quarta-feira, 15 de junho de 2022

Decisões externas. Uma afronta à autonomia.

foto by Aníbal C. Pires

O Plano de Reestruturação do Grupo SATA chegou. Conheço apenas alguns contornos do plano que a Comissão Europeia, órgão sem legitimidade democrática, impõe à SATA, à Região e ao País, a troco da autorização de uma ajuda financeira de Estado. As reações não se fizeram esperar, por um lado os orgásmicos festejos liberais, não apenas da iniciativa, mas de todos os fiéis dos “Chicago boys”, estejam eles no PS, no PSD ou no CDS. Ao coro orgásmico juntaram-se, ainda os editorialistas e outros acólitos do neoliberalismo que pululam nas redações dos órgãos de comunicação social regional e nacional. Oh meu deus que bom, finalmente a iniciativa privada vai poder tomar de assalto mais esta empresa pública, como aconteceu com o BCA, os CTT, a ANA e um sem número de outras, com os resultados conhecidos. Mas, por outro lado, há também reações de preocupação quanto ao futuro dos transportes aéreos na e para a Região. Há quem se inquiete com o futuro da SATA se a reestruturação vier a ser concretizada nos moldes em que foi anunciada.

Os transportes aéreos são um poderoso e estratégico instrumento para o desenvolvimento dos Açores. Somos uma região insular, arquipelágica, distante dos centros de decisão, com uma reduzida dimensão populacional e territorial, diferentes da Madeira e, substantivamente diferentes das Canárias. Na região atlântica da Macaronésia assemelhamo-nos, quando muito, a Cabo Verde, veja-se o que aconteceu com o desmantelamento dos TACV e percebe-se que os cabo-verdianos e Cabo Verde em nada beneficiaram com o processo de reestruturação dos TACV.

imagem retirada da internet
A opinião pública regional foi sendo bombardeada com a ideia de que o Grupo SATA era (é) um imenso sorvedouro de dinheiros públicos, em particular a SATA Internacional, atualmente Azores Airlines, o que contribui para que as teses da liberalização e da privatização sejam genericamente aceites como boas. Mas será que é assim!? Sempre assim foi!? Sempre assim será!?

Não, nem sempre assim foi. Não é bem assim. E, não tem de ser assim. Até 2012 a situação financeira do Grupo SATA era estável e apresentava resultados positivos, em particular devido à atividade comercial da então SATA Internacional. A partir de 2012 e por obra e graça dos desmandos do Governo Regional do PS, quer pela imposição de rotas para garantir a sobrevivência da hotelaria e do turismo na Região, serviço da qual o Grupo SATA não foi ressarcido, quer pela alteração da estratégia comercial imposta à SATA Internacional/Azores Airlines, quer pelos efeitos da crise global, quer pelos devaneios e indecisões da renovação da frota. Ou seja, o Grupo SATA, e em particular a Azores Airlines entrou num período de défice de exploração, ainda que se deva à Azores Airlines a garantia de cash flow para suportar os encargos financeiros quotidianos do Grupo SATA. Ainda antes do período da pandemia era visível que o maior problema do Grupo SATA decorria dos encargos com a dívida. Dívida provocada por uma gestão leviana de sucessivas administrações, mas sobretudo pelas opções comerciais impostas pelos Governos Regionais que, como é do domínio público, contribuíram para a atual situação que se agravou com o lockdown provocado pela pandemia.

foto by Aníbal C. Pires

Os últimos Governos do PS deixaram pesada herança à Região e perceberam, já no final do último, mandato que o Grupo SATA tinha de ser reabilitado para poder cumprir o seu desiderato no contexto dos desígnios autonómicos. A nomeação de um novo Conselho de Administração, no final de 2019, e a alteração no relacionamento do representante do acionista (Governo Regional) com a nova administração comprova-o, ainda que passados 3 meses após a posse do Conselho de Administração os efeitos da pandemia se tivessem feito sentir. A manutenção, pelo atual Governo Regional, do Conselho de Administração do Grupo SATA foi, sem dúvida, uma excelente opção e o trabalho empresarial do Grupo tem vindo, como é público, a apresentar indicadores positivos. Subsiste, contudo, o problema: a dívida e os encargos que lhe estão associados.

