terça-feira, 19 de setembro de 2017

... do cinzentismo na educação

Foto by Aníbal C. Pires







Fragmento de texto  a publicar amanhã na imprensa regional e aqui, No blogue momentos









(...) À opção por percursos curriculares de aprendizagem que privilegiem o pensamento crítico e os tais valores, a que Avelino Meneses se refere, sobrepõem-se as metas de aprendizagem dos saberes que efetivamente são avaliados pela escola e por entidades a exógenas ao sistema. Os docentes e os órgãos de administração e gestão pedagógica das escolas não arriscam. Entre caminhar com os seus alunos num percurso educativo que os ensine a aprenderem com autonomia, desenvolvendo o pensamento crítico e a transmissão de valores, ou obter boas classificações internas ou externas, os docentes e os órgãos de administração e gestão das escolas optam por este último. A sua própria avaliação depende desses resultados. (...)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Que tranquilidade é essa

Foto by Aníbal C. Pires
Por motivos diversos, mas desde logo porque sou professor, prestei alguma atenção ao discurso circunstancial que o Presidente do Governo Regional proferiu, na EBI de Ponta Garça, na abertura do ano escolar 2017/2018. Dia, pomposa e despropositadamente, designado como do “Prosucesso”, programa ao qual dedicarei algumas linhas em próxima ocasião.
Sobre a escolha do local, apenas sobre isso, muito poderia ser dito, mas porque não quero perder tempo direi apenas que fica bem, fica muito bem, ao poder executivo descentralizar estes atos protocolares. Mas nem tudo o que parece é. E, neste caso também assim foi.
Vasco Cordeiro para além de enunciar aquilo que o governo fez e vai fazer neste setor, nem mais nem menos o que é esperado nestes cerimoniais, resolveu ir mais além. O Presidente do Governo Regional optou por caraterizar o arranque do ano escolar de 2017/2018, com toda a legitimidade que tem para o fazer. Mas, disse então Vasco Cordeiro que este ano letivo tem o seu início num clima de absoluta tranquilidade e normalidade. Pois bem, até nem duvido que aos olhos da opinião pública poderá parecer que sim e as palavras do Presidente do Governo regional terão tido boa aceitação. Nem mesmo os sindicatos dos educadores e professores contrariaram, nas declarações públicas que fizeram no mesmo dia, esta ideia de normalidade e tranquilidade transmitida pelo Presidente do Governo Regional no arranque do ano escolar.

Foto by Aníbal C. Pires
Uma das organizações sindicais, referiu como aspeto negativo a contratação de um invulgar número de docentes para horários incompletos, promovendo, assim, alguma confusão na opinião pública pois, a referida organização sindical, com este exemplo, pretendia transmitir que na Região existe uma elevada precariedade docente o que, para o cidadão que até segue estas questões com alguma atenção, pode levar à seguinte conclusão, Então é porque estes são os contratados que equivalem às necessidades transitórias e, assim sendo, não se pode afirmar que existe uma elevada precariedade na docência. Mas existe precariedade. Existe e não é uma questão de somenos importância. A outra organização sindical que, por acaso, até é a mais representativa dos educadores e professores foi um pouco mais assertiva ao contrariar a ideia, que o Governo Regional propagandeia, de que existe um grande investimento na educação. O que não é verdade pois, tal como o Sindicato dos Professores da Região Açores denunciou, a educação na Região está subfinanciada, seja para a falta de meios financeiros para despesas que suportam a atividade letiva e o funcionamento das Escolas, seja pela falta de assistentes operacionais para garantir o apoio qualificado à docência, seja para pequenas despesas de funcionamento, ou para a formação dos educadores e professores.
Mas para além da opinião sindical, que até não foi muito cáustica, quando ouvi o Presidente do Governo Regional falar em tranquilidade e normalidade na abertura do ano letivo, pensei cá para comigo, o Dr. Vasco Cordeiro deve estar a confundir este sossego e quietude, com resignação e, esta regularidade das rotinas com a uma tácita e acrítica aceitação dos docentes e dos órgãos de administração e gestão das Escolas às asfixiantes orientações emanadas da Direção Regional da Educação (DRE) e ao seu estrito cumprimento.

