quinta-feira, 5 de novembro de 2020

USA, diz que é uma democracia

Não direi todos, mas um número considerável de cidadãos, por todo o mundo, segue atentamente a (lenta) contagem dos votos da eleição para a presidência dos Estados Unidos.

Os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos estão, ao que parece, em estado latente, mas muito perto de ser encerrada a contagem. 

Faltam quatro Estados (Nevada, Geórgia, Carolina do Norte e Pensilvânia) e Biden acumula mais votos populares e mais grandes eleitores (Colégio Eleitoral). 

Para o triunfo de Biden bastará a vitória no Nevada (6 grandes eleitores) onde verifica uma ligeira vantagem sobre Trump, mas não é seguro que se venha a confirmar pois, a diferença é residual e ainda faltam considerar 25% dos votos populares.

Não tenho nenhuma simpatia política nem por Biden nem por Trump, nem considero que algo de substancial possa mudar. Se Biden vier a ser o próximo presidente só mudará o estilo de comunicação boçal que carateriza Trump, para uma linguagem mais elaborada e requintada.

Seja qual for o próximo presidente da administração estado-unidense não vislumbro alterações de monta nas políticas interna e externa. Vai governar, quem sempre governou, apenas muda o porta-voz. 

Face ao clima de pressão que se instalou antes e depois do ato eleitoral, face à demora no conhecimento dos resultados finais, face ao próprio sistema eleitoral (a eleição não resulta diretamente do voto popular), face ao clima de conflitualidade latente nas ruas das principais cidades estado-unidenses julgo ser legítimo perguntar:

- Porque não foram enviados observadores internacionais, sob a égide das Nações Unidas, para acompanhar e fiscalizar as eleições nos EUA!?

- Justifica-se, ou não, uma intervenção estrangeira, sob a égide das Nações Unidas, para repor a legalidade democrática, ou seja, defender os interesses estado-unidenses naquela zona do globo!?

Enfim! São os “states” e as suas particularidades políticas. São os “states” que alguma intelectualidade de esquerda tem como referência de democracia.

Mais interessante é o olhar sobre as eleições (que decorreram em simultâneo) para as duas câmaras do Congresso. Um olhar que ficará para outra oportunidade. 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 05 de Novembro de 2020


terça-feira, 3 de novembro de 2020

entrevista ao Correio dos Açores (Face a Face) - 2020/10/04





Texto da entrevista conduzida por João Paz, publicada no jornal "Correio dos Açores, no dia 4 de Outubro de 2020.






FACE A FACE!

1 – Descreva os dados que o identificam perante os leitores!

- Parece, mas não é fácil responder a esta questão. O leitor, em função das circunstâncias em que se cruzou comigo, dirá: foi dirigente associativo, é dirigente sindical, foi presidente do Conselho Diretivo da Escola dos Arrifes, conheci-o numa ação de formação profissional, costuma ler poesia por aí, escreve num blogue, tem um canal no Youtube, conheço-o do Facebook, foi eleito na Assembleia Municipal de Ponta Delgada, foi deputado e Coordenador do PCP e da CDU Açores, escrevia para os jornais, ouvia-o na rádio, via-o numa televisão local, é professor. Sim, sou professor e essa, considero eu, é a minha imagem de marca.

2 – Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?

- Sou Licenciado em Educação Tecnológica e Mestre em Relações Interculturais, frequentei um Doutoramento em Geografia (Humana) que não concluí por ter assumido, em 2008, responsabilidades como Deputado na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Sou docente de Educação Visual e Tecnológica e, no momento, aguardo decisão sobre a minha aposentação. Afinal já são 45 anos e alguns meses de trabalho como docente.

Durante a minha carreira profissional exerci os mais diversos cargos (talvez todos) que podem ser atribuídos a um docente. Seria fastidioso estar a enumerá-los, mas pense o leitor num cargo que possa ser executado por um professor e, certamente, eu tê-lo-ei exercido. Como qualquer outro trabalhador docente, com consciência social e política, sou sindicalizado. Sou, também, dirigente sindical.

A par da atividade docente fui também formador tendo, durante algum tempo, colaborado com empresas e sindicatos na elaboração de planos de formação profissional e dado algumas ações de formação em áreas do “atendimento ao público” e da “higiene, saúde e segurança no trabalho”.

A minha intervenção social e cívica decorre, desde logo, da minha condição profissional, ou seja, um professor tem “obrigação” de participar na vida da sua comunidade. Não me vou alongar sobre este tema, opto por deixar aos leitores uma pequena lista das associações com as quais colaborei e ajudei a fundar: Clube Desportivo da Escola Preparatória de Arrifes; Associação de Andebol de S. Miguel; União das Associações de Andebol dos Açores; Associação “Vínculos”; e, Associação de Imigrantes nos Açores (AIPA). Recentemente e, também, na qualidade de sócio fundador subscrevi a criação da APA – Associação de Poetas do Atlântico. Organização para a qual fui indigitado, pelos sócios fundadores, Presidente da Comissão Instaladora.

Sou casado há 43 anos, tenho 3 filhos (2 raparigas e 1 rapaz) e 3 netas.

 

3 – Como se define a nível profissional?

- Não é fácil falar do nosso desempenho profissional e, muito menos, numa palavra ou numa frase sintetizar o que pensamos sobre a nossa carreira. Diria que: sendo professor nunca deixei de ser um aprendiz. O que significa que procurei manter sempre um diálogo com os meus alunos, promovendo o pensamento autónomo e crítico. Ou seja, mais do que a mera transmissão de conhecimento e saberes procurei, sempre, induzir a necessidade de questionar para compreender. Se isto fez de mim um bom ou mau profissional, Não sei. Mas não saberia fazê-lo de outra forma.

4 – Quais as suas responsabilidades?

