sábado, 22 de setembro de 2018

A intimidação e as ameaças veladas não amedrontam os docentes - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 07 de Julho de 2018 que pode ser ouvida aqui






A intimidação e as ameaças veladas não amedrontam os docentes

Bem que gostaria de lhe trazer um outro assunto neste primeiro sábado de Julho, mas não ficaria bem comigo mesmo se não partilhasse consigo uma reflexão, sobre a qual já escrevi no meu blogue, sobre um tema que domina a atualidade política regional e nacional e que é um assunto que preocupa, ou devia preocupar, todos os cidadãos.
Sim, trata-se da greve dos educadores e professores, mas trata-se também do incumprimento da Lei, de honrar compromissos, de cumprir recomendações e, da inaceitável intimidação, coação e das ameaças veladas que estão a ser exercidas pelo Governo da República e, em particular pelo Governo Regional dos Açores, por via da Secretaria e da Direção Regional da Educação.

Foto by Aníbal C. Pires
A tutela regional da educação através de ofícios e outras formas de comunicação, quer impor aos docentes um conjunto de ilegalidades e fazer tábua rasa do direito constitucional à greve. Não vai conseguir, os docentes já perderam o medo e o respeito pela tutela, aliás basta ver o número de Conselhos de Turma adiados após várias tentativas de intimidação e ameaça de procedimentos disciplinares para se constatar isso mesmo.
O art.º 19 da Lei do Orçamento de Estado para 2018 é claro quanto à consagração da recuperação integral do tempo de serviço congelado aos docentes para efeitos de reposicionamento na carreira. O mesmo artigo remete, cumprindo o determinado na Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, para a negociação do prazo e do modo da sua concretização. O Governo do PS de António Costa recusa-se a cumprir a Lei do Orçamento de Estado ao propor aos Sindicatos representativos dos docentes a recuperação de apenas cerca de 3 anos. Este é já um governo fora da lei.
Quanto ao compromisso assumido numa declaração assinada com os Sindicatos dos docentes, ainda antes da aprovação do Orçamento de Estado de 2018, o Governo do PS demonstrou que não tem palavra, nem honra, simplesmente faz letra morta do que subscreveu, nada que me espante, pois, conhecendo o modus operandi do PS estranho seria que honrasse o compromisso.
Quanto à Resolução 1/2018, proposta ainda em 2017, pelos “Verdes” na Assembleia da República, e aprovada com os votos favoráveis do PS, do PCP, dos “Verdes, do BE e do PAN, Não o PSD e o CDS/PP não votaram favoravelmente, aliás como não votaram favoravelmente o Orçamento de Estado para 2018, mas como dizia a Resolução 1/2018 recomendava ao Governo a recuperação integral do tempo de serviço congelado, também desta Resolução da Assembleia da República o Governo do PS de António Costa está a fazer letra morta.

Foto by Aníbal C. Pires
Estes factos são importantes para se perceber quem deve ser responsabilizado politicamente pelos incómodos causados pela greve dos educadores e professores. Julgo que é claro que o Governo do PS de António Costa é o culpado, aliás é bom que se diga que os Sindicatos representativos dos docentes, em boa fé, propuseram um prazo suficientemente dilatado para que os impactos nas finanças públicas se diluíssem ao longo de vários anos. Eu cá por mim não lhes daria tanto tempo pois, quando se trata de injetar dinheiro público na banca privada não faltam milhares de milhões de euros. Mas tudo bem, respeito a boa vontade negocial dos Sindicatos.
Face à adesão dos docentes à greve às avaliações que está a decorrer e à dimensão dos seus efeitos os Governos, com exceção do Governo Regional da Madeira, ao invés de se sentarem à mesa negocial cumprindo a lei do Orçamento de Estado para 2018 optaram pela coação e pela intimidação aos docentes tentando subverter o quadro legal que regula o funcionamento dos Conselhos de Turma, ou seja, uma vez mais estão a atuar fora da lei.
Nos Açores a pressão sobre os Conselhos Executivos e sobre os docentes, com ameaça de procedimentos disciplinares seria para rir, senão fosse tão grave, mas os docentes não se deixaram intimidar e mantêm-se unidos e cada vez mais fortes nesta luta pelo cumprimento estrito da legalidade.
Ainda quanto aos Açores não posso deixar de lamentar, uma vez mais, a inépcia do Governo Regional ao recusar-se a abrir um processo autónomo de negociação com os Sindicatos cumprindo, assim, o que a Lei do Orçamento de Estado consagra.
Estas opções têm custos políticos e eleitorais e as eleições na República são já em 2019 e as eleições nos Açores em 2020.
A memória dos cidadãos é curta, mas no que diz respeito aos docentes, desta vez, talvez não seja bem assim.

