quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Votos de um BOM ANO NOVO

O Mundo não é, mas pode ser maravilhoso!
Neste último dia de 2009 com Louis Armstrong e um querer inabalável no futuro.
Um porvir mais justo e harmonioso em que possamos afirmar com toda a propriedade que o Mundo é maravilhoso.

Votos de um BOM ANO DE 2010!

Crónica revisitada

Num exercício retrospectivo e a alguns dias da entrada num novo ano fui reler os textos que desde 2003 publico com regularidade na imprensa regional. Foi interessante verificar que grande parte deles não perdeu actualidade política e que outros, por serem mais intimistas, são intemporais. É um desses textos sem tempo que vos deixo como uma mensagem de renovada esperança e luta num futuro melhor.
A momentos exaspero!
Desespero com o país e o Mundo, com a decadência dos valores, com o imediatismo dos instantes que hipotecam o futuro.
Mas há … Outros momentos!
Momentos de reencontro! Momentos de amor, momentos de paixão!
Momentos em que o sorriso de mulher, um olhar de criança valem por toda uma vida.
Apenas a momentos, breves instantes me invade o desalento! Pois, a todo o tempo confio.
Confio no tempo!
E… a seu tempo cessará o retrocesso de um século.
E… a seu tempo voltaremos ao caminho da humanidade.
Acredito num tempo diferente em que a dignidade pessoal possa ser, apenas, Humana. Confio que o equilíbrio com o meio ambiente possa retomar-se e que o futuro seja possível.
Acredito que a cultura possa readquirir o seu valor intrínseco e abandone o mercantilismo do supérfluo.
Confio, mesmo, que a Escola retome o protagonismo da mudança e do desenvolvimento e, sobretudo, seja um espaço de cultura e justiça na diversidade dos seus actores.
Acredito que será possível escolher, livremente, sem as encenações que confundem uma sala de aula com um cenário de novela ou o improviso do discurso com halogramas. Discurso que se alimenta nas esquinas das dependências, nos becos da decadência, nas praças da injustiça, nas avenidas de imagens construídas, na alienação que subjuga e escraviza, na uniformidade do pensamento, na padronização do comportamento.
E confio! Confio que dos atropelos à dignidade, mais tarde ou mais cedo, vai emergir a vaga de descontentamento que, qual tsunami, irá repor o futuro.
Quiseram matá-la. Amordaçam-na. Mas ainda há quem não deixe. Há quem resista. Há quem não cale. Há quem não vergue. Há quem a alimente! E a utopia está aí! Presente nas canções, nos poemas, nas manifestações do povo, na coerência de quem sabe o quão é mais fácil ir ao sabor de um vulgar “sempre assim foi”, mas continua a alimentar o sonho, mesmo quando a esperança nos parece querer dizer que não vale a pena.
Vale a pena por ti, vale a pena por ele, vale a pena por nós!
Vale a pena alimentar a utopia! Vale a pena a memória dos poetas, pois “quando um homem sonha, o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”.
Vale a pena lutar e ser solidário com a humanidade.
Vale a pena pelo sorriso de uma mulher, mãe, amante!
Vale a pena pela esperança no futuro espelhada no olhar de uma criança!
Aníbal C. Pires, IN DIÁRIO INSULAR, 30 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quimera

Da janela da minha meninice
Ouço um ribeiro.
O pequeno riacho
Corre por entre lajes e juncos
Num manso canto
De lavadeiras
Meninas, mulheres

A água dilui
Os sonhos,
Lava as mágoas
Por entre lajes e juncos
Perduram sombras,
Lembranças

... De um tempo de fantasias

Da minha janela
Viajo no tempo da quimera
Quero seguir
O trilho do riacho
Partir ao encontro
De outros rios
… Outros mares
E fui!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para onde caminhamos…

Incomoda-me o corre que corre que nesta época do ano se apodera das pessoas.
Os rostos continuam a reflectir a azáfama e a competitividade que marcam todos os outros dias do ano mas, nos semblantes acresce agora mais uma ruga que reproduz a preocupação de corresponder, a todo o custo, à necessidade de satisfazer os artificiais impulsos de consumo que nesta altura atingem níveis indesejáveis.
Este estado de euforia consumista, alimentado por uma fortíssima pressão publicitária, até pode disfarçar as enormes dificuldades que individualmente enfrentamos mas não ilude a ausência de valores e princípios que deveriam presidir ao nosso quotidiano, nem mascara a profunda crise económica cujos efeitos mais brutais, desemprego e desigualdade, se instalaram sem que, no horizonte próximo, se vislumbrem sinais de ruptura com a brutalidade de um modelo de desenvolvimento falido e em reconfiguração – a eleição de Barack Obama terá sido, de todos, o mais emblemático sinal de um novo fôlego do capitalismo.
Afinal nada mudou!
A solidariedade há muito deixou de ser um acto pessoal para ser transferida para organismos com ou sem fins lucrativos. As campanhas de apoio aos mais desfavorecidos decorrem no âmbito das marcas e organizações comerciais. E nós agradecemos.
É cómodo e, quiçá, “fashion” pagar mais 1 euro contra a indiferença do que ser indiferente. Indiferente ao que nos rodeia ou exigir do poder político que ponha cobro à injustiça reinante.
Ficamos bem com a nossa consciência ao subscrever, numa qualquer rede social, o apoio a uma causa social ou ambiental, mas somos incapazes de levantar o rabinho do sofá para estender a mão num gesto de solidariedade ou adoptar comportamentos críticos e de ruptura com a raiz dos problemas que afectam a nossa contemporaneidade e colocam em causa o futuro colectivo.
A vacuidade induzida nos comportamentos humanos não é inócua e serve a perpetuação de modos de vida assentes sobre princípios velhos como o tempo em que o domínio de um ser sobre outros teve a sua génese.
Não tem de ser assim! E quem teima em manter tudo na mesma renega séculos de evolução social e remete-nos para a pré-história da humanidade.
Não sei porquê mas nesta quadra de Festas, quando olho ao meu redor, vem-me sempre à memória a atitude de ruptura que Jesus Cristo adoptou aos expulsar os vendilhões do Templo.
Será que não aprendemos nada ou será que estamos a entrar num processo de regressão civilizacional!?
Anibal C. Pires, In RTP AÇORES, 28 de Dezembro de 2009, Ponta Delgada

sábado, 26 de dezembro de 2009

Marcas do tempo

Numa recente viagem às memórias da minha infância e juventude que, lá de quando em vez, faço pelo prazer do reencontro com os lugares, com as pessoas e com as sensações que de alguma forma me foram moldando o carácter, registei de uma forma que nunca antes tinha acontecido as marcas do tempo. Do nosso tempo e do tempo que foi passando pelos lugares, pelas pessoas e pelas sensações.
As marcas do tempo estão presentes em cada rosto, em cada lugar e na normalização asséptica das sensações.
Às aldeias falta o riso das crianças, as antigas escolas primárias transformaram-se em centros de convívio para idosos, os antigos hospitais das misericórdias em lares para a terceira idade e os jovens adultos retomaram os caminhos da emigração.
Os lugares envelheceram e não há como escondê-lo por detrás da maquilhagem proporcionada pelos programas da União Europeia. As pessoas, pelo contrário, não escondem o tempo que por elas passou, nem escondem o seu desagrado pela forma como os lugares se foram exaurindo e transformando em espaços vazios de oportunidades onde apenas medram as actividades geriátricas.
Para as mulheres e homens em idade activa não há lugar no espaço rural do interior continental que se transforma inexoravelmente num gigantesco lar de idosos.
Nos anos sessenta e meados de setenta, para além dos idosos ficaram as crianças e as mulheres, os homens estavam na guerra colonial ou emigrados. Hoje os tempos são outros e os homens já não partem sozinhos, nem as mulheres se quedam por serem mulheres. Os idosos ficam, como sempre, desta vez sem crianças nem mulheres, apenas a solidão os acompanha no último pedaço de tempo que lhes falta ainda cumprir.
Quando nos deslocamos do litoral para o interior cedo nos apercebemos que o país regista um desenvolvimento profundamente assimétrico ao qual está a ser retirada parte da sua identidade com a gradual descaracterização e desertificação do seu espaço rural.
Apesar do abandono que as opções políticas lhe destinaram, no espaço rural subsistem estoicamente projectos de vária índole que teimam em preservar, qual reserva histórica, um país que não quer perder a sua singularidade sem abdicar dos benefícios do nosso tempo.
Esta é uma marca de todos os tempos e que o tempo, por mais penoso e agreste que seja, não apaga e… ao tempo, será tempo do riso das crianças voltar como voltam as andorinhas todas as Primaveras.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 23 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 19 de dezembro de 2009

Assim, não vamos longe

A época é propícia à formulação de votos. Festas Felizes! É assim que enunciamos esse anseio a cada Natal e a cada ano que se inicia num ciclo de renovada esperança.
Bem que gostaria, nesta quadra de solidariedades, de deixar aos leitores um texto transbordante de palavras de boas novas para o tempo que se avizinha, palavras de confiança e tranquilidade mas, olhando ao redor e mesmo tendo uma confiança inabalável no futuro, temo que não seja ainda o tempo de o fazer pois, se o fizesse não ficaria bem com a minha consciência e deixo aqui algumas notas soltas que justificam esse adiamento.
Horácio Roque, presidente do Banif, recomendou aos portugueses a emigração como solução face ao crescimento do desemprego em Portugal. Este banqueiro numa entrevista ao jornal Público afirmou: “É claro que nós temos sempre uma ajuda ao nosso desemprego que é a capacidade que os portugueses têm de emigrarem e se fixarem lá fora”. Pois muito bem! Com capitalistas destes pode o país estar descansado que há sempre solução para a pior das crises. Claro que em relação à instituição financeira que gere os tempos foram de expansão adquiriu o Banco Mais, investiu na banca espanhola e vai adquirir a seguradora Global. Não há crise que lhes chegue!
As grandes superfícies comerciais e as centrais de distribuição – merceeiros de novo tipo – anunciaram o alargamento do horário de trabalho dos seus trabalhadores das 40 para as 60 horas semanais, ou seja, das 8 horas diárias para as 12. Os trabalhadores naturalmente, até porque têm família e também necessitam de tempo para ir às compras, não aceitam e reagiram com um pré-aviso de greve para o dia 24 de Dezembro e, vai daí aquele grupo de “benfeitores” encabeçado por Belmiro de Azevedo veio a terreiro dizer que não acreditava que os sindicalistas levassem a ameaça até ao fim e que se tratava de um pequeno ataque de baixa qualidade. Claro que Belmiro de Azevedo e outros que tais sabem que sobre os seus precários trabalhadores pendem fortes ameaças e que estes beneméritos empresários descansam sobre a existência de um batalhão de mais de meio milhão de desempregados que espreitam um emprego sob quaisquer condições.
Quantos de nós não dispõem de médico da família? Quem não tem a percepção de que os serviços públicos de saúde necessitam de mais médicos? E também sabemos que a origem deste défice se situa numa política de formação de médicos, à qual não é estranha a Ordem, que limita a entrada para os cursos de medicina de muitas centenas de jovens. Limitação imposta pelos numerus clausus do qual decorrem as elevadas médias de entrada para as Universidades.
Ao anúncio da criação de um novo curso de medicina na Universidade de Aveiro, eis que o Bastonário da Ordem de imediato contestou esta medida, não por ser em Aveiro mas porque do alto da sua imensa sabedoria diz que não há necessidade de mais profissionais médicos. Pois!
Enquanto registo estas notas soltas aproxima-se do fim a Cimeira de Copenhaga e as expectativas criadas estão em risco de ficarem muito aquém do que era esperado. Os grandes poluidores não querem aceitar a diminuição da emissão de gases com efeito de estufa. A opinião pública mundial mobiliza-se para pressionar os “donos do Mundo”. Julgo que no final deverá acontecer um acordo do tipo: do mal, o menos. Foi a isto que nos habituaram ao longo dos tempos, primeiro um cenário positivo, depois a catástrofe, por fim uma solução minimalista e todos ficamos muito satisfeitos. Será!?
Ficam os votos de Boas Festas e de um Novo Ano de renovada esperança e luta por um Mundo Melhor!
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 18 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

domingo, 13 de dezembro de 2009

Antes que seja tarde - BOAS FESTAS

Votos de Boas Festas para todos os visitantes do "momentos"

Um nome de entre muitos

Saara Ocidental, Frente Polisário, República Árabe Saaráui Democrática, Mauritânia, Marrocos, Espanha, Nações Unidas e uma mulher que, como José Saramago, disse é uma daquelas pessoas que dá personalidade ao nosso tempo.
Aminetu Haidar é uma mulher em greve de fome – completou o 24.º dia enquanto registo estas notas –, uma mulher em luta pelo reconhecimento do seu povo e do seu país.
A determinação de Aminetu Haidar e a forma de luta que adoptou quando se viu privada de regressar a casa pelas autoridades marroquinas colocou na agenda política e mediática o Saara Ocidental e a luta da Frente Polisário pela independência daquele território que foi uma colónia de Espanha até 1975 e, de que a Mauritânia e Marrocos se apossaram após a saída dos espanhóis invocando direitos históricos. A Frente Polisário conquistou o território ocupado pela Mauritânia e o exército de ocupação marroquino entrincheirou-se numa zona restrita do deserto, o triângulo de segurança, que compreende as duas cidades costeiras e a zona dos fosfatos. Tenho para mim que “os direitos históricos” invocados por Marrocos estão directamente relacionados com a extracção destes minerais. As Nações Unidas consideram o Saara Ocidental como um território não-autónomo.
Aminetu Haidar ganhou esta batalha, independentemente do desfecho desta heróica luta e com esta vitória a autodeterminação do povo saraauí ficará mais perto.
O exemplo que nos chega de Lanzarote contraria a acomodação no confortável refúgio de quem deixou de acreditar nos processos políticos transformadores. A dedicação e entrega desta mulher, mãe e cidadã, embaraça os que alimentam a ideia do fim da história e das ideologias.
Outros exemplos existem, para lá de Aminetu Haidar, que dão personalidade ao nosso tempo e que mantêm bem acesa a chama que alimenta a ideia de um modelo de desenvolvimento sustentável e, por consequência, mais justo social e economicamente.
A lista é, felizmente, interminável mas não posso deixar de referir José Pepe Mujica, antigo guerrilheiro Tupamaro, que com o apoio do movimento de esquerda “Frente Ampla” foi no passado dia 30 de Novembro, eleito Presidente do Uruguai, como já o foram Daniel Ortega, na Nicarágua, e Nelson Mandela, na África do Sul.
Com mulheres e homens desta envergadura há lugar para renovar esperança!
Aníbal C. Pires, IN A UNIÃO, 11 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

