domingo, 15 de Novembro de 2009

O tempo e os lugares

O tempo talvez seja, de todos, o mais precioso bem que a vida nos faculta e, se no princípio o tempo era utilizado quase em exclusivo para satisfazer a mais primária das necessidades básicas: garantir diariamente alimentos; condição necessária para a sobrevivência da espécie e, da qual muitos de nós ainda não se libertaram quer seja no rico Norte, quer seja no pobre Sul. Contudo, hoje no rico e envelhecido Norte mais, muito mais que no pobre e jovem Sul a maioria dos cidadãos está desobrigada do gasto desse tempo mas… sem tempo. À satisfação das necessidades primárias e aos avanços sociais, científicos e tecnológicos não correspondeu uma expectável sobra de tempo, ainda que o prolonguemos com a esperança de vida.
Nas sociedades dos países desenvolvidos o tempo é um bem escasso e esvai-se por entre os cabos de fibra óptica à velocidade da banda larga.
Afinal não ganhámos! Estamos a perder a corrida contra o tempo e sem tempo a perder para ganhar aos velhos e novos reptos humanos se, para isso, ainda tempo houver.
Há por aí, em todas as latitudes e longitudes, lugares onde a celeridade a que o tempo se dissipa assume outras dimensões e a harmonia prevalece sobre o caos organizado e depredador de oportunidades e tempo perdidos.
Esses lugares são como oásis onde, após longa e penosa viagem, recuperamos capacidades inatas mas perdidas na luta contra o tempo. No conforto natural desses lugares os sentidos apuram-se, a vida ganha uma nova grandeza e o tempo corre, sem pressas, ao nosso lado.
Lugares assim não serão o paraíso mas estarão seguramente na sua vizinhança.
Estranho mesmo é que esses lugares estejam em vias de extinção, algumas vezes, por vontade própria de quem os habita e, quase sempre, por quem a momentos os procura para se encontrar com o tempo. Este é, quiçá, o maior dos paradoxos do nosso tempo.
O absurdo reside num paradigma de desenvolvimento insustentável de que o “Norte” rico não abdica e pelo qual o “Sul” pobre legitimamente anseia. Um modelo de desenvolvimento humano que tem como consequências a coexistência de sociedades onde abunda o desperdício e o supérfluo, paredes-meias, com outras sociedades que não são mais do que os subprodutos sociais e económicos do modelo tido como único.
A contradição constata-se nos receios produzidos pelo crescimento económico da China e da Índia e pelos efeitos que esse desenvolvimento possa causar ao modo de vida dos cidadãos dos países que tradicionalmente dominam o ranking dos países ricos. Esta é uma preocupação que já atinge de forma transversal o cidadão comum dos países desenvolvidos.
Qual a coerência de desequilíbrios como os que se verificam, por exemplo, entre um país que por si só é responsável pela emissão de 40% de emissão de gases com efeito de estufa e todo um continente cujas emissões se situam nos 5%? Emissões que afectam, de igual modo, todos os lugares mesmo aqueles em que o saldo das emissões de dióxido de carbono é nulo.
Que queremos fazer, individual e colectivamente, do tempo e dos lugares que nos aproximam do ser social em permanente construção há milhares de anos?
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 11 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Desafios

