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A leitura mereceu-me atenção e reflexão, mas também a necessidade de acrescentar algumas notas. Mesmo reconhecendo a pertinência do tema e a oportunidade do momento, considero que reduzir a atual situação política da UE a fatores predominantemente externos, ilibando as instâncias europeias das suas próprias responsabilidades, é, no mínimo, uma abordagem redutora.
Assim:
A crise da União Europeia tem hoje uma explicação simples, confortável e politicamente eficaz: chama-se Rússia de Putin ou administração Trump, conforme as conjunturas e os calendários eleitorais. A vantagem dessa leitura é evidente: identifica-se um culpado externo e fica resolvido o incómodo exercício da autocrítica.
Não tenho grandes dúvidas de que Moscovo e Washington, e não serão os únicos, interferem, pressionam e condicionam. O curioso é que a UE parece sempre surpreendida com essa evidência, como se a dependência estratégica fosse um acidente recente e não uma opção reiterada. Trump, ao contrário dos seus predecessores, teve apenas a petulância de dizer em voz alta o que a diplomacia costuma sussurrar nos corredores do poder. Quanto à Rússia de Putin, a sobriedade e a diplomacia assumem outros contornos. Nem melhores nem piores, apenas diferentes.
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O crescimento da extrema-direita populista é frequentemente apresentado como uma anomalia importada ou uma perversão do eleitorado. Na realidade, é o sintoma mais visível da falência do centro político europeu, que abdicou de pensar alternativas, de disputar o sentido do futuro e de representar conflitos reais. Ao transformar a política em mera gestão, o centro criou um vazio, e os vazios, em política, nunca ficam por ocupar.
Trump e Putin voltam, assim, a ser explicações convenientes: desviam a atenção do facto de que o centro europeu, ao convergir em políticas económicas, sociais e externas, deixou de oferecer escolhas reais. Quando não existe diferença substantiva entre governo e oposição, o protesto encontra abrigo onde pode, mesmo que esse abrigo seja o populismo e os nacionalismos.
Entretanto, a União Europeia continua a apontar o dedo para fora, enquanto assina comunicados sobre valores, reforça fronteiras, militariza discursos e chama “inevitável” ao que foi decidido. Não foi invadida: submeteu-se. Não foi derrotada: renunciou. E talvez o sinal mais claro da sua crise seja este: já não precisa de inimigos, governa-se sozinha contra os interesses dos povos que deveria representar e, por este caminho, segue pelo caminho da autodestruição.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 13 de janeiro de 2026


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