sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Henrique Levy vence o Prémio Literário Natália Correia, edição de 2022

Henrique Levy - imagem retirada da internet
Hoje, durante a tarde, foi anunciado o vencedor do Prémio Literário Natália Correia.

O premiado foi o poeta e romancista Henrique Levy.

Sobre a obra literária deste escritor nada vou acrescentar, ficam apenas os meus parabéns ao Henrique Levy pelo prémio que o júri lhe atribuiu por unanimidade, mas deixo também um excerto da nota de imprensa divulgada pelo júri no site da Câmara Municipal de Ponta Delgada e que acompanhou a divulgação do vencedor do prémio em 2022.


(...) "A escrita, poderosa em densidade e originalidade, revela, finalmente, uma voz consanguínea de Natália Correia. Não só pelo húmus açoriano que a percorre sem que se perca a ligação comunicante com o sentir e viver nacionais, como também pelo apelo universal de liberdade, corre, quente e frondoso, nas suas páginas desabrigadas, um espírito revolucionário, indomável, feito de coragem e de amor." (...)


Imagem retirada da internet


O texto do júri que acompanha o anúncio o vencedor do prémio literário Natália Correia, em 2022, pode ser lido integralmente aqui 


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

não há festa como esta


Ao contrário do que tem vindo a ser habitual este ano optei por não fazer a divulgação exaustiva da programação da Festa do Avante.

Os neofascistas, os liberais, o milhazes, o rogeiro, e outros que tais, perdoem-me as redundâncias, fizeram a devida propaganda à FESTA. Claro que o seu objetivo não era o da promoção do maior evento político e cultural que se realiza em Portugal, quiçá na Europa, mas foi isso que conseguiram.

 

Tenho conhecimento que muitos cidadãos decidiram ir este ano à FESTA em virtude dos vómitos de ódio que foram regurgitados na comunicação social e nas redes sociais e na tentativa de chantagem feitas sobre os artistas da FESTA. Os esforços para denegrir a FESTA foram, como costumam ser, em vão.

Para quem não conhece o programa (Música, Teatro, Cinema, Feira do Livro, Gastronomia, Debates, Desporto, Festa da Criança) pode encontrá-lo aqui.


Zinaida Ermolyeva - a abrir setembro

imagem retirada da internet





Zinaida Ermolyeva foi uma cientista soviética que se notabilizou na área da microbiologia. Para que quiser conhecer um pouco mais sobre esta mulher clique aqui

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

“mexa-se pela sua saúde”

imagem retirada da internet

A premissa é conhecida há décadas: por um dólar investido na atividade física economizam-se, em média, três dólares nos custos de saúde, ou seja, a prática de atividade física, orientada ou não, é uma componente importante de qualquer política de cuidados primários de saúde e do bem-estar da população, desde logo ao nível da prevenção de algumas das doenças que mais afetam os cidadãos e maiores custos têm para os serviço de saúde pública pois, evita a quebra de produtividade provocada pelo absentismo e a incapacidade, temporária ou permanente, para exercer a atividade profissional. A saúde não é um custo é um investimento na prevenção da doença.

imagem retirada da internet
Lembro-me, há alguns anos, da campanha para promover a prática de atividade física, o mote era:” mexa-se pela sua saúde”. Os outdoors estavam bonitinhos, do alcance da campanha não conheço os resultados, embora constate que cada vez mais cidadãos, de todos os géneros e idades, dedicam algum do seu tempo à prática de atividade física, seja ao ar livre, seja em espaços fechados que assumem as mais diversas designações, como seja, o tradicional ginásio, mas também butiques de saúde, clubes de fitness, boxes de crossFit, ou outras que melhor se conformem à moda do momento. Se já estão a concluir que o autor tem alguma coisa contra a atividade física orientada que se pratica em espaços fechados, vulgo ginásios, enganam-se. Tenho algumas reservas, mas reconheço-lhes muita utilidade.

Alguns jornais nacionais, na sua secção de economia, trouxeram para o espaço público a análise de um recente estudo da Deloitte sobre as dificuldades presentes da indústria do fitness, ou como se diz em português: conjunto de exercícios que favorecem a forma física; e a sua relação com os custos que a inatividade física tem para a economia portuguesa que, segundo os autores atingem os 1569 milhões por ano (parece-me um valor inflacionado, mas a Deloitte lá sabe), acrescem ainda os mais de 980 milhões de euros que as doenças provocadas pelo sedentarismo custam ao Serviço Nacional de Saúde.

O estudo da Delloite e a análise a que me referi sendo importantes são, contudo, redutores em virtude de se centrarem apenas na quebra do negócio dos ginásios que está, como sabemos, relacionada com a pandemia e as dificuldades de retoma para os valores pré pandémicos, mas também da procura de alternativas. O artigo e o estudo a que me venho a referir oblitera toda a atividade física, orientada ou não, que os cidadãos praticam ao ar livre, para concluir que a diminuição da atividade dos ginásios vai ter um impacto negativo nos cofres do Estado. São preocupações legítimas, mas de duvidosa bondade quanto à saúde e ao bem-estar dos cidadãos e das contas públicas. Se todos concordamos que a prática regular de atividade física é um fator de prevenção e até terapêutica para algumas doenças, nem todos consideramos que a solução passa, exclusivamente, pelo exercício proporcionado pelos ginásios e seus sucedâneos.

imagem retirada da internet


A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda 150mn semanais (2h30mn) de exercício físico. A OMS não específica, na sua recomendação, a frequência dos clássicos ginásios ou dos hodiernos clubes de saúde, ou seja, o importante é manter regularidade e cumprir, pelo menos, o tempo mínimo aconselhado de atividade física seja nos espaços naturais, seja em espaços fechados. Para isso e, para que seja para todos, cabe ao Estado criar condições para que a prática da atividade física se generalize e faça parte das rotinas diárias. 

A SONAE Fitness quer, eu também, a promoção da prática de uma vida saudável. A SONAE Fitness gere, pelo menos 40 clubes, eu não detenho nenhum interesse direto ou indireto neste segmento de comércio de serviços, sendo por isso natural que as soluções para atingir o mesmo fim sejam antagónicas. A SONAE Fitness quer benefícios fiscais para o negócio, para os profissionais e para os clientes, estou parcialmente de acordo. Os profissionais sim, quanto aos clientes só se todos os cidadãos beneficiarem de dedução, em sede de IRS, das despesas com material desportivo e a prática de atividade física, independentemente de frequentarem, ou não, o ginásio.

do arquivo pessoal
A questão central é a política de saúde e a rede de cuidados primários que têm estado afastadas das preocupações de quem traça as políticas públicas. Médicos e enfermeiros de família são o pilar de equipas multidisciplinares, onde os licenciados/mestres em Educação Física deviam ser integrados. Afinal se o investimento na prática de atividade física regular e orientada tem como efeito a manutenção da saúde e a prevenção da doença não se entende a sua ausência na arquitetura da rede de cuidados de saúde primários. Se a opção for de continuar a reservar aos ginásios a promoção de hábitos de vida ativa e, por consequência, saudável e não investir nos serviços públicos de prevenção da doença, continuaremos a desbaratar recursos financeiros públicos em favor de alguns e com prejuízo de uma imensa maioria.

Ponta Delgada, 23 de agosto de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 24 de agosto de 2022 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

saúde e bem-estar

foto do arquivo pessoal



Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) O estudo da Delloite e a análise a que me referi sendo importantes são, contudo, redutores em virtude de se centrarem apenas na quebra do negócio dos ginásios que está, como sabemos, relacionada com a pandemia e as dificuldades de retoma para os valores pré pandémicos, mas também da procura de alternativas. O artigo e o estudo a que me venho a referir oblitera toda a atividade física, orientada ou não, que os cidadãos praticam ao ar livre, para concluir que a diminuição da atividade dos ginásios vai ter um impacto negativo nos cofres do Estado. São preocupações legítimas, mas de duvidosa bondade quanto à saúde e ao bem-estar dos cidadãos e das contas públicas. Se todos concordamos que a prática regular de atividade física é um fator de prevenção e até terapêutica para algumas doenças, nem todos consideramos que a solução passa, exclusivamente, pelo exercício proporcionado pelos ginásios e seus sucedâneos. (...)

domingo, 14 de agosto de 2022

um olhar sobre “A Escrava Açoriana”

foto by Aníbal C. Pires

O mais recente romance de Pedro Almeida Maia aborda, desta vez no feminino, a temática da emigração açoriana. Depois de “Ilha-América”, eis que o autor nos oferta “A Escrava Açoriana”.

É com a jovem e irreverente Rosário que calcorreamos as ruas de Ponta Delgada nos finais do século XIX e com ela embarcamos, clandestinamente, no Lidador rumo ao sonho na margem Sul deste Atlântico que nos aprisiona, mas também nos liberta. Sonho que nem sempre é prazeroso, quantas e quantas vezes os percursos migratórios se transformam em pesadelos.