O aquecimento global e os seus efeitos no clima, já reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), a escassez de água potável e de alimentos, a par de uma rápida caminhada para a míngua e extinção das jazidas de combustíveis fosseis são, de entre outros, os grandes desafios que a Humanidade enfrenta no imediato. As soluções têm de ser encontradas no presente e terão de ser, necessariamente integrais, como globais são os problemas que enfrentamos. Por muito que tudo isto possa parecer remoto, quer no tempo, quer no espaço, as evidências conferem-lhe uma proximidade inquietante.
Algo tem de mudar no paradigma de desenvolvimento adoptado, pelos Estados, vulgarmente denominados do 1.º Mundo, e na sua exportação, por vezes imposta, para os países em desenvolvimento. Este modelo de crescimento é insustentável e a síntese dos desafios que enfrentamos é dramática pois trata-se, nem mais nem menos, de acautelar a sobrevivência da nossa espécie.
A falência e o incumprimento de compromissos assumidos sob a égide da ONU, como o combate à fome, à pobreza extrema, o apoio à cooperação para o desenvolvimento e a redução de gases com efeito de estufa, comprovam que mudanças mais profundas são necessárias para inverter esta caminhada para o caos.
As soluções podem e devem ser encontradas no concerto das nações valorizando o papel da ONU ao qual, para que o desenlace tenha sucesso, têm forçosamente de se associar princípios que conduzam à paz e à cooperação entre os povos.
Esta pode ser uma das vias, eu diria a única via que pode garantir sustentabilidade ao futuro. Um futuro próspero e tranquilo para quem nos suceder nesta aventura da vida humana. O itinerário alternativo é conhecido, estamos a percorrê-lo com uma ligeireza voraz e com resultados sobejamente conhecidos.
O flagelo da fome, da pobreza, da exclusão social e económica, do trabalho sem renumerações condignas, do trabalho sem direitos e do desemprego, é uma realidade de vizinhança, já não é distante, faz parte do nosso quotidiano e do quotidiano do grupo dos ditos países ricos e desenvolvidos.
A globalização deste flagelo assenta nas mesmas raízes que provocam o aquecimento global, que provocam os intermináveis conflitos bélicos e que provocam a separação do Mundo, não em blocos militares, mas em conformidade com a realização económica e social dos povos e dos cidadãos.
Transformar o Mundo num bloco de paz e cooperação e por fim a um modelo de desenvolvimento que se alimenta nas desigualdades sociais e económicas, que os Relatórios do Desenvolvimento Humano da ONU tão bem retratam, é, tal como o aquecimento global, um desafio para Humanidade.
Ou trilhamos este caminho de transformação e cortamos as raízes ao monstro, fazendo jus ao ser social que dizemos ser, garantindo a nossa continuidade, ou continuamos a acreditar na inevitabilidade e na falta de alternativas, sempre assim foi e será, até que o mostrengo nos devore.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 06 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 7 de Novembro de 2009

Choro

Se as lágrimas aflorarem
Não as contenhas
Liberta-as
Deixa que rolem
Livremente pela face
Como pingos de memórias
Como gotas de
Saudades do futuro

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Cidades, espaços e pessoas

Há cidades míticas, cidades património, cidades ordenadas e desordenadas, megacidades, cidades capitais económicas, políticas e culturais, cidades comerciais, cidades industriais, cidades do pecado e do prazer, cidades de oportunidades, cidades tranquilas, cidades seguras e inseguras, cidades com alma e sem alma e há… a nossa cidade. A cidade onde nascemos e crescemos e nunca enjeitámos, a cidade onde vivemos por opção ou, por uma paixão que a casualidade atiçou e se transformou num grande amor que nos prende a esta, e não a outra cidade. E se o acaso da vida nos leva para longe… para outra cidade de oportunidades carregamos connosco a saudade dos espaços e das gentes que fazem única a nossa cidade.
As cidades crescem e transformam-se acompanhando os tempos. As marcas de cada época são visíveis a cada rua, a cada esquina, a cada praça, a cada jardim, nas descontinuidades que nos conduzem numa viagem à sua história social, política e económica.
O tempo nas nossas cidades é de acentuado crescimento e, em poucos anos, assistimos a profundas transformações nos seus núcleos históricos, ao aparecimento de novas áreas residenciais, à absorção das suas periferias, à reestruturação das acessibilidades, ao acondicionamento do trânsito viário, à criação de novos equipamentos colectivos e, inevitavelmente, à adopção de novos estilos de vida.
Às alterações produzidas no espaço edificado e a novos paradigmas do uso do território correspondem, estas quiçá menos visíveis, profundas alterações no tecido social das nossas cidades.
As transformações que se verificam são, de uma forma geral, bem aceites pelos cidadãos e pelas comunidades pois, daí advêm ganhos imediatos e correspondem a padrões de desenvolvimento urbano tidos como sinónimos de progresso e modernidade. E assim será, dependendo do conceito de desenvolvimento que está associado ao crescimento. Considero, todavia, que o actual processo evolutivo das nossas cidades está eivado de algum acriticismo dos responsáveis técnicos e dos decisores políticos e, de uma inaceitável inércia da comunidade que dá vida às cidades e aceita apaticamente soluções impostas por agendas exógenas ao interesse público.
Convém envolver as populações na construção do modelo de desenvolvimento que se pretende adoptar, importa salvaguardar a identidade das urbes sem que isso represente o contrário da sua modernização, importa atender ao futuro mais do que ao presente, importa não confundir qualidade de vida com rotundas, espaços comerciais e soluções arquitectónicas padronizadas replicadas um pouco por todo o lado.
É urgente repensar o espaço urbano. É urgente atender ao espaço rural. É urgente que a coesão social e territorial seja prioridade dos governos locais e do poder regional. É urgente o abandono da competitividade exacerbada e a adopção de modelos locais e regionais de complementaridade. A Região vale como um todo mas tem de ser mais, muito mais que o somatório das suas unidades territoriais.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 04 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Relações de formação ou de servidão