Que o Grupo SATA necessita de uma injeção de capital, que o processo de reestruturação do Grupo SATA, encetado pelo atual Conselho de Administração, necessita de ser aprofundado e aperfeiçoado, são evidências. Que a Comissão Europeia imponha, a partir dos lúgubres gabinetes de Bruxelas, um Plano de Reestruturação, sem ter em devida conta as especificidades e necessidades da Região e desta pequena e periférica economia, não é aceitável.

Não deixa de ser paradoxal que a maioria dos indefetíveis do neoliberalismo e das virtualidades do mercado livre, a viverem o ambiente orgásmico com o Plano de Reestruturação do Grupo SATA, sejam, supostamente, os mais acérrimos defensores da autonomia regional e do seu aprofundamento, propondo alterações à Constituição, ao Estatuto, à Lei Eleitoral e ao que mais der jeito para justificar os fracassos da governação autonómica, aceitem, sem objeções, que um organismo externo, sem legitimidade democrática, diga aos açorianos como devem gerir o seu destino. Os limites autonómicos há muito que deixaram de ser traçados em Lisboa e passaram a ser delineados em Bruxelas. Quer se queira quer não, e, não há CEVERA que nos valha.

Ponta Delgada, 14 de junho de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de junho de 2022

terça-feira, 14 de junho de 2022

de Bruxelas para os Açores, com amor

foto by Aníbal C. Pires


Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.






(...) Não deixa de ser paradoxal que a maioria dos indefetíveis do neoliberalismo e das virtualidades do mercado livre, a viverem o ambiente orgásmico com o Plano de Reestruturação do Grupo SATA, sejam, supostamente, os mais acérrimos defensores da autonomia regional e do seu aprofundamento, propondo alterações à Constituição, ao Estatuto, à Lei Eleitoral e ao que mais der jeito para justificar os fracassos da governação autonómica, aceitem, sem objeções, que um organismo externo, sem legitimidade democrática, diga aos açorianos como devem gerir o seu destino. (...)

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Será o fim!?

foto by Aníbal C. Pires

Se o Plano de Reestruturação do Grupo SATA se vier a concretizar a Azores Airlines será parcialmente privatizada.


Se atentarmos ao posicionamento, pré-eleitoral, dos partidos da coligação que sustenta o Governo Regional dos Açores poderemos estar a chegar ao fim deste espúrio entendimento partidário.


Se nos lembrarmos da Resolução da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores n.º 21/2020/A de 19 de junho de 2020, proposta pelo PPM, aprovada, por maioria, com os votos favoráveis do PS, BE, PCP e PPM e com as abstenções do PSD e do CDS e da deputada independente Graça Silveira, ou seja, não houve votos contra.



foto by Aníbal C. Pires
Se nos lembrarmos que a aludida Resolução proposta pelo PPM: “Recomenda ao Governo Regional dos Açores que retire a autorização que concedeu à SATA Air Açores - Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, S. A., para alienar ações de parte do capital social da SATA Internacional - Azores Airlines, S. A.”

Se houver, o que não é certo, coerência e cumprimento dos compromissos eleitorais este poderá ser o ponto de rutura da coligação que sustenta o atual Governo Regional.

Será o fim

Se honra houver.

Aníbal C. Pires, Lisboa, 9 de junho de 2022


quinta-feira, 2 de junho de 2022

Incongruências

imagem retirada da internet
Os Estados Unidos e as suas dependências (também pode ser lido colónias) construíram um cenário de confrontação na Ucrânia, com a Rússia e a China, alicerçado em premissas erradas e, naturalmente, os efeitos que daí resultam estão a ser devastadores, desde logo para o povo ucraniano, mas para a União Europeia que, uma vez mais se ajoelhou perante a estratégia hegemónica dos Estados Unidos.

A opinião pública, atrevo-me a afirmar, continua a surfar a narrativa ocidental e a responsabilizar, em particular, a Rússia pelas consequências económicas e financeiras das opções dos seus governos e da Comissão Europeia, mas a hiperinflação e a escassez alimentar que se está a configurar, por muito que nos digam o contrário, é da responsabilidade dos Estados Unidos e da União Europeia. Vejamos o caso dos cereais.