- Sou membro da Direção do Sindicato dos Professores da Região Açores (SPRA), situação que poderá vir a ser alterada na próximas eleições que se realizam a 30 de Outubro pf, sou membro do Secretariado e Direção Regional do PCP Açores, situação que se manterá até à realização do próximo Congresso. Como ficou dito numa das perguntas anteriores continuo envolvido em atividades de natureza cívica, cultural e política.

5 – Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional numa sociedade insular como a açoriana?

- Não tenho a ideia que a família, tal como a entendemos, tenha desaparecido na nossa sociedade. Houve alterações profundas motivadas por razões conhecidas, mas, ainda que de forma empírica, diria que que apesar de se registar um elevado número de famílias desestruturadas, existe um núcleo maioritário de famílias que mantêm, no essencial, os princípios que são inerentes ao conceito que temos de família. Por outro lado, fruto da própria evolução social é visível um novo tipo de famílias que, como qualquer outra, contribui para a desejável harmonia social que as famílias garantem.  

6 – Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?

- As famílias estão a atravessar um período, que não se iniciou agora, muito complexo e que conforma um ataque à sua unidade e, assim sendo, importaria reverter algumas políticas cujos efeitos, ainda que indiretos, contribuem para a sua desagregação. Os cidadãos menos atentos poderão dizer que a afirmação anterior é um paradoxo pois, as políticas públicas têm sofrido uma evolução positiva na proteção e apoio às famílias e, eu direi, que não se pode afirmar o contrário.

Assim é, parece contraditório. Mas a estabilidade familiar tem vindo a ser posta em causa por razões que lhe são alheias. Vejamos: a desregulação das relações laborais (precariedade e flexibilização de horário de trabalho); baixos rendimentos que, muitas vezes, obrigam o casal a prolongar o seu tempo de trabalho, em detrimento das horas que devia estar em família, para poder aumentar o seu rendimento; a discriminação das mulheres no acesso ao trabalho e a salário igual; a cultura do consumo e a falta de informação e formação para resistir aos seus apelos; e, ainda que não se esgote por aqui, a cultura dominante de individualização, ou atomização, da sociedade e que induz o egocentrismo com todos os efeitos que daí podem decorrer;

Se considerarmos esta variáveis julgo não ser muito difícil caminhar para encontrar alguns dos perigos que se abatem sobre as famílias e que contribuem para a sua desagregação e para a demissão do papel de educadores enquanto núcleo primordial da educação das crianças e jovens.

Julgo que as famílias necessitam de ser valorizadas pois, o seu papel é insubstituível na construção de sociedades onde paute o bem-estar e a dignidade. Os modelos de desenvolvimento para serem bem-sucedidos não podem, nem devem, continuar a alicerçar-se na desregulação do mercado de trabalho e nos baixos rendimentos. As políticas caritativas e assistencialistas não resolvem a pobreza e a exclusão, Perpetuam-nas.  

7 – A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas?

- Estranho é que assim não fosse. Julgo que o primeiro passo é o reconhecimento e a aceitação de que os choques entre pais e filhos acontecem naturalmente. São parte do crescimento das crianças e jovens. São parte de um processo de aprendizagem. Difícil é a gestão desses conflitos. Nem sempre é agradável dizer, Não. Mas nem sempre se pode dizer, Sim.

Vivemos num tempo em que nos são induzidos valores que contrariam séculos de evolução social. Promove-se a competição ao invés da cooperação, o individualismo ao invés do bem comum, a guerra ao invés da paz, o ter ao invés do ser, o já ao invés do tempo de reflexão, etc.. Por outro lado, o nosso tempo é um tempo sem tempo. Eu diria, parafraseando, o escritor João Pedro Porto, “Se o presente já durava pouco, agora também o futuro é vivido com a urgência de o tornar passado.” Talvez seja tempo de dar tempo ao tempo, parar para olhar e ver que caminhos estamos a trilhar e corrigir o rumo, enquanto é tempo. E se isto se aplica às famílias julgo que se pode generalizar a outros aspetos da nossa vida coletiva.

Não sou adepto de uma educação espartana para os nossos filhos, mas também não advogo facilitismos. As crianças e jovens necessitam de referenciais onde as normas e o seu cumprimento sejam parte das suas rotinas e, cabe, em primeira instância, às famílias a definição de regras de relacionamento e de responsabilização dos seus filhos. Não sendo assim a conflitualidade transfere-se para a Escola, para o Clube, para o grupo de amigos, para a sociedade, com tudo o que de pernicioso daí pode advir. 

8 – Que importância tem os amigos na sua vida?

- Toda. A amizade é um bem maior.

9 – Reformado, mas nem tanto? Que actividades gostas de desenvolver no seu dia-a-dia?

- Como já referi aguardo, julgo que por poucos dias, a passagem à condição de aposentado, Condição que não será sinónimo de inatividade, bem pelo contrário, é chegado o tempo de me dedicar, mais, à leitura e à escrita. Ou seja, dar continuidade a alguns projetos que têm vindo a ser adiados e aos quais, espero eu, possa dedicar mais tempo.

As minhas rotinas diárias passam pela leitura, pela pesquisa de informação alternativa ao mainstream, por caminhadas em espaços naturais e, naturalmente, alguns contatos sociais. Continuo a manter um conjunto de atividades sociais, culturais e políticas, isto é, não estou reformado da minha condição de cidadão que exerce os seus direitos e obrigações cívicas. 

10 – Vê televisão? Quais os canais que mais o atraem?

- Para salvaguardar a minha sanidade mental, Não vejo televisão. Há muito tempo que deixei de ver televisão no formato convencional. Tinha alguma preferência pela RTP2

11 – Que sonhos alimentou em criança?

- Viajar e conhecer o Mundo. As primeiras viagens aconteceram nas páginas dos livros que li. Continuo a viajar nas páginas dos livros que leio, mas já concretizei alguns dos sonhos e visitei lugares e gentes que faziam parte do meu imaginário de criança e jovem.