Os programas “Estagiar” são, reconhecidamente, uma iniciativa meritória pois proporciona aos jovens um primeiro contacto com o mundo do trabalho ao qual acresce uma bolsa de formação, mas também no que concerne às empresas as vantagens são óbvias ao promoverem projectos no âmbito dos programas “Estagiar” dispõem, sem encargos, de jovens quadros especializados. Todavia, a execução dos programas e os objectivos para que foram criados têm sido alvo e críticas por parte dos jovens e da sociedade uma vez que, por um lado, os programas não conferem aos jovens estagiários alguns direitos sociais e, por outro algumas empresas utilizam os jovens estagiários como mão-de-obra descartável e a custo zero. Onde está a responsabilidade social das empresas de que tanto se fala!?
Dando corpo ao descontentamento e cumprindo um compromisso eleitoral a Representação Parlamentar do PCP Açores iniciou um processo de estruturação de uma proposta de alteração aos programas “Estagiar” procurando envolver as Associações de Juventude num método de construção colectiva que respondesse às justas aspirações e reivindicações dos estagiários.
A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA) apreciou, na sua reunião plenária de Outubro, a proposta de Decreto Legislativo Regional apresentada pela Representação Parlamentar do PCP que visava introduzir as necessárias alterações aos programas “Estagiar”.
O PS, o PSD e o CDS/PP reprovaram o projecto do PCP mesmo reconhecendo que há necessidade de “moralizar” os programas “Estagiar”. O principal argumento para a rejeição, pelo bloco central e respectivo apêndice, da proposta que o PCP Açores apresentou, foi a de que se pretendia transformar uma “relação de formação” numa “relação laboral”.
Para que fique claro aquilo que o PCP Açores pretendia era transformar uma “relação de servidão”, numa “relação de formação”. O PS, o PSD e o CD/PP optaram por manter, sem surpresas, os programas “Estagiar” numa “relação de servidão”.
Aníbal C. Pires, IN edição de Novembro de 2009 do Jornal Açores 9

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Aga Khan - imã dos ismaelistas

Depois de ter referido o túmulo de Aga Khan, em Assuão, Egipto, no post anterior algumas perguntas me foram colocadas.


Deixo aqui o caminho para procurar informação sobre Aga Khan III e sobre a Fundação Aga Khan
Aga Khan III, Sultan Mahommed Shah, (1877-1957).



Aga Khan (actualmente Aga Khan IV) é o imã dos ismaelitas.

O túmulo é feito em mármore de Carrara, situa-se na margem esquerda do Nilo, em Assuão, Egipto.

domingo, 1 de Novembro de 2009

O Nilo em Assuão


Só quem navega no Rio Nilo pode perceber...
Talvez um dia lhe dedique mais algum tempo hoje ficam algumas imagens desse majestoso rio em Assuão.

Os minaretes das mesquitas como os campanários das igrejas erguem-se em direcção ao céu.

Hotel "Old Cataract".
Na colina ergue-se, sobranceiro ao rio e à cidade (Assuão) que cresceu na outra margem, o túmulo de Aga Khan.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