As vias de entrada das armas ocidentais de ajuda à Ucrânia podem ser utilizadas para a saída dos tão desejados cereais ucranianos. O que coloca em causa a ideia “martelada” de que os russos não deixam que a Ucrânia exporte os seus cereais. Mais eficaz, para os russos, seria impedir a entrada de material bélico em território ucraniano. A saída de cereais ucranianos pelos portos do Mar Negro só não acontece em virtude de as águas circundantes ao porto de Odessa terem sido minadas pelas forças armadas ucranianas, ainda assim a Rússia está disponível para encontrar soluções que permitam a saída de cereais ucranianos por via marítima. Os fertilizantes e cereais russos estão, como se sabe, impedidos de serem adquiridos pelos países que impuseram sanções. A Rússia só não vende fertilizantes e cereais por lhe estar vedada essa possibilidade. Isto sou eu que digo que não percebo nada de import-export e muito menos de guerras, mas gosto de fazer alguma reflexão sobre o que leio e ouço na comunicação social.

imagem retirada da internet

Se com os cereais e, por conseguinte, a escassez anunciada nos mercados internacionais devido à intervenção russa na Ucrânia não será bem como nos dizem, aliás as questões da segurança alimentar mundial não decorrem diretamente deste conflito. As organizações mundiais já previam, ainda antes da pandemia, problemas com a escassez de alimentos e tinham identificado as razões que lhe estão na origem. Opções das políticas agrícolas de alguns países, mas também secas longas e severas, e, o uso indevido do solo. Sem querer retirar a importância que tem, pode afirmar-se com segurança, que o conflito na Ucrânia é apenas parte de um problema mundial que, há muito, urge por decisões que garantam a segurança alimentar dos habitantes do planeta.

A propaganda já não consegue esconder os paradoxos da narrativa estado-unidense e dos seus acólitos. Atente-se às questões energéticas e aos discursos incongruentes da senhora presidente da Comissão Europeia. Sanções à Rússia sim, mas gás e o petróleo temos de continuar a comprar, pois, não existem, para já, alternativas. A Rússia vende, mas o pagamento tem de ser em rublos uma vez que as sanções financeiras impostas assim o exigem. Não pagamos em rublos, diz a União Europeia, ainda que a decisão não tenha sido unânime, mas pagam ainda que para isso tenham encontrado um esquema que não infringe, segundo os próprios, as sanções financeiras impostas à Rússia.

imagem retirada da internet
As sanções económicas e financeiras e o esforço militar estão, sem dúvida, a afetar a economia russa, mas os países que as decretaram estão visivelmente em pior situação e a tendência é de agravamento. A União Europeia depende da Rússia e o inverso não se verifica. A tentativa de isolamento da Rússia foi um fracasso, desde logo, pela dependência da União Europeia, mas, sobretudo, pela procura, com sucesso, de novos mercados e alianças por parte da Rússia e pelo facto, nada despiciente, da maioria dos países do mundo não terem acompanhado a chamada “comunidade internacional” nas sanções à Rússia.

O sistema financeiro mundial sofreu igualmente um revés, o dólar tem-se desvalorizado em relação ao rublo face à procura internacional da moeda russa. Em fevereiro 1 dólar valia 134 rublos, por estes dias 1 dólar vale menos de 60 rublos e o euro tem-se desvalorizado face ao dólar.

O guião mediático e o rodopio de personalidades do mundo do espetáculo, mas também político, que têm passado por Kiev já não são suficientes para esconder o fracasso das políticas ocidentais, por outro lado, a digressão mediática de Volodymyr Zelensky, por parlamentos e festivais, tem servido, a momentos, para a opinião pública europeia se aperceber das fragilidades do argumento, para europeu ver, construído pelos Estados Unidos. Hollywood já não é o que era.

Quem entrou na “Sala de Espera” e se manteve até aqui já me apelidou, no mínimo, de putinista. Eu direi que o facto de ser, como sabem, comunista, é incompatível com qualquer simpatia política pelo atual presidente da Rússia. O que ficou registado são factos que me preocupam e que partilho com os frequentadores deste espaço, não pretendo mais do que se reflita sobre uma série de eventos paradoxais que colocam em causa a nossa segurança e bem-estar. Apenas isso!

