segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Promessa cumprida, pelo menos tentada


Estava prometido!
Aconteceu hoje, vésperas de viajar até ao Pico pois tive receio que a majestática montanha me embargasse as palavras.
Peço aos picarotos que me desculpem a ousadia mas trata-se de cumprir uma promessa.

Ilha Maior
Ilha de néctares,
Pedras negras e
Vinhedos a sazonar nos currais

Ilha de navegadores
Genuínos,
De Cardeais da literatura e da fé
De homens: agricultores, baleeiros e
Construtores de letras imperecíveis
Como a lava que os pariu

Ilha de gestas historiadas
No recato da Calheta de Nesquim
Remanso inspirador
Na toada do mar e da terra
Melopeia que só os ilhéus alcançam
Num foro ímpar da telúrica natureza

Ilha do Cais da saudade,
De partida e de chegada
De um povo moldado
No sonho de partir
Querendo ficar
No resguardo da Montanha
Sensual e maternal
Majestosa
Presente em cada rincão da ilha
Ao alcance de um olhar

Ilha majestosa e presente
Para os que ficaram
Ilha majestosa e presente
Nos que procuraram o sonho
Para lá do horizonte

Ilha de mistérios
Ilha Maior

domingo, 29 de novembro de 2009

Marafona

As “marafonas” de Monsanto são bonecas de trapos com uma estrutura feita com dois paus unidos em cruz.Nasceram, como muitos outros usos, costumes e objectos simbólicos, da tradição pagã.
As “marafonas” são usadas, pelas raparigas em idade casadoura, na Festa do Castelo (ou das cruzes), que se realizava no dia 3 de Maio de cada ano e que actualmente é transferida para o Domingo seguinte quando não se dá a feliz coincidência.
Depois da festa a “marafona” é colocada na cama pois, reza a lenda, que afugenta as trovoadas.
No dia do casamento é colocada por debaixo da cama por estar associada à felicidade e fertilidade.
A “marafona” das imagens continua cá por casa, não debaixo da cama mas ainda no espaço do quarto comum.

Arianna Savall e Pedro Estevan

Fui rebuscar uns temas musicais que há muito não ouvia.
Um deles de Pedro Estevan, "El aroma del tiempo". Na procura de um dos temas deste trabalho de Esteban encontrei este outro, que não conhecia e que aqui partilho convosco nesta tarde de Domingo dada à tranquilidade e à reflexão.

Intenções para 2010

O Plano e o Orçamento de 2009 foram concebidos para fazer face à crise internacional e aos efeitos que, muito antes de serem assumidos pelo Governo Regional, os trabalhadores, as famílias e as empresas já de há muito sentiam e sofriam.
Passado que é cerca de um ano as medidas de conjuntura adoptadas pelo governo de Carlos César vieram a verificar-se ineficazes pela insuficiência e unilateralidade.
Faltaram as acções concretas para proteger a pressão que a crise colocava e coloca sobre os rendimentos e sobre os direitos dos trabalhadores açorianos, faltaram os investimentos nos sectores produtivos, faltaram e continuam a faltar as medidas estruturais que, a par das medidas de conjuntura possam, senão eliminar, pelo menos minimizar os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional.
Na era da globalização é tempo da economia regional ultrapassar o seu carácter periférico e de forte dependência externa e a opção para a sua superação não é, seguramente, a aplicação linear de modelos de mercados de escala e de competitividade indiferenciada.
O desenvolvimento regional terá de se ancorar na afirmação da singularidade e qualidade dos produtos, bens e serviços aqui produzidos, ou seja, afirmar a diferença exigindo um tratamento que nos permita ultrapassar de forma permanente constrangimentos igualmente duradouros.
O Plano e Orçamento para 2010 repõem, no essencial, as mesmas opções e medidas conjunturais para o actual contexto de crise económica, cujos efeitos, se agravam a cada dia – aumento do desemprego, salários em atraso, lay-off, crescente aumento das dificuldades das micro, pequenas e médias empresas. Quanto às questões estruturantes e que poderiam contrariar de uma forma efectiva os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional, medidas que corresponderiam a opções de ruptura, essas continuam adiadas.
Uma rede integrada e complementar de transportes marítimos e aéreos de passageiros e mercadorias, a definitiva aposta nos recursos humanos através da elevação das suas qualificações profissionais e académicas, a salvaguarda do sector produtivo enquanto factor de sustentabilidade da economia regional e a adequação do nosso modelo económico à nossa real dimensão, abandonando de uma vez por todas a peregrina ideia de procurar por via da concentração dar dimensão e escala de mercado à economia regional.
Do Plano e Orçamento espera-se, legitimamente, que assinale escolhas políticas, que defina prioridades, que trace rumos concretos, que resolva problemas estruturais no sentido de uma determinada visão do desenvolvimento, aguarda-se que dê também respostas a problemas imediatos e dê passos decididos para superar dificuldades de conjuntura.
Mas estas expectativas saíram uma vez mais goradas, o Plano e o Orçamento para 2010 não dão resposta a um conjunto de questões essenciais para as açorianas e os açorianos e, sobretudo, para a adopção e implementação de um modelo de desenvolvimento sustentável, social e economicamente mais justo. Não são traçados novos rumos, em vez disso, apenas dispersa apoios para consolidar dependências e clientelas e satisfazer corporações.
Não se enfrentam os problemas conjunturais e estruturais e, uma vez mais, apenas tenta aplicar paliativos para adiar dificuldades.
Este Orçamento e o Plano limita-se a perpetuar a mesma receita de sempre, desejando que esta, por simples acto de vontade, se revele como o que nunca foi: eficaz para garantir o desenvolvimento harmónico dos Açores.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 28 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Por favor, quero um "gin"