As pessoas antes dos lucros

Passou sensivelmente um ano desde que o Governo, tardia e relutantemente, acabou por reconhecer que a tal crise “que chegaria mais tarde aos Açores e que se iria embora mais cedo”, tinha afinal chegado. A crise estava instalada muito antes de ser “decretada” e não tem dado sinais de se ausentar nem mais, nem menos depressa como profeticamente foi anunciado.
Quase um ano passou sobre a criação de um pacote de medidas para combate à crise e aos seus efeitos. É, portanto, tempo de se proceder a um balanço da sua eficácia.
Os dados e indicadores necessários para este balanço aí estão e são claros para todos os que os quiserem ler sem a cegueira do dogmatismo.
O grau de endividamento das empresas e das famílias, a retracção da produção e do consumo, o crescimento do desemprego, são indicadores reais e não há cenários de confiança ancorados na excitação da alta bolsista, das últimas semanas, que os disfarcem.
Os que acenam como sinal de confiança e retoma a recuperação de que se tem verificado nas principais bolsas onde se desenvolve a economia virtual, como sendo um indício infalível da ansiada recuperação da economia real, demonstram que nada aprenderam com o desastre global que vivemos, pensando provavelmente, que tudo voltará a ser como dantes, com os sectores especulativos a continuar a desbaratar a riqueza das nações por tóxicas fantasias financeiras, a troco da miséria de mais metade dos habitantes do planeta.
A verdade que temos de enfrentar é que, não só a crise não está debelada, nem controlada, nem terminada, como na verdade se aprofunda. O que temos de assumir é que muitas das medidas tomadas se revelaram completamente insuficientes.
O ritmo de destruição de emprego na Região atinge níveis alarmantes em todas as áreas de actividade, nomeadamente, nos serviços e entre os trabalhadores qualificados. O brutal aumento do desemprego e as expectativas pessimistas que, quer a União Europeia, quer a OCDE, tornaram públicas sobre a sua evolução para o ano de 2010 exigem políticas concretas, eficazes e assertivas para contrariar esta tendência negativa. Uma tendência que põe em causa qualquer pretensão de desenvolvimento harmonioso, qualquer esperança de avançarmos no caminho da tão desejada coesão social, territorial e económica.
Por outro lado, os rendimentos dos trabalhadores açorianos, apesar dos mecanismos existentes, em termos de fiscalidade e de acréscimos salariais, continuam a apresentar valores substancialmente inferiores aos dos seus congéneres continentais. A pobreza e a exclusão social são uma realidade em curva ascendente da qual, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista humano, não nos podemos alhear metendo, como essa magnífica ave que dá pelo nome de avestruz, a cabeça na areia.
Em tempo de discussão do Plano e do Orçamento Regional para o ano de 2010 são necessárias novas políticas de investimento que valorizem o trabalho e os trabalhadores. Políticas que coloquem as pessoas antes dos lucros.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 30 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Viroses

Carlos César, na qualidade Presidente do Governo Regional, veio a terreiro criticar a actuação e o mediatismo do médico Mário Freitas.
Tudo gira, ao que parece, à volta das críticas que profusamente Mário Freitas tem vindo a fazer à estratégia seguida pela administração regional de saúde no combate à disseminação do vírus da gripe A(H1N1). Aparentemente porque as medidas preconizadas e as críticas feitas pelo Dr. Mário Freitas não diferem tanto assim da realidade. O diferendo tem, certamente, raízes mais profundas e a razão não assiste nem à estratégia da Secretaria Regional da Saúde nem, tão-pouco, ao Delegado de Saúde em questão pois, face à disseminação do vírus da gripe A(H1N1) contribuiu, ainda mais, para um clima alarmista. Estamos a falar de um vírus com uma elevada capacidade de contágio mas cujos efeitos letais são bem menores que o vírus da gripe sazonal.
Mal, mas mesmo mal, ficam a Directora Regional e o Secretário Regional da Saúde desautorizados, que foram, com a atitude de Carlos César quando veio censurar, com a acidez que bem se lhe conhece, o excessivo mediatismo de Mário Freitas, revelando o seu incómodo pelas críticas às suas políticas de combate ao temporão e atípico vírus gripal. Este é um comportamento recorrente do Presidente do Governo Regional. Outros casos semelhantes são do domínio público.
A autoridade que emana do Palácio de Santana é intocável e para que todos percebam quem manda, eis que o Presidente Governo Regional decidiu que o Cais de Cruzeiros da Ilha Terceira se vai situar em Angra do Heroísmo.
Assim, sem mais nem menos, num exercício autoritário do poder, decidiu: “- É em Angra.”
E pronto! Angra do Heroísmo vai ter um Cais de Cruzeiros porque Carlos César assim o entende. Porquê em Angra e não na Praia? Que fundamentos presidiram a tal decisão?
Não disponho de informação suficiente para poder ter uma opinião fundamentada sobre a localização do Cais de Cruzeiros ou mesmo se a infra-estrutura deverá ser ou não, no presente, a grande prioridade de investimento público para a Ilha Terceira, mas julgo que a decisão presidencial deveria ter sido precedida de discussão pública e de uma avaliação rigorosa quer das prioridades de investimento na Terceira, quer ainda dos impactos, num e noutro local, da implantação de uma obra desta dimensão.
Este surto de atitudes autoritárias de Carlos César, como já disse, não é novo. A virose do autoritarismo contraída em 2000, com a primeira maioria absoluta, permanece em latência. O fim do ciclo eleitoral, os resultados obtidos nas legislativas e nas autárquicas pelo PS e a distância que nos separa de 2012, terão sido os factores que favoreceram a actividade do vírus adormecido e eis que o despotismo surge naturalmente nas palavras, atitudes e decisões do Presidente do Governo Regional dos Açores.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 28 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Fragmentos do quotidiano

Este texto marca o início da colaboração com o "Diário Insular".

Este será o primeiro de alguns “fragmentos do quotidiano” que por aqui deixarei, não interessa quantos nem por quanto tempo. Nada é imutável o que constitui um perpétuo e aliciante desafio. Semanalmente virei ao vosso encontro até que valha a pena. Valha a pena por mim, pelo prazer que a escrita e a partilha me proporcionam. E… Valha a pena por vós. Só se os textos que vos trouxer merecerem a vossa atenção valerá a pena, ainda que, … a esperança só morra comigo e a alma não seja pequena.
Sem leitores o exercício da escrita pouco significa e, se for apenas para satisfação do meu ego, então não ocuparei indevidamente espaço e tempo que não são meus. Disponho de outros suportes onde deixo que as palavras respirem e andem por aí sem grilhetas formais, trilhando os caminhos da liberdade. Outros suportes onde a momentos derramo pedaços, registos, instantes, olhares, notas à solta… Vantagens das novas tecnologias de informação e comunicação que nos permitem a auto-satisfação narcísica, mas também espaços de intervenção e formação de opinião e debate.
Aqui, neste espaço e neste suporte, mais do que ideias feitas procurarei, sem abdicar da minha opinião à qual está associada uma matriz ideológica, promover e incentivar o diálogo, a cogitação, a discussão e o contraditório. Só assim, em minha opinião (cá está ela), estes pedaços do dia-a-dia farão sentido. Fica o meu endereço de correio electrónico (anibalpires@sapo.pt) para o qual podem enviar opiniões e comentários o que muito agradeço.
Do meu círculo familiar e de amigos, do meu bairro, da minha Freguesia, da minha Cidade, da minha Região, do meu País e do Mundo, tento ter uma visão multilateral onde as diferenças devem ser respeitadas, as interacções valorizadas e os consensos procurados. Todos temos a nossa “verdade” e uma matriz cultural que nos torna diferentes, mas as pontes são sempre possíveis quando promovemos o diálogo em nome do interesse colectivo. A unilateralidade das análises é redutora, induz em erro e promove a imposição de uma “verdade” que nem sempre, quase nunca, é a que mais se aproxima da realidade e naturalmente do interesse comum.

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 25 de Outubro de 2009

Intermitências das "águas"


As águas-furtadas dominam sobre o casario
O recorte intermitente dos cumes
Encanta-me.


Gosto!
Da descontinuidade
E dos espaços
Furtados à uniformidade das águas
Excitam a fantasia
Quantas utopias e gestas ali coabitaram
Quantas ilusões ali criadas e aniquiladas
Que sonhos ali jazem
Eternamente adormecidos




Que devaneios
Que sonhos
Dali partiram
Convertidos em existências
Alheias ao espaço
Das águas-furtadas


sábado, 24 de Outubro de 2009

Ainda não são as palavras

Não são ainda as palavras que por aqui ficaram prometidas.
Ficam apenas estas imagens do Pico registadas hoje de manhã.