Ponta Delgada, 31 de maio de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de junho de 2022

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Shireen Abu Akleh - a abrir junho





Shireen Abu Akleh, jornalista palestiniana da Al Jazeera. Mais uma das vítimas das forças de ocupação israelitas durante a cobertura de um ataque israelita ao campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia.









Shireen Abu Akleh estava devidamente identificada com a palavra “press”, no capacete e no colete anti bala que a deviam proteger.


terça-feira, 31 de maio de 2022

incompatibilidades

Aníbal C. Pires by Catarina Pires




Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) Quem entrou na “Sala de Espera” e se manteve até aqui já me apelidou, no mínimo, de putinista. Eu direi que o facto de ser, como sabem, comunista, é incompatível com qualquer simpatia política pelo atual presidente da Rússia. O que ficou registado são factos que me preocupam e que partilho com os frequentadores deste espaço, não pretendo mais do que se reflita sobre uma série de eventos paradoxais que colocam em causa a nossa segurança e bem-estar. Apenas isso! (...)

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Cognitive Warfare (guerra cognitiva)

Aníbal C. Pires by Paulo R. Cabral

Sou bem-humorado e, como todos, ou quase todos, os bem-dispostos sou um otimista. Bem sei, para a generalidade dos cidadãos, os que se recordam da minha intervenção pública, não será bem esta a imagem que têm de mim, mas quem priva comigo pode testemunhar a meu favor e confirmar que assim é. 

Ser otimista e bem-humorado não é sinónimo de ser, ou estar na vida de forma leviana e irresponsável. Conciliar o humor e o otimismo com a verticalidade, a responsabilidade e a participação cidadã, tem sido, é, e continuará a ser a minha forma de estar na vida. Uma vez mais conto com as pessoas que comigo privam, não são muitas, mas constituem uma amostra qualitativa da qual me orgulho, para o confirmar.

O leitor estará perplexo com o que acabou de ler. Tem razão, mas eu também. Tudo tem uma razão até os parágrafos anteriores como se procurará demonstrar.

Sendo, como disse, uma pessoa otimista e bem-humorada estou com algumas dificuldades em continuar a sê-lo. O mundo, ao qual geograficamente pertenço, está num processo de negação dos valores civilizacionais que eu julgava estarem consolidados. 

As instituições da União Europeia e os governos dos estados-membros estão a destruir o que restava dos princípios e valores “europeus” construídos no pós II Guerra Mundial e a arrastarem os seus povos para uma crise social, económica e política sem precedentes.

Não posso dizer que me surpreende, pois, os sinais da regressão há muito se manifestavam sob as mais diversas formas, mas fui mantendo sempre uma chama de esperança. A chama não se extinguiu, mas a energia para a manter viva começa a escassear. 

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O que já chegou ao fim foi a paciência para compactuar com o revisionismo histórico e com o processo de estupidificação em curso. Não se entenda esta afirmação como uma declaração de rendição, não é. O que está a acontecer é uma mudança na minha atitude tolerante e conciliadora ou para que não subsistam dúvidas, estou a radicalizar-me. O que significa, tão somente, que vou procurar a raiz dos problemas, denunciá-los e combatê-los. Já o fazia antes, agora é tempo de radicalizar o discurso.

O termo radical tem sido injustamente diabolizado, pois, ser radical é estar bem enraizado nos princípios, nos valores. E eu estou, cada vez mais, radicalmente comprometido com o direito dos povos à liberdade e à diferença, radicalmente comprometido na luta contra a uniformização dos costumes e do pensamento. 

As tentativas de manipular e induzir ilusões são antigas e foram-se aprimorando, dos procedimentos dos primórdios da propaganda, aperfeiçoada por Goebbels, passando pela “guerra psicológica”, aqui entendida como um conjunto de técnicas usadas para influenciar, sem o uso da força, os valores, crenças, emoções, motivações e raciocínio, que pretende induzir mudança de comportamento numa população alvo, até à “guerra híbrida” que agrega um conjunto de variáveis, como sejam, a guerra convencional, a ciberguerra, a diplomacia, lawfare (manobras jurídico-legais), desinformação, fake news, false flags, ou a moderna “guerra cognitiva” que vai mais além do condicionamento do que pensamos, o objetivo é mais ousado a “guerra cognitiva” pretende alterar a forma como pensamos. A população alvo da “guerra cognitiva” é todo o capital humano de uma nação, ou nações, podemos até generalizar dizendo que somos todos nós. O objetivo é claro, a manipulação e o domínio sobre o pensamento. Nada que não esteja já em marcha, mas que pode evoluir para níveis de eficácia preocupantes. E tudo isto com o avale dos países da União Europeia.

