A leitura parece imediata: saiu a Ryanair, e o turismo caiu a pique. E, em parte, é verdade; a diminuição do número de passageiros e a consequente baixa nas dormidas deve-se, em parte, ao abandono daas rotas açorianas por aquela transportadora aérea de baixo custo., aliás seria um absurdo negar o impacto que a saída de uma companhia que durante uma década assegurou ligações de baixo custo entre São Miguel, Terceira, Lisboa e Porto teria no movimento turístico da Região. Entre abril e agosto de 2026 desembarcaram nos aeroportos açorianos menos 103.766 passageiros do que no mesmo período de 2025.
Mas uma coisa é reconhecer esse impacto; outra, bem diferente, é transformar o abandono das rotas açorianas pela Ryanair na explicação para a diminuição da procura do destino Açores.
Há um pequeno pormenor que talvez merecesse mais atenção: a quebra das dormidas começou em outubro de 2025, vários meses antes de a Ryanair abandonar os Açores. Em julho, registou-se a décima redução homóloga consecutiva. E, entre abril e julho, os alojamentos turísticos contabilizaram menos 71.627 dormidas, sendo que 62 mil dessa redução correspondem a turistas residentes nacionais.
Ou seja, a saída da Ryanair agravou uma tendência que já vinha de trás. Não a criou.
Também por isso me parece excessivamente linear estabelecer uma relação direta entre a diminuição do turismo açoriano e o aumento do turismo na Madeira. É possível constatar que os dois destinos tiveram evoluções diferentes, mas daí a concluir que os turistas que deixaram de vir aos Açores passaram a escolher a Madeira vai uma distância que os dados disponíveis não permitem, de todo, justificar.
Há outras razões que não podem ser ignoradas. Vivemos num contexto internacional marcado pelo aumento dos custos da energia, pela inflação e pelo encarecimento do dinheiro, com efeitos sobre o rendimento disponível das famílias. E, quando viajar deixa de ser uma prioridade para uma parte dos potenciais viajantes, os destinos com as caraterísticas dos Açores são os primeiros a sentir essa retração.
Mas há também uma pergunta que devemos fazer sobre nós próprios. Quanto custa hoje passar férias nos Açores?
Ao preço da viagem aérea juntam-se o alojamento, a restauração, o aluguer de automóvel e as restantes despesas associadas à estadia. Um destino insular, periférico e dependente do transporte aéreo não pode ignorar o preço global que apresenta ao visitante, e como todos sabemos o alojamento, a restauração e o aluguer de viaturas têm vindo a encarecer, de forma significativa, o destino Açores.
Os números de julho são, a este propósito, reveladores: as dormidas diminuíram 2,2%, mas a quebra foi de 7,8% entre os turistas nacionais, enquanto entre os estrangeiros foi de apenas 0,9%. E, apesar da diminuição das dormidas, a hotelaria aumentou as receitas.
Talvez seja, pois, tempo de deixarmos de discutir o turismo apenas em função do número de turistas que chegam aos Açores, aliás sempre me pareceu um critério redutor e, sobretudo, perigoso para a competitividade e sustentabilidade do destino. Mais turistas não significam necessariamente mais riqueza, mais desenvolvimento ou maior benefício para as populações.
Os empresários têm razão quando alertam para as consequências da saída da Ryanair. Têm também razão quando questionam a capacidade do Governo Regional para encontrar alternativas. Mas as respostas, ou exigências, não podem resumir-se ao retorno de transportes aéreos de baixo custo, ou ao já criado Fundo de Desenvolvimento de Rotas Aéreas, ou ainda ao substancial reforço da dotação pública para a promoção do destino, que deverá atingir 17,2 milhões de euros em 2027.
Se a discussão continuar dentro destes parâmetros continuamos a evitar a questão central.
Porque não estimular operadores turísticos açorianos com dimensão suficiente para negociar, de forma integrada, com companhias aéreas a realização de voos charter e, com a hotelaria, o alojamento local, a restauração, as empresas de animação turística e de aluguer de automóveis, a criação de pacotes turísticos?
Tudo devidamente calendarizado e dirigido a segmentos específicos da procura, de modo a garantir maior constância dos fluxos e a mitigar a sazonalidade.
Não substitui a Ryanair. Mas poderia diminuir a dependência de decisões tomadas fora da Região e criar capacidade própria para responder às oscilações do mercado.
A questão é, afinal, mais profunda do que a saída de uma companhia aérea. É saber se queremos continuar a medir o sucesso turístico apenas pelo número de passageiros e de dormidas ou se queremos discutir que turismo serve os Açores, quanto valor fica na Região e que instrumentos temos para decidir sobre o nosso próprio desenvolvimento.
A Ryanair partiu. É um problema. Mas se a partida de uma companhia aérea é apresentada, segundo alguns especialistas, como suficiente para pôr em causa o modelo turístico açoriano, talvez o problema não esteja apenas no que abandonou. Talvez esteja, também, na excessiva dependência de quem ficou.
É frequente ouvirmos defender a afetação de meios financeiros públicos (regionais e nacionais) para apoiar a operação de uma, ou mais, transportadoras de baixo custo, mas reclama e revolta-se se for necessário financiar a transportadora aérea regional, no caso a Azores Airlines.
É uma lógica que tenho dificuldade em compreender: aceita-se que o dinheiro público apoie empresas privadas, incluindo transportadoras de baixo custo que podem abandonar a Região quando deixam de considerar rentáveis as suas operações, mas contesta-se que esse mesmo dinheiro público seja utilizado para garantir a existência de uma transportadora regional, cuja função não pode ser medida apenas pelos critérios de rentabilidade imediata. Talvez esteja na altura de discutirmos, com menos preconceitos e mais sentido de Região, para que serve afinal o dinheiro público e que interesses deve ele defender.
Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 5 de outubro de 2026







