Fique bem.
Eu voltarei, assim o espero, no próximo sábado

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 07 de Julho de 2018

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quem paga a quem

Imagem retirada da Internet
Sob a égide do Secretário Regional Adjunto para as Relações Externas, Dr. Rui Bettencourt, ao longo de vários meses e num processo amplamente participado, que contou com a participação e com os contributos de diferentes setores da sociedade açoriana, concluiu-se o processo de construção da posição regional sobre as grandes linhas de orientação para a aplicação de fundos comunitários pós 2020.
O documento final produzido mereceu a unanimidade partidária, um amplo consenso dos parceiros sociais e dele já foi dado conhecimento às diferentes instâncias europeias. Não tenho memória de processos políticos idênticos, quer no que diz respeito à metodologia utilizada, quer na diversidade das participações individuais e coletivas. Como tal, não posso deixar de fazer este registo positivo e, assim, tornar pública a minha opinião.
A Região, com este documento, ficou dotada de um documento estratégico que lhe permite, desde logo, alicerçar argumentos no seio da União Europeia, mas também em Lisboa, para justificar a alocação dos necessários envelopes financeiros para a concretização das políticas de desenvolvimento que podem, no próximo Quadro Financeiro Anual (QFP), resolver algumas das questões estruturais que continuam a influenciar negativamente o processo de convergência com a União Europeia, afinal este é o principal objetivo dos fundos estruturais. É bom não esquecer.
Os receios de que poderia, face à justificação do Brexit e à adoção de políticas securitárias e de defesa pela União Europeia, vir a verificar-se uma redução no orçamento comunitário pós 2020 no apoio às políticas de coesão e num ou outro pilar da Política Agrícola Comum vieram a concretizar-se, ainda durante o processo de construção da posição açoriana. Embora este facto não seja sinónimo de diminuição das verbas consignadas aos Açores pois, o QFP destina-se aos países e não às Regiões, tenho consciência, todos a teremos, que a concretizarem-se, para Portugal, as reduções previstas na proposta orçamental da Comissão Europeia, essa redução será espelhada no financiamento que o Estado vier a alocar aos Açores. Também, como já ficou dito atrás, por esse motivo a posição construída nos Açores tem o mérito de conter os fundamentos necessários para justificar, perante Lisboa, a necessidade de manter, pelo menos, o mesmo nível de financiamento do QFP aos Açores.
Não sendo o principal objeto desta reflexão não posso, contudo, deixar de referir que a proposta da Comissão Europeia contém outros aspetos, quiçá mais penalizadores, como sejam, por um lado, o aumento de 100% da comparticipação própria dos promotores de projetos cofinanciados e, por outro a centralização, na Comissão, de uma parte significativa da gestão dos fundos comunitários, como por exemplo, numa área tão importante e sensível com seja a investigação científica.

Imagem retirada da Internet
Há no seio dos deputados portugueses no Parlamento Europeu quem concorde com a proposta de orçamento para o próximo QFP, aliás no Fórum que se realizou na passada segunda-feira na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, isso foi claro e transparente. Mas, é bom que tenhamos a ideia de que Portugal não tem de estender a mão à Comissão Europeia, os fundos estruturais não têm um carácter assistencialista e, sendo importantes, é bom que ganhemos consciência de que os sucessivos envelopes financeiros atribuídos a Portugal não compensaram, nem compensam, os prejuízos que resultaram das políticas comuns. Associada a esta questão está uma outra que não é de somenos importância; a Alemanha tem vindo, ao longo de vários anos a registar o maior excedente comercial do Mundo, mas pelo contrário as economias periféricas da zona euro atravessaram e atravessam graves desequilíbrios nas sua balanças comerciais. Afinal para onde vão os benefícios deste modelo de construção europeia. Quem paga a quem.
Este assunto, não por ser inesgotável, mas porque vai estar na agenda política até à sua aprovação final, que se está a projetar para depois das próximas eleições para o Parlamento Europeu, será por certo alvo de outras reflexões que conto continuar a partilhar com os leitores.
Ponta Delgada, 18 de Setembro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 19 de Setembro de 2018

terça-feira, 18 de setembro de 2018

... dos excedentes

Imagem retirada da Internet





Excerto de texto para publicação na imprensa regional e, como é habitual também aqui, no blogue momentos.







(...) Mas, é bom que tenhamos a ideia de que Portugal não tem de estender a mão à Comissão Europeia, os fundos estruturais não têm um carácter assistencialista e, sendo importantes, é bom que ganhemos consciência de que os sucessivos envelopes financeiros atribuídos a Portugal não compensaram, nem compensam, os prejuízos que resultaram das políticas comuns. Associada a esta questão está uma outra que não é de somenos importância; a Alemanha tem vindo, ao longo de vários anos a registar o maior excedente comercial do Mundo, mas pelo contrário as economias periféricas da zona euro atravessaram e atravessam graves desequilíbrios nas sua balanças comerciais. Afinal para onde vão os benefícios deste modelo de construção europeia. Quem paga a quem. (...)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Congressos partidários, projetos políticos e protagonistas

Imagem retirada da Internet
Os congressos partidários constituem momentos importantes da vida pública, uma vez que é naquele espaço de apresentação de moções ou resoluções políticas, submetidas à discussão e votação dos representantes partidários que são conhecidas as linhas que conformam os projetos políticos que pautarão a ação e iniciativa política partidária, quer se esteja na oposição, quer se exerça o poder executivo. E este aspeto, quer se queira quer não, é bem mais importante do que saber quem são os protagonistas.
No caso da Região Autónoma dos Açores é no Parlamento que reside o poder legislativo. Ou seja, as iniciativas políticas ali apresentadas resultam, ou assim deveria ser, dos projetos políticos aprovados em congresso e aprofundados nos programas eleitorais que os partidos apresentam ao eleitorado. Programas que após serem sufragados se transformam em compromissos sociais e políticos, ou dito de outra forma os partidos estabelecem com a sociedade um contrato que devem cumprir, se o não fizerem perdem a legitimidade democrática que lhes foi conferida no ato eleitoral e, quando assim é, e é-o muitas vezes, os eleitores devem exigir o seu cumprimento e passam a ter o direito democrático à indignação e a reivindicar a demissão de quem quebra o compromisso.
Não tenho por hábito partilhar publicamente a minha opinião sobre os congressos partidários, a não ser quando, em representação partidária, assisto às sessões de encerramento e me é solicitado, pela comunicação social, um comentário. Hoje vou quebrar essa prática e partilhar algumas considerações sobre o congresso do PS Açores que decorreu, no passado fim de semana, na cidade da Praia da Vitória. Esta é uma exceção e, como tal, não significa que, sobre os congressos partidários que se realizem daqui para a frente, me sinta obrigado a partilhar opinião sobre o que ali vier a ser dito e aprovado.
Como afirmei, dos congressos partidários, para além de outros aspetos, importa conhecer a moção ou a resolução aprovada e que será, como também já disse, o documento que conforma a ação política, de médio prazo. No caso do PS Açores que vem a exercer o poder na Região desde 2016, digamos que tinha alguma curiosidade sobre este congresso e a moção global que iria ser aprovada.

