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imagem retirada da internet |
Não terei sido apenas eu, mas foi com alguma surpresa que me apercebi do rápido avanço das forças que derrubaram o poder instituído na Síria, mesmo considerando a capacidade e eficácia dos seus poderosos patrocinadores no derrube governos e a promoção dos seus apaniguados para a assunção do poder. Esta minha perplexidade fica a dever-se ao meu desconhecimento da deterioração interna Síria, após o acordo Astana o que, não sendo só, justifica a fraca resistência das forças armadas sírias e o reduzido apoio popular ao governo e ao presidente sírio agora depostos.
A alteração das relações de poder nesta sensível zona do globo é complexa e preocupante pois, vem somar mais precariedade a uma região que tem vivido em permanente instabilidade. A apreensão quanto aos desenvolvimentos e às implicações nos países do médio oriente, mas também no Mundo, aumenta pela exposta incapacidade de intervenção de organismos como as Nações Unidas na mediação de conflitos, alguns deles por procuração de interesses, aliás como é o conflito sírio que só teve este rápido desfecho pela intervenção direta ou indireta dos Estados Unidos, do estado sionista e da Turquia, mas também a mãozinha da União Europeia.
Os acontecimentos na Síria continuam a desenrolar-se com uma inusual rapidez, o que pressupõe, que tudo o que aconteceu nos últimos dias era esperado e resultou de uma cuidada preparação, eu diria que, face ao que a cada momento tem vindo a público, a única variável que terá surpreendido tudo e todos foi a celeridade a que os eventos se sucederam. Estou a escrever este texto no dia 8 de dezembro, Damasco foi tomada, Bashar al-Assad saiu do país e correm rumores, ainda não confirmados, que o avião onde viajava terá sido abatido, ou terá sofrido um acidente e o ex-presidente sírio terá morrido, afinal já chegou a Moscovo e foi-lhe concedido asilo, no norte da Síria as milícias pró turcas confrontam-se com os kurdos, o estado sionista que dá pelo nome de Israel, invadiu território sírio a partir dos Montes Golan e tem estado a bombardear instalações militares abandonadas e infraestruturas industriais que produziam material bélico. As forças armadas dos Estados Unidos e as bases militares russas permanecem em território sírio, sendo que os russos poderão, por iniciativa própria, retirar-se da base aérea de Hmeymim e da base naval de Tartus, quanto aos efetivos militares dos Estados Unidos, um dos países beneficiados com a chegada ao poder dos grupos jihadistas, permanecerão naquele território até que por ali tenham interesses.
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Al-Julani - antes e agora (imagem retirada da internet |
Um olhar, ainda que ligeiro, para a cartografia da região onde se situa a Síria é elucidativo do que se “joga” naquele tabuleiro geopolítico, de quem beneficia e de quem fica em desvantagem. Se a região já era um barril de pólvora com este novo cenário o que se pode dizer é que o pavio ficou mais curto e o perigo de deflagração é agora muito maior. Mas sobre a questão Síria, em tudo semelhante a outros processos, nada mais acrescentarei a não ser reforçar a minha inquietação sobre o futuro próximo, não só na Síria, mas em relação aos efeitos perniciosos que se irão repercutir nos países da vizinhança e no Mundo, tal como aconteceu depois das intervenções ocidentais, diretas ou por procuração, no Afeganistão, no Iraque e na Líbia.
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imagem retirada da internet |
A situação internacional degrada-se a passos largos e, para além da Síria, da Palestina, do Líbano, da Ucrânia, da Geórgia e da Roménia, para referir apenas os casos que têm dominado as agendas mediáticas, existem muitos outros focos de tensão que alimentam a guerra híbrida em curso e demonstram, à saciedade, que o colonialismo e o imperialismo de novo tipo não desiste de manter os seus privilégios a qualquer preço.
A minha inquietação sobre o futuro próximo impede que o estado de espírito natalício se instale, não sei mesmo se serei capaz de formular os habituais votos de Boas Festas que caraterizam esta quadra de celebração da natalidade e da entrada num novo ciclo anual. A cada ano que passa as quadras festivas perdem, para mim, significado pelas razões já expostas, mas também pela mercantilização das crenças e dos afetos num processo de onde o humanismo está arredado, só serve como estratégia de marketing, ou seja, para promover o consumo e uma sensação temporária de bem-estar. Depois, bem depois tudo se esvai com os primeiros dias de janeiro.
Gosto de me sentar para escrever e, por norma, trago já o tema estruturado mentalmente. Tenho procurado afastar-me dos assuntos da política regional, nacional e internacional. Hoje não foi o caso, nem foi prazeroso, não segui a estrutura mental que tinha desenhado para este escrito e não guardei distanciamento temporal em relação ao assunto sobre o qual deixei alguns factos e juízos. É sempre um risco, ou melhor um risco acrescido pois, publicar opinião, por mais inócua que seja, e expor as nossas cogitações quando pensamos fora do padrão é sempre arriscado e pouco popular. Quanto aos perigos, não os temo e, não troco a minha liberdade e o direito ao pensamento crítico por popularidade.
Ponta Delgada, 10 de dezembro de 2024
1 comentário:
A festa de 'libertação' durou menos de 24 horas: as mulheres-juízes foram de imediato demitidas.
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Sim, quando existe interesse geo-político, os boys&girls do ocidentalismo mainstream cag@m para os direitos das mulheres:
- foram financiados (e fornecidas armas) a jihadistas no Afeganistão... quando os soviéticos saíram... foi o que se viu...
- foram financiados (e fornecidas armas) a jihadistas na Síria... depois de Bashar al-Assad cair...
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