Quase há uma semana na cidade da Horta e ainda não houve um momento para que esta imagem se transformasse numa agradável realidade.

O tradicional “gin do Peter” tem sido, para já e apenas, uma miragem.
Uma ilusão alimentada pelo desejo, diria mesmo pela necessidade de alguma descompressão e descontracção naquele espaço mítico onde se cruzam estórias de um Mundo que é mar mais do que terra.
Estórias que alimentam o porvir numa construção permanente de utopias, incontornavelmente, concebidas à volta desse imenso oceano de sonhos e oportunidades e… quantas e quantas vezes sustentadas pelas propriedades do seu fabuloso e lendário “gin”.

Mais do mesmo

O Plano e Orçamento para 2010 propostos pelo Governo Regional continuam sem dar resposta a um conjunto de questões essenciais para os açorianos e para o desenvolvimento da Região e, ao contrário das expectativas criadas, o emprego e o investimento público nos sectores produtivos não têm a tradução que o discurso oficial fazia crer, quer nas medidas quer nos recursos financeiros que lhes são afectos. Afinal, as prioridades no emprego e no investimento público que têm vindo a ser anunciados, não passam disso mesmo: anúncios e propaganda.
As opções e prioridades consagradas nestes documentos demonstram a incapacidade do PS Açores em adaptar as opções políticas aos complexos tempos de crise que vivemos e insistem num modelo económico que caminha a passos largos para insustentabilidade.
Perante as dificuldades da produção regional e o estrangulamento da criação de riqueza nos Açores, o que o Governo se propõe é a continuidade, diria mesmo, o aprofundamento das políticas que visam o desmantelamento no sector produtivo.
Perante a quebra dos rendimentos e consequente retracção do consumo, o Governo continua a não propor medidas que possam aumentar, de forma directa, o rendimento disponível dos açorianos, bem como reduzir os custos de contexto no nosso mercado interno.
Perante a progressão cavalgante do desemprego, o governo reduz as verbas destinadas aos programas de emprego e nada propõe para o fomento e defesa do emprego.
Perante a necessidade da repartição socialmente equilibrada das dificuldades mas também dos rendimentos, o que o Governo propõe são sacrifícios para os mesmos!
Apesar de assumir a necessidade de revitalizar a nossa economia, estimulando a produção e o comércio de bens e serviços a verdade é que, para além de não se vislumbrarem medidas e investimentos decisivos, como seriam, por exemplo, a redução significativa dos custos dos transportes marítimos e aéreos, continuam, ao invés disso, a direccionar-se milhões e milhões de euros para a cessação da actividade agrícola e piscatória e para o resgate leiteiro!
Apesar de uma proclamada “prioridade ao emprego”, a verdade é esta parece estar muito mais em termos do princípio do que propriamente em medidas concretas de eficácia atestada. O emprego era já a questão prioritária em 2009, sem que se tenham sentido quaisquer consequências palpáveis em termos de resultados, bem pelo contrário o desemprego cresceu assustadoramente. Para piorar a situação, os programas específicos para esta área apresentam uma redução comparativa acentuada de investimento previsto, relativamente ao ano anterior.
Continuam a não se vislumbrar medidas que, para além de fomentarem a criação de emprego, possam proteger o emprego existente. Faltam as medidas para combater as dificuldades das pequenas e médias empresas, que constituem o essencial do tecido empresarial da Região.
Faltam as medidas conjunturais para debelar os efeitos da crise e, com 2013 no horizonte faltam, ainda, as medidas estruturantes para ultrapassar os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 25 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Prestar contas

