O calendário comercial avança sempre de mansinho, com pezinhos de lã, tentando transformar a memória em mercadoria. Também o 8 de março não escapou a essa tentação: embrulhá-lo em flores, laços e promoções.
Mas este dia não nasceu para vitrinas.
Oferecer flores a uma mulher é um gesto simples, que pode acontecer em qualquer dia do ano. Quando nasce do afeto, é belo. Mas o 8 de março não nasceu desse gesto. Nasceu da luta. Uma luta dura, concreta, muitas vezes invisível, de mulheres que se levantaram contra a exploração, a desigualdade, o silêncio e o patriarcado.
Este é o Dia da Mulher trabalhadora.
A história começa nas ruas e nas fábricas. Em 1908, cerca de quinze mil mulheres marcharam em Nova Iorque exigindo melhores salários, redução do horário de trabalho e o direito ao voto. No ano seguinte, em 1909, o Partido Socialista da América proclamou o primeiro Dia Nacional da Mulher.
Em 1910, na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhaga, a militante alemã Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher. A proposta foi aprovada lembrando ao mundo que a igualdade conquista-se. Nada é oferecido.
Mas o momento decisivo chegaria só alguns anos depois.
A 8 de março de 1917, em Petrogrado, hoje São Petersburgo, operárias têxteis e esposas de soldados saíram à rua contra a fome, a guerra e a miséria. Sob o grito de “Pão e Paz”, mais de noventa mil mulheres desafiaram a ordem estabelecida. Essa manifestação tornar-se-ia um dos detonadores da Revolução Russa.
Foi aí que o 8 de março ganhou o seu lugar na história.
Durante décadas foi celebrado sobretudo pelos movimentos operários e progressistas. Só muito mais tarde, em 1975, as Nações Unidas reconheceriam oficialmente a data.
Recordar esta história é importante porque há quem prefira esquecê-la.
Há quem queira transformar um dia de luta num gesto leve, uma celebração sem memória nem conflito.
Mas o 8 de março não nasceu para ser confortável.
Nasceu nas fábricas.
Nasceu nas ruas.
Nasceu da coragem.
Por isso, hoje, mais do que flores, este dia pede memória.
Memória das que lutaram.
Memória das que resistiram.
Memória das que continuam a abrir caminho.
Porque a igualdade nunca foi uma oferta.
Sempre foi, e continua a ser, uma conquista.
Lindas são as mulheres que lutam.