sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O conflito social na SATA não determina uma decisão, apenas a pode antecipar

Foto by Aníbal C. Pires (algures no Atlântico Norte, 2016)
Não sei qual vai ser o futuro do Grupo SATA, mas a sua privatização está, há muito, na agenda política. Quem seguiu com atenção a campanha eleitoral para as eleições regionais de 2016, percebeu-o. Quer o PS, quer o PSD foram claros. Ainda ontem Duarte Freitas veio reforçar esta ideia.
Sim à privatização parcial, solução idêntica à da Elétrica Regional (EDA), resta saber se os potenciais investidores (e existem) desejam essa solução ou, vão querem absorver a totalidade do capital social.
Por outro lado, no famigerado “Plano de Negócios”, estava e está prevista a diversificação do capital social, em 2017. É claro que aqui o ano de 2017 é um mero indicativo pois, como todos percebemos, a calendarização foi apenas um indicativo, nada que tivesse sido para cumprir. E diversificação do capital só tem um sinónimo, privatização.
Há sempre por aí quem defenda que se for capital regional, então venha lá a privatização. Mas não vai ser capital regional, embora possa vir a parecer. Quem na Região poderia assumir esse investimento ainda está a recuperar das perdas provocadas pelo colapso financeiro de alguns bancos, por acaso privados.

Foto by Aníbal C. Pires (Aeroporto do Faial)
Na Região e fora dela também se defende e até se reza para que seja a TAP a entrar no capital social do Grupo SATA, também não me parece que seja por aí que passe a solução, embora a TAP, enquanto concorrente da SATA, esteja diretamente interessada no fim da Azores Airlines e está bom de ver por quê. A Azores Airlines tem algumas rotas bem interessantes e saindo do mercado esse espaço será, naturalmente, ocupado pela TAP. A TAP seria a grande beneficiária de uma eventual extinção da Azores Airlines, situação que não me parece se venha a verificar. Outros interessados no fim da Azores Airlines, existem. A Ryanair certamente, mas não só.
Este texto não passa de uma mera análise ancorada em indicadores que estão à vista de todos. Não tenho informação privilegiada, mas não é difícil ler os sinais.
A prevista privatização parcial ou total do Grupo SATA da qual se fará depender a subsistência da Azores Airlines passará ao lado da TAP e do capital privado regional, o que não significa que alguns testas de ferro não o tentem, afinal a maioria do capital da TAP é privado e ligado à indústria da aviação comercial e nestes negócios há quem se dispunha a tudo.
Há, no entanto, uma outra questão que tem sido objeto de vários escritos na imprensa regional e nas redes sociais que merecem ser desconstruídos.
Não é a luta dos tripulantes de cabine, liderada pelo seu sindicato, nem foram as lutas dos trabalhadores do Grupo SATA, de todos os setores, que antecederam a presente luta que conduziram a SATA para a difícil situação que atualmente vive. Não a culpa não é dos trabalhadores, isso mesmo foi apurado na Comissão de Inquérito que a ALRAA realizou na passada legislatura. A responsabilidade vai diretamente para o representante do acionista, ou seja, para o Governo Regional e para as soluções que os anteriores Conselhos de Administração apresentaram, mas que foram validadas pelo Governo Regional, algumas até com pompa e circunstância. Salvaguardo, como se percebe, a gestão do Eng Paulo Menezes porque quando tomou nas suas mãos o leme do Grupo SATA dificilmente lhe poderia corrigir o rumo, embora o tenha tentado e julgo eu, ainda não tenha desistido, mas está sozinho e tem as empresas do Grupo minadas por pequenos poderes internos e externos.

Foto by Aníbal C. Pires (Ponta Delgada, 2017)
E não são, nem os salários, nem os direitos dos trabalhadores da SATA que colocam em causa a subsistência das empresas do Grupo. Aliás é fácil de apurar o valor das perdas de receita por opções do acionista. Opções que nunca seriam as opções puramente empresariais.
O último estudo que conheço sobre os custos do trabalho, colocava o Grupo SATA atrás da TAP e esta atrás da Ryanair e da Easyjet. O problema é que a rentabilidade por trabalhador é igualmente mais baixa e pela mesma ordem, isto é, a rentabilidade é menor na SATA e na TAP do que na Ryanair e na Easyjet. E isto não é um problema criado pelos trabalhadores, é um problema de gestão dos recursos humanos disponíveis, da dimensão da operação e das suas características.
A designação de “coveiros da SATA”, escrita num diário micaelense, numa alusão direta aos tripulantes de cabine é abusiva e carece de rigor. Isto não significa que, como disse noutros textos, não existam trabalhadores, de todos os setores do Grupo, que estão alinhados, e desejem mesmo, a privatização parcial ou total do Grupo SATA, se estão ou não ao serviço de interesses externos ao interesse público, a história o dirá.

Foto by Aníbal C. Pires (aeroporto de Santa Maria)
A luta dos tripulantes de cabine é justa. Julgo que sim, infelizmente a comunicação sindical não tem sido a melhor até porque não assume publicamente e de forma explícita que uma das reivindicações, quiçá a que provoca maior resistência por parte da Administração, se relaciona com compensações ao rendimento. Ou melhor, à reposição de rendimento. Se a fórmula e o momento são os mais apropriados já é uma outra questão, mas o garrote imposto em sucessivos Orçamentos de Estado tem de ser ultrapassado e os trabalhadores da administração pública e do setor empresarial público têm o direito a lutar por essas reposições de rendimento, bem assim como pelo seu aumento.

A luta dos tripulantes de cabine pode precipitar uma decisão, mas apenas a antecipa, não a determina.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Agosto de 2017

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Privatizações e gestão privada, o caso do BCA

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires
A opinião divergente é salutar quando os argumentos são devidamente fundamentados, se assim não for nem sequer vale a pena o diálogo. Quando esbarramos com opinião ancorada nos lugares comuns, na ignorância, ou alicerçada em argumentação regurgitada tendo como base a opinião dominante, mas fabricada por agressivas e prolongadas campanhas de intoxicação. Não vale a pena, mas lamento. Lamento constatar que um tão grande número de cidadãos, alguns até com formação superior e, quase todos, beneficiários da ascensão social e económica que resultou daquilo que hoje tanto abominam, não sejam capazes de discernir o que é o interesse público e o que é manipulação a favor de um modelo ideológico e económico que está na origem da crise. Crise que os afeta, como me afeta a mim e como afeta quase todos, dizem até que os afetados por tão virtuoso modelo ideológico e económico são 99% da população mundial, não sei. Mas talvez sejam.
Vou socorrer-me apenas de um exemplo bem conhecido do povo açoriano para vossa reflexão sobre as virtualidades das privatizações e da gestão privada.
Ao contrário do que por aí, recentemente, vi afirmado em defesa da privatização das empresas públicas, o Banco Comercial dos Açores (BCA) não foi privatizado para injetar capital na EDA e na SATA. A eventual transferência de receitas públicas obtidas pela privatização de empresas públicas para o setor empresarial público (regional ou nacional) é uma decorrência da lei.

O BCA foi privatizado, na década de 90, por opção política dos chamados partidos do arco do poder, apenas isso. Podia até fazer o enquadramento histórico e político que está na origem da opção de privatizar tudo o que é público, que no nosso país, como é habitual, demorou mais tempo do que noutros países europeus, mas dispenso-me disso, aliás o processo continua em curso, como está bom de ver.
Com a privatização do BCA a região perdeu. Perdeu o instrumento financeiro, fala-se agora por aí na necessidade de criar um banco regional, o que diz bem da falta que o BCA fez (faz) à Região, mas perdeu também uma fonte de receita. O BCA não era deficitário.
Enquanto se manteve como entidade própria o BANIF Açores (ex BCA), ainda contribuía com alguns impostos para a receita da Região, mas foi sol de pouca dura pois a opção do grupo BANIF foi de acabar com o esse apêndice e absorvê-lo. O que teve como significado que os impostos cobrados deixaram de ser receita da Região.
Quanto às virtualidades da gestão privada fica apenas uma pergunta. O que é feito do BANIF e porquê. Afinal são duas as perguntas e os lesados, foram lesados por quem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A privataria ronda o Grupo SATA

Uma das empresas do Grupo SATA, tal como a conhecemos, pode estar perto do fim. Quando esse evento vier a acontecer produzirá efeitos nas restantes empresas do Grupo. Uma das consequências será a privatização parcial ou total.
Privatização que para muitos setores da sociedade açoriana e para alguns dirigentes políticos e partidários regionais é, a solução. Solução que recolhe apoios nos mais diversos setores da sociedade açoriana e fora dela, e pela qual os abutres, internos e externos, tão ansiosamente aguardam.

E os trabalhadores do Grupo SATA o que pensam disto, todos os trabalhadores, não apenas os que de momento mantêm um diferendo com a administração e o representante do acionista. Alguns trabalhadores concordam com a privatização, Não tenho dúvidas, mas esses são a minoria e estão ao serviço, consciente ou inconscientemente, dos abutres neoliberais.
O que me preocupa é a inércia da generalidade dos trabalhadores sobre o cenário que está a ser construído para o Grupo SATA, o seu empregador.

Numa breve análise para as empresas públicas que foram sendo privatizadas facilmente se constata que os trabalhadores dessas empresas não beneficiaram da privatização. Nem os trabalhadores nem os utentes. 

Aconteceram despedimentos, desregulação das relações laborais, aumento da precariedade, diminuição do rendimento e uma clara degradação da qualidade do serviço que prestam.

Se é isto que querem, Então deixem-se estar quietos e sossegados no conforto do sofá que alguém vos anda a tratar do futuro. Mas não vai ser bom pois, como é fácil de verificar, quando não somos nós a determinar o que queremos para o futuro e ficamos à espera que outros tratem, a coisa não corre lá muito bem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Agosto de 2017

O justo equilíbrio

Foto by Aníbal C. Pires
Temos sentimentos que nos alegram ou entristecem e, provocam-nos bem ou mal-estar consoante a sua natureza.
Os sentimentos induzem o pensamento e o comportamento. Por outro lado, as emoções são, segundo alguns pensadores, uma forma radicalizada que os sentimentos podem assumir.
E o que é levado ao extremo pode induzir comportamentos irracionais. Todos temos consciência, uns mais outros menos, de comportamentos ilógicos. Todos, de uma forma mais ou menos intensa, já nos comportámos fora do que seria desejável e benéfico para nós, ou seja, fomos irracionais. A emoção sobrepôs-se a outros fatores que deveriam ter mediado a ação e, por consequência o comportamento.
Não interessa tanto se os outros assim o observaram, embora os outros também devam ser considerados, afinal não vivemos sozinhos mesmo que possamos não ser muito sociáveis ou que, pura e simplesmente, os outros, não nos importem. O que levado ao extremo pode resultar por escolher ficar à margem, optar pela autoexclusão.
Não tenho nada contra os eremitas, até admiro a sua capacidade de viverem sós e afastados, ou pelo menos, reduzindo as suas relações sociais ao essencial, mas não a considero uma decisão razoável para mim, embora passe muito tempo comigo mesmo.

Foto by Aníbal C. Pires
Ir atrás das emoções pode ser caótico. As emoções afastam a racionalidade do comportamento. Racionalidade que sendo, no meu dicionário de sinónimos, calculismo, frieza e insensibilidade, ou mesmo a ausência de sentimentos, não pode, porém, deixar de ser considerada num dos pratos da balança quanto determinamos o que fazer, o que dizer, ou como optar. No outro prato da balança deve estar, sempre, a emoção.
É no justo equilíbrio entre a razão e a emoção que se encontram as melhores decisões, sejam as decisões do momento, sejam as decisões que afetam de forma irreversível o nosso futuro.
Tenham sentimentos e não corram atrás das emoções.
Apaixonem-se. Mas amem-se, sobretudo, amem-se.

Aníbal C. Pires, 14 de Agosto de 2017

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Inês, o ouro e a luta das mulheres




Os portugueses puderam exultar com a vitória da Inês Henriques nos mundiais de atletismo que se disputaram recentemente, em Londres. A Inês foi primeira entre as primeiras e bateu o recorde mundial dos 50 km marcha.
Primeira entre as primeiras porque esta era uma prova reservada apenas aos homens.



(…) Queria estar aqui para ser a primeira e demonstrar o que nós podemos fazer. Outras mulheres também se revoltaram com o que a IAAF estava a fazer para termos direito à nossa prova. (…)

Inês Henriques

Isto, só por si, já diz bem de que fibra é feita esta mulher.

(…) A minha mãe sempre fez tudo o que os homens faziam. O que eu fiz hoje foi muito duro, mas o que a minha mãe faz todos os dias é muito mais duro. (…)

Inês Henriques

E se dúvidas houvesse esta última frase diz bem da consciência social que a Inês tem. Fala da mãe, fala das mulheres e das suas lutas pela dignidade e igualdade.

Parabéns Inês, Parabéns por tudo.

domingo, 13 de agosto de 2017

Agora não. Amanhã, talvez

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2016) by Madalena Pires







Este texto é, ainda um draft. É, também, o início, uma parte de um projeto em construção que pode, ou não, vir a ganhar volume e a ser dado à estampa. Quiçá.










Assim como uma espécie de prólogo

Numa das muitas entrevistas para a imprensa, rádio e jornais em que foi o sujeito, perguntaram-lhe, Alguma vez se sentiu ou foi prejudicado pela sua opção ideológica e partidária. A resposta saiu pronta e limpa, NÃO. Ele sabia que a pergunta não era inocente e, segundo as suas próprias palavras, estava de alguma forma à espera daquela questão.

Sete Cidades - Foto by Aníbal C. Pires
Há uns dias num dos recantos paradisíacos deste arquipélago abençoado por Deus, para quem nele acredita, ou pela mãe Natureza como eu prefiro dizer pois, não creio em divindades, e, onde a amena cavaqueira pode tomar rumos diversos, confessou-me que aquilo que tinha afiançado com tanta firmeza, não era verdade.
A resposta é, SIM. Sim fui prejudicado. Então porquê aquele perentório NÃO, perguntei-lhe. Coloquei a questão sem esperar que a resposta, conhecendo-o bem e sabendo que é uma pessoa reservada naquilo que a si diz respeito, não viesse eivada de subterfúgios, ou mesmo que dele obtivesse uma não resposta. Mas, para surpresa minha, assim não aconteceu e, talvez por ser Verão, respondeu de forma clara e objetiva, tal como tinha respondido NÃO durante aquela entrevista.
Se eu tivesse respondido Sim, como era esperado pelos jornalistas que me entrevistaram, a entrevista que não era pessoal, eu estava ali a representar uma organização, passaria a centrar-se num tema que podendo ser importante para mim, não era relevante para cumprir o objetivo a que me propunha e ao que era esperado por quem eu estava a representar, ou seja, a partir daí, se eu tivesse respondido Sim, as questões que me seriam colocadas passavam para o domínio do acessório e o essencial passaria para segundo plano.
Podes até, diz-me ele, considerar que optei pelo politicamente correto ou que tive medo, podes ajuizar como muito bem entenderes, mas o verdadeiro motivo foi aquele que acabo de te dizer e que nunca o tinha referido a ninguém, aliás, também como já te disse, estava à espera da pergunta o que facilitou aquele categórico NÃO.

Foto by Madalena Pires
Sabes, diz-me ele, temos de nos preparar para todos os cenários e, ainda assim, nem sempre se consegue que tudo nos corra de feição, mas correrá sempre mal se não nos preparamos antes das entrevistas, ou mesmo quando se trata de fazer pequenas declarações à comunicação social, tantas e tantas vezes em cima do acontecimento. É sempre bom escolher as palavras e tentar não ser dirigido pelos nossos interlocutores. Bem, esta premissa, como por certo concordarás comigo, aplica-se não só a esse contexto, mas a outros cenários. Não foi este o caso pois, como pudeste constatar não estou a fugir às tuas questões e nunca me passou pela cabeça, quando me convidaste para vir até aqui, que a nossa conversa viesse a tomar este rumo.
Percebi perfeitamente, porque o conheço e porque conheço, ainda que, superficialmente o funcionamento da organização política a que pertence desde a sua juventude. Sentindo que ele, talvez pelo cenário idílico, pelo calor do Verão ou pela confiança que em mim deposita, estava com disponibilidade para falar, ganhei coragem e atrevi-me a continuar.
Ouve lá, Sabia, não precisava sequer que o confirmasses que, de uma forma ou outra, as tuas opções ideológicas, podendo deixar-te bem contigo mesmo, te prejudicaram ao longo da vida, mas em determinado momento foi claro que alguém o fez de forma deliberada, pôs o teu bom nome em causa e atingiu direta ou colateralmente, como quiseres entender, um familiar teu. O que estranhei e, como eu, certamente, muitas outras pessoas que te conhecem, e que não duvidam da tua integridade moral e política, o que estranhei foi que não tivesses vindo a terreiro defender-te e esclarecer a opinião pública, Porquê. Por que te remeteste ao silêncio.
Quando acabei, embora tivesse sido breve, estava com o suor a correr pelas costas e, não era do calor. Para lhe colocar, sem rodeios, esta questão foi preciso alguma coragem. Quem o conhece sabe que ele é afável, simpático e bem-humorado, mas também sabe que há questões sobre as quais ele não fala e se o tentam encurralar pode tornar-se num adversário temível.
Claro que enquanto lhe fiz a pergunta não deixei de olhar para ele, não só por uma questão da urbanidade que ele tanto cultiva, e eu também, mas sobretudo porque era importante ler os sinais corporais que ele ia, ou não, transmitir. Ele sorria ainda que do seu olhar transbordassem um misto de sentimentos e algumas emoções antagónicas cujo espetro ia da tristeza à raiva, raiva que não chegava a ser ódio e vi, no seu olhar, a deceção. Sorrindo, respondeu.

Foto by Madalena Pires
E falou como eu nunca o tinha ouvido falar, falou de si, das suas angústias, dos seus sonhos, os sonhos que se cumpriram, os sonhos que continuam por cumprir, mas dos quais não abdica. E, com lágrimas que de quando em vez lhe afloravam aos olhos, falou dos sonhos que sabe não poder ver realizados, sonhos que se perderam no tempo, ou porque o tempo, o seu tempo, é finito.
Queres mesmo saber, Pois bem. Pede aí mais uma imperial e uns amendoins, e, presta atenção. Não só te vou dizer por que não vim a terreiro, mas também quem é que me tentou foder a vida.
Estupefacto perguntei, Sabes quem foi. Claro que sei, Sei quem foram os autores, sei quem foi o mensageiro, sei quem foi instrumentalizado, sei quem foram os lacaios que deram corpo à difamação e, sobretudo, sei qual foi o objetivo que esteve associado a esta trama, que como verás, tem requintes de malvadez, diria mesmo que tem contornos maquiavélicos.
A tarde prolongou-se até noite dentro, muitas outras tardes e noites se lhe seguiram. Partilhou comigo mais do que alguma vez julguei ser possível, mas como ele próprio diz nem tudo pode ser contado. Agora não, Amanhã talvez.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 12 de Agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pedras talhadas

Foto by Aníbal C. Pires
Calçada calcada

Pedras polidas
Por passos sem fim
Em calmos passeios
E agitadas correrias

São pedras talhadas
Pela mão do pedreiro
Com detalhe organizadas
P’la mestria do calceteiro

São caminhos
Calcados
No corre que corre
Da minha cidade

Mas, os teus passos
Não ferem as pedras
São como uma carícia
Na arte do obreiro







Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 08 de Agosto de 2017

… do bom senso que nem sempre é comum

Foto by Madalena Pires

A generalização, quando não constitui uma mera abstração, pode tornar-se um instrumento de padronização e, no extremo, de alimento do preconceito. Quando assim é, e é-o muitas vezes, a generalização pode conformar-se num instrumento de indução massivo de ideias que deturpam a realidade e, sobretudo, fere o respeito pela diferença e pela singularidade, que a vulgarização, por ser uma generalização, não considera.

A particularização é redutora da perceção da realidade global. Atender somente ao particular, sem contextualizar pode ser (é) tão pernicioso como a generalização que não salvaguarda o que é peculiar.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada 11 de Agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A conflitualidade social no Grupo SATA 1

Foto by Aníbal C. Pires
Sobre o diferendo laboral que persiste entre o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) (tripulantes de cabine) e a Administração da SATA muito se tem dito e escrito. Mas, nem todas as abordagens vão ao fundo da questão, aliás em minha opinião a comunicação oficial sobre o assunto não é, de todo, clara. E refiro-me, designadamente, à comunicação que o SNPVAC tem feito no espaço público regional e nacional, sendo que o mesmo se poderá dizer da Administração da SATA. Cada qual terá as suas motivações para que paire sobre o assunto alguma nebulosidade, fenómeno que tantas vezes está na origem do cancelamento de voos, quer sejam da SATA, quer de outra qualquer companhia de transporte aéreo. Compreendo que os processos negociais não devem ser expostos na praça pública, mas também não é isso que estou a afirmar ou, enquanto cidadão, a exigir. O que se exige é alguma transparência, nada mais do que isso.
Não sendo especialista, nem em aviação, nem em gestão, nem na mediação de conflitos, tenho, no entanto, alguma opinião, enquanto cidadão, sobre este desacordo que levou à realização de 2 greves durante o primeiro semestre de 2017 e às anunciadas greves, às assistências/voos extraordinários, com início a 11 de Agosto, e ao que julgo, sem fim anunciado, e a greve de 23 a 26 de Agosto. E tem sido esta última a que mais atenção tem despertado por parte da opinião pública e publicada. Se bem que chame sobre si a principal atenção, não será esta, mas sim a greve às assistências/voos extraordinários que maior penalização, vindo a consumar-se[1], infligirá à SATA. Posso explicar mais tarde, mas julgo que não é difícil de perceber por que faço esta afirmação.
Foto by Aníbal C. Pires
Por razões diversas desde 2012 que acompanho de perto a atividade ligada aos transportes aéreos e, em particular, tudo ao que ao Grupo SATA diz respeito, o que não me torna um especialista como atrás referi, mas que me confere algum conhecimento sobre o Grupo SATA, o seu funcionamento e a suas potencialidades e fragilidades, bem assim como sobre as opções, ou não opções, do Grupo para resolver questões, algumas crónicas, outras resultantes da alteração do paradigma do transporte aéreo, desde logo no espaço europeu, mas sobretudo na Região, sendo que este último tem de ser tomado na devida consideração quando se analisa o diferendo que opõe o SNPVAC à SATA, como todas as outras questões que se colocam, no presente e, no futuro próximo ao Grupo SATA.
Sobre a luta do pessoal de voo/tripulante de cabine são conhecidas algumas  das reivindicações dos trabalhadores, ainda que outras careçam de melhor clarificação pois, não quero crer que a greve se vá realizar, como pude constatar ao ler um artigo de hoje (9 de Agosto) por, motivos, de entre outros, como estes:
- “constatar as reiteradas falhas de gestão que existem na SATA, todas derivadas da falta de experiência de quem dirige os destinos da Empresa e consequentemente, das erradas opções estratégicas que foram tidas”.
- “esconder o também enviado Pré-Aviso de greve, que se inicia no próximo dia 11 de Agosto”, que diz respeito à “recusa dos tripulantes de aceitarem serviços de voo extraordinários que não cumpram com o estipulado em Acordo de Empresa”.
- “a nossa maior exigência prende-se com a necessidade de uma gestão profissional que permita à SATA regressar aos patamares de excelência que já teve. Uma boa gestão também terminaria com a necessidade de greves, pois, com certeza, esta iria ser cumpridora da Lei e dos Acordos de Empresa, ao mesmo tempo que respeitaria tanto Trabalhadores como Passageiros”.
Não serão estes os motivos. Não acredito. Sem beliscar toda a legitimidade que SNPVAC tem para se pronunciar sobre a estratégia e a comunicação do Grupo SATA, que emprega muitos dos seus associados.
Parece-me, porém, que esta é uma situação que difere substantivamente da que se viveu no Grupo SATA durante o ano de 2013, onde também algumas destas questões se levantaram, mas que não eram o cerne das reivindicações como, certamente, as não são em 2017. E era útil que fossem tornadas públicas pois, para mim fica difícil defender a luta dos tripulantes de cabine da SATA não conhecendo, com rigor, as suas reivindicações.

Foto by Aníbal C. Pires
O ano de 2013 em que os trabalhadores do Grupo SATA unidos numa ampla frente sindical conseguiram, com a sua luta, fazer valer os seus direitos, à semelhança do que tinha acontecido, sem conflito, com os trabalhadores da TAP.
Importaria, também, que a Administração da SATA viesse a público dizer, sem neblinas, aquilo que já satisfez no memorando das reivindicações do SPVAC e o que de todo não pode satisfazer e, sobretudo, por que as não pode, ou não quer satisfazer.
O tema é vasto e, sobretudo, complexo. Voltarei ao assunto nos próximos dias, mas não me vou embora sem deixar de reforçar a ideia de que, em 2013, não só o quadro da luta era diferente. Diferente era, também, o modelo de transporte aéreo e as Obrigações de Serviço Público, o que significa que o desfecho deste diferendo pode configurar, há indícios reais de que assim seja, um quadro bem diferente e do qual ninguém sairá a ganhar, ou melhor, se houver vencedores será/serão a(s) empresa(s) concorrentes com a Azores Airlines e os detratores das empresas públicas. Digo eu que não sou especialista em coisa nenhuma, mas vou fazendo alguma reflexão sobre este e outros assuntos.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 09 de Agosto de 2017



[1] Ao que julgo saber a greve às assistências terá sido já desconvocada. Fica em jeito de nota de rodapé pois o texto foi escrito ontem, 9 de Agosto.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Esta gente, essa gente

Foto by Aníbal C. Pires (Havana, Maio de 2005)







"Nós somos o que sabemos querer" 

José Marti










A libertação pela descoberta que só o saber e a cultura proporcionam ou, a submissão por essa gente que não sente como a gente.
É disto que nos fala o poema no vídeo abaixo. Digo eu que sinto como a gente que tem dente.