira. Alguma coisa inusual acontecia e, parecia bom.
Quando cheguei à estação dos caminhos de ferro do Fundão, sempre no limite horário, entrei de rompante na carruagem já em movimento e procurei os colegas que comigo faziam, diariamente, a viagem até à Covilhã. Já tínhamos percecionado que o país estava a viver um dia invulgar e, conquanto, não houvesse muita informação disponível adivinhava-se um país novo.

Não tínhamos consciência política, mas a consciência social já despontava em alguns de nós e as questões da pobreza, da estratificação social, da emigração e da guerra colonial eram assunto de apaixonadas discussões.
O dia foi-se enchendo de novidades e, uma estranha e inexplicável sensação de felicidade foi-nos invadindo. O dia escolar sofreu algumas alterações. Era necessário ir para a rua expressar apoio ao “movimento dos capitães”. E fomos. 
Ao fim da tarde regressei ao Fundão e subi em LIBERDADE a Avenida Salazar. Quando entrei em casa a minha mãe abraçou-me e chorou, como terão chorado de felicidade muitas outras mães nesse dia em que se anunciou o fim da guerra colonial, e disse-me: - Já não vais para a guerra filho. Enlaçado nos braços de minha mãe, chorei com ela.

Em 2008, ano da morte de minha mãe, escrevi um poema sobre este momento e que vos deixo como parte deste testemunho sobre o 25 de Abril.

amor em Abril

em Abril
as lágrimas
soltaram-se
dos teus olhos
rolaram pela tua face
o choro embargou-te a voz
mas o teu semblante
irradiava uma alegria incontida
abraçaste-me, Mãe
chorei contigo
a tua exultação prenunciava
que os teus receios, os teus medos
que cresciam comigo
findavam
naquele Abril

sabes, Mãe
nunca mais deixei
de celebrar o teu Amor em Abril
e... por Ti, Mãe
fiz-me um dos homens
que nunca
nunca deixarão
Abril morrer

In “O Outro Lado – palavras livres como o pensamento”, Aníbal C. Pires, Letras Lavadas, 2014

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O Encanto dos Sonhos e Esperança Velha e Outros Poemas no PRL


Os livros “O Encanto do Sonhos”, Aníbal C. Pires (conto), ilustrado por Ana Rita Afonso, Letras Lavadas e “Esperança Velha e Outros Poemas", Aníbal C. Pires (poesia), ilustrado por Ana Rita Afonso, Letras Lavadas, fazem parte da lista do Plano Regional de Leitura (Açores).

É sempre motivo de contentamento que o nosso trabalho seja alvo de reconhecimento e divulgação.

Obrigado!


mulheres da Palestina - a abrir dezembro

imagem retirada da internet

O “momentos” está com a Palestina, com o fim da ocupação sionista e defende a criação e reconhecimento do Estado palestiniano.







imagem retirada da internet
Quando “existir é resistir” as mulheres estão na linha da frente e as palestinianas são o paradigma da resistência e da luta contra a ocupação sionista.  






imagem retirada da internet

O “momentos” abre dezembro com uma singela homenagem a todas as mulheres palestinianas e ao seu papel, insubstituível, na luta anticolonial do seu povo.


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Primavera no outono

auto retrato - Aníbal C. Pires
O texto que esta semana partilho com os leitores é, direi eu, atípico. Não trata apenas de um assunto, o que não é uma novidade, mas está anarquicamente estruturado, embora seja legível e entendível por todos, como procuro que o seja sempre, por outro lado e com todas estas reservas iniciais que coloco aos leitores para, querendo, abandonar já a leitura e esperar por melhores dias, que é como quem diz: esperar por textos onde reine a estabilidade, a lógica e a sobriedade; julgo, porém, que alguns minutos nesta “Sala de Espera” não serão, de todo, desperdiçados. A continuidade ou não da leitura fica ao critério, como sempre, dos leitores.

1 - Uma viagem, uma reunião de trabalho, as brumas até à soleira, cancelamento de voos, défice de informação, falta de resposta adequada da infraestrutura aeroportuária, respostas diferenciadas das empresas de transporte aéreo, enfim um manancial de assuntos sobre os quais pensei escrever e refletir para partilhar, esta semana, com os leitores. Mas não o farei. 

As condições meteorológicas são o que são e, perante isso, pouco mais há a dizer, embora nem tudo tenha sido dito e muito há que poderia e deveria ser refletido, em particular, pelos passageiros afetados para que as suas escolhas possam ser as mais adequadas à realidade do viver insular e arquipelágico e, por outro lado poderem, com segurança, emitir opinião sobre esta ou aquela empresa de transporte aéreo e se devem, ou não, permanecer no domínio exclusivamente público.

foto de Aníbal C. Pires

A informação veiculada pela comunicação social de “referência”, sobre o assunto, vale o que vale, e bastas vezes, vale muito pouco ou mesmo nada. Vejam-se algumas manchetes, o JN dizia: “Avião da TAP esteve 15 horas a tentar aterrar na Terceira e não conseguiu”; o Expresso não resistiu e alinhou pelo mesmo diapasão, dizendo: “Avião da TAP com destino à Terceira andou mais de 15 horas às voltas para regressar a Lisboa”. Quem ler a notícia completa percebe que o título é enganoso, diria mesmo, o título é uma mentira, e que afinal a realidade é bem diferente do que nos é induzido pelas manchetes. Os cidadãos, com alguma informação, sabem que uma aeronave da tipologia utilizada no voo a que se referem as manchetes não se mantém em voo, sem reabastecer de combustível, durante tanto tempo. E se não souberem só necessitam de pensar um pouco, para concluir isso mesmo, não é possível. A comunicação social de “referência” é, cada vez menos uma referência para quem se quer manter informado e, sobretudo, livre.

Afirmei, no início, que não iria partilhar opinião e reflexão sobre os acontecimentos do passado fim de semana que afetaram voos, passageiros, transportadora aéreas e infraestruturas aeroportuárias, e mantenho o propósito. Depois da menção às manchetes, deixo mais uma nota sobre o transporte aéreo e a comodidade oferecida aos passageiros para depois “voar” para outra, ou outras questões, da atualidade, ou não.

Quem, nos passados dias de sexta, sábado e domingo, olhou para as cartas meteorológicas desta zona do Atlântico Norte, mesmo não sendo especialista no assunto facilmente constatava que as condições eram adversas para as operações aéreas, por outro lado quem costuma olhar para as aplicações que acompanham os voos em tempo real, também percebeu que algumas rotas tinham desvios, aparentemente, injustificados, pois, na mesma rota nem todos o faziam. Mesmo não sendo um especialista em aviação, nem em meteorologia, atrevo-me a dizer que: algumas transportadoras aéreas evitavam as zonas da atmosfera mais tempestuosas, ainda que tivessem de fazer um percurso mais longo, para garantir maior comodidade aos seus passageiros, outras nem por isso. As conclusões, se as houver, ficam a cargo dos leitores.

imagem retirada da internet
2 - Há muito tempo que comecei a notar que alguns, não poucos, perfis das redes sociais foram deixando cair uma bandeira que por razões diversas tinha sido adotada, pelos utilizadores, como sinal de apoio ou solidariedade, ou apenas, por ir na onda da opinião pública ocidentalizada em relação a um conflito bélico específico. Não pretendo encontrar razões, se é que as há, para este comportamento, nem isso será tão importante assim, mas aconteceu e não terei sido o único cidadão a constatar esse facto. Verdadeiramente estranho é que agora não se levante, pelos mesmos utilizadores, uma outra bandeira, ou ainda que os edifícios públicos que também optaram por erguer uma bandeira, entretanto já arriada, não icem uma outra. Esta duplicidade de comportamentos terá, seguramente, as suas justificações e todas elas, estou certo disso, estarão alicerçadas, tal como esteve a decisão de erguer uma, no conhecimento histórico, geopolítico e económico sem o qual não é possível analisar e compreender, de forma holística, o que se vai passando no mundo.

