quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Um aparente consenso

Imagem retirada da internet
Mário Fortuna, em representação dos empresários regionais, congratulou-se com as medidas anunciadas, pelo Governo Regional, de reestruturação do Setor Público Empresarial Regional (SPER). Face a esta posição de apoio de Mário Fortuna é caso para Sérgio Ávila e Vasco Cordeiro se questionarem: O que estaremos a fazer de tão errado para merecer o apoio de um dos mais influentes mentores regionais do neoliberalismo económico?
Embora em relação à Associação de Turismos dos Açores (ATA), e na sequência da pergunta de um jornalista, se perceba o que espera o sector privado. Segundo Mário Fortuna, um indefetível das virtualidades do mercado, a saída de capitais públicos da ATA (quer as participações da Região, quer as do Grupo SATA), deixa esta associação sem financiamento e só com a celebração de um contrato programa de médio longo prazo é possível a assunção desta organização pelos privados. Nem mais, a ATA para o domínio privado sim, mas com o necessário financiamento público para continuar a divulgar o destino Açores e a celebrar contratos, aos milhões, com transportadoras aéreas privadas de baixo custo.
Mas o apoio a este anúncio do Governo Regional é mais ou menos generalizado entre os parceiros sociais, ainda que com críticas consoante o interesse político imediato ou mais refletido conforme a matriz ideológica onde se enquadram.
Os trabalhadores e os sindicatos estão preocupados com a manutenção dos postos de trabalho, alguns partidos concordam com parte das decisões anunciadas, discordam de outras e, até consideram que se fica aquém daquilo que seria desejável, outros focam-se no que afirmam ser a fuga para a frente do Governo Regional e do PS agora que a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), potestativamente, criou uma Comissão Eventual de Inquérito para avaliar o estado do SPER, ou ainda que o Governo Regional navega sem rumo.
Imagem retirada da internet
O PS Açores diz que a decisão resulta do crescimento económico e da atual robustez do sector privado regional, ou seja, a Região pode retirar-se que o mercado resolve. Resolve o quê, A SaúdeAçor regressa à barriga da mãe, bem assim como a SPRHI, de onde nunca deviam ter saído, quanto ao resto com exceção da alienação de 49% da Azores Airlines, pouco interessará ao sector privado, a não ser, como no caso da ATA, que o orçamento regional continue a financiar a sua atividade. Mas esta reestruturação fica aquém do que seria necessário. Empresas públicas como a Azorina, a SDEA ou as Ilhas de Valor deveriam, tal como vai acontecer com a Saúdeaçor e a SPRHI, deviam ser extintas e integradas nos departamentos governamentais de onde nunca deviam ter saído.
Esta decisão do Governo Regional, com as suas insuficiências, vem dar razão a quem sempre defendeu que a criação de empresas públicas como a Saúdeaçor, a SPRHI, a Azorina, as Ilhas de Valor e a SDEA, de entre outras, serviram para que o Governo Regional se demitisse das suas responsabilidades políticas, em áreas tão importantes como a saúde, o ambiente, a coesão e a atração de investimento, bem assim como ao controle democrático da ALRAA. Por outro lado, algumas das medidas anunciadas pecam por tardias e refletem o grau de autismo político que tem caraterizado o PS Açores, desde o limiar do milénio. Foi agora, mas as oposições, com objetivos diferentes, já há muito que o exigiam. Esta pitoresca prática do PS Açores chega a ser politicamente ridícula. Alguns episódios parlamentares que caricaturam esta prática, de ignorar, desvalorizar e chumbar as iniciativas das oposições, para mais tarde assumir como sendo suas, são bem exemplificativos de uma perigosa deriva autoritária que se tem vindo perigosamente a manifestar na incapacidade de diálogo e numa crescente arrogância política do PS Açores.
O consenso, aparente diria eu, que se gerou à volta deste anúncio do Governo Regional necessita de uma avaliação mais detalhada que deve ser patrocinada, desde logo, pelos partidos políticos com assento parlamentar. Subsistem, porém, algumas dúvidas sobre a legitimidade democrática desta decisão do Governo Regional que os eleitores, em particular os cidadãos que deram o seu apoio eleitoral ao PS Açores, devem procurar esclarecer junto do PS e do Governo Regional. Estas medidas, agora anunciadas, não constavam do programa eleitoral que foi sufragado. É certo que a medida 2, do objetivo 4, do capítulo 1.2, do programa eleitoral do PS Açores, se refere concretamente à definição de estratégias, e consequente concretização, do processo de alienação das participações no SPER. Mas não é menos verdade que o PS Açores, durante a campanha eleitoral, sempre fugiu a este debate.
Ponta Delgada, 27 de Fevereiro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 28 de Fevereiro de 2018

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

... privatizar sim, mas

Foto by Madalena Pires, 2017





Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional e também aqui, no momentos





(...) Embora em relação à Associação de Turismos dos Açores (ATA), e na sequência da pergunta de um jornalista, se perceba o que espera o sector privado. Segundo Mário Fortuna, um indefetível das virtualidades do mercado, a saída de capitais públicos da ATA (quer as participações da Região, quer as do Grupo SATA), deixa esta associação sem financiamento e só com a celebração de um contrato programa de médio longo prazo é possível a assunção desta organização pelos privados. Nem mais, a ATA para o domínio privado sim, mas com o necessário financiamento público para continuar a divulgar o destino Açores e a celebrar contratos, aos milhões, com transportadoras aéreas privadas de baixo custo. (...)

Não é tão raro assim

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Quanto maior for a desgraça maior é a prosperidade. E o negócio floresce. Os Estados, nem todos, delegam em organizações não governamentais(ONG) as ajudas aos cidadãos e povos que por um motivo ou outro são vítimas. Vítimas de cataclismos naturais, vítimas da própria ação política que produz desigualdades, fome, pobreza, subdesenvolvimento.
A Organização das Nações Unidas através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento(PNUD) tem sido claro sobre esta questão, por um lado a insuficiência do financiamento para a cooperação e, por outro lado sobre a forma como a cooperação é implementada pois, mais de metade dos fundos públicos que lhe são afetos não chegam aos destinatários, ou seja, são consumidos pelas organizações nas quais se delegam os projetos de cooperação, ou as missões humanitárias.
Esta constatação do PNUD aplica-se à generalidade das respostas da solidariedade internacional em caso de catástrofes naturais e aos programas de cooperação para o desenvolvimento.
Se é verdade que alguns indicadores sofreram melhorias, não é menos verdade que os Objetivos do Milénio(OM) aprovados em 2000 e com o horizonte de 2015 ficaram por cumprir. As desigualdades acentuaram-se e até a sua geografia se alterou. Não pretendo deixar a ideia de que os OM não foram importantes, Foram, e conseguiram-se alguns avanços devido a esse compromisso internacional, mas à equação continuam a faltar algumas variáveis e outras são subvertidas pelas organizações a quem é atribuída a competência para implementar os programas de cooperação para o desenvolvimento, ou às missões humanitárias.
Esta espécie de introdução ao tema pretende chegar a uma recente notícia que não chegou a fazer manchetes e depressa desapareceu das páginas e écrans das corporações mediáticas.
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A OXFAM Internacional, ONG fundada nos anos 60 em Inglaterra, foi uma das muitas organizações que acudiram ao Haiti após o violento terramoto, de 12 de Janeiro de 2010, que vitimou cerca de 300 mil pessoas e afetou mais de 3 milhões.
Não foi a primeira vez que a OXFAM foi notícia pelos piores motivos. Em 2006 no Chade o chefe da missão tinha sido acusado de conduta imprópria sem que os responsáveis pela OXFAM tivessem agido, ou melhor a sua ação foi de branqueamento sobre o sucedido. E foi o mesmo colaborador a quem tinha sido imputada uma conduta imprópria no Chade que chefiou a missão desta organização inglesa no Haiti.
O chefe da missão da OXFAM em Port-au-Prince, Haiti, alugou uma casa e transformou-a num bordel de prostitutas jovens - algumas delas alegadamente menores de idades - a quem se pedia, durante as festas que mais pareciam “orgias dignas de Calígula”, em referência ao imperador romano de quem se dizia muito apreciar ajuntamentos dessa natureza, que usassem t-shirts da organização não-governamental. Foi assim que o The Times e o Expresso online deram recentemente a notícia, embora estes acontecimentos datem de 2011.
Do mesmo modo que soube o que se passou no Chade, a organização também soube o que se passou no Haiti e abriu uma investigação interna que levou a que quatro trabalhadores fossem despedidos e a que três apresentassem a sua demissão, entre os quais o individuo que chefiou a missão no Chade e no Haiti, que, entretanto, transitou para uma outra ONG.
Ainda segundo as mesmas fontes depois da denúncia ter chegado à opinião pública Penny Lawrence, diretora-geral adjunta da ONG britânica, assumiu a sua demissão e confessou que, de facto, a organização estava a par do que acontecera no Chade, não tendo tomado as medidas adequadas. “Tenho vergonha de que isso tenho acontecido sob a minha supervisão e assumo toda a responsabilidade”, disse ainda a diretora, pedindo desculpas pelos “danos e angústia causados a quem apoia a OXFAM” e às “pessoas vulneráveis” que foram afetadas.
A OXFAM tem um apoio anual do governo inglês de 31 milhões de libras, cerca de 35 milhões de euros, e representa cerca de ¼ do valor afetado pela Inglaterra à ajuda externa.
Nem todas as ONG utilizam desta forma os dinheiros públicos e privados, seria injusta uma generalização.
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O ator Sean Penn fundou a J/P Haitian Relief Organization(J/P HRO) cuja filosofia e ação nada têm a ver com o comportamento da OXFAM e é da mais elementar justiça reconhecê-lo.
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Nem todos os Estados delegam competências em ONGs, Cuba que já tinha equipas médicas no Haiti antes do terramoto de 2010 reforçou a sua presença e o seu papel foi, e é reconhecido pelas Nações Unidas, aliás como se verificou com a intervenção das equipas medicas cubanas em África aquando da última epidemia do vírus ébola (2014) e que a Organização Mundial da Saúde louvou como um gesto sem precedentes.
A indevida utilização de fundos públicos e privados por ONGs não é uma singularidade portuguesa. Situações como a da OXFAM, ainda que de natureza diferente, não são tão raras assim e, muitas vezes as ONG são utilizadas para atingir objetivos pouco nobres, sejam elas financiadas por dinheiros públicos ou privados.
Ponta Delgada, 25 de Fevereiro de 2018


Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 26 de Fevereiro de 2018

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

... da economia da desgraça alheia

Foto by Madalena Pires








Excerto de texto a publicar na imprensa regional e no blogue momentos









(...) Quanto maior for a desgraça maior é a prosperidade. E o negócio floresce. Os Estados, nem todos, delegam em organizações não governamentais(ONG) as ajudas aos cidadãos e povos que por um motivo ou outro são vítimas. Vítimas de cataclismos naturais, vítimas da própria ação política que produz desigualdades, fome, pobreza, subdesenvolvimento.
A Organização das Nações Unidas através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento(PNUD) tem sido claro sobre esta questão, por um lado a insuficiência do financiamento para a cooperação e, por outro lado sobre a forma como a cooperação é implementada pois, mais de metade dos fundos públicos que lhe são afetos não chegam aos destinatários, ou seja, são consumidos pelas organizações nas quais se delegam os projetos de cooperação, ou as missões humanitárias. (...)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

O terceiro setor - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires




Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 16 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui








O terceiro setor

Não gosto de vir a terreiro sem antes deixar maturar os factos e avaliar as diferentes análises, fazer a minha reflexão e, depois sim, partilho a minha opinião. Opinião na qual procuro deixar espaço para que quem me lê ou ouve, como é o seu caso, se sinta parte e construa a sua própria opinião.
Noutros tempos e no exercício de outras funções tinha de o fazer. A resposta tinha de ser dada em cima do acontecimento. Nunca me agradou, mas era isso que de mim se esperava, e fazia-o. Agora não e, sempre que possível, em todas as situações da minha vida pessoal e pública sigo a velha máxima de que o tempo é bom conselheiro. E não me tenho dado mal.
Não sendo habitual, diria mesmo que é raríssimo, mas esta semana vou quebrar o princípio, pois o momento social e político está ao rubro com uma IPSS nacional, mas a forma como a questão tem sido abordada situa-se ao nível do acessório. Não estou a dizer que não é grave. É grave, concordo consigo, é gravíssimo. E infelizmente não é raro, nem é periférico da governação como um responsável político por aí afirmou. É frequente e representa a demissão do Estado, o Estado não faz, delega e financia com o seu, com o nosso dinheiro.
Mas os contornos das notícias e a focalização nos aspetos mais execráveis da ex-presidente da Raríssimas e da devassa da vida privada de alguns personagens próximos daquela dirigente afastam a discussão do que julgo ser o essencial. Essa é a principal razão porque hoje abri mais uma exceção.
As IPSS, na generalidade das situações, desenvolvem atividades que cabem ao Estado. Mas o Estado em nome de uma cultura dominante de redução do seu papel transfere competências e financiamento para entidades do domínio privado. Subjacente a esta prática está o pressuposto que esse princípio é mais barato e eficaz porque a gestão privada rentabiliza os recursos e a gestão pública é uma fonte de desperdício. Nada de mais errado.

Foto by Aníbal C. Pires
Não é nem mais barato, nem mais eficaz. O Estado reduz os seus funcionários na área da saúde, da assistência social, da educação e por aí adiante e, assim, satisfaz o princípio do menos Estado melhor Estado defendido pela teologia neoliberal. Mas quem paga a fatura é sempre o Estado e, por vezes, paga mais, paga muito mais do que se mantivesse os serviços públicos dotados com recursos humanos e financeiros para responder às necessidades de apoio social, de saúde e de educação.
Existem, de facto, algumas diferenças entre ser o Estado, ou as entidades do domínio privado a assegurar serviços da chamada solidariedade social, aliás esta atividade substitutiva do Estado assume a designação de terceiro setor, ou seja, a denominação sociológica com que se designam as iniciativas privadas de utilidade pública com origem na sociedade civil, sendo que nesta lógica o primeiro setor é o público (Estado), e o segundo setor é o privado (o mercado). Isto segundo uma corrente de pensamento construída no pressuposto da falência do Estado social na necessidade e possibilidade da coexistência, em paridade, destes três setores. Premissa com a qual não concordo. Os efeitos conhecidos são suficientes para justificar a minha discordância.
Mas falava de diferenças, pois bem uma das mais importantes é a origem do financiamento público ao terceiro setor. A fonte de financiamento é o Orçamento da Segurança Social, isso mesmo são as suas contribuições e as contribuições do seu empregador para a segurança social que são a principal fonte de financiamento. Pensava que era do Orçamento Geral do Estado, Não, não é. O financiamento é do Orçamento da Segurança Social.
O que quer dizer que o dinheiro que desconta para a segurança social e que se destina a protegê-lo na doença, em situações de desemprego e, claro está para pagar a sua pensão de reforma, é esse dinheiro, o seu dinheiro, que financia a Raríssimas e todo o terceiro setor.
Como já percebeu uma das razões da existência do fator de sustentabilidade da segurança social, que este ano era de 13,8%, mas para o próximo ano será de 14,5%, e a idade da aposentação se vai, a cada ano, dilatando, em 2018 será mais um mês. Ou seja, para si não há dinheiro para lhe pagarem uma pensão de reforma digna e, numa idade em que ainda a possa usufruir por um tempo prolongado de merecido descanso pela sua vida de trabalho, mas para o terceiro setor, para a Raríssimas e tantas e tantas outras não falta financiamento público à custa das suas contribuições para a segurança social.
Tenha um bom dia.
Eu volto no próximo sábado para estar consigo.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Dezembro de 2017

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Notícias vindas de fora

Foto Madalena Pires
O dia está luminoso, a temperatura amena, uma brisa suave sopra do quadrante Sul e o mar reflete um tranquilo azul. Ninguém diria que ainda estamos no Inverno, mas amanhã é bem possível que o cenário deste dia idílico se transforme e, a chuva, o vento e o frio venham acinzentar o dia e a vida. Eu gosto dos dias assim. Sim, dos dias cinzentos de brumas e dos dias plenos de luz a refletir o azul tranquilo do mar e do céu e, a exibir uma luxuriante abundância de verdes a escoarem-se pelas encostas escarpadas sobranceiras às fajãs ou, a trepar pelas vertentes dos picos e caldeiras onde repousam antigos vulcões e lendas submersas nas águas das lagoas.
A contemplação do naturalmente belo é um lenitivo para a alma, mas nem só destas mercês são feitos os dias, nem eu me posso dar ao luxo de ficar a usufruir dos dias assim, sejam plenos de luz ou de neblinas a entrar pela soleira da porta.
Bem que gostava de fazer do meu tempo aquilo que me der na real gana, mas não posso. Alguém, num tempo não muito longínquo, se encarregou de me subtrair um direito que constava no clausulado do meu contrato de trabalho como servidor público. Afinal o Estado não é uma pessoa de bem. O Estado pela mão de quem o tem representado alterou as regras e não me perguntou se eu estava de acordo, e eu não estava, Nem estou. E por não estar continuo disponível para lutar pelo que me foi furtado, disponível como sempre estive para travar outros combates pela dignidade e valorização da carreira docente, disponível como sempre estive para lutar pela dignidade e valorização de quem trabalha.
Foto Aníbal C. Pires
Chegam boas notícias de França, idade da reforma foi reposta nos 60 anos de idade. Que dirão os indefetíveis defensores do projeto europeu, na França sim, em Portugal nem por isso. E eu diria que não são indefetíveis, São subservientes, vivem de cócoras e com a mão estendida.
Boas notícias, não há muito tempo, chegaram da Alemanha. Os trabalhadores da indústria conquistaram aumentos de 4,3% e uma redução no seu horário de trabalho. Não, não foi para 35 horas, foi para 28 horas semanais, mas na Auto Europa o patrão alemão não quer saber e tem por cá fieis aliados dispostos a vender, por baixo custo, os trabalhadores portugueses daquela empresa alemã.
A valorização dos salários, a redução dos horários de trabalho e a antecipação da idade da reforma para os 60 anos têm, inequivocamente, efeitos positivos na economia e no bem-estar social, desde logo no rejuvenescimento da população ativa, na diminuição do desemprego e no aumento do consumo.
Em Portugal as insípidas medidas que foram implementadas depois de 2015, reposição parcial de direitos e rendimentos, foram suficientes para que o desemprego diminuísse significativamente e que o crescimento económico atingisse valores impensáveis há algum tempo atrás, ainda assim há quem sonhe com o passado recente nem que seja sob a forma de um tal bloco central.
Ponta Delgada, 19 de Fevereiro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 21 de Fevereiro de 2018

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

... do desacordo

Foto by Madalena Pires (2017)





Excerto de texto a publicar na imprensa regional e no blogue momentos






(...) Eu gosto dos dias assim. Sim, dos dias cinzentos de brumas e dos dias plenos de luz a refletir o azul tranquilo do mar e do céu e, a exibir uma luxuriante abundância de verdes a escoarem-se pelas encostas escarpadas sobranceiras às fajãs ou, a trepar pelas vertentes dos picos e caldeiras onde repousam antigos vulcões e lendas submersas nas águas das lagoas.
A contemplação do naturalmente belo é um lenitivo para a alma, mas nem só destas mercês são feitos os dias, nem eu me posso dar ao luxo de ficar a usufruir dos dias assim, sejam plenos de luz ou de neblinas a entrar pela soleira da porta. 
Bem que gostava de fazer do meu tempo aquilo que me der na real gana, mas não posso. Alguém, num tempo não muito longínquo, se encarregou de me subtrair um direito que constava no clausulado do meu contrato de trabalho como servidor público. Afinal o Estado não é uma pessoa de bem. O Estado pela mão de quem o tem representado alterou as regras e não me perguntou se eu estava de acordo, e eu não estava, Nem estou. (...)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Foi incontornável

Imagem retirada da Internet
O Sporting e o PSD foram naturalmente protagonistas, o passado fim de semana, de grande mediatismo. A cobertura jornalística das reuniões magnas do clube e do partido, assim o exigiam.
Não sou adepto do Sporting nem me interesso particularmente pelo futebol, também não tenho nenhuma simpatia pelo PSD, mas não me é indiferente o que se passa e pensa num partido que tem aspirações a vir a ser, de novo, poder em Portugal.
Tudo o que vier a dizer neste escrito não tem como objetivo imiscuir-me na vida interna, nem do Sporting, nem do PSD, mas a verdade é que como qualquer outro cidadão fui mediaticamente bombardeado com estes dois eventos e, por mais que tentasse não consegui alhear-me destas importantes realizações, de onde resulta a legitimidade, que outras razões não houvesse, para tecer algumas considerações sobre aspetos destes marcantes acontecimentos para a vida nacional. Não estou a ser irónico, estas duas organizações podem não ser importantes para mim, mas são-no para milhares, pronto vá lá, para milhões de portugueses, e esse facto não é despiciendo.
Não decorrendo do que foi dito recentemente, já tinha esta opinião, preocupa-me que estas duas organizações tenham, no caso do Sporting a liderar, e no caso do PSD um líder cessante, duas personalidades que apresentam claros sintomas de graves patologias do foro psíquico. E se esta opinião vem de longe os discursos deste fim de semana reforçam a ideia que Bruno de Carvalho e Passos Coelho têm uma visão distorcida da realidade que os rodeia. Mas não é tanto os desequilíbrios que um e outro apresentam que me preocupa. Preocupante é a multidão de seguidores que os ouve, que os aplaude, que os continua a endeusar. Talvez seja eu que tenha uma leitura enviesada da realidade que observo, Talvez. Mas tenho esta mania de não ir atrás de rebanhos e de não crer em deuses.
No caso do Sporting o facto mais relevante e espúrio, para além de Bruno de Carvalho continuar a reunir um apoio largamente maioritário dos sportinguistas, foi a decisão de boicote à comunicação social, decisão ancorada no suposto achincalhamento público do Sporting promovido pelos jornais, rádios e televisões. Esta proposta de Bruno de Carvalho já começou a produzir efeitos e o próprio Diretor de Comunicação do clube já alargou o âmbito, Nem nas redes sociais.
Que Bruno de Carvalho não perceba que o seu comportamento e discurso constituem, em si mesmo, o motivo da ridicularização do Sporting, Entende-se. Que não exista numa organização com a tradição e historial do Sporting alguém que seja capaz de por cobro aos dislates de Bruno de Carvalho é muito preocupante. Por outro lado, não perceber que uma organização como o Sporting necessita, numa sociedade mediatizada, como de pão para a boca da comunicação social é, perdoem-me os sportinguistas, uma estupidez.
Imagem retirada da Internet 
Quanto ao PSD pouco há a dizer. São as punhaladas, as querelas intestinas, a busca de um lugar ao Sol, as negações, até tu Santana Lopes, são as palavras de circunstância sobre um projeto político vazio de conteúdo, o que não significa que não tenha serventia e amos.
Mas aquela inenarrável figura que subiu à tribuna para passar o testemunho a Rui Rio. Esse mesmo, o senhor que dá pelo nome de Passos Coelho e continua com pose de grande estadista. O discurso dessa personalidade merece uma ou duas notas. Primeiro porque insiste que enquanto primeiro-ministro fez um bom trabalho, depois porque ainda não deglutiu os factos que comprovam o contrário, ou melhor assume-se como responsável pelos indicadores sociais e económicos que resultaram, nem mais nem menos, da rutura com as suas opções políticas. Passos Coelho insiste que salvou o país, insiste que as respostas do seu Governo tinham como prioridade as pessoas. Insiste e insiste num processo que já nem sequer é de autoconvencimento, o homem acredita mesmo naquilo, e isso é grave, e isto é preocupante pois, ao que se diz por aí, Passos Coelho vai ser professor no ensino superior, De quê, não sei. Mas uma tão multifacetada personalidade julgar-se-á apta a lecionar o que quer que seja. 
Ponta Delgada, 18 de Fevereiro de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 19 de Fevereiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

... do rídiculo

Foto by Madalena Pires







Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional e também aqui, no momentos









(...) No caso do Sporting o facto mais relevante e espúrio, para além de Bruno de Carvalho continuar a reunir um apoio largamente maioritário dos sportinguistas, foi a decisão de boicote à comunicação social, decisão ancorada no suposto achincalhamento público do Sporting promovido pelos jornais, rádios e televisões. Esta proposta de Bruno de Carvalho já começou a produzir efeitos e o próprio Diretor de Comunicação do clube já alargou o âmbito, Nem nas redes sociais. 
Que Bruno de Carvalho não perceba que o seu comportamento e discurso constituem, em si mesmo, o motivo da ridicularização do Sporting, Entende-se. Que não exista numa organização com a tradição e historial do Sporting alguém que seja capaz de por cobro aos dislates de Bruno de Carvalho é muito preocupante. Por outro lado, não perceber que uma organização como o Sporting necessita, numa sociedade mediatizada, como de pão para a boca da comunicação social é, perdoem-me os sportinguistas, uma estupidez. (...) 

Romeiros de S. Miguel

Foto by Aníbal C. Pires





Tiveram início ontem, dia 17 de Fevereiro, as “Romarias Quaresmais de 2018” de S. Miguel.
Os ranchos de romeiros, durante 7 dias percorrem a ilha, parando em todos os templos onde se invoque a Virgem Maria. 
A sua história perde-se no tempo, mas diz a voz do povo que esta prática se iniciou e se instituiu, como penitência e oração para aplacar as manifestações telúricas e vulcânicas, em particular a que teve lugar em Outubro de 1522, e que ficou conhecida com a “subversão ou terramoto de Vila Franca do Campo.
A tradição mantém-se e até à Páscoa os ranchos de romeiros entoam os seus cânticos por toda a ilha.




Em vídeo algumas fotos e um cântico dos romeiros gravado, em 1960, por Artur Santos e que faz parte da "Antologia Sonora da Ilha de S. Miguel"



sábado, 17 de fevereiro de 2018

Desporto para todos - crónicas radiofónicas

Do arquivo pessoal





Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 9 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui








Desporto para todos

Fui durante muitos anos praticante e dirigente desportivo de algumas modalidades de pavilhão. As atividades físicas e desportivas sempre me interessaram, desde logo, na sua vertente competitiva, mas também na promoção de hábitos de vida saudável, razão pela qual sempre dei, enquanto dirigente desportivo, uma grande importância à formação. As equipas seniores serviam apenas de mote para a captação de crianças e jovens para a atividade desportiva regular e devidamente orientada. É sabido que por um euro investido na atividade física e desportiva se poupa mais do triplo em gastos com a saúde ou, se preferirem a promoção da prática regular de atividade física e desportiva é um investimento na prevenção da doença, ou seja, é um investimento na promoção da saúde.
Espere. Mantenha-se na sintonia porque não vou partilhar consigo memórias do meu passado como dirigente ou praticante desportivo.
O que quero partilhar hoje consigo é do presente, embora, o tema seja a prática regular de atividade física, mas neste caso nem sequer precisamos de pavilhões. Trata-se de uma atividade que se pratica em ambiente natural e, no caso dos Açores não faltam espaços paradisíacos para o fazer.
Seja na orla costeira, seja nas cumeeiras das caldeiras onde se formaram deslumbrantes lagoas, seja nas subidas aos picos das nossas ilhas, seja por canadas ladeadas de hortências, seja pelas matas de criptomérias, ou pelas margens das ribeiras até onde a orografia nos proporciona uma diversidade de cascatas e pequenos lagos de encantar.
Estará de acordo comigo quando digo que todas as ilhas da nossa Região dispõem de condições naturais, com um maior ou menor grau de dificuldade, para caminhar ou correr desfrutando de paisagens únicas e recantos idílicos.
Imagem retirada da Internet
E, tudo isto a custo zero para quem usufrui, mas também para o orçamento regional aspetos que não são, de todo, irrelevantes quando falamos de políticas públicas de desporto para todos.
Não é necessário estar muito atento para perceber que nos últimos anos aumentou, consideravelmente, o número de cidadãos a andar, ou a correr em espaços urbanos ou naturais. Esta alteração de comportamento resulta de um longo período de trabalho e aconselhamento que os médicos e outros técnicos de saúde, mas também os professores e os formadores têm vindo a fazer, tendo como finalidade que a generalidade da população adquira hábitos de vida saudável sem que isso lhes traga encargos financeiros.
Como qualquer outro processo de mudança comportamental os resultados nem sempre são tão céleres quanto desejamos, mas acabam por chegar.
Caminhar meia hora por dia e nem sabe o bem que lhe fazia. E não é necessário mais tempo do que apenas meia hora de caminhada vigorosa para que o seu corpo funcione melhor. E se juntar a esta meia hora de atividade física uma dieta equilibrada, com baixo teor de açúcares e de sal, então os resultados serão ainda mais satisfatórios para si, e para a sua saúde.
Volto no próximo sábado, até lá mexa-se pelo seu bem estar, mexa-se pela sua saúde.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 09 de Dezembro de 2017

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

... dos namorados

Foto by Madalena Pires
Hoje é, dizem por aí, o dia dos namorados. É dia de santo. Dia de S. Valentim bispo que apesar da proibição da celebração de casamentos pelo do imperador Cláudio II continuou a fazê-lo clandestinamente. Foi sacrificado e santificado e agora celebrado, um pouco por todo o Mundo, pelo calendário comercial.
Cá por mim festejo o amor todos os dias e, por outro lado um país que tem o Santo António pode bem dispensar o S. Valentim.
Mas este ano o calendário gregoriano pregou uma partida ao calendário comercial. Hoje, dia de S. Valentim e dos namorados é, também, o primeiro dia da quaresma. Dia de abstinência.

Amem-se todos os dias. 
O AMOR é importante porra

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

... do Carnaval









Carnavais há muitos, mas este (Veneza) tem um não sei quê que me atrai particularmente.

















Talvez seja apenas o teu olhar, Talvez.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Novo ciclo. Onde estás que não te encontro - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 2 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui





Novo ciclo. Onde estás que não te encontro

Encerrado o processo de apresentação, discussão e votação do Plano e Orçamento da Região Autónoma dos Açores estou confrontado com uma enorme dificuldade, ou mesmo uma missão impossível. Por mais que procure não encontro, o novo ciclo. Nem um vestígio, um sinal que seja do que foi enfaticamente anunciado pelo Governo Regional e do qual o Grupo Parlamentar do PS se encarregou, essa é uma das suas missões, de fazer de câmara de ressonância ampliando a ideia, do tal novo ciclo.
Não encontro e não é por má vontade, que eu até sou um homem de boa vontade, nem por não ter procurado, eu bem procurei. E não foi pouco. Não encontrei muito simplesmente porque esse tal de “novo ciclo” não existe, não consta nem do Programa Anual, nem do Orçamento Regional. O novo ciclo só existe nas frases de propaganda do Governo e do Grupo Parlamentar do PS.
Mesmo não tendo encontrado sinais do novo ciclo não desisti de procurar.
Indaguei por um pormenor que fosse que indiciasse uma novidade, procurei por uma pequena inflexão às opções políticas que diferenciasse o Plano e o Orçamento para 2018 dos que o precederam, Nada. Não encontrei nada que se assemelhe a uma pequena diferença que seja.
Mas se quanto ao conteúdo e à forma a proposta de Plano e Orçamento não passam de velhas e requentadas opções políticas e económicas, não se pode dizer o mesmo do conteúdo e forma como decorreu o debate parlamentar e, sobretudo, sobre o desfecho da votação dos dois diplomas que estiveram à discussão, durante esta semana, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
A ausência do deputado do PCP, justificada pelas razões que se conhecem, empobreceu o debate e demonstrou, ainda que por falta de comparência, a importância das propostas que sinalizam a alternativa e a rutura com opções, que sendo do PS poderiam ser subscritas pelos partidos da direita parlamentar.
Por outro lado, o que até à discussão do anterior Plano Orçamento era regimentalmente inalterável, deixou de o ser. A sessão plenária foi antecipada o que evitou a irracional maratona pela madrugada de sexta-feira dentro. Este é o registo positivo.
O Plano e Orçamento para 2018 foi aprovado apenas com os votos favoráveis do partido que suporta o Governo Regional.
Não terá sido a primeira vez que tal sucedeu, mas já não acontecia há muito tempo.
Este sim é um sinal diferenciador, um sinal que pode indiciar que estamos no limiar de um novo ciclo político para a Região Autónoma dos Açores.
O isolamento do PS, na votação do Plano e Orçamento para 2018, não é um facto despiciente.
E não o é porque não resulta de uma posição irredutível e dogmática das oposições, mas da incapacidade do PS para estabelecer pontes e promover o diálogo e o entendimento com os partidos do espetro parlamentar regional.
Mas o PS e o seu Governo não só estão mergulhados num processo de gradual isolamento politico, como também de isolamento social.
Sim, eu sei. O PS ganhou eleições há pouco mais de um ano atrás e os indicadores sociais e económicos têm vindo a melhorar nos últimos 2 anos. É inegável.
Mas já se perguntou se essa melhoria resulta diretamente da governação do PS Açores, ou se pelo contrário foram as alterações ocorridas na República que contribuíram para essa melhoria, a par de um contexto externo que favoreceu essa alteração positiva, mas longe de nos deixar satisfeitos.
Quanto ao facto do PS ter renovado a sua maioria absoluta em Outubro de 2016 isso fica dever-se mais ao demérito das oposições do que ao mérito do PS, para além da influência nos resultados eleitorais que a teia de dependências que o partido no poder estende a toda a sociedade açoriana asfixiando-a e controlando-a.
Sei que está a usufruir de um fim de semana prolongado e talvez devesse ter trazido um outro assunto para partilhar consigo, mas a oportunidade era hoje.
Fique bem e divirta-se.
Eu volto no próximo sábado.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 02 de Dezembro de 2017

... do assédio, haja paciência

Cristina Garcia (imagem retirada da Internet)
Onde será que esta abordagem sobre o assédio nos irá levar. Até já tenho medo de olhar, quanto mais falar e muito menos tocar em alguém aquando de um cumprimento de circunstância.

Não é o caso desta notícia em que se dá conta que dois colegas ou colaboradores de uma deputada estadual da Califórnia a acusam de assédio. Fosse a alegada autora do assédio uma ilustre desconhecida e pela certa nem uma linha seria escrita sobre o assunto.

Cristina Garcia talvez não chegasse a ser notícia se não se tratasse de um dos rostos mais visíveis do movimento #MeToo e legisladora no Estado da Califórnia.

Mas isto vai acabar mal, lá isso vai. E estou em crer, tratando-se de figuras públicas, que muitas das personalidades denunciadas como agressores, serão elas próprias as vítimas, não de assédio mas de maledicência.
Por outro lado, a forma como a problemática do assédio sexual tem sido tratada, e a própria notícia sobre Cristina Garcia, vão acabar por descredibilizar os movimentos que apelam às mulheres que denunciem os crimes de assédio. E a questão é demasiado séria para ser conduzida com a leviandade a que temos assistido.
Haja paciência e, sobretudo, bom senso.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Notícias do motor da economia europeia

Imagem retirada da Internet
Aumentos salariais (4,3%), participação nos dividendos das empresas e diminuição do horário de trabalho semanal.
Não, não é em Portugal, aliás como está bom de ver pois, os empresários portugueses e alguns dos seus lacaios consideram que 600,00 euros de salário mínimo e horários de 40, ou mais horas, são a única solução para aumentar a competitividade da economia nacional e garantir o crescimento económico.
Foi na Alemanha. Recentemente e depois de um duro período de luta, os trabalhadores da indústria alemã conquistaram aumentos salariais e a redução do horário semanal de trabalho. Mas parece que toda a gente saiu satisfeita e a projeção de alguns indicadores demonstram que não é pela via da desvalorização do trabalho que se resolve o problema do crescimento económico e, muito menos, do desemprego.
Para 2018 prevê-se que a Alemanha registe um crescimento de 2,4% e que o desemprego atinja, desde a unificação, um mínimo histórico de 5,3%.

Efeitos da liberalização

Imagem retirada da Internet
O fim das quotas, leia-se liberalização do mercado do leite, está a produzir efeitos catastróficos na economia regional. Segundo o Presidente da Federação Agrícola dos Açores mais de 60% dos produtores de leite da Região estão falidos. Mas não é apenas o representante dos produtores que expõe este cenário negro, à voz de Jorge Rita juntam-se as vozes do titular da agricultura nos Açores e a dos representantes da indústria transformadora.
Houve que tivesse alertado, houve quem tivesse proposto a manutenção do regime de quotas, houve quem tivesse lutado para que este cenário não se concretizasse, Os apelidados velhos do Restelo que, bastas vezes, têm razão. E, houve quem acreditasse piamente que a liberalização e o funcionamento do mercado seria uma boa e a única solução, Os vanguardistas apoiantes da teologia de Milton Friedman que agora pedem, como é habitual, apoios públicos para garantirem rendimento para os produtores. O cenário pode ser negro, mas é sobretudo um déjà vu, um modus operandi. Não significa isto que não considero necessário fazer um esforço financeiro, mas sobretudo político, para que este setor da economia regional sobreviva e até amplie a sua importância económica. Sim, sobretudo, um esforço político ao abrigo do estatuto da ultraperiferia para salvaguardar o nosso direito a produzir. Num contexto prévio de preparação do quadro comunitário pós 2020, esta deveria ser uma das questões centrais a consensualizar na Região para apresentar e defender na mesa negocial com o Estado e a União Europeia.
Imagem retirada da internet
Num curto espaço de tempo a Região tem vindo a empobrecer, por força das políticas comuns, do dito mercado e da liberalização do comércio. Encerram unidades fabris de transformação de produtos da terra e do mar, acabam algumas culturas agrícolas e pendem sobre a pesca acrescidas apreensões. A Região está a ficar mais pobre e isso sente-se, e isso vê-se, apesar das tentativas para nos fazerem crer o contrário.
Mas o Turismo está a crescer. Pois está, mas não faltam por aí avisados conselhos para se tomarem medidas que garantam sustentabilidade e competitividade ao destino, isto para além de que este setor não deve ser encarado como substitutivo de outras atividades económicas sob pena de se acentuar, ainda mais, a dependência externa que carateriza a nossa pequena economia insular, com todos os riscos que daí advêm.
A produção de leite nos Açores representa cerca de 1/3 do total do leite produzido em Portugal. É disto que estamos a falar e, é tudo o que esta atividade produtiva e transformadora representa para a Região que está em perigo. Se este setor colapsar, colapsa a economia regional.
Pode até não gostar de leite e subscrever as campanhas que por aí proliferam que visam substituir o consumo de leite por outros alimentos, porque o leite, dizem-nos agora, não é tão benéfico para a saúde humana como se fez crer até a um passado recente. Verdade hoje, mentira amanhã. Poder pode, mas não deve ficar indiferente a este cenário de falência de um setor produtivo que, a verificar-se, coloca em causa a própria economia regional.
Se é necessário introduzir alterações no setor acrescentando-lhe mais valor, Estou de acordo. Não faz nenhum sentido que o leite e os seus derivados produzidos nos Açores não tenham uma correspondência direta com a natureza imaculada que nos rodeia. Essa é uma aposta de futuro, para já é necessário um esforço político e financeiro para garantir a sobrevivência deste setor da economia produtiva.
Ponta Delgada, 05 de Fevereiro de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 07 de Fevereiro de 2018

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

... das prioridades

Aníbal C. Pires (S. Miguel,2017) by Ana Paula Beja Horta










Excerto de texto a publicar na imprensa regional e no blogue momentos








(...) Não significa isto que não considero necessário fazer um esforço financeiro, mas sobretudo político, para que este setor da economia regional sobreviva e até amplie a sua importância económica. Sim, sobretudo, um esforço político ao abrigo do estatuto da ultraperiferia para salvaguardar o nosso direito a produzir. Num contexto prévio de preparação do quadro comunitário pós 2020, esta deveria ser uma das questões centrais a consensualizar na Região para apresentar e defender na mesa negocial com o Estado e a União Europeia. 
Num curto espaço de tempo a Região tem vindo a empobrecer, por força das políticas comuns, do dito mercado e da liberalização do comércio. Encerram unidades fabris de transformação de produtos da terra e do mar, acabam algumas culturas agrícolas e pendem sobre a pesca acrescidas apreensões. A Região está a ficar mais pobre e isso sente-se, e isso vê-se, apesar das tentativas para nos fazerem crer o contrário. (...) 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Objetividade ou transparência

imagem retirada da Internet
Comunicar tem destas coisas. O Governo Regional, ao anunciar o fim das entrevistas nos concursos de admissão de trabalhadores para a administração pública, justificou esta medida com a necessidade de conferir mais transparência ao processo, ao fazê-lo permitiu que se argumentasse com a ideia de que os concursos, até agora, não o teriam sido.
Nem sempre a escolha das palavras é a mais acertada. O que se pretende, julgo eu, é tornar o processo mais objetivo retirando-lhe um procedimento que pode, efetivamente, não ser devidamente mensurado pela sua intrínseca subjetividade, ainda que as entrevistas possam ser padronizadas procurando reduzir a margem de decisão discricionária (subjetiva) de quem avalia. Mas as entrevistas para admissão de pessoal, apesar de tudo, não deixam de constituir um elemento importante para a decisão de admissão, ou exclusão. Julgo que no setor privado nenhum gestor, a não ser em casos excecionais, abdicará da entrevista em qualquer processo de recrutamento de trabalhadores. E não se trata, não tenhamos dúvidas, de conferir maior ou menor transparência ao processo, mas antes de um elemento determinante no método de recrutamento.
A proposta do Governo Regional de retirar a entrevista do processo de recrutamento concursal confere, não tenho dúvidas, mais objetividade ao sistema de admissão de pessoal para a administração pública. Se elimina todas as possibilidades de adulterar os concursos de admissão de pessoal, Não.
Os modelos existentes para recrutar profissionais para os diferentes departamentos da administração pública regional são todos, no limite, passíveis de ser pervertidos, mesmo aqueles que apenas dependem de uma graduação profissional (classificação académica mais tempo de serviço), como é o caso do recrutamento de educadores e professores.
imagem retirada da Internet
Ou seja, os concursos, através dos regulamentos e da redação dos avisos de abertura, podem, por opção política, ser desvirtuados. Opções legitimadas pela aceitação da generalidade da população e, em particular, pelos interessados. É-o assim nos Açores com as conhecidas preferências regionais no concurso de recrutamento de educadores e professores. Neste caso a adulteração decorre de uma opção política tomada de forma consciente e que visa favorecer, mais do que este ou aquele cidadão, algumas instituições. E para que não pareça que esta última afirmação não passa de uma insinuação, direi que as instituições favorecidas são a Universidade dos Açores e as Universidades privadas do continente com que a Região celebrou protocolos para que os estágios profissionais pudessem ser feitos nas escolas dos Açores.
As preferências regionais foram-nos vendidas como uma medida política essencial para a estabilidade do corpo docente nas escolas açorianas, nada de mais falacioso pois, na altura, a procura já superava a oferta e no regulamento concursal já existiam alguns mecanismos (igualmente perversos) que davam garantia de estabilidade ao corpo docente das escolas da Região, embora também eles não tivessem sido, ainda que pontualmente,  cumpridos por todos os docentes que dele beneficiaram, com a devida aprovação da administração pública regional. Há sempre exceções.
Ponta Delgada, 04 de Fevereiro de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 05 de Fevereiro de 2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

... das entrevistas

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2018) by Madalena Pires








Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e no momentos. Aqui mesmo como é habitual.












(...) Nem sempre a escolha das palavras é a mais acertada. O que se pretende, julgo eu, é tornar o processo mais objetivo retirando-lhe um procedimento que pode, efetivamente, não ser devidamente mensurado pela sua intrínseca subjetividade, ainda que as entrevistas possam ser padronizadas procurando reduzir a margem de decisão discricionária (subjetiva) de quem avalia. Mas as entrevistas para admissão de pessoal, apesar de tudo, não deixam de constituir um elemento importante para a decisão de admissão, ou exclusão. Julgo que no setor privado nenhum gestor, a não ser em casos excecionais, abdicará da entrevista em qualquer processo de recrutamento de trabalhadores. E não se trata, não tenhamos dúvidas, de conferir maior ou menor transparência ao processo, mas antes de um elemento determinante no método de recrutamento. (...)

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A Brecha, um apontamento - crónica radiofónica

Foto by Aníbal C. Pires (2017)
Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 25 de Novembro de 2017 que pode ser ouvida aqui

Há publicações com propósito e publicações a propósito. Esta não é uma coisa nem outra. É mesmo uma coincidência, uma feliz coincidência no final da semana em que foi anunciada a lista de finalistas ao Prémio Literário Casino da Póvoa. A Brecha, está lá.
Parabéns ao João Pedro Porto.



A Brecha – um apontamento

Do livro A Brecha de João Pedro Porto disse, num desses comentários imediatistas e de ocasião numa publicação do Facebook, que a leitura do último romance deste jovem escritor açoriano, não é a mais adequada para o Verão.
E mantenho. A Brecha é um daqueles livros que devem ser consumidos no aconchego das noites de Inverno.
É uma leitura densa que necessita de tempo e atenção pela sua complexidade, mas também pela riqueza da escrita que ora se assume em prosa, mas também em poesia e na dramaturgia.
O recurso à mitologia clássica e algumas referências da história nacional compõem uma trama intrincada, onde tudo pode acontecer. Até a morte dos deuses às mãos do Homem.
Ficam alguns fragmentos, no vídeo abaixo, deste livro de João Pedro Porto que aquando da leitura sublinhei e que hoje partilho convosco.

(…) Mais uma prega virada no escuro e será como se durma sem saber se acordo. Mas, e daí, assim o é todo o sono. (…)

(…) Ao pôr-se a jeito de cheiros, o Homem notou um fétido odor que emanava de todas as bocas falantes. Toda aquela gente era de má-língua, não por contrafazerem as sintaxes, mas por darem mau uso à taramela. A coisa era feita de duas maneiras distintas. Ora se falava bem de face a face ora se desnaturava o dito, feito não dito nas costas de quem se abandonava com um pois bem e um aceno. Não teria, o Homem, espinhaço para isso. (…)

(…) A terra terá sido sempre lida com as páginas e as cabeças erigidas a Norte, salvo pelos povos da meia-lua. Desse Norte se disse, por anos, ser o hemisfério superior, que é como quem diz: de superior condição. O Sul será sempre algo selvático, onde se dançam os tangos e se matam os homens por ninharias. A futilidade é mortal, no Sul. Será por isso que lá vamos. Não há banalidade no Sul. Se o mistério tiver esconderijo, esse será sempre austral. Até o órgão mais carnal e o pórtico mais recôncavo de todo o éden moram no lugar sulino do corpo dos homens e das mulheres. (…)

(…) Tudo começou com um som daqueles que são exclusivos do silêncio. De todos os sons de que se faz o silêncio, o mais conhecido é o zunzum. Seguem-se-lhe o tinido e o zumbido. Mas de nenhum desses se faria aquele que ouvi. Era algo mais parecido com o roçar de tecidos espreguiçados a bocejo. Ajudava que o zunido do vento fosse quebrado pelos arcos. Tomei isto como consideração, porque poderia, na realidade, tudo ser obra do vento, que é um ser curioso. Não por ter qualquer interesse, mas por ter nariz. E a tendência abstracta de o enfiar onde não é chamado. Se bem que, para cusco, já lá estava eu. (…)

(…) Nada muda! Continuas o mesmo. Sim, existiam os deuses. Mas de nada serviam. Não eram mais que palavras ditas pelas nossa bocas, obeliscos de prefeitura. Coisa de adoração, coisas de temer. E sem perfeição que se visse. Não eram mais que gentes, também. Feitos por outras gentes. Gentes como nós. (…)

(…) Esse oceano, destinado , destinado a encantar-me a alma com a escuma, começou toda esta demanda enredada em vil fuso e agora aqui narrada como se o passado voltasse a ser algo que não apenas uma coisa deixada para trás. Assim, pois, parti (…)

(…) Adeus ó mundo,
Adeus ó eu, que me vou
na carquilha que vem.
Mais uma prega virada no escuro
E será como se durma;
Nada mais. (…)

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 23 de Novembro de 2017

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018