quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

ambiguidades

imagem retirada da internet

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.







(...) A chamada ordem internacional “baseada em regras” revela-se, assim, uma ficção útil. As regras existem, mas não são universais; são instrumentos de dominação aplicados seletivamente, conforme a correlação de forças. Aos aliados tudo é permitido, aos adversários nada é tolerado. A mesma ação que, praticada por um inimigo, justificaria sanções, bloqueios ou intervenções armadas, quando executada pelos EUA é rapidamente branqueada por um coro de justificações técnicas, eufemismos militares e silêncios diplomáticos cúmplices.

A União Europeia, que tanto gosta de se apresentar como bastião do multilateralismo e dos direitos humanos, confirma uma vez mais a sua irrelevância política e a sua subserviência estratégica. Incapaz de uma posição autónoma, limita-se a aguardar, para depois repetir a linguagem de Washington, mesmo quando isso implica trair os princípios que proclama. O caso da Venezuela é exemplar: perante uma agressão clara a um país soberano, a UE prefere discutir a legitimidade do governo atacado em vez de condenar o ataque. É uma inversão moral e jurídica que diz muito sobre o estado da política da UE.

Portugal, como tem vindo a ser habitual, confirma o seu papel de figurante obediente. A ambiguidade das declarações oficiais, os silêncios calculados e a ausência de uma condenação firme não resultam de prudência diplomática, mas de alinhamento acrítico. Não é neutralidade, é submissão. Não é cautela, é abdicação. Um país que se reclama do direito internacional não pode escolher quando ele importa e quando deve ser ignorado. (...)


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Hanan Awwad - a abrir janeiro

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Hanan Awwad escreve a partir de um lugar onde a palavra é casa provisória e resistência silenciosa. Na sua escrita, a Palestina não surge como abstração política, mas como corpo ferido, memória perseverante, gesto quotidiano de sobrevivência. Cada frase carrega a gravidade da perda e, ao mesmo tempo, a recusa em desaparecer.

A sua voz é contida e firme, sem concessões. Escreve para permanecer, para contrariar a tentativa de apagamento, para lembrar que a literatura pode ser uma forma de respirar sob ocupação e de lutar, mesmo na noite mais escura, a dignidade humana.