12 - Qual o seu clube de futebol? É um adepto ferrenho daqueles que vão para os estádios de cascol em volta do pescoço?

- Desde que o futebol se transformou num gigantesco negócio perdi todo o interesse por este desporto. Quando criança e jovem era adepto do Benfica, mas nunca me encaixei no perfil do apoiante ferrenho.

13 – O que mais o incomoda nos outros?

- A hipocrisia.

14 – Que características mais admira no sexo oposto? 

- Independentemente da origem geográfica, cultural e do género o que mais admiro nos humanos é a Inteligência e honestidade. 

15 – Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?

- Ler é uma das atividades mais prazerosas a que me dedico. Poderia elaborar uma longa lista de livros pois, tenho dificuldade em escolher o “tal”. Seja um livro, uma música, uma iguaria gastronómica, uma personalidade. Enfim o que seja, mas não quero deixar de responder e direi que um dos livros de eleição que já li, e recomendo, é o “Memorial do Convento”, de José Saramago.

16 – Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?

- A primeira reação será dizer: Mal, relaciono-me mal. Mas em boa verdade não existe uma relação. Talvez a palavra que melhor pode descrever o caudal de informação regurgitado nas, erradamente, chamadas redes sociais seja, Incómodo. Fico incomodado pelos conteúdos publicados sem verificação da veracidade, incomoda-me a informação não factual, incomoda-me o imediatismo, incomoda-me a falta de rigor. Incomoda-me a replicação acrítica de “notícias” que nem sempre o são. Defendo-me das chamadas redes sociais dando-lhe um uso moderado.

17 – Costuma ler jornais?

- Folheio, não leio de ponta a ponta. Folheio e seleciono o que me interessa, como seja a atualidade, alguma opinião, os suplementos culturais. 


18 – Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?

- Quem está a ler já percebeu que sim. Viajar é um prazer e, talvez das melhores formas de aprender e compreender a diversidade do nosso Mundo. À semelhança da pergunta sobre o livro de eleição, também agora se configura a dificuldade de escolher. Terá sido aquela viagem a Nova Iorque e a San António (Texas), ou uma outra das várias que fiz aos Estados Unidos, talvez a viagem que fiz ao Vale de San Joaquin (Califórnia), com passagem por San Francisco, ou uma das minhas frequentes viagens a Cabo Verde, Cuba, sim gostei. Qual delas terá sido a que mais me marcou!? O Egipto, talvez, mas S. Tomé e Príncipe foi marcante, e Estocolmo, e Kiruna. Não é fácil escolher e, se na leitura deixei apenas uma indicação, quanto às viagens fiquem-se com esta incompleta lista.

19 – Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?

- Neste caso vou recusar-me a responder diretamente à pergunta. Gosto, particularmente, da gastronomia portuguesa. Poderia até selecionar um prato de cada uma das regiões, mas não o farei. Come-se muito bem em todo o território continental e insular da República Portuguesa.  

20 – Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?

- As transformações que eu gostaria que os jornais noticiassem não cabem apenas numa notícia. Seria fácil e esperado que eu respondesse: acabou a fome, a paz reina, todos os humanos têm acesso a água potável, ou mais imediato como o controle e a erradicação da Covid19. Mas as transformações não se concretizam com desejos de sofá. É preciso ação para transformar o Mundo. Um Mundo doente, um Mundo que está a perder a humanidade.

21 – Qual a máxima que o/a inspira?

- Aqui está uma das tais perguntas que me deixa sem jeito pela dificuldade que tenho em escolher uma, mas sim vou, sem rodeios, responder.

“Ser culto é a única forma de ser livre”, Jose Marti (1853/1895)

22 – Em que Época histórica gostaria de ter vivido?

- Na minha.

23– O que pensa da política?  

- O exercício da atividade política é um direito e um dever de todos os cidadãos. E todos, de uma forma ou outra, somos agentes políticos, mesmo quando nos abstemos e o negamos. A atividade política é, em minha opinião, servir a comunidade. Digamos que a opinião generalizada é que a política é uma atividade onde pontuam os oportunistas, mas nem a generalização é justa, existem muitos cidadãos que fazem da política uma atividade cívica nobre e desinteressada, e, por outro lado, só com o aumento da participação ativa dos cidadãos será possível um escrutínio rigoroso que leve ao afastamento dos parasitas e oportunistas que vivem à sombra dos aparelhos partidários dos partidos do chamado “arco da governação”. 

24 – Que opinião tem sobre os políticos?

- Julgo que, de alguma forma, a resposta à pergunta anterior deixa claro o que penso sobre os agentes políticos. Acrescento apenas que as generalizações são um instrumento perigoso e que só serve para denegrir os agentes políticos que encaram a sua participação com nobreza e desinteresse, como um dever para a sua comunidade.

25 – Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?

- Uma só medida não resolveria a complexidade das questões que nos afetam, seja na Região, no País, ou no Mundo. A pobreza e a exclusão social constituem-se como uma das maiores preocupações que me afligem e, certamente, esta seria uma questão prioritária.

26 – É apologista de uma Autonomia Política Administrativa progressiva. A Região deve ter mais poder na gestão dos seus mares do que tem? Quer explicar?

- Sou um autonomista convicto, como é do conhecimento geral, quem acompanhou e acompanha a minha intervenção pública pode facilmente comprová-lo. Não tenho por hábito rotular a autonomia. Mais do que adjetivar a Autonomia é necessário exercê-la e exigir que os poderes autonómicos sejam respeitados. O que temos assistido nos últimos anos, designadamente após a última revisão Constitucional e Estatutária, é a uma inércia dos poderes executivos e legislativos de utilizar todas as competências autonómicas que foram conquistadas e consagradas na Constituição e no Estatuto. E, neste caso, a responsabilidade não é de Lisboa, nem de Bruxelas.

