quinta-feira, 28 de junho de 2012

Economia e acessibilidades


Os incentivos públicos à diversificação da atividade económica com impacto externo, para além da agropecuária, têm sido canalizados essencialmente para o Turismo. O facto de se estar a investir num sector há muito instalado e consolidado nos outros arquipélagos da Macaronésia, aliado à recessão mundial e à predominância de fatores externos, alheios à Região, na determinação dos seus fluxos e refluxos, desaconselha objetivamente, como se tem vindo a confirmar, a exclusividade da aposta neste sector com carácter alternativo sustentável. Esta estratégia tem vindo, por arrastamento, a subalternizar, a importância de uma correta definição das políticas de apoio às pequenas e médias empresas que trabalham sobretudo para o mercado interno ou para nichos de mercado de exportação, as quais absorvem de momento, para além do sector público, a maioria da mão-de-obra ativa açoriana.
Para estas, a respetiva dinamização e expansão diversificadas encontram-se progressivamente bloqueadas pela crescente dificuldade de acesso ao crédito e ao investimento na modernização tecnológica, bem como pela perda acentuada do poder de compra ligado à generalização dos baixos níveis salariais e aos sobre encargos decorrentes da insularidade a que se encontram sujeitos os fatores de produção.
Defendo a continuidade dos apoios ao Turismo numa perspetiva complementar às restantes atividades económicas, e a conceção de políticas, não só de emergência, mas permanentes de apoio à atividade, e respetiva diversificação, das pequenas e médias empresas, envolvendo de forma integrada a diluição dos sobrecustos dos transportes (de e para o conjunto das nove ilhas), o acesso fácil e a baixo custo ao crédito, os incentivos e o alívio contributivo positivamente discriminatórios para aquelas empresas que assegurem ou aumentem o número de postos de trabalho efetivos, e o investimento sistemático em ações de investigação associadas à produção, em particular à aquisição de conhecimentos e tecnologia.
Essencial para o desenvolvimento económico socialmente útil e coeso da Região é a acessibilidade de passageiros e carga de qualquer uma para qualquer outra das nove ilhas a preços não restritivos, bem assim como da Região para o exterior.
A dinamização de qualquer atividade, económica ou outra, será sempre mais viável e sustentável se, em potência, puder estender-se ao âmbito regional, em lugar de ficar, como atualmente se verifica, quase sempre restringida ao mercado interno de cada ilha, porque bloqueada, tanto ao nível da circulação das pessoas como dos bens, por incomportáveis encargos adicionais com os transportes entre as ilhas.
Se bem que ao nível dos transportes marítimos de mercadorias, embora com lentidão e orientações menos adequadas, se regista uma evolução positiva, a dinamização socioeconómica interna não pode dispensar um mais significativo contributo social da Região na formação dos preços dos transportes aéreos.
Passa-se o mesmo com as ligações aéreas dos Açores com o exterior, sendo, neste caso, uma questão nacional e europeia o indispensável e mais significativo contributo social do Estado e da União Europeia para permitir, em igualdade mínima de oportunidades, a circulação de pessoas e bens em todo o território do País. Caso contrário, entregues que fossemos à chamada liberalização do espaço aéreo e à livre concorrência entre companhias, assistir-se-ia a um progressivo encarecimento relativo e discriminatório do transporte aéreo para o exterior a partir das ilhas geradoras de menor tráfego.
Ponta Delgada, 26 de junho de 2012

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de junho de 2012, Angra do Heroísmo

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ponto cruz


O circo mediático eleitoral continua ao ritmo de uma promessa anunciada por dia e a crise social e económica a aprofundar-se a uma cadência alucinante. Não deixa de ser interessante, embora dramático, que o PS e o PSD prometam tudo resolver depois de outubro. Esquecem o passado e o presente como se ambos estivessem isentos de responsabilidades políticas pela situação de desespero que vivemos, na Região e no País.
Porque não nos proporcionam já o paraíso regional prometido para depois das eleições. O emprego, a economia, os serviços do Estado, os transportes, o desenvolvimento estão suspensos e adiados para lá de outubro. Porquê? Porque não agora o paraíso prometido! Será necessário que mais empresas encerrem, que mais trabalhadores fiquem privados do seu posto de trabalho, que os beneficiários do RSI aumentem, que as filas para a “sopa dos pobres” aumentem, que o “banco alimentar” esgote a sua capacidade de apoio? Que mais será necessário para que se faça respeitar a dignidade dos cidadãos e os seus mais elementares direitos? Que mais será necessário para que das palavras se passem aos atos? Morrer de fome? Morrer por falta de cuidados de saúde?
A acrescentar à irresponsabilidade e populismo de Berta Cabral e Vasco Cordeiro junta-se a hipocrisia como o Governo da República tem vindo a imiscuir-se na disputa bipolar do poder regional, quer através da desresponsabilização das obrigações que tem para com a Região, quer utilizando a televisão pública (RTP 1) para favorecer um dos partidos do chamado “arco do poder”, quer ainda pelo esvaziamento da RTP Açores, esvaziamento que serve como justificação para que agora, só agora, o canal 1 da televisão pública tenha descoberto os Açores.
A hipocrisia política atinge o absurdo, com o comportamento de Berta Cabral que continua a fazer campanha eleitoral por conta dos munícipes de Ponta Delgada e, com o Grupo Parlamentar do PSD a pregar a moralidade sobre a despesa pública, designadamente sobre as despesas efetuadas em 2010 nas deslocações e estadas dos membros do Governo Regional e de pessoal afeto aos seus gabinetes.
O Relatório do Tribunal de Contas que auditou as despesas do Governo Regional em 2010 foi tornado público. As opções são da responsabilidade política do Governo, as recomendações devem ser acatadas e as irregularidades corrigidas, o juízo político sobre as opções feitas cabe aos eleitores. O PSD Açores, por via do Grupo Parlamentar, vai alimentar este “caso” até à exaustão retirando, assim da agenda política regional a discussão do essencial.
Esta é a maneira mais fácil e popularucha de, supostamente, fazer política mas não é, seguramente, disto que os cidadãos necessitam, não é isto que dá resposta aos graves problemas que diariamente enfrentam cidadãos. Diria mesmo: isto não é fazer política, é ponto cruz.
Ponta Delgada, 24 de junho de 2012

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário, 25 de junho de 2012, Ponta Delgada 

A imagem foi retirada daqui

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Midsummer - o Solstício de Verão na Suécia


Em 2006, no âmbito de umas jornadas do Grupo da Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu, estive na Suécia (Estocolmo e Kiruna). Por coincidência de datas cheguei por altura do "Midsummer". Podem encontrar aqui informações sobre a festa do Solstício de Verão na Suécia.
As fotos foram tiradas em Kiruna (já no Círculo Polar Ártico), onde nesta altura do ano não chega a anoitecer. A última foto foi tirada já depois da 1h da madrugada.
Aqui podem ver um vídeo sobre o mesmo tema.







quarta-feira, 20 de junho de 2012

Reforma da Administração Local nos Açores


O relatório da Comissão de Política Geral (CPG) elaborado no estrito cumprimento da Resolução n.º 8/2012, da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA). Esta recomendação mandatava a CPG para, no âmbito das sua competências, apresentar à ALRAA uma proposta de Reforma da Administração Local na Região.
O Relatório da CPG foi apresentado e discutido na sessão plenária de junho e as suas conclusões são clara e inequívocas. Importa, antes de passar a tecer algumas considerações sobre o Relatório, registar o excelente trabalho realizado por esta Comissão Parlamentar.
Arremata o aludido Relatório, no ponto 8 das conclusões, que: “A atual organização territorial autárquica das freguesias existente nos Açores revela-se adequada à realidade política, social, económica e cultural do nosso Arquipélago, constituindo um importante instrumento de dinamização da desenvolvimento e da coesão de cada uma das nove ilhas dos Açores e, consequentemente, da Região nos seu todo.”
O Relatório foi aprovado por unanimidade pelos partidos que têm assento na CPG (PS, PSD, CDS/PP e PPM) e mereceram o apoio dos restantes partidos com assento parlamentar.
A unanimidade verificada, para além de reforçar politicamente as competências da Região, é explícita na condenação à República por não ter atendido às justas pretensões da Região em sede de audição da Lei 44/XII e nas conclusões da CPG fica claro, inequivocamente claro, que: “A natureza obrigatória e impositiva dum processo de reorganização territorial autárquica da freguesias na Região, por via de lei ordinária, com uma eventual discriminação negativa quanto a futuras transferências do orçamento de Estado pela sua não realização, é materialmente inconstitucional por violação da alínea l) do n.º 1 do artigo 227 da CRP e ilegal por violação da alínea e) do n.º 3 do artigo 49 do EPARAA.”
Como é do conhecimento público a lei já foi promulgada pelo Presidente da República, julgo também ser do conhecimento público que o pedido de inconstitucionalidade, subscrito pelo PCP, pelo PS, pelo BE e pelo PPM já foi endereçado ao Tribunal Constitucional, uma vez que Cavaco Silva não atendeu ao pedido feito por estes 4 partidos para que solicitasse a fiscalização preventiva da lei.
A posição política da Região, aparentemente forte e coesa, está de algum modo fragilizada pelas dúvidas que, legitimamente, emergem da leitura da declaração de voto, conjunta, do PSD e do CDS/PP, designadamente nos seus pontos 1 e 2 em que, na sua habitual atitude de subserviência lembram as obrigações do Estado no quadro do “memorando de entendimento”.
Ao PSD e ao CDS/PP é lícito perguntar: - Que regime vigora em Portugal? Um regime constitucional e um Estado de Direito ou um protetorado onde foi suspensa a soberania, a Constituição, a democracia e a autonomia.
Salvo melhor e sustentada opinião, o PSD e o CDS/PP terão de clarificar de que lado estão. Se do lado das imposições externas? Se do lado do centralismo? Se do lado das políticas de austeridade e de empobrecimento para onde nos encaminham? Se do lado da democracia e da autonomia?
Ponta Delgada, 19 de junho de 2012

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 20 de junho de 2012, Angra do Heroísmo

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Flagelo nacional


A 5 de Junho de 2011, há pouco mais de um ano atrás, a fatigada direita socrática era substituída pela velha direita reacionária, que se instalou de armas e bagagens no poder. 
Armados com um pacto com o FMI que serve de desculpa para tudo e dando largas a uma intensa sanha de ajustar contas com a história, fazendo recuar o país aos tempos anteriores ao 25 de Abril, o PSD e o CDS/PP arregaçaram mangas e começaram o desmantelamento sistemático do que restava dos direitos e condições de vida dos portugueses e do seu património coletivo.
Esta velha direita não deixa pedra sobre pedra: serviços públicos, tribunais, finanças, escolas, centros de saúde, empresas do estado, tudo para encerrar, demolir ou vender ao desbarato. E não esqueceram, claro, o mel que sempre atrai a subtileza de urso desta velha direita: destruir a regulação das relações laborais, aumentar a exploração e a arbitrariedade dos patrões, tratar cada vez mais os trabalhadores como mercadoria barata e descartável. 
Os resultados desastrosos estão à vista, a nível nacional, com mais de um milhão e duzentos mil desempregados, mas também na Região. A variação homóloga do desemprego nos Açores (maio de 2011, maio de 2012) regista um aumento de 42,9%! Isto considerando os números oficiais, ou seja, ficam de fora os milhares de açorianos que participam na miríade de programas ocupacionais e estágios com que o Governo Regional procura esconder a verdadeira dimensão do desemprego nos Açores.
Mas não há forma de ocultar o total falhanço da política do PS Açores. Aliás, nesta matéria, a eterna cassete do Governo Regional sobre “a crise internacional que veio de fora” é uma manta demasiado curta para explicar porque é que nos Açores o desemprego alastra muito mais depressa do que nas outras Regiões do país. Mas, nada de novo, a inabilidade e a falta de coragem política do PS é conhecida. Que o digam os trabalhadores açorianos, os pequenos e médios empresários que sofrem o flagelo do desemprego, das insolvências e do empobrecimento generalizado das famílias açorianas
 À inabilidade e falta de coragem do PS, na Região, juntou-se todo o poder destrutivo da extrema-direita mais reacionária quando está entrincheirada no poder em Lisboa. 
Sim! Porque o que mudou em Portugal no último ano foi o poder político e, bem podem Berta Cabral e Artur Lima tentar descolar do governo de Passos Coelho e Paulo Portas, porque os açorianos sabem que este aumento brutal do desemprego, que este número monstruoso de mais 42,9% de desemprego, registado no último ano, é o resultado de opções políticas económicas e financeiras retiradas da cartilha neoliberal e aplicadas pelos ministros do PSD e do CDS/PP. Este é um Governo que à desumanidade tecnocrática neoliberal do PSD alia a desavergonhada hipocrisia e assistencialismo do CDS/PP. 
Veja-se a hipocrisia, o cinismo e a desumanidade da direita, por um lado corta-se no período, condições de acesso e valor das prestações de desemprego, tratando os desempregados como se fossem pedintes incómodos, em vez de cidadãos que descontaram para a Segurança Social e que têm o direito a ser apoiados e, por outro lado assistimos ao contentamento do ministro Mota Soares que percorre o País a mandar construir cantinas sociais para que não comecem a registar-se muitos óbitos por subnutrição ou mesmo por fome.
Este é o preço que os portugueses pagam por terem optado, em junho de 2011, por dar o poder a uma maioria de direita. Saibamos nós, nos Açores, aprender com esse exemplo e não clonar na Região o poder que se instalou no País.
Ponta Delgada, 17 de junho de 2012

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário, 18 de junho de 2012, Ponta Delgada 

Promessas! Leva-as o vento


As promessas eleitorais do PSD e do PS, veiculadas por Berta Cabral e Vasco Cordeiro, constituem um exercício de populismo e irresponsabilidade sem paralelo na história da autonomia açoriana.
Os chamados partidos do “arco do poder” contam com o “estado de choque” em que se encontra a generalidade da população,  condição provocada pela agressão estrangeira que configura o resgate financeiro e as medidas de austeridade que daí decorrem e, ainda as que o governo do PSD/CDS acrescentaram, estes partidos contam, ainda, com o suposto “estado de estupidificação” a que o pensamento e o poder dominante tem tentado remeter os cidadãos, para melhor exercerem o domínio. Engana-se quem pensa que o “estado de estupidificação” é generalizado, engana-se quem pensa que o “estado de choque” tudo amortecerá.
A incomensurável irresponsabilidade da Dra. Berta Cabral e do Dr. Vasco Cordeiro ao verbalizarem promessas que sabem, de antemão, que não podem nem querem cumprir é contribuir para descredibilizar, ainda mais, a já descredibilizada a atividade política 
Um dos exemplos paradigmáticos das promessas eleitorais do PS e do PSD que roçam a irresponsabilidade e o populismo relaciona-se com a diminuição dos custos do transporte aéreo de passageiros. Quer uma, quer outra terão como resultado final a sobrecarga do orçamento regional e, ainda assim sobram algumas dúvidas da sua exequibilidade pois, como sabemos, o transporte aéreo está sujeito a rigorosos regulamentos da União Europeia. 
A absoluta necessidade da diminuição do tarifário aéreo, por um lado e a manutenção de um serviço público que responda às especificidades regionais, por outro lado, não pode ser tratado com a leviandade com que os candidatos do PSD e do PS abordaram esta questão. 
A resolução deste problema que nos preocupa e que a todos penaliza passa, em minha opinião, pela negociação ao abrigo do estatuto da ultraperiferia, de condições de exceção e financiamento para o transporte aéreo, de passageiros. Cabe, desde logo. à Região lutar pelo aprofundamento do estatuto da ultraperiferia, consagrado no tratado ada União Europeia mas cabe, também, ao Estado a defesa da especificidades regionais, a coberto do aludido estatuto, no que diz respeito aos transportes aéreos, mas também no que concerne aos direitos de produção, designadamente à fileira do leite sob a qual pende uma forte ameaça com o anunciado fim das quotas.
De promessa em promessa o PSD e o PS alheiam-se da defesa do essencial e afastam-se da resolução dos problemas dos cidadãos e da economia regional propondo o paraíso para depois de outubro. Esta atitude dos candidatos do PSD e do PS serve os intentos do governo de Passos Coelho e Paulo Portas. 
O encerramento de serviços públicos do Estado, o subfinanciamento da Universidade ou o “postigo” a que reduziram a RTP Açores, as transferências do IRS para as Câmaras Municipais, a Reforma Administrativa, a ligação das Flores e do Corvo ao anel de fibra ótica são exemplos, de entre outros, de uma visão centralista do Estado que visa o empobrecimento da democracia e das autonomias, no fundo o empobrecimento do Estado Democrático saído da Revolução de Abril de 1974.
As exigências políticas da atualidade não são compagináveis com tamanha irresponsabilidade e populismo de quem no passado recente ou longínquo deteve responsabilidades governativas e por opção ou incúria contribuiu para o avolumar dos muitos problemas com que nos confrontamos no presente.
Diz o nosso povo: “de promessas está o Inferno cheio”.
Horta, 12 de junho de 2012

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de junho de 2012, Angra do Heroísmo

Premiar os prevaricadores


A evolução da situação social e económica do país comprova a urgência de travar o pacto de agressão ao país imposto pela troika e fielmente implementado e aplaudido por PSD, PS e CDS/PP. O aumento do desemprego, a sucessão de falências e encerramentos de empresas e o dramático agravamento das dificuldades sociais dos portugueses demonstram que, na avaliação do Governo, em relação aos resultados das suas opções política, económicas e financeiras, se distanciam cada vez mais da realidade vivida por milhões de portugueses. Passos Coelho e Paulo Portas governam para um país que desconhecem. Este é um governo a soldo dos interesses financeiros que, seguramente, não são os interesses nacionais,
Pelo contrário, como de há muito tenho vindo a alertar, a política de austeridade, empobrecimento e baixos salários empurrou o país para um beco sem saída. Os dados da execução orçamental e o balanço da conjuntura relativa aos primeiros quatro meses deste ano demonstram que caminhamos a passos largos e rápidos para uma efetiva insolvência, e que a renegociação da dívida e o apuramento do seu verdadeiro valor é, absolutamente, inevitável.
O “resgate” do setor financeiro espanhol vem, por outro lado, demonstrar de forma inequívoca que os principais culpados pela crise estão a ser premiados, ou seja, os desmandos da especulação financeira que estão na origem da crise, são validados pela UE, pelo FMI e pelo BCE, os trabalhadores, as famílias e os povos sofrem as consequências pois, é sobre eles que se aplicam as medidas de austeridade.
A par da destruição da economia nacional, PSD e CDS-PP prosseguem na sua ofensiva centralista contra a Autonomia açoriana. Esta ofensiva passa, no imediato, pela desresponsabilização e abandono do Estado em relação às suas responsabilidades para com a Região Autónoma dos Açores.
Assim, é o caso do desmantelamento dos serviços públicos essenciais, como no caso dos tribunais, mas também das repartições de finanças, em que o recente encerramento do balcão da Calheta de São Jorge é apenas um primeiro passo num processo que pretende deixar cinco, das nove ilhas dos Açores (Flores, Corvo, Pico, Graciosa e Santa Maria), sem acesso a este serviço. Importa aqui também desmascarar o oportunismo político do Governo Regional que, conhecedor deste assunto há bastante tempo, esperou pelo primeiro encerramento para vir, hipócrita e tardiamente protestar. 
Assim é o caso no subfinanciamento da Universidade dos Açores, sem qualquer consideração pela sua dispersão geográfica e pelo seu papel para a Região, levando ao estrangulamento financeiro e paralisação das suas atividades, bem como no atraso do pagamento das bolsas de investigação científica, deixando em graves dificuldades muitos dos investigadores. 
O caso paradigmático desta ofensiva do centralismo da direita é a tentativa de destruição da RTP Açores. O Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, surdo a todas as queixas e argumentos, cego à realidade da importância regional (o que, aliás, também comprova a escassa importância dos líderes regionais destes dois partidos), cilindrou de forma brutal a televisão açoriana, sem qualquer consideração pelo seu papel no quadro da Autonomia dos Açores.
Também em relação a este assunto, a inércia e oportunismo do Governo Regional não podem passar em claro, uma vez que, procurando capitalizar politicamente o justo descontentamento dos açorianos esperou, até à efetivação da “janela” para avançar com uma providência cautelar. O que seria de esperar é que o Governo Regional tivesse tido uma atuação mais consentânea com a gravidade da situação, isto no que diz respeito à RTP Açores bem assim como em relação à clara tentativa de asfixiar financeiramente a Região por via da passagem de responsabilidades, constitucionalmente cabem ao Estado, para o orçamento regional.
Angra do Heroísmo, 10 de junho de 2012

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário, 11 de junho de 2012, Ponta Delgada

Manuel Barbosa, escritor, pedagogo, cidadão


Manuel Barbosa, nasceu em Ponta Delgada, a 17 de Dezembro de 1905, filho de Manuel José Leite Barbosa e de Maria do Espirito Santo Cardoso. Fez o ensino liceal no Liceu de Ponta Delgada. Licenciou-se em Direito, em 1931, na Universidade de Lisboa, em 1932 casou com Clarisse Albuquerque Guerreiro Barbosa, e, em 1940, licenciou-se em Ciências Históricas Filosóficas, pela Universidade de Coimbra. 
Em 1948 regressou aos Açores, tendo-se fixado na Ribeira Grande onde fundou e dirigiu o Externato Ribeiragrandense, que durante 25 anos foi o único estabelecimento de ensino secundário na Ribeira Grande. Durante este período exerceu, também, advocacia.
Desde a sua juventude esteve ligado aos movimentos estudantis e políticos, designadamente ao Partido Comunista Português. Em 1969, com os Drs. António Borges Coutinho e João Silvestre, foi candidato a deputado pelo círculo eleitoral de Ponta Delgada, numa lista do MDP/CDE.
Em 1975 foi constrangido a sair da Ribeira Grande tendo-se instalado de novo em Coimbra onde residiu até 1980, ano em que regressou à Ribeira Grande.
O Dr. Manuel Barbosa foi um homem culto, possuidor de uma sólida e multifacetada formação académica, tradutor, ensaísta, escritor emérito e pedagogo.
Em 10 de Junho de 2005 foi homenageado preço Presidente da República com a Comenda da “Instrução Pública”.
Em 17 de Dezembro de 2005, pelo centenário do seu nascimento foi, igualmente, homenageado pela Câmara Municipal da Ribeira Grande.
Faleceu em 26 de Junho de 1991, na vila algarvia de S. Brás de Alportel, onde se encontra sepultado.  
A vida de um cidadão não cabe numa coluna de jornal. A vida e obra do cidadão Manuel Barbosa não cabem no resumo de uma nota biográfica mas, não ficaria bem comigo mesmo se não trouxesse ao presente a memória deste açoriano. Um açoriano a quem nem sempre foi reconhecido o devido valor.
Amanhã, 28 de maio de 2012, vão ser agraciados com Insígnias Honoríficas Açorianas um vasto conjunto de personalidades e instituições, dessa lista consta o Dr. Manuel Barbosa. A dimensão Universal deste ilustre açoriano justifica a distinção que lhe vai ser concedida, a título póstumo. Reconhecimento que peca por tardio, ainda assim nunca é tarde para homenagear um dos mais diletos filhos destas ilhas.
Se o Dr. Manuel Barbosa é uma personalidade que me é particularmente cara não posso deixar, porém, de estender uma palavra de reconhecimento a todos quantos, pela sua dedicação aos Açores e às suas gentes, são este ano distinguidos com insígnias honoríficas açorianas.
Ponta Delgada, 27 de maio de 2012

Aníbal C. Pires, In Jornal Diário, 29 de maio de 2012, Ponta Delgada 

Celebração

Para celebrar a milésima publicação fica este texto.
Há muito que não acontecia um Estado D'Alma , hoje aconteceu. Boa tarde.











Herança
Legado: dos genes, do ninho, da partilha, da viagem comum.
A existência é jornada e desassossego,
É escolha,
É amor e frutos do bem-querer
A imortalizar memórias
A renovar a vida
A perpetuar o legado
Forjado nas raízes
Cultivado com as letras do saber e da liberdade
Com o suor do trabalho
Também, com lágrimas
Ora de exultação, ora de mágoa
Esta é a tua herança
Miscigenada por lugares e culturas, 
Pelas ruas, praças e avenidas do Mundo
Vai à descoberta
Nos trilhos da liberdade vais encontrar
... o teu caminho.
Ponta Delgada, 18 de junho de 2012