quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

a personalização

imagem retirada da internet
Não sendo de agora, mas é no tempo presente que a perceção da História contemporânea se reduz até caber apenas num rosto. Um rosto para odiar, outro para reverenciar. Um nome próprio basta para explicar guerras, crises económicas, colapsos democráticos ou atentados que abalam consciências. Ao reduzir processos complexos a um protagonista simplificam-se os acontecimentos, acelera-se o consumo mediático e presenteia-se a opinião pública com uma figura clara para amar ou odiar. Tudo isto pode ser confortável, mas é profundamente ardiloso e, sobretudo, induz a perceção de uma falsa realidade.

A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora.

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Desde então, habituámo-nos a esperar. Esperamos pelo líder forte, pelo salvador improvável, pelo homem providencial que, sozinho, resolverá o que milhões não conseguiram sequer discutir. A comunidade observa, sentada, agradecida, convencida de que o seu papel é aplaudir no final, se houver um final feliz o que, como a História nos mostra, não é bem assim.

Não vai a tribunal, não concede entrevistas, não pede desculpa. Permanece, intacto, enquanto trocamos protagonistas como quem inicia mais uma temporada de uma série televisiva. Em tudo isto há uma cruel ironia, melhor dizendo, quanto mais se exalta o indivíduo excecional, mais se educa a impotência coletiva. Quanto mais se celebra o herói, mais se normaliza a ideia de que nada depende de nós. A ação coletiva parece sempre insuficiente, lenta, enfadonha e incapaz de competir com o brilho do salvador solitário.

E, assim, a política foi-se transformando em entretenimento, a cidadania em plateia, e a democracia num género narrativo instável, sujeito a audiências. Já não se pergunta: como vamos mudar o mundo, mas quem será o próximo a tentar fazê-lo por nós!? Os super-heróis ensinaram-nos muitas coisas. Treinaram-nos, sobretudo, a olhar para cima, enquanto nos mantemos inertes abdicando de exercer os direitos e deveres de cidadania, e deixando de participar na vida coletiva das nossas comunidades.

Donald Trump tornou-se, para muitos, a explicação total da degradação democrática dos Estados Unidos. Como se antes dele não existisse um complexo militar-industrial, uma financeirização extrema da política, as grandes corporações, um sistema eleitoral disfuncional ou uma longa tradição de ingerência externa. O resultado está à vista de todos: critica-se o personagem e preserva-se o que realmente está na origem da deterioração da democracia. Isto é válido para os Estados Unidos, como para outros países. 

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Por outro lado, Maduro cumpre uma função semelhante. A crise venezuelana é frequentemente apresentada como produto exclusivo de um homem, apagando décadas de dependência estrutural do petróleo, bloqueios económicos, sanções internacionais e disputas geopolíticas que excedem largamente qualquer figura individual. O líder transforma-se no bode expiatório conveniente: concentra a culpa e absolve o contexto.

Hannah Arendt lembrava que o mal, muitas vezes, não nasce de monstros, mas da normalização de estruturas que funcionam sem pensamento crítico. A personalização, ao contrário do que parece, não combate essa banalidade, reforça-a. Porque desloca o olhar do sistema para o indivíduo, do processo para o gesto isolado.

O mesmo mecanismo reaparece nos grandes crimes políticos. O assassino de Kennedy, ou o autor do atentado de Oklahoma, são apenas dois exemplos do “lobo solitário” de cada época. A figura do indivíduo perturbado encerra rapidamente a narrativa, transforma o trauma político em caso policial e impede perguntas mais incómodas. Não se investiga o clima, as redes, as cumplicidades, os discursos que prepararam o terreno. O crime é tratado como um desvio, nunca como sintoma do sistema. Não se trata de negar a responsabilidade pessoal. Trata-se de reconhecer a sua insuficiência. A responsabilização individual, quando isolada, funciona como técnica de contenção: oferece indignação, punição e catarse moral, mas deixa intactas as engrenagens que tornam os acontecimentos repetíveis. Muitos outros exemplos poderiam ser referenciados, mas fiquemo-nos por aqui.

Como escreveu Michel Foucault, o poder raramente se concentra num ponto; circula, infiltra-se, reproduz-se. Dar-lhe um rosto é uma forma eficaz de o tornar invisível. Direi eu, que é a forma mais eficaz, perante uma opinião pública cada vez mais atomizada e acrítica, de conferir invisibilidade aos mandantes. Enquanto insistirmos em procurar protagonistas, continuaremos a mudar os nomes próprios e a manter os mecanismos. E o sistema, esse, seguirá tranquilo, sem rosto e sem culpa.  Apontamos o dedo ao indivíduo e o sistema continua a escrever a História com mãos invisíveis.

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Uma leitura marxista ajuda a compreender por que razão esta personalização é, não apenas recorrente, mas funcional. O capitalismo, enquanto modo de produção, precisa de ocultar as relações sociais que o sustentam. Precisa de esconder a exploração atrás da troca, a dominação atrás do contrato, o poder atrás da aparência de escolha individual. A figura do protagonista, herói ou vilão, cumpre aqui um papel central: desloca a análise da estrutura para o sujeito, da classe para o indivíduo, das relações de produção para o comportamento pessoal.

Marx lembrava que os homens fazem a sua própria História, mas não o fazem em circunstâncias escolhidas por si. A narrativa dominante inverte esta formulação: apresenta as circunstâncias como neutras, inevitáveis, naturais, e, os indivíduos como causa última de tudo o que acontece. Assim, o sistema económico deixa de ser histórico e passa a ser paisagem; deixa de ser questionável e passa a ser um dado adquirido. Criticam-se líderes, governantes ou executores, mas raramente se questiona a lógica que os produz, os seleciona e, quando necessário, os descarta. Nesta perspetiva, a personalização é uma poderosa ferramenta ideológica. Ela fragmenta a consciência social, impede a leitura de classe, dissolve a noção de interesse coletivo. Cada crise aparece como exceção, cada abuso como desvio, cada tragédia como erro humano e nunca como uma consequência previsível de um sistema organizado em torno da acumulação, da desigualdade e da mercantilização da vida. O capital permanece anónimo, difuso, irresponsável. Não tem rosto porque não deve tê-lo.

Talvez por isso a crítica verdadeiramente incómoda continue a ser aquela que insiste em desviar o olhar do indivíduo para as estruturas, do gesto isolado para a engrenagem que o torna possível. Enquanto apontarmos o dedo a protagonistas, continuaremos a errar o alvo. A História contemporânea não é escrita por heróis solitários, mas por sistemas concretos, interesses materiais e correlações de força que raramente se deixam ver, não sobem ao palco, não pedem aplauso nem absolvição. Limitam-se a continuar, silenciosos, a escrever a História, com mãos invisíveis e contando com a nossa alienação. Mas não é inevitável que assim seja, a História também é escrita pelos povos.

Ponta Delgada, 20 de janeiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de janeiro de 2026

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