sexta-feira, 18 de setembro de 2026

aritmética parlamentar

Se o atual Governo Regional é, como já escrevi nesta coluna, o pior dos governos da história autonómica, seria confortável concluir que a alternativa está aí ao virar da esquina. Mas não está. E este é, talvez, um dos paradoxos mais interessantes e preocupantes da atual situação política regional: temos um Governo que decide à vista e uma oposição que não consegue afirmar-se como alternativa.

Não afirmo que o atual PS seja necessariamente pior do que os anteriores. Seria demasiado fácil transformar uma análise política numa disputa entre dirigentes e gerações partidárias. O problema é outro: a sua intervenção política não parece encontrar eco significativo na sociedade açoriana. E isso é particularmente curioso quando tem pela frente um Governo sem projeto político claro e ferido pelas divergências que resultam da solução tripartida.

Mas não quero, nem vou, reduzir esta reflexão ao atual Governo e ao PS. Fazê-lo seria alimentar a ideia de que a política açoriana se resume a uma disputa bipolar pelo poder. E a democracia não se enriquece quando se limita a escolher entre dois protagonistas.

Quando olhamos para as bancadas do Parlamento Regional, percebemos que falta a força política capaz de apresentar um projeto consistente e sustentável para o futuro dos Açores e dos açorianos. Um projeto que aposte no aumento da produção regional e na dinamização do mercado interno, reduzindo a crónica dependência externa; que defenda o aumento dos rendimentos do trabalho e não faça do assistencialismo a resposta para problemas estruturais.

imagem retirada da internet

Veja-se a proposta de Francisco César sobre a habitação para estudantes deslocados. Propõe um complemento financeiro para aliviar uma dificuldade imediata, mas não resolve o problema da falta de habitação. A oferta pública de habitação continua ausente do discurso daqueles que, em nome de um liberalismo mais ou menos assumido, parecem considerar o mercado uma espécie de território interdito à intervenção pública.

Entretanto, o eleitorado açoriano, como acontece noutras geografias, oscila entre a abstenção, a concentração do voto nos partidos do centro e a atração por discursos populistas alimentados pelo senso comum produzido para as redes sociais.

Para 2028, ao que parece, não haverá nova coligação tripartida. Existem diferenças políticas, ambições partidárias e eleitorados distintos. E existe, sobretudo, uma coisa que nenhuma aritmética parlamentar consegue eliminar: o desgaste do exercício do poder.

Da aritmética parlamentar pode nascer um Governo. Pode mantê-lo vivo durante uma legislatura e permitir a aprovação de orçamentos. Mas não consegue fabricar uma relação de confiança com a sociedade.

A autonomia não pode reduzir-se à distribuição de lugares, à geometria dos acordos ou à sobrevivência de maiorias construídas à medida de cada votação.

Aníbal C. Pires por Madalena Ferreira Pires
Tenho evitado, nos últimos tempos, escrever sobre política regional. Não acompanho de perto, como acompanhei noutros tempos, a ação governativa, a atividade partidária ou o debate parlamentar. Digamos que o meu tempo passou. Talvez não seja mau reconhecê-lo. Mas não passou o tempo da minha preocupação com os Açores.

Continuo a olhar para a Região com a inquietação de quem sabe que a autonomia foi uma conquista do 25 de Abril e não apenas uma construção institucional. E é precisamente por isso que me inquieta ver a política regional reduzida, demasiadas vezes, à contabilidade dos deputados, à geometria dos acordos e à aritmética das sobrevivências.

Ponta Delgada, 14 de setembro de 2026 

Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 16 de setembro de 2026

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