terça-feira, 27 de outubro de 2026

literatura e intervenção

imagem retirada da internet

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) A literatura deve ser olhada para além da sua dimensão estética, sem nunca a desvalorizar. A obra literária é também uma expressão da realidade social, das suas contradições, dos conflitos entre classes, das relações de poder e das formas de alienação que atravessam a vida humana. Não reconhecer que a criação literária, consciente ou inconscientemente, se inscreve num determinado contexto histórico, económico, político e social é um erro, ainda que a ficção literária não tenha de transformar-se num manifesto ideológico.

A literatura não é um espelho passivo da realidade. É também na capacidade de revelar o mundo para além da sua aparência imediata que reside parte do seu potencial transformador.

A literatura que procura intervir não se mede pela quantidade de palavras de ordem que contém, nem pela conformidade da obra com uma determinada orientação política. Uma literatura que simplifique a realidade para confirmar uma tese, que transforme as personagens em meras ilustrações de ideias previamente estabelecidas ou que sacrifique a liberdade criadora à mensagem pode falhar precisamente enquanto literatura. A intervenção artística exige liberdade, complexidade e capacidade de interrogar, incluindo as próprias convicções de quem escreve. (...)


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