domingo, 21 de outubro de 2018

Nós por cá todos bem, E a SATA - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 03 de Agosto de 2018 e pode ser ouvida aqui






Nós por cá todos bem, E a SATA

Foto by Aníbal C. Pires
Não ceder à tentação de escrever sobre a SATA tem sido um dos sacrifícios dos últimos meses. Hoje não resisto e, vou abandonar-me a este apetite voraz de especular sobre o cenário que nos está a ser criado.
Não há novidades, digo eu. As contas de 2017 apresentaram os resultados esperados, ou um pouco pior, a exploração de uma das empresas do Grupo patenteia, nos primeiros meses de 2018, um défice de exploração assinalável, foi nomeado um novo Presidente do CA do Grupo SATA, o processo de privatização de 49% do capital social decorre na opacidade e, nas brumas está mergulhada uma tal Comissão, nomeada para assegurar a transparência do processo, os trabalhadores aguardam tranquilamente, não se sabe o quê, e espera-se a concretização da anunciada renovação total do Conselho de Administração.
Quando afirmei que não havia novidades fi-lo de forma consciente. É a história recente (desde 2013) a repetir-se. Como tal, Nada de novo. Ou melhor, muito pouco para o tanto que, em tempo útil, devia ter sido feito.
Então, dirá quem lê, Para que perdes o teu tempo com um assunto sobre cujo desfecho ninguém dá a mínima importância. A população não quer saber, os trabalhadores, embora preocupados, têm-se remetido, como já disseste, ao silêncio e à anuência tácita do que possa vir a ser o futuro próximo do Grupo, por outro lado, está instalada a ideia de que o Governo Regional não tomará nenhuma decisão de deixar cair uma ou mais empresas do Grupo face ao impacto social e económico regional que uma decisão dessas provocaria, Assim é.
Mas o Grupo pode ser enfraquecido não por uma decisão direta, mas por um conjunto de decisões, ditadas pelo dito mercado, que conduzam o Grupo, enquanto empresa pública, para uma dimensão que não vá além de assegurar o transporte aéreo marginal, aliás desejo e vontade de alguns partidos políticos e agentes económicos que têm pugnado por reduzir as empresas de transporte aéreo do Grupo apenas às ligações interilhas, às ligações com o continente, nas rotas onde existem OSP, e às ligações com a diáspora, sendo que no que diz respeito às últimas está-se a configurar um cenário em que a SATA também poderá ser dispensável.
Ao Eng. Paulo Meneses, desejo-lhe que recupere, em pleno, o seu estado de saúde, mas fica também uma ideia que julgo já ter partilhado num dos muitos escritos que tenho sobre a SATA, Não era fácil, não é fácil, vencer os poderes intermédios que estão instalados no Grupo, Não era, nem é fácil libertar a gestão empresarial do Grupo dos devaneios, sem rumo, do acionista. Apesar da sua entrega o Eng. Paulo Menezes acabou por ser derrotado. Lamento, pelo Eng. Paulo Meneses, mas lamento sobretudo pelo Grupo SATA.

Foto by Aníbal C. Pires
Quanto ao novo Presidente do CA uma de duas possibilidades se colocam. Ou o Dr. António Teixeira é um peão para a transição, ou será já um homem de mão do putativo parceiro do Grupo SATA. Quando for conhecida a composição do novo CA tudo se tornará mais claro, ainda assim sobram-me muitas dúvidas, no atual contexto, de que o Dr. António Teixeira possa vir a afirmar uma liderança capaz de ultrapassar as barreiras internas e, muito menos a afirmar o Grupo no mercado do transporte aéreo de passageiros, a não ser que tenha o discernimento de procurar dentro do Grupo os quadros, existem sim, capazes de catapultar o Grupo SATA para um modelo organizacional que suporte uma estratégia empresarial capaz de responder de per si, nem sequer direi ao aumento da atividade comercial e operacional, mas tão só à atual procura na época alta e à maleabilidade comercial e operacional que rentabilize os recursos no período de menor procura.
Embora os TACV e o Grupo SATA, tudo leva a crer que sim, venham a ter como parceiro o mesmo grupo, que tem um reconhecido know how na aviação civil, passou demasiado tempo para assegurar, por exemplo, uma posição dominante na Macaronésia, a BINTER está a expandir-se e a tornar-se a transportadora de referência da Macaronésia, só faltam os Açores e a seu tempo cá chegará vontade não lhe falta, e, por outro lado, a TAP está a municiar-se com aeronaves e recursos humanos para expandir o seu negócio, mormente, para a América do Norte, em particular para os Estados Unidos.
E nós por cá todos bem ao sabor de um Verão ameno e despreocupado, Como convém.
Fique bem.
Eu volto no próximo sábado, assim o espero.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 03 de Agosto de 2018

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A SATA e o seu Presidente não são compatíveis. Demita-se, ou demitam-no.

A 321 Neo CS-TSG (Sete Cidades) - foto João Pires
Fiquei profundamente incomodado quando ouvi as declarações públicas do Presidente do Conselho de Administração (CA) após a cerimónia de batismo do A 321 Neo que decorreu na tarde da passada segunda-feira, no aeroporto de Ponta Delgada, e, mais tarde direi porquê.
Já a titular da pasta dos transportes, Ana Cunha, no discurso que proferiu na cerimónia de batismo do “Sete Cidades”, assim se ficou a designar o A 321 Neo que tem inscrito a palavra “Wonder”, me tinha deixado perplexo, neste caso por ter falado muito e não ter dito nada. Pronto se preferirem, A Secretária Regional que tem a tutela dos transportes falou muito mas não disse, Nada de novo.
Ana Cunha limitou-se a regurgitar o que todos sabemos sobre as vantagens de ter uma frota homogénea (aeronaves da família dos A 320), os benefícios na poupança de combustível que advêm da eficiência energética dos A 321 Neo e o aumento de rotações com os Estados Unidos e Canadá que este tipo de aeronave possibilita. Mas Ana Cunha, não só se esqueceu de referir o nome da personalidade que apadrinhou o “Sete Cidades”, Milagres Paz, como se esqueceu de referir que tudo o que disse se aplica ao A 321 Neo Long Range(LR), uma vez que os dois A 321 Neo estão transitoriamente ao serviço da SATA. Transitoriamente sim pois, como está anunciado e contratualizado com a Airbus (o fabricante) até ao fim de 2020 estarão ao serviço da SATA quatro A321 Neo LR. As diferenças entre estes dois modelos de aeronave são, no essencial, a autonomia os LR têm um pouco mais de autonomia, o que lhe confere uma maior fiabilidade na travessia do Atlântico a partir dos Açores, em particular durante o Inverno. Este facto, parecendo despiciente, fez toda a diferença na opção pelos A 321 Neo LR cuja produção está atrasada, segundo a Airbus, relativamente ao que estava previsto.

A 310 CS-TGV (S. Miguel) - foto by João Pires
Teria ficado bem à Secretária Regional dos Transportes ter feito uma alusão à importância da frota dos A 310, foram estes aviões que permitiram a expansão da empresa, porque no dia em aconteceu o batismo do “Wonder/Sete Cidades, o “phase out” dos A 310 ficou concluído, mas também uma palavra de referência ao Comandante Carlos Moniz que antes da realização daquele que foi último voo A 310 CS-TGV (S. Miguel) brindou os convidados e os inúmeros populares com manobras de alta performance, uma descolagem duas passagens baixas a alta velocidade e uma aterragem, até porque, também, o Comandante Carlos Moniz realizou, nesse dia, o seu último voo comercial. Mas que importância tem isso face à ação de propaganda do Governo Regional, digo eu que sou dado a sentimentalismos. Ou então, estaria Ana Cunha à espera que o Presidente do CA da SATA o fizesse. Se estava saíram-lhe defraudadas as expetativas pois, a ilustre figura não disse coisa com coisa. 
Mas se a intervenção de Ana Cunha passou à margem e não foi alvo de nenhuma análise crítica, a não ser, para já, esta que está a ler, o mesmo não aconteceu com as titubeantes respostas do Presidente do CA da SATA quando questionado pelos jornalistas no final da cerimónia de batismo do “Wonder/Sete Cidades”.

Imagem retirada da Internet
As palavras com que iniciei este texto referem-se ao meu profundo incómodo com as declarações do Presidente do CA da SATA e comprometi-me a dar conta das razões desse meu mal-estar. Pois bem, Não é aceitável, por inexperiente que seja, que o Presidente do CA da SATA tenha demonstrado um total desconhecimento quer da composição da atual frota da SATA Internacional/Azores Airlines, quer da evolução que ela virá a ter no futuro próximo. E não me venham dizer que é um problema de oratória e de dificuldade em enfrentar os microfones e as câmaras, nada disso, trata-se mesmo como é visível e audível de desconhecimento sobre o que lhe foi perguntado. Não é aceitável e o senhor Presidente do CA da SATA devia, no mínimo, apresentar a sua demissão a quem cometeu a leviandade de o nomear. Se o Presidente do CA da SATA não o fizer, então ao Governo Regional cabe-lhe essa decisão e, já agora, não demorem muito tempo. Se querem que a SATA seja aquilo que a Secretária Regional afirmou, então não percam mais tempo e demitam-no.
Se eu me senti incomodado imagino o que terão sentido os trabalhadores da SATA quando viram e ouviram as declarações do seu Presidente. Isto para não me referir ao que terão sentido os seus colegas do CA, em particular a Dra. Ana Azevedo. Posso também imaginar o que os principais responsáveis na estrutura organizacional da SATA, quando acederam às imagens e ao som, terão sentido. Eu diria que terá sido um misto de sensações que percorreu o espetro que vai da vergonha ao riso, dependendo de como cada um interpretou e reagiu perante aquela grave demonstração de ignorância de quem está à frente da sua (nossa) empresa.
Ponta Delgada, 16 de Outubro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 17 de Outubro de 2018

terça-feira, 16 de outubro de 2018

... estamos a chegar ao grau zero

A 310 CS-TGV (S. Miguel - foto by João Pires





Excerto de texto para publicação na imprensa regional e, como é habitual também aqui, no blogue momentos






(...) Teria ficado bem à Secretária Regional dos Transportes ter feito uma alusão à importância da frota dos A 310, foram estes aviões que permitiram a expansão da empresa, porque no dia em aconteceu o batismo do “Wonder/Sete Cidades, o “phase out” dos A 310 ficou concluído, mas também uma palavra de referência ao Comandante Carlos Moniz que antes da realização daquele que foi último voo A 310 CS-TGV (S. Miguel) brindou os convidados e os inúmeros populares com manobras de alta performance, uma descolagem, duas passagens baixas a alta velocidade e uma aterragem, até porque, também, o Comandante Carlos Moniz realizou, nesse dia, o seu último voo comercial. Mas que importância tem isso face à ação de propaganda do Governo Regional, digo eu que sou dado a sentimentalismos. Ou então, estaria Ana Cunha à espera que o Presidente do CA da SATA o fizesse. Se estava saíram-lhe defraudadas as expetativas pois, a ilustre figura não disse coisa com coisa. (...)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A TAP, a SATA e um cenário de rutura operacional

