sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

O cantador

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Há 37 anos morreu o homem. O seu legado poético, musical e político continuou e vai perdurar na memória de todos os que não se submetem às inevitabilidades que provocam injustiça, discriminação, exclusão e pobreza. 

José Afonso foi um resistente e, como todos os resistentes, um vencedor, pois, resistir é vencer. 


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Saúde: má gestão ou estratégia

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A saúde é um bem inestimável. Se há verdades insofismáveis esta será uma delas. A prevenção da doença ou, se preferirmos a promoção da saúde, deveria ser uma prioridade no desenho e na afetação de recursos de qualquer projeto político para os serviços públicos de saúde.

A realidade é, contudo, bem diferente dos anúncios feitos circunstancialmente por quem exerce o poder, na região e no país. Os utentes dos hospitais e dos centros de saúde públicos identificam e denunciam de amiúde as dificuldades no acesso, em tempo útil, e na qualidade do serviço prestados pelos organismos públicos que prestam cuidados de saúde, sejam eles primários, sejam de outra natureza, reconhecendo que as insuficiências verificadas não se devem aos diferentes profissionais, mas ao modelo organizacional, às prioridades políticas e ao desinvestimento nos serviços públicos. Mas se os utentes manifestam o seu desagrado também os profissionais de saúde pública o fazem, tendo como efeito prático, mais visível, o abandono dos serviços.

A falta de atratividade das carreiras, as baixas remunerações e a insatisfação gerada com a imposição de objetivos de produtividade definidos por critérios economicistas e administrativos traduzem-se na migração dos diferentes técnicos de saúde para o setor privado, ou mesmo para o estrangeiro.

Ao fazer uma pesquisa sobre a taxa de cobertura da medicina familiar no Serviço Regional de Saúde deparamo-nos com taxas elevadas, nunca abaixo dos 90%, sendo que algumas das parcelas territoriais da região têm uma taxa de cobertura plena, por outro lado, verificamos que houve algum aumento na afetação técnicos para as equipas multidisciplinares de saúde familiar, em particular de médicos e enfermeiros, sendo que outras valências, como seja a nutrição ou a psicologia clínica, estão muito aquém do desejável.

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A cobertura da quase totalidade da população açoriana pela medicina familiar pública resulta da dimensão das listas de utentes por médico/equipa e não pelo, insuficiente, aumento do pessoal médico e técnico que integram as equipas de saúde familiar, conquanto seja um facto que há mais técnicos de saúde primária afetos aos cuidados primários de saúde, mas não é menos verdade que as listas por médico/equipa cresceram muito mais. O resultado destas políticas reflete-se, em particular nas ilhas com maior dimensão populacional, como se constata na diminuição da qualidade do serviço: menos tempo por doente, diminuição da frequência das consultas, ou seja, distanciamento quando o que se pretende é proximidade e disponibilidade para cumprir com o desiderato da medicina familiar: a prevenção e a manutenção da saúde.

A relação utente médico/equipa degrada-se e, naturalmente, gera insatisfação nos utentes e nos profissionais de saúde, os primeiros pelo sentimento de abandono e distanciamento e os segundos por não conseguirem desenvolver cabalmente o seu trabalho. Pode parecer uma questão de somenos importância, mas se atentarmos, por exemplo, ao que a Ordem dos Médicos diz, por via do Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar, constamos que os serviços públicos de cuidados de saúde primários na região, nas ilhas e concelhos mais populosos, estão muito longe de cumprirem as funções que lhe são atribuídas. Este incumprimento não resulta da inércia ou incúria dos profissionais médicos e outros técnicos afetos às equipas, mas do elevado número de utentes que servem e do trabalho administrativo a que os sujeitam, tudo em nome de uma suposta produtividade.

Vejamos então o que diz a Ordem dos Médicos sobre esta importante especialidade: “A Medicina Geral e Familiar é uma especialidade médica que promove cuidados de saúde a todos os que procuram o médico de família, independentemente da idade, género, etnia ou estado de saúde, de forma personalizada (a cada um o que precisa), global (abarcando todos os problemas de saúde), acessível (está junto das pessoas) e em continuidade (ao longo do tempo).

A Medicina Geral e Familiar assenta no modelo biopsicossocial, que inclui os dados da pessoa, o seu passado, a sua estrutura familiar e o contexto da sua comunidade, e entende que a interação com a pessoa pode ser, por si só, terapêutica.

O médico de família cuida da pessoa, em termos de prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos. A Medicina Geral e Familiar trabalha em conjunto com outros profissionais, médicos e não médicos, promovendo a coordenação dos cuidados de saúde prestados, através da articulação entre os seus diferentes níveis.”

Não poderia estar mais de acordo e assim deveriam funcionar os serviços públicos de medicina familiar, mormente, no que concerne ao pessoal médico. A pergunta é: As equipas de medicina geral e familiar do seu Centro de Saúde funcionam assim!? A minha resposta é: - Não. E a sua qual é!?

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A minha resposta revela insatisfação pelo serviço. O meu descontentamento não é motivado pelos profissionais (administrativos, técnicos, enfermeiros e pessoal médico), mas por não serem respeitados os requisitos organizacionais para que as equipas possam cumprir os propósitos que lhe estão atribuídos. Distanciamento quando devia haver proximidade, um olhar parcial sobre o utente quando devia ser holístico, descontínuo e distante quando devia ser regular e próximo.

Já referi a migração do pessoal técnico, de enfermagem e médico, para o setor privado, mas também os utentes, detentores de seguros ou de subsistemas de saúde que têm acordos com as empresas privadas que prestam serviços de saúde, recorrem aos serviços de saúde particulares, quem os não tem procura nos hospitais públicos a assistência médica que não lhe é fornecida entupindo os serviços de atendimento permanente, ou madrugando para conseguir uma consulta, não agendada, no Centro de Saúde sem garantia de vir a ser atendido pelo seu médico de família.

Se este fenómeno é fruto do acaso ou da má gestão da coisa pública, assim pode parecer, mas eu diria que não, embora a administração e a gestão do setor público sejam, por vezes, vítimas da incompetência de alguns gestores e administradores cuja capacidade, apesar de diplomados, só é validada pela opção partidária do momento.

A destruição do Serviços Regional e Nacional de Saúde também se faz por via da insatisfação dos utentes e, nada disto acontece por acaso, a finalidade é cada vez mais clara: abrir espaço à atividade privada e, como percecionamos, a estratégia está a dar os seus frutos. A proliferação de clínicas e policlínicas privadas nos Açores, em particular nas ilhas com maior dimensão populacional, mais parece a reprodução de cogumelos nas primeiras chuvas do outono. Todas elas instaladas com os programas de apoio público às empresas e o seu funcionamento só é rentável por via dos protocolos com os serviços públicos de saúde, ou seja, os sistemas privados alimentam-se com o financiamento público que deveria ser investido nos Serviços Regional e Nacional de Saúde.

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Os cuidados de saúde primários têm como principais pilares a relação médico utente (personalização), a construção da história clínica do utente e familiares (um olhar holístico), a proximidade (acessível pelo utente) e o acompanhamento ao longo do tempo (continuidade). Não é difícil constatar que nenhum destes pilares tem sustentação face às longas listas de utentes por médico/equipa, ou seja, a estrutura de saúde que tem como missão prevenir e manter a saúde está a degradar-se, os custos dessa deterioração são elevados, pois, o tratamento da doença é sempre mais alto do que a manutenção da saúde, por outro lado o negócio das clínicas e hospitais privados e das farmacêuticas é a doença não é a saúde. As políticas públicas, na região e no país, têm ido ao encontro dos interesses privados e das farmacêuticas, mas não tem de ser assim. Como já referi o caminho que estamos a trilhar é fruto de opções políticas de quem tem exercido o poder na região e no país. A opção tem sido deixar degradar os serviços públicos para abrir espaço às empresas privadas e alocar o financiamento, que deveria ser para os serviços públicos, no setor privado. 

 Arranhó, 20 de fevereiro de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de fevereiro de 2024

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

o abandono SRS e do SNS

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Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) A realidade é, contudo, bem diferente dos anúncios feitos circunstancialmente por quem exerce o poder, na região e no país. Os utentes dos hospitais e dos centros de saúde públicos identificam e denunciam de amiúde as dificuldades no acesso, em tempo útil, e na qualidade do serviço prestados pelos organismos públicos que prestam cuidados de saúde, sejam eles primários, sejam de outra natureza, reconhecendo que as insuficiências verificadas não se devem aos diferentes profissionais, mas ao modelo organizacional, às prioridades políticas e ao desinvestimento nos serviços públicos. Mas se os utentes manifestam o seu desagrado também os profissionais de saúde pública o fazem, tendo como efeito prático, mais visível, o abandono dos serviços. (...)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

o dia D de Assange

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Amanhã, 20 de fevereiro, terá lugar a apreciação, pelo Tribunal Superior de Justiça de Londres, de um novo recurso do jornalista australiano contra sua extradição para os Estados Unidos. 

Mas quem é Julian Assange e quais são os crimes de é acusado!? É um jornalista de nacionalidade australiana e os EUA acusam-no de espionagem e de divulgação de informação classificada obtida de forma ilegal.

É um jornalista e mostrou ao Mundo a verdade que os Estados Unidos escondiam, em particular sobre as intervenções no Iraque e no Afeganistão.

Amanhã, um pouco por todo o Mundo, há mesma hora em que os juízes se reúnem para decidir do recurso de Assange estão previstos vários atos públicos de apoio ao jornalista e a exigência da sua libertação. 

Aníbal C. Pires, Arranhó, 19 de fevereiro de 2024

domingo, 18 de fevereiro de 2024

(...) um jardim quase perfeito. (...)

“O Alfarrabista de Ponta Delgada” é uma narrativa construída a duas vozes em geografias e tempos diferentes.


«(…) Provocava-o: Porque não voas, Avelino? Aproximava-me, quase corpo a corpo, quando ele levantava a cabeça, dava-lhe um beijo. A ternura atarantava-o. Já longe, voltava-me, e via o meu amado a seguir-me com os olhos verdes, muito verdes, como os campos de Busteliberne. As mãos em concha ao redor da boca, para a palavras não se perderem no destino, gritava: “Voa Avelino. Voa para dentro do meu coração.” Um amor juvenil, doce, na extraordinária primavera, que tudo aviva, até as pedras da serra pareciam felizes no seu silêncio comunicante. (…)»


«(…) O Vento. Quem educa o vento terá um jardim quase perfeito. Educar não significa barrar-lhe o voo, uma sebe de pau branco ou louro açoriano resolveria o problema. Educar o vento é deixá-lo circular, limpo de bravuras, melodioso como um rouxinol. Trabalhando-o, ele ficará uma espécie de música. Falei uma vez do cultivo do vento ao proprietário do jardim, numa das suas passagens por S. Miguel, vindo de Paris. “Para poeta, basta-me o meu Camões”, disse.» (…)


«(…) Hei de voltar a esse sítio, quase mágico, onde julguei ser feliz, como se a juventude fosse infinita, onde beijei o único homem da minha vida. Eu não me casaria com o Avelino. Ele primeiro que eu, pressentiu: o nosso amor era como uma rabanada de vento, um capricho de Laurinha em tempo de férias. Por isso com a serenidade de quem escuta as penedias, disse para eu não voltar a procurá-lo. Nesse dia, Avelino olhou-me bem nos olhos, como se quisesse guardar a minha imagem no coração, e seguiu a falar ao rebanho e ao cão sem olhar para trás, sem nunca olhar para trás. (…)»


«Brown, meu bom amigo, não deixes cair os sonhos, mesmo que a teus pés a terra pareça fértil. Um jardineiro destituído de utopias desmerece a amizade das árvores, o canto dos pássaros sobre a manhã.»


Francisco Duarte Mangas brinda-nos com este romance que é, antes e depois de tudo, uma narrativa de singular beleza, mas também uma obra literária comprometida com as mulheres e homens de um país por construir. 


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

“O cheiro da tinta acalma-me,” …

 

“A Força das Sentenças” retrata uma dura realidade que afeta um número significativo de cidadãos e famílias. 

Este premiado romance de Pedro Almeida Maia, tendo como tema uma situação de doença irreversível não é, contudo, uma narrativa misericordiosa, poderá ser esclarecedora e até didática para quem cuida (família ou instituições), mas não assume, em momento algum, um caráter de comiseração nem induz, outros sentimentos, que não sejam de respeito por quem é vítima da doença e por quem cuida. 

A narrativa é crua e dura sem ser indiferente ao drama que se abateu sobre um reformado professor e homem de Letras que continua a escrever como terapia para retardar a evolução da doença.

“(…) Não faço a mínima ideia do porquê de estar aqui a sangrar letras, números e símbolos, só sei que ajuda. A mente deixa de mentir e o pânico descruza os braços, à procura da próxima vítima. Deixá-lo ir! (…)”

“(…) O cheiro da tinta acalma-me, o som da esfera a escorregar seduz-me, a imagem desta imensidão da folha vicia-me. E enquanto as linhas deslizam e se cruzam e se tocam e se beijam e se amam e se orgasmam, eu vivo mais um pouco. (…)”

A estrutura e a construção narrativa aliciam e a leitura flui como um rio para a foz.

“(…) A nossa mente não sabe o que é a felicidade, nem sequer do que necessitamos para ser felizes. É um estado de graça que só reconhecemos quando o habitamos. (…)”

Pedro Almeida Maia tinha este tesouro guardado, mas em boa hora lhe deu uso público.

Os leitores agradecem.


Aníbal C. Pires, Arranhó, 13 de fevereiro de 2024


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

o que mudou, ou não

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Os atos eleitorais têm como principal objetivo alterar os quadros políticos e parlamentares, mas sobretudo o rumo, ou assim deveria ser, das opções políticas do poder executivo assente em maiorias absolutas, em acordos de incidência parlamentar, ou como foi o caso de 2015 em acordos bilaterais de vários partidos (PCP, “Os Verdes” e o BE, com o PS). Com exceção deste último e concreto caso, pouco muda nos parlamentos portugueses (AR, ALRAA e ALRAM) e, por consequência, no poder executivo. As mudanças têm sido de protagonistas e não de políticas, por outro lado se atendermos à diversidade das representações verificam-se, substantivas, diferenças ainda que as agendas políticas dos partidos que foram ganhando assento parlamentar pouco, ou nada, tenham contribuído para que, o essencial, das opções se alterassem a favor dos trabalhadores e das populações. Satisfizeram-se clientelas segmentadas por reivindicações que em nada contribuíram para resolver o problema da exclusão, da pobreza, da precariedade, do desemprego, da produção nacional e dos micro, pequenos e médios empresários, da desertificação e promoveram a concentração da riqueza, isto para além de introduzirem na discussão política e mediática assuntos que, sendo importantes, não são prioritários para quem a grande luta diária é colocar pão na mesa para alimentar a família. 

Se considerarmos, apenas a Região Autónoma dos Açores, a situação é ainda mais gravosa. Para o comprovar basta atentar aos indicadores sociais e económicos, descodificá-los, procurar pelas razões (opções políticas) que lhe estão na origem e que a autonomia regional nunca quis ou soube resolver.

Houve um tempo em que, por força das responsabilidades políticas que detive, fazia as análises dos resultados eleitorais logo que eram conhecidos. Deixei de o fazer e, a norma tem sido evitar emitir opinião, no imediato, mas também depois de alguma reflexão. Desta vez vou quebrar a regra e tecer algumas considerações sobre as escolhas dos eleitores e o que daí adveio, mas também sobre eventuais cenários que possibilitem a formação do futuro governo, o seu significado e o que daí pode resultar para o futuro destas ilhas e deste povo.

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Os efeitos pós-eleitorais, que resultam das opções do voto popular, no quotidiano da generalidade das populações não tem sofrido alterações de monta e, face aos resultados eleitorais dos Açores, do passado domingo, não se afigura que ocorram melhorias, por outro lado “o dito por não dito” das promessas eleitorais e a prática do exercício do poder afastam os cidadãos do direito e dever do voto, esta não será a única variável que justifica o fenómeno da abstenção, mas tem a sua importância. Sim, é verdade. A abstenção inverteu a sua tendência e baixou (55% em 2020; 50% em 2024), num quadro de aumento do número de eleitores (mais 11mil), o que pode ser justificado, por um lado pela habitual bipolarização e, por outro pelo voto de protesto que se concentrou, no essencial, no partido liderado por José Pacheco, mas também pela diversificada oferta eleitoral que terá mobilizado alguns eleitores a ir às urnas e exercer o direito e o dever de votar.

A vitória da coligação PSD, CDS e PPM, como era expetável, foi “expressiva”, mais 5300 votos que a soma dos votos obtida pelos três partidos em 2020 e, o mesmo número de deputados, ou seja 26 (em 2020 o PSD elegeu 21, o CDS 3 e o PPM 2) ou seja, a vitória tem um sabor agridoce:  faltam 3 deputados para a maioria absoluta. Contas feitas o PSD, o CDS e o PPM, não têm razões para grande contentamento.

foto de Aníbal C. Pires
As eleições regionais antecipadas foram provocadas pelo chumbo do orçamento regional para 2024 e pelos jogos de bastidor de Marcelo Rebelo de Sousa. A interrupção da governação, por norma, beneficia o(s) partido(s) que foram apeados do poder e penaliza quem esteve na origem da abrupta descontinuidade governativa. Os resultados eleitorais das eleições açorianas não confirmam a norma. O PSD/CDS/PPM mantêm o número de deputados e os responsáveis locais pela queda do governo foram premiados pelos eleitores. A IL aumentou a sua base apoio eleitoral (mais 470 votos) e o Chega, este sim com uma subida assinalável, cresceu para 5 deputados e dobrou o número de votos, ou seja, os parceiros parlamentares que estiveram na origem da queda do governo regional foram beneficiados pelos eleitores.

Ainda antes de me referir a outros resultados importa dizer que este cenário implica, sempre, o necessário apoio do Chega para que a coligação de direita possa vir a manter-se no poder, isto se a opção, passar por formar um governo minoritário, pois, mesmo com o eventual apoio da IL (um deputado) e do PAN (um deputado) isso perfaz, apenas, vinte e oito deputados, faltando um para a maioria absoluta, de onde resulta que o Chega será sempre determinante na sobrevivência de um governo da coligação PSD/CDS/PPM, ou para a formação de uma coligação governamental alargada ao Chega. 

As declarações de José Manuel Bolieiro e de José Pacheco, na noite eleitoral, valem o que costumam valer: muito pouco; é por estes dias que tudo se irá resolver e encontrar justificações para que seja encontrada uma solução governativa, pois, não estou em crer que a coligação abdique do poder e, muito menos que o Chega queira desperdiçar o resultado que obteve e poderá, num outro cenário, não voltar a repetir-se. 

Sobre a gestão que o PSD/CDS/PPM irá fazer para formar governo com ou sem o Chega, abstenho-me de fazer qualquer comentário, embora considere que o PSD tem aqui, mais uma vez, uma situação muito delicada para gerir internamente. Quanto ao CDS e ao PPM é indiferente, desde logo, por não existirem enquanto partidos para além dos líderes e, por outro lado, pelo oportunismo político que os carateriza e da sua disponibilidade para tudo aceitar e não serem arredados do poder que, em 2020, lhes caiu no colo.

foto de Aníbal C. Pires

O PS aumentou o número de eleitores e perdeu dois deputados, sendo um resultado esperado, ou seja, perder as eleições para a coligação, não configura um afundamento eleitoral e, quiçá voltará a ter o maior grupo parlamentar na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, uma vez que os partidos da coligação constituirão os seus próprios grupos. A incapacidade do PS em se libertar do passado, não se ter assumido uma oposição forte e com um projeto alternativo, esperando, sem levantar muitas ondas, que o desgaste da solução governativa “arranjada” em 2020 se esboroasse eleitoralmente. O que, como se verificou, não veio a acontecer, aliás sem surpresa.

O resultado do BE não me surpreendeu. Perdeu um deputado e mais de mil votos. A inconsistência política deste agrupamento partidário e passado que foi o auge de resposta às agendas dos movimentos sociais inorgânicos, justifica o seu declínio eleitoral nos Açores.

Por fim algumas palavras sobre os resultados obtidos pela CDU (coligação PCP/PEV). Ao contrário do sempre anunciado e desejado não submergiu eleitoralmente, tendo mesmo aumentado ligeiramente o número de votos, ainda que não tivesse sido suficiente para a eleição de um deputado. 