Foto by Madalena Pires 
A moção apresentada pelo Presidente do PS Açores, e também Presidente do Governo Regional, desenvolve-se ao longo de três áreas, ou pilares, a saber: “Afirmar os Açores”, “Reforçar a Coesão” e “Qualificar a Democracia”. Se me ficasse apenas pelos temas perguntaria, O que é que o PS tem andado a fazer desde 1996. Mas não é o caso, sempre li mais alguma coisa da moção global e, é sobre algumas das propostas que constam da moção que lhe deixo algumas considerações.
A afirmação dos Açores proposta na moção global depende, no essencial, de uma revisão constitucional, isto é, não se subordina à vontade do PS Açores, para além de que algumas das propostas, como por exemplo ser o Presidente do Governo a promulgar a legislação regional, mesmo considerando que o Presidente do Governo regional venha a ser eleito pelo parlamento, tal como é proposto, não faz nenhum sentido político pois o poder legislativo reside na Assembleia Legislativa. Tratando-se, no essencial, de matérias que necessitam de uma revisão constitucional, eu diria, que o PS Açores sacode a água do capote na sua proposta de “Afirmar os Açores” e reintroduz, uma vez mais uma agenda política que, no imediato, mais não pretende do que deslocalizar a atenção dos cidadãos do que é verdadeiramente prioritário para o Povo Açoriano.

Foto by Aníbal C. Pires
Quanto ao segundo pilar, “Reforçar a Coesão”, apresenta alguns aspetos novos, desde logo, um princípio que tenho vindo defender, A coesão desenvolve-se no potencial endógeno de cada uma das nossas ilhas e na complementaridade entre elas, e não na replicação modelos uniformes. Mas é este o pilar que melhor evidencia a ineficácia da ação política e governativa do PS Açores, parece que nada foi feito para resolver questões que há muito estão equacionadas como, por exemplo, as questões demográficas (desertificação e envelhecimento) e, ainda e sempre, as acessibilidades e a mobilidade (transportes: terrestres, marítimos e aéreos, e, os custos que lhe estão associados).
A moção global apresenta no terceiro pilar, “Qualificar a Democracia”, que se pode traduzir na intenção de melhorar a qualidade da democracia açoriana que, digo eu, bem necessitada está.
Uma administração pública amiga e próxima do cidadão e, sobretudo, transparência e prestação de contas. Quando li esta última parte não pude deixar de sorrir pois, o Governo regional não tem mostrado, perante os deputados eleitos pelo Povo Açoriano nenhuma disponibilidade para o fazer. A governação é opaca e quanto à prestação de contas, designadamente no que concerne às alterações orçamentais (centenas anualmente) o Parlamento que aprova o Orçamento, não tem delas conhecimento. Mas sim, folgo em saber que o PS Açores, não só reconheceu a opacidade da sua governação e quer conferir-lhe transparência, como também considera importante a prestação de contas quanto aos compromissos que assume com as instituições e os eleitores.
Para quem ainda se lembra do título que dei a este texto estará à espera que seja agora o momento dos protagonistas. E, para não lhe defraudar a expetativa vou dedicar o espaço e o tempo que me resta aos protagonistas. As personalidades têm importância, sem dúvida, mas não nos esqueçamos que os protagonistas são meros executores dos projetos políticos e dos interesses que representam. Importante mesmo são os projetos políticos que a dada altura protagonizam.
Ponta Delgada, 16 de Setembro de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 17 de Setembro de 2018

domingo, 16 de setembro de 2018

... dos compromissos

O "PECA" que nunca chegou





Excerto de texto a publicar na imprensa regional e, também, no blogue momentos.





(...) Quanto ao segundo pilar, “Reforçar a Coesão”, apresenta alguns aspetos novos, desde logo, um princípio que tenho vindo defender, A coesão desenvolve-se no potencial endógeno de cada uma das nossas ilhas e na complementaridade entre elas, e não na replicação modelos uniformes. Mas é este o pilar que melhor evidencia a ineficácia da ação política e governativa do PS Açores, parece que nada foi feito para resolver questões que há muito estão equacionadas como, por exemplo, as questões demográficas (desertificação e envelhecimento) e, ainda e sempre as acessibilidades e a mobilidade (transportes: terrestres, marítimos e aéreos, e, os custos que lhe estão associados). (...)

sábado, 15 de setembro de 2018

A demanda de José Filemom - Crónicas radiofónicas






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105 FM

Esta crónica foi para a antena a 23 de Junho de 2018 que pode ser ouvida aqui








A demanda de José Filemom

Foto by Aníbal C. Pires
Tenho para comigo que pouco acrescentarei ao muito que os leitores, do mais recente romance de Joel Neto, têm dito e tornado público sobre o “Meridiano 28”, mas ainda assim e correndo o risco de não acrescentar rigorosamente nada às apreciações já feitas. Ainda assim, e, porque não tenho temor de arriscar, aqui fica a minha opinião. Opinião que é apenas mais uma, entre muitas outras.
Para quem não conhece a história dos Açores e, neste particular, a história do Faial do século XX ficará com curiosidade em saber mais depois de ler o “Meridiano 28”, se já antes a baleação e a presença dos Dabney tinham contribuído para a transformação social e económica desta ilha açoriana, a instalação dos cabos submarinos e a fixação de uma significativa comunidade alemã e inglesa, mas também o início da operação aérea dos clippers da Pan Americam, em 1939 e que se prolongou durante o período da II Guerra Mundial, fixaram, naturalmente muitos americanos. A cidade da Horta acolhia, ainda, uma diversidade de outras nacionalidades menos numerosas, é certo, mas que lhe conferiam caraterísticas únicas. É neste ambiente cosmopolita e de interação entre as diferentes comunidades estrangeiras e algumas famílias faialenses que se desenrola a teia urdida pelo Joel Neto e que os leitores vão, sofregamente, acompanhando ao passar de cada página.
Apesar do que ficou dito e o que mais me aprouver dizer, o “Meridiano 28” não é um romance de época, Digo eu, salvaguardando melhores e doutas opiniões. O mais recente romance de Joel Neto é intemporal como o é o amor e o ciúme, a amizade, a convivência pacífica e a solidariedade, mesmo em tempo de guerra, como é o sonho e a fantasia, a natureza tranquila e bela, mas também uma natureza capaz de enormes cataclismos que podem transformar (transformou) as fronteiras de uma pequena ilha do Atlântico Norte.
Se o centro desta urdidura de Joel Neto é a cidade da Horta e o período da II Guerra Mundial a estória não se confina nem ao espaço, nem ao tempo, outra coisa não se podia esperar pois, os açorianos nunca se deixaram espartilhar pelo horizonte. O horizonte é logo ali e para lá dele ficam os sonhos e outros Mundos, outras verdades. E é a demanda de José Filemom, por outros lugares outros tempos, que acompanhamos ao longo da teia que o Joel urdiu.
Sendo de um tempo de guerra este não é um livro sobre os horrores da guerra. Este será, também, um aspeto que diferencia este romance de outros cujo tema se centra neste período negro da história da humanidade que foi a II Guerra Mundial.
Depois de ter lido o “Meridiano 28”, e mesmo conhecendo razoavelmente o Faial e a sua história o meu olhar sobre a cidade da Horta e a ilha do Faial nunca mais será o mesmo.
Obrigado Joel.

Quanto a si que esteve comigo, Fique bem.
Eu voltarei, assim o espero, no próximo sábado

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 30 de Junho de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Olhares sobre Setembro(s)

Imagem retirada da Internet
Passam 17 anos sobre os atentados de Nova Iorque e 45 anos sobre o golpe de Pinochet no Chile e a comunicação social traz, naturalmente, para a memória coletiva estes acontecimentos que chocaram o Mundo. Se atentarmos bem verificamos que uma das datas é preterida em favor da outra. Sim, são os critérios editoriais. Eu diria que sim, São os critérios editorias que melhor se adequam a interesses espúrios e que pouco têm a ver com o rigor e a história.
Por um lado, branqueia-se um golpe fascista apoiado e financiado pelos Estados Unidos do qual não só resultou a morte do Presidente de um governo eleito democraticamente, mas que fez nos dias e meses que se lhe seguiram mais de 3 dezenas de milhares de mortos entre o povo chileno. Ao que nos é dado constatar esta não é a efeméride que merece a atenção da comunicação social do mainstream. Se os cidadãos pretenderem obter alguma informação sobre o 11 de Setembro de 1973 no Chile terão de procurar nos canais de informação do underground. O que para os cidadãos menos atentos acaba por ser incompreensível pois, trata-se, quer num caso quer no outro, da nossa história recente. E é legítimo perguntar que raio de critérios editoriais são este que promovem um e escondem outro ato de terror. Sim porque, quer num caso quer noutro foi de terrorismo que se tratou.
Admito que o atentado de Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001, pelas imagens disponíveis, foi transmitido em direto pelas televisões de todo o Mundo, pela proximidade cronológica, mas, sobretudo pelo mediatismo que tem tido, e tem, esteja mais vivo na retina dos cidadãos, o que não justifica que a memória da barbárie que se abateu sobre o povo chileno seja remetida para o esquecimento ou, para as notas de roda pé.


Imagem retirada da Internet
Mas em nome do rigor, uma vez que quanto à história não se compreendem os tais critérios editoriais. Quanto ao rigor as notícias de hoje (ontem) que se referem ao 11 de Setembro de 2001 também deixam muito a desejar. Conhecidos que são inúmeros relatórios e estudos, sobre alguns dos aspetos dos atentados, que contrariam a versão oficial construída nos dias que se seguiram aos atentados a comunicação social, alinhada com a corrente dominante, continua a reproduzir como verdades insofismáveis alguns aspetos que, comprovadamente, ou não aconteceram de todo, ou que não foram responsáveis por alguns dos efeitos que se registaram ao longo desse famigerado dia. Mas eles insistem.
Insistem que as Twin Towers ruíram devido ao embate dos aviões, insistem que o ataque ao Pentágono foi perpetrado por um avião comercial, quando todas as evidências e estudos comprovam que não foi assim. E quanto ao hipotético avião que caiu na Pensilvânia e que supostamente se dirigia para a Casa Branca existem muitas dúvidas sobre a veracidade desse evento, até porque a zona de impacto não apresenta os sinais característicos da queda de um avião comercial.
Os dois acontecimentos a que me tenho vindo a referir tiveram desenvolvimentos que afetaram e afetam o Mundo. O golpe de Pinochet, com o apoio dos Estados Unidos, criou condições para a criação de um espaço experimental de algumas teses económicas que mais tarde, com as necessárias adaptações foram importadas pelos os Estados Unidos e pela a Europa, neste caso para pela mão de Margareth Tatcher e com efeitos diretos e imediatos na Inglaterra. Mais tarde, ainda que sob uma outra vestimenta essas teses foram sendo generalizadas por toda a União Europeia com os efeitos conhecidos que o endeusamento do mercado provocou.
O 11 de Setembro de 2001 serviu para justificar a invasão do Afeganistão e do Iraque, para além de outros episódios de ingerência em estados soberanos, e a instalação de um clima de terror que não está confinado a esses territórios. O histórico de atentados terroristas, tendo como autores grupos fundamentalistas, um pouco por todo o Mundo é longo e conhecido de todos.
Ponta Delgada, 11 de Setembro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 12 de Setembro de 2018

terça-feira, 11 de setembro de 2018

... da memória coletiva

Imagem retirada da Internet





Excerto de texto a publicar na imprensa regional e, também, no blogue momentos.






(...) Ao que nos é dado constatar esta não é a efeméride que merece a atenção da comunicação social do “mainstream”. Se os cidadãos pretenderem obter alguma informação sobre o 11 de Setembro de 1973 no Chile terão de procurar nos canais de informação do “underground”. O que para os cidadãos menos atentos acaba por ser incompreensível pois, trata-se, quer num caso quer no outro, da nossa história recente. E é legítimo perguntar que raio de critérios editoriais são este que promovem um e escondem outro ato de terror. Sim porque, quer num caso quer noutro foi de terrorismo que se tratou. (...)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Dias tranquilos