Foto by Aníbal C. Pires
A desregulação laboral no setor, o modelo de formação e qualificação, o aumento da atividade e, porque não, a crise, são algumas das variáveis que estão na origem do défice de pilotos que atualmente se faz sentir um pouco por todo o Mundo. São conhecidos casos de encerramento de empresas e, muitas são as companhias aéreas que têm as aeronaves no chão por falta de pilotos e de dificuldades no recrutamento para colmatar as necessidades operacionais.
No caso português a TAP e a SATA, ainda que com impactos diferentes que se relacionam com a dimensão e o modelo de recrutamento, não estão imunes a esta carência de pilotos, mas se existem algumas variáveis que nem a TAP nem a SATA controlam, outras há que só dependiam de medidas de gestão que as previsões, há muito conhecidas para este cenário, aconselhavam.
O desespero da TAP, até há bem pouco tempo altamente seletiva no recrutamento e formação dos seus pilotos, conduziu à tomada de medidas que levantaram uma onda de críticas no seio comunidade que está, de um modo ou outro, ligado à aeronáutica civil. Não se compreende que a companhia de bandeira tenha deixado cair o domínio da língua portuguesa como um dos requisitos para as candidaturas. Veja-se que não se trata aqui de uma questão preferencial pela nacionalidade, o que seria criticável e no contexto da União Europeia até ilegal, mas deixar cair um requisito que é intrínseco à missão e cultura organizacional da TAP é incompreensível.
Mas não foi só. A TAP promoveu um “open day” em Espanha para recrutamento de pilotos e, numa iniciativa relâmpago, deu um salto ao Brasil com o mesmo intuito. É sabido que, pelos contornos destas ações de recrutamento, grande parte dos critérios de exigência na angariação de pilotos para a TAP perderam-se em Espanha e no Brasil. Se esta situação era evitável, Sem dúvida e a TAP tinha todas as condições para ter encontrado, em tempo oportuno, outras soluções. Veja-se o número de jovens pilotos portugueses que estão a voar em companhias aéreas um pouco por todo o Mundo, ou o número assinalável de pilotos com requisitos para entrar na TAP que, entretanto, por razões diversas enveredou por outras carreiras. Mas o drama da TAP vai continuar pois, em 2020 calcula-se que as necessidades sejam bem maiores das que para este ano foram tornadas públicas.

Foto by Aníbal C. Pires
Quanto à SATA Internacional/Azores Airlines a dimensão deste fenómeno pode ser, ainda coloco como uma hipótese, catastrófica por se estar a desenhar um cenário de rutura operacional. As necessidades imediatas apontam para o recrutamento de 20 novos pilotos que tendo, ou não, qualificação (type rating), só estarão operacionais daqui a alguns meses, isto se a SATA Internacional/Azores Airlines ainda tiver alguma atratividade para captar o número de pilotos necessários para suprir a falta destes tripulantes. Vejam-se as dificuldades da TAP e procurem-se as razões para a recente saída de um grupo de pilotos da SATA Internacional que apesar do aliciamento de última hora, feito pela empresa, não voltaram atrás com a sua decisão. Se tomarmos em consideração estes e outros aspetos não será difícil inferir que a atratividade da SATA Internacional/Azores Airlines já não é o que era.
A SATA Internacional/Azores Airlines reforçou a operação de Inverno. Ainda bem é sinal que existe procura e mercado para expandir o negócio. Lá haver procura e mercado, até há, o que não existe é quem coloque as aeronaves a voar, Pois. Assim e mais uma vez recorre-se à contratação de ACMIs, desta vez um A 320 da White. Sobre esta contratação também há alguma coisa para dizer, mas fica para outra oportunidade.
Se tudo isto poderia ter sido evitado, Sem dúvida. Podia ter sido evitado se a estratégia do representante do acionista não fosse oscilante e se as administrações tivessem sido suficientemente fortes para travar os desmandos do representante do acionista. Quanto a este assunto fico-me por aqui, embora muito fique por dizer, desde logo, sobre o modelo de recrutamento destes profissionais para uma empresa com as caraterísticas e missão da SATA Internacional/Azores Airlines.
Amanhã (hoje) o A 310 CS-TGV (S. Miguel) realiza o seu último voo, PDL/LIS, ficando assim concluído o processo de “phase out” destas aeronaves que durante 19 anos serviram a SATA Internacional. É menos uma aeronave e menos um Comandante, e é mais um dia que ficará registado, com o devido destaque, na história da SATA.
Ponta Delgada, 14 de Outubro de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 15 de Outubro de 2018

... da carência na TAP e na SATA

Foto by Aníbal C. Pires







Excerto de texto para publicação na imprensa regional e, como é habitual também aqui, no blogue momentos.









(...) As necessidades imediatas apontam para o recrutamento de 20 novos pilotos que tendo, ou não, qualificação (type rating), só estarão operacionais daqui a alguns meses, isto se a SATA Internacional/Azores Airlines ainda tiver alguma atratividade para captar o número de pilotos necessários para suprir a falta destes tripulantes. Vejam-se as dificuldades da TAP e procurem-se as razões para a recente saída de um grupo de pilotos da SATA Internacional que apesar do aliciamento de última hora, feito pela empresa, não voltaram atrás com a sua decisão. Se tomarmos em consideração estes e outros aspetos não será difícil inferir que a atratividade da SATA Internacional/Azores Airlines já não é o que era. (...)

sábado, 13 de outubro de 2018

Um não assunto, ou a silly season a fazer das suas - crónicas radiofónicas

Foto by Madalena Pires






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 21 de Julho de 2018 que pode ser ouvida aqui









Um não assunto, ou a silly season a fazer das suas

Foto by Aníbal C. Pires
Arranjar um assunto para conversar consigo no último fim de semana de Julho que não seja, de todo, uma futilidade, não é tarefa fácil. Não que os assuntos rareiem, não falta por aí animação, mas não sou muito dado a festas, sejam elas brancas ou às cores. Notícias dramáticas também abundam, seja na Região seja um pouco por todo o Mundo, mas também não sou muito dado a explorar as emoções para atrair a atenção, ou seja, esta coisa de que os factos são menos importantes do que as emoções, não é a minha praia. Isto não significa que não me emocione, ou que, por vezes, o que escrevo e digo seja pouco racional e resulte de um estado de alma que tenho necessidade de partilhar, assim como um grito sussurrado para o papel, ou melhor para um qualquer suporte digital  e, que se liberta e vai por aí parar às mãos de alguém, ou ao monitor de um smartphone ou de um computador pessoal, ou ainda, como é o caso, aos seus ouvidos. Não se preocupe hoje não vai acontecer nada disso, nem gritos, nem sussurros.
Sabe que, para mim, seria tão mais fácil escrever e falar sobre o que as pessoas querem e gostam de ouvir. Mais fácil e, sobretudo, mais popular. Não sigo esse caminho por não saber como se percorre, conheço-lhe todos os atalhos e encruzilhadas, mas porque não ficaria bem comigo mesmo.
Sim, eu sei que nada ganho com isso e terei sempre muita dificuldade em prender a atenção de quem me lê e ouve, mas tendo essa perceção, ainda assim, prefiro ficar com a minha consciência tranquila por não embarcar em facilitismos e populismos que não favorecem o pensamento crítico e a compreensão, o mais aproximada possível, da realidade que nos envolve e conforma.

Foto by Aníbal C. Pires
Tenho uma amiga que lê a generalidade dos textos que eu produzo, lê também os textos de um outro opinador da 105 FM, que escreve de forma invejável, e tem a seguinte opinião sobre os textos que produzimos: O que tu escreves obriga-nos a pensar, desperta em nós a curiosidade, os textos daquele teu amigo deixam-me de alma cheia, ainda que por vezes, quer um quer outro, invertam os papeis. Tu raramente abandonas a tua matriz dialética e mostras o teu outro lado, e o teu amigo, com mais frequência, atravessa a fronteira entre a abordagem da realidade e a prosa poética com que ele tão bem se expressa. 
E eu concordo, em absoluto, com ela, Assim é, sem que os textos do tal meu amigo sejam vazios de conteúdo, nada disso. É na forma como se abordam as questões que reside a diferença. Ele é um homem de fé, eu não a tenho. Tenho dúvidas, quiçá ele também, mas tem uma âncora de referência, Eu não. Eu ando por aí à deriva e quantas e quantas vezes a navegar contraventos e marés sem o amparo de um ancoradouro abrigado.
Não terá sido uma futilidade esta nossa conversa, já não estou tão seguro se afinal não se tratou de um grito sussurrado, ainda que tenha sido expresso com a voz firme e no tom adequado de modo a não ter necessidade de aumentar o volume do seu rádio para poder ouvir.

