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Foto by Aníbal C. Pires (2005) |
As marcas do tempo estão presentes em cada rosto, em cada lugar e na normalização asséptica das sensações.
Às aldeias falta o riso das crianças, as antigas escolas primárias transformaram-se em centros de convívio para idosos, os antigos hospitais das misericórdias em lares para a terceira idade e os jovens adultos retomaram os caminhos da emigração.
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foto by Madalena Pires |
Para as mulheres e homens em idade activa não há lugar no espaço rural do interior continental que se transforma inexoravelmente num gigantesco lar de idosos.
Nos anos sessenta e meados de setenta, para além dos idosos ficaram as crianças e as mulheres, os homens estavam na guerra colonial ou emigrados. Hoje os tempos são outros e os homens já não partem sozinhos, nem as mulheres se quedam por serem mulheres. Os idosos ficam, como sempre, desta vez sem crianças nem mulheres, apenas a solidão os acompanha no último pedaço de tempo que lhes falta ainda cumprir.
Quando nos deslocamos do litoral para o interior cedo nos apercebemos que o país regista um desenvolvimento profundamente assimétrico ao qual está a ser retirada parte da sua identidade com a gradual descaracterização e desertificação do seu espaço rural.
Apesar do abandono que as opções políticas lhe destinaram, no espaço rural subsistem estoicamente projectos de vária índole que teimam em preservar, qual reserva histórica, um país que não quer perder a sua singularidade sem abdicar dos benefícios do nosso tempo.
Esta é uma marca de todos os tempos e que o tempo, por mais penoso e agreste que seja, não apaga e… ao tempo, será tempo do riso das crianças voltar como voltam as andorinhas todas as Primaveras.
Aníbal C. Pires, In Diário Insular, 23 de Dezembro de 2009, Angra do Heroísmo
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