Foto by Aníbal C. Pires
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que as Escolas tendo formalmente autonomia estão despojadas dela pela omnipresença das orientações DRE no funcionamento quotidiano das Escolas e, pela subserviência castradora dos Conselhos Executivos. Servilismo imposto hierarquicamente pela tutela que cultiva uma política centralista retirando às Escolas a desejada adequação do seus projetos educativos e currículos ao contexto onde a Escola se insere, bem assim como a necessária liberdade para gerir currículos, tempos e recursos humanos e financeiros. Liberdade onde se alicerça a criatividade e autonomia que têm de estar associadas a qualquer percurso de aprendizagem que se pretenda de sucesso.
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que a resignação e aceitação acrítica de modelos e orientações que reina nas Unidades Orgânicas da Região são, neste caso, os sinónimos da tranquilidade e da normalidade com que, o senhor Presidente, caraterizou a abertura do ano escolar que agora se iniciou.

Foto by Aníbal C. Pires
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que as transformações para as quais a Escola deve contribuir não se concretizam, nem com resignação dos agentes da mudança (os educadores e professores) e, muito menos com a aceitação acrítica de tudo quanto emana da DRE, tantas e tantas vezes substituindo-se às competências dos órgãos de gestão e administração das Escolas com todos os efeitos perversos que a uniformidade promove.
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que o sistema educativo regional só funciona porque alguns educadores e professores se rebelam e continuam a fazer da docência um ato de liberdade. Resistem. Resistem à padronização e ousam, Ousam ir mais além e libertam-se, saltam as margens redutoras e invadem domínios reservados aos predestinados da sorte. Procuram na desigualdade que a uniformidade perpetua promover o acesso, de todos, ao saber transformador.
Ponta Delgada, 17 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 18 de Setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

... ilusão

Imagem retirada da internet







Palavras à solta 






(...) Mas nem tudo o que parece é. E, neste caso também assim foi. (...)

... ser professor e resistir

Foto by Aníbal C. Pires




A parte que antecede o todo. O texto completo será publicado na imprensa regional e neste blogue.






(...) O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que o sistema educativo regional só funciona porque alguns educadores e professores se rebelam e continuam a fazer da docência um ato de liberdade. Resistem (...)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Crescimento e (des)emprego

Foto by Madalena Pires
Segundo a Informação Mensal do Mercado de Emprego publicado pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), até Julho de 2017, últimos dados disponíveis, considerando a variação homóloga com o ano de 2016 verifica-se uma diminuição, no país e em todas as regiões, do número de inscritos nos centros de emprego, que como muito bem sabemos não corresponde, de todo, ao número real de desempregados, mas para o ponto de vista da abordagem que quero partilhar esse dado não é, para já, relevante. O que não significa que no final não venha a fazer uma alusão à disparidade que existe entre o número de cidadãos inscritos nos Centros de Emprego e o número de cidadãos privados do direito ao trabalho, todos os desempregados e não só os cidadãos que estão inscritos como tal.
Como já afirmei, durante os primeiros meses do ano de 2017 o desemprego desceu em todas as regiões do país o que naturalmente corresponde a um efeito da inversão das políticas recessivas e de austeridade e concomitantemente ao crescimento económico que se verificou em Portugal. Nada de novo, os dados do IEFP só comprovam que o crescimento económico se relaciona diretamente com o aumento do rendimento disponível da generalidade das famílias que, por sua vez, resulta do aumento do valor do trabalho. Não é só, mas é-o também.
Quando se analisa a evolução por região verificamos que em Janeiro de 2017 o Algarve (-7,5%) e os Açores (-10,6%) foram as regiões onde o desemprego registou a menor variação mensal homóloga, ou seja, todas as outras regiões tiveram variações superiores, sendo a região Centro a que apresentava o maior contributo para a diminuição do desemprego no país (-17,2%), e por conseguinte superior à média nacional (-13,3%).
Quanto aos restantes meses (até Julho de 2017) verificaram-se algumas alterações, mas a tendência de diminuição de desemprego em todas as regiões do país manteve-se. Os Açores passaram, logo em Fevereiro (-10,3%) a ser a região com a menor variação homóloga mensal e aí se mantiveram ao longo dos meses de Março (-10%), Abril (-9,8%), Maio (-9,8%), Junho (-14,4%) e Julho (-12,1%). Apenas para se ficar com uma ideia aproximada deixo aqui os valores que foram apurados para o país da variação homóloga mensal durante os meses de Fevereiro (-15,3%), Março (-18%), Abril (-19,9%), Maio (-19,2%), Junho (-18,3%) e Julho (-16,4%). A variação nacional do mês de Janeiro não foi agora referida uma vez que já tinha sido referenciada no parágrafo anterior.

