quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Votos de um BOM ANO NOVO

O Mundo não é, mas pode ser maravilhoso!
Neste último dia de 2009 com Louis Armstrong e um querer inabalável no futuro.
Um porvir mais justo e harmonioso em que possamos afirmar com toda a propriedade que o Mundo é maravilhoso.

Votos de um BOM ANO DE 2010!

Crónica revisitada

Num exercício retrospectivo e a alguns dias da entrada num novo ano fui reler os textos que desde 2003 publico com regularidade na imprensa regional. Foi interessante verificar que grande parte deles não perdeu actualidade política e que outros, por serem mais intimistas, são intemporais. É um desses textos sem tempo que vos deixo como uma mensagem de renovada esperança e luta num futuro melhor.
A momentos exaspero!
Desespero com o país e o Mundo, com a decadência dos valores, com o imediatismo dos instantes que hipotecam o futuro.
Mas há … Outros momentos!
Momentos de reencontro! Momentos de amor, momentos de paixão!
Momentos em que o sorriso de mulher, um olhar de criança valem por toda uma vida.
Apenas a momentos, breves instantes me invade o desalento! Pois, a todo o tempo confio.
Confio no tempo!
E… a seu tempo cessará o retrocesso de um século.
E… a seu tempo voltaremos ao caminho da humanidade.
Acredito num tempo diferente em que a dignidade pessoal possa ser, apenas, Humana. Confio que o equilíbrio com o meio ambiente possa retomar-se e que o futuro seja possível.
Acredito que a cultura possa readquirir o seu valor intrínseco e abandone o mercantilismo do supérfluo.
Confio, mesmo, que a Escola retome o protagonismo da mudança e do desenvolvimento e, sobretudo, seja um espaço de cultura e justiça na diversidade dos seus actores.
Acredito que será possível escolher, livremente, sem as encenações que confundem uma sala de aula com um cenário de novela ou o improviso do discurso com halogramas. Discurso que se alimenta nas esquinas das dependências, nos becos da decadência, nas praças da injustiça, nas avenidas de imagens construídas, na alienação que subjuga e escraviza, na uniformidade do pensamento, na padronização do comportamento.
E confio! Confio que dos atropelos à dignidade, mais tarde ou mais cedo, vai emergir a vaga de descontentamento que, qual tsunami, irá repor o futuro.
Quiseram matá-la. Amordaçam-na. Mas ainda há quem não deixe. Há quem resista. Há quem não cale. Há quem não vergue. Há quem a alimente! E a utopia está aí! Presente nas canções, nos poemas, nas manifestações do povo, na coerência de quem sabe o quão é mais fácil ir ao sabor de um vulgar “sempre assim foi”, mas continua a alimentar o sonho, mesmo quando a esperança nos parece querer dizer que não vale a pena.
Vale a pena por ti, vale a pena por ele, vale a pena por nós!
Vale a pena alimentar a utopia! Vale a pena a memória dos poetas, pois “quando um homem sonha, o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”.
Vale a pena lutar e ser solidário com a humanidade.
Vale a pena pelo sorriso de uma mulher, mãe, amante!
Vale a pena pela esperança no futuro espelhada no olhar de uma criança!
Aníbal C. Pires, IN DIÁRIO INSULAR, 30 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quimera

Da janela da minha meninice
Ouço um ribeiro.
O pequeno riacho
Corre por entre lajes e juncos
Num manso canto
De lavadeiras
Meninas, mulheres

A água dilui
Os sonhos,
Lava as mágoas
Por entre lajes e juncos
Perduram sombras,
Lembranças

... De um tempo de fantasias

Da minha janela
Viajo no tempo da quimera
Quero seguir
O trilho do riacho
Partir ao encontro
De outros rios
… Outros mares
E fui!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para onde caminhamos…

Incomoda-me o corre que corre que nesta época do ano se apodera das pessoas.
Os rostos continuam a reflectir a azáfama e a competitividade que marcam todos os outros dias do ano mas, nos semblantes acresce agora mais uma ruga que reproduz a preocupação de corresponder, a todo o custo, à necessidade de satisfazer os artificiais impulsos de consumo que nesta altura atingem níveis indesejáveis.
Este estado de euforia consumista, alimentado por uma fortíssima pressão publicitária, até pode disfarçar as enormes dificuldades que individualmente enfrentamos mas não ilude a ausência de valores e princípios que deveriam presidir ao nosso quotidiano, nem mascara a profunda crise económica cujos efeitos mais brutais, desemprego e desigualdade, se instalaram sem que, no horizonte próximo, se vislumbrem sinais de ruptura com a brutalidade de um modelo de desenvolvimento falido e em reconfiguração – a eleição de Barack Obama terá sido, de todos, o mais emblemático sinal de um novo fôlego do capitalismo.
Afinal nada mudou!
A solidariedade há muito deixou de ser um acto pessoal para ser transferida para organismos com ou sem fins lucrativos. As campanhas de apoio aos mais desfavorecidos decorrem no âmbito das marcas e organizações comerciais. E nós agradecemos.
É cómodo e, quiçá, “fashion” pagar mais 1 euro contra a indiferença do que ser indiferente. Indiferente ao que nos rodeia ou exigir do poder político que ponha cobro à injustiça reinante.
Ficamos bem com a nossa consciência ao subscrever, numa qualquer rede social, o apoio a uma causa social ou ambiental, mas somos incapazes de levantar o rabinho do sofá para estender a mão num gesto de solidariedade ou adoptar comportamentos críticos e de ruptura com a raiz dos problemas que afectam a nossa contemporaneidade e colocam em causa o futuro colectivo.
A vacuidade induzida nos comportamentos humanos não é inócua e serve a perpetuação de modos de vida assentes sobre princípios velhos como o tempo em que o domínio de um ser sobre outros teve a sua génese.
Não tem de ser assim! E quem teima em manter tudo na mesma renega séculos de evolução social e remete-nos para a pré-história da humanidade.
Não sei porquê mas nesta quadra de Festas, quando olho ao meu redor, vem-me sempre à memória a atitude de ruptura que Jesus Cristo adoptou aos expulsar os vendilhões do Templo.
Será que não aprendemos nada ou será que estamos a entrar num processo de regressão civilizacional!?
Anibal C. Pires, In RTP AÇORES, 28 de Dezembro de 2009, Ponta Delgada

sábado, 26 de dezembro de 2009

Marcas do tempo

Numa recente viagem às memórias da minha infância e juventude que, lá de quando em vez, faço pelo prazer do reencontro com os lugares, com as pessoas e com as sensações que de alguma forma me foram moldando o carácter, registei de uma forma que nunca antes tinha acontecido as marcas do tempo. Do nosso tempo e do tempo que foi passando pelos lugares, pelas pessoas e pelas sensações.
As marcas do tempo estão presentes em cada rosto, em cada lugar e na normalização asséptica das sensações.
Às aldeias falta o riso das crianças, as antigas escolas primárias transformaram-se em centros de convívio para idosos, os antigos hospitais das misericórdias em lares para a terceira idade e os jovens adultos retomaram os caminhos da emigração.
Os lugares envelheceram e não há como escondê-lo por detrás da maquilhagem proporcionada pelos programas da União Europeia. As pessoas, pelo contrário, não escondem o tempo que por elas passou, nem escondem o seu desagrado pela forma como os lugares se foram exaurindo e transformando em espaços vazios de oportunidades onde apenas medram as actividades geriátricas.
Para as mulheres e homens em idade activa não há lugar no espaço rural do interior continental que se transforma inexoravelmente num gigantesco lar de idosos.
Nos anos sessenta e meados de setenta, para além dos idosos ficaram as crianças e as mulheres, os homens estavam na guerra colonial ou emigrados. Hoje os tempos são outros e os homens já não partem sozinhos, nem as mulheres se quedam por serem mulheres. Os idosos ficam, como sempre, desta vez sem crianças nem mulheres, apenas a solidão os acompanha no último pedaço de tempo que lhes falta ainda cumprir.
Quando nos deslocamos do litoral para o interior cedo nos apercebemos que o país regista um desenvolvimento profundamente assimétrico ao qual está a ser retirada parte da sua identidade com a gradual descaracterização e desertificação do seu espaço rural.
Apesar do abandono que as opções políticas lhe destinaram, no espaço rural subsistem estoicamente projectos de vária índole que teimam em preservar, qual reserva histórica, um país que não quer perder a sua singularidade sem abdicar dos benefícios do nosso tempo.
Esta é uma marca de todos os tempos e que o tempo, por mais penoso e agreste que seja, não apaga e… ao tempo, será tempo do riso das crianças voltar como voltam as andorinhas todas as Primaveras.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 23 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 19 de dezembro de 2009

Assim, não vamos longe

A época é propícia à formulação de votos. Festas Felizes! É assim que enunciamos esse anseio a cada Natal e a cada ano que se inicia num ciclo de renovada esperança.
Bem que gostaria, nesta quadra de solidariedades, de deixar aos leitores um texto transbordante de palavras de boas novas para o tempo que se avizinha, palavras de confiança e tranquilidade mas, olhando ao redor e mesmo tendo uma confiança inabalável no futuro, temo que não seja ainda o tempo de o fazer pois, se o fizesse não ficaria bem com a minha consciência e deixo aqui algumas notas soltas que justificam esse adiamento.
Horácio Roque, presidente do Banif, recomendou aos portugueses a emigração como solução face ao crescimento do desemprego em Portugal. Este banqueiro numa entrevista ao jornal Público afirmou: “É claro que nós temos sempre uma ajuda ao nosso desemprego que é a capacidade que os portugueses têm de emigrarem e se fixarem lá fora”. Pois muito bem! Com capitalistas destes pode o país estar descansado que há sempre solução para a pior das crises. Claro que em relação à instituição financeira que gere os tempos foram de expansão adquiriu o Banco Mais, investiu na banca espanhola e vai adquirir a seguradora Global. Não há crise que lhes chegue!
As grandes superfícies comerciais e as centrais de distribuição – merceeiros de novo tipo – anunciaram o alargamento do horário de trabalho dos seus trabalhadores das 40 para as 60 horas semanais, ou seja, das 8 horas diárias para as 12. Os trabalhadores naturalmente, até porque têm família e também necessitam de tempo para ir às compras, não aceitam e reagiram com um pré-aviso de greve para o dia 24 de Dezembro e, vai daí aquele grupo de “benfeitores” encabeçado por Belmiro de Azevedo veio a terreiro dizer que não acreditava que os sindicalistas levassem a ameaça até ao fim e que se tratava de um pequeno ataque de baixa qualidade. Claro que Belmiro de Azevedo e outros que tais sabem que sobre os seus precários trabalhadores pendem fortes ameaças e que estes beneméritos empresários descansam sobre a existência de um batalhão de mais de meio milhão de desempregados que espreitam um emprego sob quaisquer condições.
Quantos de nós não dispõem de médico da família? Quem não tem a percepção de que os serviços públicos de saúde necessitam de mais médicos? E também sabemos que a origem deste défice se situa numa política de formação de médicos, à qual não é estranha a Ordem, que limita a entrada para os cursos de medicina de muitas centenas de jovens. Limitação imposta pelos numerus clausus do qual decorrem as elevadas médias de entrada para as Universidades.
Ao anúncio da criação de um novo curso de medicina na Universidade de Aveiro, eis que o Bastonário da Ordem de imediato contestou esta medida, não por ser em Aveiro mas porque do alto da sua imensa sabedoria diz que não há necessidade de mais profissionais médicos. Pois!
Enquanto registo estas notas soltas aproxima-se do fim a Cimeira de Copenhaga e as expectativas criadas estão em risco de ficarem muito aquém do que era esperado. Os grandes poluidores não querem aceitar a diminuição da emissão de gases com efeito de estufa. A opinião pública mundial mobiliza-se para pressionar os “donos do Mundo”. Julgo que no final deverá acontecer um acordo do tipo: do mal, o menos. Foi a isto que nos habituaram ao longo dos tempos, primeiro um cenário positivo, depois a catástrofe, por fim uma solução minimalista e todos ficamos muito satisfeitos. Será!?
Ficam os votos de Boas Festas e de um Novo Ano de renovada esperança e luta por um Mundo Melhor!
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 18 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 13 de dezembro de 2009

Antes que seja tarde - BOAS FESTAS

Votos de Boas Festas para todos os visitantes do "momentos"

Um nome de entre muitos

Saara Ocidental, Frente Polisário, República Árabe Saaráui Democrática, Mauritânia, Marrocos, Espanha, Nações Unidas e uma mulher que, como José Saramago, disse é uma daquelas pessoas que dá personalidade ao nosso tempo.
Aminetu Haidar é uma mulher em greve de fome – completou o 24.º dia enquanto registo estas notas –, uma mulher em luta pelo reconhecimento do seu povo e do seu país.
A determinação de Aminetu Haidar e a forma de luta que adoptou quando se viu privada de regressar a casa pelas autoridades marroquinas colocou na agenda política e mediática o Saara Ocidental e a luta da Frente Polisário pela independência daquele território que foi uma colónia de Espanha até 1975 e, de que a Mauritânia e Marrocos se apossaram após a saída dos espanhóis invocando direitos históricos. A Frente Polisário conquistou o território ocupado pela Mauritânia e o exército de ocupação marroquino entrincheirou-se numa zona restrita do deserto, o triângulo de segurança, que compreende as duas cidades costeiras e a zona dos fosfatos. Tenho para mim que “os direitos históricos” invocados por Marrocos estão directamente relacionados com a extracção destes minerais. As Nações Unidas consideram o Saara Ocidental como um território não-autónomo.
Aminetu Haidar ganhou esta batalha, independentemente do desfecho desta heróica luta e com esta vitória a autodeterminação do povo saraauí ficará mais perto.
O exemplo que nos chega de Lanzarote contraria a acomodação no confortável refúgio de quem deixou de acreditar nos processos políticos transformadores. A dedicação e entrega desta mulher, mãe e cidadã, embaraça os que alimentam a ideia do fim da história e das ideologias.
Outros exemplos existem, para lá de Aminetu Haidar, que dão personalidade ao nosso tempo e que mantêm bem acesa a chama que alimenta a ideia de um modelo de desenvolvimento sustentável e, por consequência, mais justo social e economicamente.
A lista é, felizmente, interminável mas não posso deixar de referir José Pepe Mujica, antigo guerrilheiro Tupamaro, que com o apoio do movimento de esquerda “Frente Ampla” foi no passado dia 30 de Novembro, eleito Presidente do Uruguai, como já o foram Daniel Ortega, na Nicarágua, e Nelson Mandela, na África do Sul.
Com mulheres e homens desta envergadura há lugar para renovar esperança!
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 11 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 12 de dezembro de 2009

Escolhas

O Tratado de Lisboa entrou em vigor no passado dia 1 de Dezembro, no mesmo dia o calendário das efemérides nacionais assinala a Restauração da Independência depois da ocupação castelhana (1580-1640).
É impossível não registar esta coincidência como um paradoxo histórico, por um lado a celebração da entrada em vigor do Tratado da União Europeia, apelidado de Lisboa pelas razões que se conhecem, que sendo apresentado como um importante passo na consolidação e construção do projecto da União Europeia, não deixa de se constituir como um passo, um largo passo para retirar, ainda mais, soberania (leia-se independência) aos 27 países membros, de entre os quais Portugal e, por outro lado se celebre a data que restaurou a independência nacional após um longo período de ocupação estrangeira.
Como se pode, se é que se pode, conciliar este e outros absurdos!?
O discurso oficial carregado de um forte cariz eurocêntrico e federalista não considera alternativas, o caminho é, segundo estes, inevitável. Não procuram nenhuma justificação limitam-se a impor um rumo sem envolver os cidadãos, não promovendo os instrumentos de participação, consulta e decisão. Estes iluminados contam antecipadamente com a estupidificação que foram cultivando nos cidadãos e do qual resulta um acriticismo generalizado do qual esperam um cego aval. Mas, tendo algum receio de que mesmo assim possa haver algum “devaneio” dos cidadãos, evitam a todo o custo perguntar, a não ser quando a isso são obrigados, como foi o caso da Irlanda. Onde, como se sabe, só em segundo referendo e após um período de forte chantagem, foi obtida a resposta desejada para que o processo de ratificação do Tratado de Lisboa pudesse seguir em frente, e o Presidente checo, perante um cenário político insustentável, viu-se obrigado a ratificá-lo.
Mas será que não há outras opções? Será que o sucesso da União Europeia depende deste modelo de transferência de soberania nacional? Será que o processo de construção europeia não pode ancorar-se na cooperação entre os povos europeus e destes com todos os povos do Mundo, no respeito pela paz e pela soberania nacional?
Quando chegamos a uma encruzilhada temos de fazer opções. A opção que então fazemos determina o futuro, a vida de cada um de nós é feita de constantes escolhas ao seu somatório costuma-se chamar: “destino”. A transferência dos efeitos que as opções produzem na nossa vida individual e colectiva para conceitos místicos iliba-nos de responsabilidades pelas escolhas que fazemos. É confortável mas é, quase sempre, desaconselhável.
Na União Europeia insiste-se no erro após o chumbo pelos franceses e holandeses ao então designado Tratado Constitucional. Deixou-se passar o tempo, vestiu-se-lhe uma nova roupagem e eis que surge o Tratado de Lisboa, também ele chumbado em primeira instância pelos irlandeses.
Em Copenhaga avalia-se Quioto. Os objectivos de Quioto não foram cumpridos devido a inúmeras variáveis. O mercado dos direitos de emissão de gases de estufa terá sido, de entre outras, uma das principais causas do seu insucesso. Em Copenhaga vai, seguramente, haver compromisso na redução dos poluentes atmosféricos, em Quioto também houve, mas em Copenhaga vai, certamente, subsistir o mesmo mercado em que os países ricos (poluidores) pagam aos países pobres para poluírem por eles. Enfim! Vá-se lá entender esta lógica.
Nesta encruzilhada em que a humanidade se encontra o tempo escasseia e as opções erradas podem produzir efeitos irreversíveis.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Vale a pena ler

Pois é?
Deixo-vos aqui fica um bom elemento de reflexão sobre o nosso Mundo e o modelo de desenvolvimento que foi adoptado e aceite como o único caminho possível.
Um modelo ancorado na exploração dos povos e da natureza e que só pode ter um triste fim se não formos capazes de encontrar outros caminhos.

DISCURSO DO EMBAIXADOR MEXICANO NUMA CONFERÊNCIA DE CHEFES DE ESTADO E GOVERNO DA UNIÃO EUROPEIA, MERCOSUL E CARIBE
Alguns sites colocam dúvidas sobre se este texto foi ou não produzido na referida cimeira, todavia, reproduzo-o por considerar que o texto vale por si mesmo.

Eis o discurso:
"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a"descobriram" só há 500 anos.
O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país - ,com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse.
Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no "Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!
Teria sido espoliação? Guarda-meTanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue doirmão.
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas.
Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa.
O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indemnização por perdas e danos.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo.
No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto impenderem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."



Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Europeia, Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a verdadeira Dívida Externa.
Fontes (de entre muitas outras):

domingo, 6 de dezembro de 2009

Imagens aéreas - S. Jorge e Pico

De viagem para o Pico com escala na Terceira e sobrevoo de S. Jorge.
Aspecto da costa Norte de S. Jorge.
Aspecto da zona central da ilha de S. Jorge.
Aspecto do aeroporto de S. Jorge, baia e vila de Velas.
Já sobre o Pico procurando o alinhamento para a aproximação final.



Sequência da final de aproximação ao aeroporto do Pico.
Os currais onde sazonam os vinhedos são aqui bem visíveis.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um exemplo

As efemérides, de uma forma geral, constituem-se como bons temas de escrita para quem ganhou o hábito e o espaço para partilhar opinião. A Restauração da Independência Nacional que se comemorou por estes dias poderia ser um bom mote para este texto.
O actual contexto de acentuada perda de soberania nacional e dependência externa e as discussões sobre a “União Ibérica”, seguramente, confeririam ao assunto actualidade e posicionamentos apaixonados.
Na agenda internacional a Cimeira Ibero Americana, em Cascais, e a Cimeira do Clima, em Copenhaga, poderiam, com toda a oportunidade, fazer o título deste escrito. A primeira, pela importância que tem para a “Península”, assim dizem os espanhóis que vivem no exterior quando se referem ao seu país, mas também pela situação que se vive nas Honduras e, a segunda, pelas (in)decisões que venham a concretizar-se.
Sobre estas questões não faltarão artigos de opinião, mas eu como tenho este mau feitio: não gosto de unanimismos, nem do politicamente correcto e muito menos de andar em “rebanho” e a favor da corrente, dedico este espaço, neste tempo, ao trivial, num momento em que coisas tão importantes estão a acontecer. Sei que corro o risco de ouvir, como oiço desde a minha juventude: “Oh Aníbal, assim não vais longe e é uma pena porque tu és um bom rapaz."
Sendo o tema trivial, porquanto está vulgarizado, não deixa de ser pertinente e ter uma importância bem real. Ao longo das últimas três décadas os trabalhadores, do sector público e privado, de diferentes ramos da actividade assistem, uns mais passivamente que outros, à perda de rendimentos e direitos. E, se no sector público foi com a sacralização de Sócrates e da sua “esquerda moderna” que os ataques se acentuaram, no sector privado há muito que se desenvolviam estratégias que redundaram num retrocesso civilizacional, hoje a configuração das relações laborais assemelham-se mais ao que se vivia no século XIX.
O conceito estereotipado de trabalhador induz imagens de fábricas, construção civil, agricultura, pescas, minas, etc., aliás representações alimentadas pelos neoliberais como sinal de atraso pois, segundo estes, as sociedades modernas e evoluídas têm de corresponder a uma alta taxa de terciarização da economia.
Como definir então os indivíduos que trabalham nos serviços, os quadros médios e superiores. Serão ou não trabalhadores? Talvez colaboradores. Esta nova designação terá sido o vocábulo que melhor se ajustou às necessidades de desvalorizar o trabalho e os trabalhadores que caracteriza este ciclo neoliberal que, após a sua falência, se reconfigura.
Um dos ramos de actividade do sector privado onde, em termos relativos, se verificam as maiores alterações terá sido no sector financeiro e segurador. Há 30 anos atrás, e mesmo antes, os trabalhadores da banca e dos seguros detinham um conjunto de direitos e um rendimento que colocavam esta carreira profissional como uma das mais apetecíveis, e isto sem que o sector bancário e segurador fosse deficitário, bem pelo contrário.
Hoje os lucros aumentaram desmesuradamente para níveis pecaminosos e os “colaboradores” trabalham sem horários, sem direito ao pagamento de horas extraordinárias, sem direitos laborais e com rendimentos a depender de metas subjectivas impostas por administradores sem escrúpulos, poderia acrescentar-lhes mais alguns epítetos mas... fico-me por aqui.
Este é o paradigma da modernidade que Sócrates e outros quejandos nos vendem.
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 03 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Promessa cumprida, pelo menos tentada


Estava prometido!
Aconteceu hoje, vésperas de viajar até ao Pico pois tive receio que a majestática montanha me embargasse as palavras.
Peço aos picarotos que me desculpem a ousadia mas trata-se de cumprir uma promessa.

Ilha Maior
Ilha de néctares,
Pedras negras e
Vinhedos a sazonar nos currais

Ilha de navegadores
Genuínos,
De Cardeais da literatura e da fé
De homens: agricultores, baleeiros e
Construtores de letras imperecíveis
Como a lava que os pariu

Ilha de gestas historiadas
No recato da Calheta de Nesquim
Remanso inspirador
Na toada do mar e da terra
Melopeia que só os ilhéus alcançam
Num foro ímpar da telúrica natureza

Ilha do Cais da saudade,
De partida e de chegada
De um povo moldado
No sonho de partir
Querendo ficar
No resguardo da Montanha
Sensual e maternal
Majestosa
Presente em cada rincão da ilha
Ao alcance de um olhar

Ilha majestosa e presente
Para os que ficaram
Ilha majestosa e presente
Nos que procuraram o sonho
Para lá do horizonte

Ilha de mistérios
Ilha Maior

domingo, 29 de novembro de 2009

Marafona

As “marafonas” de Monsanto são bonecas de trapos com uma estrutura feita com dois paus unidos em cruz.Nasceram, como muitos outros usos, costumes e objectos simbólicos, da tradição pagã.
As “marafonas” são usadas, pelas raparigas em idade casadoura, na Festa do Castelo (ou das cruzes), que se realizava no dia 3 de Maio de cada ano e que actualmente é transferida para o Domingo seguinte quando não se dá a feliz coincidência.
Depois da festa a “marafona” é colocada na cama pois, reza a lenda, que afugenta as trovoadas.
No dia do casamento é colocada por debaixo da cama por estar associada à felicidade e fertilidade.
A “marafona” das imagens continua cá por casa, não debaixo da cama mas ainda no espaço do quarto comum.

Arianna Savall e Pedro Estevan

Fui rebuscar uns temas musicais que há muito não ouvia.
Um deles de Pedro Estevan, "El aroma del tiempo". Na procura de um dos temas deste trabalho de Esteban encontrei este outro, que não conhecia e que aqui partilho convosco nesta tarde de Domingo dada à tranquilidade e à reflexão.

Intenções para 2010

O Plano e o Orçamento de 2009 foram concebidos para fazer face à crise internacional e aos efeitos que, muito antes de serem assumidos pelo Governo Regional, os trabalhadores, as famílias e as empresas já de há muito sentiam e sofriam.
Passado que é cerca de um ano as medidas de conjuntura adoptadas pelo governo de Carlos César vieram a verificar-se ineficazes pela insuficiência e unilateralidade.
Faltaram as acções concretas para proteger a pressão que a crise colocava e coloca sobre os rendimentos e sobre os direitos dos trabalhadores açorianos, faltaram os investimentos nos sectores produtivos, faltaram e continuam a faltar as medidas estruturais que, a par das medidas de conjuntura possam, senão eliminar, pelo menos minimizar os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional.
Na era da globalização é tempo da economia regional ultrapassar o seu carácter periférico e de forte dependência externa e a opção para a sua superação não é, seguramente, a aplicação linear de modelos de mercados de escala e de competitividade indiferenciada.
O desenvolvimento regional terá de se ancorar na afirmação da singularidade e qualidade dos produtos, bens e serviços aqui produzidos, ou seja, afirmar a diferença exigindo um tratamento que nos permita ultrapassar de forma permanente constrangimentos igualmente duradouros.
O Plano e Orçamento para 2010 repõem, no essencial, as mesmas opções e medidas conjunturais para o actual contexto de crise económica, cujos efeitos, se agravam a cada dia – aumento do desemprego, salários em atraso, lay-off, crescente aumento das dificuldades das micro, pequenas e médias empresas. Quanto às questões estruturantes e que poderiam contrariar de uma forma efectiva os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional, medidas que corresponderiam a opções de ruptura, essas continuam adiadas.
Uma rede integrada e complementar de transportes marítimos e aéreos de passageiros e mercadorias, a definitiva aposta nos recursos humanos através da elevação das suas qualificações profissionais e académicas, a salvaguarda do sector produtivo enquanto factor de sustentabilidade da economia regional e a adequação do nosso modelo económico à nossa real dimensão, abandonando de uma vez por todas a peregrina ideia de procurar por via da concentração dar dimensão e escala de mercado à economia regional.
Do Plano e Orçamento espera-se, legitimamente, que assinale escolhas políticas, que defina prioridades, que trace rumos concretos, que resolva problemas estruturais no sentido de uma determinada visão do desenvolvimento, aguarda-se que dê também respostas a problemas imediatos e dê passos decididos para superar dificuldades de conjuntura.
Mas estas expectativas saíram uma vez mais goradas, o Plano e o Orçamento para 2010 não dão resposta a um conjunto de questões essenciais para as açorianas e os açorianos e, sobretudo, para a adopção e implementação de um modelo de desenvolvimento sustentável, social e economicamente mais justo. Não são traçados novos rumos, em vez disso, apenas dispersa apoios para consolidar dependências e clientelas e satisfazer corporações.
Não se enfrentam os problemas conjunturais e estruturais e, uma vez mais, apenas tenta aplicar paliativos para adiar dificuldades.
Este Orçamento e o Plano limita-se a perpetuar a mesma receita de sempre, desejando que esta, por simples acto de vontade, se revele como o que nunca foi: eficaz para garantir o desenvolvimento harmónico dos Açores.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 28 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Por favor, quero um "gin"

Quase há uma semana na cidade da Horta e ainda não houve um momento para que esta imagem se transformasse numa agradável realidade.

O tradicional “gin do Peter” tem sido, para já e apenas, uma miragem.
Uma ilusão alimentada pelo desejo, diria mesmo pela necessidade de alguma descompressão e descontracção naquele espaço mítico onde se cruzam estórias de um Mundo que é mar mais do que terra.
Estórias que alimentam o porvir numa construção permanente de utopias, incontornavelmente, concebidas à volta desse imenso oceano de sonhos e oportunidades e… quantas e quantas vezes sustentadas pelas propriedades do seu fabuloso e lendário “gin”.

Mais do mesmo

O Plano e Orçamento para 2010 propostos pelo Governo Regional continuam sem dar resposta a um conjunto de questões essenciais para os açorianos e para o desenvolvimento da Região e, ao contrário das expectativas criadas, o emprego e o investimento público nos sectores produtivos não têm a tradução que o discurso oficial fazia crer, quer nas medidas quer nos recursos financeiros que lhes são afectos. Afinal, as prioridades no emprego e no investimento público que têm vindo a ser anunciados, não passam disso mesmo: anúncios e propaganda.
As opções e prioridades consagradas nestes documentos demonstram a incapacidade do PS Açores em adaptar as opções políticas aos complexos tempos de crise que vivemos e insistem num modelo económico que caminha a passos largos para insustentabilidade.
Perante as dificuldades da produção regional e o estrangulamento da criação de riqueza nos Açores, o que o Governo se propõe é a continuidade, diria mesmo, o aprofundamento das políticas que visam o desmantelamento no sector produtivo.
Perante a quebra dos rendimentos e consequente retracção do consumo, o Governo continua a não propor medidas que possam aumentar, de forma directa, o rendimento disponível dos açorianos, bem como reduzir os custos de contexto no nosso mercado interno.
Perante a progressão cavalgante do desemprego, o governo reduz as verbas destinadas aos programas de emprego e nada propõe para o fomento e defesa do emprego.
Perante a necessidade da repartição socialmente equilibrada das dificuldades mas também dos rendimentos, o que o Governo propõe são sacrifícios para os mesmos!
Apesar de assumir a necessidade de revitalizar a nossa economia, estimulando a produção e o comércio de bens e serviços a verdade é que, para além de não se vislumbrarem medidas e investimentos decisivos, como seriam, por exemplo, a redução significativa dos custos dos transportes marítimos e aéreos, continuam, ao invés disso, a direccionar-se milhões e milhões de euros para a cessação da actividade agrícola e piscatória e para o resgate leiteiro!
Apesar de uma proclamada “prioridade ao emprego”, a verdade é esta parece estar muito mais em termos do princípio do que propriamente em medidas concretas de eficácia atestada. O emprego era já a questão prioritária em 2009, sem que se tenham sentido quaisquer consequências palpáveis em termos de resultados, bem pelo contrário o desemprego cresceu assustadoramente. Para piorar a situação, os programas específicos para esta área apresentam uma redução comparativa acentuada de investimento previsto, relativamente ao ano anterior.
Continuam a não se vislumbrar medidas que, para além de fomentarem a criação de emprego, possam proteger o emprego existente. Faltam as medidas para combater as dificuldades das pequenas e médias empresas, que constituem o essencial do tecido empresarial da Região.
Faltam as medidas conjunturais para debelar os efeitos da crise e, com 2013 no horizonte faltam, ainda, as medidas estruturantes para ultrapassar os seculares constrangimentos ao desenvolvimento regional.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 25 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Prestar contas

No passado dia 17 de Novembro passou um ano sobre a tomada de posse dos deputados eleitos nas eleições regionais de Outubro de 2008 é, por conseguinte, tempo de algum balanço e prestação de contas aos eleitores que depositaram o seu voto e a sua confiança na CDU Açores.
Pese o facto novo introduzido pela nova e mais plural composição do Parlamento Regional, a existência de uma maioria absoluta do Partido Socialista, não permitiu dar os passos necessários para inverter essa situação, e permitiu ao governo Regional continuar a exercer uma política que objectivamente nos tem afastado da coesão e de um modelo de desenvolvimento sustentável. O governo regional encontrou sempre uma oposição firme e determinada do PCP Açores que, com as limitações da sua representação parlamentar, procurou sempre contrariar as medidas mais gravosas e, simultaneamente, propor rumos alternativos para a nossa Região.
A Representação Parlamentar do PCP Açores, eleita na candidatura da CDU, tem tido uma presença ímpar tendo apresentado, no primeiro ano da legislatura, 17 requerimentos, 8 votos, 5 Projectos de Resolução, 2 Ante-projectos de Lei e 1 Projecto de Decreto Legislativo Regional e realizado mais de 120 declarações políticas e intervenções em plenário, sobre as mais diversas questões e propostas.
Mas mais importante do que o aspecto quantitativo, o trabalho da Representação Parlamentar do PCP Açores deu corpo à denúncia e fiscalização das políticas do governo, ao combate às suas ofensivas políticas e legislativas e à apresentação de propostas alternativas para resolver os problemas da Região.
Assim, o PCP Açores apresentou requerimentos e perguntas ao Governo sobre problemas urbanos da Freguesia de Santa Clara, em São Miguel, sobre o sistema de bolsas complementares aos alunos do ensino superior e secundário, sobre o encerramento de lojas da SATA nas ilhas de menor dimensão, sobre o Parque de Exposições da Terceira, sobre problemas portuários em São Jorge, sobre o serviço de transporte marítimo de passageiros entre Pico, São Jorge e Faial, sobre o aeroporto de Santa Maria, sobre a Escola Profissional das Capelas e sobre a nova matriz curricular do ensino Básico, entre outros.
Desenvolvendo a sua actividade num quadro complexo, agravado pela enorme redução de meios e apoios parlamentares imposta pela maioria absoluta do PS no início do mandato, a Representação Parlamentar do PCP Açores conseguiu corporizar a importância e justeza do seu projecto alternativo e a validade do reconhecimento eleitoral que lhe foi dado pelos Açorianos.
A Representação Parlamentar do PCP Açores, apesar da sua dimensão limitada, conseguiu ser uma oposição consequente e com consequência, tendo feito aprovar algumas das suas propostas das quais saliento:
- A adopção de medidas cautelares e a classificação do Castelinho de Santa Clara, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, como imóvel de interesse público;
- O aumento das comparticipações aos doentes deslocados;
- A criação de um Plano Regional de Combate à Precariedade, Subemprego e Trabalho Ilegal;
- A criação do Centro de Adictologia da Horta;
- O reforço de verbas para os municípios poderem intervir directamente em situações de carência habitacional urgente valorizando, assim o papel de proximidade do Poder Local.
O trabalho parlamentar desenvolvido está ancorado no conhecimento directo da realidade concreta das nove ilhas dos Açores e no aprofundamento da ligação às populações tendo para isso sido efectuadas visitas oficiais a todos os círculos eleitorais da Região.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 20 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 22 de novembro de 2009

Realismo ou pragmatismo

“Este país está pronto para arder!” Foi com estas palavras que um jovem se referiu a Portugal tendo ainda acrescentado que as acendalhas podiam ser mesmo os processos judiciais que correm interminavelmente até chegarem à vara dos tribunais e, quando aí chegam percorrem outro tanto tempo até ao seu desfecho. Isto quando chega a haver um desenlace pois, como muito bem sabemos, há sempre um risco real de tudo se perder no tempo.
Bem procurei encontrar argumentos que contrariassem esta ideia tão negativa do seu próprio país, mas não foi fácil. Na falta de argumentos sobre o presente que contribuíssem para perspectivar um futuro auspicioso, tive de recorrer ao passado o que, está bom de ver, não chegou para convencer o meu jovem interlocutor, que me foi informando que, logo que chegue o momento, pretende procurar outros destinos onde a história não seja apenas a recordação de uma epopeia marítima, mas um processo de contínua construção e transformação.
O jovem atento ao que se passa no seu país tem fortes razões para estar descontente. Mas, mais do que as suas insatisfações pessoais, o que me deixou estupefacto foi a argúcia com que desmontou as indignadas declarações de José Sócrates à comunicação social quando este, há uma semana atrás, se referia ao facto de estar a ser “vítima” de escutas ligado ao caso “Face Oculta” e as posteriores declarações de dois dos seus homens de mão, Vieira da Silva e Santos Silva.
“Esses gajos devem julgar que somos estúpidos! Claro que não era o José Sócrates que estava a ser escutado, mas sim o seu amigo Armando Vara e outros quejandos. As gravações das escutas incluem o Sócrates porque, tal como ele reconheceu, falou por diversas vezes com o Vara e vá-se lá saber com quem mais dos restantes envolvidos.”
Pensei cá para comigo: então não é que o miúdo é capaz de ter razão? Aliás, a forma como o primeiro-ministro colocou a questão, pressionando o Procurador e o Presidente do Supremo, a cirúrgica intervenção de Vieira da Silva rotulando o caso de “espionagem política” e, por fim, a entrevista de Santos Silva à estação de televisão SIC, onde subscreveu as declarações do actual Ministro da Economia e ainda afirmou que “a escuta pela forma sistemática como decorreu configurava uma flagrante violação da Lei”, não aconteceram por acaso e não são inócuas.
Estes factos mais não pretendem do que criar um clima de vitimização à volta do Primeiro-Ministro e do seu governo e, uma vez mais, pôr em causa a independência do poder judicial, exercendo uma forte pressão política e mediática sobre o Ministério Público.
É preciso acreditar que é possível ultrapassar não só a crise, mas também este ciclo de mediocridade! Disse eu, já falho de outros argumentos, num derradeiro esforço para o jovem mudar de opinião. Esforço que não passou disso mesmo, pois foi em vão e nada demoveu o jovem que, a terminar, me voltou a surpreender com o seu racionalismo: “ Se é uma questão de fé, não tem discussão. O senhor fique lá com a sua convicção, que eu fico com a minha razão e vou procurar o meu sonho noutras paragens, como o fizeram muitos e muitos outros portugueses ao longo dos nossos 900 anos de história”.
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 18 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 21 de novembro de 2009

No Sul da Macaronésia

Dos céus da Macaronésia(*) em viagem do Sul ficam alguma imagens aéreas.


Cabo Verde, Ilha do Sal, após a descolagem do Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, vista para Palmeira.


Cabo Verde, Ilha do Sal, costa Norte, rumo às Canárias.


No sobrevoo da Gran Canária, vista para Tenerife e mais além La Gomera.


Canárias, sobrevoando a Gran Canária.

Canárias, sobrevoando a Gran Canaria rumo a Norte.
(*) Os arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde constituem esta região dispersa pelo Atlântico Norte que, para além da insularidade, têm em comum algumas características geográficas, geológicas e biológicas que estiveram na origem da sua ‘classificação’, como região da Macaronésia (Ilhas Afortunadas - Nome resultante do grego – makáron => feliz, afortunado; nesoi => ilhas – a designação é atribuída ao geógrafo e botânico inglês, Philip Baker Webb, no século XIX.
A geografia e a biologia ditaram a designação da região da Macaronésia. A construção política, económica e social deste espaço insular atlântico está na agenda dos responsáveis políticos da República de Cabo Verde, dos Governos da Regiões Autónomas dos Açores e Madeira e do Governo da Comunidade Autónoma das Canárias.
A geografia, por um lado, e a história do seu povoamento, por outro, tornaram estas plataformas atlânticas, que constituem as ilhas da Macaronésia, em importantes pontos de chegada e partida de migrantes. A contemporaneidade traz-nos, em tempo real, imagens da importância destas ilhas, nomeadamente as que se localizam a Sul, nas migrações de desespero e dos dramas que lhe estão associadas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mundo unipolar

A chama da esperança que refulgiu um pouco por todo o Mundo com a eleição de Barack Obama, luz que brilhou mais nos espíritos de quem acredita em super heróis, foi-se extinguindo com o passar dos dias e dos meses, nem mesmo a atribuição do Nobel da Paz que foi assim como um reforço de super poderes, disfarça as fragilidades e a impotência do mediático inquilino da Casa Branca. Ao regozijo e à esperança sucedeu-se o tempo e com o tempo sublimaram-se as expectativas e definhou a esperança.
A eleição de Obama não deixa de ter um quê de simbólico, o que vale por si só, mas convenhamos que é muito pouco para tanto alarido e expectativa criada. Por mim, passado que é o tempo do estado de graça, não sofri nenhum tipo de desilusão pois nunca deixei de ver Obama como o “escolhido” para o contexto de crise e de anti-americanismo crescentes que se vivia. A necessidade passava pela reconfiguração do sistema e do modelo e nada melhor que voltar a dar exemplos ao Mundo. Barack Obama descendente de imigrantes africanos, com tudo o que isso significa na sociedade estado-unidense, não é mais do que o arquétipo ideal que serve de logro para manter em alta a referência dos Estados Unidos como uma sociedade onde prima a igualdade de oportunidades. Obama não é mais do que uma representação social e política para consumo interno e externo.
Com o fim da União Soviética os Estados Unidos assumiram o papel de única potência mundial a que corresponde o fim do equilíbrio bipolar que desde o fim da II Guerra Mundial caracterizou as relações internacionais o que não significa, como bastas vezes ouvimos, que deixou de haver um modelo alternativo ao capitalismo, aliás quem o afirma tende mais ou menos explicitamente levar-nos a concluir que o comunismo morreu, enquanto ideologia e modelo de desenvolvimento para a humanidade. Os tempos têm provado que nem a história nem as ideologias se finaram.
Mas essa é uma outra estória que ficará para outras abordagens e outros registos. Hoje trago algumas reflexões sobre as fragilidades do modelo unipolar, com centro nos Estados Unidos, imposto a um Mundo multipolar.
Os Estados Unidos para além da dificuldade que sempre tiveram em compreender as diferenças, ou seja, a multipolaridade do Mundo, ou ainda, se preferirmos, a linguagem silenciosa associada aos códigos culturais. Incompreensão que lhes tem trazido sérios dissabores nas incursões que amiúde levam a cabo fora das suas fronteiras, defrontam-se com outras fragilidades, quiçá mais reais mas, igualmente, pouco referidas no espaço comunicacional tido como referência:
- As dificuldades das forças armadas dos Estados Unidos na efectiva ocupação territorial das regiões e países que foram e são palco das suas intervenções bélicas;
- A debilidade da sua moeda. O valor do dólar está associado ao exclusivo que detém, desde o princípio da década de 70 do Século XX, nas transacções do petróleo. Esta exclusividade obriga a que todos os países compradores do ouro negro sejam obrigados a ter as suas próprias reservas da moeda dos Estados Unidos e é este factor, e não outro, que garante o poderio da nota verde; e
- A maior dívida externa do Mundo sendo que um dos principais credores da dívida estado-unidense é, nem mais nem menos, a China.
Considerando apenas a fragilidade monetária, que no fundo é a mais preocupante, porquanto o cenário da perda de exclusividade do dólar tem vindo a servir de ameaça por alguns dos países produtores de petróleo, mas também a ser equacionado internacionalmente a partir da deflagração da crise financeira internacional. A concretização de um panorama como aquele que enunciei constituiria a derrocada da economia estado-unidense pois o dólar deixaria de ter procura e o seu valor esfumava-se como se volatilizaram os títulos tóxicos que precipitaram a crise financeira.
Como é que os Estados Unidos vão gerir um cenário de deflação do dólar, que já não se situa apenas no campo das hipóteses, e a tendência real para a emergência de outras polaridades. E ficam como exemplo a Índia e a China para apenas referir o que os analistas, a Ocidente, consideram como potenciais concorrentes da hegemonia dos Estados Unidos. Em que é Barack Obama pode ser diferente neste cenário? E qual será o papel que nesta trama vai caber à União Europeia?
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 13 de Novembro, de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 15 de novembro de 2009

O tempo e os lugares

O tempo talvez seja, de todos, o mais precioso bem que a vida nos faculta e, se no princípio o tempo era utilizado quase em exclusivo para satisfazer a mais primária das necessidades básicas: garantir diariamente alimentos; condição necessária para a sobrevivência da espécie e, da qual muitos de nós ainda não se libertaram quer seja no rico Norte, quer seja no pobre Sul. Contudo, hoje no rico e envelhecido Norte mais, muito mais que no pobre e jovem Sul a maioria dos cidadãos está desobrigada do gasto desse tempo mas… sem tempo. À satisfação das necessidades primárias e aos avanços sociais, científicos e tecnológicos não correspondeu uma expectável sobra de tempo, ainda que o prolonguemos com a esperança de vida.
Nas sociedades dos países desenvolvidos o tempo é um bem escasso e esvai-se por entre os cabos de fibra óptica à velocidade da banda larga.
Afinal não ganhámos! Estamos a perder a corrida contra o tempo e sem tempo a perder para ganhar aos velhos e novos reptos humanos se, para isso, ainda tempo houver.
Há por aí, em todas as latitudes e longitudes, lugares onde a celeridade a que o tempo se dissipa assume outras dimensões e a harmonia prevalece sobre o caos organizado e depredador de oportunidades e tempo perdidos.
Esses lugares são como oásis onde, após longa e penosa viagem, recuperamos capacidades inatas mas perdidas na luta contra o tempo. No conforto natural desses lugares os sentidos apuram-se, a vida ganha uma nova grandeza e o tempo corre, sem pressas, ao nosso lado.
Lugares assim não serão o paraíso mas estarão seguramente na sua vizinhança.
Estranho mesmo é que esses lugares estejam em vias de extinção, algumas vezes, por vontade própria de quem os habita e, quase sempre, por quem a momentos os procura para se encontrar com o tempo. Este é, quiçá, o maior dos paradoxos do nosso tempo.
O absurdo reside num paradigma de desenvolvimento insustentável de que o “Norte” rico não abdica e pelo qual o “Sul” pobre legitimamente anseia. Um modelo de desenvolvimento humano que tem como consequências a coexistência de sociedades onde abunda o desperdício e o supérfluo, paredes-meias, com outras sociedades que não são mais do que os subprodutos sociais e económicos do modelo tido como único.
A contradição constata-se nos receios produzidos pelo crescimento económico da China e da Índia e pelos efeitos que esse desenvolvimento possa causar ao modo de vida dos cidadãos dos países que tradicionalmente dominam o ranking dos países ricos. Esta é uma preocupação que já atinge de forma transversal o cidadão comum dos países desenvolvidos.
Qual a coerência de desequilíbrios como os que se verificam, por exemplo, entre um país que por si só é responsável pela emissão de 40% de emissão de gases com efeito de estufa e todo um continente cujas emissões se situam nos 5%? Emissões que afectam, de igual modo, todos os lugares mesmo aqueles em que o saldo das emissões de dióxido de carbono é nulo.
Que queremos fazer, individual e colectivamente, do tempo e dos lugares que nos aproximam do ser social em permanente construção há milhares de anos?
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 11 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Desafios

O aquecimento global e os seus efeitos no clima, já reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), a escassez de água potável e de alimentos, a par de uma rápida caminhada para a míngua e extinção das jazidas de combustíveis fosseis são, de entre outros, os grandes desafios que a Humanidade enfrenta no imediato. As soluções têm de ser encontradas no presente e terão de ser, necessariamente integrais, como globais são os problemas que enfrentamos. Por muito que tudo isto possa parecer remoto, quer no tempo, quer no espaço, as evidências conferem-lhe uma proximidade inquietante.
Algo tem de mudar no paradigma de desenvolvimento adoptado, pelos Estados, vulgarmente denominados do 1.º Mundo, e na sua exportação, por vezes imposta, para os países em desenvolvimento. Este modelo de crescimento é insustentável e a síntese dos desafios que enfrentamos é dramática pois trata-se, nem mais nem menos, de acautelar a sobrevivência da nossa espécie.
A falência e o incumprimento de compromissos assumidos sob a égide da ONU, como o combate à fome, à pobreza extrema, o apoio à cooperação para o desenvolvimento e a redução de gases com efeito de estufa, comprovam que mudanças mais profundas são necessárias para inverter esta caminhada para o caos.
As soluções podem e devem ser encontradas no concerto das nações valorizando o papel da ONU ao qual, para que o desenlace tenha sucesso, têm forçosamente de se associar princípios que conduzam à paz e à cooperação entre os povos.
Esta pode ser uma das vias, eu diria a única via que pode garantir sustentabilidade ao futuro. Um futuro próspero e tranquilo para quem nos suceder nesta aventura da vida humana. O itinerário alternativo é conhecido, estamos a percorrê-lo com uma ligeireza voraz e com resultados sobejamente conhecidos.
O flagelo da fome, da pobreza, da exclusão social e económica, do trabalho sem renumerações condignas, do trabalho sem direitos e do desemprego, é uma realidade de vizinhança, já não é distante, faz parte do nosso quotidiano e do quotidiano do grupo dos ditos países ricos e desenvolvidos.
A globalização deste flagelo assenta nas mesmas raízes que provocam o aquecimento global, que provocam os intermináveis conflitos bélicos e que provocam a separação do Mundo, não em blocos militares, mas em conformidade com a realização económica e social dos povos e dos cidadãos.
Transformar o Mundo num bloco de paz e cooperação e por fim a um modelo de desenvolvimento que se alimenta nas desigualdades sociais e económicas, que os Relatórios do Desenvolvimento Humano da ONU tão bem retratam, é, tal como o aquecimento global, um desafio para Humanidade.
Ou trilhamos este caminho de transformação e cortamos as raízes ao monstro, fazendo jus ao ser social que dizemos ser, garantindo a nossa continuidade, ou continuamos a acreditar na inevitabilidade e na falta de alternativas, sempre assim foi e será, até que o mostrengo nos devore.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 06 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 7 de novembro de 2009

Choro

Se as lágrimas aflorarem
Não as contenhas
Liberta-as
Deixa que rolem
Livremente pela face
Como pingos de memórias
Como gotas de
Saudades do futuro

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cidades, espaços e pessoas

Há cidades míticas, cidades património, cidades ordenadas e desordenadas, megacidades, cidades capitais económicas, políticas e culturais, cidades comerciais, cidades industriais, cidades do pecado e do prazer, cidades de oportunidades, cidades tranquilas, cidades seguras e inseguras, cidades com alma e sem alma e há… a nossa cidade. A cidade onde nascemos e crescemos e nunca enjeitámos, a cidade onde vivemos por opção ou, por uma paixão que a casualidade atiçou e se transformou num grande amor que nos prende a esta, e não a outra cidade. E se o acaso da vida nos leva para longe… para outra cidade de oportunidades carregamos connosco a saudade dos espaços e das gentes que fazem única a nossa cidade.
As cidades crescem e transformam-se acompanhando os tempos. As marcas de cada época são visíveis a cada rua, a cada esquina, a cada praça, a cada jardim, nas descontinuidades que nos conduzem numa viagem à sua história social, política e económica.
O tempo nas nossas cidades é de acentuado crescimento e, em poucos anos, assistimos a profundas transformações nos seus núcleos históricos, ao aparecimento de novas áreas residenciais, à absorção das suas periferias, à reestruturação das acessibilidades, ao acondicionamento do trânsito viário, à criação de novos equipamentos colectivos e, inevitavelmente, à adopção de novos estilos de vida.
Às alterações produzidas no espaço edificado e a novos paradigmas do uso do território correspondem, estas quiçá menos visíveis, profundas alterações no tecido social das nossas cidades.
As transformações que se verificam são, de uma forma geral, bem aceites pelos cidadãos e pelas comunidades pois, daí advêm ganhos imediatos e correspondem a padrões de desenvolvimento urbano tidos como sinónimos de progresso e modernidade. E assim será, dependendo do conceito de desenvolvimento que está associado ao crescimento. Considero, todavia, que o actual processo evolutivo das nossas cidades está eivado de algum acriticismo dos responsáveis técnicos e dos decisores políticos e, de uma inaceitável inércia da comunidade que dá vida às cidades e aceita apaticamente soluções impostas por agendas exógenas ao interesse público.
Convém envolver as populações na construção do modelo de desenvolvimento que se pretende adoptar, importa salvaguardar a identidade das urbes sem que isso represente o contrário da sua modernização, importa atender ao futuro mais do que ao presente, importa não confundir qualidade de vida com rotundas, espaços comerciais e soluções arquitectónicas padronizadas replicadas um pouco por todo o lado.
É urgente repensar o espaço urbano. É urgente atender ao espaço rural. É urgente que a coesão social e territorial seja prioridade dos governos locais e do poder regional. É urgente o abandono da competitividade exacerbada e a adopção de modelos locais e regionais de complementaridade. A Região vale como um todo mas tem de ser mais, muito mais que o somatório das suas unidades territoriais.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 04 de Novembro de 2009, Angra do Heroísmo

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Relações de formação ou de servidão

Os programas “Estagiar” são, reconhecidamente, uma iniciativa meritória pois proporciona aos jovens um primeiro contacto com o mundo do trabalho ao qual acresce uma bolsa de formação, mas também no que concerne às empresas as vantagens são óbvias ao promoverem projectos no âmbito dos programas “Estagiar” dispõem, sem encargos, de jovens quadros especializados. Todavia, a execução dos programas e os objectivos para que foram criados têm sido alvo e críticas por parte dos jovens e da sociedade uma vez que, por um lado, os programas não conferem aos jovens estagiários alguns direitos sociais e, por outro algumas empresas utilizam os jovens estagiários como mão-de-obra descartável e a custo zero. Onde está a responsabilidade social das empresas de que tanto se fala!?
Dando corpo ao descontentamento e cumprindo um compromisso eleitoral a Representação Parlamentar do PCP Açores iniciou um processo de estruturação de uma proposta de alteração aos programas “Estagiar” procurando envolver as Associações de Juventude num método de construção colectiva que respondesse às justas aspirações e reivindicações dos estagiários.
A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA) apreciou, na sua reunião plenária de Outubro, a proposta de Decreto Legislativo Regional apresentada pela Representação Parlamentar do PCP que visava introduzir as necessárias alterações aos programas “Estagiar”.
O PS, o PSD e o CDS/PP reprovaram o projecto do PCP mesmo reconhecendo que há necessidade de “moralizar” os programas “Estagiar”. O principal argumento para a rejeição, pelo bloco central e respectivo apêndice, da proposta que o PCP Açores apresentou, foi a de que se pretendia transformar uma “relação de formação” numa “relação laboral”.
Para que fique claro aquilo que o PCP Açores pretendia era transformar uma “relação de servidão”, numa “relação de formação”. O PS, o PSD e o CD/PP optaram por manter, sem surpresas, os programas “Estagiar” numa “relação de servidão”.
Aníbal C. Pires, IN edição de Novembro de 2009 do Jornal Açores 9

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Aga Khan - imã dos ismaelistas

Depois de ter referido o túmulo de Aga Khan, em Assuão, Egipto, no post anterior algumas perguntas me foram colocadas.


Deixo aqui o caminho para procurar informação sobre Aga Khan III e sobre a Fundação Aga Khan
Aga Khan III, Sultan Mahommed Shah, (1877-1957).



Aga Khan (actualmente Aga Khan IV) é o imã dos ismaelitas.
O túmulo é feito em mármore de Carrara, situa-se na margem esquerda do Nilo, em Assuão, Egipto.

domingo, 1 de novembro de 2009

O Nilo em Assuão


Só quem navega no Rio Nilo pode perceber...
Talvez um dia lhe dedique mais algum tempo hoje ficam algumas imagens desse majestoso rio em Assuão.

Os minaretes das mesquitas como os campanários das igrejas erguem-se em direcção ao céu.

Hotel "Old Cataract".
Na colina ergue-se, sobranceiro ao rio e à cidade (Assuão) que cresceu na outra margem, o túmulo de Aga Khan.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As pessoas antes dos lucros

Passou sensivelmente um ano desde que o Governo, tardia e relutantemente, acabou por reconhecer que a tal crise “que chegaria mais tarde aos Açores e que se iria embora mais cedo”, tinha afinal chegado. A crise estava instalada muito antes de ser “decretada” e não tem dado sinais de se ausentar nem mais, nem menos depressa como profeticamente foi anunciado.
Quase um ano passou sobre a criação de um pacote de medidas para combate à crise e aos seus efeitos. É, portanto, tempo de se proceder a um balanço da sua eficácia.
Os dados e indicadores necessários para este balanço aí estão e são claros para todos os que os quiserem ler sem a cegueira do dogmatismo.
O grau de endividamento das empresas e das famílias, a retracção da produção e do consumo, o crescimento do desemprego, são indicadores reais e não há cenários de confiança ancorados na excitação da alta bolsista, das últimas semanas, que os disfarcem.
Os que acenam como sinal de confiança e retoma a recuperação de que se tem verificado nas principais bolsas onde se desenvolve a economia virtual, como sendo um indício infalível da ansiada recuperação da economia real, demonstram que nada aprenderam com o desastre global que vivemos, pensando provavelmente, que tudo voltará a ser como dantes, com os sectores especulativos a continuar a desbaratar a riqueza das nações por tóxicas fantasias financeiras, a troco da miséria de mais metade dos habitantes do planeta.
A verdade que temos de enfrentar é que, não só a crise não está debelada, nem controlada, nem terminada, como na verdade se aprofunda. O que temos de assumir é que muitas das medidas tomadas se revelaram completamente insuficientes.
O ritmo de destruição de emprego na Região atinge níveis alarmantes em todas as áreas de actividade, nomeadamente, nos serviços e entre os trabalhadores qualificados. O brutal aumento do desemprego e as expectativas pessimistas que, quer a União Europeia, quer a OCDE, tornaram públicas sobre a sua evolução para o ano de 2010 exigem políticas concretas, eficazes e assertivas para contrariar esta tendência negativa. Uma tendência que põe em causa qualquer pretensão de desenvolvimento harmonioso, qualquer esperança de avançarmos no caminho da tão desejada coesão social, territorial e económica.
Por outro lado, os rendimentos dos trabalhadores açorianos, apesar dos mecanismos existentes, em termos de fiscalidade e de acréscimos salariais, continuam a apresentar valores substancialmente inferiores aos dos seus congéneres continentais. A pobreza e a exclusão social são uma realidade em curva ascendente da qual, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista humano, não nos podemos alhear metendo, como essa magnífica ave que dá pelo nome de avestruz, a cabeça na areia.
Em tempo de discussão do Plano e do Orçamento Regional para o ano de 2010 são necessárias novas políticas de investimento que valorizem o trabalho e os trabalhadores. Políticas que coloquem as pessoas antes dos lucros.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 30 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Viroses

Carlos César, na qualidade Presidente do Governo Regional, veio a terreiro criticar a actuação e o mediatismo do médico Mário Freitas.
Tudo gira, ao que parece, à volta das críticas que profusamente Mário Freitas tem vindo a fazer à estratégia seguida pela administração regional de saúde no combate à disseminação do vírus da gripe A(H1N1). Aparentemente porque as medidas preconizadas e as críticas feitas pelo Dr. Mário Freitas não diferem tanto assim da realidade. O diferendo tem, certamente, raízes mais profundas e a razão não assiste nem à estratégia da Secretaria Regional da Saúde nem, tão-pouco, ao Delegado de Saúde em questão pois, face à disseminação do vírus da gripe A(H1N1) contribuiu, ainda mais, para um clima alarmista. Estamos a falar de um vírus com uma elevada capacidade de contágio mas cujos efeitos letais são bem menores que o vírus da gripe sazonal.
Mal, mas mesmo mal, ficam a Directora Regional e o Secretário Regional da Saúde desautorizados, que foram, com a atitude de Carlos César quando veio censurar, com a acidez que bem se lhe conhece, o excessivo mediatismo de Mário Freitas, revelando o seu incómodo pelas críticas às suas políticas de combate ao temporão e atípico vírus gripal. Este é um comportamento recorrente do Presidente do Governo Regional. Outros casos semelhantes são do domínio público.
A autoridade que emana do Palácio de Santana é intocável e para que todos percebam quem manda, eis que o Presidente Governo Regional decidiu que o Cais de Cruzeiros da Ilha Terceira se vai situar em Angra do Heroísmo.
Assim, sem mais nem menos, num exercício autoritário do poder, decidiu: “- É em Angra.”
E pronto! Angra do Heroísmo vai ter um Cais de Cruzeiros porque Carlos César assim o entende. Porquê em Angra e não na Praia? Que fundamentos presidiram a tal decisão?
Não disponho de informação suficiente para poder ter uma opinião fundamentada sobre a localização do Cais de Cruzeiros ou mesmo se a infra-estrutura deverá ser ou não, no presente, a grande prioridade de investimento público para a Ilha Terceira, mas julgo que a decisão presidencial deveria ter sido precedida de discussão pública e de uma avaliação rigorosa quer das prioridades de investimento na Terceira, quer ainda dos impactos, num e noutro local, da implantação de uma obra desta dimensão.
Este surto de atitudes autoritárias de Carlos César, como já disse, não é novo. A virose do autoritarismo contraída em 2000, com a primeira maioria absoluta, permanece em latência. O fim do ciclo eleitoral, os resultados obtidos nas legislativas e nas autárquicas pelo PS e a distância que nos separa de 2012, terão sido os factores que favoreceram a actividade do vírus adormecido e eis que o despotismo surge naturalmente nas palavras, atitudes e decisões do Presidente do Governo Regional dos Açores.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 28 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Fragmentos do quotidiano

Este texto marca o início da colaboração com o "Diário Insular".
Este será o primeiro de alguns “fragmentos do quotidiano” que por aqui deixarei, não interessa quantos nem por quanto tempo. Nada é imutável o que constitui um perpétuo e aliciante desafio. Semanalmente virei ao vosso encontro até que valha a pena. Valha a pena por mim, pelo prazer que a escrita e a partilha me proporcionam. E… Valha a pena por vós. Só se os textos que vos trouxer merecerem a vossa atenção valerá a pena, ainda que, … a esperança só morra comigo e a alma não seja pequena.
Sem leitores o exercício da escrita pouco significa e, se for apenas para satisfação do meu ego, então não ocuparei indevidamente espaço e tempo que não são meus. Disponho de outros suportes onde deixo que as palavras respirem e andem por aí sem grilhetas formais, trilhando os caminhos da liberdade. Outros suportes onde a momentos derramo pedaços, registos, instantes, olhares, notas à solta… Vantagens das novas tecnologias de informação e comunicação que nos permitem a auto-satisfação narcísica, mas também espaços de intervenção e formação de opinião e debate.
Aqui, neste espaço e neste suporte, mais do que ideias feitas procurarei, sem abdicar da minha opinião à qual está associada uma matriz ideológica, promover e incentivar o diálogo, a cogitação, a discussão e o contraditório. Só assim, em minha opinião (cá está ela), estes pedaços do dia-a-dia farão sentido. Fica o meu endereço de correio electrónico (anibalpires@sapo.pt) para o qual podem enviar opiniões e comentários o que muito agradeço.
Do meu círculo familiar e de amigos, do meu bairro, da minha Freguesia, da minha Cidade, da minha Região, do meu País e do Mundo, tento ter uma visão multilateral onde as diferenças devem ser respeitadas, as interacções valorizadas e os consensos procurados. Todos temos a nossa “verdade” e uma matriz cultural que nos torna diferentes, mas as pontes são sempre possíveis quando promovemos o diálogo em nome do interesse colectivo. A unilateralidade das análises é redutora, induz em erro e promove a imposição de uma “verdade” que nem sempre, quase nunca, é a que mais se aproxima da realidade e naturalmente do interesse comum.

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 25 de outubro de 2009

Intermitências das "águas"


As águas-furtadas dominam sobre o casario
O recorte intermitente dos cumes
Encanta-me.


Gosto!
Da descontinuidade
E dos espaços
Furtados à uniformidade das águas
Excitam a fantasia
Quantas utopias e gestas ali coabitaram
Quantas ilusões ali criadas e aniquiladas
Que sonhos ali jazem
Eternamente adormecidos




Que devaneios
Que sonhos
Dali partiram
Convertidos em existências
Alheias ao espaço
Das águas-furtadas


sábado, 24 de outubro de 2009

Ainda não são as palavras

Não são ainda as palavras que por aqui ficaram prometidas.
Ficam apenas estas imagens do Pico registadas hoje de manhã.



Já não era o alvorecer
O Sol espreitava no cume
A luz suave da manhã
Varria a encosta
Numa suave carícia
Iluminando o Sábado
Prometendo o dia

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Vocação autárquica

As eleições autárquicas ditaram resultados que escaparam às previsões mais ousadas dos analistas, dos politólogos, dos partidos políticos e coligações e, quiçá, até de quem foi abençoado com o dom da adivinhação.
Na Região não se esperava um empate, porque matematicamente não era possível, e aguardava-se, legitimamente, equilíbrio no número de Câmaras conquistadas pelo PS e PSD. À medida que os resultados foram sendo conhecidos e de surpresa em surpresa os intervenientes foram apanhados desprevenidos perante o que se desenhava naquela noite eleitoral. Alguns nem tiveram tempo de se recompor da estranha sensação de terem saído derrotados ou vencedores desta contenda eleitoral. Quanto mais tempo para perceber como é que tinha sido possível um desenlace daqueles. Como é que foi possível? Como se justifica tamanho desaire? Ganhámos mas… como!?
Os resultados que se verificaram no que concerne à contabilidade das Presidências de Câmara ganhas e perdidas – 12 para o PS e 7 para o PSD – apanharam tudo e todos de surpresa e alguns dos resultados concelhios, com particular incidência em Vila Franca do Campo, merecem mesmo um aturado estudo e reflexão sobre o intrincado processo decisório dos eleitores.
O que terá pesado mais na decisão dos cidadãos? O projecto político? O futuro colectivo? A promessa… do que quer que seja? A oferta que pode ir da simples esferográfica, ao saco de cimento, aos blocos e à areia, aos electrodomésticos ou a garantia de um emprego para si ou para os seus, isto para não falar em toalhas de renda para a mesa de sala de jantar ou, das simples e vulgares t-shirts!?
Para além do espanto que constituiu o resultado das eleições autárquicas na Região, surpresa que vale o que vale, importante são mesmo as soberanas escolhas feitas pelos açorianos que, por mais que contrariem os objectivos e as expectativas político eleitorais, devem ser respeitados e aceites com humildade democrática, atitude que alguns actores políticos não souberam gerir, dissimulando muito mal o seu desagrado perante o desfecho eleitoral.
A líder do PSD Açores teve muitas dificuldades em assumir a derrota eleitoral e não conseguiu disfarçar a perturbação por ter ficado muito aquém daqueles que eram os seus objectivos eleitorais. Objectivos, já em si mesmo, pouco ambiciosos para quem se anuncia como alternativa ao actual poder regional.
Berta Cabral “demitiu-se” das suas responsabilidades regionais esquecendo os seus correligionários, que protagonizaram as candidaturas autárquicas do PSD e saíram derrotados, não lhes dirigindo uma palavra de alento e solidariedade. Berta Cabral não teve a nobreza de estender o manto da liderança sobre os seus esforçados dirigentes e militantes que se envolveram nesta batalha eleitoral e que não resistiram à eficaz máquina trituradora do partido/governo.
Ao assumir-se exclusivamente como autarca ganhadora em Ponta Delgada e escamoteando as suas responsabilidades enquanto líder partidária, Berta Cabral, demonstrou que a sua verdadeira vocação se situa ao nível da governação autárquica e, na retina dos açorianos, fica a imagem de que a alternativa política regional não se situa no PSD Açores, independentemente da personalidade que o lidera.
As alternativas políticas têm protagonistas mas o que lhes dá o verdadeiro suporte são os projectos políticos alternativos e, isso, o PSD também não tem.
Aníbal C. Pires, In A UNIÃO, 23 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Cultura mais pobre nos Açores

As políticas pouco têm a ver com quem em determinado momento as protagoniza.
Mas não há dúvidas que a cultura, no anunciado governo de Sócrates, fica claramente beneficiada com a entrada de uma mulher que para além de todas as qualidades que lhe reconheço, é sem dúvida, de uma beleza invulgar.
O governo do PS ficou claramente beneficiado com a entrada de Gabriela Canavilhas e a saída de Maria de Lurdes Rodrigues.

A Gabriela Canavilhas, para lá das divergências políticas que nos separam formulo votos de um bom desempenho no seu novo cargo.
E não posso deixar de registar que a cultura nos Açores ficou empobrecida com a sua saída da Direcção Regional que tutelava.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Desobriga

O post anterior suscitou muitas críticas telefónicas e, para já, um comentário.
Foram as louras que apoiaram, foram as louras que não acharam graça, foram as morenas de olhos azuis que se sentiram discriminadas, foram as morenas, as ruivas, as orientais, as africanas e as sul-americanas que perguntaram: Mas para quê uma loura? E, ainda, um sem número de seres do género masculino que me criticaram por eu ter dado por falta de uma loura perante tanta beleza.
Como é que raio tiveste discernimento para, perante tal quadro e tamanha beleza, dar por falta de uma loura? Foi a pergunta mais frequente de alguns amigos que telefonicamente manifestaram a sua opinião sobre o texto que acompanha a foto do post anterior.
Todas as críticas são fundamentadas e justas e este post constitui a minha desobriga perante tudo aquilo que me foi dito, até porque já hoje visitei o blogue “E Deus Criou a Mulher” quando percebi que nas novidades havia uma Cruz e eu bem preciso de expiar o "pecado" que levantou tanta controvérsia.
Não pude deixar de ir espreitar pondo fim ao meu boicote pessoal ao “E Deus Criou a Mulher

A foto acima é um acto de justiça. “E Deus Criou a Mulher” é um blogue plural que publica a beleza feminina sem nenhum tipo de discriminação. No caso vertente são mesmo as louras que predominam, faltando muitas outras.

domingo, 18 de outubro de 2009

Um post pós ciclo eleitoral

Num momento de descontracção após o desfecho do ciclo eleitoral - nos Açores teve no espaço de um ano quatro actos eleitorais – da análise aos resultados e dos efeitos imediatos que produziram, porque outros efeitos só daqui a algum tempo se terá noção do seu real impacto na vida política regional e nacional mas, como dizia num momento mais relaxante encontrei a foto abaixo que retirei daqui.



Se linkaram deram conta que entraram num blogue que classifico de culto à beleza feminina, aliás não é a primeira vez que o “momentos” se socorre das imagens de “E Deus Criou a Mulher" e como os visitantes já deram conta está na lista dos meus blogues de referência. Eu como disse classifico-o como um lugar de culto à beleza feminina, outros poderão classificá-lo como muito bem entenderem. Não discuto nem me preocupa a divergência de opinião no que toca ao conteúdo do blogue a que me tenho vindo a referir.
Mas ao ver a foto não pude deixar de considerar que havia qualquer coisa de discriminatório naquela imagem.
Falta, pelo menos, uma mulher loura!
Louras! Durante uma época o paradigma da “sex-simbol”, mais recentemente alvo das anedotas mais abjectas sobre a sua inteligência humana e agora, logo aqui, afastada de um colectivo de mulheres que merecem ser contempladas até que o olhar nos doa.
Não é aceitável. Considero uma inqualificável discriminação à beleza e ao encanto das mulheres abençoadas com o dourado dos seus cabelos.
Em sinal de protesto por este acto discriminatório vou deixar, durante alguns dias (poucos), de visitar “E Deus Criou a Mulher”.

sábado, 17 de outubro de 2009

Conquistas e retrocessos

Nem sempre é fácil. Por vezes é até bem complicado e problemático mas, talvez por isso os desafios sejam tão aliciantes e quantas vezes as vicissitudes da vida não servem de mote à criatividade, à inovação e às transformações tantas vezes desejadas quantas vezes adiadas. Se isto é válido no domínio do indivíduo, ou pelo menos há um entendimento generalizado de que assim é, o mesmo se poderá inferir para as realizações colectivas.
Nada disto é novidade. Acontece desde o princípio dos tempos, é inato. É uma herança aperfeiçoada ao longo do extenso caminho da evolução.
A sociedade contemporânea é fruto da evolução natural a que me referi mas é também, e muito, resultado de construções sociais fundadas em valores, também eles em constante evolução e aperfeiçoamento, de onde deveria resultar bem-estar e qualidade de vida para todos os indivíduos. Foi à sombra destes princípios que cresci e me formei no seio da família, na escola e na vida social e colectiva. Acredito, por isso, que um dia os humanos evoluirão para comportamentos menos inatos e mais próximos das representações sociais que fazemos da humanidade.
Se tenho dúvidas? Sim, tenho muitas. Muitas incertezas e interrogações para as quais nem sempre encontro respostas plausíveis.
Há poucos dias as televisões noticiavam com a devida relevância e associação ao progresso e à evolução a abertura de agências bancárias, de um grupo financeiro nacional, aos sábados. É a adaptação às necessidades da vida moderna dir-me-ão. Eu direi que é um sinal de escravização pois se só temos tempo para ir ao banco aos Sábados e aos espaços comerciais à noite ou aos Domingos alguém subtraiu tempo ao nosso tempo.
O prolongamento e a flexibilização dos horários de trabalho, nomeadamente dos trabalhadores das agências bancárias que abrem ao público aos Sábados, contribuiu para a aceitação generalizada, como um sinal de evolução e de progresso, de horários nocturnos e aos fins de semana de sectores de actividade comercial aos quais temos de recorrer com frequência, como sejam por exemplo os hipermercados.
Quando era criança lembro-me de ficar a olhar para a Lua tentando identificar a figura de um homem que, por não ter guardado o dia de descanso semanal dedicado ao Senhor, tinha sido castigado por Deus e por Ele ali colocado eternamente para servir de exemplo aos Homens.
Já ninguém conta esta estória nem será aconselhável lembrá-la pois quem o fizer será por certo acusado de retrógrado e sabe-se lá que mais.
A valorização do trabalho e dos trabalhadores, aquisição social consolidada na segunda metade do século XX, consagrou semanas de trabalho de 5 dias e de 35/40 horas, pagamento diferenciado do trabalho nocturno e do trabalho extraordinário.
Na primeira década do Século XXI talvez não seja má ideia rebuscar os argumentos do castigo de Deus, mesmo correndo o risco de não ser compreendido, para garantir a subsistência de dias de descanso semanal para quem trabalha por conta de outrem.
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 17 de Outubro de 2009, Angra do Heroísmo