Foto Madalena Pires (S. Miguel, 2017)
Estar, a momentos, só e com alguma quietude é um ritual diário. Necessito desses instantes como preciso do ar que respiro para viver. É assim como uma espécie de viagem pelo que fui e pelo que sou, mas também um olhar para o que ainda por aí virá. Sou um ser sociável. Gosto de conversar, embora não goste de multidões, mas não prescindo de ter um tempo para mim, Só para mim, nem os meus botões quero ter por perto.
Nos fins de semana de Verão tenho por hábito ficar por casa. Saio apenas para passar uns momentos numa das esplanadas dos pequenos cafés que se situam na vizinhança. Hoje assim aconteceu, afinal ainda é Verão e os hábitos são o que são. Esta minha opção de recolhimento quase monacal tem, como tudo, uma justificação. Gosto do silêncio dos lugares. Como vê as razões que me assistem, por sinal, até são bem simples, embora nem sempre compreendidas. Nos fins de semana de Verão os lugares enchem-se de ruídos e eu procuro silêncios.
E assim aconteceu hoje. De sacola ao ombro onde, de entre outros objetos, carrego o livro que ando a ler, um pequeno bloco de apontamentos, uma dose de tabaco (estou a tentar diminuir o consumo) e algumas fichas cartonadas para fazer anotações da leitura, lá fui para uma esplanada da zona residencial onde vivo. Para além da proximidade e da simpatia dos proprietários o espaço não tem particularidades que o tornem um lugar especial. Localiza-se numa praceta sobranceira a uma avenida voltada para os edifícios que a ladeiam, tem apenas uma pequena “janela” por onde se avista uma nesga de céu e o alto da mãe de Deus com a sua altaneira igreja voltada a poente (para o núcleo histórico da cidade). Por aquela estreita janela pode ainda observar-se o movimento aéreo que chega e parte do aeroporto de Ponta Delgada, conforme a pista em uso.
Apesar do lugar para onde me dirigi se situar na zona com maior densidade populacional da cidade, sabia que a meio desta tarde luminosa de Verão, com a temperatura amena, a humidade elevada e sem vento não faltariam lugares e silêncios para mim. E assim foi.
Foto by AníbalC. Pires (S. Miguel, 2018)
Tomei café, folheei um dos diários regionais, fumei um cigarro e quando me preparava para retomar a leitura dos “Dias Tranquilos”, do escritor japonês Kenzaburo Oé*, já se ouvia a chuva a embater no toldo que me protegia do Sol. Que bom. Bom devido aos grandes períodos de estiagem que este ano se têm verificado e a terra tão necessitada deste consolo. Olhei em frente, a Mãe de Deus continuava recortada no azul do céu, a temperatura continuava amena, o vento não se levantou, a chuva caía vertical e persistentemente e eu “tava-me” consolando com esta bênção. Gosto do som chuva, gosto do cheiro a terra molhada e gosto de estar na rua quando caiem estas chuvadas de Verão. A tarde tornou-se perfeita quando recebi um telefonema de alguém que me conhece, como ninguém, para me dizer do quanto eu deveria estar a fruir daquele momento.
Se gosto e preciso de estar só, Sem dúvida. Mas gosto ainda mais de ter alguém que respeita e compreende esta necessidade vital para o meu bem-estar.
Ponta Delgada, 09 de Setembro de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 10 de Setembro de 2018

... do silêncio dos lugares

Foto Madalena Pires (S. Miguel, 2017)








Excerto de texto a publicar na imprensa regional e, também, no blogue momentos.











(...) Nos fins de semana de Verão tenho por hábito ficar por casa. Saio apenas para passar uns momentos numa das esplanadas dos pequenos cafés que se situam na vizinhança. Hoje assim aconteceu, afinal ainda é Verão e os hábitos são o que são. Esta minha opção de recolhimento quase monacal tem, como tudo, uma justificação. Gosto do silêncio dos lugares. Como vê as razões que me assistem, por sinal, até são bem simples, embora nem sempre compreendidas. Nos fins de semana de Verão os lugares enchem-se de ruídos e eu procuro silêncios. (...)