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| foto Aníbal C. Pires |
A palavra resiliência foi-se instalando como se de uma virtude universal se tratasse. Aplica-se às pessoas, às empresas, às ilhas, às comunidades, às economias e até ao clima. É uma palavra elástica, maleável, sempre pronta a servir. Dobra-se ao discurso de quem fala e regressa intacta, como se nada a afetasse. Talvez seja esse o seu maior mérito lexical, mas que de humano nada tem e, eu não gosto da desumanidade das palavras que adjetivam humanos.
Originalmente, diz-se, da física dos materiais e da propriedade de um corpo resistir ao choque e recuperar a forma original. O problema começa quando se exige o mesmo às pessoas. Espera-se que sofram o impacto, absorvam o dano, e regressem à forma anterior, como se o choque não tivesse deixado marcas, fissuras, cansaço. Como se viver não fosse, justamente, o contrário disso, ou seja, não regressar nunca ao ponto de partida.
No uso corrente, resiliência tornou-se uma palavra de conforto para quem observa e de exigência para quem suporta, para mim já não há paciência para tanta resiliência. Diz-se a alguém que seja resiliente quando, na verdade, se lhe pede que aguente mais um pouco, que se adapte à adversidade sem fazer muito ruído, que aceite como inevitável aquilo que talvez não o seja. É uma palavra que desloca a responsabilidade: do contexto para o indivíduo, do sistema para a pessoa, da injustiça para o carácter.
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| foto Madalena Pires |
Prefiro outras palavras, menos vistosas e menos úteis ao discurso motivacional. Prefiro resistência, que implica atrito e oposição. Prefiro dignidade, que não se mede pela capacidade de aguentar, mas pela recusa em aceitar tudo. Prefiro até fragilidade, quando assumida, porque ela não finge força nem promete milagres.
Talvez a vida não nos peça resiliência, mas lucidez. Não a capacidade de voltar à forma original, mas a coragem de mudar de forma, quando necessário. E isso não cabe numa palavra fácil, repetida até à exaustão numa revista de bordo, entre destinos paradisíacos e entrevistas sensaboronas. Cabe, isso sim, no desconforto de pensar, mesmo a 37 mil pés de altitude.
Esta minha aversão à palavra não é de ordem semântica, é uma recusa ética e, diria mesmo, até política. Que se foda tanta resiliência.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 28 de janeiro de 2026


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