sábado, 26 de maio de 2018

A era do baixo custo - crónicas radiofónicas

Foto by Aníbal C. Pires





Do arquivo das crónicas radiofónicas na 105FM

Hoje fica o texto da crónica emitida a 03 de Março de 2018 que pode ser ouvida aqui










A era do baixo custo

O consumo procura o baixo custo a qualquer preço. Só parece um paradoxo, mas não é.
São refeições de baixo custo, o pronto a vestir de baixo custo, as viagens de baixo custo, e agora até a privatização parcial de empresas de transporte aéreo por baixo custo.
Um A 320, a preços de 2016, tem um custo que ronda os 98 milhões de dólares, o A 321 Neo custa mais de 120 milhões de dólares. É certo que a aquisição destas aeronaves só está ao alcance de algumas empresas de transporte aéreo e sua utilização é, normalmente, conseguida através de leasing operacional. De qualquer forma estamos a falar de valores, mesmo para uma empresa de pequena dimensão, de muitas centenas de milhões de dólares. Mas as empresas não são só as aeronaves, são muito mais que isso e o seu valor é muito superior ao custo dos equipamentos de voo ou do seu aluguer operacional.
O Governo Regional, enquanto representante do acionista, ou seja, do povo açoriano, decidiu alienar 49% do capital social da SATA Internacional/Azores Airlines.
Desde logo importaria perceber da legitimidade democrática desta iniciativa do Governo Regional, uma vez que ela não foi sufragada pelo acionista. Não consta do programa eleitoral que foi apresentado ao povo açoriano em 2016 e, por conseguinte, o representante do acionista está a agir sem, de uma forma clara, ter um mandato democrático para o fazer.
Conhecido a forma, não se vai realizar através de concurso público, mas sim através de uma negociação particular. Conhecidos os termos do caderno de encargos, para além da surpresa. Admito que sim, fiquei surpreendido, levantam-se as dúvidas, muitas dúvidas.
Surpreendente é o valor mínimo base para aquisição dos tais 49% da SATA Internacional/Azores Airlines. 3 milhões, seiscentos e setenta e cinco mil euros. Os 10 milhões exigidos para a recapitalização é para serem devolvidos passados 5 anos. Surpreendente é que se venda parte de uma empresa pública, como a SATA, por tuta e meia. Esta operação resultará num encaixe imediato de capital que pode muito bem não ultrapassar os 14 milhões de euros.
Ora bem, conhecendo-se as dificuldades de liquidez da empresa não é difícil concluir que este valor é irrisório para as necessidades, de onde podemos inferir que a opção de alienação do capital social da empresa é uma opção política de privatizar, apenas, porque sim e a preço de saldo, ou como quem diz a baixo custo.
Se há necessidade de intervir na SATA Internacional/Azores Airlines, sem dúvida, desde logo ao nível organizacional, mas sobretudo na definição rigorosa de uma estratégia comercial que, não esquecendo as obrigações com a Região, se afirme no transporte aéreo e, tal como aconteceu até 2012 possa apresentar resultados positivos. Se essa intervenção passa necessariamente pela sua privatização parcial, Não.
Mas voltando ao processo e às dúvidas.
Dúvidas são muitas e prendem-se desde logo com trabalhadores da empresa sobre os quais pouco ou nada se diz.
Vai ser cumprida a obrigatoriedade da sua audição, vai haver despedimentos, a base de Lisboa vai manter-se. Quais os efeitos que esta privatização vai ter no Grupo SATA.
As recentes saídas da responsável financeira e da diretora de comunicação do Grupo SATA não são já fruto deste processo ou, como foi divulgado as demissões resultam de razões de ordem pessoal que tudo justificam.
Não tenho respostas, mas o tempo se encarregará de as trazer.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 03 de Março de 2018

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