As redes “sociais” têm destas coisas. O algoritmo, ou o que quer que seja, mantém-nos numa bolha e mostra-nos uma seleção de conteúdos/publicações que encaixam nos nossos interesses, mas também escondem conteúdos/publicações através de um processo de “desterro para a sombra” (shadow ban) que permite “esconder” um usuário, um tema, uma palavra-chave, ou um hashtag (palavra-chave precedida do símbolo #). Este procedimento não é de imediato percecionado pelos usuários, mas com o tempo pode verificar-se que alguns conteúdos/publicações não são visíveis na página dos seguidores, embora esteja visível para todos na página do autor do conteúdo/publicação. Estes procedimentos não são divulgados junto dos utilizadores e configuram uma espécie de censura, ou pelo menos, uma escolha prévia, feita pela plataforma com instruções dos programadores, do que podemos e não podemos, ou devemos, ver. As democracias liberais têm destas coisas. Liberdade de expressão sim, mas sempre ao serviço da perpetuação de um modelo de pensamento que não dê muito que pensar e, sobretudo, que não seja divergente com o paradigma dominante.

3 – As artes performativas, a música, a produção audiovisual, a literatura a poesia, de entre outras manifestações culturais mais populares, ou mais eruditas, têm nos Açores uma expressão e dimensão que não encontra paralelo no país. Sei que poderá parecer imodesto, uma vez que vivo por aqui, mas a quantidade e qualidade da produção cultural açoriana merece esta nota pessoal de exultação e, um público e justo reconhecimento do muito e bom que se faz em todas as ilhas dos Açores, mas também do papel que as autarquias, ou pelo menos algumas, têm na promoção e no apoio a iniciativas culturais de diversa índole.

foto de Aníbal C. Pires

É raro referir-me a um evento ou iniciativa cultural em particular, mas hoje vou deixar uma pequena nota sobre um dos mais prestigiados encontros culturais da Região que não se confina às fronteiras do concelho e da ilha que o promove e acolhe, falo do “Outono Vivo”.

A XVIII edição do “Outono Vivo”, promovida pela Câmara Municipal da Praia da Vitória (CMPV), pela “Praia Cultural” e com o apoio de Carlos Lima (Papelaria 96) na organização da Feira do Livro, decorreu de 27 de outubro a 12 de novembro de 2023. A programação incluiu exposições, palestras, workshops e oficinas, atividades infantojuvenis, apresentações de livros e a presença de autores regionais e nacionais e, segundo Paula Sousa, vereadora da cultura da CMPV o ecletismo é uma das imagens de marca desta iniciativa cultural. E isso é bom, digo eu e os diferentes públicos que ali se deslocam para usufruir da oferta diversificada oferecida pelo “Outono Vivo”.

Participei este ano, pela terceira vez, no “Outono Vivo”. Continuo, a cada ano, a renovar a minha admiração pelo empenho e investimento da autarquia, com a diversidade da oferta da Feira do Livro, com a multiplicidade das iniciativas culturais, com o acolhimento. É justo que torne público este reconhecimento pessoal feito durante a minha participação e que expressei com seguintes palavras: … que este outono continue a ser uma imensa primavera para a música, a palavra, as artes plásticas e performativas, mas também para poesia e para a literatura.

Ponta Delgada, 28 de novembro de 2023 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de novembro de 2023

terça-feira, 28 de novembro de 2023

desterro virtual

imagem retirada da internet


Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) As redes “sociais” têm destas coisas. O algoritmo, ou o que quer que seja, mantém-nos numa bolha e mostra-nos uma seleção de conteúdos/publicações que encaixam nos nossos interesses, mas também escondem conteúdos/publicações através de um processo de “desterro para a sombra” (shadow ban) que permite “esconder” um usuário, um tema, uma palavra-chave, ou um hashtag (palavra-chave precedida do símbolo #). Este procedimento não é de imediato percecionado pelos usuários, mas com o tempo pode verificar-se que alguns conteúdos/publicações não são visíveis na página dos seguidores, embora esteja visível para todos na página do autor do conteúdo/publicação. Estes procedimentos não são divulgados junto dos utilizadores e configuram uma espécie de censura, ou pelo menos, uma escolha prévia, feita pela plataforma com instruções dos programadores, do que podemos e não podemos, ou devemos, ver. As democracias liberais têm destas coisas. Liberdade de expressão sim, mas sempre ao serviço da perpetuação de um modelo de pensamento que não dê muito que pensar e, sobretudo, que não seja divergente com o paradigma dominante. (...)

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

modelo falido


A comunicação social de “referência” é, cada vez menos uma referência para quem se quer manter informado e, sobretudo, livre.



Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de novembro de 2023

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

o pormenor

imagem retirada da internet
As anunciadas crises políticas tardavam, mas chegaram e instalaram-se. Uma já tem desfecho calendarizado sem, contudo, se poder prever que mudanças políticas efetivas possam daí resultar, os protagonistas serão outros, certamente, mas isso é acessório, relevante mesmo será interromper as políticas liberais que estão a destruir a Escola Pública, o Serviço Nacional de Saúde, a depauperar o país e a alimentar populismos. É essa a rutura que se deseja e que só depende do voto, sem condicionalismos, dos portugueses. 

A outra (a regional) está numa prolongada agonia e, face ao que tem sido afirmado, só terá o seu óbito em outubro de 2024. Por cá acumulam-se tensões que geram mau estar nas hostes partidárias dos partidos da coligação, em particular no seio do PSD/Açores que está profundamente dividido e sem soluções para se libertar dos aliados de ocasião. Uma parte do PSD/Açores contorciona-se para evitar perder o poder que lhe caiu no regaço sem ter feito nada, ou muito pouco, para a construção da atual solução governativa, submetendo-se à vontade e aos desvarios dos apêndices políticos de contexto que se enquistaram no poder regional, mas no PSD/Açores, nem todos os militantes e dirigentes se sentem confortáveis, não só pelos contornos da génese da coligação governamental, mas sobretudo por todos os acontecimentos que têm marcado estes três anos de governação e pela sujeição do PSD/Açores a agendas políticas determinadas por partidos que até às vésperas do ato eleitoral de 2020 eram, mais do que qualquer outros, os seus viscerais adversários políticos.

O PSD meteu-se numa camisa de “sete varas” da qual é cada vez mais difícil sair sem graves prejuízos políticos e eleitorais, isto para além da fragmentação interna que corrói. Mas esse é um assunto interno que o PSD saberá resolver.

foto de Aníbal C. Pires


Os resultados eleitorais de 2020, perda de votos e mandatos do PS, aconteceram pela incapacidade de ouvir os cidadãos e por um acentuado distanciamento do poder executivo às populações e aos seus representantes. A erosão eleitoral aconteceu por demérito da governação do PS e não pelo mérito do PSD, do CDS/PP ou do PPM, desgaste que só não foi mais penoso devido ao grave problema de saúde pública que nos afetou em 2020 e que beneficiou o partido que exercia o poder executivo.

Sei que são águas passadas, mas as revisitações têm sempre uma grande utilidade. Fui ao meu arquivo recente (março de 2023) e encontrei uma nota publicada no meu blogue que, ainda hoje, se pode utilizar quando se analisa a situação política regional. A decisão de Nuno Barata, votar contra a proposta de orçamento de 2024, estava mais do que anunciada quando, à entrada do primeiro trimestre do ano, a Iniciativa Liberal, pela voz do seu líder “rompeu” o acordo bilateral com o PSD. Numa publicação de 8 de março escrevi: “(…) Face à retirada do apoio político, da IL e do deputado independente ao Governo Regional, faria todo o sentido que o Senhor Representante da República, a quem de deve a bênção da atual solução governativa açoriana, convocasse os 5 partidos que, com apoios globais e bilaterais, garantiram a estabilidade do governo PSD/CDS/PPM, para que a situação fosse politicamente clarificada. Faria todo o sentido e é legítimo que os cidadãos tenham essa expetativa, mas tenho dúvidas que isso venha a acontecer. O Senhor Embaixador Pedro Catarino depende diretamente do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa tendo sido tão lesto a construir esta solução, não terá agora a mesma disponibilidade, agilidade e a coerência para mandar fazer o que deveria ser feito. (…)”

