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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O fim de um mundo

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Há sinais de que o mundo que conhecemos está a mudar. Talvez ainda seja cedo para falar no colapso daquilo a que, durante décadas, chamámos civilização ocidental, mas são cada vez mais visíveis as fraturas de uma ordem política, económica e cultural que se julgou durante demasiado tempo definitiva. Se preferirmos a expressão Norte Global, poderemos dizer que a sua hegemonia está a ser questionada por uma realidade internacional que já não aceita com a mesma facilidade a distribuição do poder que resultou do pós-Segunda Guerra Mundial.

A emergência de novos blocos económicos e políticos, a crescente afirmação da China, da Rússia e de outros países do chamado Sul Global, bem como os processos de emancipação que atravessam algumas das antigas colónias francesas em África, estão a alterar a geografia do poder. Estes factos significam apenas que o mundo está a deixar de ser unipolar e que essa transformação incomoda aqueles que se habituaram a determinar as regras.

A guerra na Ucrânia é um dos exemplos dessa mudança. Uma guerra que não começou em fevereiro de 2022 e cuja compreensão não pode ficar reduzida à narrativa simplista do invasor malévolo e da vítima. A História é mais complexa do que as versões que nos são diariamente oferecidas.

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O mesmo poderíamos dizer da Palestina, do Irão, do Sudão ou do Congo. São territórios onde se cruzam interesses económicos, estratégicos e geopolíticos e onde a vida humana parece ter um valor diferente consoante a identidade das vítimas e os interesses de quem observa. A Palestina é talvez o exemplo mais brutal dessa realidade: décadas de ocupação, violência, espoliação e genocídio continuam a ser apresentadas por grande parte do chamado Ocidente através de uma linguagem que frequentemente transforma a vítima em ameaça e a violência contra ela em inevitabilidade.

Mas a crise da ordem ocidental não se manifesta apenas na política externa. Manifesta-se também dentro das próprias sociedades. O crescimento da extrema-direita e de formas renovadas de autoritarismo é disso expressão. Em vários países europeus e americanos (a Norte e a Sul), discursos nacionalistas, xenófobos e ultraconservadores conquistam espaço político e social. Em alguns casos, encontram terreno fértil em setores de movimentos religiosos que oferecem respostas simples para problemas complexos, substituindo a esperança material por uma promessa de salvação.

Há, porém, uma outra batalha, menos visível, que merece atenção: a batalha pelo pensamento. Uma escola cada vez mais submetida à compartimentação dos saberes, à avaliação permanente e à redução do conhecimento à sua utilidade imediata corre o risco de perder uma das suas funções fundamentais: ensinar a pensar. E uma sociedade que deixa de pensar criticamente torna-se mais vulnerável à manipulação.

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As redes sociais agravaram esta realidade. Prometeram democratizar a informação, os algoritmos não foram concebidos para formar cidadãos, mas para captar a atenção. 

A estas evidências acresce ainda o revisionismo histórico, que distorce a realidade, oblitera factos e branqueia acontecimentos. 

Tudo isto encaminha a humanidade para um futuro difícil de prever. O que vier depois dependerá, em grande medida, da capacidade dos povos para recusarem hegemonias, sejam elas antigas ou emergentes, e para construírem uma nova ordem internacional assente na soberania, na cooperação, na justiça e na paz.

Uma coisa é certa, estamos a aproximar-nos do fim de um mundo.

Ponta Delgada, 31 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 2 de setembro de 2026

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Volta ao greenwashing

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O Volta foi apresentado como uma importante medida ambiental para aumentar a recolha e a reciclagem de embalagens. Não questiono que possa contribuir para recolher mais embalagens. O que questiono é que se apresente apenas a recolha de resíduos como se fosse a solução para a gestão de um problema ambiental grave.

Porque há uma pergunta que parece estar ausente do discurso: quantas embalagens deixarão de ser produzidas por causa do Volta? A resposta é: nenhuma.

O Volta não reduz a produção de embalagens descartáveis. Não reduz o consumo. Não promove, por si só, a reutilização. Intervém depois de o produto ter sido fabricado, distribuído, comprado, consumido e transformado em resíduo. É, portanto, uma solução para gerir melhor uma consequência, não para eliminar ou diminuir significativamente a causa.

Dir-se-á que é melhor recolher uma embalagem do que deixá-la abandonada. Naturalmente. Mas essa evidência não deve servir para ocultar a questão essencial. Uma embalagem que não é produzida não precisa de ser recolhida, transportada, separada ou reciclada. Uma embalagem reutilizada dezenas de vezes não precisa de ser substituída por dezenas de embalagens descartáveis.

É aqui que a política dos três Rs (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) merece ser recuperada na sua verdadeira hierarquia. Durante anos fomos educados para compreender que os três Rs não eram soluções equivalentes. Primeiro reduzir, depois reutilizar e só finalmente reciclar. Hoje, porém, parece que o primeiro R desapareceu do discurso e o segundo vai pelo mesmo caminho. Ficou a reciclagem, transformada numa espécie de certificado de boa consciência ambiental.

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E isto não é uma questão menor. Reduzir significa produzir menos e consumir menos. Reutilizar significa prolongar a vida dos produtos e diminuir a necessidade de fabricar outros. Reciclar significa recuperar, tanto quanto possível, aquilo que já foi produzido e consumido. As três ações são importantes, mas não têm o mesmo valor ambiental.

A reciclagem é, aliás, a solução que mais facilmente se acomoda à lógica económica dominante. Podemos continuar a produzir, vender e consumir cada vez mais, desde que separemos corretamente os resíduos. O sistema económico permanece praticamente intocado e transfere para o consumidor a responsabilidade pelo impacto ambiental. 

É aqui que o Volta me suscita reservas. Não porque a recolha de embalagens seja inútil, mas porque uma medida de gestão de resíduos pode ser transformada numa bandeira de sustentabilidade. E quando a imagem de uma solução ambiental começa a ser maior do que a transformação efetiva que ela produz, entramos no território do greenwashing.

E há uma ironia nesta história. Chamamos-lhe Volta porque a embalagem volta ao circuito. Mas talvez aquilo de que precisássemos fosse uma política que impedisse que tantas embalagens tivessem de fazer a volta.

Voltar aos três Rs seria, por isso, um bom começo. Não apenas reciclar melhor, mas produzir menos. Não apenas recolher embalagens, mas reutilizá-las. Não apenas ensinar o cidadão a separar resíduos, mas questionar um modelo económico que transforma quase tudo em mercadoria descartável.

A pergunta ambiental decisiva não deveria ser quantas embalagens conseguimos reciclar. Deveria ser quantas conseguimos deixar de produzir. Porque uma sociedade que produz cada vez mais resíduos não se torna sustentável apenas porque aprendeu a reciclá-los melhor. Talvez seja esta a grande volta que falta dar.

Ponta Delgada, 18 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 19 de agosto de 2026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ignorância e má-fé

Durante alguns dias, Ceuta voltou ao centro das atenções mediáticas. As imagens de milhares de migrantes a atravessar a fronteira foram apresentadas como uma nova 'invasão' da Europa. Muito se escreveu e comentou sobre o assunto, mas também muito se disse sem rigor. Vale, por isso, a pena recordar alguns factos que ajudam a compreender uma realidade bem mais complexa do que a narrativa dominante pretende fazer crer.

Face a algumas imprecisões a que muitos cidadãos são permeáveis e aceitam como verdades absolutas informações que raramente questionam, julgo ser importante trazer a este espaço algumas reflexões que, no essencial, visam contribuir com alguns elementos de ponderação e opinião sobre a dita “invasão” da Europa por migrantes africanos. Desde logo clarificar que Ceuta é geograficamente território africano.

Ceuta é um território sobre o qual Marrocos reivindica soberania, mas que por enquanto continua sob administração do reino de Espanha - resquícios do colonialismo -, facto que levou alguns dirigentes políticos de oposição e chefes de governo europeus a pedirem a suspensão das regras do espaço Schengen, ou mesmo expulsar Espanha deste acordo europeu que permite a livre circulação de cidadãos nos países da União Europeia que a ele aderiram. Esqueceram-se, ou talvez ignorassem que Ceuta, embora seja um território sob administração espanhola, não integra o espaço Schengen, ou seja, para sair de Ceuta é necessário passaporte para passar a fronteira e viajar para Espanha ou qualquer outro país, europeu ou não. Os ideólogos neofascistas sabem muito bem como utilizar a mentira e as meias-verdades para mobilizar os seus fiéis seguidores.

A questão de que vos tenho vindo a falar não se reduz a Ceuta, nem aos incautos cidadãos que nadaram alguns metros para passar do reino de Marrocos, para um dos enclaves que o reino de Espanha administra no continente africano. A questão é mais vasta e complexa e terá sido orquestrada para prejudicar o governo de Espanha, presidido por Pedro Sanchez. O primeiro-ministro espanhol por quem não nutro particular simpatia, mas reconheço que no contexto dos países da UE e da OTAN tem assumido posições desalinhadas da maioria dos seus parceiros. Fê-lo na defesa dos direitos do povo palestiniano e da Palestina, da agressão estado-unidense ao Irão e na solidariedade a Francesca Albanese. Isto é, no seio de organizações submetidas a interesses que não são, de facto, os interesses dos povos, direi mesmo que este “incidente” poderá também ser interpretado como uma retaliação dos Estados Unidos e da organização sionista que ocupa a Palestina, mas também do reino de Marrocos que não vê com bons olhos a aproximação entre a Espanha e a Argélia.

A monarquia marroquina reivindica legitimamente a soberania sobre Ceuta e Melila. Falta-lhe, porém, autoridade moral para sustentar essa reivindicação enquanto mantiver o Saara Ocidental sob ocupação. Também o governo espanhol sacrifica o direito à autodeterminação do povo saarauí em nome da preservação daqueles enclaves. Não deixa de ser significativo que tal aconteça depois dos Acordos de Madrid (1975), através dos quais Espanha abandonou a administração do território, abrindo caminho à ocupação por Marrocos e Mauritânia (1976), uma solução nunca reconhecida pelo direito internacional.

Antes de aceitarmos como evidentes certas narrativas, convém perguntar quem beneficia com elas.

Ponta Delgada, 3 de agosto de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 5 de agosto de 2026

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Para além do futebol

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Para quem ainda as tinha, as dúvidas dissiparam-se com o último Mundial de Futebol. Sei que a abordagem a este assunto não é popular. Reconheço que o futebol é uma manifestação cultural e desportiva que mobiliza milhões de pessoas em todos os continentes, desperta paixões, alimenta identidades e proporciona momentos de alegria coletiva. Ainda assim, considero que este fenómeno, de inequívoca raiz popular, foi progressivamente capturado por interesses financeiros que o transformaram num dos maiores negócios do planeta.

A minha opinião é seguramente minoritária. Mas nunca a popularidade de uma ideia constituiu critério suficiente para a aceitar sem questionamento.

É impossível passar ao lado de um Mundial de Futebol. A informação chega-nos sem pedir licença, ocupa televisões, rádios, jornais e redes sociais, invade conversas de café e espaços de trabalho. Acompanhei, ainda que involuntariamente, as alegrias e as desilusões que a competição provocou. Mas o que verdadeiramente me impressionou não foram os resultados nem os golos. Foi a obscena comercialização que envolve este espetáculo e a crescente presença das empresas de apostas, hoje patrocinadoras de competições, clubes, transmissões televisivas e de programas desportivos.

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Há muito que o futebol deixou de ser apenas um desporto. Tornou-se uma indústria global onde quase tudo tem um preço: os jogadores, os treinadores, os clubes, os adeptos, os direitos televisivos, as apostas, os artigos promocionais, a publicidade, as emoções e, por vezes, até a própria integridade das competições. O que antes era pertença das comunidades foi transformado numa mercadoria altamente rentável.


As transferências atingem valores que desafiam qualquer racionalidade. Os salários de alguns equivalem ao rendimento de milhares de trabalhadores durante uma vida inteira. Fundos de investimento tratam jogadores como ativos financeiros. Clubes históricos são comprados por fundos soberanos, empresários ou grandes grupos económicos que pouco ou nada têm a ver com a história das instituições que adquirem. O futebol passou a integrar os circuitos da especulação financeira global. Mas talvez o aspeto mais perturbador seja outro. Milhões de pessoas aceitam esta realidade com uma naturalidade desconcertante. Indignam-se, e com razão, com o encerramento de serviços públicos, com a crise da habitação ou com salários insuficientes para chegar ao fim do mês, mas parecem suspender o espírito crítico quando entram no universo da financeirização do desporto. 

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O futebol tornou-se um poderoso instrumento de produção de consensos. Alimenta a ilusão da competição justa enquanto reproduz, de forma quase caricatural, as desigualdades do mundo em que vivemos. Uma pequena elite concentra riqueza, poder e visibilidade; milhões de adeptos investem tempo, dinheiro e emoções num espetáculo cuja rentabilidade beneficia apenas os grandes grupos económicos, as plataformas de comunicação, os patrocinadores e os investidores.

Nada disto diminui a beleza de um passe bem executado, de um remate improvável ou da estratégia coletiva de uma equipa em campo. O problema nunca foi o jogo. O problema é o sistema que fez do jogo um produto financeiro e das emoções um negócio.

Talvez por isso o futebol contemporâneo seja uma das mais perfeitas metáforas do capitalismo atual: tudo pode ser comprado, vendido, promovido e rentabilizado. Até as emoções.

E quando uma sociedade considera tudo isto normal, então talvez o problema não seja apenas o futebol. Talvez, seja o mundo que fomos aceitando como inevitável. 

Ponta Delgada, 21 de julho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 22 de julho de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Datas e memórias

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Por estes dias celebrou-se o dia da independência dos EUA e o dia da independência de Cabo Verde. Cada uma destas datas encerra significados históricos e simbólicos diferentes. Sobre os Estados Unidos importa reter menos a celebração e mais algumas das suas contradições fundadoras. A construção desta federação de estados foi feita sobre o genocídio dos povos autóctones, o comércio de mão-de-obra escrava e a égide do ideário liberal. Importa, porém, desconstruir as “belas” palavras utilizadas pelos “fundadores” na Declaração de Independência, como seja: “… todos os homens são criados iguais.” E ainda a enunciação de três direitos inalienáveis: “o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à felicidade.” Direitos dos quais, direi, ninguém discordará. Assim dito, tudo parece perfeito. Mas, contextualizados, estes princípios do direito natural e as prerrogativas enunciadas talvez não correspondam àquilo que, à primeira vista, parecem significar. Vejamos: quando a declaração foi escrita, pessoas escravizadas não tinham liberdade, as mulheres estavam afastadas da vida política, os povos indígenas eram tratados como exteriores ao novo corpo político e até muitos homens brancos pobres viam os seus direitos limitados.

No espaço exíguo desta crónica não é possível ir mais longe, pois quero, ainda, fazer algumas referências à celebração da independência de Cabo Verde, mas sempre acrescento que a base teórica e filosófica onde se ancorou a declaração de independência dos Estados Unidos tem a sua origem no pensamento liberal e no direito natural, especialmente de filósofos como John Locke, bem como do ambiente intelectual do Iluminismo, e na ideia central que os direitos não são uma benção divina ou de herança e não são concedidos, os direitos existem por natureza. Ou seja, a frase não significava, em 1776, igualdade social completa nem igualdade de direitos para todos os habitantes. Significava, sobretudo, uma rejeição da ideia europeia de que algumas pessoas nasciam naturalmente superiores por sangue, nobreza ou direito divino.

da obra de Kiki Lima - imagem retirada da internet
Com Cabo Verde tudo foi diferente. Deixo a história para outra oportunidade para partilhar uma paixão antiga. Cabo Verde entrou na minha vida muito antes de eu lhe conhecer as pedras, os caminhos e o mar. Cresci longe do Atlântico aberto, nas terras interiores do continente português, entre horizontes presos à terra e aos montes. E, no entanto, havia em mim qualquer coisa que já caminhava por aquelas e outras ilhas sem nunca as ter visto.

Talvez tenha sido a dolência das mornas a abrir a primeira porta. Talvez a alegria do funaná, o batuque a rasgar silêncios, ou essa tristeza doce que habita a hora di bai, quando partir e ficar parecem ter a mesma dor. Há fascínios que não se explicam, acontecem e medram dentro de nós, devagar, como cresce o mar na maré cheia.

Quando finalmente conheci Cabo Verde, percebi que alguns encontros acontecem muito antes do primeiro olhar. Reconheci rostos, gestos e maneiras de sentir a vida, como quem encontra uma paisagem antiga que julgava perdida. Compreendi então que aquele povo ilhéu, moldado pela imensidão do Atlântico e pelo vento Leste, fez da escassez força, da distância caminho e da partida uma outra maneira de permanecer. Porque Cabo Verde não é apenas um lugar. É uma forma de resistência tranquila e de profunda dignidade. 

E talvez por isso José Saramago tenha encontrado as palavras certas quando escreveu que Cabo Verde “repete dia a dia a criação do mundo”.

Ponta Delgada, 6 de julho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 8 de julho de 2026

domingo, 28 de junho de 2026

Discursos

Não ouvi em direto na TV, mas li e ouvi muitos comentários elogiosos ao discurso de Miguel Monjardino (MM) por ocasião das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. O discurso do Presidente da República (PR), que também não ouvi, foi igualmente alvo de laudatórios comentários. Fiquei curioso e fui ao site da Presidência da República ler os discursos e perceber o porquê de tanto enaltecimento.

Sobre o discurso do PR não vou tecer considerações, é consensual e satisfez a generalidade. Já o discurso de MM merece alguma reflexão. Trata-se de uma narrativa que liga Camões, os Açores, o mar, a autonomia e a geopolítica, utilizando a metáfora marítima para pensar o futuro de Portugal. Mas quando analisado à luz das transformações geopolíticas que estão a ocorrer no mundo, surgem-me algumas dúvidas que merecem comentário. Não pretendo com este texto alimentar qualquer polémica com o Professor MM, por quem tenho grande consideração, mas não ficaria bem comigo mesmo se não escrevesse estas notas sobre alguns aspetos do seu discurso.

A principal questão está precisamente na passagem em que MM afirma que "um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer". Esta formulação contém uma visão muito centrada na experiência ocidental das últimas décadas. Para Portugal, para a Europa Ocidental e para alguns aliados dos Estados Unidos, o período iniciado em 1945 foi, de facto, relativamente estável e vantajoso. Mas para grande parte do mundo, da América Central e do Sul, ao Médio Oriente, passando por África e partes da Ásia, esse sistema esteve longe de ser percebido como verdadeiramente multilateral. Na verdade, esse sistema nunca foi plenamente multilateral. Foi antes um sistema de múltiplas vozes surgidas da descolonização, onde o chamado Movimento dos Países Não Alinhados procurou abrir um espaço autónomo entre os dois grandes blocos.

Uma leitura alternativa sugere que não se trata do fim de um mundo multipolar, mas o declínio de uma ordem unipolar dominada pelos Estados Unidos e pelos seus aliados atlânticos após a dissolução da União Soviética. Entre 1991 e aproximadamente 2015-2020, viveu-se o momento unipolar estado-unidense. O que está a emergir agora é precisamente uma maior dispersão do poder mundial, com a ascensão da China, o reforço da Índia, a afirmação de potências regionais como a Turquia, o Brasil, ou mesmo o Irão, e o crescimento de organizações como os BRICS. Nesse sentido, poder-se-ia argumentar que estamos a assistir não ao fim do multilateralismo, mas ao seu nascimento fora da esfera ocidental e sem a marca ideológica do eurocentrismo.

Há igualmente uma certa ambiguidade quando MM defende o multilateralismo e, simultaneamente, a "reinvenção da NATO" e o reforço do seu "pilar europeu". A NATO continua a ser uma aliança militar ocidental e não uma instituição multilateral universal. Para muitos países do Sul Global, ela representa precisamente uma das expressões da ordem atlântica mais contestada. 

Outro aspeto discutível é a ideia de que o ciclo iniciado em 1945 "terminou recentemente". Pode dizer-se que o verdadeiro ponto de rutura não é o fim da ordem de 1945, mas a erosão da ordem surgida após 1991. A ordem de 1945 foi bipolar, estruturada pela rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. O período posterior ao fim da Guerra Fria foi diferente: caracterizou-se pela hegemonia estado-unidense e pela globalização financeira. É esse modelo que está hoje a ser claramente contestado. 

Ponta Delgada, 22 de junho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 24 de junho de 2026

sábado, 13 de junho de 2026

Empobrecer a trabalhar

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Em Portugal a receita surge, invariavelmente, embrulhada no estafado e bafiento discurso neoliberal: é preciso flexibilizar o mercado de trabalho, reduzir direitos, facilitar despedimentos e enfraquecer a contratação coletiva. Os trabalhadores são apresentados como um obstáculo ao crescimento, os seus direitos como privilégios e a legislação laboral como um entrave à modernização do país e ao aumento da produtividade.

A realidade, porém, conta-nos uma história bem diferente.

Portugal é um dos países da União Europeia onde o trabalho é mais mal pago, onde a precariedade se tornou em norma para centenas de milhares de pessoas e onde muitos trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas completas, continuam a viver na pobreza ou no seu limiar.

Foi em nome da competitividade que se cortaram salários. Foi em nome da modernização que se reduziram indemnizações por despedimento. Foi em nome da criação de emprego que se generalizaram vínculos precários, falsos recibos verdes, horários desregulados e formas cada vez mais sofisticadas de exploração laboral. O resultado está à vista: mais desigualdade, mais insegurança e uma crescente dificuldade em construir projetos de vida.

É neste contexto que o atual Governo, apoiado pela direita neoliberal e pela extrema-direita, procura avançar com novas alterações ao Código do Trabalho. Não se trata de uma simples revisão técnica da legislação laboral. Trata-se de mais um passo num longo processo de transferência de poder do trabalho para o capital.

Facilitar despedimentos, enfraquecer a contratação coletiva, recuperar mecanismos como o banco de horas individual ou criar formas de flexibilização laboral significa aumentar a dependência dos trabalhadores perante as empresas e reduzir a sua capacidade de resistência e negociação. Significa transformar o emprego estável em exceção e a precariedade em regra.

A ofensiva é tanto mais reveladora quanto surge num momento em que os trabalhadores enfrentam uma das mais profundas crises de poder de compra das últimas décadas. Os preços da habitação atingem níveis incomportáveis, os custos da alimentação continuam elevados e os serviços públicos sofrem um processo de degradação que empurra cada vez mais pessoas para soluções privadas. Enquanto isso, a riqueza concentra-se, os lucros crescem escandalosamente e os trabalhadores empobrecem a trabalhar.

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A oposição dos trabalhadores às propostas governamentais foi clara e inequívoca, como se verificou pela adesão à(s) Greve(s) Geral(ais). A Concertação Social não produziu qualquer consenso. Mesmo alguns setores empresariais manifestaram reservas. Mas o Governo insiste. E insiste porque estas medidas não respondem às necessidades do país; respondem aos interesses de quem vê nos direitos laborais um obstáculo à maximização do lucro.

Existe ainda uma dimensão frequentemente ignorada neste debate. Muitas das alterações pretendidas chocam frontalmente com princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa. Por isso, o que está em causa ultrapassa largamente a discussão sobre alguns artigos do Código do Trabalho. O que está em causa é a própria natureza do contrato social construído em democracia. A direita económica sabe-o. Por isso procura, passo a passo, limitar direitos conquistados, enfraquecer organizações sindicais e transformar a força de trabalho numa mercadoria cada vez mais barata e descartável.

Ponta Delgada, 8 de junho de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 10 de junho de 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Desafios Autonómicos

Há cinquenta anos, a palavra autonomia deixou de ser apenas murmúrio histórico, desejo disperso entre elites económicas, políticas, intelectuais e, ainda que sem grande significado, no abandonado povo ilhéu cuja luta era mais de subsistência. Há cinquenta anos as aspirações autonómicas ganharam corpo constitucional e iniciou-se o caminho do autogoverno. A conquista da autonomia regional não surgiu do acaso nem da generosidade súbita do poder central. Nasceu de uma conjugação rara entre a abertura democrática do 25 de Abril, a pressão social e política nos Açores e a consciência de que governar ilhas a partir da distância administrativa e mental de Lisboa era persistir num equívoco histórico.

Durante décadas a insularidade foi tratada mais como uma fatalidade útil, do que como condição específica exigindo respostas próprias. O centralismo do Estado Novo olhava para as ilhas com paternalismo burocrático, raramente reconhecendo a singularidade económica, social e cultural do arquipélago.

A autonomia constitucional de 1976 alterou profundamente essa relação. Pela primeira vez, os açorianos conquistaram instrumentos efetivos de autogoverno democrático e uma dimensão muito para além de uma mera mudança administrativa. Representou a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, com maior conhecimento da realidade concreta das ilhas, das suas fragilidades e potencialidades.

Os resultados são visíveis. A autonomia permitiu modernizar infraestruturas, expandir o acesso à educação e à saúde, melhorar transportes, criar instrumentos de apoio social e afirmar uma presença política própria no contexto nacional e europeu. Permitiu também consolidar uma identidade açoriana aberta, plural e integrada na República, desmontando receios antigos que confundiam autonomia com separatismo.

Mas a autonomia não vive apenas das conquistas do passado. O degaste, o descrédito e a persistência de problemas estruturais afastam as populações do projeto autonómico, e alguns dos agentes políticos deixaram de se interrogar criticamente a si próprios.

Cinco décadas depois, é legítimo perguntar se a autonomia tem conseguido responder às transformações profundas do nosso tempo. Em muitos momentos, a máquina autonómica reproduziu vícios do centralismo que dizia combater: excessiva partidarização das instituições, dependência económica estrutural, concentração de decisões, crescimento de clientelas políticas e dificuldade em promover uma participação cívica mais exigente e permanente.

A autonomia trouxe capacidade de decisão, mas persistem dependências excessivas do exterior, fragilidades produtivas, desigualdades sociais, pobreza e um preocupante envelhecimento demográfico agravado pela emigração de jovens qualificados. Em algumas ilhas, sente-se o risco silencioso da desertificação humana.

Os próximos anos exigirão mais do que a simples celebração simbólica da autonomia. Os Açores terão de pensar um novo equilíbrio entre desenvolvimento económico e preservação ambiental; entre turismo e sustentabilidade; entre modernização e coesão social; entre abertura ao mundo e defesa da sua singularidade cultural.

O maior desafio talvez seja este: impedir que a autonomia se transforme apenas numa estrutura administrativa habituada a gerir dependências. Porque a autonomia, no seu sentido mais profundo, não se resume à governação de rotinas para perpetuação no poder. É possuir capacidade coletiva para imaginar futuro.


Ponta Delgada, 25 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 27 de maio de 2026

quarta-feira, 13 de maio de 2026

duas Europas

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A União Europeia (UE) celebra-se a si própria envolta numa narrativa de paz, integração e democracia, a cada 9 de maio. Estrelas douradas em fundo azul, num espaço onde o discurso da paz convive, cada vez mais, com a lógica do rearmamento, se cerceiam liberdades e onde a qualidade da democracia é, direi, duvidosa. A 9 de maio celebra-se a chamada “ideia europeia”, nascida da Declaração Schuman de 1950, apresentada como resposta civilizacional às ruínas da guerra. Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.

Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.

A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi.

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Durante décadas, porém, o Ocidente construiu uma narrativa da Segunda Guerra Mundial cada vez mais centrada em si próprio. O desembarque da Normandia tornou-se o grande símbolo cinematográfico e político da libertação da Europa, enquanto o contributo soviético foi sendo remetido para um plano secundário ou tratado com desconforto ideológico. A Guerra Fria ajudou a consolidar essa leitura. Tornava-se difícil reconhecer plenamente o papel histórico da URSS ao mesmo tempo que ela era apresentada como principal inimigo do mundo ocidental.


Após o colapso da URSS, a questão tornou-se ainda mais complexa e foi-se consolidando o apagamento da memória e a reescrita da história numa tentativa de distorcer o essencial, ou seja, sem o sacrifício dos povos soviéticos, a derrota do nazismo teria sido incomparavelmente mais difícil e certamente se prolongaria mais no tempo.

A UE prefere hoje construir a sua legitimidade histórica a partir da reconciliação franco-alemã, da integração económica e dos valores liberais do pós-guerra. É uma escolha política que na prática se traduz no empobrecimento da memória quando a história é reduzida ao que convém ao presente. A Europa institucional celebra-se a si própria enquanto se afasta da memória concreta daqueles que pagaram o preço mais elevado para derrotar o Terceiro Reich.

A Federação Russa celebra o legado da União Soviética e utiliza-o para que a memória não seja apagada e a história reescrita, contrariando a relativização ou mesmo o silenciamento do papel da URSS, pela UE, na derrota da barbárie nazifascista. Como se o presente pudesse reescrever retroativamente o passado. A história exige mais rigor do que alinhamentos conjunturais. Não é necessário glorificar o sistema político da União Soviética para reconhecer a dimensão decisiva do Exército Vermelho na derrota do fascismo europeu. 

No fundo, o 9 de maio revela duas Europas: a que se celebra a si própria e a que foi construída sobre milhões de mortos que, pouco a pouco, parecem desaparecer na memória oficial no Ocidente.

Ponta Delgada, 11 de maio de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 13 de maio de 2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Autonomia: nome e caminho

A Constituição de 1976 deu nome ao que já existia em surdina: a autonomia. Não como concessão, mas como conquista. Uma conquista filha direta do mesmo gesto que devolveu aos portugueses a palavra e o direito de a usar. Antes disso, os Açores viviam encostados ao limite. Uma economia de subsistência, ancorada na terra e no mar; uma indústria quase ausente, e a emigração como destino repetido, tantas vezes a única saída possível. Partia-se como quem respira, por necessidade.

As ilhas estavam distantes. A escola era curta, a saúde escassa, as ligações incertas. E havia um país, que nem sempre, ou quase nunca, chegava.

Depois, veio o tempo da construção. A autonomia abriu caminhos, a Europa trouxe meios, e o arquipélago começou a desenhar outro retrato de si. Mais escolas, mais hospitais, mais portos e aeroportos. Uma economia que, devagar, se vai soltando das amarras antigas. Mas crescer não é o mesmo que equilibrar.

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As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.


Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas.

Abril abriu a porta. Mas atravessá-la continua a ser tarefa inacabada. Há uma autonomia que existe nos textos, outra que vive nos discursos, e uma terceira, esta mais exigente, que só ganha forma na prática quotidiana, nas decisões que não se adiam, nas escolhas que não se delegam. É essa autonomia que ainda falta cumprir por inteiro. Talvez porque a autonomia não se decreta: constrói-se. E constrói-se devagar, como tudo o que importa, com memória, com consciência, com conflito também.

foto de Aníbal C. Pires
O desígnio inicial, o de um desenvolvimento harmonioso de todas as ilhas permanece, em parte, por realizar. E é nesse desfasamento, entre o que fomos capazes de fazer e o que ainda não ousámos ser, que a autonomia se revela, não como herança, mas como responsabilidade.

No fundo, a pergunta permanece simples e difícil: o que queremos fazer com a liberdade que conquistámos?  O verdadeiro sentido da liberdade conquistada em Abril realiza-se quando a autonomia deixa de ser apenas estatuto político e se converta em projeto coletivo, um projeto de cidadania consciente, solidariedade entre ilhas e afirmação plena da açorianidade no espaço português e atlântico.

A autonomia conquistada após o 25 de Abril foi um marco decisivo: deu forma institucional a uma identidade que até então era mais cultural e afetiva, contudo, podemos argumentar que essa autonomia política ainda não se traduziu plenamente numa consciência cívica e cultural consolidada. A identidade açoriana, dir-se-ia, está afirmada no discurso, na simbologia e na afetividade, mas menos consolidada na prática política e no projeto de desenvolvimento, muitas vezes dependente de lógicas externas e de subserviências internas.

Ponta Delgada, 27 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de abril de 2026

domingo, 19 de abril de 2026

para além do índice

imagem retirada da internet
O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) volta a colocar em evidência as assimetrias estruturais que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tende a suavizar, por ser um indicador que não pode ser lido apenas a partir da tabela que ordena os países conforme o seu IDH. O exemplo dos Estados Unidos e do Irão é, a este respeito, particularmente revelador.

Os Estados Unidos mantêm uma posição cimeira no IDH, sustentada por um elevado rendimento nacional bruto per capita, níveis médios de escolaridade relativamente elevados e uma esperança média de vida, igualmente alta, contudo, esta posição deve ser lida com cautela. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição do rendimento, revela um país marcado por profundas clivagens sociais. A concentração de riqueza distorce o impacto real do rendimento médio, criando uma imagem de prosperidade que não se traduz de forma homogénea nas condições de vida da população. Acresce que, em indicadores como a esperança média de vida, os Estados Unidos têm registado estagnações e até retrocessos, em parte associados a desigualdades no acesso à saúde, fenómenos de exclusão e crises sociais persistentes.

O Irão, por seu lado, apresenta um IDH inferior, ainda que seja considerado pelo PNUD, como sendo “Alto”, penalizado por um rendimento per capita significativamente mais baixo que o dos Estados Unidos, porém, quando se analisam isoladamente as componentes da educação e da saúde, o quadro revela maior complexidade. Apesar de mais de quatro décadas de sanções económicas internacionais, o país conseguiu desenvolver sistemas de educação e cuidados de saúde com resultados relativamente no contexto regional e, em alguns indicadores, comparáveis a padrões internacionais de desenvolvimento elevado. A taxa de literacia, a expansão do ensino superior e indicadores de saúde pública demonstram uma capacidade de lidar de forma positiva com as condições adversas que lhe foram impostas externamente que o IDH, centrado numa média agregada, tende a subvalorizar.

sem abrigo em LA - imagem retirada da internet

É aqui que o coeficiente de Gini introduz um elemento crítico de leitura: o Irão apresenta níveis de desigualdade inferiores aos dos Estados Unidos. Tal não significa ausência de desigualdades, mas indica uma distribuição relativamente menos concentrada do rendimento. Assim, embora sem um rendimento comparável aos Estados Unidos, a sociedade iraniana revela maior coesão interna no acesso a bens essenciais.


A questão das sanções é incontornável. Durante mais de quarenta anos, o Irão tem enfrentado restrições severas ao comércio internacional, ao investimento e ao acesso a tecnologias. Estas limitações tiveram impactos diretos no crescimento económico e, por consequência, no rendimento per capita uma das variáveis centrais no cálculo do IDH, frequentemente decisiva na diferenciação entre países. Ainda assim, o país conseguiu manter níveis razoáveis de desenvolvimento humano em áreas-chave, o que sugere que políticas públicas orientadas para a educação e a saúde mitigaram os constrangimentos externos.

Em suma, a comparação entre Estados Unidos e Irão evidencia os limites do IDH enquanto medida isolada de avaliação do desenvolvimento. Quando complementado pelo coeficiente de Gini e contextualizado por fatores históricos e políticos, como o regime de sanções, emerge uma leitura mais densa e menos linear: a de que desenvolvimento não é apenas riqueza média, mas também a sua distribuição e a capacidade de resistência perante constrangimentos externos.

Ponta Delgada, 13 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 15 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

humanidade à deriva

Francesca Albanese - imagem retirada da internet
Não é de hoje esta sensação, não é possível precisar quando, mas o mundo, tal como o lia e compreendia, deixou de fazer sentido. E não falo apenas de mudanças geopolíticas ou de ciclos históricos previsíveis, mas de algo mais profundo: uma inversão dos valores. A mentira ganhou estatuto de narrativa oficial, e a impunidade, antes camuflada, apresenta-se agora como norma. 

Um dos casos mais brutais desta deriva é o projeto colonial do estado sionista na Palestina, sustentado política, militar e moralmente pelo chamado mundo ocidental, esse mesmo que se proclama guardião dos direitos humanos. Em nome desses “valores”, legitima-se o genocídio do povo palestiniano, enquanto se tenta silenciar quem denuncia o inominável. A Relatora Especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, uma das vozes mais consequentes na denúncia da barbárie sionista, é agora alvo de sanções e pedidos de afastamento por países como França e Alemanha. Não se pune o crime contra a humanidade, tenta silenciar-se a mensageira.

Mas este não é um caso isolado. Há décadas que Cuba vive sob um embargo ilegal, condenado repetidamente pela comunidade internacional, mas mantido, com requintes de crueldade, pelos Estados Unidos. Hoje, a asfixia chega ao ponto de se tentar impedir o envio de petróleo para a ilha. Cuba, que exporta médicos e não bombas, que pratica a solidariedade como política externa, é tratada como ameaça. Não por aquilo que faz, mas pelo exemplo que representa: o de um país pequeno que insiste em viver fora da lógica do medo e da submissão e que não abdica da sua soberania.

imagem retirada da internet

A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram.

imagem retirada da internet
A normalização do absurdo é aceite sem nos questionarmos. Veja-se a Síria e o processo acelerado de lavagem de imagem de Al Julani, ontem classificado como terrorista, hoje recebido como chefe de Estado em respeitáveis chancelarias por esse mundo fora. A memória é curta, a conveniência é longa, e a ética tornou-se descartável.

Tudo isto aponta para um mesmo lugar: um mundo onde a força substituiu o direito, onde a narrativa venceu os factos, onde a lei se aplica apenas aos frágeis. Um mundo em que a exceção passou a ser a justiça. Talvez o mais inquietante não seja a barbárie em si, mas a forma serena, quase burocrática, com que é administrada. Como se tudo isto fosse normal. Como se tudo isto fosse aceitável. Estes são apenas alguns exemplos, mas julgo que deveriam ser suficientes para nos preocuparem e nos fazerem agir. 

Ponta Delgada, 16 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

as palavras não resolvem

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Não é a primeira vez que abordo o assunto. Num outro contexto grafei a minha opinião como se fora uma breve introdução a um assunto distinto, porém foi suficiente para que a minha posição ficasse percebida e motivasse algumas reações de discordância. Hoje volto ao tema com mais vagar, consciente de que se trata de um terreno sensível, onde as boas intenções convivem, muitas vezes, com equívocos difíceis de desconstruir, pois, o tema vai muito para além das palavras com que compomos o discurso. Tenho consciência que, uma vez mais, serei alvo de desacordo o que é salutar, pois, estes textos pretendem isso mesmo: a reflexão e a divergência.

Falo da chamada linguagem inclusiva ou neutra. Um debate que ganhou espaço público, atravessou salas de aula, documentos oficiais, discursos políticos e até conversas banais, dessas que podem começar com um simples: “boa noite”.

imagem retirada da internet


Confesso que, em determinado momento, cheguei a recorrer a algumas dessas fórmulas. Não por convicção profunda, mas por pragmatismo: evitava apartes, olhares reprovadores, discussões laterais que desviavam a atenção do essencial. Era uma espécie de taxa de portagem discursiva, eu pagava e seguia caminho.


A questão tem a sua génese quando a linguagem, em vez de abrir, complica; em vez de incluir, fragmenta. Dizer “boa noite a todos e a todas” parece, à primeira vista, um gesto de cuidado e de respeito pelos géneros. Contudo, se o argumento for levado até às últimas consequências, ele revela uma armadilha: ao nomear explicitamente o masculino e o feminino, acabam por ficar de fora as pessoas que não se reconhecem em nenhum desses géneros, ou seja, a expressão que pretendia ser inclusiva, exclui. A solução que se vai vulgarizando é, então, acrescentar mais uma camada: “… a todos, a todas e a todes.”, ou optar simplesmente por “boa noite a todes”, como se a palavra, por si só, pudesse resolver uma questão que é social, cultural e profundamente humana.

É aqui que a língua começa a tropeçar em si própria. Do ponto de vista linguístico, a palavra “todos” já cumpre a função de incluir sem discriminar. Não por ser perfeita, mas por ser uma convenção funcional, construída ao longo do tempo, que não pergunta pelas identidades nem exige explicações. “Todos” não exclui, integra. Não classifica, é abrangente. A língua portuguesa, como tantas outras, funciona com géneros gramaticais que não coincidem, necessariamente, com géneros identitários. Confundir uma coisa com a outra é exigir à gramática aquilo que pertence ao campo da ética, da política e do respeito social.

imagem retirada da internet
Há, neste debate, uma tentação recorrente: acreditar que mudar as palavras é suficiente para mudar o mundo. Como se as injustiças se corrigissem por decreto linguístico, como se a exclusão se resolvesse pela introdução de uma vogal alternativa. O risco é evidente: substitui-se a reflexão profunda por um exercício formal, quase como um ritual, que tranquiliza consciências, mas pouco altera a realidade que exclui.

A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade.

Talvez valha a pena regressar ao essencial: falar com respeito, agir com dignidade, reconhecer o outro na sua singularidade, ou seja, sem exigir à língua aquilo que cabe à sociedade transformar. Porque, para todos os efeitos, um cumprimento dito com atenção e verdade inclui sempre mais do que qualquer fórmula cuidadosamente ensaiada. E isso, curiosamente, a língua já sabia antes de nós. Não são as palavras, é a atitude e o respeito pela diferença que verdadeiramente importa.

Ponta Delgada, 2 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 4 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

a personalização

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Não sendo de agora, mas é no tempo presente que a perceção da História contemporânea se reduz até caber apenas num rosto. Um rosto para odiar, outro para reverenciar. Um nome próprio basta para explicar guerras, crises económicas, colapsos democráticos ou atentados que abalam consciências. Ao reduzir processos complexos a um protagonista simplificam-se os acontecimentos, acelera-se o consumo mediático e presenteia-se a opinião pública com uma figura clara para amar ou odiar. Tudo isto pode ser confortável, mas é profundamente ardiloso e, sobretudo, induz a perceção de uma falsa realidade.

A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora.

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Desde então, habituámo-nos a esperar. Esperamos pelo líder forte, pelo salvador improvável, pelo homem providencial que, sozinho, resolverá o que milhões não conseguiram sequer discutir. A comunidade observa, sentada, agradecida, convencida de que o seu papel é aplaudir no final, se houver um final feliz o que, como a História nos mostra, não é bem assim.

Não vai a tribunal, não concede entrevistas, não pede desculpa. Permanece, intacto, enquanto trocamos protagonistas como quem inicia mais uma temporada de uma série televisiva. Em tudo isto há uma cruel ironia, melhor dizendo, quanto mais se exalta o indivíduo excecional, mais se educa a impotência coletiva. Quanto mais se celebra o herói, mais se normaliza a ideia de que nada depende de nós. A ação coletiva parece sempre insuficiente, lenta, enfadonha e incapaz de competir com o brilho do salvador solitário.

E, assim, a política foi-se transformando em entretenimento, a cidadania em plateia, e a democracia num género narrativo instável, sujeito a audiências. Já não se pergunta: como vamos mudar o mundo, mas quem será o próximo a tentar fazê-lo por nós!? Os super-heróis ensinaram-nos muitas coisas. Treinaram-nos, sobretudo, a olhar para cima, enquanto nos mantemos inertes abdicando de exercer os direitos e deveres de cidadania, e deixando de participar na vida coletiva das nossas comunidades.

Donald Trump tornou-se, para muitos, a explicação total da degradação democrática dos Estados Unidos. Como se antes dele não existisse um complexo militar-industrial, uma financeirização extrema da política, as grandes corporações, um sistema eleitoral disfuncional ou uma longa tradição de ingerência externa. O resultado está à vista de todos: critica-se o personagem e preserva-se o que realmente está na origem da deterioração da democracia. Isto é válido para os Estados Unidos, como para outros países. 

imagem retirada da internet
Por outro lado, Maduro cumpre uma função semelhante. A crise venezuelana é frequentemente apresentada como produto exclusivo de um homem, apagando décadas de dependência estrutural do petróleo, bloqueios económicos, sanções internacionais e disputas geopolíticas que excedem largamente qualquer figura individual. O líder transforma-se no bode expiatório conveniente: concentra a culpa e absolve o contexto.

Hannah Arendt lembrava que o mal, muitas vezes, não nasce de monstros, mas da normalização de estruturas que funcionam sem pensamento crítico. A personalização, ao contrário do que parece, não combate essa banalidade, reforça-a. Porque desloca o olhar do sistema para o indivíduo, do processo para o gesto isolado.

O mesmo mecanismo reaparece nos grandes crimes políticos. O assassino de Kennedy, ou o autor do atentado de Oklahoma, são apenas dois exemplos do “lobo solitário” de cada época. A figura do indivíduo perturbado encerra rapidamente a narrativa, transforma o trauma político em caso policial e impede perguntas mais incómodas. Não se investiga o clima, as redes, as cumplicidades, os discursos que prepararam o terreno. O crime é tratado como um desvio, nunca como sintoma do sistema. Não se trata de negar a responsabilidade pessoal. Trata-se de reconhecer a sua insuficiência. A responsabilização individual, quando isolada, funciona como técnica de contenção: oferece indignação, punição e catarse moral, mas deixa intactas as engrenagens que tornam os acontecimentos repetíveis. Muitos outros exemplos poderiam ser referenciados, mas fiquemo-nos por aqui.

Como escreveu Michel Foucault, o poder raramente se concentra num ponto; circula, infiltra-se, reproduz-se. Dar-lhe um rosto é uma forma eficaz de o tornar invisível. Direi eu, que é a forma mais eficaz, perante uma opinião pública cada vez mais atomizada e acrítica, de conferir invisibilidade aos mandantes. Enquanto insistirmos em procurar protagonistas, continuaremos a mudar os nomes próprios e a manter os mecanismos. E o sistema, esse, seguirá tranquilo, sem rosto e sem culpa.  Apontamos o dedo ao indivíduo e o sistema continua a escrever a História com mãos invisíveis.

imagem retirada da internet

Uma leitura marxista ajuda a compreender por que razão esta personalização é, não apenas recorrente, mas funcional. O capitalismo, enquanto modo de produção, precisa de ocultar as relações sociais que o sustentam. Precisa de esconder a exploração atrás da troca, a dominação atrás do contrato, o poder atrás da aparência de escolha individual. A figura do protagonista, herói ou vilão, cumpre aqui um papel central: desloca a análise da estrutura para o sujeito, da classe para o indivíduo, das relações de produção para o comportamento pessoal.

Marx lembrava que os homens fazem a sua própria História, mas não o fazem em circunstâncias escolhidas por si. A narrativa dominante inverte esta formulação: apresenta as circunstâncias como neutras, inevitáveis, naturais, e, os indivíduos como causa última de tudo o que acontece. Assim, o sistema económico deixa de ser histórico e passa a ser paisagem; deixa de ser questionável e passa a ser um dado adquirido. Criticam-se líderes, governantes ou executores, mas raramente se questiona a lógica que os produz, os seleciona e, quando necessário, os descarta. Nesta perspetiva, a personalização é uma poderosa ferramenta ideológica. Ela fragmenta a consciência social, impede a leitura de classe, dissolve a noção de interesse coletivo. Cada crise aparece como exceção, cada abuso como desvio, cada tragédia como erro humano e nunca como uma consequência previsível de um sistema organizado em torno da acumulação, da desigualdade e da mercantilização da vida. O capital permanece anónimo, difuso, irresponsável. Não tem rosto porque não deve tê-lo.

Talvez por isso a crítica verdadeiramente incómoda continue a ser aquela que insiste em desviar o olhar do indivíduo para as estruturas, do gesto isolado para a engrenagem que o torna possível. Enquanto apontarmos o dedo a protagonistas, continuaremos a errar o alvo. A História contemporânea não é escrita por heróis solitários, mas por sistemas concretos, interesses materiais e correlações de força que raramente se deixam ver, não sobem ao palco, não pedem aplauso nem absolvição. Limitam-se a continuar, silenciosos, a escrever a História, com mãos invisíveis e contando com a nossa alienação. Mas não é inevitável que assim seja, a História também é escrita pelos povos.

Ponta Delgada, 20 de janeiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de janeiro de 2026