Não afirmo que o atual PS seja necessariamente pior do que os anteriores. Seria demasiado fácil transformar uma análise política numa disputa entre dirigentes e gerações partidárias. O problema é outro: a sua intervenção política não parece encontrar eco significativo na sociedade açoriana. E isso é particularmente curioso quando tem pela frente um Governo sem projeto político claro e ferido pelas divergências que resultam da solução tripartida.
Mas não quero, nem vou, reduzir esta reflexão ao atual Governo e ao PS. Fazê-lo seria alimentar a ideia de que a política açoriana se resume a uma disputa bipolar pelo poder. E a democracia não se enriquece quando se limita a escolher entre dois protagonistas.
Quando olhamos para as bancadas do Parlamento Regional, percebemos que falta a força política capaz de apresentar um projeto consistente e sustentável para o futuro dos Açores e dos açorianos. Um projeto que aposte no aumento da produção regional e na dinamização do mercado interno, reduzindo a crónica dependência externa; que defenda o aumento dos rendimentos do trabalho e não faça do assistencialismo a resposta para problemas estruturais.
![]() |
| imagem retirada da internet |
Entretanto, o eleitorado açoriano, como acontece noutras geografias, oscila entre a abstenção, a concentração do voto nos partidos do centro e a atração por discursos populistas alimentados pelo senso comum produzido para as redes sociais.
Para 2028, ao que parece, não haverá nova coligação tripartida. Existem diferenças políticas, ambições partidárias e eleitorados distintos. E existe, sobretudo, uma coisa que nenhuma aritmética parlamentar consegue eliminar: o desgaste do exercício do poder.
Da aritmética parlamentar pode nascer um Governo. Pode mantê-lo vivo durante uma legislatura e permitir a aprovação de orçamentos. Mas não consegue fabricar uma relação de confiança com a sociedade.
A autonomia não pode reduzir-se à distribuição de lugares, à geometria dos acordos ou à sobrevivência de maiorias construídas à medida de cada votação.
![]() |
| Aníbal C. Pires por Madalena Ferreira Pires |
Continuo a olhar para a Região com a inquietação de quem sabe que a autonomia foi uma conquista do 25 de Abril e não apenas uma construção institucional. E é precisamente por isso que me inquieta ver a política regional reduzida, demasiadas vezes, à contabilidade dos deputados, à geometria dos acordos e à aritmética das sobrevivências.
Ponta Delgada, 14 de setembro de 2026



Sem comentários:
Enviar um comentário