Já não era o alvorecer
O Sol espreitava no cume
A luz suave da manhã
Varria a encosta
Numa suave carícia
Iluminando o Sábado
Prometendo o dia


sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Vocação autárquica

As eleições autárquicas ditaram resultados que escaparam às previsões mais ousadas dos analistas, dos politólogos, dos partidos políticos e coligações e, quiçá, até de quem foi abençoado com o dom da adivinhação.
Na Região não se esperava um empate, porque matematicamente não era possível, e aguardava-se, legitimamente, equilíbrio no número de Câmaras conquistadas pelo PS e PSD. À medida que os resultados foram sendo conhecidos e de surpresa em surpresa os intervenientes foram apanhados desprevenidos perante o que se desenhava naquela noite eleitoral. Alguns nem tiveram tempo de se recompor da estranha sensação de terem saído derrotados ou vencedores desta contenda eleitoral. Quanto mais tempo para perceber como é que tinha sido possível um desenlace daqueles. Como é que foi possível? Como se justifica tamanho desaire? Ganhámos mas… como!?
Os resultados que se verificaram no que concerne à contabilidade das Presidências de Câmara ganhas e perdidas – 12 para o PS e 7 para o PSD – apanharam tudo e todos de surpresa e alguns dos resultados concelhios, com particular incidência em Vila Franca do Campo, merecem mesmo um aturado estudo e reflexão sobre o intrincado processo decisório dos eleitores.
O que terá pesado mais na decisão dos cidadãos? O projecto político? O futuro colectivo? A promessa… do que quer que seja? A oferta que pode ir da simples esferográfica, ao saco de cimento, aos blocos e à areia, aos electrodomésticos ou a garantia de um emprego para si ou para os seus, isto para não falar em toalhas de renda para a mesa de sala de jantar ou, das simples e vulgares t-shirts!?
Para além do espanto que constituiu o resultado das eleições autárquicas na Região, surpresa que vale o que vale, importante são mesmo as soberanas escolhas feitas pelos açorianos que, por mais que contrariem os objectivos e as expectativas político eleitorais, devem ser respeitados e aceites com humildade democrática, atitude que alguns actores políticos não souberam gerir, dissimulando muito mal o seu desagrado perante o desfecho eleitoral.
A líder do PSD Açores teve muitas dificuldades em assumir a derrota eleitoral e não conseguiu disfarçar a perturbação por ter ficado muito aquém daqueles que eram os seus objectivos eleitorais. Objectivos, já em si mesmo, pouco ambiciosos para quem se anuncia como alternativa ao actual poder regional.
Berta Cabral “demitiu-se” das suas responsabilidades regionais esquecendo os seus correligionários, que protagonizaram as candidaturas autárquicas do PSD e saíram derrotados, não lhes dirigindo uma palavra de alento e solidariedade. Berta Cabral não teve a nobreza de estender o manto da liderança sobre os seus esforçados dirigentes e militantes que se envolveram nesta batalha eleitoral e que não resistiram à eficaz máquina trituradora do partido/governo.
Ao assumir-se exclusivamente como autarca ganhadora em Ponta Delgada e escamoteando as suas responsabilidades enquanto líder partidária, Berta Cabral, demonstrou que a sua verdadeira vocação se situa ao nível da governação autárquica e, na retina dos açorianos, fica a imagem de que a alternativa política regional não se situa no PSD Açores, independentemente da personalidade que o lidera.
As alternativas políticas têm protagonistas mas o que lhes dá o verdadeiro suporte são os projectos políticos alternativos e, isso, o PSD também não tem.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 23 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Cultura mais pobre nos Açores

As políticas pouco têm a ver com quem em determinado momento as protagoniza.
Mas não há dúvidas que a cultura, no anunciado governo de Sócrates, fica claramente beneficiada com a entrada de uma mulher que para além de todas as qualidades que lhe reconheço, é sem dúvida, de uma beleza invulgar.
O governo do PS ficou claramente beneficiado com a entrada de Gabriela Canavilhas e a saída de Maria de Lurdes Rodrigues.

