terça-feira, 22 de agosto de 2023

desporto no feminino e diversidade cultural

Salma Paralluelo - imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos



Olga Carmona - imagem retirada da internet








(...) A vitória é da equipa técnica e de todas as jogadoras que na fase de apuramento e na fase final conduziram a Espanha ao título mundial, mas não posso deixar de registar que as autoras dos golos contra a Suécia, Salma Paralluelo e Olga Carmona, e contra a Inglaterra Olga Carmona, sendo espanholas de alma e coração, não escondem as suas raízes ancestrais, Salma Paralluelo tem ascendência africana e Olga Carmona é de origem cigana, o que nada tem de estranho, a Espanha, como Portugal, abrigam no seu seio uma diversidade cultural que só nos enriquece, mas fiquei a imaginar a dificuldade dos supremacistas brancos espanhóis (nazifascistas) em digerir esta vitória da Espanha miscigenada. (...)

sábado, 12 de agosto de 2023

Festa do Avante 2023

Cinema, teatro, música, desporto, ciência, artes plásticas, gastronomia, cidade internacional, espaço criança, juventude, livros. Tudo isto e muito mais, é a Festa do país é o país na Festa.



Para quem quiser saber mais pode entrar no sítio virtual da Festa (aqui), para quem quiser sentir e viver a Festa é só comprar a Entrada Permanente (EP), 3 dias 29,00€.






Fica apenas um destaque. 

Concerto sinfónico comemorativo do 50.º aniversário do 25 de Abril (aqui)


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

na rota dos Blues

foto de Aníbal C. Pires
Rendi-me ao verão e às festividades da época (algumas), afinal para quê insistir em contrariar a onda que move e anima milhares pessoas, um pouco por todas as ilhas açorianas. Este ano fiz aquilo a que vou designar pela “Rota dos Blues”. Passei pelo festival de blues de Santa Maria e, de momento, estou a curtir o “Faial da Terra Blues”. 

A minha adesão está ancorada no género musical, gosto e ouço com frequência alguns dos mais emblemáticos intérpretes e compositores de blues, como por exemplo: Bessie Smith, Eric Clapton, John Lee Hooker, B. B. King, Joe Bonamassa e Beth Hart, de entre muitos outros; mas foram, uma vez mais, os laços de amizade, que me mobilizaram para sair do meu canto e, este ano, pela primeira vez fazer este pequeno périplo por alguns dos festivais de música que animam a estação quente e húmida desta região subtropical.

O lugar dos Anjos, em Santa Maria, recebe há dezanove anos o mais antigo e emblemático festival de blues dos Açores, numa organização da Associação dos Escravos da Cadeínha. Este mítico festival acolhe milhares de visitantes com particular e notória incidência da vizinha ilha de S. Miguel, embora me tenha cruzado com alguns amigos e conhecidos de outras ilhas açorianas. O cartaz foi diversificado e de uma qualidade que justifica a sua projeção para além das fronteiras da ilha e da Região, e mais não me atrevo a dizer pois, de música gosto muito, mas não distingo as notas musicais, ou seja, sou um perfeito ignorante dos códigos desta arte.

O “Faial da Terra Blues” vai na segunda edição e é uma iniciativa da Junta de Freguesia. Sendo mais modesto tem, contudo, condições para se afirmar como uma alternativa às “Festas Brancas” e outros sucedâneos urbanos que, por serem de uma só cor não me atraem pois, gosto da diversidade cromática e abomino a uniformidade.

foto de Aníbal C. Pires

O festival de blues do Faial da Terra, em S. Miguel, não tendo a dimensão e a projeção do festival do lugar dos Anjos ofereceu um cartaz de cantores e instrumentistas de grande qualidade. Não faço ideia se este festival se vai consolidar e, por outro lado, não sei se os promotores lhe querem dar continuidade, mas se assim for seria importante alterar a área dedicada à atuação dos artistas convidados, deslocando e alargando este espaço para proporcionar melhores condições às bandas e ao público que quer usufruir dos concertos.

Os festivais deste ou de outro género musical não vivem só da música. A gastronomia local e o artesanato, tradicional ou contemporâneo, local ou importado, constituem-se como importantes complementos para a dinamização das pequenas economias dos lugares. O ensopado de borrego e o atum, em Santa Maria, as sopas do Espírito Santo e a alcatra em bolo lêvedo, no Faial da Terra, deleitam o palato, saciam os visitantes e proporcionam aos locais e à organização os proveitos que, em grande medida, determinam a continuidade destes eventos e o empenho das populações em oferecer mais e melhor aos forasteiros.

Usufruí da música, da gastronomia e do convívio que estes eventos proporcionam, e gostei. Tenho, contudo, algumas reservas na utilização de idílicos espaços naturais para a realização de concertos ou de outros eventos que perturbam a tranquilidade destes lugares. A noite nestes locais é muito mais aprazível se apenas se ouvirem os sons naturais, seja o piar dos cagarros ou o marulhar das ondas no calhau rolado. 

Esta não será uma opinião muito popular, mas não podia deixar de a expressar. Não sou um ambientalista radical, porém tenho consciência que a realização destes eventos provoca impactos negativos sobre a vida das espécies animais que fazem daqueles lugares o seu habitat. É apenas o registo de uma inquietação pois, compreendo as razões dos promotores na escolha dos espaços, como compreendo a satisfação de quem se desloca para desfrutar, bem assim como a importância destes eventos para os pequenos lugares, mas a coerência obriga-me a partilhar e reforçar a ideia de que as atividades antrópicas, independentemente da sua natureza, provocam danos, por vezes irreversíveis, nos ecossistemas.

A experiência festivaleira tendo sido agradável pela música, pela gastronomia, pelos encontros e reencontros com amigos, conhecidos e antigos colegas de profissão, mas também com alguns adversários políticos com quem partilhei importantes anos da minha vida, ainda que em posições antagónicas, mas com os quais mantenho relações de urbanidade e respeito, aliás como sempre aconteceu na minha vida pública.

foto de Aníbal C. Pires


Se tudo o que ficou dito foi importante para ter saído das minhas rotinas de verão, não foi menos relevante o encanto dos lugares onde decorreram os festivais. Sobre a ilha de Santa Maria e o Faial da Terra tenho alguns textos, que atestam a forma como me cativam, seja pela sua geografia, seja pelas suas gentes, seja pela sua singularidade. Mas importante mesmo, diria mesmo determinante, para ter trocado a minha zona de conforto pela ida a Santa Maria e ao Faial da Terra foi, como já referi, a amizade.


A fé e o amor, diz-se, movem montanhas. A amizade também, acrescento eu se ainda ninguém o tiver feito. Não foram os blues, nem os lugares, nem as delícias gastronómicas que me moveram, foi a amizade. Vivemos todos na mesma cidade, encontramo-nos algumas vezes ao longo do ano, não tantas como gostaríamos, mas as que a vida permite. Convivemos bem com isso e sempre que nos reencontramos é como se não houvesse tempo nem distância a separar-nos do último jantar, da última conversa, do último telefonema mas, quando é possível saímos do sufoco da vida na cidade e dos compromissos pessoais e profissionais, e passamos uns dias juntos para celebrar esse sentimento que nos une, não obstante a diversidade de interesses e a forma como cada um de nós lê o mundo que nos rodeia.

foto de Aníbal C. Pires

Este bem-querer que aproxima os amigos vence todas as barreiras que a vida lhes vai colocando no caminho. A cada reencontro revivemos memórias, ou não tivesse sido no tempo pretérito que nasceu e se cultivou essa relação de entendimento e se descobriram as afinidades que nos mantêm juntos, mas não estamos amarrados ao passado. Falamos, com preocupação, do tempo presente, conquanto nem sempre haja concordância, e continuamos a fazer planos para o porvir com a maturidade que a vida nos contemplou. Já não somos cronologicamente jovens, mas mantemos a boa disposição que nos caraterizava há algumas décadas. Quem estiver por perto, com facilidade, enxergará as afinidades, as diferenças, a solidariedade e a alegria que transborda e nos enche a alma.