Com a Rosário vivemos num “cortiço” do Rio de Janeiro, com ela somos escravos numa plantação de café, com ela passamos a servir na “casa grande”, com ela nos libertamos do sonho vendido por um engajador e, com ela regressamos a S. Miguel para, de novo, ouvir o “pio do milhafre”.


Pedro Almeida Maia - imagem retirada da internet
Pedro Almeida Maia com a sua escrita escorreita e aliciante traz-nos a estória de um percurso migratório com regresso, mas sem sucesso material. Um percurso de enganos, abusos, escravidão, desumanidade, mas também de humanidade. A jovem Rosário não cumpriu nenhum dos sonhos que motivaram a sua viagem, mas regressou indelevelmente marcada pela sua estadia em terras de Vera Cruz.

Rosário não fez fortuna, não trazia bens materiais, mas carregava consigo, ao desembarcar em Ponta Delgada, a preciosa bagagem que a transformou numa ativista pelos direitos das mulheres e da República. A rebeldia e a irreverência da jovem Rosário transformaram-se em consciência, ação e luta.

Esta é uma estória de mulher que se libertou do sufoco do capote e capelo, como soube livrar-se das amarras da prostituição, da escravidão e da servidão aos homens.

Rosário regressou, talvez numa sexta-feira que é, como sabemos, quando “a vida começa”, para ouvir o “pio do milhafre” e fazer ouvir a sua voz.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 14 de agosto de 2022


quarta-feira, 10 de agosto de 2022

crónica da treta

imagem retirada da internet
Procuro palavras. Palavras adequadas à época do ano. É Verão, o país está a banhos e a leitura quer-se leve como a cerveja “pilsener”, não sei se é tão leve assim, mas eu gosto e acho que não é pesada, embora os especialistas não tenham a mesma opinião, respeito o parecer de quem sabe, mas eu gosto e continuo a considerar que é leve. Mas, voltemos ao cerne das palavras apropriadas para a época, ou seja, palavras leves como uma pluma, julgo que sobre a leveza da pluma não há quem discorde, nem mesmo os especialistas em penas e penachos, já os gastrónomos poderão considerar que as plumas do cachaço, ou do lombo, não sendo pesadas, também não são leves, dependendo dos temperos, da técnica de preparação e das guarnições.

Como o visitante acidental ou, frequentador assíduo da “Sala de Espera”, por certo, já se deu conta: não é fácil lidar com a leveza das palavras ou, como a das plumas que tanto podem ser, tal como a cerveja, leves ou pesadas, dependendo sempre do ponto de vista e dos interesses de cada um. Veja-se a minha dificuldade para vos deixar algumas palavras que possam ser digeridas sem grande esforço, como convém, em meados de agosto.

imagem retirada da internet

As festas que decorrem por todo o lado poderiam ser o mote para este escrito de Verão, mas as palavras que pudesse grafar talvez não fossem tão leves como o leitor merece e como eu pretendo que seja esta crónica.

A “volta a Portugal em bicicleta” está na estrada há alguns dias e o campeonato da liga já teve o seu início, é assim como a transição para o fim dos dias longos, das temperaturas a convidar para a sombra verde dos parques de merendas, ou para penetrar no azul marinho das zonas balneares que ponteiam nas baías e enseadas insulares, embora, por estas paragens, o tempo permita que a transição não seja abrupta, assim haja tempo para continuar a usufruir das temperaturas amenas, do ar e do mar, que adentram pelo outono.

imagem retirada da internet
O regresso à realidade virá com setembro e o aumento das taxas de referência do Banco Central Europeu, de entre outros crescimentos nos preços dos produtos, bens e serviços. Não, os salários não. Já ia por um caminho que hoje não quero trilhar, vou tentar voltar ao que me propus quando iniciei este escrito. Como está recordado o propósito é procurar palavras e dar-lhe algum sentido, sem perturbar o seu bem-estar estival. Todos precisamos de momentos para sonhar e, o Verão é um período adequado para o efeito. Longe de mim qualquer ideia ou tentativa de perturbar os seus sonhos e a tão necessária tranquilidade que retempera forças para enfrentar o ano de trabalho que se avizinha. Bem sei, este discurso não se aplica a todos os cidadãos, todos podemos sonhar, mas nem todos temos tempo, alguns “nem tempo para dormir quanto mais para sonhar”. Há quem só tenha tempo para se preocupar com o pão que tem de por na mesa para alimentar a família, e pouco mais. E há quem, por opção ou obrigação, não esteja de férias e vá a banhos, apenas, ao fim da tarde, se o horário de trabalho o permitir, e, aos fins de semana procura a sombra verde dos merendários se para tal tiver como fazê-lo. Ainda assim, este é um tempo que induz ao alheamento e, como tal, a generalidade dos cidadãos “desliga-se” e deixa que aconteça. Depois logo se verá.

