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Não tenho por Nicolás Maduro nenhuma simpatia especial, penso que já o terei escrito algures por aí. Diria mesmo que, ao longo dos anos, Maduro se afastou do legado político de Hugo Chávez, não apenas por não ter o carisma do seu antecessor, mas também pela incapacidade de responder às contradições que foram corroendo o processo revolucionário bolivariano.
Mas isso não é nem pode ser impeditivo de questionar o que aconteceu na Venezuela. O rapto de Maduro e de Cilia Flores continua a levantar questões que dificilmente podem ser ignoradas. Não está factualmente demonstrada a existência de uma colaboração interna que tenha facilitado a operação. Mas as circunstâncias em que aconteceu e a rapidez com que, depois do sequestro, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina, a sua aproximação aos Estados Unidos, e, mais recentemente, o que foi dito e o que não foi dito e deveria ter sido na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), tornam inevitável que as antigas incertezas se transformem em dúvidas com sustentação política. No seu discurso perante a AGNU Delcy Rodríguez nem uma só vez se referiu ao sequestro de Maduro e Cilia e não manifestou, por palavras ou atitudes, nenhuma reação ao que Trump regurgitou sobre a Venezuela, e foi grave.
A pergunta não é apenas quem traiu quem, isso seria redutor. É perceber se, no interior do próprio aparelho de poder venezuelano, já se encontrava em preparação uma saída para Maduro e uma nova relação com Washington.
A Venezuela está a abrir sectores fundamentais da sua economia ao investimento estrangeiro, particularmente no petróleo, enquanto Washington assume uma influência direta sobre esse investimento. Em agosto, Trump anunciou um acordo que atribui aos Estados Unidos e às empresas privadas estado-unidenses um papel determinante no desenvolvimento das reservas petrolíferas venezuelanas, mas também na mineração de metais raros e preciosos.
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Chávez nacionalizou, redistribuiu e enfrentou o neoliberalismo, mas não conseguiu construir uma economia capaz de ultrapassar a dependência do petróleo. Quando o preço do crude caiu, quando a produção se degradou e quando se agravaram os erros de política económica, as fragilidades do modelo tornaram-se evidentes.
Depois vieram as sanções estado-unidenses, que agravaram brutalmente uma economia já em crise. É importante não confundir as coisas: a crise venezuelana não começou com as sanções, mas as sanções também não podem ser tratadas como uma nota de rodapé. A própria política estado-unidense reconhece hoje a centralidade do petróleo na sua estratégia para a Venezuela.
Talvez seja cedo para escrever a história do que realmente aconteceu na Venezuela antes e depois do sequestro do seu presidente, mas parece óbvio que a revolução bolivariana terá de ser, de novo, protagonizada pelo povo venezuelano. Se assim não for, a mãozinha do neoliberalismo fará da pátria de Bolívar mais um departamento colonial dos Estados Unidos.
Ponta Delgada, 28 de setembro de 2026


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