Esta afinidade, com estes ou outros amigos, vem de longe. Vem de um tempo onde a pressa de viver marcava o ritmo. E quando a urgência impera não há tempo para saborear a vida, vivemos e partilhamos o momento. Depois se verá. 

O passar do tempo consolida a amizade, hoje vivemos a vida como se degustássemos um vinho envelhecido. Também os afetos necessitam de tempo, para no tempo perdurarem. A amizade, assim como o vinho, precisa de um tempo de maturação, e depois… depois acompanha-nos pelo tempo e é bom. É muito bom ter amigos que caminham connosco ao longo da vida.  

Faial da Terra, 6 de agosto de 2023 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 9 de agosto de 2023

terça-feira, 8 de agosto de 2023

festivais de verão

foto de Aníbal C. Pires




Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos







(...) O lugar dos Anjos, em Santa Maria, recebe há dezanove anos o mais antigo e emblemático festival de blues dos Açores, numa organização da Associação dos Escravos da Cadeínha. Este mítico festival acolhe milhares de visitantes com particular e notória incidência da vizinha ilha de S. Miguel, embora me tenha cruzado com alguns amigos e conhecidos de outras ilhas açorianas. O cartaz foi diversificado e de uma qualidade que justifica a sua projeção para além das fronteiras da ilha e da Região, e mais não me atrevo a dizer pois, de música gosto muito, mas não distingo as notas musicais, ou seja, sou um perfeito ignorante dos códigos desta arte.

O “Faial da Terra Blues” vai na segunda edição e é uma iniciativa da Junta de Freguesia. Sendo mais modesto tem, contudo, condições para se afirmar como uma alternativa às “Festas Brancas” e outros sucedâneos urbanos que, por serem de uma só cor não me atraem pois, gosto da diversidade cromática e abomino a uniformidade. (...)



Olga Benario Prestes - a abrir agosto




Olga Gutmann Benário Prestes (Munique, 12 de fevereiro de 1908 — Bernburg, 23 de abril de 1942). Militante comunista alemã de origem judaica, foi casada com o militante comunista brasileiro Luis Carlos Prestes. Deportada para a Alemanha nazi, em 1936, pelo governo Getúlio Vargas. Morreu em em 23 de abril de 1942, com 34 anos de idade, na câmara de gás com mais 199 prisioneiras, no campo de extermínio de Bernburg. 







Lindas são as mulheres que lutam.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

identidade

Imagem retirada da internet

O torpor induzido pala estação quente e húmida, ao qual se pode aduzir que a generalidade dos meus concidadãos estão, como eu, a sofrer da mesma apatia, coloca-me muitas dificuldades na escolha dos temas que partilho neste espaço. Já o referi no último texto, mas hoje senti a necessidade de reforçar e voltar a partilhar com os leitores esta minha angústia. Não é fácil, conquanto não faltem assuntos que merecem a minha atenção e, certamente, a vossa.


Os resultados das eleições no reino de Espanha, a participação, pela primeira vez, da seleção portuguesa de futebol feminino na fase final do Mundial, que está a decorrer na Austrália e Nova Zelândia, os destinos de férias mais “in” ditados pelos influenciadores das redes sociais, o recorde do Guinness  da Maior Roda de Chamarritas do Mundo conseguido nos últimos dias na ilha do Pico, os interessantes resultados da cimeira EU – CELAC, a situação de conflito social e político no Peru, as manifestações contra o aumento do custo de vida no Quénia e a repressão dos manifestantes, a Maratona Literária promovida pela Editora Letras Lavadas em co-realização com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, o prémio literário atribuído a Lídia Jorge, o continuado aumento dos juros de referência do Banco central Europeu e a incapacidade das famílias de os suportar, as festas e festivais que animam o Verão insular, as Jornadas Mundiais da Juventude, enfim a lista poderia prolongar-se por muito mais linhas, linhas suficientes para preencher este espaço e, ainda assim, não se esgotariam os temas. 