imagem retirada da internet
Se na altura em que a IL e Carlos Furtado, o deputado independente, tomaram esta decisão os efeitos terão sido apenas e tão-somente mediáticos, a situação que se avizinha poderá ser mais complexa, uma vez que, e embora Carlos Furtado tenha vindo dar o dito por não dito, a IL já anunciou que vai votar contra o orçamento apresentado pelo governo da coligação PSD/CDS/PPM. O Chega, ainda não terá uma posição acabada, a confiabilidade do PAN é a que se conhece, ou seja, não se pode assegurar que o orçamento não venha a ser aprovado, nem esse facto é relevante pois, o essencial ficará assegurado pela lei de enquadramento orçamental e pela gestão por duodécimos, caso o orçamento venha a ser chumbado, aliás face às taxas de execução dos planos e orçamentos anteriores não fará qualquer diferença, veja-se a posição do PSD Açores que já jurou a pés juntos que o cenário da demissão não se coloca, com ou sem orçamento aprovado. Estatutária e regimentalmente, não tem de o fazer. Eticamente só lhe ficaria bem, mas essa é uma outra discussão. O que releva na atual situação política regional é saber se o governo da coligação PSD/CDS/PPM continua a ter a legitimidade política que dispunha quando foi empossado!

Nunca coloquei em causa a legitimidade política e democrática aquando da solução construída, com base em acordos globais e bilaterais, entre os cinco partidos que viabilizaram a formação do atual governo da Região, ainda que tenha algumas reservas quanto aos procedimentos desenhados pelo Representante da República, a mando de Marcelo Rebelo de Sousa.

A legitimidade política e democrática da coligação de governo resulta e alicerça-se no quadro parlamentar ditado pelas regionais de 2020 e dos subsequentes acordos partidários, globais e bilaterais, entre cinco partidos que representavam uma maioria parlamentar. Representavam, já não representam desde que a IL “rompeu” o acordo com o PSD/Açores, o que aconteceu há oito meses, sem que daí resultasse, como seria concordante com o papel, protagonismo e compromisso que assumiu em 2020, uma iniciativa de clarificação do Senhor Representante da República.

foto de Aníbal C. Pires

Com ou sem orçamento regional o governo não se demite, disse o PSD/Açores, e não tem, como já referi, de o fazer, o que também pode significar que não apresentará uma “Moção de Confiança ao parlamento regional, por outro lado não se configura que o PS ou BE, só os grupos parlamentares o podem fazer, apresentem uma “Moção de Censura”. A rejeição de uma “Moção de Confiança” ou a aprovação de uma “Moção de Censura”, são os dois mecanismos parlamentares para provocar a queda de um governo na Região. 

Não tenho acompanhado com proximidade a vida política regional, o que significa, que a informação que detenho é pouca, contudo, não parece que se desenhe qualquer cenário parlamentar que leve à queda do governo, o que não significa que o governo da coligação PDD/CDS/PPM continue a ter a legitimidade política que tinha na génese da sua investidura. Não tem.

As interpretações podem ser as mais diversas, ou seja, com ou sem aprovação do orçamento regional para 2024 nada virá a ser diferente, o PSD/Açores mantém-se no governo, o CDS/PP e o PPM quanto ao assunto sacodem a água do capote para os partidos da oposição, em particular para o BE e para o PS, transferindo para terceiros as suas próprias responsabilidades. Por outro lado, não se vislumbra a apresentação de uma “Moção de Confiança” ou de uma “Moção de Censura” e, como tal, os órgãos de governo próprio da Região irão manter-se em funções até ao fim da legislatura, como se tudo se mantivesse como em 2020 quando o governo tomou posse. Esta é uma interpretação possível e legítima, mas outras são possíveis e igualmente legitimas.

Existe um dado objetivo que se alterou: - o governo da coligação não dispõe da maioria parlamentar que justificou a sua posse. Pode parecer apenas um pormenor, mas não é. O Senhor Representante da República validou, por este pormenor, a existência de uma maioria parlamentar e, em consequência disso a constituição do governo PSD/CDS/PPM. Tendo a premissa (o pormenor) deixado de existir cai, com ela, a legitimidade política do governo da coligação.

Ponta Delgada, 14 de novembro de 2023 

Aníbal C. Pires, in Diário Insular, 16 de novembro de 2023