O último, e longo parágrafo, não se poderá dizer que foi anódino, mas o correr da pena, que é como quem diz, pois, o que corre são os dedos pelo teclado, a pena há muito que caiu em desuso, pelo menos cá por casa, ainda há quem a use e bem, diria até que o seu uso é executado com invejável mestria por alguns amantes das letras manuscritas. Mas, como dizia, o parágrafo anterior fugiu um pouco ao espírito desta crónica, é-me muito difícil a abstração da realidade e tenho alguma dificuldade em perder tempo com futilidades, mas estou a fazer um esforço, nem grande nem pequeno, apenas algum zelo, para afastar deste texto qualquer assunto que possa quebrar a letargia em que mergulhamos durante esta estação.

foto by Madalena Pires

O Verão açoriano, este ano particularmente inconstante, é marcado pela elevada humidade relativa do ar que, associada a temperaturas a rondar os 25 graus, nos deixa indolentes e alheados do que se passa para lá do espaço entre a toalha estendida na areia e o tentador mar que nos refresca o corpo e lava a alma. Nem mesmo o choque térmico, ao mergulhar, é suficiente para nos despertar da inércia. O que é bom, as férias, ou as fugidias idas à praia ou aos parques florestais e merendários, são para isso mesmo, relaxar e afastar do horizonte qualquer nuvem negra que por ali esteja a pairar perturbando o nosso bem-estar induzido pelo Verão do nosso contentamento. A luminosidade que emana dos verdes matizados de flores e do imenso azul que nos rodeia faz-nos olvidar os dias cinzentos e as brumas a descerem até à soleira das portas, as tempestades tropicais, as chuvas diluvianas, os ventos tormentosos, a agitação marítima que galga a costa, tudo isso ficará para depois, agora é tempo de Verão e festas de todas as cores. Não gosto da monotonia do branco.

Ponta Delgada, 9 de agosto de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de agosto de 2022

terça-feira, 9 de agosto de 2022

da transição

foto by Aníbal C. Pires


Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.








(...) A “volta a Portugal em bicicleta” está na estrada há alguns dias e o campeonato da liga já teve o seu início, é assim como a transição para o fim dos dias longos, das temperaturas a convidar para a sombra verde dos parques de merendas, ou para penetrar no azul marinho das zonas balneares que ponteiam nas baías e enseadas insulares, embora, por estas paragens, o tempo permita que a transição não seja abrupta, assim haja tempo para continuar a usufruir das temperaturas amenas, do ar e do mar, que adentram pelo outono. (...)

Valentina Grizodubova - a abrir agosto

imagem retirada da internet

O momentos tem trazido algumas mulheres que se notabilizaram e que deveriam ser objeto de maior, ou pelo menos algum, interesse por que se dedica ao estudo das mulheres, ou mesmo os movimentos feministas. São mulheres pioneiras e afirmaram-se em sociedades e atividades dominadas por homens. São, deveriam ser, exemplos da afirmação das mulheres e das suas lutas, mas algumas delas, como Valentina Grizodubova, são esquecidas e por vezes obliteradas da história. 

"Valentina Grizodubova foi a primeira mulher a receber o título de Heroína da União Soviética. De 24 a 25 de setembro de 1938, o avião ANT-37 "Pátria Mãe" que ela comandava cobriu uma distância de 6.450 km em 26 horas e 29 minutos sem pousar. Sua copilota, Polina Ossipenko, e a pilota Marina Raskova também receberam o título de heroínas pelo recorde feminino em um voo de longa distância. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Grizodubova comandou o 101º Regimento de Aviação de Longa Distância, que era todo masculino. Entretanto, ela rapidamente conquistou o respeito de seus subordinados como comandante de combate e chefe talentosa. Ela é responsável por 200 voos, incluindo 132 noturnos.

Valentina Grizodubova provou ser especialmente eficiente no abastecimento dos destacamentos de partisans por trás das linhas inimigas. A comandante foi enviado pessoalmente várias vezes a missões perigosas e como resultado foi condecorada com a medalha "Partisã da Grande Guerra Patriótica".

"Ela era uma mulher muito corajosa, resoluta e ousada na implementação de seus planos", escreveu Aleksander Saburov, comandante da unidade de partisans." (texto retirado daqui)

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Origens

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Bem sei! Origens é um dos títulos do magnifico trabalho que o Rafael Carvalho tem produzido no seu empenhado, persistente e excelente labor de divulgação e ensino da “viola da terra”, num meritório esforço de recuperação do instrumento musical que melhor traduz o ser açoriano. Ao Rafael, na senda de outros instrumentistas de quem herdou saberes, deve-se não só a captação de novos e muitos aprendizes, mas reconhece-se, também, o mérito de colocar a “viola da terra” a dialogar com outros instrumentos musicais, quer os seus parentes próximos, as violas de arame, quer ainda com outros artefactos musicais. E o Rafael tem sido, apesar de todos os obstáculos, bem-sucedido nesse seu louvável esforço. A viola tem o futuro assegurado por mais algumas gerações, quer pelos inúmeros instrumentistas em formação, quer pela conquista de novos públicos.

Poderia continuar a dissertar sobre a “viola da terra”, o trabalho do Rafael e de outros amantes da “viola de dois corações” que o assunto tem pano para mangas e o reconhecimento é, inteiramente, merecido, mas, em boa verdade, o que motivou o título desta passagem pela “Sala de Espera” é outro, ainda que seja de “origens” que se trata, pois, estou de passagem (não é um regresso) pelos lugares da minha infância e juventude.

imagem retirada da internet

Nesta, como em outras passagens, cada vez menos frequentes, pelos lugares da Beira Baixa que calcorreei enquanto jovem, sou invadido por sentimentos contraditórios: saudades do tempo que por aqui vivi, alegria pelo reencontro com alguns familiares e amigos, alguma nostalgia e um profundo desencanto pelo abandono a que estas gentes e estas terras têm sido sujeitas pelas políticas que os poderes decisórios (Lisboa e Bruxelas) desenharam para estes territórios. Só a perseverança das gentes que teimaram em ficar e o esforço abnegado de alguns autarcas contrariam, ainda que sem grande sucesso, este processo de morte anunciada de uma parte da alma do ser português. A reserva ética do país esvai-se nas partidas em busca de oportunidades, na lei natural da vida, e nas cinzas dos incêndios que sepultam sonhos e vidas.

A coesão territorial não faz parte das agendas políticas de quem, em Lisboa e em Bruxelas, nos tem governado, e a opinião pública que poderia contrariar estas opções e o seus efeitos está mais preocupada com os gadgets de última geração, com o campeonato nacional de futebol e outros assuntos igualmente importantes para o bem-estar individual e coletivo, enquanto o país real agoniza perante a indiferença e passividade dos decisores políticos e dos portugueses que vivem num país virtual.

Os liberais dirão que são as leis do mercado, os nacionalistas dirão que a culpa é dos estrangeiros ou, quiçá, dos ciganos, o centrão nada diz, nem faz, deixa correr, como a água corre entre as pedras da ribeira.

Nem mesmo alguns projetos e ações de índole cultural e de defesa do património natural do interior se têm mostrado suficientes para inverter este processo, ou por serem pontuais e dinamizados por cidadãos que por aqui passam, ou por serem submergidos por poderes distantes cujo objetivo é, tão-somente, o saque.

imagem retirada da internet
Desta terra e destas gentes alguém, no contexto de uma iniciativa de dinamização cultural, escreveu: “onde as oliveiras crescem os homens não morrem”. A frase é inspirada e inspiradora e traduz o sentir e viver destes lugares, ainda que o olival, sendo uma constante na paisagem, convivesse harmoniosamente com outras culturas agrícolas. Os saberes de experiência feitos davam diferentes usos ao solo, sem o esgotarem, garantiam o ordenamento territorial. O olival, a floresta de pinheiro bravo, a vinha, a fruta e os hortícolas garantiam a subsistência das famílias, o abastecimento dos mercados locais e, alguns produtos afirmavam-se e eram escoados para os mercados nacionais. 

Nem tudo acabou, mas tudo se transformou e, sem qualquer espécie de saudosismos, direi que não tem sido para melhor. Ninguém de boa fé fica indiferente à invasão dos olivais e das vinhas, o pinhal é quase inexistente, por estevas e giestas que depois alimentam os incêndios que devastam a cultura intensiva do eucalipto e transformam o verão da interioridade no inferno que faz as manchetes televisivas da silly season.

Por quanto tempo continuarão os homens a resistir mesmo que as oliveiras continuem a crescer!? Por quanto tempo mais esta indiferença que mata a alma dos lugares e dos homens que cresceram com as oliveiras!?

Por quanto tempo mais esta indiferença a uma realidade que nos empobrece e está a extinguir uma certa forma de ser português!?

Por quanto tempo mais… !?

Ninho do Açor, 26 de julho de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de julho de 2022