quinta-feira, 30 de abril de 2026

Autonomia: nome e caminho

A Constituição de 1976 deu nome ao que já existia em surdina: a autonomia. Não como concessão, mas como conquista. Uma conquista filha direta do mesmo gesto que devolveu aos portugueses a palavra e o direito de a usar. Antes disso, os Açores viviam encostados ao limite. Uma economia de subsistência, ancorada na terra e no mar; uma indústria quase ausente, e a emigração como destino repetido, tantas vezes a única saída possível. Partia-se como quem respira, por necessidade.

As ilhas estavam distantes. A escola era curta, a saúde escassa, as ligações incertas. E havia um país, que nem sempre, ou quase nunca, chegava.

Depois, veio o tempo da construção. A autonomia abriu caminhos, a Europa trouxe meios, e o arquipélago começou a desenhar outro retrato de si. Mais escolas, mais hospitais, mais portos e aeroportos. Uma economia que, devagar, se vai soltando das amarras antigas. Mas crescer não é o mesmo que equilibrar.

imagem retirada da internet

As ilhas continuam desiguais entre si, como se o mar que as devia unir as desagregasse. A dependência persiste, agora menos visível, mas não menos real, nos fluxos de financiamento que condicionam escolhas e adiam decisões próprias. E a emigração, embora menos intensa, não desapareceu, mudou de forma e de destino, mas continua a empurrar os jovens para lá do horizonte.


Vivemos melhor. É inegável. Mas não vivemos ainda como poderíamos e, sobretudo, como deveríamos. A autonomia, afinal, não é um ponto de chegada. É um exercício contínuo, um modo de habitar o território e o tempo. As leis definem o contorno, o conteúdo depende de nós. Depende da capacidade de imaginar um futuro que não seja apenas prolongamento do presente, nem reflexo de vontades externas e subserviências internas.

Abril abriu a porta. Mas atravessá-la continua a ser tarefa inacabada. Há uma autonomia que existe nos textos, outra que vive nos discursos, e uma terceira, esta mais exigente, que só ganha forma na prática quotidiana, nas decisões que não se adiam, nas escolhas que não se delegam. É essa autonomia que ainda falta cumprir por inteiro. Talvez porque a autonomia não se decreta: constrói-se. E constrói-se devagar, como tudo o que importa, com memória, com consciência, com conflito também.

foto de Aníbal C. Pires
O desígnio inicial, o de um desenvolvimento harmonioso de todas as ilhas permanece, em parte, por realizar. E é nesse desfasamento, entre o que fomos capazes de fazer e o que ainda não ousámos ser, que a autonomia se revela, não como herança, mas como responsabilidade.

No fundo, a pergunta permanece simples e difícil: o que queremos fazer com a liberdade que conquistámos?  O verdadeiro sentido da liberdade conquistada em Abril realiza-se quando a autonomia deixa de ser apenas estatuto político e se converta em projeto coletivo, um projeto de cidadania consciente, solidariedade entre ilhas e afirmação plena da açorianidade no espaço português e atlântico.

A autonomia conquistada após o 25 de Abril foi um marco decisivo: deu forma institucional a uma identidade que até então era mais cultural e afetiva, contudo, podemos argumentar que essa autonomia política ainda não se traduziu plenamente numa consciência cívica e cultural consolidada. A identidade açoriana, dir-se-ia, está afirmada no discurso, na simbologia e na afetividade, mas menos consolidada na prática política e no projeto de desenvolvimento, muitas vezes dependente de lógicas externas e de subserviências internas.

Ponta Delgada, 27 de abril de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 29 de abril de 2026

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