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| foto by Madalena Pires |
É tempo de retrospetivas e de previsões, não confundir com predições ou profecias. Não sou dado a uma nem a outras e, assim pretendo continuar. O balanço pessoal, por ser do meu foro íntimo, não é publicamente partilhável, a avaliação social, política, cultural, ambiental e económica do que se passou na Região, no País e no Mundo deixo-a para analistas bem mais habilitados do que eu, quanto às previsões do futuro próximo (2023) opto, também, por me abster de partilhar o que, em minha opinião, se configura no horizonte. Tenho opinião sobre o que se passou e o que se prevê venha a acontecer, mas, de momento, prefiro guardá-la para mim.
É tempo de renovar votos de esperança em futuros prósperos, de paz e amor, mas já nem isso faço. Passados que são algumas décadas da minha existência considero que não vale a pena insistir. Não tem dado resultado, nem se vislumbra que venha a acontecer alguma mudança significativa que resulte de belas palavras ditas e escritas na quadra natalícia e na passagem do ano e, por conseguinte, desisti de as enunciar e, sobretudo de as tornar públicas através de publicações nos hodiernos suportes a que chamam redes sociais ou, mesmo aqui, nas clássicas colunas de opinião da imprensa.
Se isto significa que me demiti da minha intervenção cívica!? Não. Se o que ficou dito expressa a ideia de desistência, ou qualquer abalo nas convicções que sempre guiaram a minha vida pública e pessoal!? Também não. O que terá mudado foi a minha atitude perante a hipocrisia reinante e, porventura, uma crescente intolerância face a agendas políticas apresentadas como vanguardas do mundo ocidental que remetem para segundo plano a essência do que verdadeiramente urge resolver.
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| foto by Jorge Blayer Góis |
Se isto significa que até aqui assumi um papel moderado, ou se preferirem tenho sido, como se instituiu dizer, politicamente correto. Talvez, mas é um pouco mais complexo e, embora não seja meu propósito deixar aqui uma enumeração de motivos sempre acrescento que, embora goste de navegar à bolina e de remar contra a corrente, por vezes tenho navegado com ventos de feição e ao sabor da maré. Também não é um ato de contrição ou de “mea culpa”, é tão-somente a constatação de que em determinadas fases da minha vida joguei com as regras de um jogo intrinsecamente viciado aparentando acreditar em virtualidades que não tem. O meu pecado não foi agir segundo os cânones, se algo de errado houve foi ter representado um papel com o qual, de todo, não me identificava, nem identifico. Como não me trouxe qualquer espécie de benefícios pessoais poderei afirmar, com segurança, que não me prostituí. A coluna vertebral apesar das mazelas da idade, mantém a sua habitual verticalidade.
Os últimos parágrafos podem até parecer, mas não são uma confissão, pois quem comigo priva sabe que este é, desde sempre, o meu pensamento e, por consequência, esta declaração de princípio (ou fim) só é novidade para quem conhece apenas alguns dos aspetos mais relevantes da minha vida pública. Quando muito o que ficou dito nos últimos parágrafos poderá ser entendido, isso sim, como um aviso prévio, para a eventual radicalização do discurso público nos suportes a que tenho acesso. Apenas isso e nada mais do que isso. Como sempre as conclusões, se é que as há, deixo-as para os leitores da “Sala de Espera” que esta semana por aqui passarem.
O meu regresso às colunas do Diário Insular está a completar um ano. Não vou, à semelhança de outras situações, fazer nenhum balanço, direi simplesmente que: o regresso e a presença quinzenal neste espaço têm sido muito prazerosos e enriquecedores.
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| foto by João Pires |
A pertinência, a utilidade e diversidade dos temas foram, por mim, tomadas em consideração sempre com o propósito de não enfadar os leitores que passam pela “Sala de Espera”. Dei a minha opinião, mas como ficou registado no texto em que regressei (edição de 12 de janeiro de 2022), mais do que a minha opinião procurei: “(…) trazer aos leitores do DI opinião aberta sobre temas sem fronteiras, nem verdades absolutas. (…)”. A intenção não era nova. Sempre procurei deixar espaço para os leitores, ou seja, não tenho uma estratégia colonizadora do pensamento alheio, gosto da diversidade do pensamento crítico, mas sou intolerante à opinião papagueada ancorada nos bordões do mainstream.
É bem possível que nem sempre o tenha conseguido, mas este foi o intento e continuará a ser. Confio que os textos que por aqui vão lendo, mais do que serem do vosso agrado, vos despertem para a reflexão e para o contraditório, ainda que os ecos dessa leitura nem sempre cheguem ao autor, daí não vem mal ao mundo, mas estou recetivo a ouvir/ler as vossas opiniões. Por outro lado, agradeço a confiança da direção editorial do Diário Insular que me continua a acolher no seu painel de colunistas, o que muito me honra.
Ponta Delgada, 27 de dezembro de 2022
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 28 de dezembro de 2022