Foto by Madalena Pires
A diminuição do desemprego em todas as regiões, designadamente na Região Autónoma dos Açores, só pode ser considerado como um fator positivo e, como já afirmei, é um dos resultados visíveis da rutura com as políticas de austeridade. A adoção de políticas de combate à recessão na República, tomadas no contexto de um quadro parlamentar sem maiorias absolutas, tiveram efeitos sociais e económicos que, estando aquém do que seria possível e desejável, não podem deixar de se registar como a demonstração do quão era errado o caminho traçado pela troika. Caminho percorrido e aprofundado pelo anterior governo que, como bem nos lembramos, foi liderado pelo PSD e pelo CDS/PP.
Mas se na República aconteceu e os resultados estão à vista, nos Açores nem por isso. O Governo Regional e a maioria absoluta do PS têm vindo, sistematicamente, a negar as propostas que visam a valorização do trabalho, com o aumento do acréscimo regional ao salário mínimo regional, ou da remuneração complementar, ou ainda o aumento do rendimento disponível das famílias por via da adoção de medidas que visam a gratuitidade dos manuais escolares para o 1.º Ciclo do Ensino Básico, uma redução do valor da fatura paga à EDA, a abolição das taxas moderadoras ou, ainda, a redução da taxa superior do IVA de 18 para 16%.
Talvez por esta negação, Talvez por isso, num quadro de crescimento económico na Região, sejam os Açores a região do País onde o desemprego, ao longo dos primeiros sete meses de 2017, menos tem contribuído para a redução da taxa de desemprego a nível nacional. Isto sem considerar que os números do desemprego na Região estão mascarados por um sem número de expedientes e que a realidade é bem diferente da que nos é apresentada pelas estatísticas.
Ponta Delgada, 11 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 13 de Setembro de 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

... não era inevitável, era mesmo castigo

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires








Excerto do texto que será publicado manhã na imprensa regional e neste blogue








(...) A diminuição do desemprego em todas as regiões, designadamente na Região Autónoma dos Açores, só pode ser considerado como um fator positivo e, como já afirmei, é um dos resultados visíveis da rutura com as políticas de austeridade. A adoção de políticas de combate à recessão na República, tomadas no contexto de um quadro parlamentar sem maiorias absolutas, tiveram efeitos sociais e económicos que, estando aquém do que seria possível e desejável, não podem deixar de se registar como a demonstração do quão era errado o caminho traçado pela troika. Caminho percorrido e aprofundado pelo anterior governo que, como bem nos lembramos, foi liderado pelo PSD e pelo CDS/PP. (...)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Audições

Foto by Madalena Pires
Diz o dicionário que audição é o ato e faculdade de ouvir ou de escutar. E é com as audições do Presidente do Governo Regional aos partidos políticos e parceiros sociais que se inicia a semana política na Região. É a liturgia democrática que antecede a anteproposta de Plano e Orçamento para 2018 que será discutido e aprovado, pela ALRAA, em Novembro próximo.
Uma audição, como decorre do seu significado destina-se a ouvir, de onde se pode depreender que os representantes dos parceiros sociais e partidos políticos vão expor as suas preocupações e, quiçá apresentar algumas propostas que consideram importantes verem consignadas no Plano e Orçamento e, o Presidente do Governo Regional ouve. Ou seja, trata-se assim de um solilóquio. Não será bem assim, mas poderia ser tendo em conta que se trata de uma audição e do seu significado formal.
Das audições resulta, ou devia resultar, a consideração e acomodação de preocupações e propostas feitas por quem vai ser ouvido, se assim não for então as audições cumprem um mero formalismo e constituem-se apenas em mais um momento mediático.
Estou em crer que não é bem assim. As audições aos parceiros sociais e partidos políticos são, certamente, mais que um monólogo. Embora os resultados práticos deste ritual nem sempre o evidenciem mesmo considerando que no culminar deste processo, que agora tem o seu início, o Plano e o Orçamento aprovados pela ALRAA venham a contemplar algumas propostas de alteração que a maioria parlamentar do PS aprova aos partidos da oposição.
Quando afirmo que as evidências não são muito claras, ou seja, não têm correspondência ao diálogo democrático que este processo configura recorro à taxa de execução das propostas aprovadas à oposição, em anos anteriores. Não digo que a execução seja nula, mas não anda muito longe disso. Muitas das propostas das oposições, aprovadas pela maioria parlamentar, perdem-se no tempo e nas gavetas das Secretarias e Direções Regionais. Não haverá nenhum partido da oposição que não tenha visto propostas aprovadas, em sede do Plano e Orçamento, que depois não vieram a ser concretizadas, outras arrastam-se no tempo até que caiam no esquecimento até que o objeto da iniciativa seja apropriado e transformado pelo Governo Regional e pela maioria como coisa sua.

Foto by Aníbal C- Pires
Este diálogo democrático, tu falas eu ouço e depois faço como muito bem entender, é redutor e descredibiliza os agentes políticos. É certo que a maioria tem a legitimidade democrática que lhe foi conferida pelo voto popular, mas isso não significa que seja detentora de infalibilidade dogmática. Qualidade que a maioria parlamentar que sustenta o Governo Regional tantas e tantas vezes utiliza como o único argumento para não ter em consideração opiniões e propostas oriundas das oposições.
Ao longo do histórico autonómico há apenas uma legislatura caraterizada pelo diálogo democrático, 1996-2000. Quebrou-se o ciclo das maiorias absolutas do PSD e emergiu o primeiro governo do PS. A diferença não foi de protagonistas, a diferença está diretamente relacionada com a dimensão da maioria. Na legislatura 1996-2000 a maioria parlamentar do PS era relativa. Depois, Bem regressámos a este absolutismo redutor e asfixiante. Cumprem-se os rituais, regimentais ou não, mas a maioria absoluta impõe a sua vontade como se fosse a dona disto tudo.

Ponta Delgada, 10 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 11 de Setembro de 2017

domingo, 10 de setembro de 2017

... do ouvir

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires




A parte que antecede o todo. Excerto do texto que será publicado amanhã na imprensa regional e, também aqui,  neste blogue




(...) Das audições resulta, ou devia resultar, a consideração e acomodação de preocupações e propostas feitas por quem vai ser ouvido, se assim não for então as audições cumprem um mero formalismo e constituem-se apenas em mais um momento mediático. 
Estou em crer que não é bem assim. As audições aos parceiros sociais e partidos políticos são, certamente, mais que um monólogo. Embora os resultados práticos deste ritual nem sempre o evidenciem mesmo considerando que no culminar deste processo, que agora tem o seu início, o Plano e o Orçamento aprovados pela ALRAA venham a contemplar algumas propostas de alteração que a maioria parlamentar do PS aprova aos partidos da oposição. (...)

sábado, 9 de setembro de 2017

... infinito enquanto dure

Foto by Aníbal C. Pires









Excerto de um trabalho em permanente construção.







"(...) É casado, foi à igreja e cumpriu todos os formalismos, mas quando fala do seu estado civil diz que vive em união de facto. E di-lo porque considera que a expressão encerra, em si mesmo, muito mais amor e liberdade do que a designação que se dá ao contrato social que amarra duas pessoas a uma vida em comum. E conclui, Há muitos casamentos que não são, de facto, uniões. Casamentos que apenas se mantêm para cumprimento do acordado perante os deuses e os homens, pelas crianças, pela família, pela aparência, por milhões de outras razões, mas sem aquilo que deve unir, de facto, duas pessoas durante a vida ou, parte dela, O amor. 
Amor que, como diz Vinicius de Moraes num dos seus mais conhecidos poemas, deve ser “… infinito enquanto dure.”  
Pensando bem, mesmo sem lhe ouvir outros argumentos sobre o assunto, o Mário tem alguma razão, embora isto de razões valha o que valha e cada um tem as suas. A afirmação não se poderá generalizar, pois não faltam por aí casamentos que, como ele também reconhece, são verdadeiras uniões de facto. Mas o Mário tem destas coisas e por isso há quem o considere detestável e quem o admire profundamente. E ele gosta. Diz mesmo que lhe dá um certo gozo sentir que divide as opiniões e que provoca sentimentos contraditórios. Nem sempre foi assim como também me confessou. Houve tempos em que se preocupava com a imagem que sobre si poderia ser construída, mas a vida transformou-o (...)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Infraestruturas aeroportuárias e o Verão da SATA

Foto by Aníbal C. Pires
O debate que resultará da interpelação ao Governo Regional, promovido por um partido da oposição, ainda não aconteceu. Não aconteceu para mim que estou a escrever na segunda-feira à noite. Mas para os leitores foi ontem e, naturalmente, não vão encontrar aqui nenhuma análise ao debate, nem sequer os ecos de algum anúncio ou novidade que tenham resultado da interpelação. O que significa que este escrito que aborda algumas questões relacionadas com o Grupo SATA, mas também alguns aspetos das infraestruturas aeroportuárias nos Açores, pode muito bem perder acuidade e interesse.
Ainda assim arrisco os temas, pois pelo menos no que concerne às infraestruturas aeroportuárias tenho adiado, por demasiado tempo, a partilha pública da minha opinião sobre algumas questões que têm sido objeto de genuínas e apaixonadas discussões públicas, mas também utilizadas grosseiramente por agentes políticos a quem não interessa o futuro. O interesse de alguns mercenários da política são os resultados eleitorais das próximas eleições, sejam elas de que índole forem.
A Região é servida por uma rede de infraestruras aeroportuárias que cobre todas as ilhas da Região. Quatro aeroportos da rede nacional, concessionados à VINCI (Flores, Faial, Ponta Delgada e Santa Maria), quatro aeródromos regionais (Corvo, S. Jorge, Pico e Graciosa) e ainda, um aeroporto militar com uma aerogare civil propriedade da Região, o aeroporto das Lajes, na ilha Terceira. Destes nove aeroportos e aeródromos, cinco são gateways (Santa Maria, Ponta Delgada, Lajes, Pico e Faial), ou seja, têm ligações diretas com o continente, sendo os restantes utilizados apenas para os voos interilhas.

Foto by Aníbal C. Pires
Com exceção do aeroporto de Santa Maria e das Lajes, os restantes têm limitações estruturais que, face à tipologia da frota da SATA Internacional/Azores Airlines, penalizam as aeronaves. Não se trata apenas da visibilidade ou da falta de dispositivos para facilitar a aproximação em condições de baixa visibilidade, aliás as variáveis que penalizam as aeronaves utilizadas, por exemplo as limitações/penalizações que provocam as irregularidades na operação dos A 320 no Pico e no Faial, vão muito para além das questões da visibilidade. Já voltarei à questão com a profundidade que o espaço disponível permitir.
Até 2013 os aeroportos nacionais estavam concessionados a uma empresa pública altamente rentável que assegurava, como lhe competia, equidade nas taxas e investimento público nas diferentes infraestruras aeroportuárias melhorando as condições de operacionalidade, segurança e conforto para os operadores e passageiros. Com a privatização, mesmo considerando as obrigações consignadas no contrato de concessão, diria que essa preocupação acabou ou, tem tendência a acabar nos aeroportos da VINCI que têm déficits de exploração como é o caso da maioria dos aeroportos da VINCI na Região.

Foto by Aníbal C. Pires
Os mercenários políticos a que há pouco fiz referência, mas também alguns dos cidadãos que genuinamente hoje travam uma luta pela melhoria das condições de operacionalidade do aeroporto do Faial, não levantaram um dedo que fosse para travar a privatização da ANA Aeroportos, sabendo-se quais os efeitos que daí advinham. Coisas de tão somenos importância como o pagamento dos parques de estacionamento, aos sucessivos aumentos de taxas e alugueres de espaços, a outras bem mais complexas como sejam os investimentos reivindicados e que não serão satisfeitos, por quem tem obrigação de os fazer, a concessionária, quiçá o Governo da República que para além do valor que arrecadou prevê-se que ao longo do período de concessão venha ainda a arrecadar outro tanto, mas nunca a Região. A Região tem de investir nas suas infraestruturas aeroportuárias e não das que estão concessionadas a privados. Então como pode a Região contribuir para a resolução das irregularidades operacionais que se verificam no Faial e no Pico que, como atrás disse não se reduzem apenas às questões de visibilidade. O comprimento e largura das pistas tem influência, Tem. O investimento compensa, Não. Então como, Com outras aeronaves. É a solução mais barata e assegura a tão desejada fiabilidade e, quiçá até um aumento da frequências, e a única em que a Região pode e deve apostar. Conheço estudos que sugerem um ou mais tipos de aeronaves e de fabricantes diferentes. Mas já agora recordo aos “saudosistas” da TAP que a aeronave mais utilizada pela TAP na operação do Faial era, como sabem, o A319, digamos que em relação ao A320 é mais “maleável”.

Foto by Aníbal C. Pires
Que as zonas de segurança nas cabeceiras das pistas são um imperativo, Sem dúvida, Que a implementação do sistema RISE vem contribuir para diminuir as irregularidades operacionais no Faial, É verdade. Que o problema fica resolvido, De modo nenhum. Que a pista vai ser ampliada ou alterada a sua orientação, Não. Por outro lado, enquanto a opinião pública faialense continuar a ser “entretida” com uma falsa questão, outras quiçá tão ou mais importantes vão continuar a ser adiadas ou desvirtuadas.
O foco das reivindicações faialenses no que diz respeito ao Governo da Região tem de ser, em minha opinião, na adequação das aeronaves às condições da infraestrutura existente. Isso sim. Quer o aeroporto do Faial, quer o aeroporto do Pico estão situados geograficamente em locais que sendo, certamente, os mais adequados em função da orografia das duas ilhas têm condicionalismos naturais que não são ultrapassáveis, podem ser mitigados, mas persistirão sempre.
Não vou ter tempo para elencar as variáveis que limitam/penalizam a operação no Faial e no Pico, para além dos mais evidentes como sejam as condições de baixa visibilidade ou os ventos, cujos mínimos para os A320 são muito baixos. Refiro apenas mais dois, Pista molhada e temperatura. Estas duas variáveis são extremamente penalizadoras para o A320 em pistas com as caraterísticas como a do aeroporto do Faial e, também, do Pico, aliás para o Pico está anunciado um investimento para um “grooving” na pista tendo em vista diminuir a penalização com a pista molhada. Atenua, mas não resolve.

Foto by Aníbal C. Pires
Muito mais há para dizer sobre as infraestruras aeroportuárias na Região, diga-se que para outro tipo de aeronave da frota da SATA existem também limitações no aeroporto de Ponta Delgada.
Muito mais havia para dizer, mas o espaço já foi ultrapassado e vou contar com a boa vontade do editor, ao qual solicito mais algum espaço, para poder ainda tecer algumas considerações sobre a operação do Verão IATA no Grupo SATA.
Foi um desastre, Porquê. Porque não atendeu ao previsível aumento da procura e não tomou as medidas adequadas para evitar o recurso desmesurado à contratação de ACMIs. É certo que houve um conjunto de eventos imponderáveis, digamos que houve alguns azares, que não resultaram do planeamento nem da operação, mas não foram apenas os azares, nem é, de todo, a greve às assistências que me levam a avaliar, e os resultados financeiros estarão aí para o comprovar, como tendo sido um desastre, quando podia ter sido um sucesso financeiro.
Antes de mais quero deixar claro que o recurso a ACMIs não é nenhum drama, a generalidade das companhias aéreas recorre a ACMIs e, não só os compra como também os vende. Acrescento ainda que há um ACMI, programado, que face à atual situação da SATA Internacional/Azores Airlines não só é necessário como é rentável para a SATA, trata-se do Terceira/Oakland/Terceira. A maioria dos outros ACMIs programados no planeamento da operação podiam ter sido dispensáveis. E só se realizaram por opção da administração e da tutela que ao invés de providenciar um ou mais alugueres operacionais de curta duração que cobrissem o Verão IATA, desde logo um A330 e, porque não um A319, optou desastrosamente por recorrer, desde início, ao planeamento da operação com recurso a ACMIs. E depois, bem e depois foram todos os outros ACMIs que resultaram de uma sucessão de eventos não previstos, e ainda todos os ACMIs contratados em cima da hora, feitos com aeronaves nem sempre as mais adequadas, mas que eram as disponíveis, e os que não foram feitos por indisponibilidade de aeronaves no mercado.

Foto by Aníbal C. Pires



Tudo o que afirmei é verificável, desde logo a solução do aluguer operacional de curta duração de um A330, mas as opções que na altura pareceram mais baratas, naturalmente, vieram a demonstrar-se incomensuravelmente mais caras. É o habitual.
Quanto à operação da SATA Air Açores foi visível, à saciedade, a falta de aeronaves para a procura. O assunto está longe de estar esgotado, mas o espaço já há muito se esgotou
O Grupo SATA tem tudo para dar certo, assim o queira o acionista.

Ponta Delgada, 04 de Setembro de 2017





Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 06 de Setembro de 2017