A União Europeia (UE) celebra-se a si própria envolta numa narrativa de paz, integração e democracia, a cada 9 de maio. Estrelas douradas em fundo azul, num espaço onde o discurso da paz convive, cada vez mais, com a lógica do rearmamento, se cerceiam liberdades e onde a qualidade da democracia é, direi, duvidosa. A 9 de maio celebra-se a chamada “ideia europeia”, nascida da Declaração Schuman de 1950, apresentada como resposta civilizacional às ruínas da guerra. Contudo, na mesma data em que as instituições da UE evocam o nascimento da Europa comunitária, esbate-se progressivamente outra memória: a da vitória do Exército Vermelho sobre o nazifascismo, em 1945.
imagem retirada da internet
Não se trata de um preciosismo ou de um detalhe simbólico. As datas nunca são inocentes. São instrumentos de memória, e a memória é sempre um território político.
A derrota do nazifascismo não pode ser compreendida sem o papel decisivo da União Soviética (URSS). Foi na frente oriental que a máquina militar hitleriana sofreu as suas perdas mais devastadoras. Foram cidades soviéticas arrasadas, populações inteiras sacrificadas, mais de 25 milhões de mortos civis e militares. Nomes como Stalingrado, Kursk ou Leninegrado permanecem inscritos na história não apenas como batalhas, mas como lugares de resistência absoluta perante a barbárie nazi.
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Após o colapso da URSS, a questão tornou-se ainda mais complexa e foi-se consolidando o apagamento da memória e a reescrita da história numa tentativa de distorcer o essencial, ou seja, sem o sacrifício dos povos soviéticos, a derrota do nazismo teria sido incomparavelmente mais difícil e certamente se prolongaria mais no tempo.
A UE prefere hoje construir a sua legitimidade histórica a partir da reconciliação franco-alemã, da integração económica e dos valores liberais do pós-guerra. É uma escolha política que na prática se traduz no empobrecimento da memória quando a história é reduzida ao que convém ao presente. A Europa institucional celebra-se a si própria enquanto se afasta da memória concreta daqueles que pagaram o preço mais elevado para derrotar o Terceiro Reich.
A Federação Russa celebra o legado da União Soviética e utiliza-o para que a memória não seja apagada e a história reescrita, contrariando a relativização ou mesmo o silenciamento do papel da URSS, pela UE, na derrota da barbárie nazifascista. Como se o presente pudesse reescrever retroativamente o passado. A história exige mais rigor do que alinhamentos conjunturais. Não é necessário glorificar o sistema político da União Soviética para reconhecer a dimensão decisiva do Exército Vermelho na derrota do fascismo europeu.
No fundo, o 9 de maio revela duas Europas: a que se celebra a si própria e a que foi construída sobre milhões de mortos que, pouco a pouco, parecem desaparecer na memória oficial no Ocidente.
Ponta Delgada, 11 de maio de 2026

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