terça-feira, 27 de junho de 2017

... do que não devia falhar, mas falhou

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires





Excerto de texto a publicar na imprensa regional e neste blogue







(...) Um outro aspeto que importa trazer a terreiro tem a ver com a falha das comunicações, ou seja com a inoperacionalidade do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) durante períodos críticos da tragédia e que, certamente, contribuiu para que o combate ao incêndio e o auxílio às populações não fosse tão eficaz quanto deveria ter sido. Também aqui é necessário apurar responsabilidades, desde logo, sobre os contornos do negócio, é disso que se trata, um negócio, mas também sobre a desobriga que o consórcio incluiu no contrato que celebrou com o Estado português. (...)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Solidariedade permanente ou de ocasião

Foto by Diamantino Gonçalves, Serra da Maúnça, 2013
O apuramento de responsabilidades sobre as falhas verificadas nos sistemas de combate ao incêndio do Pedrógão Grande é um imperativo nacional. Que a impunidade não fique por aí à solta como o vento que soprou em todas as direções empurrando as chamas para locais inesperados, Não. Isso seria mais uma imoralidade.
Mas se estou de acordo com o que afirmei, não é menos verdade que será muito pouco se se ficar apenas por aí. Já todos percebemos, até à exaustão, que houve falhas e que os meios não foram suficientes, mas seria redutor se do apuramento de responsabilidades apenas resultasse a correção das questões conjunturais, ficando as questões estruturais e que se situam a montante, como seja a prevenção e as opções feitas na aquisição de meios e serviços de combate a incêndios e a outras situações de emergência, ficassem, como dizia, sem ser corrigidas e uma vez mais na obscena impunidade.
O tema é vasto e tem sido escalpelizado pela comunicação social, por artigos de especialistas, nas redes sociais e até pela Agnes Arabela, por isso pouco ou nada tenho a acrescentar ao assunto, a não ser enunciar algumas preocupações sobre o destino que o Estado português dá ao dinheiro que arrecada com a elevada tributação fiscal sobre os rendimentos do meu trabalho. E digo meu porque, certamente, existem outros cidadãos que não têm a mesma opinião sobre o destino que deva ser dado aos seus impostos.
Não quero que nem mais um cêntimo dos meus impostos seja canalizado para o apoio à plantação de eucaliptos em solo português. O atual primeiro ministro, em Janeiro deste ano, numa cerimónia de assinatura de um protocolo com o grupo ALTRI, no valor de 125 milhões de euros, atribuiu 18 milhões de euros, ao referido grupo, para melhorar a produtividade na plantação de eucalipto. Não senhor primeiro-ministro, dos meus impostos não. Nem para melhorar a produtividade do eucalipto, ainda que não seja aumentada a área do eucaliptal, nem para o Grupo ALTRI. Porque raio de razão, senhor primeiro-ministro, os impostos cobrados sobre o meu trabalho são canalizados para grupos e empresas privadas.

Imagem retirada da internet
Há um outro aspeto sobre o qual não posso deixar de expressar o meu desagrado, embora tenha uma opinião contrária à Agnes Arabela, não é sobre o que essa personalidade regurgitou, algures por aí, que me vou pronunciar. Cá por mim ficava satisfeito se os bombeiros portugueses ganhassem o dobro e ficassem a “coçá-los”, em vez de 9 meses, o ano inteiro. Isso significaria que as medidas preventivas estavam a dar resultados e que as populações que vivem em zonas de floresta podiam dormir descansadas, também no Verão.
Quero referir-me às ondas de solidariedade cidadãs e espontâneas, o que é bom, e momentâneas, o que não é tão bom assim, que se multiplicam para apoiar e reconhecer os bombeiros portugueses durante os períodos em que são visíveis, por um lado a sua importância e, por outro a falta de apoios públicos.
A maior parte destas iniciativas de solidariedade são genuínas e é bom que assim aconteça, não ficamos indiferentes, somos solidários e, sobretudo, ficamos bem com a nossa consciência. Representando muito, não é tudo, mas ainda assim é pouco, muito pouco.
Solidariedade com os bombeiros, SIM. Solidariedade todo o ano, por isso sou associado dos bombeiros da minha área de residência.  E você é sócio. Não, então associe-se, deixe-se de tretas e não se fique pelo momento, esteja sempre presente ao lado dos seus bombeiros.
Ponta Delgada, 25 de Junho de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 26 de Junho de 2017

domingo, 25 de junho de 2017

... da redistribuição dos impostos

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2016) by Madalena Pires







Pequeno fragmento de um texto a publicar na imprensa regional e aqui neste blogue









(...) Não quero que nem mais um cêntimo dos meus impostos seja canalizado para o apoio à plantação de eucaliptos em solo português. O atual primeiro ministro, em Janeiro deste ano, numa cerimónia de assinatura de um protocolo com o grupo ALTRI, no valor de 125 milhões de euros, atribuiu 18 milhões de euros, ao referido grupo, para melhorar a produtividade na plantação de eucalipto. Não senhor primeiro-ministro, dos meus impostos não. Nem para melhorar a produtividade do eucalipto, ainda que não seja aumentada a área do eucaliptal, nem para o Grupo ALTRI. Porque raio de razão, senhor primeiro-ministro, os impostos cobrados sobre o meu trabalho são canalizados para grupos e empresas privadas. (...)

sábado, 24 de junho de 2017

Susana Baca – hoje no Teatro Micaelense





Foi com Latinoamerica do grupo Calle 13, que ouvi pela primeira vez a voz cristalina e comprometida de Susana Baca.


Deixo o vídeo para que possam desfrutar daquela canção. Uma canção de luta que nos fala da América e não apenas de uma certa América.
Hoje vou ver e ouvir, no Teatro Micalense, esta diva da música sul americana.
Susana Baca é muito mais do que uma voz, Susana Baca é uma personalidade fascinante que tem uma voz que dá voz à música peruana de raiz africana.
Vamos ver e ouvir Susana Baca, aqui com os Calle 13, no tema Latinoamerica. Para além de Susana e dos Calle 13 participam também Totó la Momposina, da Colômbia e Maria Rita, Brasil (canta em português) não aparece no vídeo mas a sua voz é inconfundível.



quinta-feira, 22 de junho de 2017

A banca só é nacional se for pública

A banca privada tem sido um fator de desequilíbrio, de instabilidade e de degradação económica e social, e tem-no sido porque se constituiu como um agente de concentração da riqueza na oligarquia financeira, no capital monopolista, nos grandes grupos económicos e na grande propriedade fundiária urbana e rural.
Mas as responsabilidades da banca não se ficam a penas por aí, ou melhor, para atingir os seus espúrios objetivos a banca privada desinvestiu e aspirou riqueza dos setores produtivos, das pequenas e médias empresas, para encaminhar para a especulação financeira, a bolha imobiliária e para os setores não transacionáveis de lucro resguardado. A banca privada contribuiu para o endividamento externo nacional ao explorar as diferenças de juros a que se financiava para emprestar a juros elevados em Portugal e instituiu um crédito usurário que afetou as famílias e os pequenos e médios empresários.

Mas os pecados da banca privada não se ficam porque facilitou a evasão fiscal, parasitou o financiamento público e comunitário, obteve injustificáveis benefícios fiscais, espoliou patrimónios públicos e privados e incitou a contenção salarial, a precariedade e a destruição do emprego bancário, descapitalizou as próprias instituições, tornou-se dependente dos apoios públicos, lesou o Estado com o auxílio e a perda de receitas fiscais, aumentou o défice e a dívida pública, agravou a situação financeira do país, acumulou milhares de milhões de euros de lucros privados e de prejuízos públicos.
A atuação da banca privada é um problema, nunca será a solução e está cada vez mais claro aos olhos dos cidadãos que apesar do branqueamento, todos vamos percebendo, que a verdade nua e crua é que sem Estado, sem a intervenção do Estado, sem os auxílios financeiros, os amparos fiscais e as garantias do Estado o sistema bancário português estaria de forma generalizada falido e em colapso.
A necessidade de conter os riscos sistémicos que persistem para a economia e de impedir mais transferências de prejuízos privados para a esfera pública, para o povo, bem como de garantir a solvência, a liquidez e o funcionamento regular das instituições financeiras, de assegurar uma efetiva regulação, supervisão e fiscalização da banca exige-se o controlo público do sistema financeiro.
Os conhecidos escândalos financeiros evidenciam que a recessão e a estagnação económicas golpearam fortemente a rentabilidade da banca, que globalmente registou resultados negativos a partir de 2011, seja diretamente pelas implicações na atividade intrinsecamente bancária, seja porque os bancos foram indevidamente arrastados pelo naufrágio da restante atividade empresarial dos respetivos grupos.
A Caixa Geral de Depósitos (CGD), banco público mas gerido como se de um banco privado se tratasse, não ficou alheio aos efeitos da crise. A CGD necessita, desde logo, de uma recapitalização, da defesa do seu estatuto público e da reorientação comprometida com a defesa do interesse público.
Ponta Delgada, 20 de Junho de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 21 de Junho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

... da banca

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires





Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e neste blogue






(...) A necessidade de conter os riscos sistémicos que persistem para a economia e de impedir mais transferências de prejuízos privados para a esfera pública, para o povo, bem como de garantir a solvência, a liquidez e o funcionamento regular das instituições financeiras, de assegurar uma efetiva regulação, supervisão e fiscalização da banca exige-se o controlo público do sistema financeiro. (...)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sem título

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2016) by Madalena Pires
Podia ter dado  a esta publicação um título apelativo, mas não quis. Seria incapaz de através de um título trazer os leitores deste blogue à leitura desta publicação. Poderei até fazê-lo com outras temáticas, nunca com esta.

Ontem, nas redes sociais, alguns cidadãos de Ponta Delgada insurgiam-se contra o ambiente de festa que se vivia na cidade. O motivo que levou alguns cidadãos a indignarem-se e tornarem pública essa sua revolta relaciona-se diretamente com a consternação e o luto que se abateu sobre o País durante o fim de semana devido à tragédia do Pedrógão Grande e, o facto da Câmara Municipal de Ponta Delgada manter a animação urbana que tinha agendada para ontem, Domingo.
Não é fácil tecer considerações críticas sobre a atitude da edilidade ponta-delgadense. Se a animação tivesse sido cancelada, outras vozes viriam a terreiro demonstrar a sua indignação, estou certo disso. E quer uns, quer outros cidadãos teriam argumentos igualmente válidos para defender a sua posição face a qualquer que fosse a decisão da edilidade.
Tenho conhecimento que em alguns concelhos do continente foram cancelados eventos festivos que apenas se realizam anualmente. Talvez a proximidade tivesse influenciado a decisão, Talvez ou não. Talvez a decisão tivesse sido alicerçada em valores com os quais todos concordamos, mas nem todos praticamos, Não sei e por aqui me fico.
Enquanto cidadão ponta-delgadense teria apoiado, sem reservas, a Câmara Municipal de Ponta Delgada se, num gesto simbólico e solidário, tivesse decidido pela suspensão das iniciativas de animação que ontem decorreram em Ponta Delgada. Assim não aconteceu, mas nada mais acrescento ao assunto pois tudo o que viesse a escrever sobre o assunto iria, a mim próprio, parecer descabido e de falta de respeito para com as vítimas mortais e os seus familiares, bem assim como de toda a população que foi atingida pela tragédia provocada pelo incêndio do Pedrógão Grande.    

Do mau uso da floresta

Imagem retirada da Internet
Portugal está de luto. De novo o drama dos incêndios florestais e, desta vez, apenas num dos incêndios mais de seis dezenas de vítimas mortais.
E interrogamo-nos, Como foi possível. Como pode ter acontecido uma tragédia com esta dimensão catastrófica. Pode não ser, e não é, o momento mais adequado para levantar algumas questões de que todos fomos dando conta durante aquele sábado fatídico e trágico, mas é importante recolocar outras. Outras questões como a prevenção, o ordenamento do território, a política agrícola e florestal e a defesa nacional, Sim a defesa nacional.
Nasci no interior continental, o pinhal predominava e à sua volta uma economia florescente. Extração de resina e produção de madeira. As matas estavam limpas devido ao uso da floresta e às populações que retiravam dos pinhais as pinhas, os ramos secos e a caruma que utilizavam nas lareiras, fogões a lenha e nos fornos, por outro lado a atividade agrícola evitava, também, que o território fosse destinado apenas à monocultura da floresta. Tudo isso acabou. As florestas são de eucalipto para alimentar a indústria do papel e não há quem limpe a floresta porque já não se cozinha nos fogões de lenha, ninguém se aquece à lareira e os fornos de lenha só são utilizados lá de vez em quando.
Perguntarão se quando eu era criança não havia incêndios florestais, Sim havia, mas nunca com a dimensão de área ardida como aquela que se começou a verificar após o abandono de algumas atividades económicas ligadas à floresta, da substituição do pinheiro pelo eucalipto, do abandono dos campos agrícolas, da desertificação do interior. Não é só por estas razões, mas também, que os incêndios florestais a cada ano constituem uma catástrofe nacional.

imagem retirada da Internet
A alteração de políticas agrícolas e florestais, bem assim como a prevenção, devem ser prioritárias. Isto se na realidade se quiser evitar os cenários dantescos como aquele a que assistimos anualmente e, cujo exemplo presente é o da tragédia do Pedrógão Grande.
Os meios de combate aos incêndios, os sistemas de comunicação alternativos, os recursos humanos, enfim todo um dispositivo pronto a atuar com eficácia, é importante e também isso deve ser avaliado, mas nunca serão suficientes os meios se a montante não se alterarem as políticas, como já foi referido. Diz-nos um experiente piloto, que há 15 anos está no combate a incêndios, que nunca viu nada assim. Reuniram-se condições naturais para que o incêndio de Pedrógão Grande tomasse aquelas proporções. Em síntese dizia esse experimentado piloto, a mãe natureza ganhou. Ganha sempre, digo eu. E ganhará mais vezes ainda enquanto a atividade antrópica contribuir para isso. Sem sequer por em causa as afirmações do piloto, é bom lembrar que temperaturas elevadas e trovoadas secas acontecem com frequência nesta altura do ano, quanto ao clima mediterrânico é o nosso, não temos outro. E como essas condições naturais se vão certamente repetir todos os anos, o que é importante é alterar o uso do solo e ordenar o território de modo a evitar que, essas condições naturais, tenham condições propícias no solo para provocar tragédias catastróficas como aquela que aconteceu no Pedrógão Grande.
Alterar a política de defesa nacional porquê, Perguntarão os leitores mais atentos. Depois do fim da guerra colonial e da obrigatoriedade do serviço militar por todos os cidadãos a defesa nacional vocacionou-se para a sua integração na NATO e para missões internacionais. Todos os investimentos em equipamento e formação das Forças Armadas foi direcionado para essas missões, com prejuízo de aspetos tão importantes como a vigilância aérea e marítima dos nossos mares, que queremos legitimamente ampliar, mas também de missões de apoio ás populações e à proteção civil.
Os avultados investimentos em equipamento bélico e na formação das Forças Armadas para cenários de guerra são conhecidos. A questão é se essa é a política de defesa nacional que queremos para o nosso país.
Em memória das vítimas e por respeito às suas famílias o Estado português não pode deixar que tudo continue como até aqui.
Ponta Delgada, 18 de Junho de 2017

Aníbal C. Pires, In Açores Digital, 19 de Junho de 2017

domingo, 18 de junho de 2017

...da utilidade da floresta

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires





Um trecho do texto que será publicado, já amanhã, na imprensa regional e também neste blogue






(...) Nasci no interior continental, o pinhal predominava e à sua volta uma economia florescente. Extração de resina e produção de madeira. As matas estavam limpas devido ao uso da floresta e às populações que retiravam dos pinhais as pinhas, os ramos secos e a caruma que utilizavam nas lareiras, fogões a lenha e nos fornos, por outro lado a atividade agrícola evitava, também, que o território fosse destinado apenas à monocultura da floresta. Tudo isso acabou. As florestas são de eucalipto para alimentar a indústria do papel e não há quem limpe a floresta porque já não se cozinha nos fogões de lenha, ninguém se aquece à lareira e os fornos de lenha só são utilizados lá de vez em quando. (...)

De luto

imagem retirada da internet
Portugal está de luto. O último balanço aponta para 62 vítimas mortais no incêndio do Pedrógão Grande, uma vítima que fosse e já era uma perda irreparável. 
Uma tristeza imensa abate-se sobre mim, Como foi possível uma tragédia desta dimensão.
Não conheço as causas, não faço juízos, nem vou assacar responsabilidades. Não é este o momento. 
Mas não podia, não devia ter acontecido. Não pode voltar a acontecer.

sábado, 17 de junho de 2017

Superar preconceitos

Do arquivo pessoal
Daqui a uma semana completa 58 anos. É esposa, é mãe e avó. Iniciou-se à cerca de um ano no trailrun. Até hoje só tinha participado na S. Silvestre de Ponta Delgada e na S. Silvestre da Amadora, nas suas edições de 2016.
Hoje, pela primeira vez, participou numa prova oficial de trailrun, o ecologic, na Ribeira Grande, ilha de S. Miguel. Ilha onde escolheu viver há 34 anos, porque se apaixonou por ela, por esta ilha saturada de matizes de verde abraçada pelo imenso Atlântico. Consigo já trazia outras paixões que manteve e cultiva.
Fez uma prova magnífica classificando-se em primeiro lugar no escalão (femininos mais de 55 anos). Foi uma prova dura que, no caso dela, durou 4h e 42mn. A classificação geral e a classificação feminina que obteve foram, igualmente, excelentes.



Do arquivo pessoal
Não corre pela competição, mas pelo prazer de correr e por todas as vantagens que daí decorrem para o seu bem-estar físico e psicológico.
Mas para além do prazer e dos benefícios que a própria retira desta atividade, fica o exemplo da mulher, esposa, mãe e avó, que não se deixa manietar pelos anos, pela condição feminina, ou um outro qualquer preconceito que amarra as mulheres com mais de 50 anos a estilos de vida, tantas vezes, ancorados em argumentos que mais não pretendem do que perpetuar velhos e castradores estereótipos.
O exemplo da Madalena não é único é, apenas, um de entre outros, mas nem por isso deixa de ser valioso.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 17 de Junho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Corpo(s)

Foto by Aníbal C. Pires
Atalhos

O corpo etéreo, 
Não se vê, não se toca
É imaterial e adorado
Esse corpo promete
O paraíso no além
Pois que seja
Esse corpo celebrado
Com um dia de feriado

Outros corpos
São o paraíso, aqui
Na Terra, prometido
São corpos humanamente
Divinos, tangíveis
Que abrem atalhos pró céu

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 15 de Junho de 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Da memória que projeta no futuro

Aníbal C. Pires (Horta, 2013) by Carlos Pires
Hoje (dia 13 de Junho) passam 12 anos sobre a morte de Álvaro Cunhal. É de uma recordação que se trata, é verdade, mas mais do que para recordar trago esta data à nossa memória presente para projetar no futuro uma importante lição de vida e, mais ainda, uma verdade fundamental da condição humana, que me atrevo a formular desta forma, Somos homens porque sonhamos. Somos homens livres porque lutamos para realizar os nossos sonhos.
É este o ensinamento que retiro da vida e obra de Álvaro Cunhal e que reencontro em tantos rostos, em tantas vidas no Partido que era o seu Partido, neste Partido que é o meu Partido, neste Partido que é o Partido de muitos de nós.
 Um Partido onde acima de tudo sonhamos. Somos sonhadores desmedidos que sonham um mundo sem exploradores nem explorados. Um mundo onde a liberdade de sonhar e de trabalhar para realizar os próprios sonhos seja a regra para todos os seres humanos. Um mundo mais equilibrado, mais justo, um mundo mais feliz.
Este é o sonho que os comunistas de hoje partilham com incontáveis gerações que vieram antes de nós. Este é o sonho que partilhamos com milhões de homens e mulheres de todo o mundo e a raiz da fraternidade que nos une, fraternidade que dizemos de maneira tão bonita no calor humano da palavra “camarada”. Este é o sonho que partilhamos com Álvaro Cunhal, camarada de sonho e de luta para o realizar.
Aprendemos com Álvaro Cunhal a ser sonhadores militantes, pois sabemos, aprendemos, que quando a dureza da vida nos rouba a capacidade de sonhar, de ver um futuro diferente do presente que nos impõem, perdemos algo essencial. Um homem sem sonhos, um homem sem nada porque lutar, nunca será um homem livre.

Álvaro Cunhal pelo traço de Siza Vieiera
É por isso que os que querem manter a humanidade escravizada, amarrada à atafona de gerar lucros para outros, não gostam de homens que sonham e gostariam de ter um mundo sem sonhos, no fundo um mundo de cegos. Cegos que aceitassem passivamente e para sempre o seu domínio. Fosse em nome da União Nacional, dos tempos idos, seja em nome da troika, num áspero passado próximo, seja, no presente, em nome do Eurogrupo e do capitalismo apátrida e do desastre. São esses que pretendem roubar aos portugueses e aos povos da Europa e do Mundo a capacidade de sonhar uma vida, um país, um Mundo, diferente.
A esses, aos que querem perpetuar o seu poder sobre uma massa de explorados dóceis, direi e dizemos, como o Álvaro sempre disse, “Não! Aqui sonhamos! E lutamos e lutaremos para tornar os nossos sonhos realidade!”
Este sonho partilhado com Álvaro Cunhal é importante, mas é sobretudo um sonho útil. É, afinal, a condição dos nossos esforços e trabalhos. É por causa desse sonho que não nos deixamos ficar em casa, no ativismo do sofá e das redes sociais, descansados e vamos para a rua, ao lado das populações e dos trabalhadores, juntar-nos aos que sonham como nós, para unidos lutar, agir, transformar o Mundo e a vida.
Com Álvaro Cunhal aprendi, aprendemos muito, aprendemos que uma das mais importantes tarefas tem de ser a de ajuntar as vontades dos homens, tal como Baltazar Sete-Sois e Blimunda Sete-Luas, no romance de Saramago.

Ponta Delgada, 13 de Junho de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 14 de Junho de 2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

... do sonho que nos faz homens livres

Álvaro Cunhal pelo traço de Siza Vieira





Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e aqui neste blogue











(...) Hoje (dia 13 de Junho) passam 12 anos sobre a morte de Álvaro Cunhal. É de uma recordação que se trata, é verdade, mas mais do que para recordar trago esta data à nossa memória presente para projetar no futuro uma importante lição de vida e, mais ainda, uma verdade fundamental da condição humana, que me atrevo a formular desta forma, Somos homens porque sonhamos. Somos homens livres porque lutamos para realizar os nossos sonhos. (...) 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Hierarquizar as prioridades

Foto by Aníbal C. Pires
A visita e as datas já foram. Nada de novo, até mesmo o discurso do Presidente do Governo Regional dos Açores mais pareceu um déjà vu. Há dois anos nas Lajes das Flores ouvimos, mais ou menos palavra, a mesma coisa. Ouvimos desculpas, sob a forma de um desafio, pela voz do presidente de um governo e de um partido que está manietado à sua própria inoperância.
Este ano, também no Dia da Região, Vasco Cordeiro veio uma vez mais sacudir a água do capote, como se o seu governo e o seu partido não fossem, eles próprios, parte do problema e responsáveis pela crise social e económica que varreu a Região. Existem fatores exógenos que contribuíram para a crise, Sem dúvida. Mas isso não justifica tudo. Antes da crise a taxa de desemprego nos Açores era, senão a mais baixa, uma das mais baixas do país, a produtividade e o PIB cresciam a ritmos superiores aos da média nacional, e depois, Depois da crise todos esses indicadores caíram para o fundo da tabela nacional. O que falhou, terão sido as competências autonómicas, a ineficácia governativa ou, a insistência na receita da austeridade, do desinvestimento público, dos baixos salários, da concentração da riqueza e outras liberalidades económicas que os governos do PS Açores têm adotado.
De um vasto conjunto de problemas que afetam a Região e a autonomia regional, alguns deles de origem externa como sejam os decorrentes do diretório de Bruxelas e Berlin, quiçá esses, sim merecedores de uma maior reflexão e de consequente tomada de medidas libertadoras, Vasco Cordeiro escolheu, já lá vão dois anos, a necessidade de uma Reforma da Autonomia como a solução milagrosa para os problemas sociais e económicos que afetam os Açores e o seu povo. Quando, em 2015, Vasco Cordeiro, nas celebrações do Dia da Região, nas Lajes das Flores, fez esta opção, o Presidente do Governo e do PS Açores demonstrou a falência, não da autonomia tal como ela está consagrada constitucionalmente, mas das opções económicas e políticas que o PS Açores, desde 2000, tem vindo a implementar na Região. É certo que os açorianos lhe deram mais uma vitória nas eleições de 2016, mas isso não significa que o rumo traçado por Vasco Cordeiro nos leve a bom porto. Os estado-unidenses elegeram Donald Trump e isso não constituiu, necessariamente, a melhor escolha para o povo dos Estados Unidos, nem para o Mundo.

A autonomia só corre o risco de cristalizar se não for cultivada e exercida. Cabe, desde logo, ao poder político assumir uma cultura de exercício das competências autonómicas, mas é também tarefa de cada um de nós exercitar e cultivar a democracia e autonomia. E é no exercício da participação política que cada um de nós deve exigir ao poder político, designadamente o poder executivo, que exerça as competências autonómicas e só quando elas estiverem esgotadas, então sim, terá chegado a altura de pensar em reformar os mecanismos autonómicos, quanto aos instrumentos de participação política propostos por Vasco Cordeiro, também eles, não passam de ruído mediático pois, não será com listas abertas e outras panaceias que os abstencionistas se mobilizam para os atos eleitorais, pois a participação política de que fala Vasco Cordeiro não passa disso, participação eleitoral dos cidadãos para depois, convenientemente, mergulharem num estado de hibernação política até próximas eleições.
Nesta altura alguns dos leitores já me terão qualificado com os piores epítetos, sendo que centralista deve ter sido o mais suave de todos eles. Pode até parecer, mas não. Não se trata disso. É uma questão de hierarquização de prioridades. A existência, ou não, de Representante da República na arquitetura constitucional das autonomias regionais não é uma prioridade para o povo açoriano. Prioridade para muitos e muitos açorianos é encontrar, dia a dia, forma de colocar pão na mesa para que os seus filhos possam alimentar-se.

Foto by Aníbal C. Pires
Prioritário é proteger o acervo autonómico, prioritário é um modelo de desenvolvimento sustentável, prioritário é o desenvolvimento harmonioso da Região, prioritário é o aumento do rendimento disponível dos trabalhadores e das suas famílias, prioritário é o desenho de políticas públicas de emprego, prioritário é o combate à precariedade laboral, prioridade é o combate ao subemprego, prioridade é a promoção de políticas de emprego para os nossos jovens. Vamos resolver primeiro estes problemas pois não me parece que isso seja competência do Representante da República, a competência é exclusivamente nossa, e depois, Bem e depois vamos falar de alterações à arquitetura das autonomias regionais.
Não coloco de lado a importância da reflexão sobre a autonomia regional, deixei dito atrás que a autonomia deve ser cultivada e exercitada e isso é, no meu entender, a melhor forma de a discutir e de caminhar para o seu aperfeiçoamento. Se a não utilizamos até ao limite, estamos bem longe disso, e então será muito difícil e pouco rigoroso verificar o que é, ou não, necessário reformar na arquitetura da autonomia constitucional.
Ponta Delgada, 11 de Junho de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 12 de Junho de 2017

domingo, 11 de junho de 2017

... da reforma

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires






Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e aqui neste blogue





(...) A autonomia só corre o risco de cristalizar se não for cultivada e exercida. Cabe, desde logo, ao poder político assumir uma cultura de exercício das competências autonómicas, mas é também tarefa de cada um de nós exercitar e cultivar a democracia e autonomia. E é no exercício da participação política que cada um de nós deve exigir ao poder político, designadamente o poder executivo, que exerça as competências autonómicas e só quando elas estiverem esgotadas, então sim, terá chegado a altura de pensar em reformar os mecanismos autonómicos (...)

sábado, 10 de junho de 2017

PETIPÉS, Lizuarte Machado

Foto by Aníbal C. Pires
Quando falamos da epopeia marítima açoriana a tendência é para fazermos a ligação imediata à baleação. E não é errado, mas não é só. A pesca, desde logo, mas a cabotagem açoriana cuja história não estará devidamente estudada, nem mereceu o mesmo interesse literário que a baleação, foi desde os primórdios do povoamento uma importante atividade económica.
Esta atividade permitia a ligação das freguesias e lugares da mesma ilha, uma vez que as a deslocação de pessoas e a troca de mercadorias, fosse pela orografia, fosse pela distância ou pela ausência de vias transitáveis, era mais fácil e rápida por via marítima.
Conheço alguns estudos e projetos de valorização da cabotagem e mesmo, pelo menos um livro, “Dos Barcos de boca aberta aos Navios a Motor”, de Manuel Vieira Gaspar, colega de profissão que tive o prazer de conhecer e desenvolver algumas atividades pedagógicas, tendo como mote a filatelia, entre a Escola Primária Milagres, e a então Escola Preparatória de Arrifes.
Para além deste estudo do professor Manuel Gaspar, existem também estudos da Doutora Fátima Sequeira Dias e um projeto alargado à cabotagem na Macaronésia, desenvolvido no âmbito do Interreg. Ou seja, há um espaço para ocupar, Haja quem.

Lizuarte Machado, imagem retirada da internet


Ligada à pesca, à cabotagem e à baleação está a indústria de construção naval, e é sobre esta atividade industrial que o Comandante Lizuarte Machado nos traz um importante contributo com a publicação, em finais do ano de 2016, de “PETIPÉS”. Tendo por base a sua coleção privada de petipés e o seu conhecimento profissional, Lizuarte Machado dá mais um contributo para a história marítima insular e para história da indústria da construção naval nos Açores.
Obrigado ao Comandante Lizuarte por este contributo.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Terror, choque, medo

Aquando da apresentação do New Deal, na década de 30, o Presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt disse a determinada altura, “(…) a única coisa que devemos temer é o próprio medo (…)”. Esta ideia expressa pelo Presidente Roosevelt, embora tenha sido proferida num contexto muito particular, tratava-se de implementar uma revolução social-democrata nos Estados Unidos, inspirada na teoria económica de Keynes, cujos efeitos se prolongaram até à década de 70, mas como dizia, embora numa conjuntura muito própria, a ideia de que é o medo, o nosso próprio medo, que devemos temer é uma verdade insofismável.
Outros políticos e pensadores desenvolveram esta temática, Eduardo Galeano tem uma excelente reflexão, como só ele era capaz de o fazer, sobre o medo o seu efeito castrador e de dominação do poder sobre os cidadãos e os povos.  Naomi Klein produziu um excelente estudo, “Doutrina/Teoria do Choque”, em que demonstra que é durante e num breve espaço de tempo após uma situação de cataclismo ou de terror, ou seja, quando as populações estão mais fragilizadas e têm a sua atenção centrada na sua própria sobrevivência, que as medidas políticas e económicas mais retrógradas são implementadas e até aceites e apoiadas pelas populações.
O terror provoca o choque e o medo, o medo induz comportamentos passivos e pouco racionais, como por exemplo, a aceitação e apoio à construção de um muro na fronteira do México com os Estados Unidos, ou a onda xenófoba, racista e islamofóbica que se vive no chamado Mundo Ocidental. E não, Não se trata de um choque de civilizações ou de um conflito religioso, como por vezes nos querem fazer crer, se assim fosse o Mundo Ocidental estaria em guerra aberta com a Arábia Saudita, este sim um verdadeiro estado islâmico. Mas não, aliás como pudemos recentemente verificar com a visita de Donald Trump e com os negócios realizados entre os dois países, a maior venda de armamento dos Estados Unidos à Arábia Saudita. Mas este não é o assunto que hoje quero desenvolver, o que não significa que não lhe atribuo importância ou, que a ele não regressarei, até porque algo de insólito aconteceu lá para os lados do Golfo Pérsico. Bahrein, Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iémen cortaram relações diplomáticas com o Qatar.
Os atentados terroristas acontecem quase diariamente, bem se contabilizarmos todos os atos que infligem sofrimento e terror sobre a população, em qualquer parte do Mundo, então a frequência é tal que diria que os atos terroristas já fazem parte do nosso quotidiano, banalizaram-se. Ainda há alguns minutos foi noticiado mais um incidente, desta vez em Paris, no exterior da catedral de Notre Dame. Não sei mais pormenores, mas para todos os efeitos é mais um momento de terror. Que o digam os cidadãos que estão no interior da catedral e o agente da polícia que foi atacado.

O que resulta de um ato terrorista é o medo, com a alteração do modus operandi, o medo generaliza-se, cresce, sufoca, tolda o pensamento e a vontade. As medidas que vierem a ser implementadas para combater o terror serão aceites sem oposição. A nossa história recente está recheada de exemplos que o comprovam. Sendo que a invasão do Iraque, em 2003, é o paradigma da construção mediática de uma mentira aceite, pela generalidade da opinião pública mundial, como uma verdade. Verdade que justificou a invasão. O que ficou diferente, Tudo. Tudo ficou pior para o povo iraquiano que ainda está a pagar o tributo imperial aos seus invasores.
Sobre muitos dos atentados ocorridos nas capitais europeias, desde os mais recentes, a outros dos quais já nem lembramos, pendem muitas dúvidas sobre a sua veracidade, não da sua veracidade como um evento terrorista, mas sobre os verdadeiros mentores do ato. O jornalista free lancer John Pilger tem alguns artigos interessantes sobre esta temática, bem assim como o sítio canadiano na internet Global Research. As false flags são prática comum executadas por organizações a soldo de interesses que não são, propriamente, os interesses da humanidade.

Sobre o recente ato terrorista de Manchester pendem algumas dúvidas. Os rapazes de Manchester, todos eles referenciados, pelos serviços e inteligência ingleses e estado-unidenses, todos eles a movimentarem-se sem qualquer restrição.
E aconteceu, 
Aconteceu mais uma noite de terror, o choque abateu-se, uma vez mais sobre nós, o medo cresceu e com ele ampliaram-se as condições para o domínio e o controle dos cidadãos.

Ponta Delgada, 06 de Junho de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 07 de Maio de 2017

terça-feira, 6 de junho de 2017

... da manipulação

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires




Pequeno trecho que antecipa o todo.










(...) O terror provoca o choque e o medo, o medo induz comportamentos passivos e pouco racionais, como por exemplo, a aceitação e apoio à construção de um muro na fronteira do México com os Estados Unidos, ou a onda xenófoba, racista e islamofóbica que se vive no chamado Mundo Ocidental. E não, Não se trata de um choque de civilizações ou de um conflito religioso, como por vezes nos querem fazer crer, se assim fosse o Mundo Ocidental estaria em guerra aberta com a Arábia Saudita, este sim um verdadeiro estado islâmico. (...)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

... das crianças




Este vídeo pretende assinalar o Dia Mundial da Criança.

As fotos são da minha autoria (registadas em 2000 em S. Tomé) e os textos da poetisa Alda Espírito Santo e foram expostas (2000/2001) na Universidade dos Açores no âmbito de uma iniciativa que celebrou S. Tomé e Príncipe e Timor Loro Sae.


Riley Keough - a abrir Junho


Riley Keough é modelo e atriz. É uma mulher bonita e no desempenho profissional brilha mesmo sem necessitar de dizer que é neta de Elvis Presley.




Porque é Junho trago à galeria do momentos esta mulher e deixo um vídeo com o trailer do filme “Lovesong”, que vi recentemente e do qual gostei. E gostei particularmente da interpretação de Riley Keough no papel de Sarah.






quarta-feira, 31 de maio de 2017

Restaurar a soberania

Imagem retirada da Internet
A situação social e económica no país melhorou, É inegável. Como também é incontestável que isso se deve à inversão de políticas, ou seja, fazer o contrário do que o Eurogrupo, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional receitaram a Portugal e, receitam um pouco por todo o Mundo, com as consequências conhecidas.
Mas será que se afastaram, de todo, as causas que estiveram na origem da crise que motivou, por um lado a intervenção da troika e, por outro lado a adoção cega e até mais penalizadora, pelo anterior governo, das medidas que empobreceram o povo e os trabalhadores portugueses, Não. As causas, as raízes do problema continuam bem vivas à espreita de uma nova oportunidade e dos protagonistas do momento para se instalar e estender os tentáculos, num abraço sufocante, aos direitos e aos rendimentos do trabalho, dos reformados e pensionistas.
Estou satisfeito, Sim confesso que me sinto moderadamente satisfeito, mas continuo atento e a defender mais, muito mais, do que aquilo que, na prática, resultou do desbravar caminho para a formação de um governo minoritário do PS e do acordo bilateral que foi subscrito com o PCP. Houve outros acordos bilaterais, é certo, mas nem todos produziram o efeito daquele a que me referi. Mas não tenho ilusões. Não fora a luta das populações e dos trabalhadores e não se tinha ido tão longe quanto se foi, ainda que isso seja pouco, muito pouco para erradicar as causas que produziram os efeitos nefastos na economia nacional e o drama que atingiu a generalidade dos portugueses.
Tentarei, não é fácil, transmitir as minhas preocupações e a minha visão do que é politicamente necessário fazer para dar sustentabilidade à economia nacional, é que não bastam os registos positivos neste ou no ano anterior, é necessário um crescimento continuado e sustentável. E, para garantir que não há retrocessos é necessário remover alguns obstáculos que impedem o País de traçar o seu próprio destino e, sobretudo, estanquem a sangria de recursos financeiros para o estrangeiro. Lembro que Portugal paga anualmente mais do dobro, em encargos com a dívida, do que recebe de fundos estruturais. Pois é, afinal somos contribuintes líquidos, não para o Orçamento da União Europeia, mas para o setor financeiro internacional que vampiriza os países com dívidas públicas elevadas e economias débeis.

imagem retirada da Internet
É neste quadro que urge remover pelo menos três constrangimentos que estão a impedir Portugal de encontrar o caminho do crescimento sustentável.
A renegociação da dívida, a submissão ao euro e o controle público da banca. A resolução destas questões é um imperativo nacional. O espartilho ao investimento público, que desceu para níveis idênticos ao dos anos 50, decorre, no essencial, destes três fatores e da sua conjugação.
A recuperação da soberania monetária é uma necessidade estrutural do nosso País, só assim será possível libertar Portugal das chantagens dos “mercados”, do Pacto de Estabilidade e Crescimento e do Tratado Orçamental, que estimulam o endividamento externo e, por conseguinte, a saída de capitais para o estrangeiro.
A renegociação da dívida é outra necessidade estrutural, Portugal não pode continuar a suportar encargos com uma dívida, que sendo para pagar, é impagável se não forem renegociados os prazos, os juros e se apure o seu montante real.
Por fim, a necessidade de inverter a alienação e concentração acelerada nos megabancos europeus da atividade bancária. A racionalização e reorientação do crédito para a atividade produtiva em vez de especulativa só é possível com o controle pública da atividade bancária.
Portugal é um País periférico, fragilizado, dependente, endividado e condicionado por decisões exógenas. Portugal precisa, desde logo, recuperar a sua soberania monetária sem a qual não é possível implementar um modelo de crescimento sustentável, um modelo de desenvolvimento livre das amarras que nos são impostas por parceiros que mais parecem sanguessugas.
Ponta Delgada, 30 de Maio de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 31 de Maio de 2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

Resgates, ou um perigoso leitor de jornais

Carlos Tomé - foto de Eduardo Costa
Um Perigoso Leitor de Jornais, romance baseado em factos reais, da autoria de Carlos Tomé, foi ontem apresentado em Ponta Delgada. Não tendo nenhuma pretensão de fazer crítica literária, deixo essa tarefa para quem de direito, mas não posso deixar de fazer algumas referências a este livro que, por gentileza do autor, a quem agradeço, me chegou às mãos uns dias antes de ser conhecido do público.
Ontem na apresentação do livro afirmou-se que esta estória consistia no resgate da memória do avô do autor, e assim é. Mas Carlos Tomé não só resgata a estória do seu avô, o autor resgata para a memória coletiva regional e nacional, um período da nossa história sobre o qual não existe muita informação e que carece de um estudo mais aprofundado. A revolta dos degredados em Angra do Heroísmo, 1931, ou as manifestações populares de 1933, em Ponta Delgada, que culminaram numa greve geral por altura do Carnaval desse ano, ou a estória de mais de duas dezenas de micaelenses presos, em 1938, e condenados ao degredo no forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, grupo do qual fazia parte Carlos Ildefonso Tomé, avô do autor, bem assim como muitas outras estórias, muitas estórias de resistência a um regime opressor e cruel, necessita de mais atenção investigação.
Era um regime que prendia arbitrariamente, que torturava, que matava, que sonegava direitos tão elementares como o direito ao ensino. Veja-se este trecho do livro de Carlos Tomé, (...) - A escola não é para comunistas, nem para os filhos dos comunistas, perceberam todas? Ela foi expulsa, vai para casa!
Ato contínuo, pegou na mão de Lígia, com mais firmeza do que a necessária para os sete anos da “comunista”, e com um seco “Bom dia! Pôs-se a caminho, levando-a da escola, … afastando-a irremediavelmente dos seus sonhos de menina.” (...)  
Carlos Tomé não é um historiador, é jornalista, mas com esta obra dá um importante contributo à história da luta contra a ditadura do Estado Novo. O seu avô distribuía correspondência em Ponta Delgada, na correspondência vinham jornais de Lisboa que continham outros jornais, Carlos Ildefonso Tomé, soube e continuou a entregá-los aos destinatários, e a lê-los. Sim era o Avante! Lia outros, os que se publicavam em Ponta Delgada, os que vinham de Lisboa e os que vinham da comunidade açoriana radicada na costa Leste dos Estados Unidos. Tinha esse mau hábito, lia jornais.

Foto by Aníbal C. Pires
Isso custou-lhe a prisão, o degredo. Isso custou à Maria José, sua mulher, e aos seus nove filhos muitos sonhos por cumprir e o peso do estigma que sobre eles se abateu. Talvez isso tenha sido mais penalizador para Carlos Ildefonso do que os dias que passou na Poterna, no forte de S. João Baptista.
Foi preso pela PSP de Ponta Delgada, esteve na cadeia da Boa Nova e foi degredado para Terceira onde cumpriu a pena que um Tribunal Militar Especial o condenou. No forte de S. João Baptista, onde na altura se encontravam mais de duas centenas de presos políticos, ficou na caserna dos comunistas, aí privou com Joaquim Pires Jorge e com José Gregório, de entre outros destacados militantes do PCP, com os quais manteve uma relação, como não podia deixar de ser, de grande camaradagem. Carlos Ildefonso não era militante do PCP, mas foi acolhido como se fosse um deles. Carlos Ildefonso não sendo militante do PCP, durante este processo e nos longos meses que passou preso no forte de S. João Baptista, comportou-se como se o fosse e granjeou o respeito de todos, designadamente, do Joaquim Pires Jorge e do José Gregório.
Ontem coube a Carlos César fazer a apresentação do livro e do autor e, a Carlos Enes o enquadramento histórico. Ontem, talvez, pela primeira vez estive de acordo com Carlos César, de acordo sem qualquer reserva, o livro Um Perigoso Leitor de Jornais deve fazer parte da leitura obrigatória em todas a escolas da Região. Espero que esta sugestão de Carlos César seja aceite pela tutela da Educação e pelos responsáveis pela rede regional de bibliotecas.

Uma nota final para dizer o que ainda não disse, Gostei, gostei até às lágrimas. Não apenas gostei como me emocionei durante a leitura. Nem todos os livros de que gosto me emocionam, mas este foi um deles. A emoção fez com que as lágrimas rolassem pelo meu rosto.
Bem hajas Carlos Tomé.

Ponta Delgada, 30 de Maio de 2017

... do vampirismo

Aníbal C. Pires (S. MIguel, 2017) by Madalena Pires





Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e aqui, neste blogue.






(...) é que não bastam os registos positivos neste ou no ano anterior, é necessário um crescimento continuado e sustentável. E, para garantir que não há retrocessos é necessário remover alguns obstáculos que impedem o País de traçar o seu próprio destino e, sobretudo, estanquem a sangria de recursos financeiros para o estrangeiro. Lembro que Portugal paga anualmente mais do dobro, em encargos com a dívida, do que recebe de fundos estruturais. Pois é, afinal somos contribuintes líquidos, não para o Orçamento da União Europeia, mas para o setor financeiro internacional que vampiriza os países com dívidas públicas elevadas e economias débeis. (...)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Opiniões (im)populares

Imagem retirada da internet
Este fim de semana foi dedicado ao cinema. Cinema em casa, uma das vantagens das novas tecnologias de comunicação e das plataformas que as utilizam para disponibilizar conteúdos cinematográficos, pagos ou não.
Ver cinema em casa não é bem a mesma coisa que ir ao cinema. Não, não é. Mas satisfaz e, por outro lado, não tenho que suportar o ruído ensurdecedor das pipocas a serem mastigadas, nem ser agredido pelos impregnados odores oleosos das pipocas que caem no chão e nas cadeiras e que os serviços de limpeza, ligeira como convém para diminuir custos, deixam por lá a degradar-se até que a atmosfera se transforme numa coisa bafienta e desagradável para o olfato.
Depois do filme se iniciar e passado algum tempo habituamo-nos, ao ruído e aos odores. As imagens, os sons e o enredo do filme despertam outros sentidos que se sobrepõem ao incómodo de uma sala bafienta frequentada por muitos apreciadores de pipocas e alguns, poucos, apreciadores da sétima arte.
Claro que esta não é uma opinião popular, assim como não são populares outras opiniões que tenho sobre os usos de espaços públicos. Nada posso, nem nada, quero fazer para alterar a impopularidade das minhas opiniões pois, estas minhas opiniões não incomodam ninguém. E os meus incómodos eu resolvo, evitando as causas que lhe estão na origem. Nem sempre é fácil, mas vou fazendo por isso, por não me deixar incomodar com comportamentos que me incomodam. Afasto-me, evito-os, ignoro-os.

Imagem retirada da internet
Tenho, contudo, outras opiniões que incomodam e também não serão muito populares. Não são populares porque não têm associado um discurso populista, isto é, não exprimem a opinião dominante que alguém, os destinatários que pretendo incomodar, se encarregou de massificar. Ainda assim insisto. Insisto não por teimosia, mesmo sendo obstinado, mas pela razão que lhes está associada.
Razões que ganham dimensão e que preocupam quem se preocupa com o presente e o futuro. Razões que não sendo populistas, mais tarde ou mais cedo, irão ganhar a popularidade que promove a necessária transformação social, sem a qual não é possível qualquer transformação política.
Em Portugal, ainda que insipiente, renasce uma nova esperança. Afinal é possível, afinal não era inevitável ter de trilhar o caminho a que nos obrigaram e que a maioria dos portugueses aceitou como sendo o único. Valeu a opinião e a luta de quem tem opiniões minoritárias e se recusa a integrar a submissão como modo de pensar e agir. Prevaleceu a insurgência e a rebeldia, prevaleceu a luta contra o diretório político e financeiro da União Europeia, prevaleceu a opinião impopular e minoritária que promoveu a mudança e fez renascer a esperança. Se estou satisfeito, Não.
E por que não estou satisfeito vou continuar fora do rebanho e a não permitir que tudo se uniformize. A diversidade é tão bem mais desafiante.
Ponta Delgada, 28 de Maio de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 29 de Maio de 2017

domingo, 28 de maio de 2017

... dos incómodos

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires




Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e neste blogue que é assim como o fiel depositário dos meus escritos e outros devaneios.






(...) Claro que esta não é uma opinião popular, assim como não são populares outras opiniões que tenho sobre os usos de espaços públicos. Nada posso, nem nada, quero fazer para alterar a impopularidade das minhas opiniões pois, estas minhas opiniões não incomodam ninguém. E os meus incómodos eu resolvo, evitando as causas que lhe estão na origem. Nem sempre é fácil, mas vou fazendo por isso, por não me deixar incomodar com comportamentos que me incomodam. Afasto-me, evito-os, ignoro-os. (...)

sábado, 27 de maio de 2017

Miguel Urbano Rodrigues - (1925-2017)

Miguel Urbano Rodrigues







O Miguel partiu hoje à tarde para a memória da gente. Da gente que não cala, da gente que não desiste, da gente que luta.
Deixa-nos um enorme legado de luta pela dignidade e libertação dos povos.
Até sempre camarada Miguel.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Desanexar para ampliar

Imagem retirada da internet
As Lajes, enquanto Base Aérea portuguesa utilizada pelos Estados Unidos, voltaram à opinião pública e à agenda política. Os motivos são vários e todos eles dignos de menção, sem dúvida, mas não é sobre o ponto de vista do que motivou este regresso ao assunto que hoje dedico algumas linhas e algum do vosso tempo para tergiversar sobre a infraestrutura aeroportuária das Lajes.
Todos temos conhecimento de várias infraestruturas aeroportuárias onde as operações militares e civis convivem em harmonia, desde logo no Aeroporto Humberto Delgado, onde o Aeroporto Militar de Figo Maduro funciona.
Na Alemanha, em Espanha, nos Estados Unidos e por aí adiante outros casos semelhantes existem e coexistem, ao contrário do que se passa nas Lajes, onde o Comando Militar português, dentro das suas competências e fazendo cumprir os regulamentos, tem criado alguns condicionalismos à operação civil, por outro lado, nos últimos anos e face ao aumento do movimento de aeronaves civis durante o chamado Verão IATA, são conhecidos alguns episódios em que a operação civil foi alvo de vários constrangimentos.

Foto by Aníbal C. Pires
E a pergunta é óbvia porque acontece nas Lajes e não acontece noutros locais onde as operações aéreas, civis e militares, decorrem com normalidade. A diferença reside na total separação das duas valências, ou seja, pelas particularidades de uma e outra operação as infraestruturas, usando espaços comuns, estão efetivamente isoladas uma da outra. E é, no essencial, isto que não se passa nas Lajes.
Se a solução é fácil, Talvez não seja. Mas se queremos que o aeroporto civil que serve a ilha Terceira possa reunir todas as condições para que a operação não fique dependente dos constrangimentos que decorrem dos regulamentos militares, então a questão deve ser encarada como uma necessidade regional e encontradas as necessárias e adequadas soluções que satisfaçam as pretensões açorianas. Por outro lado, a necessidade de aumento da chamada placa civil do aeroporto das Lajes, para a qual, existem algumas ideias e mesmo propostas formuladas em sede da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores só terá efeito nas pretensões da operação civil, se a condição anterior estiver satisfeita. Pois, como sabemos, no Aeroporto das Lages, civil mesmo só a aerogare.
A solução de ampliação da chamada placa civil necessita previamente da separação das duas operações, o que pressupõe a desanexação de terrenos do Ministério da Defesa Nacional para o domínio público regional. Com a desanexação fica o Aeroporto das Lajes com espaço suficiente para ampliar a placa civil, a custos inferiores e menos impactos paisagísticos do que aqueles que algumas das propostas existentes têm associados.
Se é assim tão simples, Não será. Mas a solução tem de passar por aí e a resposta às declarações de Devin Nunes, também.
Ponta Delgada, 16 de Maio de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 17 de Maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

estórias com rosto

Sul do Egipto, Agosto de 2006 - foto by Aníbal C. Pires


(...) Os rostos contam estórias e eu gosto das estórias que os rostos me contam. (...)

Aníbal C. Pires, Santa Cruz das Flores, 20 de Agosto de 2015 

... da convivência pacífica

Foto by Aníbal C. Pires








Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e aqui, neste blogue











(...) E a pergunta é óbvia porque acontece nas Lajes e não acontece noutros locais onde as operações aéreas, civis e militares, decorrem com normalidade. A diferença reside na total separação das duas valências, ou seja, pelas particularidades de uma e outra operação as infraestruturas, usando espaços comuns, estão efetivamente isoladas uma da outra. E é, no essencial, isto que não se passa nas Lajes. (...) 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Lusas emoções

Os irmãos Sobral (imagem retirada da internet)
Por razões e acontecimentos diversos foi um fim de semana pleno de emoções para os portugueses, não direi todos, todos. Mas tenho cá para mim que apenas um ou outro mais azedinho, sei lá, assim um cidadão como o Vasco Pulido Valente que escreve muito bem, para quem gosta, mas tem uma fonte inesgotável de bílis. Apenas portugueses como ele, felizmente são poucos, não terão vibrado como uma das tribos de portugueses que nos últimos dias teve motivos para se sentir satisfeito, direi mesmo orgulhoso. Nem sei como é que o Vasco Pulido Valente consegue manter sempre aquela má disposição que lhe turva o pensamento, ali só existe, o Eu, porque o Outro, ou é atoleimado ou, não sabe o que diz, ou é comuna, ou é um qualquer subproduto humano, segundo a conceção que o próprio tem dos seus semelhantes e do Mundo onde vive.
Nem tudo estará dito sobre Fátima, o Papa, o Benfica e o Euro Festival e outros acontecimentos sem a dimensão mediática destes, como por exemplo a vitória da equipa feminina de voleibol, que representou este ano os Açores, nos Jogos da Ilhas, ou o título de campeão regional de seniores, em andebol, conquistado pelo Marítimo Sport Clube (da Calheta de Pero de Teive, de Ponta Delgada) e, muitos outros acontecimentos e eventos que uniram pequenos grupos de portugueses. Nem tudo estará dito, mas não serei eu a acrescentar uma palavra que seja, pelo menos hoje, ao estado de graça que se instalou, no passado Domingo, em Portugal.
Pena hoje ser segunda-feira e a conquista do Euro Festival da Canção não ter dado direito a uma tolerância de ponto, bem que merecíamos. Foram muitas comoções juntas e vinha mesmo a calhar um dia para recuperar da ressaca emocional. Bem vistas as coisas, hoje nos locais de trabalho, sejam eles públicos ou privados, a produtividade deve cair para níveis pouco recomendáveis para um país que precisa é de produzir mais.

Na catedral da Luz (imagem retirada da internet)
Mal por mal fechava-se tudo para, com a tranquilidade que o momento merece, deglutir as emoções e este orgulho que transborda dos corações lusos, sejam benfiquistas ou não, sejam católicos ou não, acreditem ou não, gostem ou não gostem que o Salvador ame pelos dois. Acho que esta coisa de amar pelos dois tem qualquer coisa de platónico, ou mesmo de autossatisfação. Não tenho nada contra, nem ao Platão e, muito menos ao prazer solitário, embora considere o ato pouco satisfatório.

Como já perceberam também eu vibrei, não digo com o quê, mas quem me conhece bem saberá qual o motivo de, também, eu ter os níveis, da lusa autoestima, no topo da escala, ou seja, no vermelho. Não, não foi do tetra. Só mesmo depois do Benfica ser hectacampeão é que, enquanto benfiquista, valerá a pena festejar, até já o Sporting foi tetra campeão, é certo que foi nos anos 50 do século passado, mas para todos os efeitos já foi, e o Porto, mais recentemente, foi penta campeão, por conseguinte, quem leu Benfica ao invés de ler o que de facto está escrito precipitou-se e concluiu mal. Ali vermelho significa risco, assim como nos conta rotações dos automóveis, não é aconselhável entrar no vermelho.
Deixando de lado o tom algo jocoso e irónico do que leram até agora, e porque não tenho nada a esconder, direi que pulei de alegria com a vitória dos irmãos Sobral no Euro Festival da Canção, os motivos da minha satisfação nada têm a ver com qualquer motivo de ordem patriótica e, muito menos nacionalista. Os motivos da minha satisfação foram mesmo aquele poema, aquela música, aquela voz, aquela autenticidade, e a musicalidade da língua portuguesa.
Ponta Delgada, 14 de Maio de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 15 de Maio de 2017

... das emoções

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017)  by  Madalena Pires





Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e, também, neste blogue






(...) Mal por mal fechava-se tudo para, com a tranquilidade que o momento merece, deglutir as emoções e este orgulho que transborda dos corações lusos, sejam benfiquistas ou não, sejam católicos ou não, acreditem ou não, gostem ou não gostem que o Salvador ame pelos dois. Acho que esta coisa de amar pelos dois tem qualquer coisa de platónico, ou mesmo de autossatisfação. Não tenho nada contra, nem ao Platão e, muito menos ao prazer solitário, embora considere o ato pouco satisfatório. (...)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Mistificações

Foto by Aníbal C. Pires
Aproxima-se o final da semana, e este por obra e graça, não dos videntes pastorinhos, mas da hipocrisia política, será um daqueles fins de semana prolongados. Prolongado só para os trabalhadores da administração pública central e regional pois, não podem os governos, e bem, imiscuir-se na atividade do setor privado.
A tolerância de ponto concedida para assinalar a vinda do Papa às celebrações do 13 de Maio, ou permitir a ida dos fiéis até à Cova de Iria, ainda não percebi muito bem a que fim se destina a tolerância de ponto concedida para sexta-feira, dia 12, mas isso também não é importante. A decisão foi tomada e certamente bem acolhida pela generalidade, senão mesmo pela totalidade dos trabalhadores que dela vão beneficiar.

Foto by Madalena Pires
Esta semana a sexta-feira é à quinta, e isso é fixe. E então se o S. Pedro for solidário e afastar as nuvens, sossegar o vento e faça a temperatura subir qualquer coisinha, então sim, vai valer a pena este bónus concedido pelos Governos da República e da Região Autónoma dos Açores, só por estes. Na Madeira o Presidente do Governo não arriscou a possibilidade real, segundo ele, do êxodo dos madeirenses e porto-santenses para irem a Fátima ver o Papa Francisco esgotar o plafond estadual que está alocado ao pagamento das indemnizações compensatórias, também conhecido por subsídio social de mobilidade, aos passageiros residentes naquela Região Autónoma.
Sei que a família política do Primeiro-ministro e do Presidente do Governo Regional dos Açores é diferente da do Presidente do Governo Regional da Madeira, mas não vou criticar qualquer das decisões, até porque a semana é curta e, quiçá para além de Fátima também vamos ter festa no Futebol, pelo menos é isso que é esperado pelos benfiquistas, julgo eu que de futebol não percebo nada. De Fado também não, mas gosto das novas sonoridades e abordagens que este género de música popular urbana foi assumindo.
Distraí-me e não devia. Hoje o que eu quero mesmo deixar referenciado é a passagem dos 72 anos do fim da II Guerra Mundial e tudo o que isso tem de significado para a Europa e para o Mundo. A tomada de Berlin pelo Exército Vermelho e a posterior capitulação incondicional da Alemanha perante os Aliados, assinala-se hoje, dia 9 de Maio. Capitulação ao fim de 6 longos, sangrentos e aterradores anos onde perderam a vida mais de 55 milhões de pessoas. Sim eu sei, também se assinala o dia da União Europeia, Sim também sei que na versão oficial é o dia da Europa. Mas a Europa é um pouco mais do que os 28 países que pertencem à União Europeia e o dia 9 de Maio relaciona-se diretamente com a conhecida “Declaração Shuman”, feita pelas 16h00, por Robert Shuman, a 9 de Maio de 1950, em Paris. Declaração que lançou as bases fundadoras do que é hoje a União Europeia, logo julgo ser abusivo designar este dia como o dia da Europa. Por outro lado, se tenho de celebrar alguma coisa, então a minha opção vai para a celebração do fim da II Guerra Mundial e da derrota do nazi-fascismo. E é contra o recrudescer do nazismo na Europa e no Mundo que devemos estar atentos e lutar.
Ponta Delgada, 09 de Maio de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 10 de Maio de 2017