sábado, 12 de dezembro de 2009

Escolhas

O Tratado de Lisboa entrou em vigor no passado dia 1 de Dezembro, no mesmo dia o calendário das efemérides nacionais assinala a Restauração da Independência depois da ocupação castelhana (1580-1640).
É impossível não registar esta coincidência como um paradoxo histórico, por um lado a celebração da entrada em vigor do Tratado da União Europeia, apelidado de Lisboa pelas razões que se conhecem, que sendo apresentado como um importante passo na consolidação e construção do projecto da União Europeia, não deixa de se constituir como um passo, um largo passo para retirar, ainda mais, soberania (leia-se independência) aos 27 países membros, de entre os quais Portugal e, por outro lado se celebre a data que restaurou a independência nacional após um longo período de ocupação estrangeira.
Como se pode, se é que se pode, conciliar este e outros absurdos!?
O discurso oficial carregado de um forte cariz eurocêntrico e federalista não considera alternativas, o caminho é, segundo estes, inevitável. Não procuram nenhuma justificação limitam-se a impor um rumo sem envolver os cidadãos, não promovendo os instrumentos de participação, consulta e decisão. Estes iluminados contam antecipadamente com a estupidificação que foram cultivando nos cidadãos e do qual resulta um acriticismo generalizado do qual esperam um cego aval. Mas, tendo algum receio de que mesmo assim possa haver algum “devaneio” dos cidadãos, evitam a todo o custo perguntar, a não ser quando a isso são obrigados, como foi o caso da Irlanda. Onde, como se sabe, só em segundo referendo e após um período de forte chantagem, foi obtida a resposta desejada para que o processo de ratificação do Tratado de Lisboa pudesse seguir em frente, e o Presidente checo, perante um cenário político insustentável, viu-se obrigado a ratificá-lo.
Mas será que não há outras opções? Será que o sucesso da União Europeia depende deste modelo de transferência de soberania nacional? Será que o processo de construção europeia não pode ancorar-se na cooperação entre os povos europeus e destes com todos os povos do Mundo, no respeito pela paz e pela soberania nacional?
Quando chegamos a uma encruzilhada temos de fazer opções. A opção que então fazemos determina o futuro, a vida de cada um de nós é feita de constantes escolhas ao seu somatório costuma-se chamar: “destino”. A transferência dos efeitos que as opções produzem na nossa vida individual e colectiva para conceitos místicos iliba-nos de responsabilidades pelas escolhas que fazemos. É confortável mas é, quase sempre, desaconselhável.
Na União Europeia insiste-se no erro após o chumbo pelos franceses e holandeses ao então designado Tratado Constitucional. Deixou-se passar o tempo, vestiu-se-lhe uma nova roupagem e eis que surge o Tratado de Lisboa, também ele chumbado em primeira instância pelos irlandeses.
Em Copenhaga avalia-se Quioto. Os objectivos de Quioto não foram cumpridos devido a inúmeras variáveis. O mercado dos direitos de emissão de gases de estufa terá sido, de entre outras, uma das principais causas do seu insucesso. Em Copenhaga vai, seguramente, haver compromisso na redução dos poluentes atmosféricos, em Quioto também houve, mas em Copenhaga vai, certamente, subsistir o mesmo mercado em que os países ricos (poluidores) pagam aos países pobres para poluírem por eles. Enfim! Vá-se lá entender esta lógica.
Nesta encruzilhada em que a humanidade se encontra o tempo escasseia e as opções erradas podem produzir efeitos irreversíveis.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Vale a pena ler

Pois é?
Deixo-vos aqui fica um bom elemento de reflexão sobre o nosso Mundo e o modelo de desenvolvimento que foi adoptado e aceite como o único caminho possível.
Um modelo ancorado na exploração dos povos e da natureza e que só pode ter um triste fim se não formos capazes de encontrar outros caminhos.

DISCURSO DO EMBAIXADOR MEXICANO NUMA CONFERÊNCIA DE CHEFES DE ESTADO E GOVERNO DA UNIÃO EUROPEIA, MERCOSUL E CARIBE
Alguns sites colocam dúvidas sobre se este texto foi ou não produzido na referida cimeira, todavia, reproduzo-o por considerar que o texto vale por si mesmo.

Eis o discurso:
"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a"descobriram" só há 500 anos.
O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país - ,com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse.
Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no "Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!
Teria sido espoliação? Guarda-meTanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue doirmão.
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas.
Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa.
O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indemnização por perdas e danos.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo.
No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto impenderem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."



Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Europeia, Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a verdadeira Dívida Externa.
Fontes (de entre muitas outras):

domingo, 6 de dezembro de 2009

Imagens aéreas - S. Jorge e Pico

De viagem para o Pico com escala na Terceira e sobrevoo de S. Jorge.
Aspecto da costa Norte de S. Jorge.
Aspecto da zona central da ilha de S. Jorge.
Aspecto do aeroporto de S. Jorge, baia e vila de Velas.
Já sobre o Pico procurando o alinhamento para a aproximação final.



Sequência da final de aproximação ao aeroporto do Pico.
Os currais onde sazonam os vinhedos são aqui bem visíveis.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um exemplo

As efemérides, de uma forma geral, constituem-se como bons temas de escrita para quem ganhou o hábito e o espaço para partilhar opinião. A Restauração da Independência Nacional que se comemorou por estes dias poderia ser um bom mote para este texto.
O actual contexto de acentuada perda de soberania nacional e dependência externa e as discussões sobre a “União Ibérica”, seguramente, confeririam ao assunto actualidade e posicionamentos apaixonados.
Na agenda internacional a Cimeira Ibero Americana, em Cascais, e a Cimeira do Clima, em Copenhaga, poderiam, com toda a oportunidade, fazer o título deste escrito. A primeira, pela importância que tem para a “Península”, assim dizem os espanhóis que vivem no exterior quando se referem ao seu país, mas também pela situação que se vive nas Honduras e, a segunda, pelas (in)decisões que venham a concretizar-se.
Sobre estas questões não faltarão artigos de opinião, mas eu como tenho este mau feitio: não gosto de unanimismos, nem do politicamente correcto e muito menos de andar em “rebanho” e a favor da corrente, dedico este espaço, neste tempo, ao trivial, num momento em que coisas tão importantes estão a acontecer. Sei que corro o risco de ouvir, como oiço desde a minha juventude: “Oh Aníbal, assim não vais longe e é uma pena porque tu és um bom rapaz."
Sendo o tema trivial, porquanto está vulgarizado, não deixa de ser pertinente e ter uma importância bem real. Ao longo das últimas três décadas os trabalhadores, do sector público e privado, de diferentes ramos da actividade assistem, uns mais passivamente que outros, à perda de rendimentos e direitos. E, se no sector público foi com a sacralização de Sócrates e da sua “esquerda moderna” que os ataques se acentuaram, no sector privado há muito que se desenvolviam estratégias que redundaram num retrocesso civilizacional, hoje a configuração das relações laborais assemelham-se mais ao que se vivia no século XIX.
O conceito estereotipado de trabalhador induz imagens de fábricas, construção civil, agricultura, pescas, minas, etc., aliás representações alimentadas pelos neoliberais como sinal de atraso pois, segundo estes, as sociedades modernas e evoluídas têm de corresponder a uma alta taxa de terciarização da economia.
Como definir então os indivíduos que trabalham nos serviços, os quadros médios e superiores. Serão ou não trabalhadores? Talvez colaboradores. Esta nova designação terá sido o vocábulo que melhor se ajustou às necessidades de desvalorizar o trabalho e os trabalhadores que caracteriza este ciclo neoliberal que, após a sua falência, se reconfigura.
Um dos ramos de actividade do sector privado onde, em termos relativos, se verificam as maiores alterações terá sido no sector financeiro e segurador. Há 30 anos atrás, e mesmo antes, os trabalhadores da banca e dos seguros detinham um conjunto de direitos e um rendimento que colocavam esta carreira profissional como uma das mais apetecíveis, e isto sem que o sector bancário e segurador fosse deficitário, bem pelo contrário.
Hoje os lucros aumentaram desmesuradamente para níveis pecaminosos e os “colaboradores” trabalham sem horários, sem direito ao pagamento de horas extraordinárias, sem direitos laborais e com rendimentos a depender de metas subjectivas impostas por administradores sem escrúpulos, poderia acrescentar-lhes mais alguns epítetos mas... fico-me por aqui.
Este é o paradigma da modernidade que Sócrates e outros quejandos nos vendem.
Aníbal C. Pires, IN Diário Insular, 03 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo