segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Uma questão de memória

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Este não é um texto sobre os refugiados mas bem podia ser. Este é um texto de 2005 e aborda um relatório do Observatório Europeu dos Fenómenos Racistas e Xenófobos divulgado no início desse ano. Hoje ao relê-lo e face às manifestações xenófobas que a situação dos refugiados despoletou, pensei cá para comigo que bem podia ter sido escrito hoje.





Uma questão de memória 
Foi com alguma perplexidade e apreensão que tomei conhecimento das conclusões de um estudo do Observatório Europeu dos Fenómenos Racistas e Xenófobos realizado recentemente.
As conclusões não deixam margem para equívocos, a maioria dos cidadãos europeus não concorda com a entrada de mais estrangeiros no território europeu. No topo a Grécia, na cauda a Suécia, o quarto lugar é ocupado por Portugal. Mais de 60% dos portugueses diz não à entrada de mais imigrantes.
Sabendo-se que Portugal é um país de mestiçagens, os estudos genéticos assim o comprovam, e de emigração – poucas famílias portuguesas não terão vivenciado, direta ou indiretamente, a dor da partida, a saudade de alguém que procurou, procura, melhor sorte, noutras paragens. Daí advém a minha perplexidade, Será que os portugueses não têm memória. Será que este povo não se reconhece no “outro”.
Foto - Aníbal C. Pires
A memória de alguns acontecimentos de cariz xenófoba que, ciclicamente, vão tendo lugar nos países europeus transforma-se, em preocupação.
A esmagadora maioria dos mais de 60% de portugueses que entendem não dever ser permitida a vinda de mais imigrantes para Portugal tem baixas qualificações académicas, mantêm relações laborais precárias e não detêm qualificações profissionais. A contextualização das conclusões obtidas face à caracterização socioprofissional, do segmento da amostra, que mais reservas põe à entrada de imigrantes permite compreender melhor os resultados obtidos mas, no entanto, não deixa de constituir uma preocupação.
A fobia do terrorismo, decorrente do 11 de Setembro de 2001 e de 11 de Março de 2004, associada à retração da economia portuguesa e europeia, imposta pelo garrote do Pacto de Estabilidade e Crescimento, contribuem, seguramente, para que a opinião pública portuguesa, nomeadamente, a mais permeável à manipulação da informação e a mais fragilizada social e economicamente, formule opiniões como a que foi divulgada pelo estudo do Observatório Europeu de Fenómenos Racistas e Xenófobos.
As conclusões do estudo justificam a necessidade, por mim expressa em diferentes fóruns, de se encararem os assuntos da imigração e da gestão da diversidade com seriedade e rigor, equacionando as diferentes variáveis deste fenómeno que, não sendo de hoje, assume, atualmente, uma dimensão e multiplicidade preocupantes.
A gestão dos fluxos migratórios não se faz com barreiras administrativas, veja-se o fracasso da contingentação imposta pela “lei da imigração” portuguesa, nem mesmo com barreiras físicas, os perigos da travessia do estreito de Gibraltar ou a super vigiada fronteira do México com os Estados Unidos, impedem que milhares de pessoas insistam nesta “imigração de desespero” provocada pelas diferenças, cada vez mais acentuadas, de desenvolvimento entre um Norte cada vez mais rico, mas que já produz muitos pobres, e o Sul, cronicamente pobre, cada vez mais pobre.
A gestão efetiva e racional dos fluxos migratórios terá de equacionar, inquestionavelmente, acordos com os países emissores de imigrantes, com os países de trânsito e, principalmente, por uma nova ordem internacional que respeite o direito dos povos e dos indivíduos a usufruírem de uma vida digna, no respeito da diversidade e dos Direitos do Homem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Março de 2005

Sabores(*)

Imagem retirada da internet
A alimentação humana cedo passou da mera satisfação de uma necessidade primária para se transformar num processo de socialização das comunidades humanas.
À volta da mesa e na degustação dos alimentos transmitem-se e herdam-se valores ancestrais. Valores que, por serem antigos, não devem ser confundidos com conservadorismo. E importa preservá-los, pois são estruturantes da educação e formação dos indivíduos. Sentar a família à volta de uma refeição é um momento fundamental no quotidiano familiar, não só pela satisfação da necessidade fisiológica em si mesma mas pelo simbolismo da partilha e, sobretudo, pelo encontro diário de pessoas unidas por laços de parentesco e pelo legado cultural e formativo que esses momentos proporcionam, se utilizados para esse efeito.
À modernidade não sobra tempo, dirão os mais cáusticos, nem para confeccionar os alimentos quanto mais para conversar ou transmitir o que quer que seja durante uma refeição. À modernidade devia sobrar todo o tempo do Mundo para educar as nossas crianças e para as acompanhar em todos os aspectos do seu crescimento e formação pessoal e social. Direi eu, do cume da minha utopia.
Não pretendo tergiversar sobre nutrição, nem gastronomia tradicional ou gourmet mas sempre direi que somos aquilo que ingerimos e, quer por razões de bem-estar, quer ainda por razões de ordem cultural evitemos a “fast-food”.
Vamos aproveitar todos os momentos e circunstâncias para afirmar o que nos torna diferentes na globalização dos costumes e da cultura, mas também porque a gastronomia tradicional devidamente adaptada às nossas necessidades e estilos de vida só pode redundar em qualidade de vida.
A viagem pelos sabores da gastronomia popular é um percurso de descoberta de hábitos e culturas dos povos e da sua relação com o meio ambiente ao qual se foi juntando, em doses sabiamente adequadas, algumas técnicas e tecnologias.
A exiguidade de solo arável e de água determinou a “cachupa” cabo-verdiana, mais ou menos rica conforme a disponibilidade das proteínas animais. O tronco do cereal ampara a leguminosa no seu trepar em busca do sol que os há-de amadurecer. O milho e o feijão passam dos campos para o prato numa simbiose perfeita e traduzem o quotidiano alimentar de um povo que, em condições de grande adversidade, soube construir os sabores da “morabeza”.
Se é assim com a cachupa cabo-verdiana o mesmo poderemos dizer das “migas” alentejanas, das originais “pizzas” do sul de Itália ou dos “tacos” mexicanos. A disponibilidade dos ingredientes e a forma como são combinados e confecionados trazem à mistura alguns dos condimentos que fazem a história da alimentação humana.
(*) Texto escrito, na Covilhã, em Agosto de 2007 e hoje revisto e atualizado.
 Horta, 22 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 23 de Novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Se é mau, Não será

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As redes sociais proporcionam uma rápida difusão da informação sobre acontecimentos ocorridos nos mais recônditos lugares do planeta. Rede disponível e um smartphone é quanto baste para fazer a “notícia”. Se é mau, Não será. Se é bom, Talvez.
Mais importantes do que estas “fast notícias” são os juízos que se fazem delas e, sobretudo, o objetivo com que são depois difundidas e comentadas. Quantas e quantas vezes e passado o impacto inicial nos apercebemos que afinal, Não era bem assim. Isto para além das leituras enviesadas fabricadas pelos mercenários (uns voluntários, outros nem por isso) das redes sociais. E depois nunca há lugar a um desmentido. Quem leu agora já não lê depois e fica com a “notícia” original, não confirma a sua veracidade não procura outras fontes e, “voilà”, Tá conseguido o objetivo, algumas vezes nobre, muitas vezes nem por isso. É o resultado do mediatismo e do imediatismo que carateriza o nosso tempo onde o espaço para a reflexão deixou de existir. Tudo tem de ser agora, daqui a pouco já não tem interesse. O papel que sempre esteve alocado à comunicação social é hoje um espaço partilhado e anárquico. Se é mau, Não será. Se é bom, Talvez.
Não se pense que esta breve reflexão sobre as redes sociais têm como objetivo denegri-las, Não, não pensem. A internet e as redes sociais permitiram a democratização do acesso à informação e, sobretudo, a possibilidade de aceder a fontes e partilha de informação que as corporações mediáticas não citam, não utilizam e obliteram. Logo só posso estar satisfeito com isso, E estou, e utilizo a rede e as suas plataformas de informação e comunicação.
A questão é outra e, preocupa-me. Sendo a internet e as plataformas de informação e comunicação que lhe estão associadas instrumentos aos quais um número significativo de pessoas acede e utiliza para diferentes fins, mas também para se informar e para difundir informação é, natural que se tenham enquistado na rede os tais mercenários a que me referi. Alguns destes mercenários estão por militância e tudo fazem para desconstruir a informação e a opinião com a qual não estão alinhados, os outros, os mercenários remunerados, estes fabricam as notícias e procuram credibilizá-las através dos OCS tradicionais, manipulam a opinião. São assim como uma espécie de terroristas virtuais que em nome da liberdade individual e do direito à opinião, valores incontestáveis, mentem, omitem, manipulam, formam a opinião que serve o amo, seja por uma questão de crença, seja como meio de vida. Novas tecnologias, novas oportunidades de ganhar a vidinha, prostituindo-se. E esta opção não é uma opção nova. É bem antiga, como velhas são as estratégias de dominação de um grupo humano sobre outros. O medo, sombra alongada da ignorância, é o principal aliado de quem continua a dominar a opinião pública mundial.
A liberdade individual é diretamente proporcional ao conhecimento. Quanto mais cultos e informados, mais livres.  
Ponta Delgada, 17 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 18 de Novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Se é bom, Talvez

Imagem retirada da internet







Da coluna de opinião a publicar amanhã no Diário Insular







"(...) A liberdade individual é diretamente proporcional ao conhecimento. Quanto mais cultos e informados, mais livres."

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Novembro de 2015 

Outra serra





A publicação deste pequeno excerto de um texto em construção dedico-o aos trabalhadores das Minas da Panasqueira.






"(...) O silêncio carregava odores e sons de uma infância passada na beira de outras serras, de granito, xisto e volfrâmio. Serras desventradas, paisagens desumanizadas, habitadas por gente que veio de outras serras, das planícies, das ilhas. Gente dura como o minério que arrancava das entranhas da serra, gente que aprendeu a viver entre a escuridão impregnada de poeira de sílica e a claridade do ar que vinha dos pinheiros bravos da serra. Outra serra, outras aldeias de montanha. (...)"

Aníbal C. Pires, 16 de Novembro de 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Qual o valor da vida

Foto - Aníbal C. Pires
Condeno veementemente e de igual modo todos os atos de violência e de terror sejam eles perpetrados no coração de uma cidade europeia ou em qualquer outra parte do Mundo. A vida humana não vale mais em Paris, do que em África, na Síria, no Líbano, em Israel ou em Gaza, no Iraque, no Afeganistão, no Saara Ocidental ou em qualquer outro rincão deste nosso Mundo.
Nos últimos dias foram perpetrados ataques terroristas pelo DAESH (designação para “estado islâmico” da qual os jihadistas não gostam, ameaçam até cortar a língua a quem os designar dessa forma) no Líbano, na Síria e em Paris. Tendo estes atos de terror a mesma origem a sua condenação e a consternação assumiram, porém, dimensões diferentes. Nada de novo. Em Abril passado todos foram Charlie e poucos foram quenianos. É a proximidade, sem dúvida. Mas é sobretudo a falta de informação e a formatação da comunicação que induz estes comportamentos de cidadania que diferenciam o valor da vida. Mas essas análises deixo-as para a psicologia social que, seguramente, encontrará as explicações para este fenómeno que aos meus olhos configuram, tantas e tantas vezes, puros exercícios de hipocrisia.
Falamos de terror e de terrorismo quando são ceifadas vidas inocentes com recurso à violência armada, seja disparando indiscriminadamente sobre a população, seja com atentados à bomba com viaturas armadilhadas ou ainda quando alguém se faz explodir a si próprio em locais de grande concentração de pessoas. Mas o que dizer, como adjetivar os motivos que estão na origem das crianças que desde que está a ler este texto já morreram com fome e subnutrição. Que dizer e como adjetivar os motivos que estão na origem das pessoas que desde que está a ler este texto já morreram devido a doenças provocadas pela falta de água potável, saneamento básico e higiene. Não será isto terror, Não será isto terrorismo.
Foto retirada da internet
Voltando aos terroristas do DAESH à sua génese e apoios, terroristas que não devem ter lido esta parte do Corão, "Não matareis a pessoa humana porque Alá a declarou sagrada" (Corão,VI,151). Os dados disponíveis apontam para que este grupo e outros semelhantes tenham sido criados, financiados e armados pelo Ocidente através do seu braço armado, a NATO. A intervenção russa na Síria veio demonstrar que os Estados Unidos, os seus principais aliados e a NATO estão na Síria, como estiveram no Kosovo, no Iraque, no Afeganistão e na Líbia para derrubar os ”regimes” e daí retirarem os dividendos conhecidos e não para combaterem o DAESH. Como sabemos não são os “regimes” que interessam à NATO porque se, verdadeiramente, fossem os regimes a motivação para as intervenções militares mais ou menos encapotadas a Arábia Saudita, de entre outras ditaduras do golfo pérsico, já há muito teriam sido objeto de intervenções militares e do derrube do “regime”.
O terrorismo assuma ele a forma da fome, da desigualdade ou dos atentados violentos, ou quaisquer que sejam as suas causas e objetivos proclamados, serve sempre os interesses dos donos do Mundo, o capital financeiro. A resposta mais eficaz ao terrorismo passa necessariamente pelo combate às suas raízes, sejam elas políticas, económicas e sociais, e pela defesa e afirmação dos valores da liberdade, da democracia, da soberania e independência dos Estados.
Ponta Delgada, 15 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 16 de Novembro de 2015

domingo, 15 de novembro de 2015

Construir ideias

Foto - Aníbal C. Pires
Excerto do texto que amanhã será publicado no "Jornal Diário e no Azores Digital"

Em Abril passado todos foram Charlie e poucos foram quenianos. É a proximidade, sem dúvida. Mas é sobretudo a falta de informação e a formatação da comunicação que induz estes comportamentos de cidadania que diferenciam o valor da vida.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Novembro de 2015

Do tempo que corre

Foto - Aníbal C. Pires








Por nada e por tudo, trago este excerto de um texto escrito no princípio do ano e publicado neste blogue e na imprensa regional.
Tenham um bom Domingo.








"Não tenho uma visão unilateral do Mundo, sou tolerante mas não tolero a intolerância. Sou por natureza desassossegado sem ser hiperativo e, inquieto-me perante a dor e o sofrimento que a iniquidade inflige, ainda que por vezes os flagelados pela injustiça sejam os seus próprios carrascos. "

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 02 de Março de 2015

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Democracia e democratas

Foto - Aníbal C. Pires
Para os democratas de direita, estejam eles no PS, no PSD ou no CDS, a democracia é chique, moderna e plural enquanto o PCP lhe servir apenas de adorno. Fica bem à democracia portuguesa este adereço e enquanto assim for, os democratas de direita toleram o PCP mas sempre como um enfeite, nunca como um partido capaz de assumir responsabilidades no arco da governação, seja lá o que isso for. Não, isso é que nunca.
O tempo que vivemos é um tempo novo. É um tempo de esperança que se desenha no horizonte, é um tempo que alguns dizem ser histórico, E porquê. Porque o PCP fez aquilo que sempre disse aos trabalhadores e ao povo português a cada eleição que disputa. Honraremos os nossos compromissos e assumiremos as responsabilidades que o nosso Povo nos quiser conferir, não mais que isto mas, não é pouco, É determinante para que em Portugal se possa concretizar a formação de um governo capaz de devolver a alegria e a esperança ao povo português. Se é um governo patriótico e de esquerda, não diria tanto. Mas não será, seguramente, um governo que coloque o bem-estar dos trabalhadores e do povo português como a sua última das últimas prioridades.

Foto retirada da Internet
Trata-se, tão-somente, de que um governo de iniciativa do PS com o apoio do PCP e do BE possa vir a assumir os destinos de Portugal nos próximos 4 anos, afinal nada de estranho é um governo apoiado pela maioria de deputados da Assembleia da República, é apenas a democracia a funcionar em toda sua plenitude, é apenas a materialização da vontade da maioria dos eleitores. Mas há quem não goste da democracia e tenha reiterado a sua visão totalitária da vida política portuguesa, desde logo o inquilino do Palácio de Belém, que em primeira instância rejeitou a solução que lhe foi apresentada e apadrinhou os seus rapazes não se coibindo de destilar ódio sobre o PCP, o PEV e o BE, desrespeitando todos os portugueses que confiaram o seu voto a estes partidos, partidos tão legítimos como qualquer outro. Outros foram deixando cair a máscara de democratas e foi um tal retirar da gaveta os velhos e estafados argumentos anticomunistas, alguns ainda se preocuparam em dar-lhe uma nova roupagem, outros nem a esse trabalho se deram tal foi o pânico que se gerou nas instaladas hostes de beneficiários de uma democracia que só é boa quando alterna, mas que se diaboliza quando se configura, ainda que ligeiramente, como uma alternativa.
Os ataques mais ou menos velados ao PCP os autos de fé anticomunistas encheram e enchem as colunas dos jornais e os painéis de comentário e análise politica nas televisões deixando a nu que a pluralidade de opinião e o rigor não tem passado de mais uma falácia.
A cultura democrática em Portugal ainda tem um longo percurso a percorrer, os exemplos de governos europeus formados com o apoio de partidos comunistas são vários e, configuram acordos parlamentares que resultam da vontade dos eleitores, a democracia funciona sem sobressaltos, em Portugal essa possibilidade despertou a verdadeira natureza dos democratas de proveta herdeiros de um passado obscuro e ditatorial de quase meio século. É essa nostalgia de um passado que manteve o povo português agrilhoado que tem vindo a ser regurgitada pelos mercenários da formação de opinião ao serviço dos “donos disto tudo” e dos seus procuradores políticos.
Angra do Heroísmo, 10 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 11 de Novembro de 2015

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Comunista, obrigado!

Foto - Ana Loura
A semana passada uma cronista nacional com assento nos jornais e televisão veio assumir-se publicamente como anticomunista. Esta necessidade de afirmar o que muitos de nós já sabíamos foi feita num texto formal e estruturalmente sem mácula. O texto foi partilhado inúmeras vezes nas redes sociais, não terá sido viral mas quase, até porque se tratava de um texto e não de imagens. Dei conta do texto por uma das partilhas feitas por alguns amigos virtuais, que na partilha colocaram coisas como “de grande fôlego” ou “extraordinária reflexão” e, face a isto lá fui ler a Clara Ferreira Alves (CFA), até porque os amigos a que me refiro não são apenas virtuais, são bem reais e personalidades por quem nutro respeito intelectual e político.
E se formal e estruturalmente o escrito de CFA não tem nada que se lhe aponte, aliás como já ficou expresso, quanto aos factos a erudição da ilustre cronista esvai-se nas entrelinhas dos argumentos com que sustenta a sua alegre confissão. Não vou sequer demonstrar que a CFA mente quando fala os tempos do PREC na Faculdade de Direito, ou que ignora a história do PCP, bem assim como o seu programa. Quanto às alusões ao relacionamento de Álvaro Cunhal e José Saramago, então não vale mesmo a pena perder tempo com a CFA.
A frase chave que retira toda a credibilidade aos factos apresentados por CFA, não à sua opinião que pode expressar livremente porque os comunistas lutaram e morreram para que isso fosse possível, é a seguinte:
"Sou uma anticomunista que não tem vergonha de ser anticomunista e que tem e teve amigos comunistas (mais teve do que tem, porque tudo o que se relaciona com esta doutrina é, irremediavelmente, passado). Claro que podem ler nesta frase — “tenho amigos comunistas” — a mesma desconfiança que leem quando os homofóbicos dizem que têm amigos gays. E, já que falamos disso, o PCP sempre foi ferozmente antigay. Só se mudaram. Já lá iremos."
A emenda foi pior que o soneto. E lá continuei a ler o texto esperando pela promessa (Já lá iremos) da mudança ou não da posição do PCP sobre a homossexualidade. Li até ao fim e não encontrei, afinal a CFA não foi. Talvez um dia vá, mas não foi desta. Ou então ter-se-á esquecido tal era a vontade de deixar bem claro que, não só é anticomunista, como também considera que esta coisa de um governo do PS com o apoio do PCP e do BE é contra natura.

Já agora a propósito da suposta posição homofóbica o PCP recorro ao jornalista Luís Osório que sobre o assunto e a propósito dos incidentes da Festa do Avante escreveu o seguinte:
“Nunca fui comunista. Várias vezes tenho combatido um partido que é, na sua essência, ortodoxo e (na minha opinião) profundamente conservador. Porém, os ataques ao PCP por causa das agressões na Festa do Avante! Ataques que insinuam que o problema está na homofobia dos comunistas, são injustos e vis. O meu pai foi um dos primeiros comunistas a assumir a sua homossexualidade. Esteve mais de vinte anos na cúpula da organização da Festa, militou no PCP desde o final da década de 1960 e foi sempre apoiado política e pessoalmente. No momento da sua morte, a última cerimónia, antes da cremação, vários membros do Comité Central dedicaram-lhe palavras de despedida. Por esses dias recebi um telefonema de Jerónimo de Sousa. É justo que se diga, em memória dele e da verdade.”
Não acredito que a CFA, profunda conhecedora do PCP, não tenha lido este escrito do Luís Osório onde fica demonstrado que o PCP, sobre as questões da homossexualidade, já mudou há muito tempo.
Direito à opinião certamente que sim, todos a temos nem que seja por uma questão de fé, como me parece ser o caso da CFA que a terminar diz que desde pequenina que é portuguesa e anticomunista, se a primeira é uma condição a segunda é mesmo uma questão de fé. Não discuto mas não aceito alarvidades nem a mentira. Por mim sou português desde que nasci, benfiquista desde pequenino e comunista já lá vão 41 anos.
Ponta Delgada, 08 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 10 de Novembro de 2015

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Precariedade, um problema de direitos humanos

retirado da internet
O trabalho e a uma remuneração justa e adequada pela prestação do trabalho, constituem-se como direitos básicos. Direitos consagrados na Carta dos Diretos Humanos, art.º 23. Face à taxa de desemprego na Região e no País, face à substituição do direito ao trabalho por estágios, em contexto de trabalho, e de programas e programinhas ocupacionais onde não existe nem contrato de trabalho, nem remuneração, tendo sido substituídos, respetivamente, por contratos de estágio (formação) e subsídios, diria que nos Açores, bem assim como o restante território nacional, não se cumprem os Direitos Humanos. Podem vir agora os sábios economistas dizer que neste contexto não existem alternativas, eu diria que sim, é possível se as políticas públicas o promoverem. Para que não subsistam dúvidas refiro-me a políticas públicas de emprego e não a emprego público, embora também o emprego público tenha capacidade para absorver muitos dos portugueses que estão privados do direito ao trabalho. A redução do horário de trabalho ao invés do seu prolongamento, a redução da idade de reforma e uma política salarial justa constituem-se como imperativos para garantir o direito ao trabalho a todos os portugueses.
Associado ao desemprego está também a precariedade laboral que induz a insegurança e o medo. O medo de que não seja renovado o contrato, o medo do despedimento porque trabalha a recibo verde, a incerteza quanto ao futuro de milhares e milhares de estagiários, a incerteza quanto ao futuro de milhares e milhares de “beneficiários” dos programas ocupacionais.
A elevada taxa de desemprego, a precariedade e o expediente dos estágios e dos programas ocupacionais para ofuscar a realidade da situação social e económica se, em boa verdade, atingem os cidadãos que assim se veem privados do direito ao trabalho e à remuneração, não será menos verdade que este é um sinal inequívoco de uma sociedade doente, um sinal de que a democracia portuguesa está debilitada porque não garante aos cidadãos direitos básicos, como é o direito ao trabalho.
A precariedade tornou-se uma situação completamente generalizada. Na nossa Região, é possível calcular que nos novos contratos de trabalho, só 1 em cada 10, não corresponde a contratos a termo certo. E também na questão do vínculo, não apenas na questão das remunerações, se mantém uma profunda desigualdade de género pois, para as mulheres, só um em cada 20 contratos correspondem a contratos sem termo.
Retirado da Internet
A generalização da precariedade, bem como a abundância de programas ocupacionais contribui para a existência de cada vez maior pressão sobre os trabalhadores, forçados a todo o tipo de condições, com horários alargados e polivalência de funções, fazendo com que vários postos de trabalho acabem por ser cumpridos por apenas um trabalhador, sem maior compensação pelo esforço a que é obrigado e com os óbvios efeitos em termos do desemprego na Região.
Na nossa Região, existem pessoas que sobrevivem há anos neste autêntico carrossel da precariedade. Ele são os estágios não remunerados, os cursos de formação profissional, os estágios profissionais, os programas e programinhas ocupacionais… Este já não é só um problema de direitos laborais, é já um problema de direitos humanos. A precariedade laboral é um vergonhoso atentado aos direitos básicos, um vergonhoso flagelo, uma infame praga social que atinge atualmente, na Região, milhares de trabalhadores, sobretudo jovens e mulheres.
A precariedade dos contratos de trabalho e dos vínculos vai muito para além da questão laboral. É a precariedade da família, é a precariedade da vida, mas é igualmente a precariedade da formação, das qualificações e da experiência profissional, é a precariedade do perfil produtivo e da produtividade do trabalho. A precariedade laboral é portanto um fator de instabilidade e injustiça social que urge resolver.
Horta, 03 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 04 de Novembro de 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A vergonha e os sem vergonha

O ocupante do Palácio de Belém empossou um governo a prazo e deixou o país suspenso num governo que se sabe precário. O prazo de durabilidade do governo aponta apenas para os próximos 8 ou 9 dias quando Cavaco Silva tinha outra opção. Uma opção duradoura e que reúne a vontade da maioria dos eleitores e dos deputados eleitos para representarem essa vontade de mudança e rutura. Mas não, Cavaco Silva optou pela instabilidade mantendo-se fiel aos seus amigos e aos interesses que eles representam. Cavaco Silva, já o terei dito mas reitero afirmação, assumiu o papel de procurador dos mercados e de administrador delegado dos interesses estrangeiros em Portugal. Cavaco Silva há muito que deixou de ser o Presidente da República Portuguesa, se é que alguma vez o chegou a ser, para agora, despojado de qualquer pudor, assumir a sua verdadeira natureza política de vendilhão do povo português e de Portugal. Se estranho o comportamento de Cavaco Silva, Claro que não. Enquanto primeiro-ministro delapidou a economia nacional, ou o que dela restava, como Presidente da República deu cobertura aos mais diversos atentados à Constituição que jurou cumprir e fazer cumprir.
O tempo se encarregará de o remeter para o esquecimento e a história dele dirá que foi um dos principais responsáveis pelos retrocessos sociais e económicos que se verificaram em Portugal depois da Revolução de Abril de 1974. E sobre Cavaco Silva fico mesmo por aqui pois da poeira do tempo emergem outros factos por ele protagonizados em nome de Portugal português e que nos envergonham enquanto povo.
Sem vergonha são-no também os dirigentes dos Estados Unidos e Israel que de entre os 193 países representados nas Nações Unidas foram os únicos a votarem a favor da manutenção do bloqueio a Cuba, desta vez nem se verificaram abstenções. Esta foi a 24.ª decisão das Nações Unidas sobre o fim do bloqueio a Cuba e ocorreu no passado dia 27 de Outubro.
Mas sem vergonha são-no também as instâncias da União Europeia que, apesar dos países que a integram votarem a favor do fim do bloqueio, mantém em vigor a “Posição Comum” que na prática efetiva o bloqueio da União Europeia a Cuba. O relatório apresentado por Cuba dá conta de que organizações com sede na União Europeia, designadamente organizações financeiras, se recusam a realizar transações que impliquem uma relação com Cuba.
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba dura desde 1962 e foi decidido após a tentativa de invasão de Cuba por forças apoiadas pelos EUA.
Ponta Delgada, 01 de Novembro de 2015

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário e Azores Digital, 02 de Novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015

Camila Vallejo - a abrir Novembro

Foto retirada da internet
Porque bonitas são as mulheres que lutam também o mês de Novembro abre com, Camila Vallejo, uma linda e jovem mulher que não se rende. Luta por um Mundo melhor.















Camila nasceu em 1988, estudou Geografia na Universidade de Santiago do Chile e liderou o movimento estudantil no Chile em defesa do ensino público. É deputada do Partido Comunista do Chile. Foi considerada a personalidade do ano de 2011, pelo jornal britânico The Guardian.