No passado dia 17 de Novembro passou um ano sobre a tomada de posse dos deputados eleitos nas eleições regionais de Outubro de 2008 é, por conseguinte, tempo de algum balanço e prestação de contas aos eleitores que depositaram o seu voto e a sua confiança na CDU Açores.
Pese o facto novo introduzido pela nova e mais plural composição do Parlamento Regional, a existência de uma maioria absoluta do Partido Socialista, não permitiu dar os passos necessários para inverter essa situação, e permitiu ao governo Regional continuar a exercer uma política que objectivamente nos tem afastado da coesão e de um modelo de desenvolvimento sustentável. O governo regional encontrou sempre uma oposição firme e determinada do PCP Açores que, com as limitações da sua representação parlamentar, procurou sempre contrariar as medidas mais gravosas e, simultaneamente, propor rumos alternativos para a nossa Região.
A Representação Parlamentar do PCP Açores, eleita na candidatura da CDU, tem tido uma presença ímpar tendo apresentado, no primeiro ano da legislatura, 17 requerimentos, 8 votos, 5 Projectos de Resolução, 2 Ante-projectos de Lei e 1 Projecto de Decreto Legislativo Regional e realizado mais de 120 declarações políticas e intervenções em plenário, sobre as mais diversas questões e propostas.
Mas mais importante do que o aspecto quantitativo, o trabalho da Representação Parlamentar do PCP Açores deu corpo à denúncia e fiscalização das políticas do governo, ao combate às suas ofensivas políticas e legislativas e à apresentação de propostas alternativas para resolver os problemas da Região.
Assim, o PCP Açores apresentou requerimentos e perguntas ao Governo sobre problemas urbanos da Freguesia de Santa Clara, em São Miguel, sobre o sistema de bolsas complementares aos alunos do ensino superior e secundário, sobre o encerramento de lojas da SATA nas ilhas de menor dimensão, sobre o Parque de Exposições da Terceira, sobre problemas portuários em São Jorge, sobre o serviço de transporte marítimo de passageiros entre Pico, São Jorge e Faial, sobre o aeroporto de Santa Maria, sobre a Escola Profissional das Capelas e sobre a nova matriz curricular do ensino Básico, entre outros.
Desenvolvendo a sua actividade num quadro complexo, agravado pela enorme redução de meios e apoios parlamentares imposta pela maioria absoluta do PS no início do mandato, a Representação Parlamentar do PCP Açores conseguiu corporizar a importância e justeza do seu projecto alternativo e a validade do reconhecimento eleitoral que lhe foi dado pelos Açorianos.
A Representação Parlamentar do PCP Açores, apesar da sua dimensão limitada, conseguiu ser uma oposição consequente e com consequência, tendo feito aprovar algumas das suas propostas das quais saliento:
- A adopção de medidas cautelares e a classificação do Castelinho de Santa Clara, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, como imóvel de interesse público;
- O aumento das comparticipações aos doentes deslocados;
- A criação de um Plano Regional de Combate à Precariedade, Subemprego e Trabalho Ilegal;
- A criação do Centro de Adictologia da Horta;
- O reforço de verbas para os municípios poderem intervir directamente em situações de carência habitacional urgente valorizando, assim o papel de proximidade do Poder Local.
O trabalho parlamentar desenvolvido está ancorado no conhecimento directo da realidade concreta das nove ilhas dos Açores e no aprofundamento da ligação às populações tendo para isso sido efectuadas visitas oficiais a todos os círculos eleitorais da Região.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 20 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 22 de novembro de 2009

Realismo ou pragmatismo

“Este país está pronto para arder!” Foi com estas palavras que um jovem se referiu a Portugal tendo ainda acrescentado que as acendalhas podiam ser mesmo os processos judiciais que correm interminavelmente até chegarem à vara dos tribunais e, quando aí chegam percorrem outro tanto tempo até ao seu desfecho. Isto quando chega a haver um desenlace pois, como muito bem sabemos, há sempre um risco real de tudo se perder no tempo.
Bem procurei encontrar argumentos que contrariassem esta ideia tão negativa do seu próprio país, mas não foi fácil. Na falta de argumentos sobre o presente que contribuíssem para perspectivar um futuro auspicioso, tive de recorrer ao passado o que, está bom de ver, não chegou para convencer o meu jovem interlocutor, que me foi informando que, logo que chegue o momento, pretende procurar outros destinos onde a história não seja apenas a recordação de uma epopeia marítima, mas um processo de contínua construção e transformação.
O jovem atento ao que se passa no seu país tem fortes razões para estar descontente. Mas, mais do que as suas insatisfações pessoais, o que me deixou estupefacto foi a argúcia com que desmontou as indignadas declarações de José Sócrates à comunicação social quando este, há uma semana atrás, se referia ao facto de estar a ser “vítima” de escutas ligado ao caso “Face Oculta” e as posteriores declarações de dois dos seus homens de mão, Vieira da Silva e Santos Silva.
“Esses gajos devem julgar que somos estúpidos! Claro que não era o José Sócrates que estava a ser escutado, mas sim o seu amigo Armando Vara e outros quejandos. As gravações das escutas incluem o Sócrates porque, tal como ele reconheceu, falou por diversas vezes com o Vara e vá-se lá saber com quem mais dos restantes envolvidos.”
Pensei cá para comigo: então não é que o miúdo é capaz de ter razão? Aliás, a forma como o primeiro-ministro colocou a questão, pressionando o Procurador e o Presidente do Supremo, a cirúrgica intervenção de Vieira da Silva rotulando o caso de “espionagem política” e, por fim, a entrevista de Santos Silva à estação de televisão SIC, onde subscreveu as declarações do actual Ministro da Economia e ainda afirmou que “a escuta pela forma sistemática como decorreu configurava uma flagrante violação da Lei”, não aconteceram por acaso e não são inócuas.
Estes factos mais não pretendem do que criar um clima de vitimização à volta do Primeiro-Ministro e do seu governo e, uma vez mais, pôr em causa a independência do poder judicial, exercendo uma forte pressão política e mediática sobre o Ministério Público.
É preciso acreditar que é possível ultrapassar não só a crise, mas também este ciclo de mediocridade! Disse eu, já falho de outros argumentos, num derradeiro esforço para o jovem mudar de opinião. Esforço que não passou disso mesmo, pois foi em vão e nada demoveu o jovem que, a terminar, me voltou a surpreender com o seu racionalismo: “ Se é uma questão de fé, não tem discussão. O senhor fique lá com a sua convicção, que eu fico com a minha razão e vou procurar o meu sonho noutras paragens, como o fizeram muitos e muitos outros portugueses ao longo dos nossos 900 anos de história”.
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 18 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 21 de novembro de 2009

No Sul da Macaronésia

Dos céus da Macaronésia(*) em viagem do Sul ficam alguma imagens aéreas.


Cabo Verde, Ilha do Sal, após a descolagem do Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, vista para Palmeira.


Cabo Verde, Ilha do Sal, costa Norte, rumo às Canárias.


No sobrevoo da Gran Canária, vista para Tenerife e mais além La Gomera.


Canárias, sobrevoando a Gran Canária.

Canárias, sobrevoando a Gran Canaria rumo a Norte.
(*) Os arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde constituem esta região dispersa pelo Atlântico Norte que, para além da insularidade, têm em comum algumas características geográficas, geológicas e biológicas que estiveram na origem da sua ‘classificação’, como região da Macaronésia (Ilhas Afortunadas - Nome resultante do grego – makáron => feliz, afortunado; nesoi => ilhas – a designação é atribuída ao geógrafo e botânico inglês, Philip Baker Webb, no século XIX.
A geografia e a biologia ditaram a designação da região da Macaronésia. A construção política, económica e social deste espaço insular atlântico está na agenda dos responsáveis políticos da República de Cabo Verde, dos Governos da Regiões Autónomas dos Açores e Madeira e do Governo da Comunidade Autónoma das Canárias.
A geografia, por um lado, e a história do seu povoamento, por outro, tornaram estas plataformas atlânticas, que constituem as ilhas da Macaronésia, em importantes pontos de chegada e partida de migrantes. A contemporaneidade traz-nos, em tempo real, imagens da importância destas ilhas, nomeadamente as que se localizam a Sul, nas migrações de desespero e dos dramas que lhe estão associadas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mundo unipolar

A chama da esperança que refulgiu um pouco por todo o Mundo com a eleição de Barack Obama, luz que brilhou mais nos espíritos de quem acredita em super heróis, foi-se extinguindo com o passar dos dias e dos meses, nem mesmo a atribuição do Nobel da Paz que foi assim como um reforço de super poderes, disfarça as fragilidades e a impotência do mediático inquilino da Casa Branca. Ao regozijo e à esperança sucedeu-se o tempo e com o tempo sublimaram-se as expectativas e definhou a esperança.
A eleição de Obama não deixa de ter um quê de simbólico, o que vale por si só, mas convenhamos que é muito pouco para tanto alarido e expectativa criada. Por mim, passado que é o tempo do estado de graça, não sofri nenhum tipo de desilusão pois nunca deixei de ver Obama como o “escolhido” para o contexto de crise e de anti-americanismo crescentes que se vivia. A necessidade passava pela reconfiguração do sistema e do modelo e nada melhor que voltar a dar exemplos ao Mundo. Barack Obama descendente de imigrantes africanos, com tudo o que isso significa na sociedade estado-unidense, não é mais do que o arquétipo ideal que serve de logro para manter em alta a referência dos Estados Unidos como uma sociedade onde prima a igualdade de oportunidades. Obama não é mais do que uma representação social e política para consumo interno e externo.
Com o fim da União Soviética os Estados Unidos assumiram o papel de única potência mundial a que corresponde o fim do equilíbrio bipolar que desde o fim da II Guerra Mundial caracterizou as relações internacionais o que não significa, como bastas vezes ouvimos, que deixou de haver um modelo alternativo ao capitalismo, aliás quem o afirma tende mais ou menos explicitamente levar-nos a concluir que o comunismo morreu, enquanto ideologia e modelo de desenvolvimento para a humanidade. Os tempos têm provado que nem a história nem as ideologias se finaram.
Mas essa é uma outra estória que ficará para outras abordagens e outros registos. Hoje trago algumas reflexões sobre as fragilidades do modelo unipolar, com centro nos Estados Unidos, imposto a um Mundo multipolar.
Os Estados Unidos para além da dificuldade que sempre tiveram em compreender as diferenças, ou seja, a multipolaridade do Mundo, ou ainda, se preferirmos, a linguagem silenciosa associada aos códigos culturais. Incompreensão que lhes tem trazido sérios dissabores nas incursões que amiúde levam a cabo fora das suas fronteiras, defrontam-se com outras fragilidades, quiçá mais reais mas, igualmente, pouco referidas no espaço comunicacional tido como referência:
- As dificuldades das forças armadas dos Estados Unidos na efectiva ocupação territorial das regiões e países que foram e são palco das suas intervenções bélicas;
- A debilidade da sua moeda. O valor do dólar está associado ao exclusivo que detém, desde o princípio da década de 70 do Século XX, nas transacções do petróleo. Esta exclusividade obriga a que todos os países compradores do ouro negro sejam obrigados a ter as suas próprias reservas da moeda dos Estados Unidos e é este factor, e não outro, que garante o poderio da nota verde; e
- A maior dívida externa do Mundo sendo que um dos principais credores da dívida estado-unidense é, nem mais nem menos, a China.
Considerando apenas a fragilidade monetária, que no fundo é a mais preocupante, porquanto o cenário da perda de exclusividade do dólar tem vindo a servir de ameaça por alguns dos países produtores de petróleo, mas também a ser equacionado internacionalmente a partir da deflagração da crise financeira internacional. A concretização de um panorama como aquele que enunciei constituiria a derrocada da economia estado-unidense pois o dólar deixaria de ter procura e o seu valor esfumava-se como se volatilizaram os títulos tóxicos que precipitaram a crise financeira.
Como é que os Estados Unidos vão gerir um cenário de deflação do dólar, que já não se situa apenas no campo das hipóteses, e a tendência real para a emergência de outras polaridades. E ficam como exemplo a Índia e a China para apenas referir o que os analistas, a Ocidente, consideram como potenciais concorrentes da hegemonia dos Estados Unidos. Em que é Barack Obama pode ser diferente neste cenário? E qual será o papel que nesta trama vai caber à União Europeia?
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 13 de Novembro, de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 15 de novembro de 2009

O tempo e os lugares

O tempo talvez seja, de todos, o mais precioso bem que a vida nos faculta e, se no princípio o tempo era utilizado quase em exclusivo para satisfazer a mais primária das necessidades básicas: garantir diariamente alimentos; condição necessária para a sobrevivência da espécie e, da qual muitos de nós ainda não se libertaram quer seja no rico Norte, quer seja no pobre Sul. Contudo, hoje no rico e envelhecido Norte mais, muito mais que no pobre e jovem Sul a maioria dos cidadãos está desobrigada do gasto desse tempo mas… sem tempo. À satisfação das necessidades primárias e aos avanços sociais, científicos e tecnológicos não correspondeu uma expectável sobra de tempo, ainda que o prolonguemos com a esperança de vida.
Nas sociedades dos países desenvolvidos o tempo é um bem escasso e esvai-se por entre os cabos de fibra óptica à velocidade da banda larga.
Afinal não ganhámos! Estamos a perder a corrida contra o tempo e sem tempo a perder para ganhar aos velhos e novos reptos humanos se, para isso, ainda tempo houver.
Há por aí, em todas as latitudes e longitudes, lugares onde a celeridade a que o tempo se dissipa assume outras dimensões e a harmonia prevalece sobre o caos organizado e depredador de oportunidades e tempo perdidos.
Esses lugares são como oásis onde, após longa e penosa viagem, recuperamos capacidades inatas mas perdidas na luta contra o tempo. No conforto natural desses lugares os sentidos apuram-se, a vida ganha uma nova grandeza e o tempo corre, sem pressas, ao nosso lado.
Lugares assim não serão o paraíso mas estarão seguramente na sua vizinhança.
Estranho mesmo é que esses lugares estejam em vias de extinção, algumas vezes, por vontade própria de quem os habita e, quase sempre, por quem a momentos os procura para se encontrar com o tempo. Este é, quiçá, o maior dos paradoxos do nosso tempo.
O absurdo reside num paradigma de desenvolvimento insustentável de que o “Norte” rico não abdica e pelo qual o “Sul” pobre legitimamente anseia. Um modelo de desenvolvimento humano que tem como consequências a coexistência de sociedades onde abunda o desperdício e o supérfluo, paredes-meias, com outras sociedades que não são mais do que os subprodutos sociais e económicos do modelo tido como único.
A contradição constata-se nos receios produzidos pelo crescimento económico da China e da Índia e pelos efeitos que esse desenvolvimento possa causar ao modo de vida dos cidadãos dos países que tradicionalmente dominam o ranking dos países ricos. Esta é uma preocupação que já atinge de forma transversal o cidadão comum dos países desenvolvidos.
Qual a coerência de desequilíbrios como os que se verificam, por exemplo, entre um país que por si só é responsável pela emissão de 40% de emissão de gases com efeito de estufa e todo um continente cujas emissões se situam nos 5%? Emissões que afectam, de igual modo, todos os lugares mesmo aqueles em que o saldo das emissões de dióxido de carbono é nulo.
Que queremos fazer, individual e colectivamente, do tempo e dos lugares que nos aproximam do ser social em permanente construção há milhares de anos?
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 11 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Desafios

O aquecimento global e os seus efeitos no clima, já reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), a escassez de água potável e de alimentos, a par de uma rápida caminhada para a míngua e extinção das jazidas de combustíveis fosseis são, de entre outros, os grandes desafios que a Humanidade enfrenta no imediato. As soluções têm de ser encontradas no presente e terão de ser, necessariamente integrais, como globais são os problemas que enfrentamos. Por muito que tudo isto possa parecer remoto, quer no tempo, quer no espaço, as evidências conferem-lhe uma proximidade inquietante.
Algo tem de mudar no paradigma de desenvolvimento adoptado, pelos Estados, vulgarmente denominados do 1.º Mundo, e na sua exportação, por vezes imposta, para os países em desenvolvimento. Este modelo de crescimento é insustentável e a síntese dos desafios que enfrentamos é dramática pois trata-se, nem mais nem menos, de acautelar a sobrevivência da nossa espécie.
A falência e o incumprimento de compromissos assumidos sob a égide da ONU, como o combate à fome, à pobreza extrema, o apoio à cooperação para o desenvolvimento e a redução de gases com efeito de estufa, comprovam que mudanças mais profundas são necessárias para inverter esta caminhada para o caos.
As soluções podem e devem ser encontradas no concerto das nações valorizando o papel da ONU ao qual, para que o desenlace tenha sucesso, têm forçosamente de se associar princípios que conduzam à paz e à cooperação entre os povos.
Esta pode ser uma das vias, eu diria a única via que pode garantir sustentabilidade ao futuro. Um futuro próspero e tranquilo para quem nos suceder nesta aventura da vida humana. O itinerário alternativo é conhecido, estamos a percorrê-lo com uma ligeireza voraz e com resultados sobejamente conhecidos.
O flagelo da fome, da pobreza, da exclusão social e económica, do trabalho sem renumerações condignas, do trabalho sem direitos e do desemprego, é uma realidade de vizinhança, já não é distante, faz parte do nosso quotidiano e do quotidiano do grupo dos ditos países ricos e desenvolvidos.
A globalização deste flagelo assenta nas mesmas raízes que provocam o aquecimento global, que provocam os intermináveis conflitos bélicos e que provocam a separação do Mundo, não em blocos militares, mas em conformidade com a realização económica e social dos povos e dos cidadãos.
Transformar o Mundo num bloco de paz e cooperação e por fim a um modelo de desenvolvimento que se alimenta nas desigualdades sociais e económicas, que os Relatórios do Desenvolvimento Humano da ONU tão bem retratam, é, tal como o aquecimento global, um desafio para Humanidade.
Ou trilhamos este caminho de transformação e cortamos as raízes ao monstro, fazendo jus ao ser social que dizemos ser, garantindo a nossa continuidade, ou continuamos a acreditar na inevitabilidade e na falta de alternativas, sempre assim foi e será, até que o mostrengo nos devore.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 06 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 7 de novembro de 2009

Choro

Se as lágrimas aflorarem
Não as contenhas
Liberta-as
Deixa que rolem
Livremente pela face
Como pingos de memórias
Como gotas de
Saudades do futuro

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cidades, espaços e pessoas

Há cidades míticas, cidades património, cidades ordenadas e desordenadas, megacidades, cidades capitais económicas, políticas e culturais, cidades comerciais, cidades industriais, cidades do pecado e do prazer, cidades de oportunidades, cidades tranquilas, cidades seguras e inseguras, cidades com alma e sem alma e há… a nossa cidade. A cidade onde nascemos e crescemos e nunca enjeitámos, a cidade onde vivemos por opção ou, por uma paixão que a casualidade atiçou e se transformou num grande amor que nos prende a esta, e não a outra cidade. E se o acaso da vida nos leva para longe… para outra cidade de oportunidades carregamos connosco a saudade dos espaços e das gentes que fazem única a nossa cidade.
As cidades crescem e transformam-se acompanhando os tempos. As marcas de cada época são visíveis a cada rua, a cada esquina, a cada praça, a cada jardim, nas descontinuidades que nos conduzem numa viagem à sua história social, política e económica.
O tempo nas nossas cidades é de acentuado crescimento e, em poucos anos, assistimos a profundas transformações nos seus núcleos históricos, ao aparecimento de novas áreas residenciais, à absorção das suas periferias, à reestruturação das acessibilidades, ao acondicionamento do trânsito viário, à criação de novos equipamentos colectivos e, inevitavelmente, à adopção de novos estilos de vida.
Às alterações produzidas no espaço edificado e a novos paradigmas do uso do território correspondem, estas quiçá menos visíveis, profundas alterações no tecido social das nossas cidades.
As transformações que se verificam são, de uma forma geral, bem aceites pelos cidadãos e pelas comunidades pois, daí advêm ganhos imediatos e correspondem a padrões de desenvolvimento urbano tidos como sinónimos de progresso e modernidade. E assim será, dependendo do conceito de desenvolvimento que está associado ao crescimento. Considero, todavia, que o actual processo evolutivo das nossas cidades está eivado de algum acriticismo dos responsáveis técnicos e dos decisores políticos e, de uma inaceitável inércia da comunidade que dá vida às cidades e aceita apaticamente soluções impostas por agendas exógenas ao interesse público.
Convém envolver as populações na construção do modelo de desenvolvimento que se pretende adoptar, importa salvaguardar a identidade das urbes sem que isso represente o contrário da sua modernização, importa atender ao futuro mais do que ao presente, importa não confundir qualidade de vida com rotundas, espaços comerciais e soluções arquitectónicas padronizadas replicadas um pouco por todo o lado.
É urgente repensar o espaço urbano. É urgente atender ao espaço rural. É urgente que a coesão social e territorial seja prioridade dos governos locais e do poder regional. É urgente o abandono da competitividade exacerbada e a adopção de modelos locais e regionais de complementaridade. A Região vale como um todo mas tem de ser mais, muito mais que o somatório das suas unidades territoriais.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 04 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Relações de formação ou de servidão

Os programas “Estagiar” são, reconhecidamente, uma iniciativa meritória pois proporciona aos jovens um primeiro contacto com o mundo do trabalho ao qual acresce uma bolsa de formação, mas também no que concerne às empresas as vantagens são óbvias ao promoverem projectos no âmbito dos programas “Estagiar” dispõem, sem encargos, de jovens quadros especializados. Todavia, a execução dos programas e os objectivos para que foram criados têm sido alvo e críticas por parte dos jovens e da sociedade uma vez que, por um lado, os programas não conferem aos jovens estagiários alguns direitos sociais e, por outro algumas empresas utilizam os jovens estagiários como mão-de-obra descartável e a custo zero. Onde está a responsabilidade social das empresas de que tanto se fala!?
Dando corpo ao descontentamento e cumprindo um compromisso eleitoral a Representação Parlamentar do PCP Açores iniciou um processo de estruturação de uma proposta de alteração aos programas “Estagiar” procurando envolver as Associações de Juventude num método de construção colectiva que respondesse às justas aspirações e reivindicações dos estagiários.
A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA) apreciou, na sua reunião plenária de Outubro, a proposta de Decreto Legislativo Regional apresentada pela Representação Parlamentar do PCP que visava introduzir as necessárias alterações aos programas “Estagiar”.
O PS, o PSD e o CDS/PP reprovaram o projecto do PCP mesmo reconhecendo que há necessidade de “moralizar” os programas “Estagiar”. O principal argumento para a rejeição, pelo bloco central e respectivo apêndice, da proposta que o PCP Açores apresentou, foi a de que se pretendia transformar uma “relação de formação” numa “relação laboral”.
Para que fique claro aquilo que o PCP Açores pretendia era transformar uma “relação de servidão”, numa “relação de formação”. O PS, o PSD e o CD/PP optaram por manter, sem surpresas, os programas “Estagiar” numa “relação de servidão”.
Aníbal C. Pires, IN edição de Novembro de 2009 do Jornal Açores 9

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Aga Khan - imã dos ismaelistas

Depois de ter referido o túmulo de Aga Khan, em Assuão, Egipto, no post anterior algumas perguntas me foram colocadas.


Deixo aqui o caminho para procurar informação sobre Aga Khan III e sobre a Fundação Aga Khan
Aga Khan III, Sultan Mahommed Shah, (1877-1957).



Aga Khan (actualmente Aga Khan IV) é o imã dos ismaelitas.
O túmulo é feito em mármore de Carrara, situa-se na margem esquerda do Nilo, em Assuão, Egipto.

domingo, 1 de novembro de 2009

O Nilo em Assuão


Só quem navega no Rio Nilo pode perceber...
Talvez um dia lhe dedique mais algum tempo hoje ficam algumas imagens desse majestoso rio em Assuão.

Os minaretes das mesquitas como os campanários das igrejas erguem-se em direcção ao céu.

Hotel "Old Cataract".
Na colina ergue-se, sobranceiro ao rio e à cidade (Assuão) que cresceu na outra margem, o túmulo de Aga Khan.