Bom fim de semana.
Fique bem eu volto, assim o espero, no próximo sábado.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 28 de Julho de 2018

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Uma herança cultural a rejeitar

Imagem retirada da Internet
A discussão sobre o assédio e os crimes de agressão sexual dominam, desde há longos meses, a agenda mediática e pública. Não é primeira vez que abordo este assunto e o que agora o motiva não tem nada, mas rigorosamente nada a ver com o recente e mediático episódio que envolve o Cristiano Ronaldo, embora o que tenho ouvido e lido sobre este caso em particular me deixe perplexo com a facilidade com que se condena ou iliba, quer um quer outro dos intervenientes.
No final de Setembro com base em dados divulgados pelo Ministério da Justiça (MJ) conheceu-se, com algum rigor, um facto que nos deve preocupar a todos. Apenas 37% dos autores de crimes por agressão sexual são condenados a prisão efetiva. Não vou desagregar nem esmiuçar os dados divulgados, esse trabalho foi feito pela comunicação social nacional.
No início do ano numa outra tribuna escrevi sobre as questões do assédio sexual e sobre os movimentos #MeToo e #TimesUp e coloquei algumas reservas sobre a forma como este assunto se estava a radicalizar, sem colocar em causa a importância da denúncia e a penalização do autor do assédio (homem ou mulher).
Imagem retirada da Internet
Quando tive conhecimento dos dados divulgados pelo MJ sobre as penas aplicadas aos agressores sexuais em Portugal, veja-se que neste caso não se trata apenas de assédio, mas de toda a gama de crimes de agressão sexual, não fiquei surpreendido pela leveza com que a justiça portuguesa penaliza estes crimes e, pensei cá para comigo, o Código Penal Português e quem o aplica refletem um pensamento, quiçá maioritário na sociedade, que se traduz na desculpabilização do agressor e, por conseguinte, na constatada impunidade que os dados do MJ, em minha opinião, vieram comprovar.
Estes dados e o pensamento que lhes confere “legitimidade” e aceitação social decorrem de uma herança cultural que, pensava eu, já estivesse diluída e apenas subsistisse numa pequena franja da sociedade portuguesa, mas não. Seja quem for o agredido há sempre uma corrente obsoleta e animalesca do pensamento que lhe atribui parte da culpa, ou seja, o cenário é montado de forma a que o agressor seja beneficiado por atenuantes que resultam de interpretações subjetivas do comportamento da vítima e das leituras, em minha opinião abusivas, que é feita no julgamento popular, mas também nos tribunais.
E se alguns dos crimes de agressão sexual decorrem de comportamentos patológicos, nem todos aqui são enquadráveis, muitos deles resultam da ancestral aceitação de comportamentos que conformam agressões sexuais e, sobre os quais continua a existir, eu diria, indiferença social que acaba por se transformar numa tácita desculpabilização dos agressores.
Temos um longo caminho a percorrer para que esta e outras heranças culturais se diluam na construção do ser social que tanto nos esforçamos por ser.
Ponta Delgada, 09 de Outubro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 10 de Outubro de 2018

... da aceitação

Imagem retirada da Internet




Excerto de texto para publicação na imprensa regional e, como é habitual também aqui, no blogue momentos.




(...) Quando tive conhecimento dos dados divulgados pelo MJ sobre as penas aplicadas aos agressores sexuais em Portugal, veja-se que neste caso não se trata apenas de assédio, mas de toda a gama de crimes de agressão sexual, não fiquei surpreendido pela leveza com que a justiça portuguesa penaliza estes crimes e, pensei cá para comigo, o Código Penal Português e quem o aplica refletem um pensamento, quiçá maioritário na sociedade, que se traduz na desculpabilização do agressor e, por conseguinte, na constatada impunidade que os dados do MJ, em minha opinião, vieram comprovar. (...)

Não era fácil, mas aconteceu

Imagem retirada da Internet
Entre dois dos temas que tinha alinhado para hoje, a impunidade dos agressores sexuais e as eleições presidenciais no Brasil, escolho o ato eleitoral brasileiro sobre o qual, de momento, ainda não se conhecem resultados, mas as primeiras projeções apontam para uma segunda volta entre o candidato da extrema direita e o candidato apoiado pelo PT e pelo PCdoB. Este é um cenário que Bolsonaro não deseja, mas é o quadro que mantém a esperança de que o Brasil não seja entregue ao representante dos setores mais retrógrados da sociedade brasileira e que a frágil democracia daquele país possa sobreviver. Sim, é disso que se trata da defesa da democracia.
O Brasil é um país que tem dimensão e recursos, naturais e humanos, para garantir ao seu povo a dignidade que lhe tem sido confiscada por uma elite que é herdeira da estrutura colonial que cultiva a supremacia de um grupo humano sobre outros grupos humanos e, julgo que não será necessário elencar os atributos do candidato que representa esse pensamento para, nesta primeira volta, os cidadãos brasileiros terem votado em qualquer outro candidato.
Se as projeções se vierem a confirmar, Bolsonaro e toda a estratégia orquestrada, interna e externamente, para o colocar no poder sofrem uma derrota e fica aberto o caminho para que o povo brasileiro acabe com este pesadelo que não se confina às fronteiras do Brasil.
O crescimento eleitoral de personalidades e forças políticas ideologicamente próximas, ou mesmo assumidamente confessas da supremacia de um grupo humano sobre outros é, num olhar breve, inexplicável e levanta, desde logo, a questão, Será que não aprendemos nada com a história do Século XX. Mas se o olhar pousar sobre as raízes desse crescente apoio eleitoral, então talvez não seja assim tão difícil de entender, embora não deixe de ser paradoxal, pois esse apoio cresce entre as suas próprias vítimas, ou seja, as populações mais fragilizadas social e economicamente e, muitas vezes, desprovidas de direitos básicos, como por exemplo o direito ao trabalho. Mas este é um assunto que merece uma abordagem própria e hoje interessa-me olhar para o Brasil.

Imagem retirada da Internet
Quando iniciei este texto tratava-se de um desejo, mas a esperança é já uma realidade. Os eleitores brasileiros ditaram uma segunda volta nas presidenciais brasileiras. O tal cenário que os mandantes de Bolsonaro não queriam e que o próprio tanto temia, O debate democrático. Se até agora o candidato da extrema direita fugiu ao debate e se escondeu nas redes sociais para evitar o confronto de ideias, de projetos e programas, como principal estratégia eleitoral, a partir de agora não será mais possível, sob pena de a sua candidatura se esboroar junto da maioria do eleitorado por falta de comparência.
A segunda volta das presidenciais brasileiras é um fracasso de Bolsonaro e da estratégia dos seus mandantes, por outro lado mantém as portas abertas para que a derrota total possa ser confirmada no dia 28 de Outubro pois, no debate público Bolsonaro não tem o que dizer a não ser as suas conhecidas atoardas racistas, sexistas, homofóbicas, ou a sua conhecida proposta para reduzir o número de pobres, ou seja, esterilizando-os para não proliferarem.
As próximas semanas serão de trabalho árduo para todos quantos no Brasil querem afastar o espectro de um ditador sentado no Palácio do Planalto.
Ponta Delgada, 07 de Outubro de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 08 de Outubro de 2018

terça-feira, 9 de outubro de 2018

... dos paradoxos


Imagem retirada da Internet




Excerto de texto para publicação na imprensa regional e, como é habitual também aqui, no blogue momentos.





(...) O crescimento eleitoral de personalidades e forças políticas ideologicamente próximas, ou mesmo assumidamente confessas da supremacia de um grupo humano sobre outros é, num olhar breve, inexplicável e levanta, desde logo, a questão, Será que não aprendemos nada com a história do Século XX. Mas se o olhar pousar sobre as raízes desse crescente apoio eleitoral, então talvez não seja assim tão difícil de entender, embora não deixe de ser paradoxal, pois esse apoio cresce entre as suas próprias vítimas, ou seja, as populações mais fragilizadas social e economicamente e, muitas vezes, desprovidas de direitos básicos, como por exemplo o direito ao trabalho. (...)