A Gabriela Canavilhas, para lá das divergências políticas que nos separam formulo votos de um bom desempenho no seu novo cargo.
E não posso deixar de registar que a cultura nos Açores ficou empobrecida com a sua saída da Direcção Regional que tutelava.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Desobriga

O post anterior suscitou muitas críticas telefónicas e, para já, um comentário.
Foram as louras que apoiaram, foram as louras que não acharam graça, foram as morenas de olhos azuis que se sentiram discriminadas, foram as morenas, as ruivas, as orientais, as africanas e as sul-americanas que perguntaram: Mas para quê uma loura? E, ainda, um sem número de seres do género masculino que me criticaram por eu ter dado por falta de uma loura perante tanta beleza.
Como é que raio tiveste discernimento para, perante tal quadro e tamanha beleza, dar por falta de uma loura? Foi a pergunta mais frequente de alguns amigos que telefonicamente manifestaram a sua opinião sobre o texto que acompanha a foto do post anterior.
Todas as críticas são fundamentadas e justas e este post constitui a minha desobriga perante tudo aquilo que me foi dito, até porque já hoje visitei o blogue “E Deus Criou a Mulher” quando percebi que nas novidades havia uma Cruz e eu bem preciso de expiar o "pecado" que levantou tanta controvérsia.
Não pude deixar de ir espreitar pondo fim ao meu boicote pessoal ao “E Deus Criou a Mulher

A foto acima é um acto de justiça. “E Deus Criou a Mulher” é um blogue plural que publica a beleza feminina sem nenhum tipo de discriminação. No caso vertente são mesmo as louras que predominam, faltando muitas outras.

domingo, 18 de Outubro de 2009

Um post pós ciclo eleitoral

Num momento de descontracção após o desfecho do ciclo eleitoral - nos Açores teve no espaço de um ano quatro actos eleitorais – da análise aos resultados e dos efeitos imediatos que produziram, porque outros efeitos só daqui a algum tempo se terá noção do seu real impacto na vida política regional e nacional mas, como dizia num momento mais relaxante encontrei a foto abaixo que retirei daqui.


Se linkaram deram conta que entraram num blogue que classifico de culto à beleza feminina, aliás não é a primeira vez que o “momentos” se socorre das imagens de “E Deus Criou a Mulher" e como os visitantes já deram conta está na lista dos meus blogues de referência. Eu como disse classifico-o como um lugar de culto à beleza feminina, outros poderão classificá-lo como muito bem entenderem. Não discuto nem me preocupa a divergência de opinião no que toca ao conteúdo do blogue a que me tenho vindo a referir.
Mas ao ver a foto não pude deixar de considerar que havia qualquer coisa de discriminatório naquela imagem.
Falta, pelo menos, uma mulher loura!
Louras! Durante uma época o paradigma da “sex-simbol”, mais recentemente alvo das anedotas mais abjectas sobre a sua inteligência humana e agora, logo aqui, afastada de um colectivo de mulheres que merecem ser contempladas até que o olhar nos doa.
Não é aceitável. Considero uma inqualificável discriminação à beleza e ao encanto das mulheres abençoadas com o dourado dos seus cabelos.
Em sinal de protesto por este acto discriminatório vou deixar, durante alguns dias (poucos), de visitar “E Deus Criou a Mulher”.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Conquistas e retrocessos