imagem retirada da internet
Não faltam assuntos, uns mais interessantes que outros, é certo, uns mais outros menos apropriados à estação, mas a opção irá ser outra, embora a questão, ainda não referida, da “prisão flutuante” para migrantes que a Inglaterra contratou à Bibby Marine, com sede em Liverpol para abrigar imigrantes “ilegais” merecesse particular atenção, mesmo durante a estação quente e húmida. Deixo-vos apenas as referências suficientes para, querendo, poderem aprofundar o conhecimento sobre esta bizarra iniciativa. O navio chama-se Bibby Stockholm, tem estado (ou está) atracado no porto de Portland, Dorset, Inglaterra, e tem capacidade para “albergar” 506 pessoas. Uma nota final sobre este assunto: existem registos de ligações entre a empresa-mãe Bibby Line Group (BLG) e o comércio de escravos, no princípio do século XIX. Ao que parece os negócios com a indignidade humana estão no ADN da Bibby Marine.

A identidade açoriana é, bastas vezes, utilizada no discurso político como se fosse uma construção acabada. Não é! À semelhança da autonomia, da democracia e da liberdade, também a identidade açoriana necessita de ser cultivada e alimentada para se consolidar e constituir-se, em definitivo, como uma prática cidadã e um desígnio coletivo.

A história política e económica dos Açores demonstra qua a unidade regional, que se alicerça na identidade açoriana, nem sempre é uma história de harmonia e coesão, quantas e quantas vezes se perderam oportunidades devido a bairrismos irracionais que teimam em persistir, como teima em perdurar a competitividade e multiplicação de equipamentos e modelos, ao invés da complementaridade que atenda às singularidades de cada uma das nossas ilhas.

Construir uma identidade regional neste território pulverizado numa vasta área do Atlântico Norte e com as particularidades de cada uma das ilhas e do povo que as povoou, mas também com as ingerências administrativas externas do poder central, não é uma tarefa fácil. O poder autonómico não fez, e não faz, tudo o que deveria fazer para alicerçar a ideia de Região e foi alimentando os bairrismos replicando investimentos, alguns dos quais mais não servem do que nutrir os clientelismos eleitorais do momento. Levado ao extremo e caricaturando, no atual contexto pode muito bem acontecer a proposta de abertura de gateways no Corvo e na Graciosa.

A identidade regional estrutura-se e desenvolve-se, em minha opinião, nos seguintes pilares: i) a partilha de uma geografia comum, ainda que com o território e a população dispersa por nove ilhas; ii) a religiosidade; iii) a emigração; iv) os movimentos autonomistas; e, v) a Autonomia Constitucional.

O isolamento, a distância aos continentes, o abandono pelo poder central, a sismicidade e a atividade vulcânica moldaram nas gentes uma certa forma de ser e estar e, à margem da igreja católica, desenvolveu-se uma profunda religiosidade como sejam as “romarias quaresmais”, no essencial circunscritas à ilha de S. Miguel, mas é com culto ao “Divino Espírito Santo” que o homem açoriano, esteja onde estiver, se identifica com a sua mátria.

Como escreve Antonieta Costa em Festas em Louvor do Divino Espírito Santo, Tomar, Encontros Internacionais de Tomar, IV encontro Internacional de Tomar (1987): “As festas em louvor do Divino Espírito Santo são um gigantesco fenómeno de expressão cultural que galvaniza o arquipélago pelo Pentecostes, unificando-o em miríades de formas de dizer o mesmo.

Diferentes de ilha para ilha, de freguesia para freguesia, mas ainda assim iguais no seu aspeto nuclear, na sua intenção secreta, na sua mensagem dita e redita, ouvida e deturpada, refeita e reanalisada em cada ciclo do calendário.

É tão essencial à vida do açoriano esse confronto anual com a mensagem de revisão e avaliação dos seus valores mais elevados que para onde quer que vá, leva consigo esse mecanismo social adaptando-o às novas situações com que se depara e usando-o sempre com o mesmo fim, tão eficiente ele é no seu papel de transmissor de cultura.”

foto de Aníbal C. Pires
O culto ao “Divino Espírito Santo” assume-se como o principal pilar da construção da identidade açoriana. Não foi por acaso que a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores consagrou legalmente a segunda-feira de Pentecostes como o Dia dos Açores.

À semelhança das “Festas do Espírito Santo” o fenómeno da emigração atravessa toda a sociedade açoriana, todas as ilhas, todas as freguesias viram os seus filhos partir na procura da concretização de sonhos e de melhores condições de vida.

Este fenómeno permitiu a formação de grandes comunidades açorianas no estrangeiro, particularmente significativas nos estados Unidos e no Canadá, onde a saudade da terra, a mesma origem geográfica e alguns aspetos culturais, apesar de oriundos de todas as ilhas do arquipélago, teve um efeito aglutinador que proporcionou um melhor conhecimento da terra distante e aproximou-os à volta de um sentimento comum: - do ser açoriano.

O processo que conduziu à criação da Região Autónoma dos Açores e à consagração da autonomia constitucional, embora tenha a sua génese nos movimentos autonomistas do último quartel do séc. XIX, resulta diretamente das transformações ocorridas em Portugal após a revolução de 25 de Abril de 1974. 

A Autonomia Constitucional é (deveria ser) suporte e instrumento para consolidar o processo de construção da identidade regional. Não tem cumprido cabalmente essa função. A ilha e o ex-distrito continuam a corroer a ideia de Região, sem a qual não há identidade regional.

Ponta Delgada, 25 de julho de 2023 

Aníbal C. Pires, In Diário dos Açores, 26 de julho de 2023

do tráfico negreiro a "albergue" de migrantes

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos




(...) Não faltam assuntos, uns mais interessantes que outros, é certo, uns mais outros menos apropriados à estação, mas a opção irá ser outra, embora a questão, ainda não referida, da “prisão flutuante” para migrantes que a Inglaterra contratou à Bibby Marine, com sede em Liverpol para abrigar imigrantes “ilegais” merecesse particular atenção, mesmo durante a estação quente e húmida. Deixo-vos apenas as referências suficientes para, querendo, poderem aprofundar o conhecimento sobre esta bizarra iniciativa. O navio chama-se Bibby Stockholm, tem estado (ou está) atracado no porto de Portland, Dorset, Inglaterra, e tem capacidade para “albergar” 506 pessoas. Uma nota final sobre este assunto: existem registos de ligações entre a empresa-mãe Bibby Line Group (BLG) e o comércio de escravos, no princípio do século XIX. Ao que parece os negócios com a indignidade humana está no ADN da Bibby Marine. (...)

sábado, 15 de julho de 2023

o moscatel está inocente

Foto de Aníbal C. Pires

O tempo é de férias. O calendário assim o dita, mas nem todos podemos, nem todos gozamos os merecidos dias de descanso anual quando as temperaturas e os longos dias de Verão a isso convidam. Seja por opção, seja por obrigação contratual, ou outras razões que o justifiquem. As férias no Verão não são para todos, embora o sentimento generalizado seja de algum desprendimento e alheamento da realidade. É como se de uma reação inata se tratasse para compensar e recuperar das violentas agressões mediáticas, sociais, políticas e profissionais a que estamos sujeitos ao longo do ano. 

Estando, ou não, de férias este é um tempo que convida a ir ao mar no fim da tarde ou pela manhã, conforme o gosto e a disponibilidade, calcorrear trilhos, a dedicar mais tempo aos amigos, a conversar sobre os festivais de Verão, sobre a sustentabilidade do destino turístico Açores, a procurar ler os livros que se foram acumulando nas prateleiras, ou podemos mesmo optar por não fazer, rigorosamente, nada; o que podendo parecer não será, dizem os entendidos, a melhor forma de repor energias e lavar a alma.

imagem retirada da internet
Nunca é fácil, mas em julho e agosto é sempre mais espinhoso encontrar um tema que se acomode à estação, isto é, que não retire os leitores da letargia em que estão mergulhados, mas não seja, de todo, desinteressante. A ação individual e coletiva do Governo Regional e dos seus fiéis acólitos é uma fonte temática inesgotável sobre os quais se pode dissertar, alguns factos e decisões até são hilariantes não fossem os custos presentes e futuros que daí resultam, outros que pelo seu alcance colocam em causa a sustentabilidade financeira da Região, são dramáticos e por isso não se adequam à época estival, que se quer e deseja tranquila. Mas a principal razão pela qual não vou abordar questões da política regional é, no essencial, por entender que nem agora, nem no Outono, no Inverno, ou na Primavera, a ação governativa merece a minha atenção. Tenho opinião, mas não gasto o meu tempo a escrever sobre as imbecilidades políticas protagonizadas pelos departamentos governamentais e apoiadas pelos indefectíveis subsídio-dependentes do poder instalado (não me refiro aos beneficiários do RSI, esses merecem todo o meu respeito pois, são as vítimas do sistema). 

O tempo passa, as instituições ficam, os atuais protagonistas da coligação governamental, serão a seu tempo afastados, quando os eleitores manifestarem nas urnas o enfado e o descontentamento que expressam em surdina, não vá o diabo tecê-las se levantarem a voz. Sim, pois esta solução governativa conseguiu, em tempo recorde, instalar um clima de medo que os governos do PSD e o PS levaram mais de uma década a aparelhar, e ainda assim caíram, como este cairá ao que se julga e deseja, também, em tempo recorde, outubro de 2024 parece-me uma excelente data, se for antes tanto melhor. Sei que as generalizações são injustas e nem todos os titulares dos departamentos governamentais merecem o epíteto político que atribuí ao coletivo que forma o governo, mas a exceção que faço à Secretária da Educação e dos Assuntos Culturais, não da Secretaria que Sofia Ribeiro tutela, apenas confirma o que fica dito sobre o atual governo e os seus indefetíveis servos.

Os leitores, neste momento, se ainda se mantiverem por aqui, já perguntam: afinal vais escrever sobre o quê? E eu não tenho o que lhes responder e, não é aconselhável dizer-lhes que não sei, logo o melhor é deixar correr a pena que alguma coisa se vai amanhar, conquanto a situação, face a tudo o que já foi dito, se esteja a tornar cada vez mais penosa e o espaço escasseie para tratar de um qualquer assunto que me venha a ocorrer e que se enquadre no contexto da estação estival, isto é, possa ser aliciante e não obrigue o autor e os leitores a esforços desnecessários. 

Sou uma pessoa bem-humorada e bem-disposta, mas não fui fadado para escrever textos que provoquem o riso, ou mesmo um esboço de qualquer expressão facial e labial que se aproxime de um sorriso, se assim fosse poderia tentar descrever algumas histórias leves e bem-humoradas a que assisti ou, que eu próprio protagonizei. Seria, sem dúvida, uma excelente opção para amarrar os leitores ao texto e uma contribuição para manter os espíritos afastado das inquietações adiadas para setembro quando tudo voltar ao ritmo do ano escolar, do ano judicial e do ano político, ainda que nem as escolas e os tribunais estejam fechados, nem o exercício do poder político tenha suspendido a sua atividade para balanço.

Não sendo um humorista, como ficou a saber-se pela confissão feita no parágrafo anterior, também não sou “influenciador” (vulgo: influencer), apesar de ter perfis e publicações em diversas redes sociais, mas por prezar a liberdade e a diversidade de pensamento autónomo, não gosto de colonizar o gosto e a opinião dos meus concidadãos. Mais uma declaração de princípios a somar a outras que, por vezes, se podem encontrar dispersas nos textos que escrevo e partilho neste e noutros espaços.

imagem retirada da internet
O senhor Presidente da República teve uma indisposição e desmaiou, naturalmente, esse incidente foi notícia. O estado de saúde do Presidente é do interesse de todos os portugueses, mesmo dos que nutrem pouco simpatia pela personalidade que atualmente desempenha o cargo. Já as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa foram descabidas ao atribuir ao “moscatel”, a causa da sua indisposição, por outro lado caberia à equipa médica que o assistiu, se fosse caso disso, qualquer nota sobre o estado clínico do presidente. Não sou produtor nem comercializo “moscatel”, ou qualquer outro tipo de bebidas espirituosas, mas se fosse tinha-me sentido prejudicado. A(s) causa(s) terão sido outras, o “moscatel” pode ter contribuído, mas a constatada desidratação e não ter almoçado, associada ao calor, à idade e ao histórico clínico, isso sim, justifica a indisposição e o desmaio do Presidente da República. O moscatel tem de ser ilibado desta responsabilidade pelo desmaio de Marcelo Rebelo de Sousa. O moscatel está inocente!

O personagem que ocupa a Presidência da República continua a ser o eterno comentador televisivo, daí não vem mal ao mundo, face à arquitetura do Estado português, mas não se espere que os portugueses lhe deem o crédito que é devido a um chefe de estado. Infelizmente Marcelo Rebelo de Sousa não é caso único, não faltam por aí presidentes e primeiros-ministros, e outros tantos comentadores, a fazerem o papel de capacho de organizações cuja legalidade democrática não foi sufragada pelos povos, mas que decidem sobre o nosso presente e futuro como se tivessem essa legitimidade.

imagem retirada da internet

A lista destas personagens é longa, mas como está tacitamente assumido pelo autor que durante a estação estival os temas são tratados com alguma leveza, deixo uma curta lista de três nomes: Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, e Josep Borrell, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança. Sobre estas três “conhecidas” personalidades, hoje, abstenho-me de tecer outras considerações que não seja reforçar a ideia de que exercem cargos para os quais não foram eleitos, mas cuja ação coloca em causa o bem-estar, presente e futuro, dos povos da União Europeia.

Quanto ao narcisismo de Marcelo Rebelo de Sousa pouco há a acrescentar a não ser mais uns autorretratos (selfies) e, para nosso sossego antes isso que um monólogo de mais de dez minutos sobre o seu desmaio e o moscatel quente que o terá provocado. 

Madalena (Pico), 11 de julho de 2023 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 12 de julho de 2023

nem agora, nem nunca





Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos




(...) Nunca é fácil, mas em julho e agosto é sempre mais espinhoso encontrar um tema que se acomode à estação, isto é, que não retire os leitores da letargia em que estão mergulhados, mas não seja, de todo, desinteressante. A ação individual e coletiva do Governo Regional e dos seus fiéis acólitos é uma fonte temática inesgotável sobre os quais se pode dissertar, alguns factos e decisões até são hilariantes não fossem os custos presentes e futuros que daí resultam, outros que pelo seu alcance colocam em causa a sustentabilidade financeira da Região, são dramáticos e por isso não se adequam à época estival, que se quer e deseja tranquila. Mas a principal razão pela qual não vou abordar questões da política regional é, no essencial, por entender que nem agora, nem no Outono, no Inverno, ou na Primavera, a ação governativa merece a minha atenção. (...)

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Clara Josephine Zetkin - a abrir julho

imagem retirada da internet
"A propaganda das mulheres deve tocar em todas as questões que são de grande importância para o movimento proletário geral. A principal tarefa é, de fato, despertar a consciência das mulheres e incorporá-las na luta de classes."

Clara Zetkin


Lindas são as mulheres que lutam.