Quanto à questão da gestão dos mares a posição que tenho defendido é, de forma sintética, a seguinte: “a gestão dos mares e dos seus recursos deve pautar-se pelo princípio da proximidade”.

Como se pode depreender a resposta à questão se a Região deve ter mais poder na gestão dos seus mares fica assim respondida.


26 – A abstenção preocupa-o? Porque aumenta a abstenção e os votos em branco no eleitorado açoriano? Será apenas porque os cadernos eleitorais não estão actualizados?

- O recenseamento é um automatismo que decorre da posse do Cartão de Cidadão. Sendo uma medida com a qual concordo veio introduzir algumas distorções pois, muitos dos nossos imigrantes têm, naturalmente, Cartão de Cidadão ao qual corresponde um eleitor, mas como sabemos não residem nos Açores. Se a esta distorção juntarmos a que decorre da desatualização dos cadernos eleitorais estaremos a falar de um número de significativo de eleitores que na prática não existem ou estão impedidos de votar por não se encontrarem na Região.

Mesmo tomando em consideração que as distorções a que me referi podem representar qualquer coisa como 15% dos eleitores, ainda assim verifica-se uma taxa real de abstenção muito elevada e, como tal preocupante.

É este segmento de eleitores que é necessário conquistar para a participação cívica, sem obrigatoriedade de voto. A mobilização dos abstencionistas para a participação na vida democrática é uma preocupação que deve merecer a atenção dos poderes públicos.

Lembro-me de ter proposto na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores um projeto de resolução (recomendação) que tinha como finalidade contribuir, ainda que marginalmente, para a diminuição da abstenção. A proposta consistia na atribuição a todos os jovens açorianos que completassem 18 anos de um exemplar do Estatuto, da Constituição e da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esta proposta foi chumbada pelos partidos do costume (PS, PSD e CDS/PP).

27 – Que prospectiva faz das próximas eleições legislativas regionais?

- Não me atrevo a fazê-la. Embora não tenha grandes dúvidas que o PS sairá como vencedor deste ato eleitoral. A covid19 é a garantia da vitória do PS.

28 – Se o PS não obtiver maioria absoluta nas próximas eleições legislativas regionais, o PCP deverá estar aberto a viabilizar uma solução de governo socialista na Assembleia Legislativa Regional? Em que medida?

- Partindo do princípio que o PS será o vencedor das eleições legislativas e que formará governo (minoritário ou não), esse governo não será nunca um governo socialista. O PS abandonou há muito a matriz social democrata que o caraterizava e, socialista só de nome, contudo, o PCP que assumirá com sentido de responsabilidade a dimensão institucional que o Povo açoriano entender conferir-lhe, estará sempre disponível para, a cada momento, contribuir para a construção de soluções que garantam a melhoria das condições de trabalho e de vida dos açorianos, o PCP estará disponível para reforçar o investimento público no Serviço Regional de Saúde, na Escola Pública e na promoção de modelos de desenvolvimento assentes no aumento, diversificação e valorização da produção regional, o PCP estará sempre disponível para construir modelos de desenvolvimento harmonioso que potenciem as singularidades de cada uma das nossas ilhas e que promovam complementaridades e não os bairrismos redutores. Assim outros estejam também.

29 – Em sua opinião estamos a caminhar para uma crise económica e social sem precedentes devido ao Covid-19? Quem vai sentir mais esta crise? Porquê? 

- Julgo que a Covid19 tem servido para aceitar o que em situações de normalidade seria inaceitável, ou seja, instalou-se um clima de medo induzido com um propósito que tem como alvo os mesmos de sempre. As populações mais vulneráveis, os trabalhadores do setor público e do setor privado, enfim todos menos os donos do Mundo.

30 – As políticas adoptadas a Região para combater a pobreza têm sido suficientes e eficazes? Porquê?

- Não. Eu diria mesmo que as opções políticas visam a perpetuação da pobreza e da exclusão social. Direi ainda que as medidas de apoio que foram criadas ao longo dos anos, sendo importantes, não passam de meros paliativos e não têm por objeto a resolução do problema, nem sequer a sua diminuição.

Medidas que combatam a precariedade laboral e aumentem o rendimento do trabalho afiguram-se como imperativos para que os jovens, mas também os menos jovens possam sair da pobreza e do seu limiar.

Um ligeiro aumento do acréscimo regional ao salário mínimo regional seria, só por si, suficiente para retirar algumas centenas, ou mesmo milhares da famílias do Rendimento Social de Inserção.

31 - Este período de pandemia travou o turismo e está a levar as empresas proprietárias de unidades hoteleiras, de agências de viagens, renta-car e de animação turística a situações económicas insustentáveis. Devia-se ter pensado mais na volatilidade do turismo? Quer comentar?

- É também do domínio público a posição que sempre tive em relação ao modelo de turismo que se procurou implementar na Região. O setor sendo importante, não deve ser considerado como substitutivo de outros setores. E não deve, desde logo, por ser uma atividade volátil. Pequenas ou grandes alterações podem, de um momento para o outro desviar os fluxos turísticos de um para outro destino. Exemplos não faltam. Por outro lado, qualquer tentativa de massificação (uniformização) do destino Açores retira-nos competitividade. E aqui não é uma questão de custo, o destino Açores será sempre um destino caro, mas sim uma questão de singularidade paisagística, ambiental e cultural. À medida que nos tornarmos iguais a outros destinos, ou seja, perdendo o que nos diferencia deixamos de ter procura e competitividade.

Sobre esta questão muito mais se poderá dizer. Mas o espaço desta entrevista está a chegar ao fim e ainda tenho mais duas questões para responder.

32 – As medidas adoptadas pelo Governo dos Açores para manter o sector do turismo ‘à tona de água’ têm sido suficientes? Quer comentar?

- Sem dúvida. Mas mais do que as medidas, ou melhor em paralelo com as medidas esta seria uma excelente oportunidade para repensar o modelo e adequá-lo ao nosso destino.

