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domingo, 22 de junho de 2025

mapas de sangue

composição de João Pires com imagens retiradas da internet
analogia do terror


a terra vermelha 
de Oklahoma
o chão rasgado da Palestina 
manchados de sangue
molhados com lágrimas
dos povos colonizados

Trail of Tears 
Nakba
nomes diferentes 
a mesma fome
o mesmo luto
o mesmo silêncio
culturas apagadas
a mesma indiferença

Nakba
Trail of tears
marchas forçadas
pelo colonialismo
destinos forjados
traçados em
mapas de sangue

Trail of tears
Nakba
a mesma fome
o mesmo olhar vazio
a mesma violência
a repetir-se
como uma punição
por existir
apenas por existir

e a humanidade!?
onde foi que se perdeu?
talvez na poeira do caminho
com os corpos
que ninguém reclama
por não haver quem

sábado, 21 de junho de 2025

morada de infância

 
foto de Aníbal C. Pires
memórias de S. Vicente da Beira 


da infância na beira serra

por aqui
na sombra protetora da Gardunha
com tempo
brinquei com o tempo
medido nos ponteiros sonolentos
do relógio do campanário

por aqui
aprendi as primeiras letras
como quem descobre velhos segredos
decifrados nas ardósias 
e outros sedimentos do tempo

por aqui
aprendi a contar e a decifrar 
os sinais do tempo
observei a azáfama das formigas
e o voo frutífero das abelhas

por aqui
perdi medos
gritei aos quatro ventos
soube calar e ouvir
o peso dos silêncios

por aqui
fui criança e aprendi a olhar
a vastidão do Mundo
para além dos altos cumes
    rasguei horizontes

por aqui
ganhei amigos
dispersos pelos trilhos da vida
mas presentes na memória

por aqui
foi morada de infância
em recantos graníticos e pinheirais
em ruas ladeadas de muros
onde crescia musgo e esperança

as veredas do passado
permanecem na lembrança
como ecos de um lugar da infância
distante no tempo e no espaço
mas sempre presente

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, junho de 2025

sábado, 14 de junho de 2025

aprender

Aníbal C. Pires - do arquivo pessoal
olhando o Mundo


não aprendi nos quadros
nem nos manuais gastos 
por verdades prontas a servir

aprendi no chão que piso
nos passos que me levam pelo Mundo
que a cartografia coloca à margem
e a história cobre de brumas

a vida não tem currículo fixo
tem perguntas sem resposta
tem tardes de vento e silêncio
tem o rumor da água
tem outras verdades

a escola que me molda
é feita de um tempo lento
de escutar o voo dos pássaros
de sentir o coração das pedras
que guardam memórias

aprendi com o peito aberto
e a ver para lá do olhar
aprendo com o mundo
sento-me nas margens 
ouço os silêncios
aprendo

educar não é repetir
é questionar
é acordar
é saber que a cidadania
não se escreve a giz
nem se digita
a cidadania vive-se
nos caminhos da vida 
na luta 
no sonho que é esperança

Aníbal C. Pires, junho de 2025

quinta-feira, 12 de junho de 2025

da memória do tempo

foto Aníbal C. Pires
geografias da pele


os rostos contam histórias

e gosto

das histórias que os rostos me contam
são imagens 
traçadas a carvão
na memória do tempo

olhos que guardam histórias
carregam a poeira dos caminhos
e brilham como o lume
que aquece
ilumina 
e aconchega

não imploro por nomes
nem datas
nem lugares
só quero as memórias
e as histórias
que os rostos me contam

leio as geografias da pele
como um livro
feito de histórias
silenciadas

são narrativas
que contam sem dizer
a história dos rostos
que só o silêncio
sabe ler

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 12 de junho de 2025

domingo, 20 de abril de 2025

dos silêncios cúmplices

do que resta


felicidade e prosperidade 
palavras volúveis
ecos na penumbra do quotidiano
extintos com o brilho dos fogos de artifício

restam os gestos
ao fim da tarde
o pão partilhado
as palavras livres
as mãos que afagam
cumplicidades

resta a luz que alimenta
a esperança
o olhar que anima
não pede desculpa
não diz obrigado
nem cansa

resta a esperança
a renascer dia após dia
na perene luta
pela humanidade
perdida na Palestina
dos silêncios cúmplices

Ponta Delgada, 6 de janeiro de 2025

sábado, 22 de março de 2025

poemas com propósito

renovar


da verde árvore
cai a folha morta
renova-se a árvore
putrefaz a folha


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Outubro de 2016, (in Esperança Velha e outros poemas, Letras Lavadas, 2020)



perfídia


o poeta 
trocou o futuro
pelo passado

o poeta
trocou o sonho
pelo pesadelo

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto vazio de ideias

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto lotado pela perfídia

o poeta
acabou só
só, como um prostituto
num quarto sem palavras      nem poesia


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 19 de Outubro de 2016, (in Destroços à Deriva, Letras Lavadas, 2024)




poesia portuguesa contra o massacre na Palestina

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) convidou mais de quatro dezenas de autores portugueses a responder a uma dúvida: «E depois de Gaza, é possível ainda a poesia?».

São exatamente quarenta e quatro os/as poetas que responderam ao desafio contribuindo para a coletânea de poemas que a AJHLP acaba de editar na colecção «explicação das árvores» com o título o silêncio dos meninos mortos e o subtítulo poemas portugueses contra o massacre do povo palestiniano.


Este foi o meu contributo:


guardam sonhos

no jardim das oliveiras 
guardam sonhos
de paz

do rio até ao mar
guardam sonhos
de liberdade


Aníbal C. Pires, novembro de 2023

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

partir querendo ficar

foto de Aníbal C. Pires
silêncio do tempo

matizes de mar e céu
cinzentos sem fim
fundidos no horizonte

aveludado verde
orlado de flores
colorindo a existência 

o rumorejo da aragem
carrega o aroma da terra
e o murmúrio das ondas

sob os pés descalços
a areia conta histórias
gravadas no silêncio do tempo

vindas do passado
preenchem o presente
estimulam o sonho

o vento ameno
desnuda a montanha
a caminho do mar

parto querendo ficar 


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 10 de janeiro de 2025


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

de volta à realidade

foto de Aníbal C. Pires

O desejo de felicidade e prosperidade voltou a ser um eco perdido na penumbra do quotidiano quando os fogos de artifício perderam o brilho.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 6 de janeiro de 2025

sábado, 4 de janeiro de 2025

Rosa de Jericó - poesia para a Palestina

imagem retirada da internet
rosa de Jericó

no pomar das laranjeiras
as tuas lágrimas
molham o chão sagrado

no horto das oliveiras
o teu pranto
ecoa no tempo

as lágrimas
inundam corações
despertam consciências

o pranto
retumba como apelo
de humanidade

as lágrimas
fertilizam
o teu chão sagrado

o pranto
é o grito surdo
que brada por liberdade

choro e luto por ti
Palestina
viverás livre do rio até ao mar

das tuas cinzas
vão florir rosas de Jericó

as-salamu alaikum 
aalaikum as-salaam

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 4 de janeiro de 2025

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

ciclos

desenho de João Pires
jardins do tempo

chego com a luz
da Primavera 
e os rosmaninhos em flor

regresso no Verão
ao mar
do meu contentamento

no Outono 
passeio pelas tardes
coloridas de nostalgia

contemplo as árvores desnudas
memórias nas folhas caídas 
aconchego-me nos livros de Inverno


Ponta Delgada, 4 de dezembro de 2024

sábado, 7 de dezembro de 2024

dos lambe-botas


o(s) idiota(s) útil(eis)

alienados
vagueiam por aí
à tona do lameiro
afiançam a sua convicção
validam as opções
na nobreza da missão
abonam a sua própria certeza
querem comiseração

os crédulos aplaudem
os ingénuos apoiam

o “idiota útil”
desliza como uma enguia
de charco em charco

é um oportunista

digo eu
sem estar certo de nada
nem com a própria certeza
dos transacionáveis “idiotas úteis”
disponíveis a preço de saldo
no pântano onde 
até a integridade se prostitui.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 7 de dezembro de 2024

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

the job is done

Escrito ontem, publicado hoje no blogue momentos.
O olhar atento de Diniz Borges deu-lhe asas e foi hoje publicado na revista “Filamentos - Arts and Letters in the Azorean Diaspora."

Obrigado Diniz Borges!



practices

tradition declares: it’s Christmas
light up the city
turn on the spirit
put
that little twinkle in your eye
and repeat again and again: Merry Christmas

tradition fulfilled
turn off: the lights, the spirit and the sparkle.
The job is done.


Aníbal C. Pires, Lagoa, December 24, 2023

Translated by Diniz Borges

da época

foto de Aníbal C. Pires


praxes 

a tradição declara: é Natal
ilumine-se a cidade
ligue-se o espírito
ponha
aquele brilhozinho nos olhos
e repita, uma e outra vez: Feliz Natal

cumprida a tradição
desligue: as luzes, o espírito e o brilho. 
terminou a função.

Aníbal C. Pires, Lagoa, 24 de dezembro de 2023 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

como escrever um poema (1)

imagem retirada da internet
o canto mavioso 
das aves
o silvo aterrador
dos misseis

como escrever um poema
se o ruído do bombardeio
cala o canto das aves 
e a dor
e a morte
silenciam as palavras

como escrever um poema
se as palavras se perdem
na dor profunda de um povo
martirizado




como escrever um poema
com 
o rumor da morte
na noite
iluminada pelo fósforo branco
do bombardeio

imagem retirada da internet
como escrever um poema 
com o ensurdecedor 
clamor
das lágrimas
da mãe
que abraça o filho
morto
pelo silêncio
do mundo

como escrever um poema
se preciso ouvir
o canto das aves
se careço escutar
o riso das crianças
      a felicidade das mães
se necessito sentir
a quietude da    paz
      da paz em Gaza 
   
como escrever um poema
sem o riso das crianças     e o canto das aves


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 30 de outubro de 2023

(1) Inspirado no poema “Para escrever um poema/ Que não seja político/ Deve escutar os pássaros/ Mas para escutar os pássaros/ É preciso que cesse o bombardeio”, de Marwan Makhoul 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

mães de Gaza - a abrir novembro

imagem retirada da internet
as mães de Gaza
choram a morte
dos seus filhos
e padecem
e morrem
às mãos  
da indiferença do mundo
à diferença

as mães de Gaza
em pranto
não se resignam
ao destino 
que as mata
que as faz chorar
sobre as ruínas da sua terra 
roubada
colonizada

as mães de Gaza
choram 
o sangue dos inocentes
o seu pranto
em silêncio
ecoa
como um grito
na consciência
da humanidade

as mães de Gaza
sabem que a terra
é de quem por ela morre
não é de quem por ela mata

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 31 de outubro de 2023

domingo, 16 de outubro de 2022

redundâncias

do arquivo pessoal

Vivo mais com o coração do que com a razão. Procuro, é certo, os aconselháveis equilíbrios, mas o saldo positivo está do lado dos afetos. No deve e haver do meu livro da vida, a racionalidade não está, de todo, arredada, mas o balanço tende para as emoções.

Aníbal C. Pires, (algures por aí), 16 de outubro de 2022


hábitos ou acasos

Aníbal C. Pires - foto by Madalena Pires

Falar com os meus botões. É assim que popularmente se designam os diálogos interiores com que, de forma mais ou menos metódica e sistemática, exercitamos a introspeção e a reflexão. E todos, por acaso ou pelo hábito, o fazemos. Seja naqueles instantes que queremos só para nós e olhamos no vazio, seja quando procuramos o horizonte e as razões que nos fazem continuar a viver e lutar pelas nossas convicções.

Aníbal C. Pires, (algures por aí), 16 de outubro de 2022


quinta-feira, 28 de abril de 2022

da árvore e da poesia na Letras Lavadas

foto by Aníbal C. Pires

O dia da Poesia e o dia da Árvore serviram de mote para uma interessante e inédita iniciativa da livraria Letras Lavadas.

Durante o dia 21 de março de 2022 foram distribuídos, em Ponta Delgada, aos transeuntes, forasteiros ou não, postais com imagens de diferentes exemplares de árvores que ponteiam na paisagem urbana da cidade. No verso da imagem um poema de alguns autores açorianos e açorianófilos.

foto by Aníbal C. Pires

Já passou mais e um mês sobre este acontecimento, mas é sempre tempo de dar pública conta da originalidade desta iniciativa da Letras Lavadas e, também agradecer o convite que foi formulado para participar nesta peculiar comemoração da árvore e da poesia.



árvores de Ponta Delgada

de folha caduca ou perene
em jardins, praças, avenidas e ruas
enfeitam a vida na cidade

frondosas ou aprumadas 
afloram sobre o casario 
da urbe com portas e mar

as árvores matizam 
de esperança a vida
e de verde a cidade

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de março de 2022 (inédito)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

do dia de amigas



Como a amizade se estabelece entre pessoas e não é exclusiva de um género (nem melhor nem pior) deixo-vos um poema que está publicado no livro “Mulher Coração da Liberdade”, da Editora Letras Lavadas.




mulher poema

solta as amarras
abandona os medos 
caminha com a utopia
luta e agarra o sonho
não te sujeites
sê igual
sê mulher

em ti tudo principia
tudo se consuma
és igual e diferente
és força
és alimento da existência
és vida e sonho de liberdade
és mulher

Aníbal C. Pires, 11 de fevereiro de 2021

Hoje celebra-se o “dia de amigas”. A "quinta-feira de amigas" não sendo uma tradição exclusiva dos Açores é, contudo, por estas ilhas do Atlântico Norte que esta celebração da amizade mantém bem viva as comemorações que antecedem o Carnaval e que têm o seu início com a "quinta-feira" de amigos", na semana que antecede o "dia de amigas" e continua com o "dia dos compadres" e o "dia das comadres".

É na ilha de Santa Maria, do que conheço, onde o espírito carnavalesco está mais presente neste “dia de amigas”. Os homens travestidos “invadem” as festas, dançam e cantam para as mulheres numa animada folia já com os contornos das alegres diversões carnavalescas que, manifestando-se um pouco por todo o Mundo, nos Açores assumem caraterísticas muito próprias e diversas, como diferentes são as nossas ilhas.  

As quatro quintas-feiras que antecedem o Carnaval são motivo para celebração, é assim como uma espécie de aquecimento para as grandes folias do Entrudo.

Ponta Delgada, 10 de fevereiro de 2022