sexta-feira, 3 de abril de 2026

fragilidade do turismo na RAA – breve reflexão

foto de Aníbal C. Pires
A preocupação já não é um pressentimento. É a realidade.

Os indicadores disponíveis apontam para um abrandamento da procura turística do destino Açores. Os efeitos não serão uniformes entre ilhas, para o bom e para o mau nunca o são, mas o sinal é claro. E, na verdade, não é novo. Há muito que algumas vozes vinham alertando para a volatilidade estrutural desta indústria, demasiadas vezes ignorada quando os números cresciam e tudo parecia ir para bom porto.

E não! Não se trata apenas do abandono do destino por parte de uma companhia aérea de baixo custo. Esse fator tem peso, naturalmente, mas está longe de explicar, por si só, o que está a acontecer. Há outras variáveis, mais profundas, que ajudam a compreender este abrandamento.

O contexto internacional deteriorou-se. A instabilidade geopolítica, nomeadamente no Médio Oriente, tem efeitos diretos e indiretos nas economias. Desde logo, no aumento dos preços da energia. E, com ele, numa cadeia de consequências previsíveis: subida do custo de vida, pressão inflacionista, e inversão da tendência recente de descida das taxas de juro.

Perante este cenário, os cidadãos retraem-se. Adiam. Selecionam. Cortam no que não é essencial. E, nesse movimento, o turismo, sobretudo em destinos periféricos e de custo elevado, é dos primeiros a ser afetado. Os Açores não escapam a essa lógica.

Ainda assim, importa dizê-lo com clareza: não estamos apenas perante uma crise que nos chega de fora. Estamos também perante um modelo que nunca deixou de ser frágil por dentro.

Os agentes do setor: animação turística, rent-a-car, restauração, hotelaria e alojamento local; têm vindo a público manifestar preocupação e a exigir respostas. Mas fazem-no, em grande medida, centrando o problema na acessibilidade aérea e na ausência de voos de baixo custo.

Essa leitura é, no mínimo, incompleta.

imagem retirada da internet

Os preços praticados no destino são, há muito, motivo de queixa por parte de quem nos visita. Em muitos casos, não acompanhados por níveis de serviço que justifiquem esses valores. O custo elevado da experiência Açores não pode ser atribuído exclusivamente ao preço das passagens aéreas. Há uma responsabilidade interna que não pode continuar a ser ignorada.

Quanto à saída da transportadora de baixo custo, convém não romantizar. Faz parte do seu modelo de negócio. Estas companhias não vivem, sobretudo, da venda de bilhetes, mas das contrapartidas financeiras e operacionais que conseguem negociar com os destinos. Quando encontram condições mais vantajosas, mudam. É a lógica do mercado, no seu estado mais puro. (Há quem goste.)

O senhor Michael O’Leary terá, muito provavelmente, encontrado quem estivesse disposto a oferecer mais. E partiu.

E com o abandono, assistiu-se a reações curiosas. Nas redes sociais, multiplicaram-se agradecimentos emocionados pelo “serviço prestado”, esquecendo-se, talvez, que esse serviço foi amplamente suportado por dinheiros públicos, viajassem ou não os contribuintes nessa transportadora.

Outros foram mais longe, intimando que o(s) governo(s) satisfizessem as exigências da empresa como se o interesse público se devesse submeter, sem reservas, à lógica negocial de uma empresa privada.

E aqui emerge um paradoxo que merece reflexão.

foto de Aníbal C. Pires
Muitos dos que defendem, com naturalidade, o financiamento público de companhias aéreas privadas, são os mesmos que rejeitam, de forma quase instintiva, o financiamento de uma companhia aérea pública, chegando a defender a sua privatização. Esquecem, talvez, que há rotas, serviços e missões que só uma transportadora regional, com responsabilidade pública, consegue assegurar, seja no transporte de doentes, seja na ligação regular entre ilhas, seja no apoio em emergências.

No fundo, talvez esta seja a questão que evitamos enfrentar: queremos um destino competitivo, mas recusamos discutir o modelo que o sustenta.

Queremos voos baratos, mas não queremos pagar o seu verdadeiro custo.

Queremos turistas, mas nem sempre queremos rever a forma como os recebemos.

O turismo, como o mar que nos cerca, nunca foi um lugar de permanência, é fluxo, é maré, é instabilidade. E, no entanto, insistimos em tratá-lo como chão firme.

Talvez este abrandamento não seja apenas um sinal de crise, mas um aviso. Um desses avisos discretos que chegam antes das ruturas maiores.

Porque, no fim, não é a partida de uma companhia aérea que nos deve inquietar verdadeiramente. É a fragilidade do que fica quando ela parte, como era expetável que, mais tarde ou mais cedo, viesse a acontecer.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 3 de abril de 2026


regresso

foto de Madalena Pires
Após um interregno neste espaço, ditado por razões de ordem pessoal, oportunamente comunicadas à direção do jornal, regresso agora a estas páginas e aos leitores.

Ausente, mas não desligado. Há ausências que são apenas um outro modo de permanecer. Regresso, portanto. E regresso a um mundo que não esperou, que não suspendeu o seu curso, que não concedeu tréguas. Um mundo que, entretanto, se adensou no pior de si. Estamos hoje pior, mais expostos, mais frágeis, mais próximos de um limite que, por vezes, fingimos não ver, do que em fevereiro passado.

A agressão sionista e estado-unidense ao Irão está a ter efeitos devastadores no chamado, médio oriente, mas as consequências não se confinam àquele espaço geográfico, os efeitos sentem-se por todo o planeta e vão-se prolongar no tempo. E não é apenas a questão energética, quem assim pensa desconhecerá que daquela região do planeta são exportados outros bens tão importantes como o petróleo e gás, como sejam alguns metais e muitos fertilizantes, ou seja, o que está em causa é segurança alimentar, a indústria e a tecnologia. Não me quero alongar sobre o assunto, apenas recordo que o estreito de Ormuz, agora com o trânsito naval condicionado, estava aberto antes agressão. Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos.

Irão - uma civilização milenar

Preferiria outro começo para este regresso. Uma palavra mais leve, talvez. Um tema que não trouxesse consigo este peso do mundo. Mas há momentos em que a realidade nos escolhe e, escrever é apenas uma forma de não recuar.

E, ainda assim, no meio deste ruído espesso, procurei um sinal contrário. Não um grande gesto, não um feito que se imponha. Apenas um indício. Um quase nada que, por instantes, suspenda a evidência do desastre. Encontrei-o numa história singular.

