quinta-feira, 29 de outubro de 2026

consciência e intervenção

imagem retirada da internet
A literatura não nasce no vazio, nem é inócua. Por mais íntima, imaginativa ou aparentemente desligada do mundo que seja, a obra literária é sempre produzida por alguém que vive num determinado tempo, numa sociedade concreta, marcada por relações económicas, sociais, políticas e culturais que condicionam a sua existência e a sua visão do mundo. E isso importa. A literatura, como outras artes, não escapa à história, ainda que a transcenda enquanto criação artística.

A literatura deve ser olhada para além da sua dimensão estética, sem nunca a desvalorizar. A obra literária é também uma expressão da realidade social, das suas contradições, dos conflitos entre classes, das relações de poder e das formas de alienação que atravessam a vida humana. Não reconhecer que a criação literária, consciente ou inconscientemente, se inscreve num determinado contexto histórico, económico, político e social é um erro, ainda que a ficção literária não tenha de transformar-se num manifesto ideológico.

A literatura não é um espelho passivo da realidade. É também na capacidade de revelar o mundo para além da sua aparência imediata que reside parte do seu potencial transformador.

A literatura que procura intervir não se mede pela quantidade de palavras de ordem que contém, nem pela conformidade da obra com uma determinada orientação política. Uma literatura que simplifique a realidade para confirmar uma tese, que transforme as personagens em meras ilustrações de ideias previamente estabelecidas ou que sacrifique a liberdade criadora à mensagem pode falhar precisamente enquanto literatura. A intervenção artística exige liberdade, complexidade e capacidade de interrogar, incluindo as próprias convicções de quem escreve.

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    É também necessário considerar as condições materiais da criação e da fruição literárias: o livro é simultaneamente uma obra intelectual e uma mercadoria. A edição, a distribuição, a promoção e a visibilidade pública dependem, em larga medida, de interesses económicos que não coincidem necessariamente com o valor literário ou com a relevância social das obras. O mercado pode ampliar a circulação da literatura, mas também condiciona o que chega aos leitores, privilegiando a rentabilidade em detrimento da diversidade e da criação menos conformada com os gostos dominantes.

Por isso, defender a literatura como espaço de liberdade implica igualmente defender o acesso democrático ao livro, às bibliotecas, à educação e aos instrumentos de criação artística. A possibilidade de ler não deve depender da condição económica de cada um, nem a possibilidade de publicar deve ficar subordinada exclusivamente às exigências do mercado. A democratização da cultura não se cumpre apenas colocando livros à venda: exige criar condições para que todos possam ler, compreender, fruir e participar na vida literária.

A literatura não fará, por si só, a transformação social, mas pode ajudar-nos a compreender por que razão o mundo é como é, a reconhecer a injustiça onde nos habituámos a vê-la como inevitável e a imaginar possibilidades que a ordem existente procura excluir.

A palavra literária não substitui a ação coletiva. Pode, contudo, inquietar consciências, preservar a memória, dar voz aos silenciados e ampliar o horizonte do possível. Quando interroga o presente e recusa aceitar a desigualdade como destino, a literatura participa, à sua maneira, na construção de uma sociedade mais livre, justa e humana.

Porto, 26 de outubro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 28 de outubro de 2026

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