imagem retirada da internet

O leitor quando entrou nesta “Sala de Espera” não estaria à espera destas divagações e, se aqui chegou, já estará a pensar que eu tenho assistido a muitos filmes de ficção científica e que agora estou a desenvolver uma qualquer teoria da conspiração. Asseguro-lhe que não. O conceito de “guerra cognitiva” ou, “cognitive warfare”, e o seu desenvolvimento pode ser encontrado no estudo de François du Clouzel, militar retirado de origem francesa. O estudo publicado e tornado público em 2020 é claro nos objetivos, nos meios a utilizar, nos alvos e, esta será a novidade, introduz um sexto domínio de guerra, o domínio humano. Talvez não seja uma novidade, o que há de novo é a assunção de que o objetivo da “guerra cognitiva” visa alterar a forma como pensamos, o que significa elevar o condicionamento do pensamento para um patamar superior.

Caro frequentador da “Sala de Espera”, julgo que estão justificados os primeiros parágrafos deste texto, como fundamentado está o meu descrédito nas instituições da União Europeia e nos governos dos estados-membros. Na “guerra cognitiva” seremos alvos, mas também soldados armados com os nossos telemóveis inteligentes ampliando realidades paralelas. Ou já o estaremos a fazer!!?? 

Ponta Delgada, 17 de maio de 2022

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 18 de maio de 2022

factos são factos

imagem retirada da internet
Chegou-me hoje, através de mão amiga, o convite do Grupo Parlamentar do PPM, para uma conferência de imprensa, na delegação da ALRAA da ilha Terceira, no próximo dia 19 de maio (amanhã).

O convite não é naturalmente para mim, dirige-se aos OCS. Não sendo meu hábito referir-me aos convites dos partidos, organizações ou instituições para as suas conferências de imprensa, quando muito, a ter alguma coisa a opinar, isso acontece posteriormente e em função do que foi comunicado publicamente. Mas a forma, a linguagem utilizada no convite e a finalidade merecem já, uma ou outra consideração. Sei que é um risco, mas a vida é, naturalmente, arriscada. Vamos a isto.

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A conferência de imprensa do Deputado Paulo Estêvão, segundo o convite dirigido aos OCS é: “a respeito da campanha de manipulação que o médico Salgado, os comunistas e os socialistas montaram a respeito da pressuposta expulsão do referido médico da ilha do Corvo.”

A formulação é de vitimização, ou seja, na opinião do Deputado Paulo Estêvão existe uma cabala construída à volta de uma suposição que, por mero acaso é falsa. 

A suposição é falsa por que o médico não foi expulso, foi exonerado da Presidência da Unidade de Saúde de Ilha, por outro lado e, segundo o próprio António Salgado, em declarações públicas, não está em causa a sua permanência como médico na Unidade de Saúde do Corvo, o apoio popular que lhe foi manifestado levou-o a decidir ficar e não pedir a mobilidade para outra ilha.

Quanto à existência de uma cabala sou até capaz de perceber as razões que levam o Deputado Paulo Estêvão a dizê-lo, dá-lhe jeito para se vitimizar e tentar inverter o foco de um problema que ele próprio criou. Os cidadãos, o visado e os partidos políticos reagiram e tomaram posição. É a democracia a funcionar, apenas isso. 

Chamar campanha de manipulação à expressão genuína da maioria dos corvinos que se manifestaram contra a exoneração de António Salgado da Presidência do CA da Unidade de Saúde de Ilha é, menosprezar a vontade e a livre expressão dos corvinos. Corvinos de diferentes quadrantes políticos e partidários que manifestaram o seu desagrado pela exoneração do Dr. António Salgado, mas também pela nomeação do Dr. Paulo Margato para o cargo de Presidente do CA da Unidade de Saúde de Ilha.

O Governo Regional tem toda a legitimidade para nomear e exonerar os Presidentes dos CA das Unidades de Ilha, mas os cidadãos têm igual direito de se manifestar contra as exonerações e as nomeações e, neste caso, os cidadãos, pelas caraterísticas da própria ilha, perceberam as razões desta dança das cadeiras e não aceitaram de ânimo leve.

O Deputado Paulo Estêvão, de momento, conta apenas com o apoio dos seus indefetíveis protegidos, posso até imaginar a lufa-lufa do líder regional do PPM à procura de apoios para sair deste imbróglio em que se meteu. Já deve ter dados várias voltas a Vila do Corvo para angariar apoios e sair do seu já reduzido círculo de apoiantes.

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A tentativa de vitimização do Deputado Paulo Estêvão é uma evidência. A forma e o conteúdo utilizado no convite aos OCS, para a Conferência de Imprensa, indiciam uma posição de derrota argumentativa, ou seja, ao referir-se a António Salgado como “(…) o médico Salgado (…)”, numa clara tentativa de menorização e até enxovalhamento, mas também a utilização da expressão “(…) os comunistas e os socialistas (…), que só acontece numa tentativa desesperada de procurar apoios com recurso à linguagem populista utilizada quando faltam argumentos para desconstruir os factos que caraterizam este escândalo político.

E os factos são:

- exoneração o Dr. António Salgado com base em pressupostos que não se verificam, ou seja, 6 dos 7 trabalhadores da Unidade de Saúde subscreveram apoio ao Dr. António Salgado e exigem que este continue a exercer as funções das quais foi exonerado;

- eventuais desentendimentos no seio do Conselho de Administração da Unidade de Saúde, se é que existiam, reduziam-se a uma vogal do CA. Vogal que foi para o Corvo para assumir essa função nomeada pelo Governo Regional; e

- o timing da nomeação do Dr. Paulo Margato para Presidente do CA deixou claro que o afastamento do Dr. António Salgado não está ancorado em problemas internos no funcionamento da Unidade de Saúde de ilha, nem em eventuais desentendimentos no seio do CA, mas na necessidade de vacatura do cargo para a entrada de um compagnon de route do Deputado Paulo Estêvão.

Bem pode o deputado do PPM e a tutela da saúde na Região desdobrarem-se em justificações, vitimizações e utilização do fantasma da cabala que as evidências são o que são, e ninguém, mesmo os indefetíveis do PPM, têm dúvidas que este escândalo político teve um protagonista, o Deputado Paulo Estêvão, uma vítima, o Dr. António Salgado e um beneficiário, o Dr. Paulo Margato.

O Presidente do Governo Regional, como é habitual, encontra-se em retiro espiritual.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 18 de maio de 2022


terça-feira, 17 de maio de 2022

das dificuldades para encarar o futuro com otimismo

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação na imprensa regional (Diário Insular) e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Sendo, como disse, uma pessoa otimista e bem-humorada estou com algumas dificuldades em continuar a sê-lo. O mundo, ao qual geograficamente pertenço, está num processo de negação dos valores civilizacionais que eu julgava estarem consolidados. 

As instituições da União Europeia e os governos dos estados-membros estão a destruir o que restava dos princípios e valores “europeus” construídos no pós II Guerra Mundial e a arrastarem os seus povos para uma crise social, económica e política sem precedentes. (...)


sábado, 14 de maio de 2022

claro como água cristalina

Paulo Margato - imagem retirada da internet
O Governo Regional dos Açores está cativo dos interesses e das agendas políticas e pessoais de um conjunto de cidadãos e organizações. 

A afirmação anterior não constitui uma novidade e, o cidadão comum, simpatize ou não com esta fórmula de governo, tem plena consciência de que assim é.

Este texto vai ser já concluído, afinal a questão sobre a qual me preparava para dissertar foi clarificada. 

A nomeação do Dr. Paulo Margato para Presidente do Conselho de Administração da Unidade de Saúde da ilha do Corvo é, em si mesmo, esclarecedora do tema.

Nem o Secretário Regional da Saúde e Desporto, nem o deputado Paulo Estêvão, terão necessidade de vir justificar o que quer que seja. Já todos percebemos as razões da exoneração do Dr. António Salgado.

O Presidente do Governo Regional, como é habitual, encontra-se em retiro espiritual.

Este texto fica por aqui, o assunto não. 

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 13 de maio de 2022