A CDU é a terceira força política mais votada em quatro (Corvo, Flores, Faial e S. Jorge) das nove ilhas açorianas o que não é um dado de somenos importância e comprova uma dimensão regional que outros partidos não dispõem e que beneficiaram do voto urbano de Ponta Delgada para garantir a eleição de um deputado.

Passada a euforia da noite eleitoral e dos discursos inflamados abate-se a realidade sobre os vencedores e os perdedores e, afinal, o que mudou foi muito pouco. As mesmas forças políticas representadas na ALRAA. O PSD/CDS/PPM a depender de terceiros, politicamente pouco confiáveis, para sobreviver. A esperada continuidade das políticas que colocam em causa a sustentabilidade de um modelo de desenvolvimento inclusivo e de promoção do bem-estar para quem aqui reside e trabalha.

Ponta Delgada, 6 de fevereiro de 2024 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 7 de fevereiro de 2024

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

não foi o PSD, foi a coligação PSD/CDS/PPM

Quem ganhou as eleições na Região Autónoma dos Açores foi a coligação PSD/CDS/PPM, não foi o PSD.

Parece-me claro como água, mas vá-se lá saber em nome de que santinho a comunicação social e alguns comentadores vão dizendo, sem vergonha nenhuma, que o PSD venceu as eleições açorianas. 

Isto é mentir descaradamente, não é informar.

Que os dirigentes partidários da coligação PSD/CDS/PPM tentem, como fizeram com o chumbo do orçamento para 2024, responsabilizar o PS pela eventual, crise política que possa acontecer caso a coligação não chegue a acordo, parlamentar ou governativo, com o “basta”, até compreendo. 

Que esta posição seja assumida por comentadores da região e do país e por dirigentes políticos do próprio PS no continente, parece-me uma aberração, embora com propósitos claros.

O PS Açores fará o que muito bem entender, mas não me parece politicamente aceitável que seja da sua responsabilidade a viabilização de um governo da coligação PSD/CDS/PPM.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 6 de fevereiro de 2024


sem alternativa

foto de Aníbal C. Pires



Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos






(...) Ainda antes de me referir a outros resultados importa dizer que este cenário implica, sempre, o necessário apoio do Chega para que a coligação de direita possa vir a manter-se no poder, isto se a opção, passar por formar um governo minoritário, pois, mesmo com o eventual apoio da IL (um deputado) e do PAN (um deputado) isso perfaz, apenas, vinte e oito deputados, faltando um para a maioria absoluta, de onde resulta que o Chega será sempre determinante na sobrevivência de um governo da coligação PSD/CDS/PPM, ou para a formação de uma coligação governamental alargada ao Chega. (...)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

o dia seguinte

Conhecidos os resultados eleitorais das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores é hora de dar continuidade à luta que travamos quotidianamente e de preparar os novos atos eleitorais.

Não elegemos o deputado que poderia fazer a diferença, mas a nossa luta não se esgota nas batalhas eleitorais. Retomamos, já hoje, e todos os dias que se seguirão a este, como fazemos desde 1921, a luta pela Liberdade, pela Democracia e pelo Socialismo.






Mas hoje é também dia de agradecer a todos os candidatos da CDU que com determinação e coragem, é necessária muita, deram rosto e voz ao projeto político transformador que a CDU propõe para os Açores e para Portugal.





































Ao Durval, no Corvo; à Luísa, nas Flores; à Paula, no Faial, ao Salgado Almeida, em S. Jorge; ao Paulo, no Pico; à Joana, na Graciosa; ao Pedro, Terceira; ao Rui, em S. Miguel; e, à Ana, em Santa Maria; o devido reconhecimento pelo trabalho de contatos e esclarecimento que produziram durante a campanha eleitoral. Muito obrigado pelo contributo que deram e dão na luta pelos Açores e pelas suas gentes. Reconhecimento e agradecimento que estendo a todos os outros candidatos, ativistas, militantes, simpatizantes e eleitores da CDU.










Ao Henrique Levy, Mandatário Regional, e ao Marco Varela, Coordenador Regional
 do PCP, deixo um forte abraço e um agradecimento especial, pois, sem o vosso contributo, o mais visível e o que foi feito longe dos holofotes mediáticos, não teria sido possível a obtenção deste resultado, que não nos satisfaz, mas que não nos quebranta.

Obrigado!

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 5 de fevereiro de 2024