Nem sempre é fácil. Por vezes é até bem complicado e problemático mas, talvez por isso os desafios sejam tão aliciantes e quantas vezes as vicissitudes da vida não servem de mote à criatividade, à inovação e às transformações tantas vezes desejadas quantas vezes adiadas. Se isto é válido no domínio do indivíduo, ou pelo menos há um entendimento generalizado de que assim é, o mesmo se poderá inferir para as realizações colectivas.
Nada disto é novidade. Acontece desde o princípio dos tempos, é inato. É uma herança aperfeiçoada ao longo do extenso caminho da evolução.
A sociedade contemporânea é fruto da evolução natural a que me referi mas é também, e muito, resultado de construções sociais fundadas em valores, também eles em constante evolução e aperfeiçoamento, de onde deveria resultar bem-estar e qualidade de vida para todos os indivíduos. Foi à sombra destes princípios que cresci e me formei no seio da família, na escola e na vida social e colectiva. Acredito, por isso, que um dia os humanos evoluirão para comportamentos menos inatos e mais próximos das representações sociais que fazemos da humanidade.
Se tenho dúvidas? Sim, tenho muitas. Muitas incertezas e interrogações para as quais nem sempre encontro respostas plausíveis.
Há poucos dias as televisões noticiavam com a devida relevância e associação ao progresso e à evolução a abertura de agências bancárias, de um grupo financeiro nacional, aos sábados. É a adaptação às necessidades da vida moderna dir-me-ão. Eu direi que é um sinal de escravização pois se só temos tempo para ir ao banco aos Sábados e aos espaços comerciais à noite ou aos Domingos alguém subtraiu tempo ao nosso tempo.
O prolongamento e a flexibilização dos horários de trabalho, nomeadamente dos trabalhadores das agências bancárias que abrem ao público aos Sábados, contribuiu para a aceitação generalizada, como um sinal de evolução e de progresso, de horários nocturnos e aos fins de semana de sectores de actividade comercial aos quais temos de recorrer com frequência, como sejam por exemplo os hipermercados.
Quando era criança lembro-me de ficar a olhar para a Lua tentando identificar a figura de um homem que, por não ter guardado o dia de descanso semanal dedicado ao Senhor, tinha sido castigado por Deus e por Ele ali colocado eternamente para servir de exemplo aos Homens.
Já ninguém conta esta estória nem será aconselhável lembrá-la pois quem o fizer será por certo acusado de retrógrado e sabe-se lá que mais.
A valorização do trabalho e dos trabalhadores, aquisição social consolidada na segunda metade do século XX, consagrou semanas de trabalho de 5 dias e de 35/40 horas, pagamento diferenciado do trabalho nocturno e do trabalho extraordinário.
Na primeira década do Século XXI talvez não seja má ideia rebuscar os argumentos do castigo de Deus, mesmo correndo o risco de não ser compreendido, para garantir a subsistência de dias de descanso semanal para quem trabalha por conta de outrem.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 17 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Não é o fado

Este texto foi escrito no dia 4 de Setembro e publicado na edição de Outubro do Jornal Açores 9.

Foi tempo de eleições. Os cidadãos, não tantos quantos seria de desejar, exerceram o seu direito de voto. Fizeram as suas escolhas na nossa empobrecida democracia. Pobre porque só apela à participação dos cidadãos em tempo de eleições. Pobre porque é mais representativa do que participativa. Pobre porque não cultiva a participação e a iniciativa popular. Pobre porque desacreditada por alternâncias de poder que nada transformam. Pobre porque descredibilizada por protagonistas que se comportam de forma bipolar, prometendo o paraíso nos jantares grátis do circo de campanha e promovendo, depois a desigualdade, a precariedade, a destruição dos serviços públicos, o desemprego, a pobreza, a exclusão.
Os cidadãos têm fortes motivos para se alhearem da participação política mas haverá, porventura, razões mais fortes para não se demitirem do exercício da sua cidadania plena. E as causas são, desde logo, a liberdade individual encarada enquanto realização colectiva do povo que somos. Liberdade que para a maioria dos portugueses está cerceada.
Temos liberdade para viajar mas quantos de nós não têm rendimento para sair para lá das fronteiras da sua própria ilha.
As prateleiras dos grandes espaços comerciais oferecem uma parafernália de produtos alimentares mas quantos de nós têm de recorrer ao banco alimentar ou ao Rendimento Social de Inserção para alimentar a família.
Temos direito à saúde mas quantos de nós não temos médico de família.
Temos direito à habitação mas quantos de nós não estamos eternamente endividados porque nos “empurraram” para a aquisição de casa própria.
Temos direito ao trabalho mas quantos de nós estamos desempregados.
Temos direito a uma renumeração justa mas quantos de nós vivem abaixo do limiar de pobreza.
Temos direito à protecção social mas são os pensionistas que engrossam os números da pobreza.
E tudo isto é fruto da política não é o infortúnio, nem o fado português, nem sequer é a crise que tudo tem desculpado.
Há outros rumos e outras políticas onde todos devem ser protagonistas na construção de um futuro diferente. Melhor!

sábado, 10 de Outubro de 2009

Dia de reflexão (3)

Contemplar para ajudar à reflexão.


Aspecto de um dos muitos lagos que salpicam a floresta (Kiruna, Suécia, 2006)


Com a luz do sol da meia-noite (Kiruna, Suécia, 2006)

Dia de reflexão (2)

A teoria do choque aplicada ao "tamiflu" ou como se criam necessidades.
O vídeo vale a pena e também vale a pena abordar a obra de Naomi Klein sobre a doutrina do choque. O livro anda por aí com o título: "A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre"