domingo, 22 de outubro de 2017

De Lisboa por telefone

Ana Amélia (do arquivo pessoal)
Há minutos atrás num desses quotidianos telefonemas com a minha filha mais velha falámos, como é hábito, de vários assuntos. 
As novas edições de Philip Roth, de quem somos fiéis leitores, mas também a edição de “Isso Não Pode Acontecer Aqui” de Sinclair Lewis escrito em 1935, já depois da atribuição do Nobel da Literatura (1930) e sobre o qual Vamberto Freitas escreveu em 2014, muito antes da sua edição em Portugal e sobre o qual a editora fez tábua rasa.
Também conversámos sobre os incêndios que flagelaram o nosso país e das alterações climáticas. Nos próximos dias é esperado um inusual, para a época, aumento da temperatura do ar no continente.
E, já para o fim da conversa divergimos para algumas questões, diria, acessórias a que só me refiro porque terminaram com uma gargalhada que quero partilhar convosco, se é que o riso se vai soltar quando chegarem ao fim do penúltimo parágrafo. As reações, como sabemos, são diversas perante a mesma situação. Convosco não tenho mesma cumplicidade que naturalmente tenho com os meus 3 filhos, e como não sou, nem tenho pretensões de vir a ser um humorista, é bem possível que não achem piada nenhuma e nem sequer um sorriso lhes aflore aos lábios.
Sabes, dizia eu à Ana Amélia, a Madonna disse, através do Instagram, que a vida dela em Lisboa estava a ser como a de uma freira, sabendo-se que a realidade é bem diversa da que anunciou naquela rede social. 
Mas isto apenas serviu de mote para eu lhe dizer que com tantas estrelas em Lisboa já nem me apetece ir até à capital e muito menos pensar em mudar-me para lá. Ao que ela respondeu, Pois é pai, depois cruzas-te com o Éric Cantona, na Lapa, com a Monica Bellucci, no Castelo, com o Michael Fassbender, em Alfama e com a Madonna em todo o lado, like a virgin, o que pode ser uma chatice.
E terminámos a conversa tendo eu ficado a pensar que outros nomes mediatizados pelo cinema, ou outras artes, têm escolhido a capital portuguesa para viver como, de entre outros, John Malkovich que desta nova vaga, de estrelas, terá sido o pioneiro.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de Outubro de 2017

... nem silenciosa, nem apolítica

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires







Excerto de texto para publicação na imprensa regional e, como não podia deixar de ser, também aqui no momentos








(...) Às esperadas grandes manifestações do passado sábado juntaram-se algumas pessoas bem-intencionadas e uns tantos acólitos e partidários da direita e da extrema direita, em algumas cidades nem os promotores chegaram a comparecer, como foi o caso de Ponta Delgada onde se juntaram apenas dois ingénuos manifestantes do grupo dos bem-intencionados. A manifestação de Lisboa só foi notícia pela fraca adesão e por algumas altercações e agressões quando um grupo de manifestantes mostrou uma faixa atribuindo responsabilidades, pela catástrofe nacional que os incêndios florestais configuram, ao anterior governo. (...)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Público ou privado, O caso BCA

Imagem retirada da internet
A opinião divergente é salutar quando os argumentos são devidamente fundamentados, se assim não for nem sequer vale a pena o diálogo. Quando esbarramos com opinião ancorada nos lugares comuns, na ignorância, ou alicerçada em argumentação regurgitada tendo como base a opinião dominante, mas fabricada por agressivas e prolongadas campanhas de intoxicação. Não vale a pena, mas lamento. Lamento constatar que um tão grande número de cidadãos, alguns até com formação superior e, quase todos, beneficiários da ascensão social e económica que resultou daquilo que hoje tanto abominam, não sejam capazes de discernir o que é o interesse público e o que é manipulação a favor de um modelo ideológico e económico que está na origem das crises do capitalismo. Crise que os afeta(ou), como me afeta(ou) a mim e como afeta(ou) quase todos, dizem até que os afetados por tão virtuoso modelo ideológico e económico são 99% da população mundial, não sei. Mas, mais coisa menos coisa, talvez sejam os tais 99%.
Vou socorrer-me apenas de um exemplo bem conhecido do povo açoriano como um contributo para a reflexão sobre as virtualidades das privatizações e da gestão privada.
Ao contrário do que por aí, recentemente, vi afirmado em defesa da privatização das empresas públicas, o Banco Comercial dos Açores (BCA) não foi privatizado para injetar capital na EDA, nem na SATA. A eventual transferência de receitas públicas obtidas pela privatização de empresas públicas para o setor empresarial público (regional ou nacional) é uma decorrência da lei. Depois do BCA veio a EDA, ainda que parcialmente. No horizonte próximo e na agenda política está a privatização parcial da SATA, bem assim como outras empresas do Setor Público Empresarial Regional.
O BCA foi privatizado, na década de 90, por opção política dos chamados partidos do arco do poder, apenas isso. Foi privatizado porque sim. Podia até fazer o enquadramento histórico e político que está na origem da opção de privatizar tudo o que é público, que no nosso país, como é habitual, demorou mais tempo do que noutros países europeus, mas dispenso-me disso, aliás o processo continua em curso, como está bom de ver.
Com a privatização do BCA a região perdeu. Perdeu o instrumento financeiro, fala-se agora por aí na necessidade de criar um banco regional, o que diz bem da falta que o BCA fez (faz) à Região, mas perdeu também uma fonte de receita. O BCA não era deficitário.
Enquanto se manteve como entidade própria o BANIF Açores (ex BCA), ainda contribuía com alguns impostos para a receita da Região, mas foi sol de pouca dura pois a opção do grupo BANIF foi de acabar com o esse apêndice e absorvê-lo. O que teve como significado que os impostos cobrados deixaram de ser receita da Região.

Imagem retirada da internet
Quanto às virtualidades da gestão privada fica apenas uma pergunta. O que é feito do BANIF e porquê. Afinal são duas as perguntas, E os lesados do BANIF, foram vítimas de quem, da gestão pública ou, da gestão privada.
Tenho consciência que para as novas gerações que não conheceram o BCA esta é uma questão que pouco lhes diz, por outro lado o pensamento dominante tem vindo a inculcar a ideia que o Estado deve ser reduzido ao mínimo possível, o que dificulta que outros posicionamentos em defesa da intervenção do Estado, designadamente, no controlo da Banca, que só é nacional/regional se for pública, tenham imensas dificuldades em ser aceites. Tendo disso profunda consciência, tenho também a obrigação cívica e política de trazer para a reflexão pública factos como o que, ainda que sumariamente, vos refiro neste texto.   
Ponta Delgada, 17 de Outubro de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 18 de Outubro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

... contra a maré

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires





Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e aqui, no momentos






(...) O BCA foi privatizado, na década de 90, por opção política dos chamados partidos do arco do poder, apenas isso. Foi privatizado porque sim. Podia até fazer o enquadramento histórico e político que está na origem da opção de privatizar tudo o que é público, que no nosso país, como é habitual, demorou mais tempo do que noutros países europeus, mas dispenso-me disso, aliás o processo continua em curso, como está bom de ver.
Com a privatização do BCA a região perdeu. Perdeu o instrumento financeiro, fala-se agora por aí na necessidade de criar um banco regional, o que diz bem da falta que o BCA fez (faz) à Região, mas perdeu também uma fonte de receita. O BCA não era deficitário.
Enquanto se manteve como entidade própria o BANIF Açores (ex BCA), ainda contribuía com alguns impostos para a receita da Região, mas foi sol de pouca dura pois a opção do grupo BANIF foi de acabar com o esse apêndice e absorvê-lo. O que teve como significado que os impostos cobrados deixaram de ser receita da Região. (...)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Opções, prioridades e ideologia

Foto by Madalena Pires
A solução política governativa adotada em 2015 à qual o PCP abriu caminho, sim foi o PCP, é um facto, tem permitido, ainda que, a um ritmo aquém do desejável e possível, a recuperação de direitos e rendimentos que foram subtraídos aos portugueses por opções políticas que, tendo atingido contornos de terrorismo social durante o governo do PSD e do CDS/PP, não foram mais do que a continuidade e aprofundamento das opções políticas de anteriores governos liderados pelo PS. Opções políticas sustentadas numa matriz ideológica que, não sendo nova, renasceu e transfigurou-se no último quartel do século XX.
Ideológica sim, não tenhamos ilusões estas são opções políticas e ideológicas e, como tal, combatem qualquer alternativa política que esteja ancorada noutras ideologias. Nem a história nem as ideologias têm fim por decreto ou, por vontade dos ideólogos da teologia do mercado. Enquanto coexistir acumulação imoral de riqueza e seres humanos a morrer de fome ou porque não têm acesso a um bem tão elementar como a água potável haverá lugar à luta de classes. Luta ancorada pela ideologia a que o poder, o verdadeiro poder, e os seus acólitos gostariam de ver varrida das consciências de quem se indigna com as injustiças.
Em apenas dois escassos anos os indicadores sociais e económicos em Portugal alteraram-se positivamente e demonstram a falência das opções políticas e económicas constantes da cartilha do diretório político e financeiro da União Europeia, do Fundo Monetário Internacional e outros quejandos. Ainda assim ouço da boca de muitos concidadãos que talvez estejamos a ir muito depressa e que com as medidas de reposição de direitos e rendimento podemos entrar, de novo, numa nova crise. E quem o diz são mesmo alguns dos beneficiários desta rutura com as politicas de austeridade, ou se preferirem as vítimas das políticas que reduziram rendimentos, aumentaram o desemprego e a precariedade laboral e os tempos de trabalho não renumerado, prorrogaram a idade da aposentação, diminuíram as pensões de reforma, tudo isso para que no setor financeiro fossem injetados milhares de milhões de euros. Dinheiro público, dinheiro nosso, para tapar os imensos buracos criados pela tão querida gestão privada da banca. A minha resposta é invariavelmente a de que os recursos financeiros existem. Existem e é possível continuar a repor direitos e rendimentos, trata-se de uma questão de opções políticas e, lá está de opções ideológicas.


Mas não é fácil contrariar esta opinião formada pelo contínuo metralhar dos comentadores e analistas com assento nos órgãos de comunicação social, sejam eles públicos ou privados, que mais não fazem do que papaguear velhas receitas com uma roupagem de modernidade.
A propósito de modernidade e de avanços civilizacionais a Assembleia da República aprovou, na passada semana, legislação que permite a entrada de animais de companhia nos restaurantes.
Legitimamente gerou-se uma onda de apoio a esta medida. Que sim e mais que também pois, em muitos países europeus já assim acontece. Tudo bem, mas nos países europeus onde isso já está em vigor há alguns anos o salário mínimo deve ser bastante superior ao salário mínimo em Portugal. É tudo uma questão de prioridades dos legisladores e, sobretudo, uma questão de centrar ou descentrar a atenção dos cidadãos sobre o que deve ser, ou não, prioritário na discussão nos espaços públicos.
Sobre o bem-estar animal e a proteção dos animais estou à vontade, tenho até património político pois, enquanto deputado eleito pelo PCP na última legislatura fui autor de legislação sobre a matéria. Legislação que a maioria e a direita parlamentar desvirtuaram com algumas alterações à proposta inicial.

Foto by Madalena Pires
Sobre a biodiversidade e a conservação da natureza tenho igualmente património político, mas não me fiquei por aí. Nas prioridades do partido que parlamentarmente representava havia outras preocupações, como por exemplo o aumento do rendimento dos trabalhadores do setor público e do setor privado, bem assim como dos complementos regionais de pensão e abono de família. Sistematicamente chumbados pela maioria parlamentar, em alguns casos acompanhada pela direita com assento na ALRAA, ou seja, nunca perdi o sentido daquela que deveria ser a minha grande prioridade, as pessoas. Quanto maior for a qualidade de vida dos meus concidadãos maior será a consciência ambiental e maiores serão as preocupações com o bem-estar animal.
A Assembleia da República aprovou uma lei que permite a entrada de animais de estimação nos restaurantes. O mesmo parlamento, mas não os mesmos deputados, chumbou uma proposta, do PCP, de aumento do salário mínimo para 600 euros a partir de Janeiro de 2018. Qual das duas medidas representará um maior avanço civilizacional e nos aproximará mais dos nossos parceiros europeus. Pois é, São as prioridades e a tais ideologias.
Ponta Delgada, 15 de Outubro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 16 de Outubro de 2017

Sem prevenção não há remedeio que nos valha

Imagem retirada da internet
Incrédulo, triste, desapontado, revoltado, indignado. Estamos em Outubro e o país, o nosso país, está a arder. 
Não sei se foi o pior dia do ano, sei que não devia acontecer, nem este nem outro dia de incêndios, melhor ou pior que o dia 15 de Outubro. Nem isso interessa, não é relevante. Não podia, não devia acontecer. Não pode voltar a acontecer.
As condições meteorológicas são adversas, sem dúvida. Estamos num ano de seca, certamente, mas a dimensão dos incêndios não se deve apenas e só a esses fatores.
A prevenção, a vigilância e o ordenamento do território são determinante para evitar outros  infernos como o deste dia de Outono, são determinantes para que a dimensão catastrófica dos incêndios florestais seja reduzida. Se isto for feito evitam-se muitos incêndios e o seu combate será muito mais eficaz, os custos reduzidos. Nunca o dito popular “mais vale prevenir do que remediar” fez tanto sentido.

imagem retirada da internet
Não se pode deixar tudo na mesma. 
Já basta de tanta morte, já basta de tanto sofrimento, já basta de tanta imagem terceiro mundista, já basta de SIRESP.
Já basta.
Já basta e não é aceitável que durante os próximos meses não se tomem as medidas necessárias para que o país não seja consumido pelas chamas da incúria, da inércia e da satisfação dos interesses do mercado, porque também é disso que se trata.
Revoltem-se porra.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de outubro de 2017

domingo, 15 de outubro de 2017

... das prioridades

Foto by Madalena Pires











Excerto de texto a publicar na imprensa regional e no "momentos"













(...) A propósito de modernidade e de avanços civilizacionais a Assembleia da República aprovou, na passada semana, legislação que permite a entrada de animais de companhia nos restaurantes. Legitimamente gerou-se uma onda de apoio a esta medida. Que sim e mais que também pois, em muitos países europeus já assim acontece. Tudo bem, mas nos países europeus onde isso já está em vigor há alguns anos o salário mínimo deve ser bastante superior ao salário mínimo em Portugal. É tudo uma questão de prioridades dos legisladores e, sobretudo, uma questão de centrar ou descentrar a atenção dos cidadãos sobre o que deve ser, ou não,  prioritário na discussão nos espaços públicos. (...)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A poesia e a condição de ilhéu

Ponta Delgada vai ser esta semana a “Cidade dos Poetas”, sendo ela, a cidade, berço de nomes como Antero de Quental e Natália Correia. Não, não me esqueci de outros poetas que aqui nasceram, aqui viveram ou aqui vivem, mas Antero e Natália são nomes que vão para lá desta cidade, destas ilhas, deste país e, como não quero, sobre este assunto, dar o mote para promover polémicas estéreis apenas referenciei dois nomes maiores da poesia, do pensamento e da cultura portuguesa. Nasceram em Ponta Delgada (concelho), mas a sua dimensão vai muita para lá da cidade e da ilha onde nasceram.
O I Encontro Internacional de Poesia – A condição de Ilhéu vai reunir de 12 a 14 de Outubro, em Ponta Delgada, poetas ilhéus. Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e Itália vão estar representados neste encontro de celebração da poesia que podendo não ser de temática insular, tem em comum a condição de ilhéu dos seus autores.
O encontro é precedido, e bem, pela inauguração da Exposição de Pintura da Macaronésia, no dia 11, na Academia de Artes de Ponta Delgada. O programa do encontro é conhecido, mas não posso deixar de referenciar o lançamento, logo no primeiro dia, do livro “nove”, das Edições Letras Lavadas, que reúne uma coletânea de poemas de autores das nove ilhas dos Açores dando assim a justa dimensão regional ao I Encontro Internacional de Poesia – a condição de ilhéu. Daniel Gonçalves (Santa Maria), Emanuel Jorge Botelho (São Miguel), Álamo Oliveira (Terceira), Victor Rui Dores (Graciosa), Norberto Ávila (São Jorge), Urbano Bettencourt (Pico), Ângela Almeida (Faial), Gabriela Silva (Flores) e Palmira Jorge (Corvo), são os poetas representados nesta coletânea de poesia.
Painéis de debate, encontro dos poetas com alunos do ensino secundário, recitais de poesia e alguns apontamentos musicais fazem antever um final de semana a não perder por quem gosta de poesia. Desde logo para quem a escreve, mas sobretudo para quem a lê no sossego da sua intimidade e viaja e sonha com ela ou, para quem a promove em tertúlias, encontros e recitais. Será o público que dará a necessária dimensão ao I Encontro Internacional de Poesia e com a sua presença uma contribuição imprescindível para o seu sucesso pois, um dos objetivos desta iniciativa é possibilitar ao público o encontro com os autores e a promoção da leitura de textos poéticos. Não é fácil, mas se o fosse dispensavam-se estas iniciativas.

Foto By Aníbal C. Pires
Se atendermos apenas à temática proposta e ao encontro de poetas que têm em comum a condição de ilhéus, por nascimento ou por opção, diria que, só por esse facto a iniciativa, anunciada aquando da “Festa do Livro”, a meados de Julho de 2017, já merece ser aplaudida.
A realização desta iniciativa cultural vai, certamente, provocar algumas reações negativas, afinal com tantas outras coisas importantes para fazer para que raio vai uma cidade promover a poesia. A cultura não gera riqueza, não há quem a leia e as editoras não estão disponíveis para promover nem a poesia, nem os poetas. Por isso mesmo este encontro deve merecer o nosso aplauso e sobretudo uma grande adesão dos amantes da poesia.
José Marti, também ele um ilhéu, dizia: “Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro”.
Ponta Delgada, 09 de Outubro de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 11 de Outubro de 2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

... da condição de ilhéu, O encontro

Foto by Aníbal C. Pires





Fragmento de texto a publicar na imprensa regional e também no blogue momentos. Sim, este mesmo





(...) Painéis de debate, encontro dos poetas com alunos do ensino secundário, recitais de poesia e alguns apontamentos musicais fazem antever um final de semana a não perder por quem gosta de poesia. Desde logo para quem a escreve, mas sobretudo para quem a lê no sossego da sua intimidade e viaja e sonha com ela ou, para quem a promove em tertúlias, encontros e recitais. Será o público que dará a necessária dimensão ao I Encontro Internacional de Poesia e com a sua presença uma contribuição imprescindível para o seu sucesso pois, um dos objetivos desta iniciativa é possibilitar ao público o encontro com os autores e a promoção da leitura de textos poéticos. Não é fácil, mas se o fosse dispensavam-se estas iniciativas. (...)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Prémios APPLA 2017

Foto by Aníbal C. Pires
A Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA), promoveu no passado dia 7 de Outubro, em Ponta Delgada, a entrega dos prémios APPLA 2017.
O prémio “Carlos Bleck” 2017, como tinha sido anunciado em 2015 durante a entrega dos prémios APPLA desse ano, foi entregue ao Comandante Francisco da Encarnação Afonso, personalidade que os açorianos de várias gerações, mesmo sem o conhecerem pessoalmente, admiram e respeitam pelas suas competências enquanto piloto, mas também pelas suas qualidades humanas. A carreira militar e civil do Comandante Afonso acompanhou a história da aviação em Portugal, tendo sido um dos pioneiros e protagonistas da evolução que, na segunda metade do século XX, se assistiu no transporte aéreo comercial, em particular, nos Açores.
Não tenho memória se cheguei a viajar na SATA Air Açores com o Comandante Francisco Afonso aos comandos de uma aeronave, mas sempre ouvi o seu nome como uma referência enquanto piloto e personalidade e, como eu a generalidade dos açorianos de todas as ilhas. Podíamos até nunca ter voado com ele, podíamos até não o conhecer pessoalmente, mas habituámo-nos a respeitar e admirar aquele Comandante da SATA.
Só o conheci e cultivei com ele um relacionamento de amizade já depois da sua aposentação. Cheguei ao seu conhecimento por via da Ana Rita, filha do Comandante Afonso, de quem sou colega de profissão e amigo de longa data. Privar com o Comandante Francisco Afonso é um privilégio, conversar com ele um prazer.
A Câmara Municipal de Ponta Delgada prestou-lhe uma justa homenagem, a Região um justo reconhecimento com a atribuição de uma insígnia honorífica, agora foi chegada a hora dos seus pares lhe reconhecerem a brilhante carreira.
Com a atribuição do Prémio “Carlos Bleck” foi lançado o livro “Voando… a unir o que o mar separa”, de Ermelindo Peixoto, que para além de descrever o percurso de Francisco Afonso na aviação militar e comercial constitui, também, um importante contributo para a história da aviação em Portugal e, em particular, da Região Autónoma dos Açores. Grande parte do percurso profissional do Comandante Francisco Afonso foi feito ao serviço da SATA e, por vezes, a história deste piloto confunde-se com história da transportadora aérea regional. “Voando… a unir o que o mar separa” é, também, uma parte da história da SATA e de todos os seus trabalhadores, e que o Comandante Afonso destacou na intervenção de agradecimento que proferiu após ter recebido o prémio “Carlos Bleck”.






O Comandante Francisco Afonso trouxe para a Região e para a SATA uma merecida distinção com o reconhecimento que os seus pares lhe conferiram com a atribuição do Prémio “Carlos Bleck”.
Não posso deixar de referenciar mais alguns dos agraciados pela APPLA em 2017 pela importância que a atribuição desses prémios tem, desde logo para os distinguidos, mas sobretudo para os Açores.







Ermelindo Peixoto







Professor Ermelindo Peixoto foi agraciado com o prémio APPLA Comunicação. Justo reconhecimento por todo o trabalho publicado sobre a aviação portuguesa.











Carlos Botelho






Carlos Botelho representante da SATA no Canadá e com uma longa carreira ao serviço da aviação comercial foi agraciado com o prémio APLLA Amizade. Quem conhece o Carlos sabe muito bem como esta distinção fica muito bem entregue.








Foto by Aníbal C. Pires




Os pilotos da SATA Air Açores foram agraciados com o prémio APPLA Técnica. O reconhecimento das qualidades destes pilotos que ligam os Açores numa operação aérea que, como todos sabemos, tem caraterísticas e dificuldades muito complexas e que só com a excelência destes profissionais se realiza com os padrões de comodidade e segurança que todos reconhecemos à SATA Air Açores.







A noite dos prémios APPLA 2017 foi dos agraciados, mas a noite dos prémios APPLA 2017 foi, sobretudo, uma noite de celebração dos açorianos e dos Açores.
Ponta Delgada, 08 de Outubro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 09 de Outubro de 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

Leonor Afonso - O limiar

Aguarela de Ana Rita Afonso







No livro editado no âmbito do prémio “Carlos Bleck”, 2017, atribuído ao Comandante Francisco Afonso consta uma singela e sentida homenagem à D. Leonor Afonso, esposa do agraciado.
O tributo à D. Leonor Afonso materializa-se em quatro aguarelas de Ana Rita Afonso (filha) e outros tantos poemas de Aníbal C. Pires (amigo). São quatro momentos marcantes na vida e na história deste casal. Este registo é o primeiro desses quatro momentos.









O limiar

A menina mulher
Que um dia se encantou
Pelo galante jovem
Forjado nas penedias
Que enlaçam o Douro
Abraçou o sonho
Foi transmontana,
Timorense, guineense
E açoriana
Foi Amor, é Mulher

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 09 de Dezembro de 2016

... a unir o que o mar separa

Foto by Aníbal C. Pires








Fragmento de texto para publicação na imprensa regional e, como é habitual, também aqui neste espaço.







(...) Com a atribuição do Prémio “Carlos Bleck” foi lançado o livro “Voando… a unir o que o mar separa”, de Ermelindo Peixoto, que para além de descrever o percurso de Francisco Afonso na aviação militar e comercial constitui, também, um importante contributo para a história da aviação em Portugal e, em particular, da Região Autónoma dos Açores. Grande parte do percurso profissional do Comandante Francisco Afonso foi feito ao serviço da SATA e, por vezes, a história deste piloto confunde-se com história da transportadora aérea regional. “Voando… a unir o que o mar separa” é, também, uma parte da história da SATA e de todos os seus trabalhadores, e que o Comandante Afonso destacou na intervenção de agradecimento que proferiu após ter recebido o prémio “Carlos Bleck”. (...)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Comandante Francisco Afonso – Voar nas asas do sonho


Não tenho memória se cheguei a viajar na SATA Air Açores com o Comandante Francisco Afonso aos comandos da aeronave, mas sempre ouvi o seu nome como uma referência enquanto piloto e personalidade e, como eu a generalidade dos açorianos de todas as ilhas. Podíamos até nunca ter voado com ele, podíamos até não o conhecer pessoalmente, mas habituámo-nos a respeitar e admirar aquele Comandante da SATA.

Foto by Madalena Pires (Furnas, S. Miguel)
Só o conheci e cultivei com ele um relacionamento de amizade já depois da sua aposentação. Cheguei ao seu conhecimento por via da Ana Rita, filha do Comandante Afonso, de quem sou colega de profissão e amigo de longa data. Privar com o Comandante Francisco Afonso é um privilégio, conversar com ele um prazer.
A Câmara Municipal de Ponta Delgada prestou-lhe uma justa homenagem, a Região um justo reconhecimento com a atribuição de uma insígnia honorífica, agora é chegada a hora dos seus pares lhe reconhecerem a brilhante carreira.
Tinha sido anunciado em 2015 pela Associação de Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA), e vai concretizar-se no dia 7 pf a entrega, ao Comandante Francisco Afonso, do Prémio “Carlos Bleck” na gala de 2017 promovida pela APPLA e que este ano se realiza a dois momentos. Em Ponta Delgada, no dia 7 de Outubro e, no dia 28 de Outubro em Ponte de Sor.
Com a atribuição do Prémio “Carlos Bleck” é lançado o livro “Voando… a unir o que o mar separa”, de Ermelindo Peixoto, que para além de descrever o percurso de Francisco Afonso na aviação militar e comercial constitui, também, um importante contributo para a história da aviação em Portugal e, em particular, da Região Autónoma dos Açores. Grande parte do percurso profissional do Comandante Francisco Afonso foi feito ao serviço da SATA e, por vezes a história deste piloto confunde-se com a própria história da transportadora aérea regional. “Voando… a unir o que o mar separa” é, também, uma parte da história da SATA.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 05 de Outubro de 2017

Dia Mundial do Professor

Imagem retirada da internet





Hoje celebra-se o Dia Mundial do Professor.
Para assinalar este dia recupero um pequeno excerto de um texto que escrevi e publiquei no dia 29 de Agosto pp. Que pode ser lido aqui na íntegra.





(...) Aproximaram-se de nós duas outras jovens que depois percebi estavam com a Cíntia (claro que não é este o seu nome), ao aproximarem-se uma delas perguntou, estupefacta que estava com a forma efusiva com que a colega se tinha dirigido a mim, É o teu pai. Ao que ela responde prontamente. Não este senhor é, O meu professor.
Não é fácil, nada fácil ser professor e o salário não é assim tão bom como se diz. Mas ser professor tem momentos destes. Momentos em que esquecemos tudo o que de menos bom tem esta profissão e dizemos com orgulho, Sou professor e gosto de o ser. (...)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

… das autárquicas

Foto by Madalena Pires
Alguns analistas políticos e comentadores da nossa e de outras praças têm-se dedicado a lamber, ou se preferirem a adular, as personalidades vencedoras nas últimas autárquicas, como se as mesmas personalidades, no mesmo contexto, mas candidatando-se por forças políticas de menor expressão eleitoral conseguissem obter vitórias eleitorais.
Pode até encontrar-se um ou outra exceção, pode até argumentar-se com as candidaturas de cidadãos eleitores, em que as personalidades se sobrepõem aos partidos ou coligações, como o paradigma de Oeiras, mas essas são as exceções.
Não significa, esta minha opinião, que o cunho pessoal dos candidatos vencedores não tenha acrescentado valor eleitoral à candidatura que protagonizaram, mas não tenham ilusões, minhas senhoras e meus senhores, quem ganhou foi o partido ou coligação que os propôs, outro que fosse e algumas dessas vitórias teriam sido derrotas. Derrotas que, atente-se bem, não seriam derrotas pessoais. As vitórias e as derrotas eleitorais são de quem as apoia e não de quem as protagoniza.
Não se iludam os vencedores e não se martirizem os perdedores.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 04 de Outubro de 2017

Da razão e da emoção

Foto by Aníbal C. Pires
Temos sentimentos que nos alegram ou entristecem e, provocam-nos bem ou mal-estar consoante a sua natureza.
Os sentimentos induzem o pensamento e o comportamento. Por outro lado, as emoções são, segundo alguns pensadores, uma forma radicalizada que os sentimentos podem assumir.
E o que é levado ao extremo pode induzir comportamentos irracionais. Todos temos consciência, uns mais outros menos, de comportamentos ilógicos. Todos, de uma forma mais ou menos intensa, já nos comportámos fora do que seria desejável e benéfico para nós, ou seja, fomos irracionais. A emoção sobrepôs-se a outros fatores que deveriam ter mediado a ação e, por consequência o comportamento.
Não interessa tanto se os outros assim o observaram, embora os outros também devam ser considerados, afinal não vivemos sozinhos mesmo que possamos não ser muito sociáveis ou que, pura e simplesmente, os outros, não nos importem. O que levado ao extremo pode resultar por escolher ficar à margem, optar pela autoexclusão.
Não tenho nada contra os eremitas, até admiro a sua capacidade de viverem sós e afastados, ou pelo menos, reduzindo as suas relações sociais ao essencial, mas não a considero uma decisão razoável para mim, embora passe muito tempo comigo mesmo.
Ir atrás das emoções pode ser caótico. As emoções afastam a racionalidade do comportamento. Racionalidade que sendo, no meu dicionário de sinónimos, calculismo, frieza e insensibilidade, ou mesmo a ausência de sentimentos, não pode, porém, deixar de ser considerada num dos pratos da balança quanto determinamos o que fazer, o que dizer, ou como optar. No outro prato da balança deve estar, sempre, a emoção.

É no justo equilíbrio entre a razão e a emoção que se encontram as melhores decisões, sejam as decisões do momento, sejam as decisões que afetam de forma irreversível o nosso futuro.
As decisões individuais nunca afetam apenas o próprio, por mais irrelevantes que possam ser ou parecer as decisões individuais provocam sempre efeitos que se propagam para lá de quem decide. O melhor exemplo dos efeitos coletivos de uma decisão tomada individualmente é o momento em que estamos a sós nas câmaras de voto, tal como aconteceu no passado Domingo, a decisão estando já construída foi concretizada no isolamento de uma câmara de voto. Sozinhos decidimos pelo futuro próximo da nossa freguesia, do nosso concelho, da nossa região, do nosso país. A decisão individual contribui para que o futuro coletivo seja um e não outro. A vida é feita disso mesmo, de escolhas.
Quanto mais equilibrado, informado e esclarecido for o processo de decisão menos escolhos tem o caminho que daí para a frente vamos percorrer, por outro lado os efeitos que propagamos com a nossa decisão serão, também eles livres de recifes no rumo que cada um de nós tem direito a traçar para si.
Tenham sentimentos e não corram atrás das emoções. Apaixonem-se. Mas amem-se, sobretudo, amem-se.
Ponta Delgada, 03 de Outubro de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 04 de Outubro de 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

... das opções

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires








Um excerto do texto a publicar na imprensa regional e aqui, neste blogue, como é habitual.









(...) Ir atrás das emoções pode ser caótico. As emoções afastam a racionalidade do comportamento. Racionalidade que sendo, no meu dicionário de sinónimos, calculismo, frieza e insensibilidade, ou mesmo a ausência de sentimentos, não pode, porém, deixar de ser considerada num dos pratos da balança quanto determinamos o que fazer, o que dizer, ou como optar. No outro prato da balança deve estar, sempre, a emoção.
É no justo equilíbrio entre a razão e a emoção que se encontram as melhores decisões, sejam as decisões do momento, sejam as decisões que afetam de forma irreversível o nosso futuro. (...)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O tempo é bom conselheiro

Foto by Aníbal C. Pires
Os resultados eleitorais são conhecidos e estão, total ou parcialmente digeridos pelos candidatos e pelas forças políticas que representavam. A diversidade dos resultados e os localismos permitem legitimamente leituras de vitória e derrota. Tudo pode ser relativizado, mas sobre resultados eleitorais escreverá quem sabe, Eu não. Pode o leitor continuar a ler que não o vou maçar com qualquer comentário, reflexão ou opinião sobre tão apaixonante assunto. Apaixonante sim, sem qualquer espécie de ironia. Escuso-me de momento a tecer qualquer consideração sobre o assunto que hoje estará nas primeiras páginas. E é exatamente por isso, por estar a ser dissecado por uma profusão de especialistas que o não faço, vamos ouvi-los e lê-los, vamos deixar assentar a poeira e depois, até pode ser que sim, mas o mais provável é que não chegue a vir a terreiro para tecer qualquer consideração sobre o assunto, ou talvez não. A seu tempo virei, sobre isso não tenho grandes dúvidas, a comentar e dar a minha opinião sobre os efeitos dos resultados das autárquicas de 2017 na política nacional.
Alguns leitores estão, com toda a legitimidade, a pensar que esta minha recusa, ou escusa como vos aprouver, tem a ver com os resultados nacionais da força política onde milito que, como sabem, perdeu importantes posições. Também não, mas pensarão os leitores o que muito bem entenderem é um direito que vos assiste, e a mim também e, pensar faz bem. Faz bem e não dói.

Foto by Madalena Pires
Há uns anos atrás, talvez em 2006 ou 2007, o mês era Janeiro e o ano contava já com 6 dias, numa conversa informal com um antigo Secretario Regional dos Governos do PS foi-me perguntada opinião sobre um assunto que ele estava a pensar propor, ao que respondi que ainda não tinha uma opinião acabada sobre o assunto e que precisava de mais algum tempo para a discutir com os meus pares. Necessitava de aprofundar a reflexão, mas que depois teria todo o prazer em lhe transmitir o resultado dessa construção coletiva. O comentário à minha resposta foi imediato, O vosso mal, o mal dos comunistas é que pensam muito, assim nunca irão longe. Face a esta opinião que nem sequer procurei rebater pois, nada do que eu viesse a aduzir em defesa da importância do tempo para refletir, discutir e partilhar opiniões para chegar, desde logo, a uma posição consensual, mas também a um compromisso que melhor pudesse servir, no caso, os interesses de um segmento da população açoriana, iria adiantar a uma ideia preconcebida sobre os comunistas e a uma forma de estar e fazer política que sendo imediatista, tem sucesso. Sucesso eleitoral tem-no e os sucessivos resultados eleitorais assim o demonstram, o sucesso das soluções adotadas é que nem sempre corresponde às expetativas criadas e às que melhor servem os cidadãos a quem se dirigem. Sobre o sucesso de algumas soluções decididas pela pressão do imediatismo tenho algumas dúvidas e muitas certezas, aliás se os leitores atentarem ao tempo que medeia entre este episódio e o presente, passou mais de uma década, posso garantir que o tempo se encarregou de demonstrar que questão que me foi colocada e foi posta em prática foi há muito alterada, mas enquanto esteve em vigor prejudicou centenas, muitas centenas de cidadãos.
Evito, sempre que me é possível, o imediatismo. O tempo, dizem, é bom conselheiro. Acredito que sim.
Ponta Delgada, 01 de Outubro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 02 de Outubro de 2017

... do imediatismo

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires







Excerto de texto para publicação na imprensa regional










(...) Face a esta opinião que nem sequer procurei rebater pois, nada do que eu viesse a aduzir em defesa da importância do tempo para refletir, discutir e partilhar opiniões para chegar, desde logo, a uma posição consensual, mas também a um compromisso que melhor pudesse servir, no caso, os interesses de um segmento da população açoriana, iria adiantar a uma ideia preconcebida sobre os comunistas e a uma forma de estar e fazer política que sendo imediatista, tem sucesso. Sucesso eleitoral tem-no e os sucessivos resultados eleitorais assim o demonstram, o sucesso das soluções adotadas é que nem sempre corresponde às expetativas criadas e às que melhor servem os cidadãos a quem se dirigem. (...)

domingo, 1 de outubro de 2017

Uma mulher - a abrir Outubro











Estamos, ainda, em período de proibição de mensagens que possam induzir apelo ao voto, assim e sem mais palavras a abrir este Outubro, Uma mulher.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A lógica das opções

Foto by Madalena Pires (S. Miguel, 2017)
Os resultados eleitorais, sejam eles quais forem, são sempre objeto de análises e interpretações diversas. Naturalmente, pois mesmo a crueza dos números relativos e absolutos não permitem leituras lineares, as interpretações são sempre diversas, assim como são diversas as motivações que conduzem à opção individual do voto. A lógica dos eleitores nem sempre é a esperada, por vezes as opções eleitorais surpreendem, como surpresa terá sido a eleição de Donald Trump, por outro lado os contextos culturais, sociais económicos e políticos são decisivos para as escolhas feitas a cada ato eleitoral, mas o que mais influencia e determina a opção de voto são as representações sociais induzidas, não nas campanhas eleitorais, mas no período de tempo que medeia entre cada ato eleitoral, ainda assim nem sempre esse esforço resulta a cada ciclo eleitoral e, os avanços e recuos de cada força política também disso dependem, não só mas também.
Não estou, de todo, a referir-me às eleições autárquicas de Domingo. O que motivou esta reflexão foram mesmo os resultados das eleições alemãs e, outras do passado em lugares e contextos diversos. O que pretendo é apenas uma abordagem superficial e de alguma abstração sobre opções eleitorais, embora me vá servir de exemplos concretos. Porque é que umas forças políticas em determinado momento histórico ganham ascendente, porque é que outras se mantêm no poder por vários ciclos eleitorais.
Sem ir muito longe no tempo e não considerando as particularidades dos diferentes sistemas eleitorais consideremos, como um primeiro exemplo a reeleição de Margaret Tatcher, em 1983. Durante o primeiro mandato a primeira-ministra inglesa sofreu grande contestação pelas políticas neoliberais que implementou, nem sequer as vou comentar apenas estou a referira-las porque a sua baixa popularidade, devido às suas opções económicas e políticas, não fazia antever uma nova vitória dos conservadores. Houve, contudo, um acontecimento a meados de 1982 que foi determinante para que a maioria dos ingleses a tivesse reconduzido. É sabido que a Argentina e a Inglaterra reclamam a soberania de território insulares no Atlântico Sul, é também do conhecimento público que no Verão de 1982 estes dois países se confrontaram militarmente na designada “Guerra das Malvinas”, tendo a Inglaterra vencido o conflito. A vitória da Inglaterra uniu os ingleses sob a bandeira do patriotismo e, não sendo o único motivo, este sentimento sobrepôs-se a outras razões e contribuiu para a reeleição de Margaret Tatcher. Não tivesse acontecido este evento e possivelmente o resultado eleitoral na Inglaterra teria sido diferente.

Imagem retirada da Internet
O exemplo que acabei de partilhar é apenas um de muitos outros. Situações semelhantes fazem unir os povos (eleitores) sobrepondo-se à avaliação dos efeitos das políticas e das práticas da governação.
Consideremos, agora, os resultados eleitorais do passado Domingo na Alemanha. Apesar dos esforços internos do partido democrata cristão, de Angela Merkel, garantir aos alemães o contrário do que defende para os outros povos europeus. Baixos salários, austeridade, prolongamento dos horários de trabalho não se aplicam na Alemanha, mas ainda assim o eleitorado não lhe garantiu a maioria absoluta. E não terá sido por demérito das políticas internas implementadas pela senhora Merkel, neste caso o motivo foi outro. Foi assim como uma espécie de medo de perda da identidade nacional face à entrada de refugiados e imigrantes no seu território. Ou seja, a senhora Merkel, bem assim como o seu mais direto adversário, o social democrata, Martin Schulz do SPD, não conseguiram controlar a seu favor um significativo segmento do eleitorado alemão que optou pelo voto na extrema direita, diria mesmo no neonazismo. Ou seja, o discurso nacionalista, xenófobo e islamofóbico e o sentimento de medo e insegurança que este discurso gera nos cidadãos sobrepôs-se à política que tem mantido os alemães fora das políticas de austeridade que a Senhora Merkel receita para os outros países da União Europeia.
A situação alemã com o crescimento eleitoral dos partidos nacionalista e neonazis não é virgem e por isso mesmo preocupante. Outros países por esse mundo fora têm vindo a dar força eleitoral e posições institucionais a partidos que confessam a sua simpatia pela teoria da superioridade de um grupo humano sobre outros. Os efeitos de tal doutrina são por demais conhecidos, daí a minha preocupação ter toda a legitimidade.
Os exemplos que dei relacionam-se, de alguma forma, com fenómenos que, sendo ou não resultado de uma construção social, determinam uma lógica massiva de opções eleitorais que são determinantes no período pós-eleitoral. A reeleição Senhora Tatcher permitiu-lhe seguir o rumo político do neoliberalismo, no caso da Senhora Mekel a ver vamos como diz o nosso povo.
As razões podem ser mais objetivas, como no primeiro exemplo, ou mais subjetivas como no segundo, mas em qualquer dos casos influenciaram os resultados independentemente de outras lógicas mais individualizadas dos eleitores, lógicas que nuns casos se sobrepõem às construções sociais e aos contextos históricos, e noutros vão com a onda dominante.
Não deixa de ser interessante, mas não será hoje, analisar algumas das lógicas que levam os eleitores considerados individualmente a optarem por uma ao invés de uma das muitas outras candidaturas que disputam os atos eleitorais. Lógicas que as candidaturas, todas elas, mas sobretudo as que costumam recolher menos apoio eleitoral, nem sempre procuram entender, embora seja justo reconhecer, em Portugal e no resto do Mundo, o esforço e a coerência de algumas delas.
Ponta Delgada, 26 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 27 de Setembro de 2017

terça-feira, 26 de setembro de 2017

... das representações sociais

Aníbal C. Pires (S. Miguel, 2017) by Madalena Pires





Fragmento de texto a publicar amanhã na imprensa regional.







(...) Houve, contudo, um acontecimento a meados de 1982 que foi determinante para que a maioria dos ingleses a tivesse reconduzido. É sabido que a Argentina e a Inglaterra reclamam a soberania de território insulares no Atlântico Sul, é também do conhecimento público que no Verão de 1982 estes dois países se confrontaram militarmente na designada “Guerra das Malvinas”, tendo a Inglaterra vencido o conflito. A vitória da Inglaterra uniu os ingleses sob a bandeira do patriotismo e, não sendo o único motivo, este sentimento sobrepôs-se a outras razões e contribuiu para a reeleição de Margaret Tatcher. (...)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A SATA, a Ryanair e a Delta

Foto by Aníbal C. Pires (2013)
Por motivos diversos as notícias sobre a aviação comercial são alvo do meu interesse. Não tenho um olhar especializado, nem faço pesquisa sistemática sobre o assunto, mas a aviação comercial, talvez por viver numa região arquipelágica a meio caminho, mais milha menos milha, entre a Europa e a América do Norte e, a minha mobilidade, intra e extra região, depender do transporte aéreo contribuem, por certo, para a importância que dou à aviação comercial e ao interesse, moderado, sobre o que nesse interessante e complexo mundo vai acontecendo.
Dos milhares de notícias difundidas durante a passada semana sobre aviação comercial olhei com particular atenção sobre três. Apenas três porque se relacionam diretamente à região onde vivo, Apenas três e, ainda assim, uma delas mal chegou a ser notícia, os tripulantes de cabine e a SATA chegaram a acordo. O fim da conflitualidade social no Grupo SATA não mereceu grande atenção da comunicação social, mas é um facto relevante, digo eu. Diria até que o acordo é tão importante quanto o conflito. Conflito que mereceu manchetes e outras parangonas jornalísticas, mas vá-se lá saber o que são “critérios editoriais”, porque para que servem, isso sabe-se. Voltarei ao Grupo SATA e á sua ausência estratégica lá mais para o fim desta opinião partilhada de segunda-feira.
Já escrevi e publiquei muitas linhas sobre o modelo de negócio das companhias aéreas de baixo custo e, como se sabe, sempre me manifestei contra aquilo que considero uma atividade comercial em que o “core business”, não é a aviação comercial mas as vantagens financeiras que os destinos (países, regiões, municípios) disponibilizam para receberem visitantes e com isso dinamizarem a indústria turística, no caso dos Açores dir-me-ão que foi mais do que isso, e, aparentemente, só aparentemente assim foi, mas essa questão será objeto de análise noutra oportunidade.

Foto by Aníbal C. Pires (2017)
Mas voltando à questão central a “crise” na Ryanair empresa onde a aviação comercial é apenas o instrumento do “core business”, ou seja, os elevados lucros não resultam da venda das passagens aéreas, mesmo considerando a desregulamentação laboral a que os seus trabalhadores estão sujeitos, não é tanto a massa salarial como por vezes se pensa, mas a mais selvagem desregulação, aliás como a semana passada veio ao conhecimento público. Os elevados lucros, como dizia, resultam dos apoios financeiros e em géneros canalizados para o transporte de pessoas entre dois pontos.
O senhor O’Leary bem tentou esconder a saída em massa de pilotos. Primeiro veio a público que 140 pilotos tinham batido com a porta, mas já se sabia que eram 7 centenas, depois veio a recusa generalizada dos pilotos em trabalhar nas condições oferecidas, depois da “crise” se instalar, depois veio tudo aquilo que se sabe e vai sabendo. Afinal a eficiência do modelo e as virtualidades do mercado desmoronaram. Nas transportadoras de baixo custo tudo está bem quando corre bem, mas na aviação comercial, por diferentes motivos, nem sempre tudo é como o esperado. Os passageiros desprotegidos pelas irregularidades operacionais da Ryanair se não sabiam deviam saber que os dados do jogo são estes e não outros, não têm sequer o direito moral de se queixarem.
Nos Açores, para já, só uma das duas ilhas que é servida pela Ryanair vai ser afetada com cancelamentos, embora outros eventos já se estejam a verificar e face ao cenário que está desenhado é previsível que mais irregularidades venham a acontecer.
Isto não é o fim da Ryanair, mas é um indicador que o paradigma laboral e de recrutamento de pilotos se vai alterar nos próximos anos, não só na Ryanair mas na generalidade das transportadoras aéreas que abandonaram o modelo de formação dos seus próprios pilotos, ou seja, deixaram de ter uma cultura de empresa e de envolvimento dos seus trabalhadores, o facto de lhes chamarem colaboradores em nada altera o seu estatuto. As empresas vão ter de optar entre um investimento inicial no recrutamento e formação dos seus pilotos, aliás como a TAP e a SATA Air Açores ainda fazem, garantindo um elevado retorno com a sua permanência durante toda a carreira, ou sendo a opção pela rotatividade dos pilotos terão de suportar com todos os custos que daí advêm, como acontece nas transportadoras aéreas similares à Ryanair. À primeira oportunidade mudam para as empresas que valorizam os seus trabalhadores.

Foto by Aníbal C. Pires (2013)
Vai-se alterar não apenas pela “crise” da Ryanair, mas porque a necessidade de pilotos para os próximos anos, no espaço europeu, é da ordem das centenas de milhar e não há oferta, de pilotos qualificados, para tanta procura. A afirmação não é gratuita, em Fevereiro de 2016 a Republic Airways a maior companhia aérea regional dos Estados deu início a um processo de insolvência alegando que não havia pilotos suficientes para as suas necessidades. A desregulação do mercado de trabalho nos Estados Unidos e os baixos salários pagos aos pilotos alterou, naturalmente, as opções dos jovens que procuraram outras carreiras. A tendência no espaço europeu, levada ao extremo pela Ryanair, tem seguido o modelo dos Estados Unidos e o resultado final poderá não ser diferente no velho Mundo, a não ser que a admissão e formação de pilotos se altere e a carreira volte a ser devidamente reconhecida e valorizada.
A Delta Airlines, empresa estado-unidense de aviação com sede em Atlanta, na Geórgia, anunciou o reforço da sua operação com Portugal. Para além do voo já existente que liga Lisboa a New York, a Delta Airlines anunciou mais um voo que vai ligar a capital portuguesa a Atlanta e, ainda um voo sazonal que a partir de Maio de 2018, vai ligar, quatro vezes por semana, Ponta Delgada a New York (aeroporto JFK), num B 757-200ER. Esta é a parte da notícia que mais interesse despertou nos Açores. Os principais líderes políticos, empresariais e de opinião já vieram a terreiro congratular-se com esta iniciativa comercial da Delta. E é caso para isso, não pelo que isso pode representar para o pequeno segmento da população açoriana, em particular, os residentes em S. Miguel que querendo e podendo ir a New York não têm de ir a Lisboa, com os custos e tempo que isso acarreta, mas sobretudo porque, como os indicadores apontam, os turistas com origem nos Estados Unidos têm vindo a demonstrar um interesse crescente pelo destino Açores. E isso, sem dúvida, é bom. É bom e demonstra que o destino vale por si mesmo e não pelo baixo custo das passagens da Ryanair, sim porque a Easyjet já se foi. Não tenho dúvidas que a Delta Airlines pretende com estas novas rotas outros objetivos, mas aí cabe aos diferentes “players” posicionarem-se e adequarem estratégias.

Foto by Aníbal C. Pires (Aeroporto de Atlanta, 2013)
Referi-o à uma linhas atrás e não está esquecido. Fiquem com uma breve nota final sobre a SATA e a sua falta de comparência. Sobre a operação do Verão de 2017 já emiti opinião há umas semanas atrás. Podia ter sido um ano de ouro, mas foi aquilo que se viu, ou o que ainda está para se ver. Mas deixemos o passado. Como vai ser o futuro próximo, não me venham com o plano de negócios ou com as adendas que lhe foram introduzidas, os pressupostos já não são o que eram, aliás como está bom de ver, os pressupostos alteram-se Verão após Verão, anos após ano. E o Grupo SATA a única novidade que tem para nos dar é que está à procura de um parceiro privado para entrar no capital social de uma das suas empresas, É pouco, muito pouco e não serve e a inércia instalada vai acabar por dar mau resultado. Nesta altura já deveria ser conhecido o Plano Operacional do Grupo SATA para 2018. Eu não o conheço e julgo que não é por andar distraído. Não tenho dele conhecimento porque não existe. E é triste não que eu o desconheça, é triste porque não existe.
Ponta Delgada, 24 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 25 de Setembro de 2017

domingo, 24 de setembro de 2017

... o valor do destino

Foto by Aníbal C. Pires






Pequeno excerto do texto a publicar amanhã. Texto onde o tema, sendo recorrente, é atual pois versa sobre a aviação comercial. A Ryanair, a SATA e a DELTA são objeto de um breve olhar face aos anúncios e notícias da semana passada.








(...) Os principais líderes políticos, empresariais e de opinião já vieram a terreiro congratular-se com esta iniciativa comercial da Delta. E é caso para isso, não pelo que isso pode representar para o pequeno segmento da população açoriana, em particular, os residentes em S. Miguel que querendo e podendo ir a New York não têm de passar por Lisboa, com os custos e tempo que isso acarreta, mas sobretudo porque, como os indicadores apontam, os turistas com origem nos Estados Unidos têm vindo a demonstrar um interesse crescente pelo destino Açores. E isso, sem dúvida, é bom. É bom e demonstra que o destino vale por si mesmo e não pelo baixo custo das passagens da Ryanair, sim porque a Easyjet já se foi. (...)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pensamento crítico, Como assim

Foto by Aníbal C. Pires
“(…) num mundo digital a tecnologia deve fazer parte do nosso quotidiano. Porém, essa tecnologia é somente uma parte da solução, um complemento da ação educativa no ensino do pensamento crítico e na difusão e valores, que constituem as incumbências supremas de todas as escolas. (…). 
Acabei de citar um princípio com o qual concordo, mormente quando o autor desta afirmação diz que o pensamento crítico e a difusão de valores (quais) constituem incumbências supremas de todas as escolas. Suponho que Avelino Meneses, a afirmação foi proferida pelo titular da pasta da Educação e Cultura nos Açores , se referia não só às escolas da Região, mas à Escola enquanto instituição que tem como objeto isso mesmo.
Na referida intervenção de Avelino Meneses constam outras afirmações às quais não me vou referir, não por concordar ou discordar delas, mas porque hoje me quero centrar nas incongruências do discurso do titular da pasta da Educação e as práticas que são induzidas pelas políticas educativas do governo a que pertence, ou seja, das quais é responsável e promotor.
A Escola deve promover o pensamento crítico e a difusão de valores, não posso estar mais de acordo, mas será que a Escola está a cumprir esse desiderato. Não direi que não, direi que tenho dúvidas, muitas dúvidas que a Escola, face às limitações à sua autonomia, ao modelo de avaliação dos alunos e do próprio sistema educativo, esteja a cumprir essas que são, segundo Avelino Meneses, as incumbências supremas da Escola.
O processo de ensino aprendizagem centra-se, cada vez mais, na preparação dos alunos para os momentos de avaliação interna e externa, os programas são extensos e desadequados, os tempos curriculares compartimentados, a inflexibilidade das orientações da tutela asfixiam qualquer projeto de inovação proposto pelos docentes e/ou pelas escolas. Inovação pedagógica só mesmo a que tiver como proponente os serviços centrais que Avelino Meneses tutela. Isto apesar de na Região existir um quadro legal que possibilita às Unidades Orgânicas a promoção da inovação pedagógica e a flexibilização curricular, ao qual nem se atrevem a aderir, mas agora com o advento da flexibilização promovido nas escolas do continente, lá vamos nós atrás quando podíamos e devíamos, desde há muito tempo, ir à frente.

Foto by Madalena Pires
À opção por percursos curriculares de aprendizagem que privilegiem o pensamento crítico e os tais valores, a que Avelino Meneses se refere, sobrepõem-se as metas de aprendizagem dos saberes que efetivamente são avaliados pela escola e por entidades a exógenas ao sistema. Os docentes e os órgãos de administração e gestão pedagógica das escolas não arriscam. Entre caminhar com os seus alunos num percurso educativo que os ensine a aprenderem com autonomia, desenvolvendo o pensamento crítico e a transmissão de valores, ou obter boas classificações internas ou externas, os docentes e os órgãos de administração e gestão das escolas optam por este último. A sua própria avaliação depende desses resultados.
Por outro lado, para as atividades extracurriculares, embora continuem a subsistir alguns focos de resistência, não há espaço, nem tempo, nem motivação, nem apoio, nem valorização, mas há ainda quem não desista e resista.
Lamento que o titular da Educação e Cultura do Governo Regional não tenha disto consciência pois, se a tivesse estou certo que teria tido mais cuidado na escolha das palavras. Ou então, fez do exercício do cargo que exerce mais um ato de propaganda.
A cada novo ano escolar repetem-se, tal como este, os artigos de opinião sobre a Escola e os docentes. Quem os subscreve são educadores, professores, sindicalistas, pais e encarregados de educação, jornalistas e, por vezes, mães que são jornalistas como foi o caso de um artigo publicado na Visão pela Mafalda Anjos. Artigo sob a forma de carta aberta aos professores e que aconselho a ler. Deixo-vos, tal como iniciei, uma citação. Sim é da Mafalda Anjos, mãe, jornalista e diretora da revista Visão.
“(…) Valorizem outras coisas que não as notas – venho a crer que elas importam afinal tão pouco na vida. Mais do que seres cheios de conhecimentos acumulados, ajudem a formar boas pessoas e adultos interessantes. Ensinem-lhes os valores da partilha, generosidade e espírito de equipa. Quem não ajuda um colega jamais deveria ter lugar num quadro de honra. (…)”
Ponta Delgada, 18 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Diário Insular e Açores 9, 20 de Setembro de 2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017

... do cinzentismo na educação

Foto by Aníbal C. Pires







Fragmento de texto  a publicar amanhã na imprensa regional e aqui, No blogue momentos









(...) À opção por percursos curriculares de aprendizagem que privilegiem o pensamento crítico e os tais valores, a que Avelino Meneses se refere, sobrepõem-se as metas de aprendizagem dos saberes que efetivamente são avaliados pela escola e por entidades a exógenas ao sistema. Os docentes e os órgãos de administração e gestão pedagógica das escolas não arriscam. Entre caminhar com os seus alunos num percurso educativo que os ensine a aprenderem com autonomia, desenvolvendo o pensamento crítico e a transmissão de valores, ou obter boas classificações internas ou externas, os docentes e os órgãos de administração e gestão das escolas optam por este último. A sua própria avaliação depende desses resultados. (...)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Que tranquilidade é essa

Foto by Aníbal C. Pires
Por motivos diversos, mas desde logo porque sou professor, prestei alguma atenção ao discurso circunstancial que o Presidente do Governo Regional proferiu, na EBI de Ponta Garça, na abertura do ano escolar 2017/2018. Dia, pomposa e despropositadamente, designado como do “Prosucesso”, programa ao qual dedicarei algumas linhas em próxima ocasião.
Sobre a escolha do local, apenas sobre isso, muito poderia ser dito, mas porque não quero perder tempo direi apenas que fica bem, fica muito bem, ao poder executivo descentralizar estes atos protocolares. Mas nem tudo o que parece é. E, neste caso também assim foi.
Vasco Cordeiro para além de enunciar aquilo que o governo fez e vai fazer neste setor, nem mais nem menos o que é esperado nestes cerimoniais, resolveu ir mais além. O Presidente do Governo Regional optou por caraterizar o arranque do ano escolar de 2017/2018, com toda a legitimidade que tem para o fazer. Mas, disse então Vasco Cordeiro que este ano letivo tem o seu início num clima de absoluta tranquilidade e normalidade. Pois bem, até nem duvido que aos olhos da opinião pública poderá parecer que sim e as palavras do Presidente do Governo regional terão tido boa aceitação. Nem mesmo os sindicatos dos educadores e professores contrariaram, nas declarações públicas que fizeram no mesmo dia, esta ideia de normalidade e tranquilidade transmitida pelo Presidente do Governo Regional no arranque do ano escolar.

Foto by Aníbal C. Pires
Uma das organizações sindicais, referiu como aspeto negativo a contratação de um invulgar número de docentes para horários incompletos, promovendo, assim, alguma confusão na opinião pública pois, a referida organização sindical, com este exemplo, pretendia transmitir que na Região existe uma elevada precariedade docente o que, para o cidadão que até segue estas questões com alguma atenção, pode levar à seguinte conclusão, Então é porque estes são os contratados que equivalem às necessidades transitórias e, assim sendo, não se pode afirmar que existe uma elevada precariedade na docência. Mas existe precariedade. Existe e não é uma questão de somenos importância. A outra organização sindical que, por acaso, até é a mais representativa dos educadores e professores foi um pouco mais assertiva ao contrariar a ideia, que o Governo Regional propagandeia, de que existe um grande investimento na educação. O que não é verdade pois, tal como o Sindicato dos Professores da Região Açores denunciou, a educação na Região está subfinanciada, seja para a falta de meios financeiros para despesas que suportam a atividade letiva e o funcionamento das Escolas, seja pela falta de assistentes operacionais para garantir o apoio qualificado à docência, seja para pequenas despesas de funcionamento, ou para a formação dos educadores e professores.
Mas para além da opinião sindical, que até não foi muito cáustica, quando ouvi o Presidente do Governo Regional falar em tranquilidade e normalidade na abertura do ano letivo, pensei cá para comigo, o Dr. Vasco Cordeiro deve estar a confundir este sossego e quietude, com resignação e, esta regularidade das rotinas com a uma tácita e acrítica aceitação dos docentes e dos órgãos de administração e gestão das Escolas às asfixiantes orientações emanadas da Direção Regional da Educação (DRE) e ao seu estrito cumprimento.

Foto by Aníbal C. Pires
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que as Escolas tendo formalmente autonomia estão despojadas dela pela omnipresença das orientações DRE no funcionamento quotidiano das Escolas e, pela subserviência castradora dos Conselhos Executivos. Servilismo imposto hierarquicamente pela tutela que cultiva uma política centralista retirando às Escolas a desejada adequação do seus projetos educativos e currículos ao contexto onde a Escola se insere, bem assim como a necessária liberdade para gerir currículos, tempos e recursos humanos e financeiros. Liberdade onde se alicerça a criatividade e autonomia que têm de estar associadas a qualquer percurso de aprendizagem que se pretenda de sucesso.
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que a resignação e aceitação acrítica de modelos e orientações que reina nas Unidades Orgânicas da Região são, neste caso, os sinónimos da tranquilidade e da normalidade com que, o senhor Presidente, caraterizou a abertura do ano escolar que agora se iniciou.

Foto by Aníbal C. Pires
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que as transformações para as quais a Escola deve contribuir não se concretizam, nem com resignação dos agentes da mudança (os educadores e professores) e, muito menos com a aceitação acrítica de tudo quanto emana da DRE, tantas e tantas vezes substituindo-se às competências dos órgãos de gestão e administração das Escolas com todos os efeitos perversos que a uniformidade promove.
O Presidente do Governo Regional não sabe, Não sabe, mas devia saber que o sistema educativo regional só funciona porque alguns educadores e professores se rebelam e continuam a fazer da docência um ato de liberdade. Resistem. Resistem à padronização e ousam, Ousam ir mais além e libertam-se, saltam as margens redutoras e invadem domínios reservados aos predestinados da sorte. Procuram na desigualdade que a uniformidade perpetua promover o acesso, de todos, ao saber transformador.
Ponta Delgada, 17 de Setembro de 2017

Aníbal C. Pires, In Azores Digital, 18 de Setembro de 2017