quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

super herói ou vilão

imagem retirada da internet
Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.








(...) A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora. (...)


Sem comentários: