sábado, 31 de março de 2018

Dos livros, de quem os escreve e de quem os lê - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires




Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 13 de Janeiro de 2018 que pode ser ouvida aqui




Dos livros, de quem os escreve e de quem os lê

É um amor que perdura e se fortalece a cada linha, a cada página, a cada livro, Sim é a minha paixão pelos livros que lhe estou a confessar.
Ler é um prazer que se renova, ler é descoberta permanente, ler é saciar a vontade de descobrir, de viajar com as palavras, de conhecer mais e, mais.
Não vou fazer a apologia da leitura e dos seus benefícios, contudo deixo-lhe o desafio, descubra o prazer de ler e o bem-estar que daí decorre, leia e apaixone-se pela leitura. Verá que é muito bom, não dói nada e é um ato prazeroso sem, contudo, ser de autossatisfação, pois não lhe faltarão parceiros de aventura ao virar de cada página e a cada capítulo.
Mas, como lhe dizia, não vou fazer a apologia da leitura e dos seus benefícios, as palavras que abrem esta crónica têm apenas como finalidade introduzir um acontecimento que se vem a instituir na Livraria SolMar, a que é dado o nome de “Livros do Ano…”. A edição de 2017 teve lugar na semana que hoje termina e, tendo coincidido com o “Dia de Amigos”, lá estive eu, entre amigos a ouvir amigos a falar de amigos. E garanto-lhe que as malassadas e o porto, à entrada e à saída, foram apenas o complemento e a extensão do excelente serão que a Helena e o José Carlos Frias promoveram no espaço da livraria SolMar que é um dos locais de culto da cidade de Ponta Delgada para quem, como eu, tem um amor desmedido pelos livros.
Foto by Aníbal C. Pires
O objetivo desta iniciativa, pelas palavras dos anfitriões, é dar a conhecer as preferências, de alguns leitores convidados, sobre os livros publicados em 2017. Embora, julgo eu, não seja imposto nenhum limite temporal aos convidados para falarem das suas afeições bibliográficas.
Os leitores convidados foram, na edição de este ano, a Ana Monteiro, o Alexandre Pascoal, o Emanuel Jorge Botelho, a Elsa Soares e o Pedro Gomes. Convidados que, só por si, garantiam um início de serão a não perder. E assim foi.
Com personalidades tão diversas as escolhas só podiam ter um forte cunho de pluralidade, quem optou por participar teve oportunidade de se deliciar com cinco olhares distintos por alguns dos melhores livros de 2017.
Não, não vou, obviamente, enumerar a lista das preferências de cada um dos leitores convidados. Essa informação está por aí disponível à distância de um clique e, seria até pouco curial reproduzi-la aqui. Mas sempre lhe direi que a lista de preferências da Ana Monteiro, do Alexandre Pascoal, do Emanuel Jorge Botelho, da Elsa Soares e do Pedro Gomes se constituem como excelentes sugestões de leitura.
Foto by Aníbal C. Pires
E já agora confesso-lhe que muitos dos livros referenciados ainda não moram cá em casa, as minhas leituras em 2017 seguiram um rumo diverso, mas alguns dos livros sugeridos já têm lugar reservado para aqui se alojarem.
Mas já que estamos a falar de livros, de quem os escreve e de quem os lê, deixo-lhe uma referência. Um dos destaques feito pelos promotores foi para o Volume 2 da Revista “Grotta”.
A “Grotta” é uma revista literária coordenada pelo Nuno Costa Santos e editada pelas Letras LAVAdas, mas é sobretudo um ato de coragem editorial, como foi referido por alguém, na pretérita noite de quinta-feira, Dia de Amigos.
Se ainda não leu esta revista literária, Atreva-se a espreitar e talvez, certezas não tenho, mas talvez, quem sabe, encontre algum texto ou tema do seu agrado.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 20 de Janeiro de 2018

terça-feira, 27 de março de 2018

Ainda a rota TER/OPO/TER, Uma resposta

Foto by Madalena Pires (Fevereiro, 2018)
A última publicação (aqui) suscitou, face ao seu conteúdo, alguns comentários nas redes sociais onde foi reproduzida.
Numa resposta que fiz a um comentário assumi que, mais tarde, responderia a uma pergunta que me foi colocada.
E a pergunta era a seguinte: Se fosse Administrador da Sata e tivesse uma rota a dar prejuízos e com outras alternativas para a população, o que fazia? 
Para contextualizar. A rota referida é TER/OPO/TER que a Azores Airlines suspendeu há alguns meses atrás. Trata-se de uma rota puramente comercial uma vez que as rotas da Terceira estão liberalizadas, importa ainda referir que a Ryanair entrou nas rotas da Terceira e assegura, semanalmente, duas ligações ao Porto.
A resposta linear à pergunta que me foi dirigida é: - Fechava a rota, qualquer que ela fosse, desde que as perspetivas do mercado não apresentassem indicadores de alteração da procura.
Podia ficar por aqui, mas no que concerne ao Grupo SATA e às opções políticas de transportes aéreos na Região nem tudo é tão simples e linear.

Foto by Aníbal C. Pires (Janeiro, 2017)
Em concreto esta rota foi criada por uma decisão política no âmbito de um programa de revitalização da ilha Terceira (o PREIT), ou seja, a ligação Terceira/Porto/Terceira não surgiu como uma necessidade do mercado, mas foi artificialmente introduzida. O que não significa que não pudesse ter vindo a afirmar-se e a ter viabilidade comercial (as parcerias com os operadores turísticos e outros agentes económicos são fundamentais para o negócio da aviação comercial).
Mas será que a decisão resulta apenas e tão-somente do défice de exploração da rota, Será. Talvez não. Vejamos, a opinião pública e política terceirense após a liberalização das rotas para a Região (Terceira e S. Miguel) exigiu ao Governo Regional que encontrasse os meios facilitadores para que as companhias aéreas de baixo custo voassem para a Terceira. O que veio a acontecer no último Inverno IATA (2016/2017). A Ryanair entrou no mercado terceirense com 4 ligações semanais para Lisboa e 2 para o Porto.
Em Outubro de 2017 a SATA suspende a rota TER/OPO/TER alegando que a sua exploração era deficitária.
Não quero tirar conclusões, mas… julgo que está bom de ver.

Foto by Madalena Pires (Fevereiro, 2018)



Tenho muito textos e intervenções públicas sobre o Grupo SATA. A minha posição é clara, Sempre defendi Mais e Melhor SATA. Esta minha posição infelizmente, ou não, conforme os interesses que se defendem, esbarrou sempre (desde 2012) com uma estratégia política do PS Açores que se pode traduzir de forma sintética em, Menos e Pior SATA.

Claro que quem saiu vencedor desta contenda foi o PS Açores e o Governo Regional. Não, não fui eu que perdi, quem perdeu foi o Povo Açoriano.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 27 de Março de 2018

A rota TER/OPO/TER, a deputada Mónica Rocha e o “Caderno de Encargos”

Foto Aníbal C. Pires
A deputada Mónica Rocha, eleita pelo PS no círculo eleitoral da Terceira, veio a terreiro no último plenário da ALRAA, rebatendo as críticas e dúvidas colocadas pela oposição, afirmar que a economia da ilha não tinha sido beliscada pela extinção da rota da SATA que ligava aquela ilha ao Porto.
Face a esta afirmação e não dispondo de dados objetivos para colocar em causa a afirmação da Senhora Deputada terei de aceitar como boa a argumentação que foi utilizada, bem assim como a conclusão que Monica Rocha transmitiu em nome do Grupo Parlamentar do PS.
Sobram-me, contudo, algumas dúvidas quando articulo esta conclusão de Mónica Rocha, com o Anexo II – Operação Aérea Regular Mínima, do “Caderno de Encargos” para a privatização de 49% do capital social da Azores Airlines, onde se pode constatar a obrigatoriedade, dos eventuais interessados, de garantir a ligação TER/OPO/TER durante todo o ano (Verão e Inverno – IATA).
Se não é importante para a ilha Terceira então porque consta das exigências do “Caderno de Encargos”.
Mónica Rocha (imagem retirada da Internet)
Não sei se a deputada Mónica Rocha, o seu Grupo Parlamentar e o Governo Regional foram confrontados com esta questão. Se não foram deveriam ter sido pois, a constar, como consta, do “Caderno de Encargos” não será por acaso. E, digo eu que não sou especialista de nada, a não ser de generalidades, que o fim da rota que não beliscou a economia da ilha Terceira, segundo a deputada do PS, talvez tenha alguma importância para a Terceira e para os terceirenses, ou então o “Caderno de Encargos” não o teria listado como uma obrigatoriedade, ou esta é, apenas, mais uma das incongruências deste espúrio processo.

Tenho evitado falar do Grupo SATA, já fui prejudicado quanto baste pelas minhas intervenções sobre as questões que dizem respeito às políticas e estratégias para esta importante e empresa regional, mas face a esta incompreensível contradição entre o que se diz e o que se faz não resisti e quebrei o silêncio que tinha imposto a mim mesmo. Uma vez quebrado este compromisso comigo mesmo, talvez seja altura de voltar ao tema com a regularidade e profundidade com que o fiz em determinada altura. Motivos não faltam.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 26 de Março de 2018

sábado, 24 de março de 2018

Assédio sexual - crónicas radiofónicas

imagem retirada da Internet






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 13 de Janeiro de 2018 que pode ser ouvida aqui










Assédio sexual

Nos últimos meses um dos assuntos mais mediatizados, em particular nos Estados Unidos, centra-se nas denúncias de assédio. O movimento irradia de Hollywood e as denunciantes fazem parte do grupo das famosas e, os alegados agressores, também. Os movimentos #MeToo e #TimesUp atingiram grande notoriedade nas redes sociais e têm aberto caminho para encorajar e apoiar as mulheres vítimas de assédio.
Depois da vaga de denúncias nos Estados Unidos, como é habitual, a onda foi-se espraiando e as denúncias de assédio sexual e a formação de movimentos vão acontecendo um pouco por todo o lado e, ainda bem. O assédio sexual é crime, mas nem sempre é, por razões várias, objeto de denúncia ou, quando a denúncia acontece já é demasiado tarde. Ou, talvez nunca seja demasiado tarde, dependendo dos pontos de vista e do que está em jogo.
O assédio sexual não acontece apenas em ambiente laboral, mas é, sobretudo, aí que se verifica com mais frequência e gravidade.
A Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, em Portugal, define o conceito de assédio sexual como todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.
Estando clarificado o conceito, embora o quadro legal seja diferente de pais para país e, nos Estados Unidos, julgo que esse conceito até terá algumas alterações de Estado para Estado, posso agora partilhar consigo outras variações sobre o tema.

imagem retirada da Internet
O assédio sexual existe, o assédio sexual é crime, o assédio sexual deve ser denunciado, as vítimas, independentemente do género, devem ser protegidas. Independentemente do género, Sim. Claro que são as mulheres as principais vítimas, mas também, ainda que residualmente, o assédio sexual tem como objeto o homem e como agressor a mulher. Existem algumas produções cinematográficas de Hollywood que abordam esta questão, fica como exemplo o filme Revelação, protagonizado por Demi Moore e Michael Douglas. Uma interessante história sobre assédio sexual em que a vítima é um homem e o agressor uma mulher.
Face à dimensão mediática ampliada pela notoriedade de quem tem vindo a fazer as denúncias, mas também a algumas incompreensíveis denúncias e ao radicalismo de alguns movimentos feministas eis que surgiu, não diria um movimento contra, mas o posicionamento de outras mulheres, com igual notoriedade, mas de outra geração, que pretendeu repor algum equilíbrio na atual discussão pública sobre o assédio sexual. Se o intuito era nobre um ou outro termo utilizado e algumas interpretações enviesadas vieram desvirtuá-lo.
Quando é que um olhar, quando é que uma palavra, ou um gesto deixa de ser sedução e passa a ser assédio sexual.
Neste caso, como em tudo na vida é necessário algum equilíbrio e bom senso. E a forma com têm vindo a público as denúncias e algum radicalismo pode colocar em causa coisas tão belas como o jogo da sedução e o romance. Jogos de sedução que estão na origem das mais belas estórias de amor, quiçá a sua própria estória de amor.
Cá por mim nos galanteios, vulgo piropos, nunca passei do meu clássico, “Ditosa pátria que tais filhas tem”. Frase que quando adolescente dirigia às raparigas quando algo nelas, na perspetiva masculina, me despertava alguma atenção.

Ponta Delgada, 13 de Janeiro de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

Da poesia 5 - Renata Correia Botelho

Renata Correia Botelho




Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.






A ÁRVORE DAS RAÍZES

a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.

Renata Correia Botelho, in “small song”

Da poesia 4 - Gina Ávila Macedo

Gina Ávila Macedo



Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.

O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.





É no interior da noite

É no interior da noite
que bebemos o vinho pisado
por deuses e entramos
resolutos pelas horas tardias.
Rimos e enganamos o
frio na carícia do lume.

Olhamos o rio e nas margens
das nossas cabeças não há
palavras que descrevam a loucura
e o medo.

Juntos atravessamos a noite
com o nosso andar felino
descobrimos que a escuridão é
feita de gatos vadios e casas pardas.

E quando a madrugada chegar
não sabemos o que iremos fazer
com as nossas mãos.

Gina Ávila Macedo, in Anuário de Poesia de Autores não Publicados, 2015, Assírio&Alvim.

Da poesia 3 - Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt





Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.

O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.







Resistência

a noite
o rebentar das bombas o ranger 
dos dentes
tudo tanto ou tão nada
como este lago de sangue 
nascido nas pernas da mulher
violada pela milésima vez
e sempre virgem
teimosamente virgem.

Urbano Bettencourt, In “outros nomes outras guerras”

Da poesia 2 - Emanuel Jorge Botelho

Emanuel Jorge Botelho (foto de Aníbal C. Pires)






Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.
O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.









NOTÍCIAS DO CERCO

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois. 


é tudo uma questão de senha. 
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã. 


é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso 
de um golpe de Lua cheia. 

Emanuel Jorge Botelho

Agenda estéril

Imagem retirada da Internet
A agenda política regional esgota-se em anúncios do governo e da oposição. Intenções que, quase sempre, se ficam por isso mesmo, Propósitos que não se concretizam. Estará o modelo autonómico esgotado, Não, não está. A autonomia está cerceada, como cerceada está a soberania nacional, pelas políticas comunitárias e pela aceitação, ou subserviência acrítica, das imposições que emanam dos gabinetes dos comissários europeus.
Sejamos pragmáticos e, sobretudo, realistas. Os fundos estruturais e de coesão, sem os quais parece não ser possível promover investimento público, viciaram a vida política regional e nacional. Com os milhares de milhões de euros dos fundos alocados a cada quadro comunitário vem associada a submissão às políticas comuns e à legislação comunitária. O investimento público e o apoio ao investimento privado estão conformados por via das diretivas europeias, isto para além do facto de as opções de investimento público e privado serem tomadas sem qualquer planeamento, seja na construção de infraestruturas, seja na qualificação e formação, seja no desenho de políticas sociais. Por outro lado, a utilização dos apoios financeiros dos quadros comunitários de apoio e de outros fundos tem contribuído para o aumento crescente da dívida pública e do défice, uma vez que os investimentos exigem comparticipação dos promotores e, como sabemos e está à vista, só não vê quem não quer, os fundos financeiros foram utilizados para o que era necessário, mas também para satisfazer os tiques de um novo riquismo bacoco.
Não pretendo deixar a ideia de que todos os males que nos afetam têm origem na União Europeia (UE). Sem grande esforço podemos encontrar aspetos positivos, mas o processo de integração no projeto europeu e os caminhos trilhados na sua construção foram impostos por um diretório político, dominado pelos oligopólios financeiros e económicos, e sempre à margem da auscultação e participação dos cidadãos.
O sentimento de pertença ao projeto europeu, apesar de décadas de intensa propaganda, só está instalado num reduzido segmento de cidadãos dos países membros da UE. Veja-se o caso do Brexit, mas também o crescente apoio eleitoral aos partidos da extrema direita que, pela sua própria natureza, fazem bandeira do discurso nacionalista e antieuropeísta.
Procurando recentrar o tema diria que as competências que deviam caber à Região, ou melhor que estão constitucionalmente estatuídas, chocam com o direito comunitário que, como se sabe predomina sobre a ordem jurídica nacional e regional. Este será o maior entrave ao uso pleno das competências autonómicas, mas não é só. O Governo Regional, o partido que o suporta no parlamento e o maior partido da oposição têm responsabilidades repartidas no apoio acrítico às políticas da EU e na recusa de utilização, em toda a sua dimensão, das competências autonómicas.
As competências autonómicas não se esgotaram e a necessidade de uma reforma autonómica é uma falácia com a qual se pretende justificar as insuficiências da governação autónoma, falácia à qual o maior partido da oposição dá cobertura política alimentando esta agenda estéril. Por outro lado, e como já ficou referido é em Bruxelas que residem os maiores constrangimentos à autonomia regional. Os apoios financeiros comunitários custam-nos muito caro.

Ponta Delgada, 20 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 21 de Março de 2018

Da poesia 1 - Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen (imagem retirada da Internet 






Hoje assinala-se o Dia Mundial da Poesia e o momentos associa-se a este dia com diversas publicações.

O Dia Mundial da Poesia celebra-se todos os anos em 21 de março.
A data foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.








Esta Gente

Esta gente cujo rosto 
Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos 
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre 

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia" 

terça-feira, 20 de março de 2018

... vícios

Aníbal C. Pires by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)









Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional e também aqui, no momentos









(...) Os fundos estruturais e de coesão, sem os quais parece não ser possível promover investimento público, viciaram a vida política regional e nacional. Com os milhares de milhões de euros dos fundos alocados a cada quadro comunitário vem associada a submissão às políticas comuns e à legislação comunitária. O investimento público e o apoio ao investimento privado estão conformados por via das diretivas europeias, isto para além do facto de as opções de investimento público e privado serem tomadas sem qualquer planeamento, seja na construção de infraestruturas, seja na qualificação e formação, seja no desenho de políticas sociais. Por outro lado, a utilização dos apoios financeiros dos quadros comunitários de apoio e de outros fundos tem contribuído para o aumento crescente da dívida pública e do défice, uma vez que os investimentos exigem comparticipação dos promotores e, como sabemos e está à vista, só não vê quem não quer, os fundos financeiros foram utilizados para o que era necessário, mas também para satisfazer os tiques de um novo riquismo bacoco. (...)

Reestruturar ou destruir

Foto by Aníbal C. Pires
No passado dia 13 de Março, perante o Conselho Regional das Pescas, o Presidente do Governo Regional apresentou um conjunto de propostas para o setor. Não colocando em causa algumas das medidas e até podendo concordar com outras, este anúncio é antes de mais o reconhecimento oficial de que tudo está para fazer no setor, ou que as pescas, na Região, têm estado remetidas para o gueto das prioridades do Governo Regional, por outro lado o Presidente do Governo Regional, estranhamente, não fez nenhuma alusão às questões da Política Comum de Pescas nem, tampouco, aos seus efeitos negativos para o setor na Região.
Podendo concordar com os princípios e preocupações que estão subjacentes às medidas anunciadas quer-me, no entanto, parecer que existem algumas insuficiências nesta reestruturação que foi anunciada. Falta, desde logo, um eixo para a Qualificação e Formação dos trabalhadores do setor. Vá-se lá saber porquê.
As medidas anunciadas denotam, uma vez mais, que o Governo Regional está a agir por reação, e que sobre o setor não tem uma visão política de futuro, apesar da sustentabilidade aparecer como uma grande preocupação e, mesmo aquilo que possa parecer novidade no discurso do Presidente do Governo Regional, ou seja, a introdução do conceito de sustentabilidade social traduzida na necessidade de uma Convenção Coletiva de Trabalho para o setor. Mas nem sequer isto é uma novidade pois, a Lei n.º 15/97, de 31 de Maio de 1997, proposta pelo PCP, consagra de entre outras medidas a obrigatoriedade de contrato de trabalho para os pescadores. Lei que nunca foi aplicada na Região, a não ser a comemoração do Dia do Pescador (31 de Maio) que a Lei também instituiu.
Foto by Aníbal C. Pires
Sendo apenas um pormenor, mas não deixa de ser curioso, foi a utilização das variáveis ambiental, económica e social, para definir sustentabilidade nas pescas. Tratando-se de uma redundância, fica bem ao discurso político do Presidente do Governo Regional. Ficamos à espera que esta variável, sustentabilidade social, esteja sempre presente, mesmo que não seja explicitamente referida, quando Vasco Cordeiro se referir a sustentabilidade, ou a modelos de desenvolvimento sustentável.
Os quatro eixos apresentados terão todos eles relevância, já as medidas apresentadas para os concretizar enquadram-se numa matriz política de destruição da nossa economia produtiva, como seja essa espécie de resgate que constitui o Regime de Apoio à Cessação Definitiva da Atividade da Pesca.
Uma vez mais a velha fórmula de pagar para não produzir, todos conhecemos os efeitos destas opções. Esta solução encontrada nos velhos compêndios de Cavaco Silva é justificada, pelo Governo Regional, com o sobredimensionamento e outras características da frota pesqueira regional. Mais uma falácia para justificar, por um lado a abertura dos mares ocidentais às frotas de pesca europeias, e por outro a falência das políticas regionais de apoio à reconversão e modernização da frota pesqueira regional. Das 550 embarcações registadas nos portos açorianos 60% estão alocadas à pesca artesanal, este número diz bem do que não foi feito nos últimos 25 anos (idade média da frota regional segundo o Governo Regional).
Ponta Delgada, 18 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 19 de Março de 2018

segunda-feira, 19 de março de 2018

... nada de novo

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)




Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e também no blogue aqui neste blogue






(...) Podendo concordar com os princípios e preocupações que estão subjacentes às medidas anunciadas quer-me, no entanto, parecer que existem algumas insuficiências nesta reestruturação que foi anunciada. Falta, desde logo, um eixo para a Qualificação e Formação dos trabalhadores do setor. Vá-se lá saber porquê.
As medidas anunciadas denotam, uma vez mais, que o Governo Regional está a agir por reação, e que sobre o setor não tem uma visão política de futuro, apesar da sustentabilidade aparecer como uma grande preocupação e, mesmo aquilo que possa parecer novidade no discurso do Presidente do Governo Regional, ou seja, a introdução do conceito de sustentabilidade social traduzida na necessidade de uma Convenção Coletiva de Trabalho para o setor. Mas nem sequer isto é uma novidade pois, a Lei n.º 15/97, de 31 de Maio de 1997, proposta pelo PCP, consagra de entre outras medidas a obrigatoriedade de contrato de trabalho para os pescadores. Lei que nunca foi aplicada na Região, a não ser a comemoração do Dia do Pescador (31 de Maio) que a Lei também instituiu. (...)

sábado, 17 de março de 2018

da poesia e da luta, ou sobre a execução de Marielle Franco

Marielle Franco (imagem retirada da Internet)






Este foi o melhor texto que li sobre a morte de Marielle Franco






Não… Eles não a mataram. Eles não a matarão.

Morreu.
Morreu a preta da maré,
a negra fugida da senzala
que foi, sentar com “os dotô” na sala
e falar de igual pra igual com “os homi”.
A negra que burlou a fome de se saber,
que fez crescer dentro dela, o conhecimento.
Aquela, que por um momento de humanidade,
sonhou com a justiça, lutou por liberdade
e ousou ir mais alto,
do que permitia sua cor.
“Mas preta sabida, não pode!
Muito menos pobre! Não tem valor.”
Diziam as más línguas na multidão.
E ela ousou tirar seus pés do chão.
Morreu.
Morreu a “preta sem noção”,
que falava a verdade na cara do patrão,
que carregava a coragem, como bagagem,
no coração.
O tiro foi certo,
acertou com maldade,
ecoando seco no centro da cidade.

Anielli Carraro- Poeta de Volta Redonda

De vítima a agressora - crónicas radiofónicas

Ahed Tamimi (Imagem retirada da Internet)



Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 30 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui






De vítima a agressora

Ao longo destas semanas tenho abordado vários temas, mas julgo que, ainda em nenhum destes momentos que tenho partilhado consigo, lhe trouxe qualquer assunto da política internacional.
Alguma vez teria de ser, pois se bem se lembra no promocional que antecedeu estas crónicas radiofónicas tinha ficado o compromisso de que tudo, mas mesmo tudo aqui poderia ser abordado, sem tabus.
O assunto que trago hoje é complexo e sem fim à vista, aliás desde a minha meninice que o ouço ser tratado nos noticiários, nem sempre de forma imparcial, e tem-se perpetuado no tempo apesar das Resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão.
Ahed Tamimi (imagem retirada da Internet)
O que motivou este olhar sobre o conflito que dura e perdura na Palestina não é tanto a questão histórica, embora lhe deixe aqui dois apontamentos. Após a II Guerra Mundial, mais precisamente em 29 de Novembro de 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a divisão da Palestina em dois estados, um judeu e outro árabe. Mas como lhe disse a questão é complexa pois, o Estado árabe (a Palestina) não foi internacionalmente reconhecido, ao contrário do que se passou com o estado judeu (Israel) e, essa terá sido uma das razões, a par de outras questões como por exemplo a Declaração de Baulfour, de 1917, que estão na origem deste conflito sem fim à vista. Mas o tema de hoje sendo sobre a questão israelo palestiniana é sobre um acontecimento recente, embora velho nos procedimentos do exército ocupante dos territórios palestinianos. Ou seja, a detenção de crianças e jovens palestinianos pelo exército de Israel. Crianças e jovens que mais não fazem do que opor-se à ocupação do seu território e à violação do direito internacional por parte de Israel.
Uma jovem de 16 anos que desde criança, ao lado da família e com outras crianças e jovens se tem manifestado e oposto à presença dos colonatos judeus e do exército colonizador foi presa. Foi presa durante a noite, e está a ser julgada por um tribunal israelita. A jovem de seu nome Ahed Tamimi foi presa com mais 2 outras mulheres da sua família, uma delas a própria mãe, e está acusada de vários crimes de entre os quais a agressão a dois soldados israelitas. E de facto agrediu dois soldados judeus com pontapés e socos, o vídeo está por aí disponível no youtube para quem o quiser visionar.
Importa, contudo, contextualizar esse acontecimento para entender a agressão da jovem Aehd Tamimi aos dois soldados israelitas. A jovem vive numa pequena localidade de 500 habitantes cercada por colonatos judeus, os soldados encontravam-se no pátio da casa onde vive com os pais e o incidente deu-se depois dos soldados terem disparado sobre um jovem primo da adolescente palestiniana.
Esta contextualização é relevante pois quem visionar o vídeo não entende o comportamento da jovem e a passividade dos soldados.
Ahed Tamimi (imagem retirada da Internet)
Perguntará, com toda a razão, porque lhe trago esta estória, e eu dir-lhe-ei, Porque não tem sido notícia e, sobretudo, porque revela a dualidade de conduta e ação dos movimentos humanitários que face a situações idênticas, mas em contextos diferentes, se mobilizam na denúncia de situações análogas. Mas ao que parece, vá-se lá saber porquê, a jovem Aehd Tamimi não se enquadra como a vítima ideal para ser objeto de apoio internacional, designadamente dos movimentos feministas. Talvez, digo eu, porque esta corajosa jovem nasceu, segundo os critérios ocidentais, no local e no lado errado.
Ahed Tamimi é já um novo ícone da resistência palestiniana à ocupação e colonização que Israel, com o apoio dos Estados Unidos, tem levado a cabo na Palestina, mas a sua prisão e acusação não tem, inexplicavelmente, merecido um amplo movimento internacional de repúdio e condenação de mais este atentado de Israel contra jovens palestinianos.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 06 de Janeiro de 2017

quinta-feira, 15 de março de 2018

Cansado das câncios e admirando as mulheres que lutam

Marielle Franco (imagem retirada da Internet)
Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro e militante do PSOL foi assassinada, na noite de 14 de Março pp, com ela foi também assassinado Anderson Pedro Gomes. O alvo era a Marielle, mas nem por isso o nome de Anderson deve ser obliterado.
Fica a minha homenagem à mulher e ativista de esquerda, fica a minha homenagem ao Anderson, fica a minha homenagem e o reconhecimento a todos quantos, no Brasil e no Mundo, lutam por um Mundo melhor.



Rita Rato (imagem retirada da Internet) 
Uma das primeiras publicações que li, numa rede social, sobre o assassinato de Marielle foi a de Rita Rato e que transcrevo:
Há duas semanas escrevi n' A Visão sobre a mutilada "democracia" brasileira. Hoje, pelas piores e mais tristes razões, a realidade é implacável.
Primeiro foram camponeses do Movimento dos Sem Terra, depois dirigentes e activistas sindicais, ontem uma Vereadora do Rio de Janeiro. 
Marielle Franco seria relatora da comissão parlamentar sobre a intervenção militar no RJ.
Toda a solidariedade e força aos amigos e povo do Brasil.”

Fernanda Câncio (imagem retirada da Internet)

Outra das publicações, nas redes sociais, que tive oportunidade de ler sobre o assunto foi a de Fernanda Câncio que passo a transcrever:
“marielle era mulher, negra, feminista, política de esquerda, corajosa na denuncia da violencia de estado, nascida na favela e gay. o jackpot do ódio de direita. quatro tiros na cabeça. nao ha como negar o simbolismo desta execuçao. o brasil entrou num novo patamar esta madrugada.”



Dilma Rousseff (Imagem retirada da Internet)

Mais tarde li a publicação de Dilma Roussef sobre o assassinato de Marielle Franco que diz assim:
“Tristes dias para o país onde uma defensora dos direitos humanos é brutalmente assassinada. Lamento e repudio a morte da ativista Marielle Franco, vereadora pelo PSOL, e de Anderson Pedro Gomes, seu motorista.” 


Não vos vou maçar com mais citações. Gostaria, contudo, que atentassem ao que distingue as publicações de Rita Rato e Dilma Rousseff da publicação de Fernanda Câncio. Dir-me-ão que a publicação de Fernanda Câncio é mais completa. Para além de ser uma mulher de esquerda, o que se percebe nas 3 publicações. Marielle era negra, era feminista, era gay, e nasceu numa favela.
Não se tratando de uma notícia, nem do obituário, nem de uma nota biográfica diria que a Fernanda Câncio enfatizou 2 aspetos, dou-lhe os outros 2 de barato, que para o caso são irrelevantes, ou melhor, podem induzir algum ruído desnecessário para a essência da questão. Marielle nasceu numa favela e era gay. Isto é, mais ou menos, como ao referir-me a Fernanda Câncio, dizendo que é uma jornalista e cronista com evidente notoriedade na sociedade portuguesa, e depois acrescentar, que foi namorada de José Sócrates ou, quiçá, sua acompanhante ocasional. Para quê. Quero lá saber da vida privada da Fernanda Câncio, ou da orientação sexual de alguém. É irrelevante. Pelos vistos, para algumas(uns) notáveis jornalistas e cronistas da nossa praça, Não é.
A singeleza e rigor das publicações de Rita Rato e Dilma Rousseff a centrarem-se na essência. Fernanda Câncio a perder-se nos acessórios.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Março de 2018

quarta-feira, 14 de março de 2018

Agora é o tempo

Foto by Aníbal C. Pires
Os resultados das negociações dos sindicatos dos professores e educadores com o governo do PS são conhecidos. Passados quase 4 meses sobre a assinatura de uma declaração de compromisso, entre as partes, e mais de 3 meses sobre a aprovação, na Assembleia da República, de uma recomendação ao governo, que o Grupo Parlamentar do PS também aprovou, para que o tempo de serviço congelado fosse integralmente recuperado para efeitos de progressão na carreira docente, o governo do PS, liderado por António Costa, perdeu o pudor e veio dar o dito por não dito apresentando uma proposta, de todo inaceitável, para os educadores e professores.
As expetativas, pelo menos as minhas, de que o governo do PS mantivesse a palavra e houvesse um entendimento com as estruturas sindicais, sem que tivesse lugar um processo de luta eram baixas, porém, estaria longe de pensar que a insolência fosse tão longe.
Depois da declaração de compromisso e da recomendação aprovada na AR que claramente vinculam o governo da República à contagem integral, para progressão na carreira docente, do tempo de serviço congelado, mais de 9 anos para dos docentes do continente, tenha sido apresentada na mesa negocial a recuperação de apenas 2 anos e 10 meses. É o PS a voltar às raízes que caraterizaram os governos de José Sócrates.
Foto by Aníbal C. Pires
Pode até pensar-se que os sindicatos, designadamente a FENPROF, partem de uma posição extremada, mas não é o caso. É claro que os educadores e professores e a FENPROF não abdicam da recuperação integral do tempo de serviço, mas o que propõem é que o reposicionamento na carreira seja feito faseadamente para que o impacto orçamental seja diluído ao longo de 5 anos (até 2023). Eu diria que se existe dinheiro para perdões fiscais e outras manigâncias moldadas para servir espúrios interesses e que atingem valores de milhares de milhões de euros, então não me venham dizer que não há dinheiro, mesmo sem faseamento, para reposicionar todos os docentes contando-lhes integralmente o tempo de serviço.
De tempos a tempos o governo de António Costa vai mostrando qual é a sua verdadeira natureza. Não tenhamos ilusões o PS não abandonou o (seu) projeto político que pouco difere dos projetos políticos da direita portuguesa cuja dimensão o PSD e o CDS/PP, tão bem demonstraram entre 2011 e 2015. Não tenhamos qualquer ilusão, todas as medidas que romperam com as opções políticas do anterior governo devem-se à conjuntura política e parlamentar que permitiu ao PS chegar ao poder, a recuperação de direitos e rendimentos não é uma vontade expressa do governo de António Costa, o governo do PS a isso tem sido obrigado por força dos acordos bilaterais com o PCP, o PEV e o BE, mas sobretudo resultam da luta travada pelos trabalhadores e pelas populações.
E chegou agora a vez dos educadores e professores mostrarem ao governo de António Costa e ao PS que têm de honrar os compromissos que assumiram, e essa demonstração tem de ser feita com luta, esta semana greves por regiões, depois se verá. Mas pode António Costa contar que os educadores e professores não vão desarmar, nem agora nem em 2019 quando lhes vier pedir apoio eleitoral.

Ponta Delgada, 12 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 13 de Março de 2018

terça-feira, 13 de março de 2018

... do despudor do PS

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)








Excerto de texto a publicar na imprensa regional e no blogue momentos













(...) As expetativas, pelo menos as minhas, de que o governo do PS mantivesse a palavra e houvesse um entendimento com as estruturas sindicais, sem que tivesse lugar um processo de luta eram baixas, porém, estaria longe de pensar que a insolência fosse tão longe. 
Depois da declaração de compromisso e da recomendação aprovada na AR que claramente vinculam o governo da República à contagem integral, para progressão na carreira docente, do tempo de serviço congelado, mais de 9 anos para dos docentes do continente, tenha sido apresentada na mesa negocial a recuperação de apenas 2 anos e 10 meses. É o PS a voltar às raízes que caraterizaram os governos de José Sócrates.
Pode até pensar-se que os sindicatos, designadamente a FENPROF, partem de uma posição extremada, mas não é o caso. É claro que os educadores e professores e a FENPROF não abdicam da recuperação integral do tempo de serviço, mas o que propõem é que o reposicionamento na carreira seja feito faseadamente para que o impacto orçamental seja diluído ao longo de 5 anos (até 2023). (...)

segunda-feira, 12 de março de 2018

I Don't Belong Here, O drama da deportação

Imagem retirada da internet
Já tinha ouvido falar do projeto e dos produtos culturais que daí resultaram (a encenação de uma peça de teatro e um filme) e, conheço com relativa proximidade o drama das deportações. Por razões diversas não tive oportunidade de assistir à representação teatral, mas ontem tive ocasião de ver o filme de Paulo Abreu que, não pretendendo substituir-se à peça de teatro encenada por Dinarte Branco, nos dá conta de como tudo começou e como se materializou. O filme, I Don't Belong Here, constitui-se num excelente documental em que um grupo de deportados olha, de forma crítica, para o seu percurso de vida, para os estigmas que pendem sobre si, mas também para a sociedade para onde compulsivamente retornaram e onde não querem, em definitivo, ficar. Nasceram aqui, mas estão moldados por outras geografias culturais e físicas, Não pertencem a esta.
Esta abordagem pela arte ao drama das deportações tem, na sua génese, acompanhamento e concretização, Nuno da Costa Santos como um dos seus principais mentores. Afinal o Nuno é um açoriano de nascimento, um cidadão do mundo atento ao que se passa à sua volta, seja no lugar confinado de uma ilha, seja na vastidão dos espaços continentais. Estas condições não lhe conferem nenhuma particular obrigação, mas não tenho dúvidas que contribuíram decisivamente para o sucesso desta empreitada. Só posso reconhecer mérito a esta iniciativa e ao empenho do Nuno e de toda a equipa que, sem impor roteiros e guiões, soube aceitar, e compreender os contributos e iniciativas dos protagonistas feitos atores, pela mão do encenador Dinarte Branco.
São estórias de percursos da migração interrompidos de forma brutal, dramas pessoais e familiares irresolúveis. Não há como retornar à matriz vivencial onde foram moldados e essa será, porventura, a maior das penas que têm de expiar.
A deportação de cidadãos pelos Estados Unidos e pelo Canadá não é exclusiva destes países. A lei dos estrangeiros em Portugal mantém a designada pena acessória de expulsão, ou seja, a deportação. Existem diferenças substantivas no quadro legal português que a diferencia positivamente dos referidos países, mas em Portugal também há lugar à deportação de cidadãos estrangeiros. Esta referência não pretende justificar nada, é apenas uma menção factual.
A deportação de centenas de cidadãos produz, nos lugares para onde são encaminhados, fenómenos de não aceitação. Desde logo, por parte dos cidadãos deportados que não se identificam nem com o espaço, nem com os comportamentos sociais e culturais, mas também do tecido social do território de acolhimento onde se manifestam alguns e naturais comportamentos de rejeição. Por muito despidos de preconceitos que sejamos, não tenhamos ilusões sobre isso, olhamos para o outro, neste caso alguém que cometeu um crime num país estrangeiro, esteve preso e foi deportado, como um cidadão indesejado, um marginal.

Imagem retirada da Internet
Quando a deportação de centenas de cidadãos é encaminhada para o território confinado de uma ilha esses fenómenos agravam-se exponencialmente. Não é assim de estranhar a recorrente utilização da expressão o rochedo, numa clara alusão a Alcatraz, quando os deportados se referem à ilha onde vivem, neste caso à ilha açoriana de S. Miguel e não à ilha de Alcatraz situada na baía de São Francisco, onde existiu um presídio e hoje é um dos centros de atração turística daquela cidade da Califórnia.
As sociedades insulares têm caraterísticas muito peculiares às quais, neste caso, não vou atribuir nenhuma relevância para justificar as dificuldades que sentem os deportados em se integrarem, bem assim como o sentimento de rejeição social face aos cidadãos deportados. No caso das ilhas açorianas será a sua dimensão territorial e, em particular, a sua reduzida dimensão populacional que mais dificulta a integração e a aceitação dos deportados. Esta asserção nada tem de científico, resulta da interpretação que faço das próprias palavras dos protagonistas também eles os atores quando afirmam, durante a sua estadia em Lisboa, que ali não se sentem discriminados, nem olhados como marginais. A dimensão populacional e a urbe lisboeta aproximam-nos da matriz onde foram moldados, ali sentem-se como se fizessem parte da paisagem urbana, na ilha sentem que serão eternamente excluídos.
A temática da deportação faz, naturalmente, parte da agenda académica dos estudos sobre as migrações e, existem variados ensaios e trabalhos sobre o assunto. Importaria que esta agenda fosse introduzida na ação política e diplomática pois, trata-se de uma questão humanitária que resulta de uma injustiça inaceitável – cumprir uma dupla (deportação), ou mesmo tripla pena (impedimento de regressar) pelo mesmo crime, sendo que a segunda e a terceira inviabilizam a reinserção social e laboral na sociedade pela qual nutrem um forte sentimento de pertença.
A deportação afeta, no essencial, os cidadãos das populações migrantes social, cultural e economicamente mais fragilizadas, por isso emigraram e em virtude disso foram deportados. Nem todos os percursos migratórios são estórias de sucesso. E se a principal responsabilidade é individual, pelo comportamento ilícito e por não terem, em devido tempo, obtido a naturalização no país de acolhimento, não podemos, nem devemos esquecer que as políticas nacionais para a emigração, nem sempre promovem a integração plena nos países recetores de migrantes portugueses. Estas opções políticas responsabilizam-nos coletivamente pelo drama da deportação.
Ponta Delgada, 11 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 12 de Março de 2018

domingo, 11 de março de 2018

... da não pertença

Foto by Madalena Pires (2018)







Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional e também aqui, no momentos











(...) O filme, I Don't Belong Here, constitui-se num excelente documental em que um grupo de deportados olha, de forma crítica, para o seu percurso de vida, para os estigmas que pendem sobre si, mas também para a sociedade para onde compulsivamente retornaram e onde não querem, em definitivo, ficar. Nasceram aqui, mas estão moldados por outras geografias culturais e físicas, Não pertencem a esta.
Esta abordagem pela arte ao drama das deportações tem, na sua génese, acompanhamento e concretização, Nuno da Costa Santos como um dos seus principais mentores. Afinal o Nuno é um açoriano de nascimento, um cidadão do mundo atento ao que se passa à sua volta, seja no lugar confinado de uma ilha, seja na vastidão dos espaços continentais. Estas condições não lhe conferem nenhuma particular obrigação, mas não tenho dúvidas que contribuíram decisivamente para o sucesso desta empreitada. (...)

sábado, 10 de março de 2018

Passado, presente e futuro - crónicas radiofónicas

Foto by Madalena Pires (2017)






Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 30 de Dezembro de 2017 que pode ser ouvida aqui








Passado, presente e futuro

No limiar de um novo ano não há como evitar algumas referências à data em que o calendário assinala o seu início.
Não vou fazer balanços, nem tecer considerações sobre o ano que se avizinha, mas não posso deixar de lhe desejar, como desejo para mim, que 2018 seja um ano para concretizar as realizações pessoais e profissionais pelas quais tem lutado e que tanto quer.
Seja feliz e haja saúde.
Cumprido que está o ritual pouco mais tenho para lhe dizer. Cumpri o ritual, mas não foi uma obrigação, nem as parcas palavras estão despojadas de sentimento pois, se assim fosse tinha-me socorrido da fórmula tradicional para lhe desejar um Bom Ano.
Posso não ter sido muito criativo na forma, mas o seu bem-estar, a sua felicidade serão, julgo eu, a sua maior expetativa para 2018, e mesmo que se sinta bem consigo e com os outros, ou seja, mesmo que o seu estado seja de felicidade peço-lhe que entenda os meus votos como o prolongamento, diria mesmo, a perpetuação dessa felicidade.
Hoje, como convém, por estes dias de encontros e reencontros, por estes dias de despedida do velho e de preparação das boas vindas ao novo não vou prolongar este momento. Coisas há mais importantes para fazer.
Foto by Aníbal C. Pires (2016)
Gosto de estar por aqui e gosto de estar consigo, mas teremos muitas outras oportunidades de conversar ao longo do próximo ano. Hoje é tempo de se preparar para transpor o limiar do Ano Novo. Mas não vou embora sem lhe deixar algumas palavras que versam sobre um virtual instante em que nos encontramos com o passado, o presente e o futuro. Sim porque a passagem de ano é assim como um brevíssimo momento em que o passado, o presente e o futuro se encontram connosco, e é sobre esse potencial instante que lhe deixo estas palavras que escrevi na noite da passagem do ano de 2013 para o ano de 2014 e ao qual dei o título, Novo ano, novo tempo

É o tempo
De louvar o velho
É o tempo
De renovar a esperança
E o tempo, esse tempo
É hoje
Presente, passado e futuro
Enleados
Com o olhar no tempo vindouro
Sem olvidar
O tempo passado

Hoje
É o tempo
Onde o passado, o presente e o futuro
Num fátuo momento se enlaçam
Para logo se apartarem
Efémero abraço esse, o do tempo
Passado, presente e futuro

Nesta fronteira do pretérito e do porvir
Celebremos o futuro
Com o passado presente

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 30 de Dezembro de 2017

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os sonhos não se aprisionam

Imagem retirada da Internet
Quantas vezes lhe predestinaram o fim, Não sei, mas foram tantas e tantas que acabei por lhes perder o conto. Não se extinguiu porque subsistem as razões pelas quais foi criado e não abdicou, nem abdica dos princípios que lhe conferem uma natureza diferente, é um partido revolucionário que luta pelo povo e com o povo.
Não sucumbiu durante a ditadura, nem se vergou perante o terrorismo bombista e incendiário, como não se curva perante as opiniões e pressões que, ciclicamente, lhe querem ditar a extinção e assinar o óbito.
Não vale a pena insistir. Os 97 anos da sua existência ensinam-nos que o seu compromisso é com o futuro. E este é um compromisso inquebrantável. Os sonhos não se aprisionam, os comunistas portugueses têm um sonho e o sonho tem Partido.
Imagem retirada da Internet
O Partido Comunista Português(PCP) celebra este ano o seu 97.º aniversário da sua existência. Mas mais do que olhar para o passado, que não deve nem pode ser esquecido, o PCP é um Partido do presente com um projeto de futuro.
O papel do PCP na atualidade política nacional, por mais que se pretenda diminuir, tem sido e continuará a ser o garante da defesa dos trabalhadores e do povo português, foi com a iniciativa e o contributo do PCP que se abriu caminho a uma solução governativa que colocou um ponto final na continuidade das políticas com que o PSD e o CDS/PP delapidaram o país, desvalorizaram os trabalhadores e abandonaram o nosso povo à sua sorte. Foi com o contributo e a iniciativa do PCP, não tenhamos ilusões por mais ilusionistas que por aí pululem, que se deu início ao processo de reposição direitos e rendimentos, com os efeitos, diretos e indiretos, que são comprovados pela melhoria dos indicadores sociais e económicos que, apesar dos esforços da direita para os menorizar, são reconhecidos interna e externamente.
Imagem retirada da Internet
A capacidade de intervenção e a influência do PCP não dependem só da sua representação institucional, mas sem maiorias absolutas, em 2019, e com o reforço da sua votação e do número de deputados eleitos maior será a sua influência e capacidade de contribuir para as soluções políticas que o país necessita para se libertar das pressões externas e dos oligopólios financeiros que dominam e influenciam a política da União Europeia.
O PCP confia e os portugueses sabem e confiam que este Partido não lhes falta na vanguarda das lutas do presente sempre com os olhos postos no futuro. Um futuro que permita construir uma política patriótica e de esquerda que devolva a Portugal a sua soberania, e ao seu povo a dignidade.
O PCP mantém-se fiel aos seus princípios ideológicos, só o desconhecimento e a má fé podem dar sustentação aos epítetos de sectário e dogmático pois, é a própria matriz ideológica que lhe confere a natureza e identidade que o contraria, ou seja, os comunistas não querem antecipar dogmaticamente o mundo, mas encontrar, a partir da análise deste mundo velho, o mundo novo.
Ponta Delgada, 06 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 07 de Março de 2018

terça-feira, 6 de março de 2018

... do presente e do futuro






Excerto de texto a publicar amanhã na imprensa regional e aqui, no blogue momentos





(...) O papel do PCP na atualidade política nacional, por mais que se pretenda diminuir, tem sido e continuará a ser o garante da defesa dos trabalhadores e do povo português, foi com a iniciativa e o contributo do PCP que se abriu caminho a uma solução governativa que colocou um ponto final na continuidade das políticas com que o PSD e o CDS/PP delapidaram o país, desvalorizaram os trabalhadores e abandonaram o nosso povo à sua sorte. Foi com o contributo e a iniciativa do PCP, não tenhamos ilusões por mais ilusionistas que por aí pululem, que se deu início ao processo de reposição direitos e rendimentos, com os efeitos, diretos e indiretos, que são comprovados pela melhoria dos indicadores sociais e económicos que, apesar dos esforços da direita para os menorizar, são reconhecidos interna e externamente. (...)

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os atalhos da privatização

Imagem retirada da Internet
Estando em curso o processo de privatização parcial de uma empresa pública regional, em minha opinião, estratégica para a Região e, como tal, devia permanecer do domínio público da Região. Mas esta minha opinião não é propriamente uma novidade, nem é sobre a SATA de que trata esta reflexão que aqui partilho. Também não é sobre a triste estória da privatização do Banco Comercial dos Açores (BCA), sobre a qual ainda se ouvem profundos e audíveis lamentos com origem nos mais diversos setores da sociedade açoriana.
A Portugal Telecom(PT) foi fundada em 1994 juntando a TP, TLP e a TDP, em 1995, ano em que foi objeto da primeira fase de privatização, tinha também absorvido a Rádio Marconi. Seguiram-se uma segunda (1996), uma terceira (1997), uma quarta 1999) e uma quinta fase de privatização (2000). No fim deste processo, que não ficou por aqui, restavam ao Estado português 500 ações Golden Share. Ações entregues em 2011, digamos a preço de saldo, aos acionistas privados. Nada disto será novidade e a estória com todos os pormenores é, no essencial, do domínio público e, como tal, não vou perder tempo a transcrever todos os detalhes.
Chegados aqui importa saber às mãos de quem foi parar a maior operadora de telecomunicações do país, empresa líder de mercado na televisão por cabo, operadora única da TDT, detentora da rede de fibra ótica nacional e, também do SIRESP. Pois é, a multinacional ALTICE, dona da PT, até controla o sistema nacional de comunicações de emergência. Ou seja, a PT uma empresa nacional e estratégica no plano das telecomunicações foi parar às mãos do capital apátrida, cujo objetivo não é certamente satisfazer os interesses nacionais.
Os processos de privatização por muito que se anunciem transparentes têm destas coisas, há sempre uns atalhos que escapam às nobres declarações de princípio e o desfecho é sempre o mesmo. Não sei porquê veio-me agora à lembrança o caso dos CTT, outro exemplo, aos quais se podem juntar outros, de delapidação do património nacional sem que daí tenha resultado o que quer que seja de bom para os portugueses e para Portugal. O país vai empobrecendo e os oligopólios financeiros engordando e, sobretudo, controlando aquilo que devia ser controlado pelo povo português.

Imagem retirada da Internet
A ALTICE nunca escondeu ao que vinha e agora pretende, com a aquisição do Grupo Media Capital, estender os tentáculos do polvo. A concretização desta estratégia da ALTICE não pode, nem deve ficar fora do debate político e público. Tratar-se-ia de associar a todas as dimensões estratégicas, que já domina em Portugal, canais de televisão abertos e de cabo, rádios, portal da internet e produção de conteúdos. O que é que política tem a ver com esta operação comercial do domínio privado, Porque, quer se goste, quer não se goste, viola princípios constitucionais que se relacionam com a concentração de propriedade e titularidade dos meios de comunicação social (art.º 38 e 39 da Constituição da República Portuguesa).
Julgo que está bom de ver que esta concentração de poder, domínio das principais plataformas mediáticas e o poder quase absoluto nas telecomunicações, podem ter como resultado várias implicações e condicionalismos que em nada favorecem a liberdade de informação e, em última instância, o próprio regime democrático. Esta questão não é um negócio privado no qual não somos tidos nem achados. Esta é uma questão de interesse público à qual não podemos, nem devemos ficar indiferentes.
Ponta Delgada, 04 de Março de 2018

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 05 de Março de 2018

... da privataria

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)






Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional e também aqui, no momentos








(...) Chegados aqui importa saber às mãos de quem foi parar a maior operadora de telecomunicações do país, empresa líder de mercado na televisão por cabo, operadora única da TDT, detentora da rede de fibra ótica nacional e, também do SIRESP. Pois é, a multinacional ALTICE, dona da PT, até controla o sistema nacional de comunicações de emergência. Ou seja, a PT uma empresa nacional e estratégica no plano das telecomunicações foi parar às mãos do capital apátrida, cujo objetivo não é certamente satisfazer os interesses nacionais. 
Os processos de privatização por muito que se anunciem transparentes têm destas coisas, há sempre uns atalhos que escapam às nobres declarações de princípio e o desfecho é sempre o mesmo. Não sei porquê veio-me agora à lembrança o caso dos CTT, outro exemplo, aos quais se podem juntar outros, de delapidação do património nacional sem que daí tenha resultado o que quer que seja de bom para os portugueses e para Portugal. O país vai empobrecendo e os oligopólios financeiros engordando e, sobretudo, controlando aquilo que devia ser controlado pelo povo português. (...)