Chamam-lhe “Boneca”. Uma cadela que deixou a casa. Sem alarde. Sem rotura visível. Passou um rancho de romeiros, homens em passo demorado, carregando nos ombros promessas antigas, rezas sussurradas, silêncios partilhados, e ela seguiu-os. Não porque a mandassem. Não porque precisasse. Seguiu. Há decisões que não se explicam. Há movimentos que nascem antes da razão, mesmo vindos de um animal.


E talvez seja isso que ali se revela, nesse gesto sem importância aparente: a possibilidade de sair. De romper o círculo estreito do conhecido. De abandonar, por um instante, o lugar onde tudo está definido, o nome, o dono, o caminho, e responder a um chamamento sem voz.

Num tempo em que quase tudo se organiza em torno da força e do interesse, em que o mundo parece inclinar-se para a dureza e para a imposição, há gestos ínfimos que persistem. Não fazem manchetes. Não alteram o curso da história. Mas abrem pequenas brechas no que parece fechado.

Como o de uma cadela que deixa a casa para acompanhar um caminho. Talvez seja por aí, por esses desvios sem cálculo, por essa fidelidade ao inexplicável, que ainda subsiste qualquer coisa de essencial. Uma ideia de mundo que não se constrói sobre o domínio, mas sobre o reconhecimento da diferença.

Ponta Delgada, 30 de março de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 1 de abril de 2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

sobreviver à barbárie

imagem retirada da internet



Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.





(...) Apesar do Irão estar sempre na mira do sionismo e dos Estados Unidos, e sujeito a sanções desde 1979, sanções que se foram ampliando e endurecendo ao longo do tempo, o comércio fluía e os efeitos estavam confinados ao Irão. País que, ainda assim, conseguiu sobreviver e desenvolver-se em termos científicos e tecnológicos. A este facto não será estranho tratar-se de um povo herdeiro de uma civilização milenar, ao contrário dos agressores um dos quais uma invenção recente, sendo que os dois assentaram a sua construção no genocídio das populações autóctones e no assentamento de colonatos. (...)

Vanessa Redgrave - a abrir abril

Vanessa Redgrave em 1978

A vida e obra de Vanessa Redgrave não se esgota no brilho do palco ou na consagração do cinema. Há, nesta mulher, uma coerência rara, quase intempestiva, entre a arte e a consciência. Desde os anos 1970, quando a causa palestiniana era ainda mais marginalizada no espaço mediático ocidental, Redgrave recusou o conforto da neutralidade. Fê-lo com a frontalidade de quem sabe que certas causas não admitem meias-palavras: ou se está do lado da dignidade de um povo ou se consente, por omissão, na sua negação.

A sua defesa intransigente da Palestina custou-lhe ostracismo, críticas ferozes e até ameaças, sobretudo após o documentário The Palestinian e o célebre discurso nos Óscares, em 1978, onde denunciou o que chamou de “intimidação sionista”. Mas, ao contrário de tantos que modulam o discurso ao sabor das circunstâncias, Redgrave manteve-se firme, não por provocação, mas por convicção ética. A sua voz, tantas vezes isolada, tornou-se um testemunho incómodo: lembra-nos que o silêncio, quando se torna regra, é também uma forma de cumplicidade.

Aos 88 anos numa manifestação 

Em Vanessa Redgrave há qualquer coisa de antigo, quase trágico, no sentido clássico: a fidelidade a uma verdade interior que não se negoceia, mesmo quando o preço é elevado. A sua posição face à Palestina não é apenas política, é, sobretudo, a recusa frontal de aceitar que a injustiça possa ser normalizada. E talvez por isso a sua voz, ainda hoje, ressoe não como um eco do passado, mas como uma pergunta persistente dirigida ao presente.


quinta-feira, 12 de março de 2026

sinais preocupantes

imagem retirada da internet
A decisão de não reconduzir Rita Rato na direção do Museu do Aljube Resistência e Liberdade causou muita perplexidade a quem tem acompanhado o trabalho desenvolvido naquela instituição. Nos últimos anos, o museu afirmou-se como um dos espaços mais vivos de reflexão sobre a memória da ditadura e da resistência democrática em Portugal, com uma programação rigorosa, plural e exigente. Esse percurso deve muito à direção de Rita Rato, que soube transformar um lugar de memória num espaço ativo de pensamento crítico e de cidadania.

Por isso, a decisão da empresa municipal, Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa, de não a reconduzir no cargo levanta inevitáveis interrogações. Quando um trabalho amplamente reconhecido é interrompido sem explicação clara ou avaliação pública do seu mérito, a suspeita instala-se: não estaremos perante mais um episódio de substituição política, onde o critério da competência cede lugar à lógica da fidelidade partidária?

Num país que conheceu a censura e a repressão durante a ditadura, o museu instalado no antigo cárcere político do Aljube tem uma responsabilidade particular: preservar a memória da liberdade e da resistência ao poder arbitrário. Fragilizar esse projeto por razões de conveniência partidária é um sinal preocupante, não apenas para a cultura, mas para a própria qualidade da nossa democracia.


domingo, 8 de março de 2026

a memória não se vende

O calendário comercial avança sempre de mansinho, com pezinhos de lã, tentando transformar a memória em mercadoria. Também o 8 de março não escapou a essa tentação: embrulhá-lo em flores, laços e promoções.

Mas este dia não nasceu para vitrinas.

Oferecer flores a uma mulher é um gesto simples, que pode acontecer em qualquer dia do ano. Quando nasce do afeto, é belo. Mas o 8 de março não nasceu desse gesto. Nasceu da luta. Uma luta dura, concreta, muitas vezes invisível, de mulheres que se levantaram contra a exploração, a desigualdade, o silêncio e o patriarcado.

Este é o Dia da Mulher trabalhadora.

A história começa nas ruas e nas fábricas. Em 1908, cerca de quinze mil mulheres marcharam em Nova Iorque exigindo melhores salários, redução do horário de trabalho e o direito ao voto. No ano seguinte, em 1909, o Partido Socialista da América proclamou o primeiro Dia Nacional da Mulher.

Em 1910, na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhaga, a militante alemã Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher. A proposta foi aprovada lembrando ao mundo que a igualdade conquista-se. Nada é oferecido.

Mas o momento decisivo chegaria só alguns anos depois.

A 8 de março de 1917, em Petrogrado, hoje São Petersburgo, operárias têxteis e esposas de soldados saíram à rua contra a fome, a guerra e a miséria. Sob o grito de “Pão e Paz”, mais de noventa mil mulheres desafiaram a ordem estabelecida. Essa manifestação tornar-se-ia um dos detonadores da Revolução Russa.

Foi aí que o 8 de março ganhou o seu lugar na história.

Durante décadas foi celebrado sobretudo pelos movimentos operários e progressistas. Só muito mais tarde, em 1975, as Nações Unidas reconheceriam oficialmente a data.

Recordar esta história é importante porque há quem prefira esquecê-la.

Há quem queira transformar um dia de luta num gesto leve, uma celebração sem memória nem conflito.

Mas o 8 de março não nasceu para ser confortável.

Nasceu nas fábricas.

Nasceu nas ruas.

Nasceu da coragem.

Por isso, hoje, mais do que flores, este dia pede memória.

Memória das que lutaram.

Memória das que resistiram.

Memória das que continuam a abrir caminho.

Porque a igualdade nunca foi uma oferta.

Sempre foi, e continua a ser, uma conquista.


Lindas são as mulheres que lutam.


sexta-feira, 6 de março de 2026

um Partido com mais futuro do que história

Hoje assinalam-se 105 anos da fundação do Partido Comunista Português, criado a 6 de março de 1921 no quadro das lutas operárias que atravessavam a Europa após a Revolução de Outubro. Desde a sua origem, o PCP assumiu-se como uma força revolucionária organizada da classe trabalhadora portuguesa, defendendo a transformação profunda da sociedade, o fim da exploração e a construção de uma ordem social fundada na justiça e na igualdade. A sua história está indissociavelmente ligada às lutas dos trabalhadores e das populações que marcaram o século XX em Portugal.

Durante a longa noite da ditadura, o Partido foi a principal organização política de resistência ao regime fascista.

O derrube do regime na Revolução de 25 de Abril de 1974 abriu um novo capítulo dessa trajetória. O PCP teve então um papel destacado na mobilização popular, na organização sindical e na defesa das conquistas revolucionárias que marcaram o processo de transformação vivido em Portugal no período que se seguiu ao 25 de Abril. 

105 anos depois, o Partido continua a afirmar-se como herdeiro dessa tradição de luta e de um projeto político que, mais do que gerir o existente, propõe-se transformá-lo mantendo viva a ideia de que a história pode, e deve, ser construída pelos trabalhadores e pelo povo.

PCP um partido com mais FUTURO do que história.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Amélia Araújo - a abrir março

imagem retirada da internet
A morte de Amélia Araújo, em 19 de fevereiro de 2026, trouxe à memória uma das vozes mais marcantes da luta anticolonial africana. Nos anos difíceis da guerra de libertação conduzida pelo PAIGC, a sua presença chegava através do invisível fio das ondas da Rádio Libertação. Era uma voz firme e serena que atravessava florestas, tabancas e oceanos, levando notícias da luta, palavras de coragem e a esperança de um futuro livre para os povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

A voz de Amélia Araújo tornou-se um símbolo. A rádio, naquele tempo de clandestinidade e guerra, era uma arma silenciosa, mas poderosa. Pelos seus programas passavam comunicados do partido, mensagens aos combatentes e também palavras dirigidas aos soldados portugueses, numa tentativa de romper o silêncio e interpelar consciências. A voz que se ouvia nas emissões era também a voz do pensamento de Amílcar Cabral, ecoando a ideia de que a libertação era antes de tudo um ato de dignidade e de consciência histórica.

Com a sua morte desaparece uma testemunha direta de um tempo em que a palavra podia ser tão decisiva quanto as armas. Permanece a memória dessa voz que, em noites de incerteza e esperança, acompanhou milhares de combatentes e de homens e mulheres anónimos. Uma voz que não se via, mas que ajudou a abrir caminho para a liberdade, e fica, para sempre, inscrita na história comum da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e na luta contra o colonialismo.


segunda-feira, 2 de março de 2026

pelo 18.º aniversário do momentos

imagem retirada da internet
Em dia de aniversário deixo alguns dados sobre o “momentos”

Nestes 18 anos foram divulgadas 3004 publicações, registaram-se 1192515 visualizações e 891 comentários às postagens.

Seguem o blogue 56 pessoas.

As visualizações têm origem, um pouco, por todo o mundo. Sendo que os países que acumulam mais visitantes são:

- Portugal;

- Estados Unidos; e 

- Brasil,

Esta aventura vai continuar. Sei que os blogues passaram de moda, mas mantenho-me por aqui enquanto tiver alguma coisa para partilhar para além dos 140 caracteres e da efemeridade das “redes sociais” mais populares, das quais também faço uso.

Agradeço a todos os visitantes que aqui vêm com frequência, mas também aos que “picam” pontualmente este espaço.

Bem hajam!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

de passagem por Paços

imagem retirada da internet

Sou professor aposentado, desde 2021, o meu percurso profissional somou 46 anos de serviço, mais 10 do que me havia sido contratado quando iniciei este caminho. Foram 46 anos recheados de peripécias e histórias, uma mais outras menos interessantes, mas todas elas relevantes para a minha vida pessoal e profissional.

Após 5 anos como professor provisório, Fundão, Santarém e Covilhã, cheguei à Escola Preparatória de Paços de Ferreira no limiar dos anos 1980 para iniciar o meu estágio pedagógico, à altura designado por “Profissionalização em Exercício”. Esta formação destinava-se a professores provisórios com habilitação científica e facultava a aquisição de formação pedagógica e didática, condição necessária para entrada nos quadros da docência.

Vinha, apenas, para fazer o meu estágio pedagógico, mas fui também Orientador de Estágio e Vice-presidente do Conselho Diretivo da Escola. Os anos que trabalhei e vivi nesta vila conhecida pela “Capital do Móvel” foram determinantes para que o ensino se tivesse transformado numa profissão que abracei com orgulho e à qual me entreguei de corpo e alma. Sempre que pedem para referenciar escolas ou períodos que me marcaram, enquanto professor, a Escola Preparatória de Paços de Ferreira é a referência, tenho outras, mas aconteceram depois e, em grande medida, resultaram da minha passagem por Paços de Ferreira.

Eu que não sou um homem de certezas e tenho muitas dúvidas posso, contudo, afirmar que, sem dúvidas e com a certeza dos meus princípios, foi nesta vila e concelho que despontaram e se consolidaram caraterísticas que nortearam a vida do homem e do professor, o homem que sou, o professor que fui.

imagem retirada da internet

Os lugares são as pessoas que o habitam e, Paços, ao tempo, era um espaço de grandes contradições e assimetrias, mas como este texto não pretende ser de análise socioeconómica, direi apenas que aquele lugar era habitado por gente que lhe conferia um encanto muito particular, gente que me acolheu e integrou, gente solidária e capaz de transformar as agruras da vida em momentos de grande elevação e generosidade.

Se é certo que os alunos, funcionários e professores são o grande núcleo das pessoas que fizeram parte da minha passagem por Paços, não são, porém, o universo das gentes com quem interagi e colaborei. Durante a minha passagem por Paços procurei ser um pacense integrando-me na vida da comunidade e procurando compreender o que era diferente, respeitando os modos de vida, os costumes e as tradições, pois, sempre foi meu entendimento que a melhor forma de integração é: o conhecimento do outro, diferente e igual.

Não é possível, nesta breve nota, mencionar os nomes das pessoas com quem lidei pois, seriam necessárias muitas folhas para grafar todos os que, de uma forma ou outra, se cruzaram comigo e deixaram a sua marca. Há apenas dois personagens que acabarei por referenciar por razões óbvias, como se verá. Mas isso não pode nem deve ser entendido como menorização de outros ou de esquecimento. A todos guardo, com muito carinho, na minha memória.

A Escola Preparatória era então um verdadeiro microcosmo de energia e movimento conferido pelo dinamismo e empenhamento de docentes, funcionários e alunos, era um tempo em que a Escola era valorizada e se acreditava que a educação era o principal motor de transformação social e económica, o tempo veio desconstruir esse sonho e a Escola voltou a ser o que tinha sido em tempos de má memória, um lugar de reprodução de desigualdades. 

Grupo de estágio alargado, com alguns estagiários já no segundo ano da formação. Escola com mais de 1000 alunos e mais de 100 professores. O edifício principal, adaptado de uma antiga casa de emigrantes regressados do Brasil, era uma curiosa combinação entre tradição e improviso. Até as antigas cavalariças tinham sido transformadas em salas de aula, como se tratasse da metáfora perfeita do espírito de reinvenção que atravessava toda a escola.

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Havia ainda um bloco de pré-fabricados em madeira, separado do edifício principal por uma estrada que ligava Paços de Ferreira a Santo Tirso. Era um desafio logístico e, ao mesmo tempo, uma imagem viva da escola em expansão e da sua capacidade de adaptação, mas também da necessidade da construção de uma nova infraestrutura para satisfazer as necessidades educativas do concelho. 

Mas mais do que os edifícios ou as histórias da vila, o que ficou foram as pessoas, os colegas, os alunos, a vida vivida em partilha. Recordo com especial carinho as dinâmicas pedagógicas inovadoras, o entusiasmo dos professores em formação, as conversas de final de dia e os sabores da gastronomia local que me conquistaram tanto quanto o espírito de comunidade que se vivia em cada esquina.

Vivi na Pensão do Senhor Gomes, figura sobejamente conhecida na vila e sobre o qual se dizia que só atravessava a Praça se isso resultasse em seu benefício. Sobre o Senhor Gomes contavam-se diversas e divertidas histórias, ele próprio contava algumas com o sentido de humor cáustico que o caraterizava.

Mais tarde dividi, com dois colegas, um apartamento numa zona de expansão da vila e os últimos anos que por ali vivi, já com a família reunida, passaram-se no lugar de Sobrão, freguesia de Meixomil.

A minha passagem por Paços não se circunscreveu à atividade letiva ou não fosse eu um cidadão inquieto e com vontade e disponibilidade para conhecer e participar na vida da comunidade. E foi neste contexto que fui participando, ainda que de forma esporádica, na vida desportiva, associativa e política da vila e do concelho, pela mão e amizade do Dr. Álvaro Neto. Com ele e através da sua atividade cívica partilhei de algumas iniciativas e intercâmbios que, de alguma forma, marcaram uma outra faceta da minha passagem por Paços.

Quer da minha atividade docente, quer ainda da minha participação cívica guardo boas memórias e histórias que não cabem neste espaço e, por outro lado não quero valorizar umas em detrimento de outras. Assim julgo ser mais avisado não referenciar nenhuma.

Hoje, ao revisitar esse tempo, sinto uma gratidão imensa. Paços de Ferreira não foi apenas uma paragem no meu caminho. Foi o ponto de viragem na minha vida pessoal e profissional.

Paços de Ferreira ficou comigo. Não como uma lembrança distante, mas como um lugar interior, uma mátria íntima feita de vozes, rostos e histórias que me moldaram para sempre.

Ponta Delgada, 24 de setembro de 2025 

Aníbal C. Pires, In Gazeta de Paços de Ferreira

domingo, 22 de fevereiro de 2026

a normalização da barbárie

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A Palestina não é um lugar distante.

É um nome que arde no mapa e um corpo ferido no tempo.

Não é apenas Gaza, esse fragmento de mundo cercado por muros e números; é toda a terra palestiniana, atravessada por décadas de violência metódica. Uma violência que não grita apenas quando cai a bomba, mas que sussurra todos os dias, quando uma casa é tomada, uma oliveira arrancada, um nome apagado.

O que ali acontece não é excesso nem desvio. É um projeto colonial.

Como tantos outros na história, nasceu do gesto inaugural do colonialismo: ocupar, substituir, reescrever. Onde havia aldeias, erguem-se cidades coloniais; onde existia memória, instala-se a amnésia forçada. O mapa vai sendo cartografado como se a terra não tivesse já voz, como se os mortos não deixassem vestígios.

Durante demasiado tempo, o mundo escolheu não ver. A barbárie prolongada foi tratada como fundo de cenário, ruído distante, tragédia repetida até se tornar tolerável. Mesmo quando os olhos globais se voltaram para Gaza, foi por instantes breves, sob a ilusão de um cessar-fogo anunciado e nunca cumprido. Bastou que outras ameaças ocupassem o ecrã para que a Palestina regressasse ao lugar que o mundo lhe tem reservado: o da dor invisível.

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Mas nem tudo é silêncio. Há vozes que persistem, como pequenas fogueiras acesas na noite escura. A relatora especial das Nações Unidas, Francesca Albanese, tem recusado a linguagem neutra que absolve o crime. Há figuras públicas que, sabendo o custo da palavra, escolhem dizê-la, como Pepe Guardiola, Susan Sarandon, e fazem-no não como celebridades, mas como cidadãos que recusam o conforto do silêncio. Há ainda milhões de anónimos que marcham, escrevem, boicotam, lembram. A dignidade, por vezes, sobrevive assim: em gestos dispersos, mas obstinados.

Ainda assim, uma narrativa insiste em impor-se: a de que a Palestina é palco de um conflito religioso ancestral, insolúvel, quase mítico. Uma história conveniente, que transforma a ocupação em destino e a violência em desígnio divino. Segundo essa versão, um povo “eleito” reclamaria a terra como herança sagrada, da Palestina aos territórios limítrofes, invocando a promessa antiga da “terra prometida”.

Mas esta não é uma guerra de deuses.

É uma disputa de poder.

O sionismo não é fé, é ideologia. Não é religião, é programa político. E como todos os programas de supremacia, funda-se na ideia de que uns têm direito pleno à terra, à vida e à história, enquanto outros devem aceitar a condição de sobra, de obstáculo, de erro a corrigir. Não por acaso, muitos judeus, crentes e não crentes, recusaram e recusam este projeto, precisamente por reconhecerem nele uma traição ética à sua própria tradição e religião.

“Israel” não é um Estado judaico.

“Israel” é um Estado sionista.

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Confundir judaísmo com sionismo é um ato de violência simbólica. Serve para legitimar a ocupação e, ao mesmo tempo, para silenciar a dissidência judaica. Serve para chamar conflito ao que é dominação, segurança ao que é cerco, defesa ao que é massacre. Serve, sobretudo, para tornar aceitável o inaceitável.

E assim, entre palavras gastas e eufemismos bem polidos, o mundo vai aprendendo a conviver com o intolerável. A Palestina permanece ali, ferida e presente, como um espelho incómodo. Não pede piedade. Exige justiça. E enquanto essa exigência for tratada como excesso, o verdadeiro escândalo não será apenas o que acontece na Palestina, mas aquilo em que o mundo se transforma ao permitir que a barbárie seja um novo normal.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 22 de fevereiro de 2026


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

humanidade à deriva

Francesca Albanese - imagem retirada da internet
Não é de hoje esta sensação, não é possível precisar quando, mas o mundo, tal como o lia e compreendia, deixou de fazer sentido. E não falo apenas de mudanças geopolíticas ou de ciclos históricos previsíveis, mas de algo mais profundo: uma inversão dos valores. A mentira ganhou estatuto de narrativa oficial, e a impunidade, antes camuflada, apresenta-se agora como norma. 

Um dos casos mais brutais desta deriva é o projeto colonial do estado sionista na Palestina, sustentado política, militar e moralmente pelo chamado mundo ocidental, esse mesmo que se proclama guardião dos direitos humanos. Em nome desses “valores”, legitima-se o genocídio do povo palestiniano, enquanto se tenta silenciar quem denuncia o inominável. A Relatora Especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, uma das vozes mais consequentes na denúncia da barbárie sionista, é agora alvo de sanções e pedidos de afastamento por países como França e Alemanha. Não se pune o crime contra a humanidade, tenta silenciar-se a mensageira.

Mas este não é um caso isolado. Há décadas que Cuba vive sob um embargo ilegal, condenado repetidamente pela comunidade internacional, mas mantido, com requintes de crueldade, pelos Estados Unidos. Hoje, a asfixia chega ao ponto de se tentar impedir o envio de petróleo para a ilha. Cuba, que exporta médicos e não bombas, que pratica a solidariedade como política externa, é tratada como ameaça. Não por aquilo que faz, mas pelo exemplo que representa: o de um país pequeno que insiste em viver fora da lógica do medo e da submissão e que não abdica da sua soberania.

imagem retirada da internet

A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram.

imagem retirada da internet
A normalização do absurdo é aceite sem nos questionarmos. Veja-se a Síria e o processo acelerado de lavagem de imagem de Al Julani, ontem classificado como terrorista, hoje recebido como chefe de Estado em respeitáveis chancelarias por esse mundo fora. A memória é curta, a conveniência é longa, e a ética tornou-se descartável.

Tudo isto aponta para um mesmo lugar: um mundo onde a força substituiu o direito, onde a narrativa venceu os factos, onde a lei se aplica apenas aos frágeis. Um mundo em que a exceção passou a ser a justiça. Talvez o mais inquietante não seja a barbárie em si, mas a forma serena, quase burocrática, com que é administrada. Como se tudo isto fosse normal. Como se tudo isto fosse aceitável. Estes são apenas alguns exemplos, mas julgo que deveriam ser suficientes para nos preocuparem e nos fazerem agir. 

Ponta Delgada, 16 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 18 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

3000

foto de Paulo R. Cabral

Esta é a publicação 3000 do “momentos”.

Há números que apenas assinalam uma passagem. São 3000 publicações desde 2 de março de 2008. Não são degraus nem metas, são marcas de água, sinais deixados enquanto caminhei no tempo.

Este blogue foi(é) ilha e foi mar, mas também lugar da beira serra. Lugar de abrigo e de deriva. Aqui a escrita aprendeu a ficar, a esperar, a ouvir o que o ruído costuma abafar. Cada texto foi um gesto simples: lançar palavras como quem lança pequenas pedras num lago, só para ver os círculos concêntricos a formarem-se.

Esta publicação não encerra nada. É apenas um instante de quietude, um olhar breve para o passado com os olhos postos no futuro. Continuar a escrever é isso: permanecer atento e inquieto, mesmo quando tudo parece pedir distração.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

do horror e da impunidade

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.



(...) A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram. (...)


em memória de Manuela Medeiros

O falecimento de Manuela Medeiros representa uma perda profunda para todos os que com ela partilharam trabalho, luta e esperança. A Manuela foi presença firme e generosa, a sua ação era ancorada na convicção, mas também na capacidade de ouvir e na atenção que dedicava aos outros e de um grande sentido de justiça.

Para mim, foi uma honra ter conhecido, convivido e trabalhado com Manuela Medeiros nos planos social e político. Os seus contributos no sindicalismo, na ação política e no voluntariado social foram notáveis e deixam marcas que não se apagam.

Até sempre Manuela!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

as palavras não resolvem

imagem retirada da internet
Não é a primeira vez que abordo o assunto. Num outro contexto grafei a minha opinião como se fora uma breve introdução a um assunto distinto, porém foi suficiente para que a minha posição ficasse percebida e motivasse algumas reações de discordância. Hoje volto ao tema com mais vagar, consciente de que se trata de um terreno sensível, onde as boas intenções convivem, muitas vezes, com equívocos difíceis de desconstruir, pois, o tema vai muito para além das palavras com que compomos o discurso. Tenho consciência que, uma vez mais, serei alvo de desacordo o que é salutar, pois, estes textos pretendem isso mesmo: a reflexão e a divergência.

Falo da chamada linguagem inclusiva ou neutra. Um debate que ganhou espaço público, atravessou salas de aula, documentos oficiais, discursos políticos e até conversas banais, dessas que podem começar com um simples: “boa noite”.

imagem retirada da internet


Confesso que, em determinado momento, cheguei a recorrer a algumas dessas fórmulas. Não por convicção profunda, mas por pragmatismo: evitava apartes, olhares reprovadores, discussões laterais que desviavam a atenção do essencial. Era uma espécie de taxa de portagem discursiva, eu pagava e seguia caminho.


A questão tem a sua génese quando a linguagem, em vez de abrir, complica; em vez de incluir, fragmenta. Dizer “boa noite a todos e a todas” parece, à primeira vista, um gesto de cuidado e de respeito pelos géneros. Contudo, se o argumento for levado até às últimas consequências, ele revela uma armadilha: ao nomear explicitamente o masculino e o feminino, acabam por ficar de fora as pessoas que não se reconhecem em nenhum desses géneros, ou seja, a expressão que pretendia ser inclusiva, exclui. A solução que se vai vulgarizando é, então, acrescentar mais uma camada: “… a todos, a todas e a todes.”, ou optar simplesmente por “boa noite a todes”, como se a palavra, por si só, pudesse resolver uma questão que é social, cultural e profundamente humana.

É aqui que a língua começa a tropeçar em si própria. Do ponto de vista linguístico, a palavra “todos” já cumpre a função de incluir sem discriminar. Não por ser perfeita, mas por ser uma convenção funcional, construída ao longo do tempo, que não pergunta pelas identidades nem exige explicações. “Todos” não exclui, integra. Não classifica, é abrangente. A língua portuguesa, como tantas outras, funciona com géneros gramaticais que não coincidem, necessariamente, com géneros identitários. Confundir uma coisa com a outra é exigir à gramática aquilo que pertence ao campo da ética, da política e do respeito social.

imagem retirada da internet
Há, neste debate, uma tentação recorrente: acreditar que mudar as palavras é suficiente para mudar o mundo. Como se as injustiças se corrigissem por decreto linguístico, como se a exclusão se resolvesse pela introdução de uma vogal alternativa. O risco é evidente: substitui-se a reflexão profunda por um exercício formal, quase como um ritual, que tranquiliza consciências, mas pouco altera a realidade que exclui.

A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade.

Talvez valha a pena regressar ao essencial: falar com respeito, agir com dignidade, reconhecer o outro na sua singularidade, ou seja, sem exigir à língua aquilo que cabe à sociedade transformar. Porque, para todos os efeitos, um cumprimento dito com atenção e verdade inclui sempre mais do que qualquer fórmula cuidadosamente ensaiada. E isso, curiosamente, a língua já sabia antes de nós. Não são as palavras, é a atitude e o respeito pela diferença que verdadeiramente importa.

Ponta Delgada, 2 de fevereiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 4 de fevereiro de 2026

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

da linguagem

imagem retirada da internet

Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.


(...) Há, neste debate, uma tentação recorrente: acreditar que mudar as palavras é suficiente para mudar o mundo. Como se as injustiças se corrigissem por decreto linguístico, como se a exclusão se resolvesse pela introdução de uma vogal alternativa. O risco é evidente: substitui-se a reflexão profunda por um exercício formal, quase como um ritual, que tranquiliza consciências, mas pouco altera a realidade que exclui.

A inclusão não nasce da sílaba, mas do gesto. Não da palavra reinventada, mas da escuta real. Não da imposição de um novo código, mas da capacidade de conviver com a diferença sem a transformar num problema gramatical. A língua é um organismo vivo, sim, mas não é um campo de batalha onde cada frase tenha de provar a sua virtude moral. Quando a linguagem se torna excessivamente auto consciente, perde fluidez, perde clareza e, paradoxalmente, perde humanidade. (...)


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Fadwa Tuqan - a abrir fevereiro

imagem retirada da internet

Fadwa Tuqan (1917–2003) foi uma das vozes maiores da poesia palestiniana e árabe do século XX. Nascida em Nablus, numa sociedade profundamente patriarcal, fez da escrita um gesto de libertação pessoal e coletiva. A sua poesia nasceu do silêncio imposto às mulheres e transforma-o em palavra clara, íntima, muitas vezes dolorosa, onde o eu e o mundo se refletem mutuamente.

Com o passar dos anos, a sua obra evoluiu para uma poesia de resistência, profundamente marcada pela ocupação da Palestina. Sem abandonar a delicadeza do tom, Fadwa Tuqan soube dar forma poética à perda, ao exílio e à persistência de um povo, recusando tanto o grito fácil como a retórica vazia.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resiliência e outras dormências

foto Aníbal C. Pires
Há poucos dias, numa viagem de avião de Lisboa para Ponta Delgada, depois de ter feito uma sesta, peguei na revista de bordo da Azores Airlines e fui lendo alguns dos artigos. Notei então que um dos vocábulos que os entrevistados mais utilizavam era resiliência. Palavra que entrou, de rompante, no vocabulário erudito e popular e com a qual eu mantenho uma relação difícil, talvez por não saber muito bem o que significa, ou talvez por suspeitar que, significando tudo, não significa porra nenhuma.

A palavra resiliência foi-se instalando como se de uma virtude universal se tratasse. Aplica-se às pessoas, às empresas, às ilhas, às comunidades, às economias e até ao clima. É uma palavra elástica, maleável, sempre pronta a servir. Dobra-se ao discurso de quem fala e regressa intacta, como se nada a afetasse. Talvez seja esse o seu maior mérito lexical, mas que de humano nada tem e, eu não gosto da desumanidade das palavras que adjetivam humanos.

Originalmente, diz-se, da física dos materiais e da propriedade de um corpo resistir ao choque e recuperar a forma original. O problema começa quando se exige o mesmo às pessoas. Espera-se que sofram o impacto, absorvam o dano, e regressem à forma anterior, como se o choque não tivesse deixado marcas, fissuras, cansaço. Como se viver não fosse, justamente, o contrário disso, ou seja, não regressar nunca ao ponto de partida.

No uso corrente, resiliência tornou-se uma palavra de conforto para quem observa e de exigência para quem suporta, para mim já não há paciência para tanta resiliência. Diz-se a alguém que seja resiliente quando, na verdade, se lhe pede que aguente mais um pouco, que se adapte à adversidade sem fazer muito ruído, que aceite como inevitável aquilo que talvez não o seja. É uma palavra que desloca a responsabilidade: do contexto para o indivíduo, do sistema para a pessoa, da injustiça para o carácter.

foto Madalena Pires
E talvez seja por isso que o vocábulo me incomoda. Porque quase nunca vem acompanhada das perguntas essenciais: resiliente para quê? resiliente até quando? resiliente a favor de quem? Não questiona as causas, apenas celebra a capacidade de sobrevivência. E sobreviver, convenhamos, pode ser pouco quando se confunde com resignação.

Prefiro outras palavras, menos vistosas e menos úteis ao discurso motivacional. Prefiro resistência, que implica atrito e oposição. Prefiro dignidade, que não se mede pela capacidade de aguentar, mas pela recusa em aceitar tudo. Prefiro até fragilidade, quando assumida, porque ela não finge força nem promete milagres.

Talvez a vida não nos peça resiliência, mas lucidez. Não a capacidade de voltar à forma original, mas a coragem de mudar de forma, quando necessário. E isso não cabe numa palavra fácil, repetida até à exaustão numa revista de bordo, entre destinos paradisíacos e entrevistas sensaboronas. Cabe, isso sim, no desconforto de pensar, mesmo a 37 mil pés de altitude.

Esta minha aversão à palavra não é de ordem semântica, é uma recusa ética e, diria mesmo, até política. Que se foda tanta resiliência.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 28 de janeiro de 2026


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

a personalização

imagem retirada da internet
Não sendo de agora, mas é no tempo presente que a perceção da História contemporânea se reduz até caber apenas num rosto. Um rosto para odiar, outro para reverenciar. Um nome próprio basta para explicar guerras, crises económicas, colapsos democráticos ou atentados que abalam consciências. Ao reduzir processos complexos a um protagonista simplificam-se os acontecimentos, acelera-se o consumo mediático e presenteia-se a opinião pública com uma figura clara para amar ou odiar. Tudo isto pode ser confortável, mas é profundamente ardiloso e, sobretudo, induz a perceção de uma falsa realidade.

A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora.

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Desde então, habituámo-nos a esperar. Esperamos pelo líder forte, pelo salvador improvável, pelo homem providencial que, sozinho, resolverá o que milhões não conseguiram sequer discutir. A comunidade observa, sentada, agradecida, convencida de que o seu papel é aplaudir no final, se houver um final feliz o que, como a História nos mostra, não é bem assim.

Não vai a tribunal, não concede entrevistas, não pede desculpa. Permanece, intacto, enquanto trocamos protagonistas como quem inicia mais uma temporada de uma série televisiva. Em tudo isto há uma cruel ironia, melhor dizendo, quanto mais se exalta o indivíduo excecional, mais se educa a impotência coletiva. Quanto mais se celebra o herói, mais se normaliza a ideia de que nada depende de nós. A ação coletiva parece sempre insuficiente, lenta, enfadonha e incapaz de competir com o brilho do salvador solitário.

E, assim, a política foi-se transformando em entretenimento, a cidadania em plateia, e a democracia num género narrativo instável, sujeito a audiências. Já não se pergunta: como vamos mudar o mundo, mas quem será o próximo a tentar fazê-lo por nós!? Os super-heróis ensinaram-nos muitas coisas. Treinaram-nos, sobretudo, a olhar para cima, enquanto nos mantemos inertes abdicando de exercer os direitos e deveres de cidadania, e deixando de participar na vida coletiva das nossas comunidades.

Donald Trump tornou-se, para muitos, a explicação total da degradação democrática dos Estados Unidos. Como se antes dele não existisse um complexo militar-industrial, uma financeirização extrema da política, as grandes corporações, um sistema eleitoral disfuncional ou uma longa tradição de ingerência externa. O resultado está à vista de todos: critica-se o personagem e preserva-se o que realmente está na origem da deterioração da democracia. Isto é válido para os Estados Unidos, como para outros países. 

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Por outro lado, Maduro cumpre uma função semelhante. A crise venezuelana é frequentemente apresentada como produto exclusivo de um homem, apagando décadas de dependência estrutural do petróleo, bloqueios económicos, sanções internacionais e disputas geopolíticas que excedem largamente qualquer figura individual. O líder transforma-se no bode expiatório conveniente: concentra a culpa e absolve o contexto.

Hannah Arendt lembrava que o mal, muitas vezes, não nasce de monstros, mas da normalização de estruturas que funcionam sem pensamento crítico. A personalização, ao contrário do que parece, não combate essa banalidade, reforça-a. Porque desloca o olhar do sistema para o indivíduo, do processo para o gesto isolado.

O mesmo mecanismo reaparece nos grandes crimes políticos. O assassino de Kennedy, ou o autor do atentado de Oklahoma, são apenas dois exemplos do “lobo solitário” de cada época. A figura do indivíduo perturbado encerra rapidamente a narrativa, transforma o trauma político em caso policial e impede perguntas mais incómodas. Não se investiga o clima, as redes, as cumplicidades, os discursos que prepararam o terreno. O crime é tratado como um desvio, nunca como sintoma do sistema. Não se trata de negar a responsabilidade pessoal. Trata-se de reconhecer a sua insuficiência. A responsabilização individual, quando isolada, funciona como técnica de contenção: oferece indignação, punição e catarse moral, mas deixa intactas as engrenagens que tornam os acontecimentos repetíveis. Muitos outros exemplos poderiam ser referenciados, mas fiquemo-nos por aqui.

Como escreveu Michel Foucault, o poder raramente se concentra num ponto; circula, infiltra-se, reproduz-se. Dar-lhe um rosto é uma forma eficaz de o tornar invisível. Direi eu, que é a forma mais eficaz, perante uma opinião pública cada vez mais atomizada e acrítica, de conferir invisibilidade aos mandantes. Enquanto insistirmos em procurar protagonistas, continuaremos a mudar os nomes próprios e a manter os mecanismos. E o sistema, esse, seguirá tranquilo, sem rosto e sem culpa.  Apontamos o dedo ao indivíduo e o sistema continua a escrever a História com mãos invisíveis.

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Uma leitura marxista ajuda a compreender por que razão esta personalização é, não apenas recorrente, mas funcional. O capitalismo, enquanto modo de produção, precisa de ocultar as relações sociais que o sustentam. Precisa de esconder a exploração atrás da troca, a dominação atrás do contrato, o poder atrás da aparência de escolha individual. A figura do protagonista, herói ou vilão, cumpre aqui um papel central: desloca a análise da estrutura para o sujeito, da classe para o indivíduo, das relações de produção para o comportamento pessoal.

Marx lembrava que os homens fazem a sua própria História, mas não o fazem em circunstâncias escolhidas por si. A narrativa dominante inverte esta formulação: apresenta as circunstâncias como neutras, inevitáveis, naturais, e, os indivíduos como causa última de tudo o que acontece. Assim, o sistema económico deixa de ser histórico e passa a ser paisagem; deixa de ser questionável e passa a ser um dado adquirido. Criticam-se líderes, governantes ou executores, mas raramente se questiona a lógica que os produz, os seleciona e, quando necessário, os descarta. Nesta perspetiva, a personalização é uma poderosa ferramenta ideológica. Ela fragmenta a consciência social, impede a leitura de classe, dissolve a noção de interesse coletivo. Cada crise aparece como exceção, cada abuso como desvio, cada tragédia como erro humano e nunca como uma consequência previsível de um sistema organizado em torno da acumulação, da desigualdade e da mercantilização da vida. O capital permanece anónimo, difuso, irresponsável. Não tem rosto porque não deve tê-lo.

Talvez por isso a crítica verdadeiramente incómoda continue a ser aquela que insiste em desviar o olhar do indivíduo para as estruturas, do gesto isolado para a engrenagem que o torna possível. Enquanto apontarmos o dedo a protagonistas, continuaremos a errar o alvo. A História contemporânea não é escrita por heróis solitários, mas por sistemas concretos, interesses materiais e correlações de força que raramente se deixam ver, não sobem ao palco, não pedem aplauso nem absolvição. Limitam-se a continuar, silenciosos, a escrever a História, com mãos invisíveis e contando com a nossa alienação. Mas não é inevitável que assim seja, a História também é escrita pelos povos.

Ponta Delgada, 20 de janeiro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 21 de janeiro de 2026

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

super herói ou vilão

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Excerto de texto para publicação no Diário Insular e, como é habitual, também aqui no blogue momentos.








(...) A personalização dos acontecimentos é uma tendência para concentrar responsabilidades em indivíduos e tornou-se numa das grandes estratégias contemporâneas de ocultação política. Ao reduzir processos complexos a protagonistas isolados, o discurso público ganha rapidez narrativa, mas perde inteligência histórica.

Os super-heróis ensinaram-nos cedo essa pedagogia da exceção: o mundo só se salva graças a indivíduos extraordinários, dotados de capacidades fora do comum, enquanto a comunidade permanece passiva, expectante, agradecida. Como refere Guy Debord, o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. O super-herói reduz o mundo a um duelo simples, quase infantil, entre o bem e o mal. Dispensa contexto, apaga causas, acelera o juízo. Tudo cabe num rosto, tudo se resolve num gesto. Enquanto isso, o sistema respira de alívio. Invisível, sem nome próprio, sem culpa atribuível. O super-herói é uma dessas mediações eficazes, simplifica o conflito e anestesia a ação coletiva. Mas nem esta lógica ficou confinada à ficção, nem a sua criação e divulgação é inócua. O super-herói saiu do papel, atravessou o ecrã e instalou-se na política como se sempre lá tivesse estado. Mudou apenas o modelo: trocou a capa pelo fato escuro, o discurso inflamado pelo slogan fácil, o raio laser pela promessa redentora. (...)


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A UE em crise

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Sérgio Ávila publicou recentemente um texto com o título “A Ilusão que serve outros interesses”, onde aborda algumas das razões que estão na origem da crise, ou instabilidade, como lhe chama, da União Europeia (UE) e a sua relação com o crescimento dos populismos de extrema-direita.

A leitura mereceu-me atenção e reflexão, mas também a necessidade de acrescentar algumas notas. Mesmo reconhecendo a pertinência do tema e a oportunidade do momento, considero que reduzir a atual situação política da UE a fatores predominantemente externos, ilibando as instâncias europeias das suas próprias responsabilidades, é, no mínimo, uma abordagem redutora.

Assim:

A crise da União Europeia tem hoje uma explicação simples, confortável e politicamente eficaz: chama-se Rússia de Putin ou administração Trump, conforme as conjunturas e os calendários eleitorais. A vantagem dessa leitura é evidente: identifica-se um culpado externo e fica resolvido o incómodo exercício da autocrítica.

Não tenho grandes dúvidas de que Moscovo e Washington, e não serão os únicos, interferem, pressionam e condicionam. O curioso é que a UE parece sempre surpreendida com essa evidência, como se a dependência estratégica fosse um acidente recente e não uma opção reiterada. Trump, ao contrário dos seus predecessores, teve apenas a petulância de dizer em voz alta o que a diplomacia costuma sussurrar nos corredores do poder. Quanto à Rússia de Putin, a sobriedade e a diplomacia assumem outros contornos. Nem melhores nem piores, apenas diferentes.

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Os indefetíveis europeístas vão-se esquecendo de alguns detalhes: uma política externa delegada, uma soberania partilhada que raramente é exercida, uma arquitetura institucional onde ninguém manda e ninguém responde e, sobretudo, órgãos sem legitimidade democrática direta, como a Comissão Europeia ou o Presidente do Conselho Europeu. A política de austeridade que devastou sociedades inteiras não foi decretada no Kremlin nem na Casa Branca; saiu de gabinetes europeus, com linguagem técnica e consciência tranquila.

O crescimento da extrema-direita populista é frequentemente apresentado como uma anomalia importada ou uma perversão do eleitorado. Na realidade, é o sintoma mais visível da falência do centro político europeu, que abdicou de pensar alternativas, de disputar o sentido do futuro e de representar conflitos reais. Ao transformar a política em mera gestão, o centro criou um vazio, e os vazios, em política, nunca ficam por ocupar.

Trump e Putin voltam, assim, a ser explicações convenientes: desviam a atenção do facto de que o centro europeu, ao convergir em políticas económicas, sociais e externas, deixou de oferecer escolhas reais. Quando não existe diferença substantiva entre governo e oposição, o protesto encontra abrigo onde pode, mesmo que esse abrigo seja o populismo e os nacionalismos.

Entretanto, a União Europeia continua a apontar o dedo para fora, enquanto assina comunicados sobre valores, reforça fronteiras, militariza discursos e chama “inevitável” ao que foi decidido. Não foi invadida: submeteu-se. Não foi derrotada: renunciou. E talvez o sinal mais claro da sua crise seja este: já não precisa de inimigos, governa-se sozinha contra os interesses dos povos que deveria representar e, por este caminho, segue pelo caminho da autodestruição.


Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 13 de janeiro de 2026