A União Europeia (UE), organização política à qual pertencemos - embora nunca nos tenham questionado se queríamos -, tem vindo a trilhar um caminho cada vez mais semelhante a um regime, onde a democracia e a liberdade de expressão não passam de meras formalidades nos tratados e na propaganda oficial, pois o seu exercício está cerceado e, quem não seguir a narrativa do mainstream arrisca-se sofrer graves penalizações, seja pela prisão, seja pela repressão policial, seja pela ostracização e pelo silenciamento mediático, seja pelo empobrecimento controlado com políticas assistencialistas que é uma das mais eficazes armas de controle e domínio dos poderes para manter a letargia. E é, também, pela indução do espetro da insegurança e do medo que melhor nos vão controlando, como se tem constatado nas últimas semanas com todos os apelos à guerra acenando, uma vez mais, com o perigo russo.
Pablo Hasel, rapper catalão, preso, há mais de quatro anos, acusado de um crime que mais não passa do que o exercício da liberdade de expressão. Não é caso único.
Pablo Gonzalez, cidadão com nacionalidade espanhola e russa, conceituado jornalista, preso em 2022 na fronteira entre a Polónia e a Ucrânia suspeito de trabalhar para os serviços de informação russos, facto do qual nunca veio a ser formalmente acusado, as condições desumanas do seu encarceramento foram objeto de denúncias internacionais, sem que Espanha ou a UE, tenham tomado qualquer posição. Pablo Gonzalez foi libertado como parte de uma troca de prisioneiros entre a Rússia e alguns países da União Europeia.
Nem sempre trago exemplos concretos, mas hoje deixei alguns que sustentam parte do que já foi dito e poderia até ter falado de Julian Assange, mas como se percebeu nem sequer foi necessário para que o assunto fique bem sustentado.
O espaço da UE não é, direi eu, um espaço de liberdade pois, foi em nome da liberdade de expressão se proibiu a difusão de alguns órgãos de comunicação social retirando aos cidadãos a possibilidade de ouvirem e verem outros relatos e formarem opinião própria. Não fossem os meios alternativos de busca de informação e teríamos ficado pela narrativa de Ursula Von der Leyen, Borrel e agora Kaja Kallas que, para além de parcial, imprecisa e revisionista, é belicista, como se a guerra fosse, porventura, um caminho para andar.
Os leitores mais atentos já estarão a pensar, não é bem como dizes, ainda recentemente o Tribunal Europeu para os Direitos Humanos acusou as autoridades ucranianas de não investigarem e de não protegerem as vítimas do Massacre de Odessa, em 2 de maio de 2014. É verdade, só peca por ser tarde e surge no atual contexto de abandono de algumas pretensões ucranianas, como por exemplo a sua entrada na OTAN. O Massacre de Odessa e outros eventos provocados por hordas de neonazis serviram de detonadores à guerra civil ucraniana que, como se sabe se iniciou em 2014. No dia 2 de maio de 2014, em Odessa, foram assassinados 40 cidadãos, alguns queimados vivos, dentro da Casa dos Sindicatos onde se tinham refugiado.
O mundo está em estado de alienação, em particular o mundo que politicamente se alinha com o nazismo e o sionismo, perdoem a redundância. Soube-se a semana passada que o estado sionista e alguns dos académicos que o veneram e dele fazem parte propuseram Daniela Weiss como candidata ao Nobel da Paz. É sempre bom referir, antes de ser acusado de antissemita, que respeito a religião judaica, como respeito a cristã, ou a muçulmana, não se trata, nem nunca se tratou de uma questão de ordem religiosa. O sionismo é uma ideologia ancorada na supremacia de um povo sobre outros, por outro lado o termo semita está ligado à linguística, ou seja, às línguas semitas que, também, como todos sabemos não é exclusiva de um povo.
Mas quem é esta personalidade vinda do mundo do sionismo!? Pois bem, Daniela Weiss é uma líder dos colonos sionistas na Cisjordânia e que produz declarações como esta: "Os árabes não ficarão em Gaza, África é muito grande. Permitiremos que se vão e querem ir-se porque ninguém quer viver um inferno. Chamem-lhe limpeza étnica, apartheid ou que queiram”. Sabendo-se do histórico de atribuição deste Nobel da Paz a personalidades que fomentaram a guerra e são responsáveis por milhões de mortos nada me espantará, contudo, vamos aguardar tranquilamente por outubro quando for divulgado a personalidade a quem a será entregue o prémio. Não arrisco vaticínios, mas nos tempos que correm já nada surpreende.
Já vivi o suficiente para ver gente que ascendeu politicamente na luta por causas justas, como por exemplo Javier Solana que de pacifista chegou a Secretário-geral da OTAN e foi durante o seu mandato que a Jugoslávia foi bombardeada e fragmentada, mais tarde foi Alto Representante da União Europeia para a Política Externa e Segurança, onde o seu trabalho foi de continuidade e subserviência aos interesses dos Estados Unidos. Solana não é único, veio-me agora à memória a atuação da atual ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, sobre a qual há imensos memes, como por exemplo a conhecida mudança de 360 graus, e alguns desagrados como aquando da sua visita à democrática Síria em que al Julani, este saudita muda de nome com frequência, não a cumprimentou por ser mulher. Annalena Baerbock, assim se chama a ministra, é dirigente dos verdes alemães e, naturalmente, foi uma destacada militante pela paz, contra a presença militar da Alemanha no exterior e contra a lógica das alianças militares, mormente, a OTAN. A militância pela paz foi um dos pilares que catapultaram os verdes alemães para a ribalta política. Veja-se a atuação do demitido governo e, em particular, de Annalena Baerbock para que se constate o quão longe vão os tempos da sua luta pela paz e contra o militarismo. Solana e Annalena são do grupo dos invertebrados que pululam nas famílias partidárias, ditas de esquerda, mas que quando é necessário são suficientemente maleáveis para defender tudo e o seu contrário, sempre em nome, pois está claro, do pragmatismo e do politicamente correto.Já que me referi à Síria não posso deixar de referir a dualidade de critérios da política externa da UE e da comunicação social de referência na avaliação do que tem vindo suceder. O tal saudita - agora presidente da Síria -, que já deu pelo nome de al Julani e o seu governo tem vindo a massacrar as populações cristãs e alauitas, mas como dizia al Julani chegou a estar convidado para Bruxelas, pela presidente da Comissão Europeia, para uma reunião no dia 17 de março, este encontro só não se vai realizar na data aprazada devido à divulgação dos massacres perpetrados pelo regime de al Julani sobre as minorias religiosas e culturais sírias. Se isto não é o topo da hipocrisia, pouco faltará para o atingir.
Muitos outros exemplos deste regime dirigido por Ursula von der Leyen e António Costa - ambos sem escrutínio popular -, poderiam ser abordados para demonstrar que este é um espaço onde a liberdade de expressão tem margens muito apertadas e os protagonistas políticos não passam de marionetas manipuladas pelos oligopólios financeiros muitos deles sedeados fora deste espaço e pouco, ou nada, têm a ver com os interesses dos povos. Aos gritos de guerra dos dirigentes da UE sobrepõem-se as denúncias das assimetrias entre os países membros e os quase 20% da população em situação de pobreza ou à beira dela.
Ponta Delgada, 18 de março de 2025
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