33 – Tem algo mais a acrescentar que considere interessante e/ou importante no âmbito desta entrevista?

- Sim quero. Foi um prazer partilhar estes momentos com os leitores do Correio dos Açores.

Votos de uma excelente semana.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 2 de Outubro de 2020

 



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O simbolismo da proclamação conjunta

Imagem retirada da internet

Os líderes do PSD, do CDS/PP e do PPM promoveram hoje, pouco depois das 17 horas, uma conferência de imprensa. O espaço utilizado foi, simbolicamente, uma sala do edifício da ALRAA. 

Simbólico foi também o conteúdo da conferência de imprensa, ou seja, tratou-se apenas de “marcar território”, o que significa que não estamos tão perto de uma solução liderada por estes protagonistas como, tudo levava a crer, até à simbólica proclamação de uma vontade que reúne o apoio de 26 parlamentares (21, PSD; 3, CDS/PP; e 2, PPM), isto é, menos 3 do que os necessários para garantir estabilidade governativa.

O PS poderá vir a terreiro, sozinho ou acompanhado, proclamar simbolicamente a sua disponibilidade para formar governo. Tem 25 deputados, se hipoteticamente lhe juntarmos o pan somam 26, tantos quantos dispõem os autores da simbólica proclamação.

Se tudo isto não fosse dramático, diria que o ridículo se está a instalar na vida política regional.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 02 de Novembro de 2020


domingo, 1 de novembro de 2020

À direita volver


Os resultados são claros. O novo parlamento regional tem uma maioria de direita. PSD, CDS, PPM, chega, iniciativa liberal e pan, somam 30 deputados. O PS e o BE 27 deputados. 

Qualquer entendimento político que se venha a concretizar para a formação do próximo Governo Regional será sempre uma solução à direita. O CDS e o PPM têm, no novo quadro parlamentar e político, uma dimensão que lhes permitirá ditar para que lado vai pender a solução governativa. Mas, qualquer que seja a solução que vier a ser encontrada, face ao que é do conhecimento público, será sempre uma solução periclitante e de direita, com ou sem PS, e, sobretudo, uma decisão que vai resultar da sede de poder pelo poder ancorada em projetos pessoais. Não será só, mas não deixará de ser assim. Mais do que o interesse público regional, os resultados eleitorais de 25 de Outubro, transmutaram as decisões sobre o nosso futuro imediato para jogos de poder da direita lisboeta.

A solução que maior estabilidade política garante seria, em minha opinião, o entendimento do PS com o CDS/PP e com o PPM (maioria parlamentar com 30 deputados). 


E passo a justificar: no atual quadro político e parlamentar apenas dois partidos (CDS e PPM) se vão empenhar numa legislatura para quatro anos; o PS e o PSD logo que lhes seja possível e eleitoralmente vantajoso tudo farão para provocar eleições antecipadas; ao BE tanto dá como dará pois, como é sabido, vive do imediatismo e ao colo do mediatismo; a solução PSD, CDS/PP e PPM (26 deputados), por muito que o CDS/PP e o PPM desejem estabilidade na legislatura, necessita de pelo menos o acordo de mais 3 deputados (29, é já maioria parlamentar) para assegurar estabilidade governativa. Estes 3, ou que sejam 4 deputados se o pan entrar na equação (situam-se todos no espetro ideológico da direita), não dão qualquer garantia de fiabilidade e confiabilidade. Ou seja, nunca serão parceiros, serão sempre concorrentes e adversários do CDS e do PPM, uma vez que se situam no mesmo espetro ideológico e disputam o mesmo eleitorado, ainda que, e tenho e o reconhecer, nem todos se sirvam da mesma tática populista para ganhar apoio político e eleitoral.

A solução de governo, como já disse, será sempre de direita. Não me aflige particularmente. Bem vistas as coisas, o PS, com uma no cravo e outra na ferradura, conduziu a sua governação à direita. Os indicadores sociais e económicos dão-nos conta disso mesmo, ou não sejam os Açores a região do país com uma das mais elevadas taxas de risco de pobreza, uma economia terceirizada e cada vez mais dependente do exterior.


Os resultados eleitorais não me merecem, para já ou para sempre, nem pequenos nem grandes comentários. Direi apenas que fui surpreendido pelo número de deputados que o PS perdeu (5). Foi obra. 

A minha estranheza resulta do facto de ter interiorizado que as respostas do governo de Vasco Cordeiro à situação pandémica iriam favorecer eleitoralmente o PS. Para surpresa minha assim não aconteceu. 

O descontentamento acumulado traduziu-se em voto de protesto. Um protesto inconsequente, é certo, pois a maioria dos eleitores elabora as suas escolhas em premissas pouco objetivas. 

Quantos eleitores conhecerão os programas ou manifestos eleitorais que, esses sim, traduzem o contrato social e político dos partidos e coligações com os eleitores. Poucos. 

Poucos, mas foram muitos os que votaram contra os seus próprios interesses e isso, caros eleitores, paga-se caro. Bem caro.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 01 de Novembro de 2020


Frida Kahlo - a abrir Novembro

 




Bonitas são as mulheres que lutam.


Frida Kahlo a abrir o mês de Novembro.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

pelo direito a sonhar - Ilha-América, de Almeida Maia

 


“(…) Passo a passo, começou a corrida, o chão da pista a desfilar debaixo dos pés, a respiração a fender o ar, o peito a transbordar bravura, como se preparasse um salto em comprimento. Pareceu-lhe ouvir Chuck Berry e as malhas de ‘Johnny B. Goode’. Tornou as passadas ainda mais lestas e sentiu o corpo a comover-se no sabor da liberdade. O mundo preparava-se para abrir-lhe os braços.

Go, Johnny, go, go!

Go, Johnny, go, go! (…)”

E assim tem início a aventura migratória de Mané.

Quando acabei a leitura de Ilha-América publiquei a minha opinião sobre o mais recente romance de Almeida Maia. Uma opinião de leitor, as apreciações de ordem literária ficam para quem tem, para isso, qualificações.

Partilho, de novo, as palavras que na espontaneidade do momento foram escritas e publicadas.

Para quem preferir ouvir e ver fica um vídeo no final da publicação.

Pelo direito a sonhar

Almeida Maia recupera para a nossa memória coletiva um passado não muito distante. Um passado de pobreza, de isolamento, de repressão, um passado que não devemos esquecer. E Ilha-América cumpre esse objetivo. A ficção também serve, e muito bem, para revisitar a história. 

Soube, ainda na década de 80 e após ter chegado aos Açores, do evento que está na base deste novo livro de Almeida Maia. Como passou a ser do meu conhecimento inferi que a história era do domínio público. Equivoquei-me.

Poucos conhecem o episódio da história da emigração ilegal açoriana que está na génese deste novo livro de Almeida Maia, e este, para além de outros, será um bom motivo para ler Ilha-América.

Quando iniciei a leitura, Aconteceu. Tinha consciência que seria, assim: empolgante. 

Li de um fôlego. Pela escrita, pela viagem a um passado recente (1960), pela descrição rigorosa dos aspetos do viver insular dos anos 50/60 do século XX, pela influência da presença de cidadãos estado-unidenses em Santa Maria, é na ilha de Gonçalo Velho que tudo começa, mas também da importância do Aeroporto Internacional de Santa Maria na travessia aérea do Atlântico Norte. Pela descrição da brutalidade dos métodos da PIDE e o horror dos seus calabouços. 

Em Ilha-América, Almeida Maia reabilita o direito a migrar rumo à utopia.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 14 de Outubro de 2020




segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Maria Bettencourt, de Henrique Levy




Passa hoje um ano sobre a apresentação pública, no "Outono Vivo" do romance "Maria Bettencourt - diários de uma mulher singular, de Henrique Levy.

O autor convidou-me para fazer a apresentação pública do livro, tarefa a que dei a minha anuência e realizei com agrado.

Partilho o texto que serviu de base à minha intervenção.





Apresentação do livro

Maria Bettencourt – Diário de uma mulher singular, de Henrique Levy

Outono Vivo - Praia da Vitória



Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Agradeço ao Henrique Levy o convite para fazer a apresentação pública do seu mais recente trabalho literário e, agradeço a vossa presença.

Agradeço e desejo que estes momentos sejam do vosso agrado, mas que, sobretudo, possam despertar o vosso interesse em conhecerem, pela leitura das páginas do diário desta mulher singular, a Maria Bettencourt. Bem e depois, Depois se assim entenderem, partam à descoberta de toda a obra literária do Henrique Levy.

Sobre o homem e a sua obra, mais tarde, farei algumas referências, mas antes quero partilhar convosco uma pequena estória. Uma estória breve e que não é do domínio da ficção.

Conheço o Henrique Levy ainda não se completou um ano. É certo que já tinha algumas referências da sua obra poética e romanesca, mas, como disse, só o conheci recentemente. E é sobre o dia em que conversámos pela primeira vez que versa a estória que agora partilho convosco.

Era dia de “Ler na Livraria”, evento que acontece regularmente numa livraria de Ponta Delgada para celebrar os livros e os seus autores. Um dos convidados era o Henrique que iniciou a sua participação com a leitura de um soneto de Camões, até aí, nada de novo. Outros leitores se lhe seguiram. E eis que o Henrique volta à carga, desta vez, e diria para surpresa da generalidade dos presentes, com um belíssimo poema de Maria Ana Yamagnini. Uma poeta orientalista portuguesa. Era o Henrique a trazer-nos a poesia de um Mundo distante, ainda assim um Mundo português. Seguiu-se mais uma ronda de leituras que o Henrique fechou de forma irónica, sem ser depreciativa, mas, quiçá, provocadora. A sessão encerrou com o Henrique Levy a declamar a receita de “Malassadas de S. Miguel”, texto do livro “Cozinha Tradicional Portuguesa”, de Maria de Lourdes Modesto.

Não pude deixar de pensar ora aqui está uma daquelas personalidades que eu, incondicionalmente, admiro. Aqui está um rebelde. 

E, eu gosto dos desalinhados, gosto dos rebeldes e dos insurgentes. 

É com eles, com os insubmissos que a humanidade cresce e se liberta. 

E eu gosto.

Depois seguiu-se uma breve conversa que nos aproximou e que serviu para consolidar aquilo que hoje podemos classificar com uma sólida amizade ancorada em princípios e valores que nos são muito caros.

Depois de vos dar a conhecer este episódio julgo estar perfeitamente justificado o motivo que me levou a aceitar o convite do Henrique para vos apresentar este diário de uma mulher singular, a Maria Bettencourt.

Quanto às razões do Henrique que, vá-se lá saber porquê, me confiou esta tarefa para a qual não estou, de todo, talhado. Afinal sou apenas um cidadão que gosta de ler, não mais do que isso. Bem, talvez tenha sido essa a razão da escolha do Henrique, um leitor e não um especialista em literatura. Mas, como dizia, quanto às razões do Henrique ele as dirá, se assim o entender. Quanto aos especialistas e críticos literários terão, certamente oportunidade, se lhes aprouver, de dedicar algum do seu tempo e estudo à análise literária deste novo livro de Henrique Levy.


Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Ainda antes de referenciar a mais recente peça literária do Henrique Levy, afinal é para isso que aqui estamos, não posso, tal como já referi, deixar de mencionar algumas notas sobre o autor e a obra anteriormente publicada.

O Henrique é, antes de mais e depois de tudo, um viajante. Nasceu em Lisboa, mas grande parte da sua infância viveu-a em S. Tomé e Príncipe e Moçambique. A sua vida profissional repartiu-se entre Macau, Turim, Lisboa e agora a Maia, na ilha de S. Miguel. Mas este incansável viajante fez incursões noutras geografias. África, América, Ásia e, naturalmente, a Europa foram destinos deste viandante.

Mas são as ilhas o centro do seu Mundo. As ilhas atlânticas.

Cabo Verde onde tem raízes familiares, S. Tomé e Príncipe onde viveu, e os Açores que conhece há muito e onde atualmente vive e trabalha. 

São as ilhas que mais fascinam o autor e que dão mote a muitos dos seus escritos.

O Henrique adotou os Açores como sua casa, à meia dúzia de anos. Os Açores como um lugar de libertação. Parece ser um paradoxo, os ilhéus vivem confinados pela terra e limitados por um mar sem fim. Onde está essa liberdade!? Poderão perguntar. 

Num lugar onde a Terra é exígua e imenso o Mar o que é que isso tem, ou terá de libertador!? Eu direi que é no mar, na espiritualidade que esse mar revela e representa que o Henrique encontra a sua libertação enquanto Homem, mas também como fonte inesgotável de inspiração para a sua criação literária.

Obra literária que é, sobretudo, poética. De entre nove títulos publicados este é o seu terceiro romance.

Henrique Levy iniciou o seu percurso literário em 1999, com “Mãos Navegadas”, poesia, a que se seguiu “Intensidades”, em 2001 um outro livro de poemas. O seu primeiro romance, “Cisne de África”, data de 2009, a que se segue “Praia Lisboa, o segundo romance, logo em 2010. Depois, retoma um ciclo de edição de livros de poesia, “O Silêncio das Almas”, em 2015, “Noivos do Mar” em 2017, “O Rapaz de Lilás”, em 2018, e finalmente, já este ano, “Sensinatos”.

Passados que são quase dez anos depois da edição do seu segundo e último romance, “Praia Lisboa”, eis que Henrique Levy nos maravilha com o regresso à prosa literária, ou não fosse, ele mesmo, um Homem surpreendente.

E eis-nos aqui neste fim tarde quase noite a, agora sim, falar do que nos trouxe aqui. 

Quem é esta mulher micaelense que na década de 60 saía de casa, sem roupa interior, para um encontro amoroso no Alto da Mãe de Deus.

Não façam juízos precipitados nem levianos. O interesse dos seus diários vai muito para além dos aspetos da sua vida amorosa a que, nem sequer, dedica muitas páginas. 

Antes de mais importa dizer que esta é uma obra de ficção. Maria Bettencourt é uma personagem criada pelo autor.

A estória desenrola-se sem narrador o autor serve-se das entradas diarísticas, às quais não dá ordem cronológica, para nos dar a conhecer, na primeira pessoa, a vida de uma mulher oriunda de uma família de “ascendência aristocrática com dois pés na burguesia”, como a própria Maria afirma. 

Já sabemos que as entradas neste diário, que abrangem o período de 1965 a 1977, não obedecem a uma ordem cronológica, embora essa opção, como poderão constatar quando concluírem a leitura, não retire coerência ao todo que o compõe. Mas também nem todas as entradas diarísticas nos são reveladas pelo autor, por exigência expressa, de Maria Bettencourt que antes de perder a visão, quiçá, numa das suas últimas notas manifesta a vontade de nem tudo o que escreveu possa ser tornado público, nem mesmo os seus poemas, a não ser um. E muito menos os seus apontamentos gastronómicos, ou seja, as receitas culinárias que foi registando ao longo da sua existência.

Os diários de Maria Bettencourt revelam-se como uma sátira à sociedade do seu tempo, recheados por momentos de humor, por vezes requintado, mas sempre provocador e, como tal, capaz de provocar reações diversas, naturalmente, resultantes das idiossincrasias de cada um dos leitores. Ou não se tratasse de um texto literário que caricatura alguns aspetos das personagens, do pensamento e dos modos de vida com que Maria Bettencourt se foi cruzando e vivendo ao longo da sua vida. Pessoas e acontecimentos que em virtude da sua miopia, que a obrigava ao uso de uns pesados e desajeitados óculos, tinha conhecimento mais pelo que ouvia do que pelo efetivamente via.

Veja-se, por exemplo, o anúncio do seu casamento chega até si por via da criada, a Tázinha. Casamento que não passou de um terrível equívoco pois, não chegou a realizar-se porque o noivo não sabia de tal acontecimento, nem sequer da festa no Solar da Graça pois, por esquecimento, não foi incluído na lista de convidados.

A Tázinha, fiel serviçal que acompanha Maria Bettencourt ao longo da sua vida e assume um papel fulcral na vida dos Avelar Bettencourt, em particular da Maria. A Tázinha veio muito nova, como acontecia com muitas outras jovens mulheres, de uma freguesia rural da ilha de S. Miguel servir para a cidade. Era filha do povo, analfabeta e devota da Nossa Senhora de Fátima. A Tázinha acompanha toda a vida de Maria Bettencourt, mesmo quando esta, por indicação do Partido Comunista se desloca a Lisboa para frequentar um curso de formação de revolucionários e bombistas. A Maria, não a Tázinha, como está bom de ver. O interesse da Tázinha era bem diferente. A fiel serviçal de Maria Bettencourt queria concretizar um dos sonhos da sua vida, visitar o local onde em 1917 tinha aparecido a santa na azinheira. 

A viagem a Lisboa e os contatos com os revolucionários bombistas não correu da melhor forma, tornando-se mesmo uma experiência traumatizante para Maria Bettencourt. E, como não aceitou a tarefa que posteriormente lhe foi atribuída recebeu instruções para regressar a S. Miguel.

Ainda antes de regressar a Ponta Delgada jantou em casa da Condessa de Rilvas, onde conheceu Isabel, filha da Condessa. A Isabelinha era piloto de aviões e para-quedista tendo no seu currículo vários feitos que deixaram Maria Bettencourt fascinada, mas também algo surpresa por se tratar de uma mulher que abertamente apoiava o Estado Novo. E no Estado Novo o papel das mulheres não era pilotar aviões, saltar de noite em paraquedas para o mar, fazer acrobacia aérea, ou mesmo bater recordes de voo em planador. 

Maria Bettencourt regressou à sua ilha deslumbrada com aquela mulher. Uma mulher capaz de fazer o que para alguns parecia estar apenas reservado aos homens. Por outro lado, a Tázinha regressou triste por não ter podido concretizar o seu sonho, visitar o Santuário de Fátima.


Minhas senhoras e meus senhores,

Caros amigos,

Optei para esta apresentação pública não me socorrer da leitura de trechos dos diários de Maria Bettencourt, o que tornaria a minha tarefa bem mais fácil e, este momento bem mais agradável os meus caros amigos. Perdoem-me por este vosso sacrifício.

E vou continuar a resistir à tentação. Refiro, antes de terminar, mais um facto que Maria Bettencourt partilha connosco e que abalou a família Avelar Bettencourt e a sociedade micaelense de então. A descoberta da vida dupla de Armindo Bettencourt, pai de Maria. 

Quando se soube que Armindo Bettencourt não tinha ido em comissão para Cabo Verde e que os seus longos serões não se deviam ao trabalho na Capitania do Porto de Ponta Delgada tudo se esboroou naquela “família quase feliz”, era assim que Maria viria, mais tarde, a caraterizar a sua vida em família antes do terramoto que se abateu sobre os Avelar Bettencourt. 

A notícia levou à loucura de sua mãe, ao exílio perpétuo, para lugar desconhecido, do seu pai e à ida, antes de tempo, do seu irmão Inácio para a guerra colonial, onde acabou por morrer ao pisar uma mina.

Depois disto seguiram-se duas crises financeiras familiares só ultrapassadas, numa primeira instância, pela venda de um “T” do nome de família ao senhor Tavares que passou a ser conhecido por, TTavares. T mais tarde recuperado depois de ter obtido permissão para vender algumas propriedades agrícolas. E a segunda, pela dádiva de uma mulher que tinha o pai de Maria em muita consideração. Donativo que lhe permitiu requalificar alguns imóveis de família na Povoação. O produto da renda pelo aluguer era suficiente para ter uma vida tranquila com a Tázinha sem ter de contar os tostões, nem depender da solidariedade de alguns antigos amigos do pai.

Agora é esperada a minha opinião sobre este livro. Ou seja, algo que possa motivar o público a adquirir e ler Maria Bettencourt – Diários de uma mulher singular. Julgo que é para isso que aqui estou.

Poderia começar pelo objeto físico e tecer algumas considerações sobre a capa, a arte e a composição gráfica, mas vou dispensar-me dessa abordagem e assim poupar mais uns minutos para o autor que nesta altura já estará acometido de um enorme sentimento de arrependimento por me ter convidado.

Julgo que, tudo o que atrás ficou dito, será suficiente para despertar interesse pela leitura deste livro, bem assim como para conhecer um pouco mais da obra do Henrique Levy, contudo sempre acrescentarei que: 

- ninguém ficará indiferente à estória de Maria Bettencourt e à forma como ela interpreta, por detrás das grossas lentes de míope, o que à sua volta acontece. As reações dos leitores serão diversas, mas nunca reinará a apatia, nem a indiferença;

- a leitura, pela forma como o texto está construído, será um prazer sôfrego. Lê-se de um fôlego e as interrupções serão para algumas gargalhadas solitárias. Não leiam em público sob pena de vos poderem apanhar a rir sozinhos o que pode induzir juízos erróneos;

- este livro, surpreende, desconcerta, desassossega, diverte, ensina.

Com a leitura deste livro senti-me compensado pelo tempo que lhe dediquei. E esta, podem crer, é a melhor apreciação que posso fazer quando acabo a leitura de um livro. Sentir-me compensado. 

Valeu! 

Vale a pena!

Obrigado pela vossa atenção.

Aníbal C. Pires, Praia da Vitória, 26 Outubro de 2019


reconhecimento a quem luta


"(...) a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão (...)"

António Aleixo









Aos candidatos da CDU nos Açores, ao Marco, à Luísa, à Paula, à Daniela, ao Pessanha, à Joana, ao Fonseca, ao Rui, à Dulce, ao Mandatário Regional, aos eleitores que deram o seu voto à CDU, aos ativistas, aos militantes do Partido Ecologista os “Verdes, aos militantes do PCP, aos cidadãos independentes e todos quantos apoiaram a CDU na batalha eleitoral para as legislativas regionais de 2020, para todos fica uma palavra de reconhecimento pela coragem, pela generosidade e pela entrega a um projeto político diferente e arrojado.

Projeto político que por ser distinto e audacioso não colheu, neste contexto social e político, o apoio eleitoral necessário para a manutenção de uma representação no parlamento regional.

A nossa luta não se esgota no tempo eleitoral.
A luta contra a barbárie, esteja travestida de populismo/fascismo, de liberalismo económico ou animalismo, é uma luta antiga. É uma luta de todos os dias.

Vamos a ela!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 26 de Outubro de 2020 

sábado, 18 de julho de 2020

Assata Shakur - a abrir Julho





Assata Shakur (Joanne Deborah Chesimard) a abrir o mês de Julho no momentos.






“É nosso dever lutar por nossa liberdade
É nosso dever vencer
Devemos amar uns aos outros e apoiar uns aos outros
Não temos nada a perder além de nossas correntes”

Assata Shakur







Bonitas são as mulheres que lutam.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Tamika Mallory - a abrir Junho


O mês de Junho abre com a ativista Tamika Mallory.









Numa das intervenções sobre os protestos em Minneapollis ela disse tudo.









Fica o vídeo para que possam conferir.